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segunda-feira, 25 de novembro de 2024

O RESPIGO DA SEMANA : "O que se está a comemorar não é o 25 de Novembro...", por José Pacheco Pereira

 

"A mistificação histórica e política do 25 de Novembro apouca-o, porque o seu significado real justificava uma comemoração digna nos seus 50 anos, em 2025, mais aquilo que traduz esta capa do Diabo, a ideia de que a liberdade e a democracia nasceram impolutas apenas no 25 de Novembro de 1975. O 25 de Abril não dera aos portugueses a “verdadeira liberdade”.

Era isto que, em 1974 e 1975, diziam, afirmavam e em função disto actuavam os partidários da ditadura que, de 1926 a 1974, oprimia os portugueses. Estas frases têm implícitas várias afirmações. Uma é de que não falo de “saudosistas” da ditadura, porque a palavra é mole. Eram muito mais que “saudosistas”. E digo oprimir porque, durante 48 anos, os portugueses não mandavam no seu país, naquela que foi a mais longa ditadura da Europa no século XX, com excepção da URSS. Não é pouco, é muito, e a capa do Diabo glorifica esse muito, mistificando o que aconteceu no 25 de Novembro de 1975 para atacar o 25 de Abril.

Há quem vá dizer que uma coisa é o Diabo, outra o “espírito” do 25 de Novembro, que seria o que presidiria às comemorações da Assembleia da República. Infelizmente para a nossa democracia não é verdade.

Começo por perguntar por que razão o 25 de Novembro é comemorado aos 49 anos, quando o 25 de Abril foi aos 50. As datas de comemoração normalmente correspondem a números redondos, e não se percebe a pressa de antecipar um ano a comemoração do 25 de Novembro, a não ser para o colocar no mesmo plano do 25 de Abril, ou, pior ainda, considerar que se pode comparar o seu significado histórico. Está-se a um passo de materializar a posição que está por detrás da capa do Diabo. O resto da capa, o “escapar à ditadura comunista”, também não tem qualquer fundamento histórico.

O 25 de Novembro pode e deve ser comemorado, mas é como ele foi, “como ele foi” foi sem dúvida importante no processo que, do 25 de Abril à plena democracia, teve várias etapas. O nascimento da nossa democracia, a partir da conquista da liberdade em 25 de Abril, demorou mais ou menos dez anos. Esses anos foram convulsivos, conflituais, mas o que é que se esperava da queda de uma ditadura, que conduzia uma Guerra Colonial, com censura todos os dias, com uma polícia política sem lei, com prisões e repressão, com altas taxas de analfabetismo, emigração em massa e enorme pobreza? Queriam que essa transição fosse “higiénica”, sem pecado? Muito bem, ajudassem a derrubar a ditadura mais cedo, a acabar com a guerra, pagando as consequências, e para isso

Por que razão o 25 de Novembro é comemorado aos 49 anos?

Muitos dos que se queixam do tumulto do pós-25 de Abril, com efeitos trágicos em particular nas colónias, não mexeram uma palha. O nascimento da democracia teve avanços e recuos e várias etapas que se estendem desde a revolução à derrota do 11 de Março (silêncio), às eleições para a Assembleia Constituinte, à vitória do 25 de Novembro, à vitória da AD, ao fim da tutela militar da democracia e, por fim, à eleição do primeiro Presidente civil.

Nesses avanços e recuos, o 25 de Novembro foi crucial para travar não uma “ditadura comunista” — o PCP continuou no governo e algumas das mais importantes nacionalizações são posteriores a Novembro —, mas sim o risco de um confronto entre fracções militares que se podia transformar numa guerra civil. Aliás, quando se confronta os defensores da versão “diabólica” do 25 de Novembro com as provas da participação comunista num golpe, não passam da “entrevista” de Cunhal a Oriana Fallaci, que qualquer pessoa que conheça o pensamento de Cunhal, com o que se sabe da estratégia do PCP nesses meses e da posição da URSS, sabe que ele não poderia ter dado aquelas respostas. Acresce que, quando confrontada com os desmentidos à sua “entrevista”, Fallaci prometeu divulgar as gravações, o que nunca aconteceu. O PCP tem muitas culpas no cartório no PREC, mas esta não tem.

Na verdade, os derrotados do 25 de Novembro são, a 25, a ala esquerdista ligada ao Copcon, que por razões intrinsecamente militares e corporativas sai à rua, ficando isolada e derrotada. A 26, os derrotados são outros, todos aqueles que queriam ilegalizar o PCP.

A mistificação histórica e política do 25 de Novembro apouca-o, porque o seu significado real justificava uma comemoração digna nos seus 50 anos, em 2025. O problema é que as pessoas a serem homenageadas seriam, com excepção de Jaime Neves — o herói solitário das comemorações “fake” de 2024 —, o Presidente general Costa Gomes, os militares do Grupo dos Nove, que são os mesmos que hoje se recusam a ir a estas comemorações, os seus vivos como Vasco Lourenço ou Sousa e Castro — demasiado “esquerdistas” para os propugnadores das comemorações “diabólicas” —, Ramalho Eanes e, no plano civil, Mário Soares, os seus companheiros da luta da Fonte Luminosa e os homens do PPD, Sá Carneiro e Emídio Guerreiro.

Ou seja, tudo gente que merecia a “verdadeira” homenagem, e não a que tem na sua propositura na Assembleia um destacado membro da resistência armada ao 25 de Abril e os membros da direita radical no CDS e no PSD. Vão todos participar numa mistificação histórica, que é ao mesmo tempo uma menorização do valor do 25 de Novembro. Mas os tempos estão para estas coisas, que a prazo se pagam caro."

José Pacheco Pereira (Historiador).

In Público - Edição Lisboa, 23 Nov 2024

sexta-feira, 15 de março de 2024

O Respigo da Semana :

 

O milhão do contra

Por Miguel Esteves Cardoso

“Com que então o Chega obteve um milhão de votos?

Ficámos assim a saber que há um milhão de portugueses que são do contra.

É deprimente? É. Um milhão é muita gente. Mas é um erro tentar apanhar esses votos. São votos do contra. São votos anti-sistema. Só passarão para o PSD ou para o PS no dia em que o PSD ou o PS se transformem em partidos do contra. Que será nunca.

Para o milhão de portugueses que votou no Chega — e para o próprio Chega – os votos obtidos pelo Chega foram uma desilusão e uma derrota.

Queriam ganhar as eleições. Ou ser o segundo maior partido. Não queriam ter menos de 25 por cento. Queriam ir para o governo. Não queriam ficar de fora.

Não tiveram nem 25 nem 20 por cento: só tiveram 18. Desses 18, muitos são abstencionistas que, insatisfeitos com o mau resultado, voltarão para a abstenção e tão depressa não cairão noutra.

A verdade é que o Chega nunca mais terá uma oportunidade como esta. Ver-se-á aflito para segurar o milhão do contra.

São estas as contas que os partidos com inveja dos votos do Chega têm de fazer. É escusado ir atrás dos eleitores do contra. Eles não estão apenas zangados: são mesmo do contra. E agora estão mais zangados ainda: votaram para ganhar. E perderam.

