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segunda-feira, 27 de abril de 2020

COVID-19 –Não é “uma Guerra”, nem estamos todos no “mesmo Barco”.



Todos os momentos têm as suas “frases batidas”, como diria o Sérgio Godinho, uma espécie de novilíngua orwelliana.

Entre as do momento, duas destacam-se : a de que isto é “uma Guerra” ou a de que “estamos todos no mesmo barco”.

Ambas não passam de falácias propagandísticas, politicamente correctas e com duvidosas intenções.

Mentiras que, várias vezes repetidas, se tornam em mentiras aceitáveis, para nos preparar para o que alguns andam a cozinhar para nos impor no período pós-Covid.

Isto não é uma Guerra, porque numa guerra são cidades inteiras que ficam em ruínas, fábricas em chamas e improdutivas e campos minados e incultiváveis, com milhões de mortos e inválidos.

Quando isto acabar, as cidades, os campos e as fábricas vão continuar intactas, prontas para a actividade normal e as pessoas, apesar dos doentes e mortos, aí estão prontas a trabalhar, consumir, e viver o dia a dia.

O que muitos comentadores, políticos e economistas pretendem, com o uso e abuso do termo ”Guerra” para definir o combate à epidemia é levar-nos a aceitar um Estado de Excepção no futuro da reorganização económica e social, uma versão actualizada e musculada do velho slogan de “ir além da Troika”.

Para sobrevivermos a uma Guerra aceitamos tudo, até o fim da liberdade, os sacrifícios económicos, até a própria pobreza.

Assim, todos aceitaremos uma austeridade que poupe os do costume à custa do sacrifício da maioria se acreditarmos que isto é uma “Guerra”.

Talvez, por causa da invocação da “Guerra”, também tanto se oiça falar em “Plano Marshall”, uma invocação em vão, de um plano que, de facto, não existe na cabeça de quem mais o invoca, os líderes actuais das instituições financeiras.

Por aquilo que se sabe, das promessas avançadas por essas instituições, apesar da fumaça das  dezenas de zeros, tudo não passa, por enquanto, de meras promessas, desconhecendo-se a forma de as aplicar e, pior ainda, a forma de as pagar, mas tudo aponta para que, na melhor das hipóteses, tudo não passe de uma “bazuca” contra a “Guerra” às consequências do  COVID-19, quando o que se precisa é de um verdadeiro Plano Marshall , isto é, uma “bomba atómica” para enfrentar a crise social e económica de dimensões bíblicas que se avizinha.

A outra falácia do momento é a de que “estamos todos no mesmo barco”.

Quanto muito, como alguém me fez notar, estamos no “mesmo mar”, mas “navegando” em barcos diferentes.

Uns enfrentam o mar agitado do COVID 19 num “barco a remos”, outros de “traineira”, outros de “iate” ou de “navio de cruzeiro” (passe a ironia), uns de “porta aviões” e outros de “insuflável”  (como os esquecidos migrantes do Mediterrâneo), alguns apenas agarrados a uma simples bóia de salvação, ou nem isso, apenas a nado.

Uma coisa que esta crise trouxe ao de cima foram as tremendas desigualdades da condição humana para enfrentar os muitos perigos que uma economia predadora e destrutiva do meio natural colocam à própria sobrevivência do Homem.

  um novo paradigma social e económico é que pode evitar a catástrofe social que se avizinha e não mais a velha receita “austoritária”.

O mundo da especulação financeira não pode, mais uma vez, sair vitorioso à custa da Humanidade.

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Quando a crise é liderada por imbecis



Tudo o que a humanidade precisava neste momento era de líderes mundiais que estivessem à altura da crise.

Infelizmente, os líderes capazes do momento, contando-se pelos dedos da mão, são também os que têm menos poder ou lideram países que pouco podem fazer para “salvar o mundo”.

Lembro-me de um Guterres, que lidera uma ONU debilitada pela crescente irresponsabilidade dos países mais influentes, como os Estados Unidos ou a Rússia.

Lembro-me de um papa Francisco, cuja influência é apenas ao nível da palavra, e que tem de enfrentar, internamente, uma oposição interna ultraconservadora.

Em Portugal tivemos a sorte de termos como líderes, um Costa no governo, um Marcelo na presidência e, a liderar a oposição, um Rui Rio.

Imaginem o que seria se tivéssemos um país governado por um Sócrates ou um Passos Coelho, com um Cavaco na presidência ou, neste momento, um Passos Coelho a liderar a oposição…um autêntico pesadelo!

Infelizmente temos uma União Europeia liderada por incompetentes palavrosos, que pensam as consequências económica da crise de saúde como pensaram a crise financeira de má memória.

Atiram milhões para a mesa, mas em condições dúbias (mas a pagar em dois anos!!!).

No mesmo dia em que o Eurogrupo aprovava esse mal amanhado pacote financeiro, para agradar a “gregos [italianos] e troianos [holandeses]”, a Comissão Europeia publicava um relatório sobre o pós-COVID 19 para Portugal, onde fazia um apelo, se bem que entre linhas (este é ainda o momento da linguagem “politicamente correcta” e de esconder as garras de futuras “troikas”), às soluções “autoritárias” do costume: alertava para os “altos” (!!) salários e “altas”(!!!) pensões, para os “exagerados” (!!!) gasto em saúde e para, “coitado”, o “frágil” sector financeiro português, provavelmente para nos preparar para  aceitarmos mais ajudas para esse sector e para os seus“pobres” accionistas, à custa daqueles mesmos salários e pensões e à custa do investimento em sectores fundamentais como a saúde e a educação, sem esquecer o recurso a um “enorme” aumento de impostos…enfim, a velha receita habitual!

Quando a líder da Comissão Europeia se refere a essas “ajudas” (!!!) comparando-o com o Plano Marshall, a dita senhora não sabe mesmo do que fala, ou então, mais grave ainda, sabe mas tenta atirar areia para os olhos dos incautos.

O Plano Marshall, com todos os seus defeitos, incluía ajudas a fundo perdido, ou com juros baixos e pagos ao longo de várias décadas, exactamente o contrário das “ajudas” até agora prometidas!!!

Mas noutras partes do mundo a situação das lideranças ainda é pior.

O COVID-19 é a crise ideal para governos autoritários ou ditadores, da China, à Rússia, da Hungria à Turquia, das Filipinas à Venezuela….

