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quarta-feira, 28 de março de 2018

Como desviar as atenções da consequência do Brexit

Em situações mal esclarecidas e pouco claras, como a tentativa de assassinato de um antigo espião russo em solo britânico, a pergunta que faço, em primeiro lugar, é: a quem interessa essa acto?

Até agora não existem provas credíveis sobre a origem desse crime ignóbil, embora a resposta mais óbvia e mais fácil seja acusar Putin por estar detrás desse atentado às relações internacionais.

Quando, sem provas credíveis, se lança de imediato uma acusação, não baseada em provas credíveis e concretas, recorrendo à velha técnica segundo a qual “uma mentira várias vezes repetida se torna verdade”, com acusações ao “suspeito do costume”, devemos manter todas as nossas reservas sobre qualquer conclusão apressada.

É sempre bom recorrer aos exemplos da História, como o caso do incêndio do Reichtag ou, bem mais recente, o caso das célebres armas de “destruição maciça” de Saddam.

Em ambos o caso a técnica foi a mesma:

- encontrar um acusado “credível”, os “comunistas” no caso alemão [até puseram no lugar um louco de passado comunista], um ditador sanguinário, no caso do Iraque;

- apresentar “provas” “credíveis”, que consigam enganar toda a gente, explorando receios e preconceitos ideológicos, repetindo a “mentira” da “prova” até esta se tornar verdade;

- diabolizar os que duvidam dessas “provas”, acuasando-os de serem mal informados ou aliados de ideologias assassinas e de ditadores, impedindo assim, pela “superioridade moral”, qualquer tentativa de análise contrafactual.

Em situações como a do caso britânico, a pergunta não deve ser se Putin era capaz de o fazer, mas em que é que esse acto o beneficiava, a não ser que se considera Putin um idiota.

A resposta a esta última questão é a de que Putin era capaz de o fazer, mas em nada podia beneficiar com esse acto, porque, pode-se não gostar de Putin e de tudo o que ele representa, e nós já aqui escrevemos várias vezes que não gostamos, mas ele não é um idiota.

O crime ocorreu em plena campanha eleitoral russa, e a sua divulgação só podia prejudicar a sua eleição.

Por outro lado, numa situação de crescente isolamento da Rússia, devido ao caso Ucraniano e à sua intervenção na Síria, não lhe interessava agravar essa situação.

Por último, se Putin estivesse interessado em mostrar a sua força face ao “ocidente” tinha outras formas mais sofisticadas e credíveis de o fazer.

Até agora não existe uma prova credível do envolvimento russo nesse condenável acontecimento e tudo o que tem acontecido é atirar areia aos olhos da opinião pública.

Então quem ganha com esta situação?

Sem duvida o poder politico britânico, que assim pode desviar as atenções do descalabro a que está a conduzir o país, numa altura em que decorrem as negociações do Brexit.

Claro que isto não quer dizer que tenham sido os serviços secretos britânicos. Mas existe um claro aproveitamento politico de certos sectores políticos britânicos para ganharem credibilidade internacional à custa deste lamentável caso.

Por detrás deste caso podem estar serviços secretos de países inimigos da Rússia,  máfias russas, "putinistas" descontrolados, adversários internos de Putin ou quem queira agravar a já de si pouco credivel diplomacia russa.

Tudo é possível, mas só um inquérito independente, que explore, sem preconceitos, todas as hipóteses, e sem explorar apenas a pista dos “suspeitos do costume” é que pode tornar credível uma explicação para a situação.

Até lá, todas as conclusões e todos os aproveitamentos políticos da situação só servem para destruir [convenientemente ?...} provas e agravar a já de si muito perigosa situação internacional.

segunda-feira, 19 de março de 2018

Putin, um “Frankenstein” criado pelo “ocidente”.



Foi o "ocidente" que "criou" Putin.

Em muitos aspectos, a ascensão de Putin tem paralelo com a ascensão de Hitler nos anos 30.

Claro que os tempos são diferentes, a retórica é diferente e, felizmente, Putin não é (ainda?!!!) um “novo Hitler”.

Mas os erros cometidos pelo “ocidente” com a Rússia pós-soviética foram muito semelhantes com os erro cometidos pelos aliados vencedores da primeira-guerra em relação  à Alemanha.

Os “aliados” humilharam a Alemanha com o tratado de Versalhes. O “ocidente” humilhou da mesma maneira a Rússia derrotada na “Guerra Fria”.