Contra os 20 por cento do Chega, há os 80 por cento que votaram nos partidos que são contra o Chega. Todos os votos em partidos que não são o Chega são votos contra o Chega. E todos os votos do Chega são votos contra os outros partidos.

Contra esses 20 por cento, há os 60 por cento da AD e do PS: o bipartidarismo vale três vezes mais. A moderação vale três vezes mais. O centro vale três vezes mais.

Imagine-se se a AD e o PS se recusavam a formar governo e calhasse ao Chega tentar formar governo. Que poderia fazer um partido só com um milhão de votos, isolado e odiado pelos outros partidos e pelos outros eleitores?

Quem é que poderia querer aliar-se a um tal governo? Ninguém.

Os partidos do contra só sabem ser do contra. Não servem para mais nada”.

(in Público de 12 de Março de 2024)

quinta-feira, 2 de julho de 2020

O respigo da Semana - "Desesperadamente procurando bodes expiatórios" Por Ana Sá Lopes



Desesperadamente procurando bodes expiatórios

Por Ana Sá Lopes

in Editorial do Público de 1 de Julho de 2020

“Nunca, mas nunca, se tinha visto Fernando Medina tão severo, tão rude, tão ríspido, tão áspero. Foi na TVI24, na segunda-feira à noite, e é uma peça política de inegável importância. Qual foi o alvo relativamente ao qual Fernando Medina foi agreste de maneira nunca antes vista? Foi o Governo, dirigido pelo seu pai político, António Costa, que o escolheu para sucessor na CML.

“Ao pedir a cabeça das “autoridades da saúde” por causa dos números de Lisboa, Medina está a pôr em causa o seu Governo. Ele sabe-o, é inteligente, mas talvez não tão inteligente como o homem de quem herdou a câmara: António Costa, esse, sim, o cúmulo da sagacidade política, se houvesse cúmulo para isso. Ele que, antes desta intervenção de Medina a pedir demissões na saúde, se irritou na reunião do Infarmed da semana passada, pondo em causa a ministra Marta Temido, que, de resto, não desmentiu a cena.

“Está António Costa, com o apoio de Fernando Medina, a querer arranjar bodes expiatórios para o caso dos números de Lisboa – um desastre para aquele que outrora foi um país-modelo no combate à covid? A oposição colaborante de Rui Rio já identificou o problema: é Graça Freitas. Para Rio, não é Marta, é Graça. Parece que se tem agora que arranjar um bode expiatório. Se não é dos testes a mais, se não é da construção civil, se não é dos transportes cheios, é da Marta (ou da Graça).

“As mulheres que aguentaram os piores dias da pandemia que continuem a aguentar (ainda por cima, já se sabe, são genericamente chatas e não percebem um avo de cerimónias comemorativas da conquista da final da Champions, que obviamente não se inclui naquilo que Fernando Medina tão bem criticou sobre sinais errados do desconfinamento). Ah, Marta estava lá – a culpa é dela. Medina também, mas isso não interessa.

“Fernando Medina não é um comentador político qualquer. É presidente da Câmara de Lisboa, presidente da Área Metropolitana de Lisboa, co-responsável pelo que se passa no terreno, incluindo os maus números. Tem poder, a menos que o devolva nos momentos mais infelizes, o que parece ser o caso.

“Não é bonito de se ver. Quando a oposição foi tão saudada pela sua prestação durante a crise epidémica – e, apesar de algum “desconfinamento”, não tem posto o governo em causa –que seja o PS e alguns dos seus principais dirigentes a dar estes tristes espectáculos, mete dó".

sexta-feira, 12 de junho de 2020

O Respigo da Semana : "A Destruição das Estátuas", por Jaime Ceia


(Bansksy)

“A DESTRUIÇÃO DAS ESTÁTUAS

“A chamada “psicologia das massas” não é muitas vezes mais do que a expressão descontrolada de variados instintos individuais que encontram no anonimato do grupo o campo da desresponsabilização individual e, frequentemente, um palco para a falta de coragem camuflada através do vandalismo descontrolado.

"Enroupadas em acções de protesto esses excessos parece ganharem uma legitimidade que, muitas vezes, desacredita a própria acção e acaba por desvendar mais os medos e as frustrações individuais do que a razão dos protestos. Os media e as redes sociais contribuem para enfatizar e ampliar a necessidade de agir em nome seja do que for – única e simplesmente porque surge essa pulsão de correr a integrar-se no no man‘s land em que se torna a multidão nestes casos. 

"Esta energia colectiva alimenta tanto as boas como as más intenções.

"Sim senhor, a barbaridade (mais uma) da polícia contra o negro americano precisa de ser denunciada, as manifestações de racismo e o exarcebar das diferenças sociais e económicas das populações exigem formas organizadas de reacção e de políticas públicas escrutinadas. 

"No entanto, agora a coisa virou histeria e espectáculo, no derrube e destruição de dezenas de estátuas em diversos países do mundo – maxime nos EUA. Critérios? Vagamente expressos como sendo aquelas figuras de bronze ou pedra antigos defensores da escravatura, do colonialismo, do racismo, ou de outra iniquidade qualquer, de preferência em tempos longínquos. Não é necessário fazer prova de nada, basta seja o que for para justificar a “justa indignação” e o pôr em prática as consequências da “justiça popular”. Bóra lá, malta, isto é como ir para o estádio chamar filho da puta ao árbitro: facilidade e impunidade. 

"Fora com a rainha Vitória, Cristóvão Colombo, os confederados (são 11) no Capitólio americano, etc. etc. e o mundo fica mais limpo! A merda da História ou o que com ela nos relaciona vai para o caixote do lixo ou para o fundo do mar, que o que nós precisamos hoje não é de reflexão e de crítica, mas da velocidade da acção, do imediatismo do dia a dia e da radicalidade escondida atrás da sombra das multidões (finalmente) indignadas – sem consequências que se vejam a não ser a destruição. É difícil responsabilizar justa e equitativamente cinco centenas (ou cinco milhares) de cidadãos...

"Geralmente são os infiltrados que contribuem para os desmandos mais violentos e, sendo isso verdade em quase todos os casos, a realidade dá-lhes acolhimento e as consequências caem sobre todos – os que destroem e os outros.

"Lamento, mas não, não concordo com a destruição das estátuas dos colonialistas, como forma de equacionar o problema do colonialismo. Onde isso nos pode levar! Recolher piedosamente aos armazéns da república as estátuas do Salazar, muito bem – é consequência do assumir livre de um novo status político, de forte valor simbólico e representativo e não consequência da turbamulta fanatizada que vibra ao cheiro do sangue. Eu sei que é discutível. Discuta-se.  

“AGORA FOI O PADRE ANTÓNIO VIEIRA 

“No largo Trindade Coelho apareceu vandalizada com tinta vermelha a respectiva estátua.

"Quem o fez sabe quem foi o homem? Não querem saber, sabem vagamente que andou pelo Brasil, achando por isso que andou a colonizar e escravizar (?) os índios. Dispenso-me de aqui descrever a sua acção. 