Mas, pior que ditadores, previsíveis, ou burocratas, politicamente correctos, é atitude totalmente irresponsável e criminosa de líderes populistas como um Trump ou um Bolsonaro.

Os custos humanos das suas decisões erradas são muito maiores que as provocadas pelo terrorismo internacional.

O comportamento de ambos, neste momento, devia conduzir à formação a um Tribunal Internacional de Crimes contra a humanidade, para julgar líderes mundiais que, pela forma como lideram esta crise, provocam a morte de milhares de cidadãos.

E, sem dúvida, aqueles dois líderes estão na primeira fila para serem presentes, no futuro a um tribunal desse tipo.

Até lá, devemos seguir aquilo que os cientistas e organizações como a OMS propõem, mesmo que sejam mais as dúvidas que as certezas.

Os balanços ficam para o fim, mas não devem ser esquecidos.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Entre Rio e Montenegro…venha “o diabo”…e escolha Rio!



Tudo o que se passa no interior dos partidos do centrão, aqueles que nos governam desde que temos democracia, não pode passar indiferente ao cidadão comum.

É que, umas vezes em maioria, outras em coligação, são esses dois partidos que lideram o rumo da democracia portuguesa e não se vislumbra uma alteração a essa situação na próxima década.

A disputa pela liderança desses partidos, mesmo que não nos identifiquemos com eles, como é o meu caso, é assunto que deve preocupar todos, até porque, mesmo quem não vote neles, sofrerá as consequências das decisões dessas lideranças.

É assim que, sem me identificar com o PSD, partido que, apesar de tudo, é fundamental para o funcionamento do regime democrático português, me preocupa a situação interna nesse partido.

No PSD sempre existiram várias tendências, uma mais de centro-esquerda, muito minoritária, outra mais de centro-direita e, com Cavaco, Durão e Passos Coelho, outra de direita radical, neoliberal, intolerante e populista que tem sido dominante nos últimos tempos, mas que perdeu a liderança para Rui Rio, que, tal como o presidente de República ( e, no passado, Sá Carneiro), representa uma tendência mais “centrista” (mais liberal, dialogante, democrática e com preocupações sociais).

Sabendo-se que o PS se vai desgastando no poder, é credível que o vencedor das eleições internas do PSD possa vir a tornar-se, na próxima década, o novo primeiro-ministro, por isso não pode ser indiferente, ao cidadão comum, quem vai liderar o partido nos próximos tempos, até porque,  desta vez, existe uma diferença assinalável, quer do ponto de vista ideológico, quer do ponto de vista de estilos, entre os candidatos.

Por isso, como cidadão que já sofreu na pele as consequências das lideranças do PSD, é óbvio que torço para que seja Rio a vencer a segunda volta.

Sem me identificar com a ideologia do PSD e de Rui Rio, parece-me que, apesar de tudo, ele será um líder mais tolerante e dialogante, com preocupações sociais, mais “centrista” e mais próximo de uma democracia aberta e constitucional.

Pelo contrário, Montenegro representa tudo o que de pior existe naquele partido, que, um dia no governo, vai voltar a repor as malfadadas “reformas estruturais” (leia-se, cortes salariais e nas pensões, destruição de direitos sociais, privatização maciça de serviços públicos, destruindo o pouco que resta do nosso fraco Estado Social) do cavaquismo e do passos-coelhismo.

Para além disso, Montenegro representa o lado mais negro da política, o das negociatas de bastidores, submissão ao pior dos interesses financeiros, sem esquecer a submissão aos interesses obscuros das maçonarias, Opus-Dai e Grupo de Bildberg.

Por isso, como cidadão, que sofreu na pele (e bem) as políticas do “ir além da troika” que estão por detrás da candidatura de Montenegro, só posso dizer que…entre Rio e Montenegro venha “o diabo”…mas escolha Rio!

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Para acabar de vez com a situação de sem-abrigo



O Presidente da República voltou a alertar mais uma vez para a necessidade de resolver o vergonhoso problema da existência de tanta gente a viver nas ruas.

O que o Presidente não explicou foi que políticas defende para o fazer. Provavelmente não é ele que o tem de fazer.

A situação dos sem-abrigo em Portugal é um problema cujas causas e origens há muito que estão estudadas (ver AQUI e AQUI dois importantes estudos disponíveis, embora tenham sido elaborados há  mais de 10 anos).

Num estudo realizado pelo Instituto de Segurança Social feito em 2010, defendia-se o perfil do sem-abrigo como “homem” em idade activa, solteiro, com baixo nível escolar, vivendo do rendimento social de inserção.

A origem da degradante situação dessas pessoas residia no desemprego, na pobreza, em situações pessoais (alcoolismo,  pior que o consumo de droga, doenças mentais, conflitos familiares, principalmente a violência doméstica) e a dificuldade de acesso a instituições de saúde.

Esse conjunto de causas impedia os sem-abrigo de financiar um alojamento permanente.

Uma grande parte dessas pessoas, quase metade, vivem no distrito de Lisboa, e, destes, a maioria no concelho de Lisboa.

No principio deste ano a Câmara de Lisboa calculava que existiam cerca de 3 mil sem abrigo, dos quais cerca de 400 no concelho da capital.

Recentemente saiu a noticia que entre 2015 e 2017 o número de sem-abrigo no concelho de Lisboa teria sido reduzido em 50%. Recorde-se que, nos anos da Troika, chegaram a ser contabilizados mais de mil sem-abrigo no concelho de Lisboa.

Outro dado curioso é que os vários estudos revelam que 80% dessas pessoas são portugueses, desmentindo uma ideia feita que atribui à emigração a origem dessa situação.

Claro que o conceito de “sem-abrigo” não inclui outras situações degradantes, que se têm vindo a agravar desde os tempos da Troika ( ou do “ir além da Troika”) e desde a famigerada “lei Cristas” para a habitação.

São essas situações, que muitas vezes disfarçam a gravidade da real situação dos sem-abrigo, os “sem-casa”, isto é, aqueles que recorrem às casas abrigo ou a instituições, os que vivem em “habitações precárias”, ocupando espaços ilegalmente, abandonados em casa de amigos ou familiares, devido às dificuldades financeiras de manterem uma casa, os, a situação maioritária e nunca incluída nos números dos “sem-abrigo”, que vivem em “habitações inadequadas”, casas sem aquecimento, pequenas, velhas  e degradadas.

