quarta-feira, 25 de novembro de 2015

O meu 25 de Novembro de 1975


O que aqui escrevo hoje, escrevo de memória e ao correr da pena, não é  um ensaio histórico, é apenas a minha visão, pelo que pode conter algumas ligeiras incorrecções temporais.

Para falar do “meu” 25 de Novembro é necessário recuar um pouco no tempo.

Todo o período entre o 25 de Abril e o 25 de Novembro apanhou-me numa idade muito especial, entre os 18 e o 19 anos, uma idade que, em qualquer época e geração, é uma idade de descobertas e de utopia, situação que potenciou muito a esperança e a utopia desse período, que foi marcante para o destino da minha geração.

Para essa geração não havia ainda uma componente ideológica muito assumida, não havia uma grande consciência política ou das consequências económicas e sociais provocadas por um período de grande euforia e criatividade, avesso a qualquer lógica de poder e onde dominava o voluntarismo em todas as atitudes.

Também não trazíamos connosco as velhas rivalidades históricas no seio da oposição ao Estado Novo, entre republicanos e comunistas, comunistas e maoistas, e entre todos estes e os socialistas, sem esquecer os trotskistas, os anarquistas, os guevaristas .Estas só começaram a vir ao de cima ao longo do desenrolar do processo revolucionário.

Também não tínhamos uma  grande consciência sobre os impactos da Guerra Fria, cujos representantes se movimentavam na sombra e já eram marcantes nas decisões dos grandes partidos surgidos da revolução (PSD e CDS)  ou saídos da clandestinidade(MDP, PCP, PS).

Para a minha geração, educada no autoritarismo do Estado Novo, cujo destino cada vez mais próximo era ir combater nas colónias ou, entre os mais esclarecidos, exilar-se na Europa para fugir à tropa, o 25 de Abril surgiu como libertação desses medos e sempre associado à total liberdade, em oposição ao clima opressivo, no quotidiano, nas relações sociais e na cultura, que se vivia com o salazarismo.

Ao longo desse período a minha vida cruzou-se em várias realidades, uma como estudante do liceu e membro activo da sua associação de estudantes, outra como membro activo do Cine-clube local, actividade que vinha de antes do 25 de Abril, desde 1973 e outra como um jovem que despertava para a realidade política, esta também iniciada nos finais de 1973 participando activamente e na clandestinidade na organização local do MDP-CDE, colaborando com o PCP, mas não militando nesse partido.

Considerava-me então social-democrata e nutria alguma admiração por Mário Soares, pelo que aderi ao PS logo a seguir ao 25 de Abril, em Junho de 1974.

Se os primeiros meses foram de grande euforia e de grande voluntarismo, o tal “dia inicial inteiro e limpo” tão bem descrito por Sophia De Mello Breyner Anderson, a partir dos princípios de 1975, mas principalmente a partir do 11 de Março, a ingenuidade política começou a perder-se e as clivagens e conflitos começaram a avolumar-se, tendo como pano de fundo a radicalização do confronto político pelo poder entre os grandes partidos políticos e no seio dos próprios militares .

Nos finais de 1974 comecei a entrar em ruptura com o PS e, em Janeiro de 1975, acompanhei a saída de Manuel Serra, que, no primeiro congresso do Partido Socialista na legalidade, realizado em Dezembro de 74, havia perdido a sua candidatura à liderança do partido para Mário Soares.

Aderi então a um dos poucos partidos da esquerda radical que não era stalinistas, e trazia em si uma imagem romântica, a LUAR de Palma Inácio, que muitos consideravam que era uma espécie de “braço armado” do PS.

Devo dizer que só vi uma arma por uma ocasião, numa noite do verão de 75, onde se anunciava um golpe de estado iminente e nos “preparámos” para nos defendermos, passando uma noite em claro na “Galeria 70” com uma pistola, que nunca soube se estava carregada ou não, que eu mexia a medo, receando que disparasse por si, e que ficou á minha guarda até que, no principio da madrugada, um responsável da organização, conhecido por Fernando Belga, e que se deslocava num Porche de matrícula belga, a veio recolher, já que o tal golpe de Estado da direita não tinha tido lugar.