"A verdade é que este vandalismo de ontem não difere muito de outros factos similares. A estupidez contra esta estátua é a mesma, por exemplo, da pinchagem permanente e repetida sobre a escultura de Artur Rosa (uma peça lindíssima de arte contemporânea), implantada em 1999 num extremo da Avenida Conde Valbom, perto da Gulbenkian. Trata-se de uma estrutura metálica formando um arco de grandes dimensões com um conjunto de cubos em aço inox, de vermelho vivo, diríamos abstracta e de significados múltiplos. É a ignorância que move a vontade e as mãos que grafitam aquilo como se a coisa não valesse nada.

"A mesma ignorância que ataca, vezes sem conta, a peça representando Eça de Queiroz e uma senhora desnudada, perto do Chiado, ao ponto de ter sido retirada e substituída por uma réplica. 

"Não merecem nada, estes imbecis, e chamam com desprezo elitistas aos que estudam, aos que abominam a ignorância complacente e respeitam a diferença.  

"Bom, mas agora somos um povo moderno e não bacoco, já acompanhamos o que de novo se faz lá fora, porra! Estamos à la page! Estamos in! Já não somos os desvalidos macambúzios do tempo do Salazar, vamos para a rua, engrossamo-nos no Bairro Alto e vandalizamos justamente as estátuas dos esclavagistas. Só nos falta um polícia a asfixiar com o joelho no pescoço um desgraçado qualquer apanhado na rua, distraído. Lá chegaremos, portugueses, continuem que estão a ir bem”. 

(In NOVÌSSIMAS NOTÍCIAS DO BLOQUEIO de 12 /6/ 2020, por  Jaime Aurelindo Ceia)

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

O Respigo da Semana :"O clima não explica tudo", por António Galopim de Carvalho

O clima não explica tudo

Por António Galopim de Carvalho

“A sorte do Governo é que a mais do que fragilizada oposição não tem nada a propor aos portugueses.

In Público de 19 de Outubro de 2017.

“Eu, António Marcos Galopim de Carvalho, com 86 anos de idade, professor catedrático jubilado da Universidade de Lisboa, nas Faculdades de Ciências e de Letras, ex-director do Museu Nacional de História Natural (durante 20 anos), doutorado pela Universidade de Paris e de Lisboa, autor de cerca de 300 títulos, entre artigos científicos, de divulgação e de opinião, de centenas de “posts” em blogues e no Facebook, de 20 livros dirigidos aos ensinos secundário e superior e à divulgação científica e de seis de ficção. Colaborador, sempre a título gracioso (e borla, como diz o povo), com dezenas de escolas, autarquias (de todas as cores políticas) e universidades de todo o país.

 “Isto tudo, ao estilo de quem está a “puxar pelos galões” (que todos os que me conhecem e me lêem sabem que não puxo), para conferir algum peso ao desabafo de uma convicção muito minha, muito séria, como cidadão declaradamente independente dos aparelhos partidários.

“O Verão quente e extremamente seco que vivemos (as alterações climáticas estão a alertar-nos para tempos difíceis) justifica a dimensão e a intensidade dos incêndios florestais que tanta dor infligiram a tantas famílias e tantos prejuízos causaram à economia do país. Mas não explica o elevado número de focos de incêndio, em locais diversos, detectados durante a noite, sem trovoadas secas nem fundos de garrafas de vidro ao sol. O calor e a secura propagam e alastram os fogos mas não os iniciam.

“Os imensos e trágicos incêndios do passado fim-de-semana (falou-se em mais de 500), alguns iniciados de noite, afiguram-se-me como que um “aproveitar” os últimos dias deste Verão que nos entrou Outono adentro (pois sabia-se que a chuva vinha aí) para dar continuidade a uma guerra surda contra o Governo legítimo cujos sucessos são, por demais, conhecidos cá dentro e lá fora.

“Basta ler e ouvir os comentadores dos jornais e das televisões ao serviço dos poderosos, para perceber como esta tragédia nacional continua a ser utilizada por eles nesta guerra. E a verdade é que têm tirado algum proveito (não todo) desta estratégia. É notório que o Governo está fragilizado. Também por culpa sua, diga-se, que, em minha opinião, não soube ou não quis “partir a loiça” na altura certa. Neste momento, e com tamanha e bem orquestrada campanha contra a “geringonça”, a sorte do Governo é que a mais do que fragilizada oposição não tem nada a propor aos portugueses”.

Professor catedrático jubilado

quarta-feira, 5 de julho de 2017

O Respigo da Semana : "O que entra em lenta cinza pelas minhas janelas em Pedrogão Grande (...) é a via portuguesa para o capitalismo nos campos".


“(…)

“O que entra em lenta cinza pelas minhas janelas em Pedrogão Grande e pousa docemente sobre o meu teclado, os meus livros, a minha roupa, é a via portuguesa para o capitalismo nos campos.

“Sim, falo de um destino histórico, tanto mais português, mais cruel e inumano, quanto menos se confessa e se entende , quanto mais neutro e sereno parece.

“O “reordenamento do território”, essa miraculosa panaceia de que tantos falam e tão poucos percebem, está a rapidamente perante os nossos olhos: corre à velocidade das chamas e do vento.

“Depois do desastre, muitas dezenas de milhares dos quinhentos mil pequenos e pequeníssimos proprietários de floresta terão perdido tudo e perderão, por fim, a terra.

“O que arde em Portugal é o campesinato português, expulso do Alentejo pelo PS, varrido do centro e do norte pelas Politicas Agrícolas Comuns do PS e do PSD, despojado de tudo pelo fogo.

“Ardem os velhos de olhos rasos de lágrimas que só a conversa mole de enfermeiros vestidos de branco consegue arrastar, sobre um fundo de céu em cinza, para longe de meia dúzia de oliveiras a que dedicaram a vida.

“Ardem os bens dos descendentes de velhos já mortos que deixaram morrer os velhos e os sobreiros de que cuidavam para plantarem no seu lugar mato, casas vazias e eucaliptos.

“Haverá-haverá ainda? –outra história possível? Vejo na televisão a falsa tristeza de quem, lá no fundo, pensa que Clio só saúda os vencedores. Vejo nos telejornais os olhos serenos que quem atribui subsídios como quem deita pazadas de terra sobre um caixão.

“ E penso num camponês vizinho meu, do outro lado do Zêzere. Tem dezassete anos. Dezassete. O pai, falecido, deixou-lhe o que tinha, terra, gado, máquinas. Perdeu tudo. Vai certamente partir para o litoral, onde não há agricultura nem incêndios.

“Talvez não tivesse de ir se, em vez de menos Estado, em vez de mais liberalismo, o interior de Portugal tivesse tido a sorte de ter sido governada nestes últimos trinta anos, já nem digo por socialistas, bastavam social-democratas, agentes de uma história mais generosa.

“Os Canadair continuam a voar sobre a minha casa. Já não sinto raiva nenhuma”.
 
por Paulo Varela Gomes

…Não, este texto não foi escrito nestas duas últimas semanas. Foi escrito em 5 de Agosto de …2003!!! (durante o governo de Durão Barroso).