Se o Presidente quer ser consequente, assim como a ministra que o acompanhou na visita desta semana aos sem abrigo, só têm que agir no sentido de combater o desemprego e o emprego precário, reduzir a pobreza através da valorização salarial e das pensões, melhorar as ajudas socias e o acesso à saúde, em especial à mental, tomar medidas descomplexadas em relação ao consumo de drogas e ao combate ao alcoolismo, e, no topo de tudo, já que é um problema de direito à habitação, consagrado na Constiuição, que está na origem dos sem-abrigo, tomar medidas corajosas nesta área, como, por exemplo tabelar por lei as rendas de casa até ao T2 e combater a actual situação de total descontrole no sector da habitação.

Os estudos estão mais que feitos e as causas  detectadas .

Só é preciso ter coragem para avançar com medidas concretas…a não ser que se fique pela eterna caridadezinha, que remedeia no imediato, mas  adia a resolução dos problemas, embora limpe a consciência de muita gente!!

quinta-feira, 4 de julho de 2019

O Regresso dos “Mortos Vivos”


Passos Coelho voltou a aparecer em Público, para continuara a anunciar  a vinda do Diabo, desta vez num encontro em Leiria promovido por uma dessas organizações tenebrosas que procuram manter viva a chama da austeridade e o combate aos direitos sociais.

Chama-se essa organização “Fórum para a Competitividade” e é liderada por aquele que foi, até hoje, o mais reaccionário e retrógrado dirigente das associações patronais portuguesas, Ferraz da Costa.

Ainda recentemente, numa entrevista ao jornal I, Ferraz da Costa acusava os portugueses de não quererem trabalhar e tem defendido a redução dos salários e o aumento do horário de trabalho, embora não se conheça qualquer actividade laboral desse líder de uma das mais retrógradas e reaccionárias associações patronais, o tal Fórum para a Competitividade, a não ser que herdou uma importante empresa farmacêutica que lhe garante os rendimentos pessoais, esses sim, muito acima das possibilidade da maioria do trabalhadores portugueses.

Grande defensor do trabalho da Troika em Portugal, não admira que tal organização convide para os seus eventos Passos Coelho, que assim tem oportunidade de renascer das cinzas, agora de barba, provavelmente para que os portugueses se esqueçam do rosto de quem os andou a tramar nos anos da Troika e a salvar gente como o sr. Ferraz da Costa.

O discurso de Passos Coelho nesse encontro foi hoje desmontado eficazmente pelo jornalista Nicolau Santos na sua crónica da antena 1, que vale a pena ser ouvido aqui:

Contas do Dia: (As declarações de Pedro Passos Coelho sobre a situação económica do país nas contas de Nicolau Santos). 

A oportunidade do momento não é mera coincidência e enquadra-se nas actuais mudanças de liderança na União Europeia, marcadas pelo regresso dos defensores do discurso “austoritário” e pelos rostos da Troika.

Já percebemos que Passos Coelho espreita uma nova oportunidade para voltar ao poder, esperando apenas um grande desastre da Direita nas próximas legislativas para aparecer como “salvador”.

Também já percebemos que, com Passos Coelho, só podemos esperar mais do mesmo, e , pelo menos, estas esporádicas e cirúrgicas aparições públicas de tal criatura servem para ficarmos a saber o que podemos esperar dele e dos seus amigos do Fórum para a Competitividade, se algum dia voltarem ao poder (Lagarto!Lagarto!Lagarto!!!!)….

Afinal o tal Diabo tem um rosto...o de Passos Coelho!

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Liderança da União Europeia – de “Mao” a…”Piao”!!!


(Autor: Arend Van Dam/ Political Cartoon)

Parece que os burocratas do “politburo de Bruxelas” não perceberam a mensagem das urnas e insistem em decidir à revelia da vontade dos seus cidadãos e mesmo contra estes.

Em vez de apresentarem candidatos aos lugares cimeiros que representassem sinais de mudança nas políticas de austeridade e nas politicas de destruição de direitos socias, para combater o crescimento do populismo e aproximar os cidadãos do projecto europeu, o “politburo de Bruxelas” apostou mais uma vez numa combinação entre cinzentismo e continuidade, reforçando o pilar “austoritário”.

O Conselho Europeu impôs mais uma vez um modelo de escolha de lideranças que não se mostra muito diferente do velho “centralismo democrático” de tipo “comunista”, impondo-se ao único órgão democraticamente legitimo, o Parlamento Europeu.

Foi uma cedência em toda a linha ao grupo de Visegrado, o das “democracias iliberais”.

Ursula von der Leyen para presidente da Comissão Europeia representa a imposição das politicas alemãs para a União Europeia, reforçando a componente “austoritária” que tão maus resultados deu nos últimos anos (maus resultados para os cidadãos, mas bons resultados para o corrupto sector financeiro que domina a Europa, os “donos disto tudo”…), agravado pelo facto de, ao contrário de Merkel, que aprendeu alguma coisa com a “crise”, aquela política é mais “papista de que o papa”.

A escolha de Charles Michel, actual primeiro-ministro belga, “liberal” (seja lá o que isto for), para presidir ao Conselho Europeu é mais uma cedência ao “establishment” do “politburo de Bruxelas”.

Mas a “cereja no topo do bolo” é a nomeação da nossa bem conhecida Christian Lagarde, um dos rostos da “nossa” Troika de triste memória, para a presidência do Banco Central Europeu.

Para “amenizar” tentam vender-nos a mensagem “politicamente correcta” de dois desses cargos serem, pela primeira vez, ocupados por mulheres, como se o género anulasse a ideologia ou as politicas.

Não é o uso de “sais” que altera as politicas e, neste caso, como em muitos outros, “elas” chegam a esses lugares cimeiros porque se comportam … como “homens”.

Ou seja, embora ainda não esteja tudo definido, é caso para dizer que, na Europa, mudámos de “Mao” para “Piao”, ou, em bom português, de “cavalo para Burro” (ou “burra”, para não ofender o “género”).

Mais um “contributo” para transformar  o “caminho” dos populistas de extrema direita …numa via rápida!

sexta-feira, 10 de maio de 2019

Durão e Passos: Com “amigos” como estes, a “Europa” não precisa de inimigos!



