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sexta-feira, 19 de janeiro de 2024

O Fascismo “nunca existiu”!??...ou existiu “apenas” num país!???...ou “ainda anda por aí”!??..

 


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Nunca, como nos últimos tempos, o debate sobre o fascismo e a utilização desse termo, para interpretar a situação actual, foi tão usado. Na verdade, a definição de “fascismo”, continua por esclarecer e clarificar e é, desde longa data, tema de debates acalorados envolvendo historiadores, politólogos (seja lá o que isto for) e sociólogos.

Nos anos 90 chegou-se a um relativo consenso entre investigadores.

O Fascismo, na “pureza” das suas características, "apenas existiu" na Itália de Mussolini.

Tanto o nazismo, à sua “direita”, e o franquismo e o salazarismo (entre outros) à sua “esquerda” não encaixavam nas características puras do fascismo teórico.

O nazismo, embora seguindo o modelo de Mussolini, era, acima de tudo, “totalitário”, um conceito que, embora defendido teoricamente pelo fascismo italiano, só se teria concretizado, sem qualquer controle (da Igreja ou do rei, como aconteceu na Itália) na Alemanha de Hitler.

Contudo, o conceito de “totalitarismo” foi-se tornando pouco operativo, por um lado porque podia ser igualmente aplicado a regimes diferentes, como ao estalinismo na União Soviética ou à China do tempo da “revolução cultural”, por outro, porque o seu termo se generalizou e vulgarizou como argumento da propaganda ocidental, durante o período da Guerra Fria, contra os regimes do “socialismo real” do leste europeu.

Por sua vez, regimes como o salazarista e o franquista não se encaixavam totalmente na classificação e no tipo de estrutura política e social do fascismo.

O regime salazarista era um regime autoritário, antiliberal e antidemocrático, mas faltava-lhe o caracter de movimento de massas do fascismo, embora recorresse a estas sempre que necessitava do apoio da rua (lembram-se das célebres “manifestações espontâneas?”).

Apesar disso, pelo menos a partir da Guerra Civil de Espanha até ao final 2ª Grande Guerra, principalmente até ao momento em que se tornou evidente a derrota dos nazis, o salazarismo exacerbou a retórica e o modelo do fascismo italiano (Salazar era grande admirador do ditador italiano), altura em que se fundaram movimentos de características fascistas, baseados em organizações do nazismo e do fascismo, como a Mocidade Portuguesa e a Legião Portuguesa. Esta última organização foi mesmo a única organização do Estado Novo que fez, abertamente, o elogio do nazismo.

A partir do final da guerra essas organizações perderam as suas características fascistas, muito por influência da Igreja e do Exército e, claro, para branquear a sua origem quando o antifascismo saiu vitorioso da Guerra, e o regime alterou habilmente a sua natureza dos anos 30/40 para poder sobreviver, tendo mesmo conseguido tornar-se fundador da NATO.

A definição do que é o fascismo enforma de duas dificuldades:

- se o resumirmos ao culto da violência contra os inimigos, ao governo autoritário e ditatorial e à rejeição da democracia e do liberalismo, teríamos de alargar o conceito a um universo mais vasto, que incluiria os regimes do “comunismo real”, as ditaduras militares de todas as cores e muitos dos regimes autoritários dos nossos dias (na Turquia, na Rússia, no Irão, na Arábia Saudita, na Hungria… e o que dizer do actual governo de Israel?);

- se desenvolvermos muito essas características, apenas o Fascismo Italiano e um certo número de movimentos nacionais, fixados nos anos 30, podem ser classificados como tal, com a agravante que, nem mesmo o fascismo italiano, pela sua evolução e adaptação, se encaixaria plenamente nessas características retóricas.

E quais são elas (resumidamente)?

Recorremos a Stanley Payne:

- “As negações fascistas”: antiliberal, anticomunista, anticonservador;

- “Ideologia e objectivos” : criação de um novo Estado nacionalista autoritário; organização de estruturas económicas nacionais integradas, reguladas e “pluriclassistas”, numa palavra, corporativista; a criação e a defesa de um Império que implicará uma relação de força com as outras nações; um novo credo idealista e voluntarista, impondo um novo tipo de cultura secular, moderna e "autodeterminada";

- “Estilo e Organização” : Importância estética dos símbolos, dos mitos e da coreografia politica; mobilização das massas, militarizando as relações sociais e da vida politica, através de organizações de massas; uso da violência contra os “inimigos”; dominação masculina; exaltação da juventude, fomentando o conflito de gerações, pelo menos na sua fase inicial de transformação politica; tendência para uma liderança pessoal, autoritária e carismática, mesmo recorrendo inicialmente à via eleitoral.

Conseguir o pleno destas características, só mesmo no Fascismo italiano de Mussolini.

Mas, para ser classificado como fascismo não é necessário fazer o pleno, basta a existência da maioria dessas características.

Assim, para Stanley Payne o fascismo, nos anos 30/40 do século XX, é uma das famílias daquilo que ele classifica como as “três caras do nacionalismo autoritário”, sendo as outras duas a “direita radical” e a “direita conservadora”.

Como “fascistas” classifica, entre outras, o Partido nacional-socialista alemão, o Partido Nacional Fascista Italiano, a Falange em Espanha e o Nacional-sindicalismo português.

Na “Direita radical” coloca, entre outros, a figura de Papen na Alemanha, os Integralistas em Portugal e os Carlistas em Espanha.

Na “direita conservadora” cabem, entre outros, o presidente Hindenburg na Alemanha,  o governo de Vichy em França, o presidente Horthy da Hungria, Pilsudski na Polónia, a União Nacional e Salazar em Portugal e a CEDA em Espanha.

Recorde-se que, em Portugal, a maior parte dos nacional-sindicalistas  e dos integristas, mais ou menos forçados, mais ou menos voluntariamente, acabaram por integrar o regime salazarista, sendo, por outro lado, significativo o caso de Rolão Preto, líder dos nacional-sindicalistas, que, depois de preso, veio a apoiar a candidatura de Humberto Delgado.

O caso espanhol também é peculiar. Franco conseguiu fundir as várias organizações acima citadas, durante a Guerra Civil, numa falange mais abrangente, que se tornou o partido único do regime e que, na transição para a democracia, se integrou, quase todo, no actual Partido Popular, ganhando novo alento no recém criado Vox.

O caso português tem sido muito estudado por vários historiadores, destacando os trabalhos, divergentes nalguns pontos, de Fernando Rosas, Manuel Loff, António Costa Pinto e de Irene Flunser Pimentel.

Contra a corrente vai a tese de Jorge Pais de Sousa, que defende o salazarismo como um “fascismo de cátedra”, ou seja, um fascismo sem movimento de massas.

De qualquer modo, toda a problemática referida coloca o fascismo como uma situação histórica “irrepetível”.

Não é essa a tese de Umberto Eco, no seu ensaio de 1997, mas mais actual do que nunca, “como reconhecer o fascismo”, que mostra até que ponto o fascismo “ainda anda por aí”.

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Nos anos 90, depois da derrota do comunismo real, e com o fim da Guerra Fria, parecia que a democracia e a liberdade iam vencer por todo o mundo.