A forma como o “ocidente” expandiu a NATO para as fronteiras da Rússia e como apoiou todos os movimentos de autonomia para criação de Estados falhados (como a Bielorrússia, a Geórgia, o Cazaquistão, a Moldávia ou a Ucrânia, entre outros) à custa da desagregação da Rússia, contribuiu para a humilhação dos russos. Curiosamente os argumentos usados pelo “ocidente” a favor dessas independências contra-natura, tanto no caso Russo, como no caso da Jugoslávia, parece que já nãos servem a esse mesmo “ocidente” nos casos da Catalunha, da Flandres ou da Escócia (embora as opiniões tenham vindo a mudar neste último caso, mas agora porque querem humilhar  a Grã-Bretanha do Brexit…).

Também a forma como o ”ocidente” pactuou com o descalabro económico da Rússia pós-soviética, negociando com os oligarcas e as máfias que se expandiram à custa da corrupção e do descalabro social e económico desse país, em muito contribuíram para desacreditar o “modelo ocidental”.

Curiosamente os políticos e empresários ocidentais nunca se interrogaram sobre a origem desses oligarcas e das suas fortunas, a maior parte deles, curiosamente, antigos responsáveis pelo aparelho de estado soviético, agora convertidos ao capitalismo selvagem.

Com o desemprego e a pobreza a expandirem-se rapidamente pela Rússia, chegando mesmo a assistir-se a um fenómeno raro na transição do século XX para o século XXI, como o drástico retrocesso na esperança média de vida nesse país, era óbvio que, tal como aconteceu na Alemanha pós-primeira guerra, o caminho estava aberto para o aparecimento de um “salvador”.

Que essa “salvador” seja, por agora, Putin, até é uma sorte para o “ocidente”.

Hoje, mesmo com fraudes pontuais, é obvio que Putin tem o apoio da maior parte dos russos que, mesmo repudiando o comunismo e a era soviética, já colocam Estaline num pedestal, sendo até muito mais popular que Lenine ou Gorbachev.

Até no caso da anexação da Crimeia e da participação da guerra da Síria podemos ver, pesem as diferenças, semelhanças com a história da ascensão de Hitler ao poder.

Na Crimeia podemos ver semelhanças com a crise dos Sudetas, quando Hitler ocupou parte da Checoslováquia dominada por populações de origem alemã.

Na Síria “repete-se” a situação da Guerra Civil espanhola, usada pelos nazis para ensaiar novo tipo de armas, tal como acontece hoje na Síria como os russos.

Recorrendo à humilhação , à corrupção e até à manipulação informativa ( tal como repetem hoje em relação à Grã-Bretanha do Brexit) os políticos ocidentais parece que desconhecem a história do continente  e da civilização que dizem defender, chocando os “ovos das serpentes” que um dia, se não arrepiarem caminho, nos podem “devorar” a todos!

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

NOS ÚLTIMOS DIAS DA UNIÃO SOVIÉTICA – 5 (conclusão)– (Agosto de 1991) Regresso a Moscovo .


Chegámos a Moscovo por volta da 7.30 do dia 3 de Agosto de 1991.

Voltámos ao hotel “Saliut” (Fogo de Artifício). Depois do pequeno-almoço, voltámos à Praça Vermelha.


O ambiente em Moscovo pareceu-me mais alegre, menos frio e triste do que na semana passada, Talvez seja do sol e do calor de Verão que se faz sentir.

Também me parecia haver mais gente nas ruas e maior variedade e quantidade de produtos à venda. Será porque é principio do mês e de férias? Ou será que já nos habituámos ao ritmo de vida soviético?

Dei uma volta pelos “armazéns do povo”, o GUM. Havia segurança reforçada, provavelmente por causa da visita de George Bush. Cruzamo-nos com grandes grupos de turistas espanhóis.

Na Praça Vermelha passou por mim um grupo de indivíduos bem vestidos, a serem filmados e das entrevistas à televisão. A figura em destaque no grupo pareceu-me o Boris Ieltsin, presidente da República soviética da Rússia, mas não tenho a certeza. Tentei indagar junto de um dos elementos da comitiva, mas este olhou para mim com se tivesse visto um extraterrestre e continuou o seu caminho.

Muitos noivos recém casados escolhem a Praça Vermelha para as fotografias.

No centro da Praça existe um murete circular, onde eram decapitados os inimigos dos czares. Hoje as pessoas atiram moedas da o interior do murete e fazem um desejo.

De vez em quando ouvem-se os apitos da policia a abrir alas para deixar passar carros topo de gama em alta velocidade que entram para lá dos muros do Kremlin.

Regressamos ao hotel para almoçar. Eu vim carregado com um saco cheio de bonitos crachats, com símbolos soviéticos e outros motivos menos políticos.

 Custou-me tudo, no GUM, cerca de 60 rublos, uns 300 escudos [hoje pouco mais de uns euros].