É um excerto da crónica “A Incendiária” de Paulo Varela Gomes, publicado no livro OURO E CINZAS, editado pela Tinta da China. Em 2016.

..e, infelizmente, Paulo Varela Gomes não está cá hoje para escrever uma crónica actualizada sobre acontecimentos recentes, porque esse grande professor e investigador faleceu há um ano.

Mas tudo o que ele escreveu há…14 anos (!!!!), ganha actualidade nos dias que correm.

Quem nos dera que entre a nossa classe política das últmas décadas existisse a lucidez de um Paulo Varela Gomes!

terça-feira, 20 de junho de 2017

Respigo da Semana: "As vítimas dos incêndios e da televisão" por António Guerreiro




"As vítimas dos incêndios e da televisão
Por António Guerreiro

In Público 19 de Junho de 2017

 
“Para as televisões, para a maquinaria dos directos e ao vivo, uma catástrofe como esta é um momento do sublime.

Nas televisões, o incêndio de Pedrógão Grande resultou num avatar técnico-totalitário da “obra de arte total”, na qual se dá uma confrontação dialéctica das várias artes. Com as imagens captadas pelos drones, a SIC compôs um filme com uma banda sonora que não era a Cavalgada das Valquírias, o excerto de uma ópera de Wagner a que Francis Ford Coppola deu uma grandiosa forma cinematográfica em Apocalypse Now, mas tinha a pretensão da “grande arte” wagneriana.

“Diz-se que os pilotos operadores dos drones, combatentes de uma guerra à distância, antes de disparar gritam de júbilo: “Oh, que belo alvo!” A nauseabunda estetização da catástrofe servida ao espectador — o “belo” cenário trágico resultante das montagens e encenações feitas nos estúdios das televisões — também mostra que alguém, certamente uma equipa, rejubilou com os seus belos alvos que lhes fornecem matéria para uma grande produção a baixo preço, para um filme-catástrofe que não precisa de efeitos especiais, só precisa de uma montagem bem ornamentada e música a condizer. Tudo devidamente sublinhado por textos, legendas e designações (por exemplo, “a estrada da morte”) que remetem para as grandes ficções de Hollywood. Às vezes, sobre essas imagens sobrepõe-se uma voz-off que lê um texto a imitar qualquer coisa de literário, a sublinhar a operação que reduz a tragédia real a uma opereta obscena. A estetização é uma violência exercida sobre as vítimas da catástrofe e, paradoxalmente, tem o efeito de uma anestesia aplicada ao espectador.

Para as televisões, para a maquinaria dos directos e ao vivo, uma catástrofe como esta é um momento do sublime. Se a emergência dessa categoria estética que é o sublime está relacionada com os sentimentos de medo e de terror perante algo que excede toda a medida, é preciso no entanto que a ameaça que eles representam seja suspensa para que da dor nasça o prazer. As reportagens da televisão, muito especialmente as imagens estetizadas que passam a servir de separadores ou de fechos do noticiário, procedem a esta conversão da dor em prazer. São maléficas e eticamente execráveis. Devemos perguntar como é que os jornalistas dos vários canais de televisão se relacionam com elas.

“O sublime, como sabemos, tem a dimensão do irrepresentável, deixa a faculdade da imaginação e a fala aniquiladas perante algo que tem uma potência ou um tamanho desmesurados. Por isso, é sempre ocasião para o uso de meios retóricos curtos, mas enfáticos. Para não ficarem em silêncio, para não dizerem pura e simplesmente que não têm nada a dizer ou que tudo o que são capazes de dizer é trivial, os repórteres recorrem aos parcos meios linguísticos que têm à sua disposição. Por exemplo, a palavra “dantesco” (para além de uma certa dimensão, o incêndio é sempre “dantesco” e configura “o inferno”). E porque os processos de descrição, na televisão, consistem sobretudo em mostrar, em dar a ver, entra-se sem pudor na exibição das imagens obscenas. Como vimos, alguns repórteres (Judite Sousa parece que não foi a única) nem hesitaram em aproximar-se dos cadáveres e oferecê-los aos espectadores como imagens ostensivas. Como uma personagem do filme de Francis Ford Coppola, eles poderiam dizer: “I love the smell of napalm in the morning.”

“Face à falta de meios linguísticos (e de tempo para qualquer elaboração mais cuidada) e porque a televisão pratica quase como ideologia jornalística um realismo ingénuo que acaba por nunca produzir o desejado efeito de real, os repórteres ou debitam lugares-comuns que não têm nem valor expressivo nem descritivo, ou recorrem aos testemunhos. Põe-se um microfone e uma câmara diante de pessoas em estado de choque e pede-se-lhes que elas testemunhem, que elas descrevam, que elas superem a afasia em que a situação as colocou. A violência é inominável e a televisão torna-se patética, no duplo sentido da palavra: porque quer mostrar o pathos, dê por onde der; porque exibe a estupidez na mais elevada expressão.

"Devemos novamente perguntar: a que coerção estão submetidos os jornalistas para que aceitem o papel de idiotas? Ou fazem-no voluntariamente? Os jornalistas tornam-se então indivíduos ávidos, paranóicos, como os amantes que não se satisfazem com um simples “amo-te”. Desconfiados com a declaração tão lacónica, achando que o amor é uma imensidão que precisa de se dizer com mais palavras, perguntam: “Amas-me como?” E o outro responde: “Amo-te como se fosses o mais doce dos frutos.” E aí começa um encadeamento de metáforas cristalizadas, de estereótipos. Assim são os jornalistas munidos de microfones e de câmaras: não desistem de querer extorquir as palavras e a alma aos seus interlocutores; não deixam de querer arrancar testemunhos a gente moribunda ou a viver a experiência dos limites.

“Esta maquinaria é totalitária, expansiva, reduz tudo a uma peça integrada. Este jornalismo é um aparelho ao serviço da lógica da “partilha” da comunicação, da informação e da opinião da nossa época. A utilização dos drones realiza na perfeição esta atitude predadora de quem se acha munido do olho de Deus: o olho que abarca, na vertical, a totalidade do mundo. Era fatal que a televisão viesse a pôr ao seu serviço o drone de omnivisão, dotado de uma vista sinóptica, capaz de uma vigilância de largo alcance, “wide area surveillance”, como se diz na linguagem da guerra”. 

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Baptita Bastos : Homenagem a um homem decente


“Não há mortes naturais. Todas as mortes são injustas como uma culpa infundada, e inúteis como uma heresia”.
Baptista Bastos, in Diário de Notícias , 23 de Janeiro de 2008.
 

Baptista Bastos foi o último de uma geração de grandes jornalistas, daqueles que já não se fabricam, formados na “tarimba”, cultos, com um alto sentido ético e…estético.

Homem coerente, frontal, justo, amigo, Baptista Bastos é uma imortal.