Recorde-se que na década anterior se tinham desmoronado as ditaduras militares na américa latina e o apartheid na África do Sul.

Era o “fim da história” de Fukuyama.

Também por essa altura estudava-se afincadamente o fascismo, chegando a maior parte dos investigadores à conclusão que este regime estava datado histórica e geograficamente.

O fascismo puro só tinha existido em Itália.

Estabeleciam-se as diferenças entre os vários regimes que até aí tinham sido “misturados” sob a designação de “fascistas”: o Estado Novo português, o governo de Vichy em França e o franquismo espanhol, entre outros, não encaixavam no modelo fascista dos investigadores.

Mesmo o nazismo era uma excrescência totalitária do fascismo.

Não deixa de ser, contudo, curioso, que, encontrando-se tantas diferenças entre esses regimes, nunca ninguém tenha feito o mesmo exercício para distinguir os regimes e os movimentos comunistas, quer do ponto de vista cronológico, quer do ponto de vista sincrónico.

É que, na realidade, existem tantas diferenças, em termos práticos, em termos de violência ou em termos económicos e sociais, entre o Estado Novo português, o nazismo alemão ou o fascismo italiano, como entre a União Soviética de Lenin, de Stalin ou Gorbachev, ou entre Cuba e a Coreia do Norte, ou entre o chamado eurocomunismo e o Partido Comunista Português…

Mas a preocupação em fazer esta distinção não terá motivado da mesma maneira os investigadores dessa altura.

Era mais importante retirar certos regimes e certos partidos da família fascista, do que fazer o mesmo exercício em relação aos regimes ditos comunistas.

Não questiono a seriedade desses estudos. Apenas noto a diferença de prioridades.

Claro que pode haver uma situação que explica essas opções.

A maior parte dos regimes que se inspiraram, com maior ou menos convicção, no modelo do fascismo italiano, raramente se designaram ou classificaram como fascistas, ao contrário do que aconteceu com os regimes comunistas ou com os vários movimentos comunistas, mesmo quando se combatiam entre si.

A maior parte dos regimes autoritários de direita e os futuros partidos de extrema-direita, principalmente depois da 2ª Guerra, não se gabavam, pelo menos publicamente, de admirarem Mussolini ou Hitler, a não ser em casos muito marginais.

Pelo contrário, apesar de todas as suas diferenças, tão grandes ou maiores do que as que existiram ou existem entre regimes e partidos da direita autoritária e antiliberal, os regimes do “comunismo real” e os partidos assim designados, todos invocavam a mesma origem comum, mesmo que aplicada ou interpretada de forma diferente, como mínimo denominador comum, em Engels, Marx e Lenine.

Nos anos 90 o fascismo era considerado assunto histórico encerrado e irrepetível, ao contrário do “comunismo real” que continuou a sobreviver até hoje na China, no Vietname, na Coreia do Norte e em Cuba, e em Partidos Comunistas que continuam a ter um peso significativo em muitos países democráticos.

Contudo, houve um autor que remou contra a maré.

Esse autor foi Umberto Eco que em 1997 publicou um ensaio intitulado “O fascismo eterno”, publicado e traduzido em Portugal com o título “Como reconhecer o fascismo”.

Para Umberto Eco, o fascismo não estava morto e enterrado, ao contrário do nazismo.

Começava por desmentir que o fascismo, ao contrário do nazismo, tivesse uma filosofia própria, mas apenas “retórica”.

Demonstrou que o fascismo italiano não era fácil de classificar ou de caracterizar, pois, ao contrário do modelo coerente em que muito o tentavam encaixar, era um movimento pragmático, muitas vezes contraditório e incoerente.

Ora, essa capacidade camaleónica do fascismo, permitiu a sua sobrevivência e a capacidade de reaparecer em qualquer outro lado ou época sob outras “vestes”.

A partir destas premissas, Umberto Eco identifica um conjunto de características do “novo fascismo”, que ele apelida de “Ur-fascismo”, avisando, contudo, que essas “características não poderão ser ordenadas num único sistema: muitas contradizem-se reciprocamente, e são típicas de outras formas de despotismo ou fanatismo. Mas basta que esteja presente uma delas para fazer coagular uma nebulosa fascista”.

Hoje, esse ensaio, com mais de vinte anos, veio revelar-se mais actual do que nunca, quando assistimos ao renascimento de regimes, partidos e retóricas de extrema direita, pondo em causa a existência das democracias liberais que se julgavam eternas e em expansão naquela década.

Aliás, o próprio termo de “democracia liberal” é defensivo, como se a democracia não fosse liberal.

O que é um facto é que a maioria desses movimentos substituíram a rua e os golpes militares pela campanha em redes socias e pela participação democrática e, onde chegam ao poder, como na Hungria, por exemplo, criaram um novo conceito, o de “democracia ileberal”, ou seja, manipulam as regras democráticas, mantendo a fachada de actos eleitorais para se legitimarem e legitimarem o controle sobre a justiça e a comunicação social.

Vemos isso também na Turquia, na Rússia, na Índia, nas Filipinas…

Quais as são características do “Ur-fascismo” apontadas por Umberto Eco?

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Registámos as características históricas do fascismo e a forma como a investigação histórica dos anos 90 caminhou no sentido de demonstrar que o fascismo estava morto e enterrado.

Referimos a excepção de Umberto Eco que, remando conta a maré dominante, explicou num ensaio de 1997, que o fascismo podia ressurgir com novas roupagens.

Tentamos agora explicar quais eram as características, apontadas por Eco, desse “novo fascismo”, que ele designa com “Ur-fascismo”.

Depois de analisar o exemplo do fascismo italiano, mostra que o fascismo não era coerente do ponto de vista ideológica, “não era uma ideologia monolítica, mas uma colagem de diversas ideias políticas e filosóficas, uma amalgama de contradições”, ao contrário do nazismo.

Por isso considerava que, se o nazismo não iria reaparecer “como movimento que envolva uma nação inteira”, pelo contrário o fascismo mantinha condições para renascer sob novas roupagens.

Escreveu Eco que houve “um único nazismo”, mas, em” contrapartida, “pode-se brincar ao fascismo de muitos modos”, porque o “termo “fascismo” adapta-se a tudo porque é possível eliminar de um regime fascista um ou vários aspectos, e poder-se-á reconhecê-lo com fascismo”.

Apesar da confusão e da dificuldade em definir fascismo, é “possível indicar uma lista de características típicas do que poderei chamar o “Ur-fascismo” ou o “fascismo eterno”. Estas características não poderão ser ordenadas num único sistema: muitas contradizem-se reciprocamente, e são típicas de outras formas de despotismo ou fanatismo. Mas basta que esteja presente uma delas para fazer coagular uma nebulosa fascista”.

E quais são essas características apresentadas no ensaio de Eco?

Ei-las, de forma resumida:

-1. O culto da tradição, embora seja “mais velho do que o fascismo”;

-2. A rejeição do modernismo e do mundo moderno, que também se pode referir como “irracionalismo”.

