terça-feira, 30 de outubro de 2018

As unhas da deputada e os grunhidos das redes socias.


As redes sociais foram invadidas nos últimos dias por uma fotografia da deputada Isabel Moreira a pintar as unhas em pleno Parlamento.

Não me parece que o assunto mereça qualquer atenção.

Mas não foi isso que aconteceu.

À boleia da boçalidade desencadeada pelo estilo “Bolsonaro”, os nossos “facebookianos” da direita, cada vez mais intolerantes, caíram em cima da deputada.

Só o facto de ela ser uma deputada do PS, desassombrada, frontal e que toca em temas polémicos, fez dela o alvo de uma enxurrada de comentários, ao nível do mais repelente grunhido.

Mas isto é notícia? 

Já chegámos ao Brasil?

 Não têm mais nada interessante a fazer a não ser descarregar comentários disparatados?

São todos assim tão puros ou isentos? 

Só deputados da esquerda ( ou "esquerdalhos" como tão bem educadamente se referem a quem pensa diferente) é que têm momentos destes? 

todos esses “pensadores” têm a consciência tão tranquila com o que fazem no trabalho?

O acto da deputada influencia alguma coisa no seu trabalho? 

Estas redes sociais andam mesmo um nojo, e a comunicação social dita "séria" alinha!!

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Pedras Rolantes – Dez anos é muito tempo



Passam hoje dez anos que iniciámos a publicação do nosso blog “Pedras Rolantes”.

Foi no dia 29 de Outubro de 2008!

O nome fomos busca-lo a umas crónicas publicadas no saudoso jornal “Área”, editado no final da década de 1970, nome que respigamos da famosa banda “The Rolling Stones”.

Nunca imaginámos durar tanto tempo.

O que publicamos reflecte os nossos variados interesses culturais, sociais e políticos e retracta um mundo muito pessoal.

Logo na apresentação AQUI revelamos ao que vínhamos.

Mais tarde, a partir de alguns dos temas que mais nos interessaram e abordámos, demos três “irmãos” (ou “filhos”?) mãos novos a este blog:

Em 20 de Abril de 2009 surgiu o “Vedrografias”, dedicado a Torres Vedras e à divulgação da sua história e património;

Em 18 de Outubro de 2009 o “A Forma e a Luz”, com o objectivo de apoiar as aulas de História da Arte e que continua a divulgar temas de arte e, cada vez mais, as artes visuais, principalmente a fotografia;

Finalmente, o mais recente, o “BêDêZine” dedicado a um dos primeiros temas que me interessaram, a Banda Desenhada, e ao cartoon, surgido em 24 de Setembro de 2014.

Nem sempre temos conseguido manter a regularidade desejada na publicação deste blogues, mas mesmo assim estão quase sempre entre os 1000 blogues mais visionados em Portugal.

O Pedras Rolantes foi citado mais de dez vezes pelo jornal Público, quando ele tinha uma secção onde eram transcritos textos de blogues portugueses sobre a actualidade e chegámos a ser citados num telejornal da SIC, quando esta , durante algum tempo, divulgou a publicação de blogs portugueses.

Depois o mundo dos blogues foi perdendo espaço para o facebook e o Twitter, mas penso que um blogue ganha em conteúdo.

Ao longo destes dez anos publicámos 5 636 post’s visualizados 514 mil e 430 vezes.

Os dez países que mais visitaram o Pedras Rolantes foram:

- Portugal – 171 101;
- Estados Unidos – 155 116;
- Brasil – 36 980;
- Rússia – 30 453;
- Alemanha – 15 644;
- China – 15 331;
- França – 8 365;
- Turquia – 6 164;
- Espanha – 3 480;
- Reino Unido – 2 807.

Quanto aos vinte “tags” mais publicados, reveladores também dos temas que mais abordámos, eles são os seguintes:

- Musica – 1097;
- Cartoon – 965;
- Contra-situacionismo – 946;
- O Som do Dia – 797;
- Fotografia (divulgação) – 549;
- União Europeia – 416;
- Fotografia  (da minha autoria) – 374;
- Cinema – 310;
- Torres Vedras – 302;
- Economia – 273;
- Indignação – 258;
- Crise Financeira – 256;
- Anti- Passos Coelho – 253;
- Eleições – 249;
- História Contemporânea – 231;
- Corrupção ética – 193;
- Banda Desenhada – 184;
- Anti-Sócrates – 172;
- Humor – 169;
- Filmes de uma Vida – 161;

Temos procurado ser irreverentes, provocadores, reconhecendo que por vezes escrevemos um pouco em cima do joelho e mais com o coração do que com a cabeça.

Contudo, esperamos que nos perdoem e nos deixem   continuar por cá mais outro tanto.

Obrigado pela vossa atenção e companhia ( e um abraço especial ao Moedas Duarte).

No Brasil ou em qualquer lado : Democracia não é ditadura da maioria!



O argumento de muitos defensores de Bolsonaro, ou dos que são “neutrais” e compreensivos para com  o fenómeno Bolsonaro, usado  contra os que se manifestam preocupados com a sua campanha e o resultado das  eleição brasileiras , é a de que estes são antidemocráticos e não respeitam os resultados democráticos.

Isto, claro, quando argumentam, porque o que por aí vejo maioritariamente entre os defensores por cá de Bolsonaro  é um assustador uso de grunhidos contra os “esquerdalhos”, os “comunistoesquerdalhos” , os “venezuelanos”, “mandem os vermelhos para Cuba”, ou, pior ainda, “ranhosos”, “escumalha vermelha”, “badamecos”, “javardos” e outras epítetos no mesmo tipo…adiante!