Por ironia do destino, ou talvez não, o Dia da Europa, que ontem se comemorou, ficou marcado pela aparição conjunta de Durão Barroso e Passos Coelho numa iniciativa da Universidade Católica ( a tal que está isenta de pagar os impostos pagos pelas outras universidades…) para assinalar o Dia da Europa.

Não deixa de ser curioso que ambos tenham revelado uma “grande preocupação” pela ascensão dos “populismos” na Europa e se tenham apresentado como “moderados”.

À frente da Europa, Durão Barroso foi uma das figuras que mais contribui para o descrédito do projecto europeu e para o afastamento dos cidadão desse projecto, pela forma como impôs uma austeridade que favoreceu os “mercados” e o corrupto sistema financeiro, em detrimento da qualidade de vida dos cidadãos europeus.

Durão Barroso, o “moderado” , é o mesmo que teve um dos mais indignos actos de falta de ética quando, depois de, em boa hora, ter abandonado a presidência da Comissão Europeia, ter entrado de imediato ao serviço de uma das instituições financeiras que mais beneficiou com a austeridade antissocial que ele defendeu enquanto exerceu aquelas funções.

Durão Barroso foi um dos rostos mais poderosos das medidas tomadas pelas várias “troikas” contra o bem-estar e os direitos sociais dos cidadãos europeus (principalmente na Grécia, em Portugal e na Irlanda, mas também, de forma menos visível, na França, na Itália e nalguns países do leste), contribuindo com ninguém para a ascensão do populismo de extrema-direita que assola o espaço europeu.

Ao tentar pôr no mesmo saco do estafado “populismo” todos os que criticaram as medidas antissociais tomadas durante o seu mandato e aqueles outros que impõem uma agenda de extrema-direita, alimenta a confusão que mais tem contribuído, para a ascensão do verdadeiro populismo, sem esquecer que foram os partidos da família politica de Barroso que legitimaram o discurso da extrema direita ao adoptarem muitas das reivindicações desses mesmos partidos.

E já agora, tendo em conta que uma das situações que mais tem sido explorada, de forma demagógica, por esses populismos, a questão da emigração, convém recordar que grande parte desses migrantes fogem das guerras e dos conflitos que foram fomentados, entre outros, por Durão Barroso, um dos rostos da célebre cimeira das Lajes que levou à Invasão do Iraque, ou durante o seu mandato, como aconteceu como o apoio irresponsável à “Primavera árabe” que conduziu à situação na Líbia e na Síria.

Quanto a Passos Coelho, foi um mero executante e colaboracionistas das acções socialmente criminosas da “troika” em Portugal, indo mesmo “além da Troika”, com todas as consequências sociais, económica e financeiras que são conhecidas.

Comemorar o “Dia da Europa” com aquelas duas figuras é a melhor maneira de dar mais uma machadada no ideal europeu.

Para a "festa" ser completa, só por lá faltaram Portas e Cavaco.

É caso para dizer que, com “amigos” como esses, o projecto Europeu não precisa de inimigos!

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

O“MEL” do “fel”…



A direita ressabiada e saudosa da “troika” reúne-se por estes dias em Lisboa.

Designa-se de “MEL”, mas de ideias…só se for para apanhar moscas!

A conversa é a de sempre: “menos Estado”, “privatizações”, “salários competitivos” (isto é…baixos e sem garantias!), “menos direitos para os cidadãos e mais direitos para as (grandes) empresas”, por estas ou por outras palavras mais "subtis"…

Nada de novo portanto nesta versão “ponto.2” do velho e estafado “compromisso Portugal” onde se “formaram” os “quadros” que aplicaram a receita do “além da troika”…

Indisfarçável foi a forma como se perfilaram, às claras ou em salas à parte, os candidatos a apanhar os restos das canas dum PSD meio desorientado liderado por Rui Rio.

Este “MEL” mais parece um congresso paralelo anti-Rio, dos saudosos do ausente-presente Passos Coelho que espera na sombra aparecer como o homem providencial da direita do “além da troika”…

Enfim, nada de novo, uma direita ressabiada, oferecendo mais do mesmo, disfarçando o seu fel com uma pinceladas de mel!!

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

A Pobreza que produz (cada vez mais) Ricos



“Este crescimento [da União Europeia] não produz riqueza, mas ricos”.

A afirmação é de Sérgio Aires, presidente, desde 2012, da Rede Europeia Anti pobreza numa entrevista ao jornal “Público” (AQUI).

Tendo exercido o cargo voluntariamente, vai agora deixá-lo, revelando nessa entrevista uma enorme desilusão com a forma como a questão da pobreza tem sido encarada pelos burocratas de Bruxelas:

“A pobreza é um problema global.

“As causas da pobreza em Portugal, por exemplo, moram em muitos sítios (…).Mas nenhum Estado-membro [da União Europeia] consegue fazer isso [combater a pobreza] sozinho, sem tomar medidas que vão contra acordos europeus. O pilar [Pilar Europeu dos Direitos Socias, apresentado pela Comissão Europeia [!!!] e subscrito por todos os Estados [!!!!]] pede reforço dos direitos sociais para contrabalançar o desequilíbrio que a economia produziu.

“(…) Se [um país como Portugal, ou outro] diz que vai aumentar o salário mínimo, leva logo um puxão de orelhas. Imagine-se que resolve fazer coisas como reduzir o horário de trabalho ou promover programas específicos de combate à pobreza infantil… É uma grande ironia que se peça, no âmbito do pilar, investimento social aos países e se continue a insistir que o mais importante é cumprir as regras do pacto de estabilidade…”.

Sérgio Aires não pode ser acusado de ser um eurocéptico, até porque considera que, fora do quadro comunitário, o combate à pobreza ainda era mais complicado e a situação muito pior, mas avisa que “a pobreza e a desigualdade” na União Europeia “vão fazer explodir os paióis”.

Refere-se, concretamente, à forma como a extrema-direita populista tenta (e aqui é minha a interpretação) misturar o problema da emigração e dos refugiados com a pobreza dos cidadãos europeus e aproveitar-se da própria ambiguidade dos líderes europeus, que legitimaram o discurso da extrema-direita com a forma como impuseram uma austeridade que apenas aumentou a pobreza dos cidadãos para salvar os mais ricos, ao mesmo tempo que tentaram destruir direitos socias, substituindo-os por uma prática meramente caritativa.