À tarde fomos visitar o Museu de Arte Pushkin, com uma colecção de arte temporariamente bastante abrangente, da arte Suméria aos Impressionistas europeus.

Uma sala reproduzia em tamanho natural vários monumentos e  objectos de arte da Suméria, do Egipto, da  Grécia, …até ao renascimento Italiano, tudo com uma preocupação didáctica.

Tinha muitos outros objectos, este originais, de arte egipcia, incluindo múmias e sarcófagos.

Uma sala exibia uma variada e valiosa colecção de pintura russa.

Mas o que mais me entusiasmou foi a sala com originais da pintura vanguardista europeia, do final do século XIX ao principio do século XX: Cezanne, Gauguin, Kadinsky, Matisse, Picasso, Paul Klee e Miró. Picasso  e Matisse tinham uma sala cada um, totalmente dedicada à sua pintura. Também vimos uma obra original, mas inacabada, de Toulouse-Lautrec.

Voltámos ao Hotel por volta da 17.30, todos bastante cansados.Eu ainda aproveitei para dormir antes do jantar.

Hoje ficámos pelo Hotel e aproveitarmos para recuperar da noite mal dormida da viagem da noite anterior e da “andarilhação” do dia.

Manhã do dia 4 de Agosto.

A manhã inicia-se com a visita ao Túmulo de Lenine, na Praça Vermelha. Havia uma longa fila para entrar e muita segurança. O ambiente era pesado, e avisaram-nos que era proibido tirar fotografias e tínhamos de visitar o túmulo na máxima ordem e em silêncio. O interior do túmulo de mármore preto e vermelho é impressionante pela sobriedade e pela luz difusa. O corpo embalsamado de Lenine encontra-se no interior de uma vitrina, guardada por quatro soldados estáticos. É um ambiente pesado e solene. Parece a entrada de um túmulo egipcio. Ao que se diz, Lenine nunca quis este túmulo, preferindo ser enterrado junto da sua mãe. Contudo o culto da personalidade imposto por Stalin acabou por não respeitar o desejo do primeiro líder soviético.


À saída, ao ar livre, no seguimento do edifício do túmulo, passamos pelos túmulos de outrso líderes soviéticos, como os respectivos bustos. Lá estão Stalin, Brezenev, Tchernenko, Andropov, entre outros. Em gavetões junto aos muros do Kremelin estão outras personalidades ligadas à revolução ou aos feitos emblemáticos do regime, do escritor John Reds a Gagarin e outros astronautas.

Fomos depois vistar a Igreja de S. Nicolau, uma dos mais emblemáticos monumentos da praça vermelha, com as suas cúpulas coloridas. O interior está coberto de ícones pintados a fresco.

Almoçámos no Hotel Russia nessa mesma praça.

Depois do almoço dei uma volta a pé pelas redondezas da Praça Vermelha, bebi uma pepsi-cola num café, andei a ver os quiosques que vendem de tudo, idênticos a tantos outos  espalhados pela cidade. Apesar de inestéticos, são o embrião da crescente iniciativa privada permitida pela Perestroika e complementam as faltas que se fazem sentir nas lojas estatais.

Embrcamos depois numa viagem pelo rio Moskva (Moscovo), ficando com outros panorama da cidade. Embora as vistas nãos sejam tão interessantes como as que tivemos na viagem no rio de Kiev, observámos a existência de muitos espaços verdes, alguns cheios de gente que os utilizam com se fossem praias. Muita gente a circular pelos jardins desses espaços, em fato de banho, a apanhar sol ou a banhar-se no rio.

Voltámos ao Hotel para jantar e de seguida, com outras pessoas do grupo, fomos viajar de metros até a Praça Vermelha para a ver iluminada. É um belo espectáculo, com estrelas iluminadas, todos os edifícios cheios de luz e muita gente a passear.

Regressando ao Hotel. A televisão do quarto tem acesso a quatro canais. Num deles passa a série pirosa “O Barco do Amor”, dobrado em russo. Filmes e séries televisivas são dobradas, mas com uma característica diferente da que conhecemos.

 O som original e as conversas originais passam em fundo, e a dobragem é feita oralmente por cima do original, o que gera alguma confusão.

Hoje é domingo, 5 de Agosto de 1991 e é o nosso ultimo dia na União Soviética.

O dia é livre e resolvi aproveitar para visitar Moscovo por minha conta, usando o metro para me deslocar.

Tinha feito um roteiro com as estações de metro mais icaracteristicas e com as que íam ao lugares mais interessantes.