-3. O culto da “acção pela acção”: “A acção é bela em si, e portanto, tem de ser realizada antes de e sem qualquer reflexão. Pensar é uma forma de castração. Por isso a cultura é suspeita na medida em que se identifica com comportamentos críticos”, atitude identificada com o “uso frequente de expressões como “Porcos intelectuais”, “Convencidos”, “Snobs radiais”, “As Universidade são covis de comunistas”(…)”.

-4. O desacordo “é traição”.

-5. O Medo da diferença. “O Ur-Fascismo é (…) racista por definição”.

-6. A exploração da “frustração individual ou social”, apelando “às classes médias frustradas, sentindo mal-estar por qualquer crise económica ou humilhação política, assustadas pela pressão dos grupos sociais subalternos”.

-7. O nacionalismo, com apelo à xenofobia e que procura inimigos externos e internos que “conspiram” contra a identidade nacional.

- 8 . A defesa face a um inimigo que humilha o “povo” pela “riqueza ostentada”.

- 9 . A critica ao pacifismo.

- 10 . O elitismo de massas e o “desprezo pelos fracos”. Quem se identifica com o “chefe” ou com “o partido” é o “melhor povo do mundo” e os que pertencem ao “movimento” são “os melhores cidadãos” (como os “portugueses de bem” do Chega).

- 11 . O culto do “herói”, “todos são educados para se tornarem heróis”.

-12 . o “machismo”, que implica o “desprezo pelas mulheres” e a “condenação” da homossexualidade.

- 13 . O “populismo qualitativo”, ou seja, “os indivíduos enquanto indivíduos não têm direitos” e é o líder que interpreta a vontade do povo. Já então Eco avisava que no “nosso futuro perfila-se um populismo qualitativo na Tv ou na internet, em que a resposta emotiva de um grupo selecionado de cidadãos pode ser apresentada e aceite como a “voz do povo”. Devido ao seu populismo qualitativo, o Ur-Fascismo tem de opor-se aos “putrefactos” governos parlamentares”. E conclui: “sempre que um político lança dúvidas sobre a legitimidade do parlamento por já não representar “a voz do povo”, já podemos dizer que cheira a Ur-fascismo”.

- 14 . “O Ur-Fascismo fala a “neolíngua”, um termo inventado por George Orwell para o seu romance “1984”, uma crítica ao stalinismo então dominante entre os movimentos comunistas, mas que, segundo Eco, tem elementos comuns “a formas diferentes de ditaduras”, referindo o léxico pobre, de frase feita, com fins propagandísticos e de doutrinação, que procura alterar o significado da palavra com o objectivo de “limitar os instrumentos para o raciocínio complexo e crítico”, avisando para a necessidade de estarmos preparados “para identificar outras formas de neolíngua, mesmo quando toma  a forma  inocente de um talk- show popular”.

Conclui Eco que o “Ur-fascismo ainda pode voltar sob as vestes mais inocentes . O nosso dever é desmascara-lo e apontar o dedo a cada uma das suas novas formas –diariamente, em todo o mundo”.

Aquilo que parecia então uma mera divagação intelectual, está hoje mais actual do que muito.

Muitos dos 14 pontos apontados por Eco estão aí mais do que presentes no discurso populista de líderes políticos e movimentos de várias vestes e cores, da Venezuela ao Brasil e à Argentina, da Coreia do Norte à Hungria, da Rússia à Ucrânia, da Turquia às Filipinas, da Grã-Bretanha aos Estados Unidos, da França à Itália, de Israel aos Estados do fundamentalismo Islâmicos (Irão, Afeganistão, Arábia Saudita)….

As redes sociais, que substituem a rua como lugar de manifestação da violência e do ódio de tipo fascista, estão cheias de um discurso acima identificado por Eco como o “Ur-fascismo” dos nossos dias :

-o apelo irracional ao ódio contra quem não pensa como nós;

- o discurso saudosista do “antigamente [leia-se por cá, no tempo de Salazar] é que era bom”;

- a diabolização e ridicularização das ditas questões fracturantes [a critica à modernidade];

- a disseminação das fake news  [a mentira várias vezes repetida para se tornar “verdade”];

- a criação de um clima de medo [exagerando, pela repetição e pelo destaque, à existência de uma sociedade “dominada pelo crime”];

 -a desvalorização do Estado de Direito, com apelos à judicialização da sociedade, renegando a presunção de inocência ou fazendo dos tribunais espectáculo, recorrendo à divulgação de processos em segredo de justiça, conduzindo à defesa de uma justiça popular e a uma justiça feita pelas próprias mãos, atitude potenciada pelos títulos de tablóides;

- a desvalorização de um pensamento crítico, atacando os “intelectuais”, o conhecimento cientifico (evidente na negação da alteração climática), o papel das universidades “tomadas pela esquerda”;

- o desprezo pelos fracos, que culpa pela sua fraqueza, “vivendo dos subsídios”, apenas tolerados como alvo de campanhas de caridade para limpeza de consciências;

- o nacionalismo exacerbado, cercado de “inimigos” [os “venezuelanos”, os “comunistas”, os “islâmicos”, os “terroristas”, os “emigrantes”, os “homossexuais”…];

- a superioridade “democrática” das redes sociais, a “verdadeira” “voz do povo”, como contraponto da democracia “corrupta” e “putrefacta” dos regimes parlamentares e dos políticos;

- etc., etc., etc….

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Uma actualização fundamentada  do perigo de um “novo fascismo” está presente na recente obra de Madelene Albright, “Fascismo um Alerta”.

Historiando a origem histórica do fascismo e mostrando o que este teve de comum com o comunismo real (na sua versão stalinista) no desdém pela democracia, encontra diferenças assinaláveis entre as duas ideologias.

Faz igualmente o historial do MacCarthismo e da forma como, durante a Guerra Fria, os regimes democráticos pactuaram com as mais criminosas ditaduras, mostrando a forma como, no seio de regimes democráticos sólidos, o perigo das pulsões fascistas está presente e se pode transformar a democracia numa “ditadura da democracia”.

Faz um historial recente da presença dessas pulsões fascistas em regimes actuais, que , mesmo quando de origem ideológica aparentemente diferente, transportam em si o vírus do fascismo: o recurso à mentira, o desdém pela liberdade e pela democracia, o carisma do líder, o recurso ou apelo ao genocídio, o combate à diferença e o nacionalismo exacerbado.

Percorre a história recente do chavismo venezuelano, do regime turco de Erdogan, da ascensão de Putin, da “democracia iliberal “ de Órban na Hungria, da liderança omnipresente da dinastia Kim na Coreia do Norte, entre muitas outras referências a outros regimes “proto fascistas” como o de Sissi no Egipto, o de Kaczynski na Polónia, o de Zeman na República Checa, o de Duterte nas Filipinas (só não falando em Bolsonaro porque ainda não era notícia à data da escrita do livro), chegando à principal preocupação para o seu alerta contra o fascismo, a situação que se vivia ( e se volta a viver) nos Estados Unidos com a vitória de Trump.

Claro que nenhum desses regimes é classificado por Albright com “fascista” ( apenas classifica como tal o da Coreia do Norte), mas todos transportam em si a semente de um novo fascismo, principalmente pela forma como banalizam um determinado discurso e uma determinada atitude que justifique as pulsões “fascistas”.