A situação política começou a azedar-se ao longo do ano de 1975, a sociedade dividiu-se em quatro grande tendências, a tendência terrorista de direita, do MDLP e do ELP, a tendência “democrática”, legitimada pelas eleições Constituintes de 25 de Abril de 1975, do PS, PSD e CDS, liderada por Mário Soares , com o apoio do embaixador dos Estados Unidos e da “europa” democrática, e à qual se juntou o chamado “Grupo dos Nove”, formalizado em Agosto de 1975 sob a liderança de Melo Antunes, a tendência "comunista", MDP , PCP e CGTP, organizada à volta de Vasco Gonçalves, e a tendência “esquerdista” e “revolucionária”, que juntava vários grupúsculos da esquerda radical, à volta de Otelo Saraiva de Carvalho, sendo nesta tendência que eu e a Luar então gravitávamos. Havia ainda outras tendências menos significativas, mas bastante activas e barulhentas, os maoistas do PCP(m-l) e do MRPP, para além dos anarquistas, um grupo já muito envelhecido e pouco activo, com quem tive alguns contactos, nomeadamente como assinante de "A Voz Anarquista"  e do jornal "A Batalha", tendo conhecido o velho e histórico Emídio Santana, célebre pelo atentado contra Salazar em 1937.

O Verão de 1975 foi vivido sob constantes rumores de golpes e contra-golpes, com manifestações de rua cada vez mais descontroladas e violentas, com a extrema-direita muito activa, desencadeando vários ataques bombistas, assassinatos políticos e destruição de sedes de partidos de esquerda .

Em 8 de Agosto de 1975 tomou posse o V governo provisório, liderado por Vasco Gonçalves, com a oposição frontal do PS e dos partidos à sua direita e no qual, pela primeira vez, não participava nenhum representante do PS ou do PSD. Também não participava nenhum elemento de topo do PCP, embora fosse apoiado por este partido.

Se olharmos para a composição desse governo ficamos perplexos com a s acusações que sobre ele recaiu de “extremismo de esquerda”. Nela participaram figuras como Mário Ruivo, Mário Murteira, ou Pereira de Moura, ou ainda o conhecido economista, recentemente falecido José da Silva Lopes.

Esse governo, o único verdadeiramente “gonçalvista”,  durou pouco mais de um mês, sendo derrubado em 19 de Setembro e substituído por aquele que seria o último governo provisório, liderado por Pinheiro de Azevedo e com a participação activa do PSD e do PS.

Os meses que se seguiram à tomada de posse deste VIº governo foram de grande vertigem política e de grande radicalismo, uma luta cada vez mais acesa entre a “esquerda” , que fugia cada vez mais ao controle do PCP, e a “direita” que se mostrava cada vez mais agressiva .

A contagem de armas entre as três facções militares do MFA, “otelistas”, “gonçalvistas” e “melo-antunistas”, pareciam conduzir o país para a guerra-civil ou para um golpe militar.

Pessoalmente, comecei nessa altura a desiludir-me com  a vida política e a “fechar-me” mais noutro tipo de actividades, mais ligadas à vida cultural. Por outro lado, tinha acabado o liceu e iniciava um período de “travessia no deserto”, que durou até Outubro de 1976, e de espera para entrar na faculdade, pois tinha sido criado um ano de interregno para entrar no ensino superior, o chamado “serviço cívico”, que daria lugar, mais tarde, ao “ano propedêutico” e que “corresponde” ao actual 12º ano.

Pessoalmente sofreria um drama pessoal com o falecimento do meu pai, no dia 9 de Outubro de 1975, o que muito me destabilizou emocionalmente .

Durante algumas semanas, após o falecimento do meu pai, isolei-me voluntariamente de quase tudo, voltando à actividade cultural e política em  meados de Novembro, indo cair numa realidade cada vez mais tenebrosa e perigosa.

O mês de Novembro de 1975 foi fértil em acontecimentos preocupantes.

Entre 11 e 13 de Novembro os trabalhadores da construção civil cercaram a Assembleia Constituinte, exigindo aumento de salários, abandonando o cerco depois do governo ceder às suas reivindicações, mas deixando grandes marcas no clima crispado que então se vivia.