Só a ignorância, a má-fé, a intolerância e a mesquinhez,  que grassa actualmente no mundo do jornalismo, permitiram que ele tenha acabado os seus dias quase esquecido e relegado a escrever crónicas no “Correio da Manhã”

Baptista Bastos foi um dos últimos cultores de uma atitude humanista e iluminista no jornalismo, caracterizado pela sua personalidade multifacetada; grande cinéfilo (começou por escrever crónicas de cinema no “Século Ilustrado), autor de ficção, professor de língua e literatura, colaborador em projectos de televisão e cinema, escritor de obras literárias injustamente esquecidas por muitos.

Foi um grande exemplo na luta pela liberdade.

Como ele próprio escreveu um dia “ser livre é muito difícil”. A sua luta pela liberdade custou-lhe a perseguição antes do 25 de Abril, tendo sido despedido, por razões políticas, do jornal “O Século” e, mais tarde, da RTP.

A situação voltou a repetir-se em 2014 quando o Diário de Notícias o despediu, juntamente com outros jornalistas, não sendo de estranhar as suas crónicas bastante críticas para o poder de então, num jornal que sempre se caracterizou pela sua fidelidade aos poderes do  momento.

Mas foi no “Diário Popular”, onde trabalhou entre 1965 e 1988, que se consolidou como um grande jornalista de reportagem e entrevistas. Aliás o seu estilo como entrevistador tem sido exemplo a seguir em escolas de jornalismo onde o seu livro “A Palavra dos Outro”, de 1969, é de leitura obrigatória, uma espécie de “Bíblia” desse género jornalístico.

Aliás , foi o título de uma série de entrevistas realizadas para a SIC que tornaram “viral” a frase “onde estavas no 25 de Abril?”.

Na crónica foi autor maior, sem seguidores à altura na actualidade (aliás, a “crónica” deu lugar ao “comentário político”, na esmagadora maioria da imprensa actual). Nessas crónicas revelou sempre um profundo conhecimento da língua portuguesa, um sentido literário profundo, uma cultura vasta e diversificada e um grande sentido de humanidade.

Foi ainda autor de mais de uma dezena de títulos de ficção, que têm geralmente Lisboa por cenário, revelando uma sensibilidade e uma escrita viva. O seu contributo para a literatura portuguesa tem sido injustamente esquecido.

Referindo-se à grande ternura que emanava da sua obra literária, BB afirmou que, para ele, a escrita era “ uma mulher com cheiro de mulher, indomável mas aberta a quem a ama e atenta a quem a respeita”( Diário de Notícias de 5 de Julho de  2008).

Pessoalmente cruzei-me, há uns trinta anos, com Baptista Bastos, que se tinha deslocado a Torres Vedras, à escola onde eu lecionava, para falar da sua obra literária. Na altura já eu tinha lido quatro das suas obras (“O Secreto Adeus”, “Cão Velho entre Flores”, “Viagem de um pai e de um filho pelas ruas da amargura” e “Elegia para um caixão vazio”), visões poéticas sobre o quotidiano lisboeta dos seus personagens, que incluíam algumas das mais belas páginas eróticas, escritas com uma ternura rara nesse tipo de escrita.

Lembro-me que Baptista Bastos ficou muito sensibilizado por encontrar em mim um então raro leitor da sua obra literário, autografando-me entusiasticamente os livros que levava, depois de me revelar todos os seus dotes de grande conversador.

É uma imagem de simpatia, humanidade  e humildade que guardo desse encontro e que registo aqui como homenagem  a um dos últimos homens decentes do jornalismo português.
 
As Crónicas de Baptista Bastos forma várias vezes o tema da nossa rubrica "O Respigo de Semana", e podem ser consultadas AQUI.

Em baixo reproduzo uma biografia de Baptista Bastos, recentemente publicada no “Jornal de Negócios”, como algumas frases soltas retiradas de crónicas suas, respigadas do site “citador”.

Até sempre amigo Baptista Bastos.
 
“Baptista Bastos Cronista

“Considerado um dos maiores prosadores portugueses contemporâneos, Baptista-Bastos (Armando Baptista-Bastos) nasceu em Lisboa, no Bairro da Ajuda (que tem centralizado em vários romances e numerosas crónicas), em 27 de Fevereiro de 1934. Frequentou a escola de Artes Decorativas António Arroyo e o Liceu Francês.
Começou o seu percurso profissional em «O Século», matutino em representação do qual viajou por numerosos países. N’«O Século Ilustrado», de que foi subchefe de Redacção com, apenas, 19 anos, assinou uma coluna de crítica cinematográfica, «Comentário de Cinema», que se tornou famosa pelo registo extremamente polémico. Em Abril de 1960 é despedido de «O Século» por motivos políticos (esteve envolvido na Revolta da Sé, 1959, na decorrência da candidatura Delgado, de que foi activista), e, devido às circunstâncias, trabalhou na RTP numa semi-clandestinidade e com um nome suposto: Manuel Trindade. Com esse pseudónimo redigiu noticiários, e assinou textos de documentários para Fernando Lopes [«Cidade das Sete Colinas», «Os Namorados de Lisboa», «Este Século em que Vivemos»], e para Baptista Rosa, «O Forcado», com imagem de Augusto Cabrita, e música de Miles Davies, «Scketchs of Spain.» Seis meses decorridos foi despedido da RTP, porque o então secretário nacional da Informação, César Moreira Baptista, mais tarde ministro do Interior no governo de Marcelo Caetano, deu instruções nesse sentido, dizendo, num ofício: «Esse senhor é um contumaz adversário do regime.»
Em épocas distintas Baptista-Bastos pertenceu, também, aos quadros redactoriais de «República», «Europeu», «O Diário»; e aos das revistas «Cartaz», «Almanaque», «Seara Nova», «Gazeta Musical e de Todas as Artes», «Época» e «Sábado». Foi, igualmente, redactor em Lisboa da Agence France Press.
Porém, é no vespertino «Diário Popular», onde trabalhou durante vinte e três anos (1965-1988), e no qual desempenhou importantes funções, que marca, «com um estilo inconfundível» [Adelino Gomes] o jornalismo da época. Naquele diário publicou «algumas das mais originais e fascinantes reportagens, entrevistas e crónicas da Imprensa portuguesa da segunda metade do século» [Afonso Praça]. «Um dos maiores jornalistas portugueses de sempre» [David Lopes Ramos, in «Público]. Tanto no jornalismo como na literatura situa-se na primeira linha da narrativa portuguesa contemporânea.
Colaborou, ou ainda colabora, como cronista [«um dos grandes escritores da cidade de Lisboa», Eduardo Prado Coelho, in «O Cálculo das Sombras»], em «Jornal de Notícias», “A Bola”, «Tempo Livre»; e, também, no «JL – Jornal de Letras artes e Ideias», no «Expresso», no «Jornal do Fundão» e no «Correio do Minho». Foi fundador do semanário «O Ponto», no qual, entre outros grandes textos e reportagens, realizou uma série de oitenta entrevistas que assinalaram uma renovação naquele género jornalístico e marcaram a época. Escreveu e leu crónicas para Antena Um e Rádio Comercial. Foi o primeiro dos comentadores de «Crónicas de Escárnio e Maldizer», famosa e popular rubrica da TSF – Rádio Jornal. Colunista do «Público» e do «Diário Económico».
Foi docente na Universidade Independente, onde leccionou a disciplina de Língua e Cultura Portuguesas.
Realizou uma série de entrevistas para as revistas «TV Mais» e TV Filmes». Presença frequente em debates nas televisões apresentou, no Canal SIC, de Novembro de 1996 e Janeiro de 1998, e a convite de Emídio Rangel, um programa, «Conversas Secretas», com assinalável êxito. De Janeiro a Agosto de 2001 fez, para a SIC-Notícias, um programa de entrevistas, «Cara-a-Cara.»
Percorreu, profissionalmente, todo o Portugal Continental e Insular, e viajou e escreveu sobre Espanha, Canárias, França, Itália, Bélgica, Irlanda, Brasil, Uruguai, Argentina, Suíça, Luxemburgo, Grécia, Áustria, Turquia, República Democrática Alemã, República Federal da Alemanha, Checoslováquia, URSS, Marrocos, Suécia, Dinamarca, Finlândia, Nigéria, Angola, Moçambique, Cabo Verde, etc.
Um dos seus livros de textos jornalísticos, «As Palavras dos Outros», é considerado «um clássico» e «uma referência obrigatória na profissão» [Adelino Gomes e Fernando Dacosta], sendo recomendado como «leitura indispensável» no I Curso de Jornalismo organizado pelo sindicato da classe.
Todos os livros de Baptista-Bastos (romances, crónicas, entrevistas, reportagens, ensaio cinematográfico) estão antologiados em volumes de ensino de Português, e seleccionados por temas em obras representativas das modernas correntes literárias. Está traduzido em checo, búlgaro, russo, alemão, castelhano e francês. Os romances «Cão Velho entre Flores» e «Viagem de um Pai e de um Filho pelas ruas da Amargura» são geralmente considerados obras-primas. O primeiro foi indicado como leitura obrigatória no Curso de Literatura Portuguesa Contemporânea da Sorbonne, sendo professor o Dr. Duarte Faria, e catedrático o Prof. Dr. Paul Teyssier. Este romance foi, também, lido na Rádio Comercial, em 1979, numa produção de Fernando Correia.
Os livros de Baptista-Bastos têm servido de estudos e para teses de licenciatura em universidades portuguesas e estrangeiras.
Em Abril de 1999, a Direcção do matutino «Público» convidou-o a realizar uma série de dezasseis entrevistas, subordinadas ao tema: «Onde é que Você Estava no 25 de Abril?», que desencadeou grandes polémicas e constituiu um assinalável êxito jornalístico. Doze dessas entrevistas (com Álvaro Guerra, Carlos Brito, D. Januário Torgal Ferreira, Emídio Rangel, Fernando de Velasco, Hermínio da Palma Inácio, João Coito, Joshua Ruah, general Kaúlza de Arriaga, Manuel de Mello, padre Mário de Oliveira e Pedro Feytor Pinto) foram inseridas num CD-Rome (que teve uma tiragem de 55 mil exemplares), juntamente com a edição de 25 de Abril de 1999 daquele jornal.
Pela mesma ocasião, a Direcção do «Diário de Notícias» também convidou Baptista-Bastos a escrever o enquadramento do capítulo «O Efémero», da edição especial «O MILÉNIO», iniciativa daquele matutino.