Os “paióis” podem explodir já nas próximas eleições para o Parlamento Europeu, prevendo-se que a extrema direita populista se torne maioritária, o que seria um desastre para o verdadeiro combate à pobreza e para o futuro da União Europeia.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

O Grupo Bilderberg e os “trabalhos” de Rui Rio


Está cumprido o desígnio, traçado para Portugal, pelo influente e semissecreto Grupo Bilderberg em 2008 (sobre este grupo, leia-se o que escrevemos AQUI).

Esse grupo, conhecido por reunir os políticos, jornalistas , empresários e economistas mais influentes do mundo e acusado pelos seus detractores de funcionar como uma espécie de máfia que decide os destinos do mundo, e que costuma convidara e lançar figuras da sua confiança na vida politica, convidou em 2008 duas figuras, então de segundo plano nos respetivos partidos : António Costa e….Rui Rio.

Portuguesas, só costumam ser convidadas figuras do PS ou do PSD. Paulo Portas foi a única excepção.

Portugal tem direito a três convidados, escolhidos até 2015 por Pinto Balsemão, nada mais nada menos que o patrão dos órgãos de comunicação social que mais influencia têm em Portugal na “formatação” da opinião pública e, por isso, com poder para vender políticos com quem vende sabão…

Em 2015 Balsemão foi substituído na tarefa junto daquele grupo por Durão Barroso. O que é um facto é que nunca mais se ouviu falar nas reuniões daquele grupo.

Quando em 2008 António Costa e Rui Rio compareceram naquela reunião especulou-se sobre o destino que o grupo reservava àquelas figuras, falando-se na facilidade de entendimento entre eles para reforçar um bloco central em Portugal.

António Costa é hoje primeiro-ministro, mas talvez em circunstâncias não previsíveis por aquela elite de gente influente, dando-nos alguma esperança de que aquela gente pode ser contrariada democraticamente e os seus objectivos podem ser travados pelas circunstâncias da história,  apesar de todos os poderes manipulatórios que aquele grupo e outros do género (maçonarias , Opus Dei…) têm ao seu dispor.

Mas é um facto que os objectivos da “geringonça” estão praticamente cumpridos, que estamos a pouco mais de um ano de eleições legislativas, que os desentendimentos entre aliados no governo começam a ser frequentes e que um certo estilo “socrático”,  que estava adormecido no PS, começa a reerguer-se.

Ora, a imprevisível eleição de Rui Rio para liderar o PSD  parece surgir num momento chave para iniciar a reconstrução do centrão após as próximas eleições legislativas, até porque a “geringonça” está no limite do equilíbrio entre as imposições da burocracia de Bruxelas e o programa social da esquerda.

Claro que Rui Rio não tem o seu lugar seguro e também existe alguma imprevisibilidade na sua manutenção, já que o “passoscoelhismo” controla o grupo parlamentar e as estruturas do partido.

Rui Rio arrisca-se, caso não obtenha um bom resultado eleitoral, a ser um líder a prazo, abrindo caminho a um regresso triunfal de Passos Coelho e/ou de alguém que lhe seja próximo.

Mas, se as coisas correrem de "feição", com o aval do Presidente da República, que também já esteve em Bilderberg, corre-se o risco de assistirmos ao regresso do famigerado “centrão” de má memória, que nos conduziu à bancarrota “socrática” e ao “austeritarismo” troikista do “passoscoelhismo” e à vitória da estratégia antissocial daquele influente grupo de “opinião”.

Oxalá estejamos errados!


segunda-feira, 6 de março de 2017

A “Ciência” das previsões de Teodora e o “milagre” da “geringonça”.


(Fonte do cartoon: Blog "Barbearia do senhor Luís")
 
O Conselho de Finanças Públicas (CFP) foi idealizado pelo governo do José Sócrates em 2010 sendo oficialmente criado já durante o governo de Passos Coelho, em 2011, pela Lei nº 54 de 19 de Outubro desse ano.

Foi a principal instituição a “credibilizar” as medidas de austeridade impostas pala troika e executadas, para “além dela”, pelo anterior governo.

Muitas das suas funções  e objectivos são idênticos e duplicam as do Tribunal de Contas (TC), não se percebendo a sua criação, a não ser para retirar poder a uma instituição prestigiada e verdadeiramente independente como esse tribunal, na altura liderada por uma figura prestigiada como Guilherme de Oliveira Martins, que não dava garantias de legitimar e aprovar todas as medidas impostas pela troika.

O CFP, pago pelo Orçamento de Estado, garantia igualmente privilégios aos seus dirigentes que escapavam às medidas de austeridade que eles próprios preconizavam e  apoiavam “cientificamente” ,  garantindo uma longevidade nos cargos, de sete anos para a sua direcção, que ultrapassava tudo o que era cargo legitimado democraticamente.

Pouco se ouviu falar dessa instituição ao longo dos anos de austeridade, a não ser pela presença de alguns dos seus funcionários em “universidades” de Verão dos partidos da coligação de direita.

Foi com a chegada de um governo de esquerda ao poder que aquela instituição se tornou mais visível, como uma espécie de “braço armado” do “coelhismo”, assumindo posições publicas que muito extravasavam a sua competência legal.

A sua principal função foi desacreditar, junto da instituições europeias e dos “mercados”, as medidas que o governo da “geringonça” procurava tomar para reverter o descalabro económico e social provocado pela austeridade “troikista”.

Como recordava Francisco Louçã (in Público de 4 de Março de 2017) , Teodora Cardoso, nomeada por Passos Coelho para presidir ao CFP em 2011, funções que estatutariamente têm a duração de sete (!!!) anos, desde logo foi a principal defensora da “estratégia de cortes estruturais com a troika, chegando a declarar que o programa do PSD-CDS era “prudente, credível e fundado na melhor e mais sofisticada ciência económica” e que por isso a sua ideologia, a “racionalidade”, a levava a saudar estas medidas “científicas””.