Depois de termos assistido a um governo que mandou fazer rebentar uma bomba no retransmissor da Rádio Renascença, que tinha sido há meses ocupada por trabalhadores conotados com a esquerda radical, esse mesmo governo, liderado por Pinheiro de Azevedo toma uma decisão mundialmente inédita, entra em “greve” suspendendo a sua acção, em protesto contra a oposição que lhe é feita nas ruas, isto no dia 20 de Novembro.

No dia seguinte, Otelo Saraiva de Carvalho é destituído de comandante da Região Militar de Lisboa, substituído por um homem dos “nove”, Vasco Lourenço, o que é visto como uma provocação pelos sectores militares mais à esquerda.

Também, por essa altura, o chefe do Estado maior da Força Aérea, Morais da Silva, decide passar à disponibilidade mil militares pára-quedistas de Tancos, o que provoca grande descontentamento nesta unidade, conhecida por ter sido apoiante de Spínola no golpe de 11 de Março, mas que agora estava virada à esquerda.

Na noite de 24 de Novembro, antecipando-se ao golpe de estado eminente, a CAP, ligada à extrema direita, corta as estradas de acesso a Lisboa na zona de Rio Maior.

Este foi um episódio nunca devidamente esclarecido e comprometedor para a narrativa dos que defendem que o 25 de Novembro resultou de uma conspiração da esquerda.

Este acto é uma das provas que o 25 de Novembro não foi um golpe perpetrado pela “esquerda”, de forma pensada e ponderada, mas que teve origem no objectivo do sector “moderado” do MFA de levar a esquerda  militar a cair na armadilha da provocação.

E foi isso que aconteceu no dia 25 de Novembro, quando os pára-quedistas, descontentes com a decisão de Morais e Silva, resolvem ocupar Tancos e várias bases aéreas.

Reagindo, mais na defensiva do que num qualquer movimento de tomada de poder revolucionários, várias unidades militares conotadas com a esquerda ocuparam posições. O RALIS toma posições em Lisboa, a Escola Prática de Administração Militar ocupa a RTP e a Polícia Militar toma a Emissora Nacional.

Mas não recebem, nem o apoio de Otelo, retido entretanto pelo Presidente Costa Gomes em Belém, nem do PCP, que, embora de prevenção, se recusa a mobilizar os seus militantes para qualquer acção revolucionária ou golpista.

Costa Gomes decreta o Estado de Sítio em toda a região militar de Lisboa.

Entregues a si próprios, os militares que caíram na armadilha são rapidamente dominados, pois o “grupo do 9” tinha tudo preparado para aproveitar qualquer passo em falso da esquerda militar para tomar conta da situação e conseguir afastar de vez qualquer hipótese de tomada do poder por revolucionários.

O acontecimento mais sangrento aconteceu no dia 26, quando os comandos da Amadora, liderados por Jaime Neves, assaltaram o Regimento de Polícia Militar na Ajuda, provocando 3 mortos. A atitude de Jaime Neves, que terá agido por conta própria, contrastou com a de Ramalho Eanes que resistiu aos apelos de sectores da direita para bombardear as unidades de Lisboa.

Neste mesmo dia Melo Antunes trava a tentativa de aproveitamento revanchista da direita, declarando que o PCP era “indispensável à consolidação da Democracia”.

Pessoalmente, embora o ambiente fosse escaldante, de pré guerra civil, e frequentes os rumores de golpes de estado eminentes, fui apanhado de surpresa pelos acontecimentos desse dia que, inicialmente, encarei como mais uma mera manifestação de desagrado de sectores da extrema esquerda militar pela demissão de Otelo.

Ao longo do dia, entretanto, fui-me apercebendo que algo de mais grave se passava e recordo-me que, no início da noite, passando na Avenida 5 de Outubro, já não me lembro de/ou para onde ía, passar frente ao café Vera Cruz, situado frente ao local onde hoje está a Câmara Municipal de Torres Vedras, toda a gente virada para a televisão onde falava Duram Clemente e de repente este dizer que lhe estavam a fazer sinal, que a emissão tinha de ser interrompida e, de repente,  todo o écran ficar escuro e a  RTP passar a exibir um filme, para grande alegria dos que estavam nesse café, muito frequentado por gente da direita, alguns até, dizia-se, ligados ao MDLP.