BAPTISTA-BASTOS RECEBEU OS SEGUINTES P
"Considerado um dos maiores prosadores portugueses contemporâneos, Baptista-Bastos (Armando Baptista-Bastos) nasceu em Lisboa, no Bairro da Ajuda (que tem centralizado em vários romances e numerosas crónicas), em 27 de Fevereiro de 1934. Frequentou a escola de Artes Decorativas António Arroyo e o Liceu Francês.

"Começou o seu percurso profissional em «O Século», matutino em representação do qual viajou por numerosos países. N’«O Século Ilustrado», de que foi subchefe de Redacção com, apenas, 19 anos, assinou uma coluna de crítica cinematográfica, «Comentário de Cinema», que se tornou famosa pelo registo extremamente polémico. Em Abril de 1960 é despedido de «O Século» por motivos políticos (esteve envolvido na Revolta da Sé, 1959, na decorrência da candidatura Delgado, de que foi activista), e, devido às circunstâncias, trabalhou na RTP numa semi-clandestinidade e com um nome suposto: Manuel Trindade. Com esse pseudónimo redigiu noticiários, e assinou textos de documentários para Fernando Lopes [«Cidade das Sete Colinas», «Os Namorados de Lisboa», «Este Século em que Vivemos»], e para Baptista Rosa, «O Forcado», com imagem de Augusto Cabrita, e música de Miles Davies, «Scketchs of Spain.» Seis meses decorridos foi despedido da RTP, porque o então secretário nacional da Informação, César Moreira Baptista, mais tarde ministro do Interior no governo de Marcelo Caetano, deu instruções nesse sentido, dizendo, num ofício: «Esse senhor é um contumaz adversário do regime.»

"Em épocas distintas Baptista-Bastos pertenceu, também, aos quadros redactoriais de «República», «Europeu», «O Diário»; e aos das revistas «Cartaz», «Almanaque», «Seara Nova», «Gazeta Musical e de Todas as Artes», «Época» e «Sábado». Foi, igualmente, redactor em Lisboa da Agence France Press.

"Porém, é no vespertino «Diário Popular», onde trabalhou durante vinte e três anos (1965-1988), e no qual desempenhou importantes funções, que marca, «com um estilo inconfundível» [Adelino Gomes] o jornalismo da época. Naquele diário publicou «algumas das mais originais e fascinantes reportagens, entrevistas e crónicas da Imprensa portuguesa da segunda metade do século» [Afonso Praça]. «Um dos maiores jornalistas portugueses de sempre» [David Lopes Ramos, in «Público]. Tanto no jornalismo como na literatura situa-se na primeira linha da narrativa portuguesa contemporânea.

"Colaborou, ou ainda colabora, como cronista [«um dos grandes escritores da cidade de Lisboa», Eduardo Prado Coelho, in «O Cálculo das Sombras»], em «Jornal de Notícias», “A Bola”, «Tempo Livre»; e, também, no «JL – Jornal de Letras artes e Ideias», no «Expresso», no «Jornal do Fundão» e no «Correio do Minho». Foi fundador do semanário «O Ponto», no qual, entre outros grandes textos e reportagens, realizou uma série de oitenta entrevistas que assinalaram uma renovação naquele género jornalístico e marcaram a época. Escreveu e leu crónicas para Antena Um e Rádio Comercial. Foi o primeiro dos comentadores de «Crónicas de Escárnio e Maldizer», famosa e popular rubrica da TSF – Rádio Jornal. Colunista do «Público» e do «Diário Económico».

"Foi docente na Universidade Independente, onde leccionou a disciplina de Língua e Cultura Portuguesas.

"Realizou uma série de entrevistas para as revistas «TV Mais» e TV Filmes». Presença frequente em debates nas televisões apresentou, no Canal SIC, de Novembro de 1996 e Janeiro de 1998, e a convite de Emídio Rangel, um programa, «Conversas Secretas», com assinalável êxito. De Janeiro a Agosto de 2001 fez, para a SIC-Notícias, um programa de entrevistas, «Cara-a-Cara.»