Em muitos desses governos e noutros movimentos de tipo populista por esse mundo fora, e citando Robert Paxton, da Universidade de Columbia, “ouvimos ecos de temas fascistas clássicos: medos da decadência e do declínio; afirmação de uma identidade nacional e cultural; uma ameaça à identidade nacional e à boa ordem social por parte de estrangeiros não assimiláveis; e a necessidade de maior autoridade para liderar com esses problemas” ( pág.222).

Em comum, Albright encontra nalgumas das atitudes daqueles governos o caminho para um novo fascismo:

“Rapidamente o Governo que silencia um meio de comunicação acha mais fácil silenciar um segundo. O parlamento que ilegaliza um partido político passa a ter um precedente para banir o seguinte. A maioria que priva determinada minoria dos seus direitos não para por aí. A força de segurança que espanca manifestantes e fica impune não hesita em voltar a fazê-lo” (pág.278).

Albright recorda-nos que, como aconteceu ao longo da história, os fascistas podem chegar ao poder por via eleitoral. Hoje em dia, aliás, não se atrevem a fazê-lo de outro modo. Geralmente chegados ao poder, vão dando passo a passo a estocada final na democracia, sendo o primeiro passo minarem “a autoridade de centros de poder que compitam com eles, incluindo o Parlamento”.

Deve-se a Albright uma definição simples e concisa do que é um fascista: “alguém que reclama falar em nome de uma nação ou de um grupo, que não se preocupa nada com os direitos dos outros e que está disposto a recorrer à violência e a quaisquer outros meios necessários para alcançar os seus objectivos” (pág.296).

Albright, que iniciou o seu livro com um conjunto de perguntas feitas aos seus alunos, cujas respostas esclarecem o que foi o fascismo em termos históricos, conclui a sua obra reformulando as perguntas, para responder onde podemos encontrar, nos líderes políticos de hoje, os novos arautos no novo fascismo:

“Vêm ao encontro dos nosso preconceitos, sugerindo que tratemos as pessoas de outra etnia, raça, credo ou partido como se não merecessem dignidade e respeito?;

“Querem que alimentemos a ira contra quem acreditamos que nos fez mal, esfreguemos os ressentimentos até ficarem em carne viva e ponhamos os olhos na vingança?;

“Encorajam-nos a sentirmos desprezo pelas instituições que nos governam e pelo processo eleitoral?;

“Procuram destruir a nossa fé em elementos essências à democracia, como uma imprensa independente e uma magistratura profissional?;

“Exploram os símbolos do patriotismo – a bandeira, o juramento – num esforço consciente  de nos virar uns contra outros?;

“Se forem derrotados nas urnas, aceitam o veredicto ou insistem sem provas de que foram eles os vencedores?;

“Fazem mais do que pedir os nossos votos e gabam-se da sua capacidade para resolver todos os problemas, acalmar todas as ansiedades e satisfazer todos os desejos?;

“Solicitam os nossos aplausos falando despreocupadamente e com entusiasmo machista sobre o uso da violência para aniquilar os inimigos?;

“Repetem a atitude de Mussolini: “A multidão não precisa de saber” , tudo o que tem a fazer é acreditar e “aceder a ser moldada”?” (pp.304-305).

Quem responder positivamente a estas questões trás consigo e alimenta a semente do novo fascismo.

Como se pode concluir do que nós escrevemos e citámos, não é fácil definir, nem ontem nem hoje, o que é o fascismo.

Nem o fascismo dos anos 30 é repetível na nossa época.

Mas o desprezo pela democracia, pela liberdade, pelo outro, pela verdade, pelas instituições sociais e democráticas, pelos direitos humanos e sociais, é uma carcteristica comum à extrema-direita populista, seja a dos anos 30, seja a actual, mesmo quando, como na Venezuela, se veste  de roupagens pseudo-esquerdistas.

Ao mesmo tempo o apelo à violência e ao ódio, físico ou verbal, a atitudes irracionais, ao que de pior existe no ser humano, é comum a tudo aquilo que, legitimamente, podemos classificar de fascismo.

Não vamos ver milícias nas ruas perseguindo judeus, negros, comunistas, socialistas ou democratas (ou será que vamos? Bolsonaro prometeu algo parecido no Brasil...). Hoje as redes socias prestam bem esse serviço.

Não vamos ver a destruição total do formalismo democrático, pois podem bem conciliar o acto eleitoral em sociedades manipuladas por uma comunicação social controlada pelo poder financeiro e político (Rússia, Turquia, Hungria, Argentina...).

Ao contrário dos anos 30, em que economicamente o que era viável aos poderes que financiaram o fascismo contra o socialismo, a democracia e os direitos sociais, era a estatização da economia, hoje esses mesmo poderes apostam no neoliberalismo que lhes permite escapar ao fisco, às regras ambientais, à legislação e os direitos laborais e ao controle democrático da sua acção pelos parlamentos.

Este “novo fascismo”, ou “ur-fascismo” ou “populismo”, não precisa hoje de recorrer ao aparato cénico propagandístico e espectacular dos anos 30. Basta manter-nos alienados, agarrados às redes socias e aos talk shows.

Ao contrário da esquerda, a extrema direita populista conseguiu adaptar-se aos novos tempos e renascer das cinzas, voltando a colocar o mundo á beira do abismo e da barbárie.

Bibliografia:

ALBRIGHT, Madeleine, Fascismo – um alerta, ed. Clube do autor, 2018;

ECO, Umberto, Como reconhecer o fascismo. Da diferença entre migrações e emigrações, ed. Relógio d’Àgua, 2017 (texto original de 1997, numa tradução de grande qualidade de José Colaço Barreiros);

PAYNE, Stanley G., El fascismo, Alianza Editorial , Madrid 1996 (1ª edição em 1980);

PINTO, António Costa, O Salazarismo e o Fascismo Europeu, ed. Estampa;

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

A entrevista "fofinha" de Sousa Tavares a André Ventura.

 


Na passada 2ª feira a TVI 24 iniciou uma série de entrevistas, conduzidas por Miguel Sousa Tavares, aos candidatos à Presidência.

Para respeitar a ordem crescente da representação parlamentar, o primeiro entrevistado foi André Ventura e a coisa não correu muito bem (ver comentário à mesma AQUI).

De facto Sousa Tavares mostrou-se, mais uma vez, mal preparado e muito condescendente com André Ventura.

Conhecido pela sua agressividade, a roçar a boçalidade e má criação, nos seus comentários e nas entrevistas, principalmente quando tem pela frente alguém de quem não gosta, desta vez viu-se um Sousa Tavares que deixou Ventura à vontade, sem usar o contraditório ou sem questionar aspectos polémicos e até abjectos do discurso do líder do Chega.

O próprio Ventura, tipo esperto, usou muitas vezes argumentos dos comentários populistas do próprio Sousa Tavares para defender as suas miseráveis idéias e calar Sousa Tavares, acrescentando (tratando-o por tu) "como o Miguel sabe" ou "como o Miguel diz".

Já há muito tempo que questionamos as qualidades jornalísticas de Sousa Tavares.