Ao longo do último ano ouvimos várias vezes a dita senhora debitar várias opiniões e lançar várias previsões económicas e financeiras, baseadas na tal “cientificidade” das previsões, opiniões essas que nos custaram graves consequências em juros e em desconfianças dos “mercado”, mas as quais, todas elas, quando puderam ser confrontadas com a realidade, se revelaram falsas e erradas.

Onde o CFP contestava a previsão do governo para 2016 de um crescimento do PIB de 1,8%, defendendo um máximo de 1,7% (!!!!), a realidade revelou-se muito mais positiva, pois, segundo o INE, tivemos um crescimento de 2% no PIB.

Onde o mesmo CFP via uma taxa de desemprego “optimista” por parte do governo, para 2016, de 11,4% , e defendia que ela se ficaria por 11,6% , a realidade trocou mais uma vez as voltas àquela instituição, ficando-se nos 10,5%.

Se é já de si ridículo discutir diferenças de décimos, como grandes “erros” de previsão da geringonça  em relação aos da CFP, mais grave foi a constante tentativa de descredibilizar o grande feito deste governo que foi o de ter baixado o deficit orçamenta para 2,1% ,abaixo mesmo das previsões mais optimistas , atribuindo-as a um “milagre”.

Ou seja, os defensores da cientificidade das suas previsões, todas erradas, vêm, na realidade que as desmente, um mero milagre!!!

A resposta à altura foi dada pelo presidente da República: “Milagres este ano em Portugal só vamos celebrar um que é o de Fátima para os crentes, como é o meu caso, tudo o resto não é milagre. Saiu do pelo e do trabalho dos portugueses desde 2011/2012”.

Com tanto erro de previsão, parece-nos que a única saída ética para a actual direcção do CFP  só pode passar pelo seu pedido de demissão.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

As “vantagens” de Trump.


E se o “trumpismo” não nos trouxesse apenas um mundo mais negro e desumano?
E se houvesse vantagens na Era Trump, como uma espécie de vacina contra o populismo e o neoliberalismo?
Á partida há quem saia beneficiado: os cartoonistas:estes têm “pano para mangas” e tema para explorar por quatro anos.
Mas a Europa também pode sair beneficiada, unindo-se em defesa do verdadeiro liberalismo ( renegando de vez essa caricatura ridícula e perniciosa que dá pelo nome de neoliberalismo), em defesa das minorias, em defesa do Estado Social, em defesa da igualdade de direitos, em defesa dos direitos humanos, para combater as ideias absurdas de Trump. Claro que para isso será necessário varrer os actuais lideres das instituições europeias, sempre pronto a negociar ou condescender com os projectos populistas de Trump se isso se  lhes der lucro, ou por mera cobardia política.
Foram os actuais líderes da União Europeia (juntamente com o poder financeiro mundial) que deram argumento ao populismo e lançaram para os braços da extrema-direita populista  uma parte considerável dos cidadãos europeus, quando lançaram o norte contra o sul, tentaram destruir o Estado Social, retiraram direitos a quem trabalha, aumentaram a desigualdade entre ricos e pobres, desvalorizaram salários e pensões, para salvar o negócios obscuros da banca e do mundo financeiro.
Outra vantagem é aproveitar a retórica trumpista contra a globalização e forçar uma mudança nas relações económicas e financeiras em que assentou, durante as últimas décadas,  o actual modelo de globalização.
Um mundo globalizado não pode ser um mundo da pura selvajaria humana, ambiental e económica criado por este modelo de globalização.
Existem alternativas ao actual modelo de globalização que não seja o nacionalismo proposto por Trump e pelos seus seguidores europeus.
O actual modelo de globalização está ferido de morte pelas atitudes de Trump, mas tem de ser substituído por outro, ou cairemos todos no ódio e na intolerância nacionalista para onde o novo presidente norte americano pretende levar-nos.
A alternativa passa por reformar e reforçar o poder e a influência de organizações internacionais, com a ONU à cabeça, mas que deve ter em conta recomendações a acções da OMT, UNICEF, OMS, UNESCO, entre tantas outras.
O poder financeiro deve submeter-se à melhoria das condições de vida das populações e das condições ambientais do planeta e por isso é preciso reformar o FMI, o Banco Mundial, e quejandos, varrendo-as da influência dos actuais burocratas que as lideram, meros empregados do grande poder financeiro.
A alternativa passa também por rever as regras do comércio mundial, combatendo o dumping social. Aqui a Europa pode dar o exemplo, desfazendo os paraísos fiscais que ainda existem no seu solo, obrigando quem exporta para Europa a cumprir requisitos ambientais, socias e fiscais, idênticos àqueles que são exigidos aos cidadãos e empresas europeias, combatendo a desigualdade nas suas mais variadas vertentes e reforçando a Europa Social.
Sé assim a Europa pode, mais uma vez, ser a alternativa aos modelos desumano que Putin, Trump, a ditadura chinesa e o corrupto sistema financeiro mundial pretendem impor aos cidadãos do mundo.
Só assim a Europa pode fugir a uma nova partilha em zonas de influência que esses mesmos modelos ambicionam.
Mas para isso é necessário alterar profundamente o modelo político e as instituições europeias, um trabalho moroso e penoso, mas que pode e deve unir os cidadãos que ainda acreditam na Europa como um espaço exemplar de igualdade, cidadania, respeito pelas minorias e pelo ambiente, enfim, um espaço de verdadeira democracia e liberdade, exemplar para um mundo cada vez mais desesperado.

A luta contra o absurdo de um mundo partilhado por Trump, Putin e a burocracia chinesa, pode ser o último alento para unir os Europeus e salvar o projecto europeu.
"Só" nos falta um Churchil e um DeGaulle...!!

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Mário Soares, “anti-TINA” antes do “TINA!