Nessa noite, e perante a censura à imprensa então imposta, lembro-me que o pessoal da minha área se juntou na sede da UDP, o único partido da esquerda radical que possuía sede em Torres Vedras, situada no inicio da escadaria da rua dos Cavaleiros da Espora Doura, que dava acesso ao Castelo.

Não era militante da UDP, continuava ligado à LUAR,  mas tinha aí amigos que me tinham acompanhado na associação de estudantes no ano lectivo de 1974/75. Esta associação tinha, no inicio de 1975, sido vencedora das eleições contra um lista da UEC (do PCP), e tinha sido formada por uma coligação de gente de vários grupúsculos de esquerda para onde tinham ido muitos antigos militantes dissidentes  da Juventude Socialista, reunindo gente anarquista, do MRPP, da futura UDP, trostskistas, da LUAR, do PRP e outros sem filiação e com o apoio, não declarado, das juventudes do PSD e do CDS, que votaram na nossa lista.

Como a única informação que rompia a censura eram os comunicados da UDP, participei na distribuição, ao longo dessa noite de 25 de Novembro, pelas ruas de Torres Vedras , dos comunicados desse partido, com a sua versão dos acontecimentos.

Lembro-me de um episódio que me surpreendeu.

Fui distribuir esses panfletos no café Avenida, no final da Av. 5 de Outubro, onde hoje está o prédio com o túnel de ligação entre essa avenida e o Largo da Graça, e que era um café frequentado maioritariamente por gente do PCP, julgando que esse partido estava do mesmo lado do resto da esquerda, mas, para grande surpresa minha, fomos recebido com hostilidade, o que me levou a concluir que o PCP nada tinha a haver com o 25 de Novembro. Soube-se mais tarde que o PCP já se tinha comprometido em nada fazer nesse dia.

No dia seguinte, dia 26,  as notícias continuavam escassas e, à noite, junto ao Largo do café Império, onde me costumava encontrar com o pessoal amigo, alguns de nós resolvemos ir a Lisboa para saber o que se passava. Tínhamos de voltar cedo por causa do recolher obrigatório, mas lá partimos, num carro conduzido pela Guilhermina, nossa amiga e  professora no liceu, um Fiat 127, salvo erro de cor avermelhada, eu, o Carlos Ferreira, e o saudoso Jorge Barata.

Devemos ter partidos pouco depois das oito horas da noite. A viagem para Lisboa levava então cerca de hora e meia, não havia auto-estrada. Chegados a Lisboa, pouco depois das nove da noite, fomos a casa de um amigo da Guilhermina, o Carlos Godinho, que vivia na rua Actor Taborda , perto do Saldanha. Aí recolhemos mais informações, não sei se alguns documentos para distribuir em Torres e metemo-nos à estrada, já eram quase onze da noite, um pouco preocupados porque só chegaríamos a Torres depois da meia-noite, já com o recolher obrigatório em vigor.

Quando entrámos em Loures, numa curva pronunciada, junto ao posto da policia de viação, onde hoje há o desvio para a A8, junto ao jardim, o carro começou a derrapar porque havia uma fuga de água que atravessava o asfalto nesse sítio e o Barata, que segui ao lado do condutor, assustado, puxou o travão de mão e o carro começou a entrar em pião só parando contra uma árvore. A Guilhermina desmaiou com traumatismo na cabeça, eu parti a cabeça, os outros ficaram apenas aturdidos.Escusado será dizer que nessa altura ninguém usava cintos de segurança.

Quando chegou a ambulância já estávamos todos fora do carro, a Guilhermina já tinha acordado e fomos levados para o Hospital de Santa Maria. Aqui a Guilhermina, como tinha desmaiado, teve de ficar internada, eu fui cozido na cabeça  com 5 pontos, e deram-me alta juntamente com o Carlos e o Barata.

Só que agora tínhamos um problema. Lisboa já estava sob recolher obrigatório e não havia transportes.  O polícia de plantão no hospital não nos deixou telefonar para casa e só se comprometeu em telefonar para que uma ambulância nos viesse buscar para nos deixar nalgum sitio em Lisboa. Nós só conhecíamos um lugar, a casa do Carlos Godinho, mas também não lhe podíamos telefonar. O Policia lá mandou vir a ambulância.