Comecei pelo metro que me levou às respectivas  casas museu Tolstoi e Puskin, pois ficam práticamente em frente uma da outra.

Tolstoi, o autor da Guerra e Paz, tem no museu com o seu nome vários objectos de uso pessoal, manuscritos, quadros e fotografias.

O mesmo sucede com a casa Pushkin, um poeta importante da União Soviética.

Os palacetes dessas casas-museu são bastante bonitos, com tectos ricamente cobertos de pinturas.

Depois dessa visita, aventurei-me sozinho para visitar 15 estações de metro eu tinha escolhido previamente.

O preço de cada viagem era uma pechincha, o que me permitia sair à rua, para observar as redondezas, e voltar para pagar outra viagem. Aqui não existe bilhete, entra-se no metro colocando uma moeda.

Num dos lugares onde sai à rua, deparei-me com o famoso edifício sede do KGB, com um ar algo sinistro.

Para me orientar, porque as indicações estavam todas em russo, tinha que perder algum tempo a comparar os nomes, letra a letra e depois procura a  linha correcta. E lá me desenrasquei.

Não há praticamente uma estação igual, todas ricamente  decoradas , uma espécie de catedrais subterrâneas, o orgulho dos moscovitas.

As estações dão quase todas coberta de mármore, com grandes candeeiros de belo design, algumas com pinturas em mosaico ou esculturas. As mais bonitas são as das estações de “Kiev” e “Leninegrado”.

Voltei a atravessar a pé a Praça Vermelha para ir almoçar ao Hotel Russia e, depois de me despedir dessa praça, que vou ver talvez pela última vez na minha vida, voltei a apanhar metro até à Rua Arbat, que percorri detrás para a frente várias vezes.

Aí voltei a encontrar de tudo. Muita gente a vender artesanato, entre o qual as célebres Matrioskas, das tradicionais à mais originais com temáticas várias, músicos a tocar vários tipos de instrumentos e géneros, artistas plásticos expondo e/ou vendendo os seus trabalhos (alguns, provavelmente, serão famosos daqui a uns anos..), acções de protesto contra a situação politica na União Soviética, muitos artistas a pintar retratos ao vivo, caricaturistas e, principalmente, muita gente, turistas ou não (hoje é Domingo).

É uma rua difícil de descrever, uma feira da ladra em ponto grande.

Nas ruas aparecem muitas pessoas a vender latas de caviar e garrafas de vodka. Comprei duas garrafas a uma velhota, com aspecto de camponesa. Só provei o vodka em Portugal e foi o melhor que até hoje provei.


O dia terminou com o regresso ao hotel e um jantar de despedida, com champagne e bebidas típicas da Rússia, incluindo ainda um espectáculo de folclore russo, com cossacos a dançar e a musica alegre típica destas paragens.

Amanhã levantamo-nos às 4 da manhã, saímos do Hotel por volta das 5 horas (três em Portugal) para irmos para o aeroporto para a viagem de regresso a Portugal.

Cheguei a Lisboa por volta da 11 horas da manhã  do dia  de Agosto de 1991 e, só aqui, fui incomodado pela policia que, no aeroporto, me mandou sair do grupo e me levou para um gabinete para revistar cuidadosamente a minha mala. Pensava que era por causa das garrafs de vodka que trazia, mas o problema deles era como os gorros russos, que foram revistados e revirados várias vezes. Finalmente deixaram-se sair….ero o belo país do “cavaquismo”…

Esta viagem não teria sido possível se não tivesse sido desafiado pelas minhas colegas e amigas Noémia Santos e Paula Viegas, com quem partilhei alguns dos momentos acima descritos.

No grupo, nós os três e o Carlos de Alcochete, que conheci na viagem, eramos os mais novos. O resto do grupo era composto por gente mais velha (talvez com a idade que tenho hoje, mas alguns a rondar os 80), algumas pessoas já tinham feito a viajem uns vinte anos antes.

O ambiente que se respirava entre as pessoas com que nos cruzámos na União Soviética era de mudança e esperança.

A liberdade começava a fazer o seu percurso e, se o caminho a fazer podia ter sido diferente, o que era evidente é que ninguém pretendia voltar para trás.

Foi isso que, cerca de 15 dias depois de termos deixado aquele país, um grupo de militares caquéticos e stalinistas não percebeu e, ao  tentar afastar Gosbachev do poder, apressou, com esse acto irresponsável, o fim de um regime que já não tinha fôlego para dar às pessoas uma vida melhor e digna.

A história daquele país deu, desde então muitas voltas, e hoje volta a viver um impasse.

A única certeza  é que o mundo que visitei naqueles dias de 1991 desapareceu de vez.