Embora escreva bem, revela-se quase sempre mal preparado, preconceituoso, parcial, roçando o balofo, nas opiniões que escreve, vivendo muito da fama do passado, granjeada pela sua colaboração na revista "Grande Reportagem".

Veremos se, nas próximas entrevistas, Sousa Tavares vai ser tão "fofinho" e condescendente como foi com André Ventura na passada 2ª feira.

sábado, 18 de abril de 2020

As “Comemorações” que alimentam a demagogia fanática


Confesso que, inicialmente, também fiquei perplexo quando vi anunciada a realização das comemorações do 25 de Abril e do 1º de Maio.

Pela forma como a notícia foi dada e depois comentada, parecia que íamos ter desfiles de multidões na Avenida e na Fonte Luminosa.

Afinal, tudo não passa de fumaça, lançada pelos do costume, aqueles a quem escrever “25 de Abril” e “1º de Maio” na mesma frase provoca logo um ataque de comichão pelo corpo todo, faz saltar para a frente o braço direito e impede qualquer forma de raciocínio lógico.

Reconheço que a comunicação dessa decisão não foi feita de forma correcta e transparente, dando argumentos a uma certa  direita ressabiada e tristonha com a  forma competente como a presente crise tem sido, até hoje, conduzida pelo governo de Costa e que encontrou agora pretexto para dar prova de vida.

A santa aliança de saudosos do “passos ceolhismo/cavaquismo” ou mesmo do “salazarismo”, juntando-se a todo o tipo de  “neoliberais”, “neoconservadores” e “populistas de extrema direita”, exultou com a oportunidade.

Contudo, analisando a realidade, pelo menos a que é conhecida, todo o argumentario dos ditos cujos cai pela sanita abaixo.

Primeiro argumento da “santa aliança” : “aqui d’el rei que vamos ter 300 velhos juntos na mesma sala”, isto é, deputados da Assembleia da República.

A esquerda, maioritária nessa sala, agradece a preocupação com a sua “saúde”, mas a história não está bem contada.

Em primeiro lugar, apenas vai estar presente um número reduzido desses deputados, e um número ainda mais reduzido de convidados isolados nas galerias. Aqui concordo com o deputado da Iniciativa Liberal, talvez bastasse a presença de um representante de cada partido com assento no Parlamento, mais como exemplo do que por qualquer perigo sanitário que não existe, tal como não tem existido nas várias ocasiões em que o Parlamento se tem reunido durante a crise para tomar decisões, porque, é bom recordar, a democracia não foi suspensa.

Aliás, aqui, se estivessem de boa fé, o argumento até podia ser o inverso: porque é que os deputados não estão a trabalhar regularmente, ao contrário dos muitos portugueses que continuam a trabalhar para salvar, curar, alimentar, proteger e apoiar outros portugueses nas suas mais básicas necessidades?

Segundo argumento da “santa aliança” : “aqui d’ el rei que os portugueses não puderam comemorar a Páscoa e não podem comemorar o 13 de Maio em Fátima e podem comemorar o 25 de Abril e o 1º de Maio”.

Também esse argumento cai por terra, porque não estamos a falar exactamente da mesma coisa.

Em primeiro lugar não se proibiu ninguém de comemorar a Páscoa, proibiu-se as deslocações em massa do estrangeiro para Portugal e dentro do país, no momento do pico da crise na Europa e por cá.

Que eu saiba, as comemorações do 25 de Abril na Assembleia da República e as comemorações previstas para o 1º de Maio não implicam as deslocações em massa de tipo idênticas às da Época Pascal.

Nem vamos ter velhotes a beijar a mesma cruz!!!

Aliás, muitos párocos e bispos realizaram as liturgias nas Igrejas, sem público, tal como vai acontecer na Assembleia da República com o 25 de Abril. Também não vai estar público, apenas um reduzido número de entidades oficiais.

O mesmo risco de deslocação em massa é o que existe para as comemorações do 13 de Maio, já que este não se comemora só com os habitantes de Fátima.

Em segundo lugar, as comemorações católica são organizadas pela Igreja e a decisão e a  forma de as organizar cabe à sua hierarquia, já que vivemos num Estado laico.

Penso mesmo, por aquilo que sei das ditas “comemorações”, que tudo vai implicar menos gente, (respeitando a distancia social ou usando máscaras, numa praça ou junto a um lugar simbólico), do que aquela que ontem esteve às entradas dos hospitais a cantar o hino nacional, numa justa homenagem a auxiliares, enfermeiros e médicos, atitude que não vi ser condenada ( e ainda bem, pois seria ainda mais ridículo) , pois os argumento seriam os mesmos.

Situações de crise como a que estamos a viver é propícia ao fanatismo, à má-fé, à presunção ignorante e à demagogia populista.

Contudo, esperemos que não sejam os políticos e os sindicatos a alimentar esse clima com atitudes irreflectidas e irresponsáveis na escolha da melhor maneira para comemorar o 25 de Abril e o 1º de Maio.

Pela minha parte, porque procuro que o espírito do 25 de Abril e do 1º de Maio sejam comemorados todos os dias, comemoro essa data aqui em casa e espero ver as televisões, a Assembleia da República e os sindicatos a dignificar a comemoração dessas datas.

sexta-feira, 24 de maio de 2019

Contra a demagogia : em defesa de Carlos Miguel


A Demagogia populista anda por aí. 

Desta vez foi o jornal "Público" a "borrar o pé", tentando insinuar que uma edição de autor, apoiada pelo município de Torres Vedras com a compra de metade da edição, prefigurava uma situação de favorecimento ilícito. 

Em defesa de Carlos Miguel e denunciando o carácter especulativo do título (mais do que da notícia em si) AQUI publicámos o que pensamos sobre o tema.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

“Não há corrupção em Portugal” (!!??)… “só” (!!) corrupção ética!!??


O recente desfecho de alguns casos de tribunal, que envolvem figuras da vida politica nacional, é um mau prenuncio do estado da justiça portuguesa, mas também do estado da comunicação social e da classe politica, e representa uma grave machadada na credibilidade democrática.

Como cidadão, não me sinto convencido nem devidamente esclarecido sobre esses desfechos.

Mas algumas conclusões  posso tirar dessa onda de absolvições de casos mediáticos:

- aquilo que qualquer cidadão normal, que vive do seu trabalho, considera eticamente reprovável, afinal não é corrupção…porque é legal. Dá para perceber que quem faz as leis as faz para fomentar o que é reprovável eticamente e, em muitos casos, para proteger o que é perceptível como corrupção. Percebe-se assim a misturada entre escritórios de advogados , classe politica e grandes empresários…;

- o Ministério Público acusa antes de ter provas sólidas e, por incompetência ou conivência, ou ambas, antes de conseguir essas provas, prefere fomentar fugas de informação selectivas, que minam a credibilidade da justiça, contaminando a investigação e as provas e condenando  na praça pública antes de se chegar a julgamento, agindo conforme a conveniência política do momento: “ora agora acusamos políticos do PSD, ora agora acusamos políticos do PS”!!!;

- a comunicação social faz o servicinho sujo de toda essa gente, mais preocupada com audiências do que em investigar por conta própria os casos de que tem conhecimento, misturando,no mesmo saco, falsas suspeitas, muitas vezes por mera vingança politica e pessoal, dos verdadeiros casos de corrupção, sem separar o que é corrupção ética do que é legalmente condenável.