Estávamos eu, o Carlos e o Barata sentado no lado de fora das urgências do hospital, quando entra uma ambulância em grande velocidade e a apitar muito, tendo eu comentado “vem aí alguém muito mal”. Para grande surpresa nossa sai o condutor da ambulância a perguntar “onde estão os feridos para levar?”. Olhámos uns para os outros e dissemos: “Ah!! Devemos ser nós!!!”. O polícia deve ter-se explicado mal no telefonema que fez, pois os homens da ambulância esperavam alguém em pior estado e ficaram aborrecidos connosco, mas lá nos levaram à casa do Carlos Godinho.

Atravessámos a cidade de Lisboa, entre o Hospital de Stª Maria e a Rua Actor Taborda, atravessando o Campo Grande, o Campo Pequeno e o Saldanha, conseguindo ver,  atrás das janelas da ambulância, a grande quantidade de  tanques,  carros militares e tropas que estavam nas ruas, com  a ambulância sempre a apitar para não serem parados pelo exército.

Ainda antes de nos deixarem na casa do Carlos Godinho, fomos à sede da “Ordem de Malta” aí perto, à qual pertencia a ambulância,  para poder telefonar para casa, já que só se podia fazer um telefonema. Falei com a minha mãe e pedi-lhe  para avisar o pai do Carlos  e a mãe do Barata, mas, como o recolher obrigatório já estava a decorrer  também em Torres Vedras, a minha mãe só pode avisá-los na manhã seguinte. Era esta a situação numa época em que não havia telemóveis.

Lá fomos na ambulância para casa do Carlos Godinho que nos recebeu com surpresa, pois também não o tínhamos podido avisar.

No dia seguinte de manhã, andámos por Lisboa, antes de apanhar o comboio para Torres e lembro-me que avida nas ruas decorria com a normalidade do costume, só com a interrupção frequente dos voos rasantes dos aviões militares, os célebres "Fiat's".

Regressados a Torres, na noite do dia 27, ainda andámos a vender as edições proibidas do jornal “República” , então ocupado por trabalhadores da esquerda radical, rompendo com a censura geral à imprensa.

Neste mesmo dia Ramalho Eanes é nomeado Chefe de Estado-Maior do Exército.

Reconheço que tememos pelo desenlace desse momento. Ver Ramalho Eanes de óculos escuros, fazendo lembrar Pinochet, ao lado de um cowboy camuflado, Jaime Neves, remetia-nos para o pior dos cenários.

Felizmente havia um Melo Antunes e um Costa Gomes que souberam evitar qualquer revanchismo da direita e o próprio Ramalho  Eanes, apesar da sua figura, que na altura nos parecia algo sinistra, era um militar responsável e moderado.

O Estado de Sítio foi levantado a 2 de Dezembro.

A pouco e pouco tudo voltou à normalidade e a democracia prosseguiu o seu caminho de consolidação.

Em 1976 realizaram-se eleições legislativa, eleições municipais e Ramalho Eanes foi eleito Presidente da República.

Há muito que o “dia inicial, inteiro e limpo” se tinha transformado num “dia penoso, esfrangalhado e muito escuro”, à beira do precipício, e o 25 de Novembro foi o resultado óbvio desse final de “festa”.

Hoje, a esta distância, reconheço que o 25 de Novembro foi um momento necessário para a consolidação da democracia e para se evitar que o país tivesse entrado em guerra civil ou se desse um golpe militar sangrento  ao estilo da América Latina.

3 comentários:

Teresa Rodarte disse...

Obrigada pela sua honestidade intelectual! Grande artigo que faz justiça à verdadeira história.

Jose Patricio disse...

Eu vivi com alguma ansiedade o caminho que os acontecimentos estavam a tomar. Ouvi com alegria (primeiro, no rádio que havia lá em casa, em Montargil - tinha interrompido os estudos por uma razão forte de ordem familiar) as notícias que davam conta das movimentações militares.
Senti e sinto o dia 25 de Abril, «O dia inicial, inteiro e limpo».
Gosto muito deste depoimento, que dispensa as minhas apreciações; fala por si.
JL

Luis Nogueira disse...

Obrigado por me fazeres recordar. :-)