Ficam as recordações que, por aqui, com base num diário que então escrevi, tentei reproduzir o mais fiel possível à forma como senti esses momentos de pura descoberta, num mundo que era totalmente diferente do que conhecia até então.


terça-feira, 14 de novembro de 2017

Nos Últimos Dias da União Soviética – 3 – Minsk, Julho de 1991


Fim da tarde do dia 28 de Julho de 1991. Estamos no aeroporto de Kiev para apanhar o voo para Minsk, próxima etapa da nossa viagem, com partida prevista para as 18.40.

Durante a espera conheci um jovem guineense que estava em Kiev a estudar direito internacional e viajava, como nós, para Minsk, que ficou contentíssimo por poder falar português.

O avião em que viajamos era um pequeno bimotor, movido a hélice, de 50 lugares, estremecia muito, o céu estava muito nublado, o que para mim, ainda pouco à vontade a voar, tornou a viagem um pouco assustadora, estando sempre a tentar ver os sinais dos passageiros habituados àquele voo. Se estivessem descontraídos, era porque estava tudo a correr bem.

Ao meu lado ía sentado um velhote a ler o “Pravda”, com o peito coberto de medalhas, com quem meti a conversa possível. Para surpresa minha ele foi a única pessoa, em todas a viajem, que me identificou como português. Geralmente pensavam que era italiano e até me confundiram com um turco ou um árabe.

Fiquei a saber que o velhote que estava ao meu lado era um antigo “partisant” que tinha combatido os nazis na Segunda Guerra, tendo-os perseguido a partir da Bielorrússia até à Áustria e Alemanha. Via-se que era um homem informado e viajado.

Chegados a Minsk fomos para o hotel e fiquei com uma primeira impressão da cidade, pareceu-me uma cidade de subúrbio, tipo Odivelas ou Amadora, mas com mais espaços verdes.

O jantar no hotel foi muito animado, cheio de gente, com um conjunto a tocar ao vivo e gente a dançar.

Dia 29 de Julho. O dia é para visitar a cidade de Minsk.É Domingo e encontra-se quase tudo fechado.

De manhã fomos visitar um cemitério que funciona como memorial, pois aí estão sepultados muitos dos cidadãos e “partisans” mortos durante a 2ª Guerra.







Minsk foi uma das cidades mais martirizadas pela guerra, pois foi no solo da Bielorrússia  que se registaram os combates mais violentos e prolongados daquele conflito.

Minsk esteve ocupada pelos nazis e foi toda destruída, não existindo praticamente edifícios antigos, sendo por isso uma cidade moderna, com largas avenidas e imensas zonas verdes. Ao contrário de Moscovo e Kiev as pessoas aparentam viver melhor aqui, as montras estão mais cheias e com maior variedade de produtos.

Tudo aqui é muito mais barato que em Moscovo ou Kiev.

Entre as recordações que aqui comprei, aproveitando os preços mais baratos, está um xadrez em madeira que me custou 60 rublos, cerca de 300 escudos em moeda portuguesa (um euro e meio, na actualidade).

Até o câmbio foi mais barato para nós, pois recebemos mais de 30 rublos por cada dólar, quando nas cidades anteriores um dólar não dava mais de 27 dólares. Pelo que soubemos, o dólar foi revalorizado  na passada 6ª feira, não sabemos se apenas na União Soviética se à escala mundial.

Por outro lado, foi aqui que vi a maior quantidade de pedintes. No cemitério que visitámos, devido ao facto de aí se juntar muita gente para a missa de domingo que se realizava na Igreja ortodoxa próxima, eles eram mesmo muitos, velhotes e crianças.

Continuando a nossa visita pela cidade, a paragem seguinte foi numa imensa praça com uma grande estátua de Lenine em frente de um gigantesco edifício, tudo ao estilo da grandiosidade exagerada da arquitectura estalinista, fazendo lembra as imagens de Bucareste.



A terceira paragem da manhã foi junto da “estátua da Victória”, comemorativa da vitória sobre os nazis..





Após o almoço partimos para uma visita aos arredores de Minsk, que incluiu um museu etnográfico e uma visita ao memorial Khatyn.

As estradas, de 4 faixas, não são muito largas. A paisagem variava entre grandes pinhais e grandes campos de trigo. Muito do trigo estava a estragar-se nos campos, por não ter sido apanhado a tempo, mais um sinal da falta de organização económica deste país.

A Bielorrússia é considerada o celeiro da União Soviética. Quando do trágico acidente de Chernobyl, embora a central nuclear ficasse mais perto de Kiev ( a cerca de 100 quilómetros), esta região foi a que mais sofreu porque os ventos levaram as radiações para Minsk e arredores e a chuva radioactiva, que então se abateu sobre a região, afectou a produção de cereais, embora de forma diferente do previsto, aumentando a produção de cereais pelo efeito das radiações.