Apesar de toda essa areia atirada aos olhos do incauto cidadão, apesar da incompetência da justiça, há uma forma simples de perceber se os absolvidos são de facto criminosos ou não, mesmo que a lei os proteja:

- se eles, após serem absolvidos, processarem a comunicação social e a própria justiça e se baterem até ao fim por pedidos públicos de desculpa e pelas indemnizações devidas, de forma frontal e aberta, é porque de facto são inocentes. Não era isso que qualquer cidadão injustamente acusado faria?

- se, pelo contrário, se remeterem ao silêncio, então é porque têm mesmo alguma coisa a esconder e preferem não fazer ondas e contentar-se com a forma como se safaram de prestar contas à justiça, jogando com todos os sobre-refúgios de leis, criadas à medida pelos escritórios de advogados que lhe fornecem os mesmo advogados que os safam…

Situações como essas, pouco claras, sem certezas, que não convencem ninguém, só contribuem para minar o Estado de Direito e a Democracia e fomentar a demagogia das redes sociais e dos “coletes amarelos”.

Depois não se admirem se, um dia destes, um qualquer Bolsonaro bater à porta da democracia portuguesa!!

sábado, 22 de dezembro de 2018

“Coletes Amarelos” – quem são os derrotados.



Do total fracasso, a roçar o ridículo, da manifestação dos “coletes amarelos”, não saíram apenas derrotados os seus promotores.

Em primeiro lugar saiu derrotada a extrema-direita portuguesa, ficando à mostra a sua verdadeira dimensão.

Em segundo lugar, saiu derrotada a bazófia de utilizadores das redes sociais, (tão caladinhos agora) que pensavam que bastava destilar ódio, intolerância e demagogia, em doses cavalares, para conseguir mobilizar os portugueses.

Em terceiro lugar saíram derrotados os que andavam a apregoar a decadência da mobilização sindical, acreditando que bastava gritar contra tudo e contra todos para conseguir mobilizar manifestantes.

Em quarto lugar saiu derrotada a comunicação social, sempre tão pronta a desvalorizar reivindicações sindicais, profissionais e sociais, mobilizando desta vez grande parte do seu espaço para amplificar uma manifestação de dimensões ridiculas, mostrando-se quase tão desesperada com o resultado da manifestação como os próprios promotores.

Mas sairão igualmente derrotados, a prazo, aqueles que, perante o fracasso desta manifestação, pensam que tal desaire significa que muitas das reivindicações e protestos, usados de forma demagógica e oportunista pelos promotores, não têm um fundamento de verdade.

A democracia ganhou esta batalha contra a demagogia, mas tem muitas outras batalhas pela frente.

A democracia é frágil e, se quer sobreviver, tem de combater eficazmente as desigualdades, a corrupção, a pobreza e todo o tipo de injustiças sociais, ou a demagogia ganhará espaço para voltar com mais força.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Nem Macron, nem Le Pen…nem, muito menos, os mais extremistas “coletes amarelos”!



Costuma-se dizer que é nas  curvas apertadas que se destacam os bons condutores.

Frase que se pode aplicar aos políticos: é nas curvas apertadas da história que se revelam os grandes políticos.

Existem alguns grandes exemplos: Churchill na 2ª Guerra, De Gaulle no Maio de 68, Mandela na África do Sul, ou Gorbachev na União Soviética…e não me lembro de muitos mais.

Infelizmente para a França, e a prazo para a Europa, Macron revelou-se um politico incapaz de enfrentar os graves conflitos sociais que o seu país enfrenta.

Ao querer tornar-se o menino bonito da Europa da austeridade, dominada pelo poder financeiro, sonhando substituir Merkel como líder do projecto europeu, revelou-se, pela forma como tem lidado com os “coletes amarelos”, um politico medíocre e incapaz, uma ténue sombra da líder alemã.

Macron domina na retórica, mas revelou-se incapaz de perceber que a França vive, há décadas, uma grave crise social e de identidade, que explodiu agora em violência com base numa reivindicação quanto a nós injusta: contestar o aumento de impostos sobre o uso do gasóleo (quando outros países, com a Alemanha, anunciaram a proibição, a prazo, do uso desse combustível, uma das formas de travar o desastre ambiental para onde caminhamos a passos largos).

Essa reivindicação é injusta, mas Macron mostrou-se incapaz de explicar a necessidade de travar o uso do gasóleo e até, a prazo do automóvel a gasolina e, em vez de se revelar um politico hábil, regou o fogo com gasolina, e o resultado, lamentável, está à vista.

Não percebeu que, por detrás do pretexto do aumento de impostos sobre o gasóleo, está uma realidade social cada vez mais perigosa.

Os próprios “coletes amarelos” conseguiram aproveitar o destaque dado ao seu movimento para juntar 41 reivindicações, todas de grande justiça do ponto de vista social, mas Macron não respondeu a uma única delas, mantendo-se fiel ao programa “austeritário” e anti social com o qual pretende agradar aos burocratas de Bruxelas e ao corrupto mundo financeiro europeu.

Rapidamente o moribundo movimento de Le Pen encontrou neste movimento o colete de salvação e colou-se à revolta, como se alguma vez, chegada ao poder, pudesse garantir as 42 reivindicações dos “coletes amarelos” (hoje reveladas no jornal “Público”) todas elas contrárias aos princípios e ideologia da extrema-direita francesa.

Por isso não será de estranhar que, por detrás da violência vivida Sábado em Paris, estivessem conhecidos elementos da extrema-direita, dando assim um grande contributo para desviar as atenções para as legitimas reivindicações dos “coletes amarelos”, colando-os à violência gratuita habitual nas manifestações, em França, da extrema-direita, que contaram com o apoio irresponsável de grupúsculos de extrema-esquerda, para permitir a Macron aparecer como o equilibrista, que afinal não é.

Deixando-se infiltrar por provocadores extremistas, o justo movimento dos “coletes amarelos” corre o risco de se descredibilizar junto da opinião pública e de reforçar o discurso de “ordem” da extrema-direita.

As próximas manifestações dos “coletes amarelos” terão de ser uma esmagadora manifestação cívica, isolando os provocadores. Caso contrário ficam à mercê da estratégia da extrema-direita francesa e contribuem para reforçar Macron na aplicação das medidas antissociais que ele preconiza, conduzindo a França, e a prazo o que resta do “europeísmo”, para um abismo sem saída.

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

O Fascismo “nunca existiu”!??...ou existiu “apenas” num país!???...ou “anda ainda por aí”!?? -3º parte



Registámos, em dois posts anteriores, as características históricas do fascismo e a forma como a investigação histórica dos anos 90 caminhou no sentido de demonstrar que o fascismo estava morto e enterrado.

Referimos a excepção de Umberto Eco que, remando conta a maré dominante, explicou num ensaio de 1997, que o fascismo podia ressurgir com novas roupagens.

Ficámos de explicar quais eram as características, apontadas por Eco,  desse “novo fascismo”, que ele designa com “Ur-fascismo”.