TINA =  “There Is No Alternative” (“Não há alternativa”).
A frase é atribuída a Margaret Thatcher que a usou para justificar as suas políticas  para destruir o Estado Social britânico, destruir os direitos sociais dos trabalhadores do seu país e, desde então serviu de mote para lançar a aventura neoliberal que conduziu o mundo e a humanidade à desastrosa e dramática situação actual.
Por cá a frase ganhou relevância nos anos da Troika e ainda continua a ser usada pelos defensores das políticas anti-sociais então levadas a cabo para justificar a destruição do nosso já de si rudimentar e frágil Estado Social, retirar direitos socias aos trabalhadores e cidadãos e fragilizar o factor trabalho.
O “TINA” é o único programa político económico e social que é proposto aos cidadãos europeus pelo actual “politburo de Bruxelas” (BCE, Eurogrupo, Comissão Europeia, Eurofine, Conselho Europeu…) e que tem vindo a destruir alguns dos aspectos mais benéficos da União Europeia, como o Estado Social, a solidariedade político-cultural e a economia social que estiveram na sua origem.
Mas a “filosofia TINA” é muito anterior ao thatcherismo e serviu de mote e justificação a todo o tipo de barbaridades cometidas contra a humanidade ao longo dos tempos.
Nesse sentido podemos ver no percurso de Mário Soares uma coerente e precursora atitude “anti-TINA”.
Quando, em Portugal,  a situação mais confortável e segura, até para garantir carreira e emprego, era , no mínimo fazer a “vidinha” ignorando a ditadura salazarista ou, no máximo, colaborar com esta, porque “não havia alternativa”(“TINA”!!), Mário Soares colocou-se no lado certo da história sujeitando-se, durante mais de 50 anos da sua vida, a perseguições, prisões, deportação e exílio, em vez de ir à sua “vidinha” de advogado com uma carreira prometedora e rentável.
Quando, por outro lado, no fim do regime, a única oposição organizada e viável parecia ser a que era preconizada pelo PCP (o “TINA” da maior parte da oposição), Mário Soares arriscou fundar o Partido Socialista e romper um certo unanimismo no seio da oposição.
Quando, depois do 25 de Abril, e principalmente depois do 11 de Março, o futuro do novo regime parecia oscilar entre, por um lado, um regime de tipo cubano, um novo satélite soviético ou uma nova Albânia  achinesada ou, por outro lado, uma guerra civil ou uma nova ditadura militar à “Pinochet”, Mário Soares, rompendo mais uma vez com o “TINA”, defendeu a democracia e a liberdade como futuro, mesmo aliando-se muitas vezes a gente pouco recomendável, nem sempre da melhor maneira, por vezes solitário.
Já com a  jovem democracia a denotar alguma fragilidade, contra os que achavam o país condenado à pobreza e ao terceiro mundismo, como defendiam os defensores do TINA de então , e remando mais uma vez contra ventos e marés, e mais uma vez nem sempre da melhor maneira, conduziu o país para a integração na então CEE.
Foi ainda num clima que lhe era fortemente adverso, onde mais uma vez os profetas do TINA de então lhe vaticinavam uma humilhante reforma da política (já tinha então quase 65 anos), mais uma vez, enfrentando uma conjuntara que lhe era desfavorável, mesmo dentro seu partido, conseguiu o que parecia impossível, o apoio do voto comunista, e ganhou as eleições presidenciais.
Já nos últimos anos da sua vida tornou-se um critico activo e feroz do “tinismo” dominante dentro e fora de fronteiras, tendo-se antecipado a muitos nas criticas à decadência e desvirtuamento do projecto europeu e contra a política socialmente criminosa da Troika em Portugal.
Curiosamente esta última fase da sua trajectória política tem sido cirúrgica e cinicamente escamoteada pela maior parte dos comentadores televisivos e na imprensa, atitude que não será de estranhar se tivermos em conta que as direcções da maior parte da comunicação social estão nas mãos de conhecidos propagandistas do “TINA” (honra seja feita ao diário “i” que hoje publica a última entrevista de Soares, dada àquele jornal em 2015, e recorda as últimas acções políticas e publicas de Soares em defesa de uma aliança à esquerda contra a nova direita radical  neoliberal).
Até no “anti-tinismo” recente Mário Soares soube estar à frente o seu tempo.
É caso para dizer: Morra "o" "TINA", Morra!,….viva Soares!!!

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Sobre o "salário" dos gestores bancários: não é demagogia, é indignação...


Se há tema que se presta à mais boçal e reles demagogia é o dos salários e pensões.

A estratégia de troika e do governo anterior foi ampliar essa demagogia, lançando assalariados do privado contra assalariados do público, trabalhadores precários contra trabalhadores com contrato estável, trabalhadores desqualificados contra trabalhadores qualificados, trabalhadores jovens contra trabalhadores mais velhos, trabalhadores no geral contra pensionistas, desempregados contra quem trabalha (e vice-versa), sempre jogando com a argumentação das diferenças de salários, de horários ou de regime de pensões.

 O objectivo era justificar os constantes cortes nos salários, nos direitos socias e nas pensões e o aumento “brutal” dos impostos pagos pelos assalariados, tudo para se poder salvar um sector bancário corrupto e especulativo.

À frente dessa “cruzada” demagógica, para além dos burocratas da troika e de Bruxelas e dos governantes de então, encontrava-se todo um enxame de “gobelzinhos” bem pagos na comunicação social para propagandear até à exaustão os “princípios” dessa gente (com os comentadores de economia à cabeça). Alguns foram premiados com a direcção de jornais de referência (como aconteceu recentemente no Diário de Notícia e agora no Público).

Era igualmente frequente vermos todos os dias nas televisões , como comentadores ou como participantes activos em colóquios vários, a maior parte dos nossos banqueiros e gestores da banca e de grandes empresas, defendendo diariamente esses cortes nos salários, nas pensões e nos direitos sociais (destacando-se o célebre “bando” do “compromisso Portugal”, hoje substituído pelo “Fórum para a Competitividade”).

O argumento usado era o de que os portugueses, principalmente os assalariados e os pensionistas, viviam “acima das suas possibilidades” e até houve um banqueiro que teve o desplante de considerar que os portugueses aguentavam ainda mais cortes (a célebre frase de Ulrich do “Aguenta, aguenta!!!”).

Por estes dias ficámos a saber quem é que de facto, em Portugal, vive acima das possibilidades do país, os mesmos banqueiros que exigiriam que aguentássemos, e que beneficiaram com os empréstimo da troika que todos estamos a pagar e com os sacrifícios de todos com cortes nos salários e nas pensões e com o “brutal” aumento de impostos.

Mas, se a questão dos salários e das pensões se presta à mais boçal demagogia e ao mais perigoso populismo, a questão do salários e pensões dos banqueiros foge ao âmbito desse rótulo. Neste caso estamos mesmo no reino da mais legitima indignação.

Os salários que essa gente aufere roça o nível da corrupção ética.