Tenho comido pão aqui e lembro-me sempre se não estarei a comer pão contaminado…

Por falar no pão da Bielorrússia, bebi aqui, pela primeira vez, uma das bebidas mais características da União Soviética, o KBSC (lê-se “quevasse”), feita à base do pão escuro muito característica do país.

Continuando a nossa viagem, a nossa primeira paragem foi no Museu etnográfico da Bielorrússia, com duas salas demonstrativas do artesanato da região, donde se destacam, pela originalidade, os vários objectos de artesanato feitos em palha.

Seguimos depois para o Memorial de Khatyn, que fica a cerca de 40 quilómetros de Minsk. Fica localizado no sítio onde existiu uma aldeia totalmente queimada pelos nazis durante a guerra, sendo os seus habitantes queimados vivos dentro da Igreja da aldeia.


Um testemunho impressionante do sofrimento das populações locais durante a Segunda Guerra.

Regressados ao Hotel, e depois do jantar, tive a oportunidade de dar um pequeno passeio pelos arredores: casas baixas, parecendo vivendas, com grandes quintais e jardins e muitos espaços para as crianças se divertirem, mas o espaço estava mal tratado, com vegetação por cortar.

As ruas são patrulhadas por policias bastante jovens, em grupos de três, e que se dedicam a prender os bêbados que encontram. Estes só não são presos se estiverem acompanhados por alguém sóbrio, geralmente as próprias esposas.

Votando ao quarto de hotel, este é o primeiro quarto com televisão, apesar de ser a preto e branco (as emissões são a cores) e apanhar apenas três canais. Pude ver a transmissão de um festival de musica rock, com vários grupos soviéticos, filmado, pelo que me pareceu, no estádio Olímpico de Moscovo , que ficava próximo do nosso hotel moscovita.

Amanhã deixamos Minsk e partimos de avião até Leninegrado (hoje S. Petersburgo).

domingo, 12 de novembro de 2017

Nos últimos dias da União Soviética – 2 -Em Kiev - Julho de 1991


Depois de um dia a visitar Moscovo, chegamos ao final da tarde ao Hotel, para um jantar rápido, pois tinhamos de partir para a estação de comboio que nos ia levar a Kiev, o próximo destino da viagem.

Estava tudo na maior das calmas a prepara as coisas, quando somos alertados para o facto do comboio partir às 20.20, e não às 22 horas como erradamente tínhamos sido informados.

Numa correria louca o nosso autocarro lá conseguiu chegar à estação, apenas 7 minutos antes da partida.

Era um comboio como mais de 20 carruagens e os lugares reservados para todos os elementos da excursão eram nas nº5 e nº8.

O meu beliche ficava na carruagem nº 8, onde entrei e coloquei as malas, indo depois auxiliar alguns companheiros de viagem mais velhos aflitos com as malas e com o tempo que se aproximava da partida. Foi assim que atravessei as carruagens 6 e 7 para chegar à nº5, para onde ía um desses elementos do grupo, mas que tinha entrado por engano na nº8, indo eu ajudá-lo com as malas, mas quando íamos entrar na carruagem 5, aparece uma revisora, bastante gorda, parecia saída de um velho filme dos tempos stalinistas, aos berros connosco, pedindo-nos os bilhetes e a impedir-nos de entrar na carruagem nº 5 e nós a tentarmos dizer que os bilhetes tinham ficado com o nosso guia na nº8.

Tentávamos falar em inglês (o meu era mau) e ela aos gritos, cada vez mais histérica, em russo, mostrando intensão de nos expulsar do comboio, pelo que, nós, sem os bilhetes na nossa posse, desatámos a correr, passando pelas nº6 e 7,  para regressar à nossa carruagem, enquanto o comboio começava a andar.

Quando tentámos passar da 7 para a 8, aparecem dois revisores e novamente a mesma cena, e nós sem o bilhete na nossa posse, e eles não nos percebiam, nem faziam um esforço por isso.

Desconhecíamos se os outros elementos do grupo tinham conseguido entrar no comboio, pensando já que estávamos ali sozinhos, sem bilhete, a caminho de Kiev, sem que ninguém percebesse o nosso inglês.

Felizmente houve um passageiro russo que deve ter perecebido alguma coisa do que dizíamos e que se abeirou dos revisores, que acabaram por nos deixar entrar na carruagem nº8 onde estavam os restantes colegas de viagem e o guia com o bilhete. Ficámos entretanto a saber que duas das velhotas do nosso grupo não tinham conseguido entrar a tempo, ficando sozinhas na estação de Moscovo. Mais tarde soubemos que elas tinham voltado ao hotel e juntar-se-iam a nós um dia depois em Kiev.