Depois de analisar o exemplo do fascismo italiano, mostra que o fascismo não era coerente do ponto de vista ideológica, “não era uma ideologia monolítica, mas uma colagem de diversas ideias politicas e filosóficas, uma amalgama de contradições”, ao contrário do nazismo.

Por isso considerava que, se o nazismo não iria reaparecer “como movimento que envolva uma nação inteira”, pelo contrário o fascismo mantinha condições para renascer sob novas roupagens.

Escreve Eco que houve “um único nazismo”, mas, em” contrapartida, “pode-se brincar ao fascismo de muitos modos”, porque o “termo “fascismo” adapta-se a tudo porque é possível eliminar de um regime fascista um ou vários aspectos, e poder-se-á reconhecê-lo com fascismo”.

Apesar da confusão e da dificuldade em definir fascismo, é “possível indicar uma lista de características típicas do que poderei chamar o “Ur-fascismo” ou o “fascismo eterno”. Estas características não poderão ser ordenadas num único sistema: muitas contradizem-se reciprocamente, e são típicas de outras formas de despotismo ou fanatismo. Mas basta que esteja presente uma delas para fazer coagular uma nebulosa fascista”.

E quais são essas características apresentadas no ensaio de Eco?

Ei-las, de forma resumida:

-1. O culto da tradição, embora seja “mais velho do que o fascismo”;

-2. A rejeição do modernismo e do mundo moderno, que também se pode referir como “irracionalismo”.

-3. O culto da “acção pela acção”: “A acção é bela em si, e portanto tem de ser realizada antes de e sem qualquer reflexão. Pensar é uma forma de castração. Por isso a cultura é suspeita na medida em que se identifica com comportamentos críticos”, atitude identificada com o “uso frequente de expressões como “Porcos intelectuais”, “Convencidos”, “Snobs radiais”, “As Universidade são covis de comunistas”(…).

-4. O desacordo “é traição”.

-5. O Medo da diferença. “O Ur-Fascismo é (…) racista por definição”.

-6. A exploração da “frustração individual ou social” , apelando “às classes médias frustradas , sentindo mal-estar por qualquer crise económica ou humilhação política, assustadas pela pressão dos grupos sociais subalternos”.

-7. O nacionalismo, com apelo à xenofobia e que procura inimigos externos e internos que “conspiram” contra a identidade nacional.

- 8 . A defesa face a um inimigo que humilha o “povo”  pela “riqueza ostentada”.

- 9 . A critica ao pacifismo.

- 10 . O elitismo de massas e o “desprezo pelos fracos”. Quem se identifica com o “chefe” ou com “o partido” é o “melhor  povo do mundo” e os que pertencem ao “movimento” são “os melhores cidadãos”.

- 11 . O culto do “herói”, “todos são educados para se tornarem heróis”.

- 12 . o “machismo”, que implica o “desprezo pelas mulheres” e a “condenação” da homossexualidade.

- 13 . O “populismo qualitativo”, ou seja, “os indivíduos enquanto indivíduos não têm direitos” e é o líder que interpreta a vontade do povo. Já então Eco avisava que no “nosso futuro perfila-se um populismo qualitativo Tv ou internet, em que a resposta emotiva de um grupo selecionado de cidadãos pode ser apresentado e aceita como a “voz do povo”. Devido aos seu populismo qualitativo, o Ur-Fascismo tem de opor-se aos “putrefactos” governos parlamentares”. E conclui: “sempre que um politico lança dúvidas sobre a legitimidade do parlamento por já não representar “a voz do povo”, já podemos dizer que cheira a Ur-fascismo”.

- 14 . “O Ur-Fascismo fala a “neolíngua””, um termo inventado por George Orwell par o seu romance “1984”, uma crítica ao stalinismo então dominante entre os movimentos comunistas, mas que, segundo Eco, tem elementos comuns “a formas diferentes de ditaduras”, referindo o léxico pobre, de frase feita, com fins propagandísticos e de doutrinação, que procura alterar o significado da palavra com o objectivo de “limitar os instrumentos para o raciocínio complexo e crítico”, avisando para a necessidade de estarmos preparados “para identificar outras formas de neolíngua, mesmo quando toma  a forma  inocente de um talk- show popular”.

Conclui Eco que o “Ur-fascismo ainda pode voltar sob as vestes mais inocentes . O nosso dever é desmascara-lo e apontar o dedo a cada uma das suas novas formas –diariamente, em todo o mundo”.

Aquilo que parecia então uma mera divagação intelectual, está hoje mais actual do que muito.

Muitos dos 14 pontos apontados por Eco estão aí mais do que presentes no discurso populista de líderes políticos e movimentos de várias vestes e cores, da Venezuela ao Brasil, da Coreia do Norte à Hungria, da Rússia à Turquia, das Filipinas à Polónia, da Grã-Bretanha aos Estados Unidos, da França à Itália….

As redes sociais, que substituem a rua como lugar de manifestação da violência e do ódio de tipo fascista, estão cheias de um discurso acima identificado por Eco como o “Ur-fascismo” dos nossos dias :

-o apelo irracional ao ódio contra quem não pensa como nós;

- o discurso saudosista do “antigamente [leia-se por cá, no tempo de Salazar] é que era bom”;

- a diabolização e ridicularização das ditas questões fracturantes [a critica à modernidade];

- a disseminação das fake news ( a mentira várias vezes repetida para se tornar “verdade”);

- a criação de um clima de medo ( exagerando, pela repetição e pelo destaque, a existência de uma sociedade “dominada pelo crime”);

 -a desvalorização do Estado de Direito, com apelos à judicialização da sociedade, renegando a presunção de inocência ou fazendo dos tribunais espectáculo, recorrendo à divulgação de processos em segredo de justiça, conduzindo à defesa de uma  justiça popular e a uma justiça feita pelas próprias mãos, atitude potenciada pelos títulos de tablóides;

- a desvalorização de um pensamento crítico, atacando os “intelectuais”, o conhecimento cientifico, o papel das universidades “tomadas pela esquerda”;

- o desprezo pelos fracos, que culpa pela sua fraqueza, “vivendo dos subsídios”, apenas tolerados com alvo de campanhas de caridade para limpeza de consciências;

- o nacionalismo exacerbado, cercado de “inimigos” ( os “venezuelanos”, os “comunistas”, os “islâmicos”, os “terroristas”, os “emigrantes”…);

- a superioridade “democrática” das redes socias, a  verdadeira “voz do povo”, como contraponto da democracia “corrupta” e putrefacta” dos regimes parlamentares e dos políticos;

- etc., etc., etc….

Uma actualização fundamentada  do perigo de um “novo fascismo” está presente na recente obra de Madelene Albright, “Fascismo um Alerta”.

Historiando a origem histórica do fascismo e mostrando o que este teve de comum com o comunismo real (na sua versão stalinista) no desdém pela democracia, encontra diferenças assinaláveis entre as duas ideologias.

Faz igualmente o historial do MacCarthismo e da forma como, durante a Guerra Fria, os regimes democráticos pactuaram com as mais criminosas ditaduras, mostrando a forma como, no seio de regimes democráticos sólidos, o perigo das pulsões fascistas está presente e se pode transformar a democracia numa “ditadura da democracia”.