Contudo, pessoalmente, nada tenho contra os salários pagos pelo privado aos seus gestores, desde que essas empresas cumpram os requisitos que o jornalista José Vitor Malheiro enumerava em crónica recente (ler AQUI):

“As empresas cumprem o seu papel social e assumem a sua responsabilidade social quando cumprem as leis, quando pagam os seus impostos sem usar subterfúgios, quando criam emprego e promovem a formação profissional, quando tratam e remuneram com decência os seus trabalhadores, quando apostam no desenvolvimento sustentável, quando tentam oferecer aos seus clientes os melhores produtos e serviços, quando assumem responsabilidade pelos seus erros e os corrigem, quando apostam na investigação e desenvolvimento”.

Ora quando falamos de bancos não é disso que falamos.

Para além disso, a maior parte da banca tem recebido do Estado várias ajudas nos últimos tempos e a maior parte delas à custa do bem-estar dos cidadãos contribuintes, pois são estes que têm de pagar o “processo de ajustamento” desses bancos. Ou seja, a maior parte da banca portuguesa recorreu a ajudas estatais para sobreviver e para pagar as aventuras especulativas em que se envolveu, e a conta é paga pelos cidadãos através dos cortes nos salários e nas pensões e pelo “brutal” aumento de impostos sobre o trabalho, bem como através da destruição do “estado social” e da perda de “direitos socias”.

Para além disso, esses bancários são os mesmos que opinam, para criticar, os aumentos dos salários mínimos e das pensões mais baixas, para além de defenderam a continuidade de medidas de austeridade.

Há ainda que não esquecer os estratagemas que essa mesma banca e esses mesmos gestores usam para escapar ao pagamento de impostos, recorrendo ao serviço de paraísos fiscais.

Por isso, o salário dos gestores desses bancos não é um mero assunto de “moral”, ou mesmo de populismo e demagogia, mas é um assunto que diz respeito a todos os cidadãos, principalmente os que pagam os seus impostos e sofreram cortes no seu rendimento.

A situação é ainda mais escandalosa quando se fala da situação de gestores de empresas públicas, e não colhe a desculpa da necessidade de ´para que os bens públicos sejam bem geridos, ser necessário pagar bem, pois o mesmo argumento podemos usar para pagar aos professores, aos médicos e a outros profissionais da administração pública.

Tenho por mim que o Estado, neste caso, deve dar o exemplo, limitando os salários em qualquer função àquilo que se passa nas carreiras públicas.

A referência primeira devia ser o salário do Presidente da República e a referência segunda, o que se passa com a carreira dos professores universitário. Um Professor catedrático no topo da carreira e em regime de exclusividade recebe um salário de 5mil e quatrocentos euros, descontando à cabeça mais de 1/3 deste valor para impostos vários.

Não há função mais exigente do que a de catedrático do ensino superior, por isso parece-me uma referência justa.

Mas o mais estranho disto tudo é o silêncio demasiado ruidoso de comentadores e políticos, que se revelaram tão preocupados com o aumento do salário mínimo e das pensões mas que, sobre este tema, nada dizem, a não ser para justificar a “excepção”.

A mesma admiração é extensível a instituições como a Troika, o FMI, o BCE ou a Comissão europeia, que tão preocupados se mostraram com o “grande aumento” do salário mínimo e das pensões ou com a reversão de algumas medidas de austeridade.

Haja decência!!!

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Ferreira Leite questiona esta “Europa”.


"Enquanto houver tratado orçamental, Portugal [e outros países europeus que estão na mesma situação] não vai crescer".
Quem fez essa afirmação foi a antiga Ministra das Finanças e ex-lider do PSD, Manuela Ferreira Leite, durante a  conferência "Economia de Pobreza", que ontem se realizou em Lisboa no Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza.
Manuela Ferreira Leite realçou ainda que "a política europeia tem sido a causa da desgraça" em Portugal "e em toda a Europa".
O Tratado orçamental, recorde-se, impõe uma deficit de 3%, mas é a questão do déficit estrutural que levanta mais polémica, dada a quase impossibilidade de o calcular com rigor.
Também a questão dos 3% do deficit não é consensual, primeiro porque os grandes países da União Europeia, como a França ou a Alemanha, nem sempre o cumprem, dependendo das suas necessidades, e nunca foram penalizados por isso, como, por outo lado, aquela percentagem não tem qualquer base científica, isto é, porque 3% e não, 2% ou 5%???
Além disso, como aquela percentagem é calculada em relação ao PIB, quando o PIB desce ou estagna, como acontece com os países que têm adoptado as medidas de austeridade impostas pela troika, aquela percentagem sobe. Se houvesse medidas de desenvolvimento económico e social, o PIB seria maior e o mesmo valor representava uma percentagem menor.
Ao contribuírem para a estagnação, as medidas impostas pela troika fizeram cair o PIB, aumentar a dívida e o deficit, aumentando a pobreza e o desemprego, entrando-se assim num círculo vicioso do qual um país intervencionado não consegue sair.
Neste momento, sem se questionar a saída do euro ou as medidas impostas por Bruxelas, apenas têm existido duas vias, ou aceitar tudo o que é imposto por Bruxelas, indo mesmo “além da troika” , aproveitando-se a situação para impor um programa ideológico neoliberal que destrói direitos e obrigações sociais, que foi oque fez Passos Coelho, ou tenta-se negociar com Bruxelas no fio da navalha, procurando “redistribuir” a austeridade e retirar as medidas meramente ideológicas impostas pelo “além da troika”,  mas mantendo a economia quase estagnada, que é o que o actual governo está a fazer.
Contudo, a manter as actuais medidas e continuando a impor o “tratado orçamental” da forma cega como o tem feito o politburo de Bruxelas vai agravar a situação de países como Portugal .
Por isso,  questão é, cada vez mais,se será este o projecto europeu que interessa aos cidadãos europeus, àqueles que produzem, trabalham e pagam os seus impostos,  que não estejam do lado do corrupto sector financeiro que é o único beneficiado com tais políticas ???
Questionar a burocracia de Bruxelas e as políticas que impõe aos cidadãos é cada vez menos uma questão meramente ideológica, de direita ou esquerda, mas é cada vez mais uma questão de bom senso e inteligência, se é que se quer salvar o projecto europeu.