"Percorreu, profissionalmente, todo o Portugal Continental e Insular, e viajou e escreveu sobre Espanha, Canárias, França, Itália, Bélgica, Irlanda, Brasil, Uruguai, Argentina, Suíça, Luxemburgo, Grécia, Áustria, Turquia, República Democrática Alemã, República Federal da Alemanha, Checoslováquia, URSS, Marrocos, Suécia, Dinamarca, Finlândia, Nigéria, Angola, Moçambique, Cabo Verde, etc.

"Um dos seus livros de textos jornalísticos, «As Palavras dos Outros», é considerado «um clássico» e «uma referência obrigatória na profissão» [Adelino Gomes e Fernando Dacosta], sendo recomendado como «leitura indispensável» no I Curso de Jornalismo organizado pelo sindicato da classe.

"Todos os livros de Baptista-Bastos (romances, crónicas, entrevistas, reportagens, ensaio cinematográfico) estão antologiados em volumes de ensino de Português, e seleccionados por temas em obras representativas das modernas correntes literárias. Está traduzido em checo, búlgaro, russo, alemão, castelhano e francês. Os romances «Cão Velho entre Flores» e «Viagem de um Pai e de um Filho pelas ruas da Amargura» são geralmente considerados obras-primas. O primeiro foi indicado como leitura obrigatória no Curso de Literatura Portuguesa Contemporânea da Sorbonne, sendo professor o Dr. Duarte Faria, e catedrático o Prof. Dr. Paul Teyssier. Este romance foi, também, lido na Rádio Comercial, em 1979, numa produção de Fernando Correia.

"Os livros de Baptista-Bastos têm servido de estudos e para teses de licenciatura em universidades portuguesas e estrangeiras.

"Em Abril de 1999, a Direcção do matutino «Público» convidou-o a realizar uma série de dezasseis entrevistas, subordinadas ao tema: «Onde é que Você Estava no 25 de Abril?», que desencadeou grandes polémicas e constituiu um assinalável êxito jornalístico. Doze dessas entrevistas (com Álvaro Guerra, Carlos Brito, D. Januário Torgal Ferreira, Emídio Rangel, Fernando de Velasco, Hermínio da Palma Inácio, João Coito, Joshua Ruah, general Kaúlza de Arriaga, Manuel de Mello, padre Mário de Oliveira e Pedro Feytor Pinto) foram inseridas num CD-Rome (que teve uma tiragem de 55 mil exemplares), juntamente com a edição de 25 de Abril de 1999 daquele jornal.

"Pela mesma ocasião, a Direcção do «Diário de Notícias» também convidou Baptista-Bastos a escrever o enquadramento do capítulo «O Efémero», da edição especial «O MILÉNIO», iniciativa daquele matutino".


"BAPTISTA-BASTOS RECEBEU OS SEGUINTES PRÉMIOS:

### Prémio Feira do Livro de 1966
### Prémio Artur Portela (Casa da Imprensa) de 1978
### Prémio Nacional de Reportagem / Prémio Gazeta de 1985, atribuído pelo
Clube de Jornalistas
### Prémio Urbano Carrasco de 1986
### Prémio Casa da Imprensa: Prémio Prestígio
– Orgulho de uma Profissão, de 1986
### Prémio O Melhor Jornalista do Ano (1980 e 1983)
### Prémio Porto de Lisboa de 1988
### Prémio Pen Clube de 1987 - «A Colina de Cristal»
### Prémio Cidade de Lisboa de 1987 - «A Colina de Cristal»
### Prémio da Crítica 2002 (Atribuído, em 2003, ao romance
«No Interior da Tua Ausência», e como consagração
de uma obra literária)
### Grande Prémio da Crónica da APE (Associação Portuguesa de
Escritores), atribuído, em 2003, ao livro «Lisboa Contada pelos Dedos»,
publicado em 2001
### Prémio Gazeta de Mérito, atribuído, por unanimidade, pelo Clube de
Jornalistas, em 2004.
### Prémio de Crónica João Carreira Bom/Sociedade de Língua Portuguesa,
atribuído por unanimidade, em 2006.
### Prémio Alberto Pimentel do Clube Literário do Porto, pelo conjunto da
obra, em 2006

"Por ocasião dos cinquenta anos do seu percurso de jornalista, e em comemoração da edição do seu primeiro romance, o Primeiro Acto promoveu, em 13 de Setembro de 2005, no Fórum Lourdes Norberto, uma sessão de homenagem, muito concorrida. Falaram Adelino Gomes e Paulo Sucena, respectivamente sobre a actividade jornalística e literária de BB. Carlos do Carmo associou-se à homenagem, cantando os fados preferidos de BB.

"DO AUTOR:

Ensaio:
O Cinema na Polémica do Tempo / 1959
O Filme e o Realismo / 1962 / Duas edições

Ficção:
O Secreto Adeus / 1963 / Seis edições
O Passo da Serpente / 1965 / Duas edições
Cão Velho entre Flores / 1974 / Oito edições
Viagem de um pai e de um Filho pelas Ruas da Amargura / 1981 / Cinco
edições
Elegia para um Caixão Vazio / 1984 / Quatro edições
A Colina de Cristal / 1987 / Quatro edições [Prémio Pen Clube e Prémio Cidade de Lisboa]
Um Homem Parado no Inverno / 1991 / Quatro edições
O Cavalo a Tinta-da-China / 1995 / Quatro edições
No Interior da Tua Ausência / 2002 /Quatro edições [Prémio da Crítica, da Associação Internacional de Críticos Literários]
As Bicicletas em Setembro / 2007
A Bolsa da Avó Palhaça (conto, com ilustrações de Mónica Cid) / 2007
Jornalismo:
As Palavras dos Outros / 1969 / Quatro edições
Cidade Diária / 1972
Capitão de Médio Curso / 1979
O Homem em Ponto / 1984
O Nome das Ruas / 1993 (Em colaboração com António Borges Coelho) José Saramago: Aproximação a um Retrato / 1996
Fado Falado / 1999
Lisboa Contada pelos Dedos (Edição do Montepio Geral) / 2001 / Duas edições

Disco:
O Sinal do Tempo / 1973 / Crónicas ditas pelo Autor, com música
especial de António Victorino d’Almeida (Edições Zip)

Entre 2000 e 2002 as Edições ASA publicaram os nove volumes de ficção do autor, sob o título geral de Biblioteca Baptista-Bastos. Em 2007 foi lançado As Bicicletas em Setembro.

[Baptista-Bastos é, também, o autor do texto e da entrevista do filme «Belarmino», realização de Fernando Lopes, geralmente considerado como um dos clássicos do Cinema Novo português. Para este realizador escreveu, também, além dos textos acima mencionados, «As Palavras e os Fios», um filme de publicidade que se encontra depositado na Cinemateca. Para os realizadores Rogério Ceitil e Fernando Matos Silva escreveu, respectivamente, os textos de fundo dos documentários «Ribatejo» e «Alentejo», destinados á RTP].