A viagem durou cerca de 13 horas, chegando a Kiev pelas 9.30 da manhã do dia 26 de Julho .

Kiev fazia então parte da União Soviética, distava cerca de mil quilómetros de Moscovo e tinha cerca de 3 milhões de habitantes. Era então a  terceira maior cidade da União Soviética, capital da então Republica da Ucrânia. Tinha sido ocupada pelos alemães durante a Segunda Guerra e foi das que mais sofreu com o conflito. É banhada pelo rio Dniepre, um dos três maiores da Europa e que desagua no Mar Negro.

Kiev é formada por vários canais atravessados por várias pontes  e com muitas zonas verdes. 

As colinas junto ao rio eram banhadas pelo dourado das cúpulas de igrejas e conventos ortodoxos. O metro era menos complicado do que o de Moscovo.

Ficámos no hotel “Typcut” (“Turista”), um nome menos original que o de Moscovo (“Salut”=”Fogo de artifício”), com metro à porta, a estação “Margem Esquerda”.

Nessa primeira manhã em Kiev tivemos tempo livre, entre as 12 e as 14 horas, que aproveitei para visitar um mercado junto ao hotel, onde típicos camponeses ucranianos vendiam  fruta, legumes, vegetais vários, carne e peixe seco.

Junto ao mercado bebi uma cerveja russa e meti conversa com 4 russos que, tal com eu, mal sabiam falar inglês, mas lá nos fomos entendendo. No final dei-lhes moedas portuguesas e esferográficas.

A idéia com que fiquei de Kiev é que era uma cidade mais alegre e cosmopolita do que Moscovo, com mais sol e luz, com gente mais simpática e um estilo de vida mais ocidentalizado.

De tarde fizemos uma viagem panorâmica pela cidade.

Aqui, tal como já tinha acontecido em Moscovo, cruzámo-nos com a comitiva do primeiro-ministro grego, em visita oficial à União Soviética .

Pelo final da tarde, entre as 19.30 e as 21.30, fizemos uma viagem de barco ao longo do Dniepre. O rio possui várias ilhas arborizadas, algumas de grande dimensão, com casas de madeira e praias, muito apreciada pelos russos.





(a fotografia de cima foi tirada por mim em 1991. A de baixo é a mesma vista, na actualidade, tirada da net)

Regressados ao hotel de metro, para aprendermos a andar nele, e aí assistimos a uma festa-baile e encontramos uma grande grupo de espanhóis que fez uma festa quando soube que eramos portugueses.

Antes de me deitar ainda dei uma volta pelo arredor do hotel e fui até uma das pontes de Kiev aí perto.

Próximo do meio da viagem, depois de Moscovo e um dia em Kiev, já me começava a fazer alguma impressão a extrema pobreza económica da União Soviética. Apesar de as pessoas se vestirem mal (um pouco melhor em Kiev do que em Moscovo), apesar de não terem muitos produtos para escolher e os que existiam serem de má qualidade, e muitos serem inacessíveis ao bolso da maioria dos seus cidadãos, todos ostentam um ar digno, raramente aparecem pessoas a pedir esmola. Aqui em Kiev a corrupção e a especulação que se via em Moscovo não era tão notória.

Existiam contudo três coisas positivas que descobri nesse país: o sistema de transportes, com qualidade, rápido , eficiente e barato; a urbanização, apostando-se muito nos espaços verdes, com edifícios, que não sendo bonitos, estavam bem integrados na paisagem; e por último…os selos do correio que tinham muita cola!

No segundo dia em Kiev, 27 de Julho, visitámos a catedral de Stª Sofia, fundada no século XI, o mais antigo monumento cristão, ortodoxo, do leste da Europa.

Também na preservação do património os soviéticos parece que têm algum cuidado, sendo de uma beleza indescritível as cúpulas douradas das igrejas e os frescos que cobrem a totalidade do seu interior.


Naquela catedral foi possível ver frescos pintados em épocas diferentes em camadas sucessivas.

Percorri as ruas à volta da catedral. Fui a um pequeno café, que apenas servia chás e cafés com leite e 3 ou 4 variedades de bolos secos e tostas com conservas, muito pobrezinho, mas foi o único café que encontrei para comer qualquer coisa.