Faz um historial recente da presença dessas pulsões fascistas em regimes actuais, que , mesmo quando de origem ideológica aparentemente diferente, transportam em si o vírus do fascismo: o recurso à mentira, o desdém pela liberdade e pela democracia, o carisma do líder, o recurso ou apelo ao genocídio, o combate à diferença e o nacionalismo exacerbado.

Percorre a história recente do chavismo venezuelano, do regime turco de Erdogan, da ascensão de Putin, da “democracia iliberal “ de Órban na Hungria, da liderança omnipresente da dinastia Kim na Coreia do Norte, entre muitas outras referências a outros regimes “proto fascistas” como o de Sissi no Egipto, o de Kaczynski na Polónia, o de Zeman na República Checa, o de Duterte nas Filipinas (só não falando em Bolsonaro porque ainda não era notícia à data da escrita do livro), chegando à principal preocupação para o seu alerta contra o fascismo, a situação que se vive nos Estados Unidos com a vitória de Trump.

Claro que nenhum desses regimes é classificado por Albright com “fascista” ( apenas classifica como tal o da Coreia do Norte), mas todos transportam em si a semente de um novo fascismo, principalmente pela forma como banalizam um determinado discurso e uma determinada atitude que justifique as pulsões “fascistas”.

Em muitos desses governos e noutros movimentos de tipo populista por esse mundo fora, e citando Robert Paxton, da Universidade de Columbia, “ouvimos ecos de temas fascistas clássicos: medos da decadência e do declínio; afirmação de uma identidade nacional e cultural; uma ameaça à identidade nacional e à boa ordem social por parte de estrangeiros não assimiláveis; e a necessidade de maior autoridade para liderar com esses problemas”( pág.222).

Em comum, Albright encontra nalgumas das atitudes daqueles governos o caminho para um novo fascismo:

“Rapidamente o Governo que silencia um meio de comunicação acha mais fácil silenciar um segundo. O parlamento que ilegaliza um partido politico passa a ter um precedente para banir o seguinte. A maioria que priva determinada minoria dos seus direitos não para por aí. A força de segurança que espanca manifestantes e fica impune não hesita em voltar a fazê-lo” (pág.278).

Albright recorda-nos que, como aconteceu ao longo da história, os fascistas podem chegar ao poder por via eleitoral. Hoje em dia, aliás, não se atrevem a fazê-lo de outro modo. Geralmente chegados aos poder, vão dando passo a passo a estocada final na democracia, sendo o primeiro passo  minarem “ a autoridade de centros de poder que compitam com eles, incluindo o Parlamento”.

Deve-se a Albright uma definição simples e concisa do que é um fascista: “alguém que reclama falar em nome de uma nação ou de um grupo, que não se preocupa nada com os direitos dos outros e que está disposto a recorrer à violência e a quaisquer outros meios necessários para alcançar os seus objectivos” (pág.296).

Albright, que iniciou o seu livro com um conjunto de perguntas feitas aos seus alunos, cujas respostas esclarecem o que foi o fascismo em termos históricos, conclui a sua obra reformulando as perguntas, para responder onde podemos encontrar, nos lideres políticos de hoje, os novo arautos no novo fascismo:

“Vêm ao encontro dos nosso preconceitos, sugerindo que tratemos as pessoas de outra etnia, raça, credo ou partido como se não merecessem dignidade e respeito?

“Querem que alimentemos a ira contra quem acreditamos que nos fez mal, esfreguemos os ressentimentos até ficarem em carne viva e ponhamos os olhos na vingança?

“Encorajam-nos a sentirmos desprezo pelas instituições que nos governam e pelo processo eleitoral?

“Procuram destruir a nossa fé em elementos essências à democracia, como uma imprensa independente e uma magistratura profissional?

“Exploram os símbolos do patriotismo – a bandeira, o juramento – num esforço consciente  de nos virar uns contra outros?

“Se forem derrotados nas urnas, aceitam o veredicto ou insistem sem provas de que foram eles os vencedores?

“Fazem mais do que pedir os nossos votos e gabam-se da sua capacidade para resolver todos os problemas, acalmar todas as ansiedades e satisfazer todos os desejos?

“Solicitam os nossos aplausos falando despreocupadamente e com entusiasmo machista sobre o uso da violência para aniquilar os inimigos?.

“Repetem a atitude de Mussolini: “A multidão não precisa de saber” , tudo o que tem a fazer é acreditar e “aceder a ser moldada”?” (pp.304-305).

Quem corresponder à resposta positiva a  estas questões trás consigo e alimenta a semente do novo fascismo.

Como se pode concluir do que nós escrevemos e citámos, não é fácil definir, nem ontem nem hoje, o que é o fascismo.

Nem o fascismo dos anos 30 é repetível na nossa época.

Mas o desprezo pela democracia, pela liberdade, pelo outro, pela verdade, pelas instituições sociais e democráticas, pelos direitos humanos e sociais, é uma carcteristica comum à extrema-direita populista, seja a dos anos 30,seja a actual, mesmo quando, como na Venezuela, se veste  de roupagens pseudo-esquerdistas.

Ao mesmo tempo o apelo à violência e ao ódio, físico ou verbal, a atitudes irracionais, ao  que de pior existe no ser humano, é comum a tudo aquilo que, legitimamente, podemos classificar de fascismo.

Não vamos ver milícias nas ruas perseguindo judeus, negros, comunistas, socialistas ou democratas (ou será que vamos? Bolsonaro já prometeu algo parecido no Brasil...). Hoje as redes socias prestam bem esse serviço.

Não vamos ver a destruição total do formalismo democrático, pois podem bem conciliar o acto eleitoral em sociedades manipuladas por uma comunicação social controlada pelo poder financeiro e politico (Rússia, Turquia, Hungria...).

Ao contrário dos anos 30, em que economicamente o que era viável aos poderes que financiaram o fascismo contra o socialismo, a democracia e os direitos sociais, era a estatização da economia, hoje esses mesmo poderes apostam no neoliberalismo que lhes permite escapar ao fisco, às regras ambientais, à legislação e os direitos laborais e ao controle democrático da sua acção pelos parlamentos.

Este “novo fascismo”, ou “ur-fascismo” ou “populismo”, não precisa hoje de recorrer  ao aparato cénico propagandístico e espectacular dos anos 30. Basta manter-nos alienados, agarrados às redes socias e aos talk shows.

Ao contrário da esquerda, a extrema direita populista conseguiu adaptar-se aos novos tempos e renascer das cinzas, voltando a colocar o mundo á beira do abismo e da barbárie.

Bibliografia:

ALBRIGHT, Madeleine, Fascismo – um alerta, ed. Clube do autor, 2018;

ECO, Umberto, Como reconhecer o fascismo. Da diferença entre migrações e emigrações, ed. Relógio d’Àgua, 2017 (texto original de 1997, numa tradução de grande qualidade de José Colaço Barreiros);

PAYNE, Stanley G., El fascismo, Alianza Editorial , Madrid 1996 (1ª edição em 1980);

PINTO, António Costa, O Salazarismo e o Fascismo Europeu, ed. Estampa;