"ALGUMAS OPINIÕES SOBRE O AUTOR:


MANUEL DA FONSECA - «Um grande escritor português do nosso tempo.»

MANUEL FERREIRA - «Um dos nossos maiores prosadores vivos.»

MÁRIO DIONÍSIO - «Um escritor de primeira água.»

ANTÓNIO RAMOS ROSA - «Um grande escritor e um grande jornalista. O que é raro.»

MARIA LÚCIA LEPECKI - «É obrigatório ler este livro.» [A propósito do romance «Elegia para um caixão vazio»].

ÓSCAR LOPES - «Com este romance, Baptista-Bastos produziu o livro dos livros novelísticos da sua geração, senão de toda a literatura portuguesa de aquém 1950.» [A propósito de «Viagem de um Pai e de um Filho pelas Ruas da Amargura»].


JORGE DE SENA - «Um dos grandes narradores portugueses do nosso tempo, no que a palavra narrador contém de reinvenção reflexiva e demiúrgica de uma língua (...) Os seus livros distinguem-se, como poucos, dessa massa parda de pretensiosismo medíocre, e certa economia retórica é o que mais me interessa neles. Também neles me interessa uma crueldade seca e irónica.»

JOSÉ RODRIGUES MIGUÉIS - «Um grande e singularíssimo escritor.»

MÁRIO-HENRIQUE LEIRIA - «Os teus livros são um trajecto fascinatório.»

URBANO TAVARES RODRIGUES - «Um livro excepcional. Obra das mais fortes e belas da literatura portuguesa deste século. Uma prosa enxuta, cada vez mais depurada, mais rítmica e mais rica em analogias. Um edifício verbal solidamente construído.» [A propósito de «Cão Velho entre Flores].

«Uma obra-prima. Um livro sublime.» [A propósito de «Viagem de um Pai e de um Filho pelas Ruas da Amargura»].

CARLOS DE OLIVEIRA - «Os livros desertos não interessam a este “bebedor” de quotidiano. Um estilo original: deflagrar de flashes, remíntones, telexes; e a expressão popular, a palavra fora de uso, a moderna argúcia literária. Quer dizer: uma escrita veloz e densa, ao mesmo tempo.»

LUIZ PACHECO - «Jornalismo feito literatura. Isto é, ascendendo ao plano da literatura: na contenção irónica, na capacidade de denúncia e intervenção, obrigando-nos à exploração psicológica dos tipos, no humor dos circunlóquios, principalmente no poder de síntese. Leiam o livro todo. São trabalhos jornalísticos exemplares. Há talento, há verve, há ousadia, há um homem, há um escritor.» [A propósito de «As Palavras dos Outros»]".
in site do Jornal de Negócios

 
FRASES SOLTAS DE BAPTISTA BASTOS:
 
“A nossa sociedade está a desmoronar-se e ninguém lhe acode. Os laços sociais estão a desaparecer, substituídos por um sistema de valores em que impera a vacuidade, o poder da «competitividade» como força motriz - e não é. Há tempo para tudo, diz o Eclesiastes. Mas a verdade é que os «tempos» foram pulverizados pela urgência de não se sabe bem o quê. A frase mais comum que ouvimos é: «Não tenho tempo para»; para quê? A correria mina as relações de civismo e de civilidade; está a roer os alicerces da família; a família deixou de ser o núcleo das nossas próprias defesas; e vamos perdendo o rasto dos nossos filhos, dos nossos amigos, dos nossos camaradas, dos nossos companheiros. A azáfama nos locais de trabalho é o sinal das nossas fragilidades e dos nossos medos. Estamos com medo de tudo, inclusive de confiar em quem, ainda não há muito, seríamos capazes de confidenciar o impensável.”
in Jornal de Negócios / 2009/11/20
 
“A degradação da vida empresarial resulta dessa cartografia de horrores que consiste nos objectivos a atingir, nas etapas que se tem de percorrer, e dos lucros que terão de ser rápidos e vultosos. O «gestor» é muitíssimo bem pago para ser um cão-de-fila. Um universo sem paixões, gelado, uma mistura de indiferença humana com uma selvajaria abstracta”.
in Jornal de Negócios / 2009/10/09

“insistência doentia, quase hora a hora, no futebol, nos comentários, nas previsões, nas análises remove do português comum qualquer reflexão acerca da sua própria situação social. As agendas dos jornais, os alinhamentos e as opções das televisões e das rádios merecem uma vigilância crítica dos próprios profissionais. O que não existe. Manifesta-se uma total subserviência aos imperativos do que dizem ser as exigências do público. É uma velha pecha e uma desculpa fatigante de quem abdicou do dever mais sagrado da comunicação social: informar e esclarecer para formar”.
in Jornal de Negócios / 2009/04/03

“Há qualquer coisa de podre, há qualquer coisa de decadente e de vil neste tempo. Repare-se no rosto dos que estão no poder, e no daqueles que estão preparados para os substituir. Sempre aquelas caras que pouco se alteram. Sempre os mesmos hábitos. Sempre o mesmo sarro da aldrabice, da dissimulação, do desdém por todos nós”.
in Jornal de Negócios / 2009/02/27

“O afastamento das pessoas da política e do acto cívico resulta do facto de os dirigentes não se distinguirem uns dos outros - a não ser no modo de vestir”.
in Diário de Notícias / 2009/01/21
 
“Os grupos de pressão podem, durante períodos escassos ou longos, provocar o esquecimento, cultivar a omissão, propagar os amigalhaços. Mas não possuem um poder eterno: as coisas recompor-se-ão, e os melhores virão à tona”.
in Jornal de Negócios / 2008/11/14
 
“O mundo actual semelha-se ao mito de Sísifo. Anda de baixo para cima e de cima para baixo, infinitamente sem encontrar o recto caminho, e carregado pelo peso de um rochedo que, mais tarde ou mais cedo, irá rolar pela encosta. Há muitos anos que não dispomos de dirigentes à altura das mudanças do mundo. Guiam-se, todos, à Direita e à Esquerda, pela mesma cartilha. Removeram a ideologia e as convicções do calendário político. Ao contrário de Sísifo, que recusa, obstinadamente, a derrota, eles submeteram-se às consequências desta união no vazio”.
in Jornal de Negócios / 2008/09/12
 

“A globalização é um dado adquirido. A unilateralidade do processo deu origem a uma brutalidade que, por vezes, atinge a selvajaria. Só não vê quem não quer. Os retrocessos sociais são impressionantes. E a derrota dos conceitos de Esquerda absolutamente notórios.”
in Jornal de Negócios / 2008/05/16

“Não pertenço à falange dos que lisonjeiam a juventude como bálsamo para todos os males. Essa de os jovens serem o futuro, tem que se lhe diga. Na verdade, o futuro da juventude – é a velhice. E há quem nasça velho. Mas gosto muito dos mais novos, do irrespeito sem planificação que corporizam, da ignorância atrevida que não dissimulam, da sua inteligência mais demolidora do que crítica. (...) Gosto muito dos mais novos porque não permitem que eu envelheça.”
in Jornal de Negócios / 2007/08/31