Entrei numa ourivesaria, onde, apesar da pouca variedade de objectos expostos,   reinava uma enorme confusão. O problema, começo a descobrir, está na “organização”: primeiro escolhe-se o objecto; depois vai-se para uma fila para pagar na caixa com uma data de papéis na mão; depois levam-se os papéis ao balcão e, finalmente, depois de se espera noutra fila, recebe-se o objecto. É assim que funciona quase tudo, triplica o tempo de espera e provoca imensas filas.

Deslocando-me a outra rua próxima, deparei-me com uma pequena manifestação de nacionalistas ucranianos, coma as bandeiras da Ucrânia (faixas em amarelo e azul), gritando várias palavras de ordem pela independência da Ucrânia e contra o “fascismo” e que estava a ser filmada por um canal de televisão. A manifestação decorri frente a um grande edifício que me disseram ser a sede local da policia e do KGB. Só lá estavam três policias de ar calmo, separados dos manifestantes por uma pequena barreira em ferro.

Tentei falar em inglês com um dos manifestantes que me explicou que a razão daquela manifestação era protestar contra as condições de vida da população da Ucrânia. Fez uma grande festa quando soube que era português e começou a falar-me de um jogo entre o Dínamo de Kiev e o Porto. Não pude ficar mais tempo pois tinha de voltar ao autocarro que me levaria ao Hotel. Desejei-lhes Boa Sorte, mal adivinhando que não faltaria muito tempo para a Ucrânia se tornar independente. O que terá acontecido àquelas pessoas?

Voltámos ao Hotel para o almoço, excelente mais uma vez, especialmente as sopas.

À tarde fomos visitar o “Mosteiro de Laura”, um dos mais importantes da Igreja Ortodoxa. A profusão de monumentos religiosos ortodoxos na região de Kiev deve-se ao facto de esta ter sido a primeira capital da Rússia, a chamada Rússia de Kiev, fundada no século XI.


Para além das suas exuberantes cúpulas, existe no Mosteiro de Laura o museu das joias preciosas, com peças do século IV a.C ao século XX.

Tendo começado a chover, apesar do calor que se fazia sentir em Kiev, já não podemos vistar as catacumbas do mosteiro, já que estas, devido à humidade, fecham sempre que chove.

Tendo regressado ao Hotel fui, depois de jantar, dar uma volta por Kiev, começando por fazer uma viagem de metro até ao fim da linha que passa frente ao Hotel. Este metro é de superfície junto ao Hotel, passando depois por cima do rio Dniepre, tornando-se depois subterrâneo. A beleza das estações subterrânea não fica nada a dever às famosas estações do metro se Moscovo (que só visitarei no final da viagem, quando regressarmos a Moscovo).


A última estação da linha ás sair a uma gare ferroviária, num subúrbio da cidade, pelo que voltei e segui até à estação que ficava no centro da cidade, numa ampla e bela avenida, cheia de gente, mas onde infelizmente não havia uma única esplanada para desfrutar do movimento.

Nesse avenida encontrámos apenas duas lojas abertas , cheias de gente que comprava o pouco queijo ou a pouca manteiga que aí se vendia, e a confusão era, mais uma vez, gerada pela forma como essas lojas funcionam, e que descrevi noutra parte desta memória de viagem.

O dia 28 de Julho foi o último dia passado em Kiev, antes de partirmos para Minsk.

De manhã vistamos um museu etnográfico a 30 quilómetros de Kiev. Esse museu reproduz vários tipos das aldeias da Ucrânia dos século XVIII, XIX e XX, tal como eram antes da Revolução, uma espécie de “Portugal dos Pequeninos”, talvez idealizado num assomo de má consciência das autoridades soviéticas pela tragédia vivida no mundo rural ucraniano durante os tempos stalinistas.

Nesse museu ao ar livre repoduz-se o ambiente das aldeias de então, onde as casas eram construídas com vários materiais tradicionais, de acordo com a posse de cada um e que reproduziu a rigidez social dos tempos czaristas. Aqui existem alguns originais moinhos em madeira.

A visita culminou com uma patuscada num restaurante aí existente, todo construído em madeire e no meio de uma frondosa mata, explorado por iniciativa  privada, sinal dos tempos da Perestroika.

Regressados ao Hotel, e depois de almoço, preparamos as malas para a partida,mas fizemos ainda uma última visita guiada durante a tarde.

Cruzámo-nos com mais uma manifestação nacionalistas, desta vez de militares ucranianos que defendiam a criação de um exército ucraniano. Embora o número de manifestantes fosse pequeno, eram um pouco mais agressivos do que os da outra manifestação.



Ainda vistámos outra Igreja de belas cúpulas douradas barrocas, e partirmos para o aeroporto de Kiev para partirmos para Minsk, o nosso próximo destino.