Ora, uma das primeiras características da democracia é o direito de se criticar e contestar, por vários meios legítimos, resultados eleitorais com os quais não se concorde ou, como é o caso de Bolsonaro, ponham, nem que seja hipoteticamente, em causa o próprio futuro da democracia.

O direito de existência e de actuação da oposição, por mais minoritária que seja, está consignado na Constituição de qualquer país democrático.

Por isso criticar uma maioria democrática e legitimamente eleita é um direito fundamental em  democracia.

Além disso, em democracia, é muito raro a maioria eleita representar mais de 30% de todos os habitantes de um país ou mais de 40% de todos os eleitores.

Por isso, em democracia, existem direitos para a oposição, e as minorias, culturais, sociais, ou ideológicas, são todas respeitadas, mesmo aquelas que não aceitam a democracia.

Nem a democracia se esgota no acto eleitoral. 

Existem muitas  formas de participação ou de iniciativa fora dos partidos e fora da vida parlamentar.

A eleição de Bolsonaro, que defende todos os valores contrários a uma sã convivência democrática é preocupante, mas a defesa desses valores está legitimada pelo resultado democrático.

Mas, agora, são as próprias instituições democráticas que, se funcionarem como deve ser, se a democracia brasileira for mesmo uma democracia madura, vão travar muitas das pulsões antidemocráticas de Bolsonaro.

Ou seja, se Bolsonaro quiser levar para a frente o que prometeu, que é perseguir as minorias, limitar Direitos Humanos e Sociais, destruir a Amazónia, prender adversários políticos, instituir a tortura, só o pode fazer destruindo a democracia.

Bolsonaro vai ser um verdadeiro “teste de stress” para a aferir da maturidade da democracia brasileira (tal com acontece com Trump nos Estados Unidos).

Uma democracia não é uma ditadura da maioria, ou então deixa de ser democracia.

Vamos seguir com atenção o evoluir da situação brasileira, até porque, do que lá acontecer, podemos sofre as consequências ( como já se vê no uso crescente das redes sociais para gerar um clima de ódio e intolerância, ou, mais a médio prazo, nas consequências ambientais da destruição da Amazónia, que afectará toda a humanidade).

Por agora, saudemos a democracia brasileira, esperando que tudo não passe de um epifenómeno na sua curta história.

Ao menos que contribua para os democratas e a esquerda brasileira se renovarem, emendando ou aprendendo com os seus próprios erros.

Brasil - Por enquanto é democracia



A Democracia funcionou no Brasil.

Foi eleito um presidente por cerca de 55 milhões de eleitores, entre um total de 140 milhões de eleitores.

Outros 45 milhões votaram Haddad e 10 milhões anularam o seu voto ou votaram em branco..
Uma das características da democracia é que uma imensa minoria, geralmente cerca de 30% dos eleitores, consegue eleger parlamentos com maioria absoluta e eleger presidentes.

Mas uma outra das características da Democracia é que essas imensas minorias têm de respeitar a imensa maioria que vota (ou não vota) noutras minorias e tem de respeitar cada cidadão.

O problema é quando uma imensa minoria vitoriosa ameaça tudo o resto e se sente legitimado, mais do que pelo voto, por qualquer poder divino.

Foi assim que mutas democracias se perderam, foi assim que Hitler chegou ao poder, que, nos nossos dias, chegaram ao poder Putin, Órban, Maduro….

Durante a campanha eleitoral brasileira, um jornalista perguntava a uma eleitora porque ía votar em Bolsonaro. “Porque gosto do programa dele”, respondeu. Replicou o jornalista. “e qual é esse programa?”. E ela respondeu “Não sei, mas concordo com o programa dele”.

O discurso de vitória de Bolsonaro nada esclareceu sobre o programa da sua presidência, mais parecendo que  estávamos numa missa de uma qualquer igreja evangélica, repetindo meia dúzia de frases feitas, repetindo pelo meio as palavras “democracia” e “liberdade”, palavras que se tornam vazias de tanto repetidas sem convicção. (Muitos dos regimes mais antidemocráticos da história também se definiam como “repúblicas democráticas” e muitos dos partidos de extrema direita intitulam-se “da liberdade” ou  “liberais”).

Quando se faz um discurso vazio é porque se pretende esconder a verdade, talvez para agradar aos “mercados” e à “comunidade internacional”.

E a verdade foi aquela que ele foi revelando quando falou sem limites ou constrangimentos: apelar à violência contra os opositores, perseguir as minorias, desvalorizar as mulheres, os negros e os trabalhadores, e, aquilo que muito deve preocupar qualquer cidadão do mundo, a promessa de destruir a Amazónia. Este é o seu verdadeiro programa.

Para o cumprir vai ter de, ou corromper o senado, o congresso e os tribunais e/ou violar a Constituição e destruir a democracia.

Costuma-se dizer que, principalmente quando isso  se faz por via eleitoral,  cada povo tem o governo que merece.

Por mim, embora lamente a escolha de 55 milhões de brasileiros, até podia estar descansado  por estar longe dessa gente (embora olhe, daqui para a frente, com alguma preocupação, quando me cruzar com brasileiros, sabendo que 64% dos que vivem em Portugal apoiaram Bolsonaro e podem usar em Portugal os mesmos métodos defendidos pelo seu ídolo) .

Mas, pela  forma como a campanha de Bolsonaro contaminou as redes sociais portuguesas, legitimando o discurso de ódio e intolerância usado no Brasil e, mais grave ainda, a perspectiva de  destruição da Amazónia, envolvendo-nos a todos no holocausto ambiental que essa decisão vai ter no bem estar da humanidade e no futuro da vida dos nosso filhos, não posso deixar de me preocupar com a decisão de 55 milhões de brasileiros.

Por isso, temo que aquilo que foi uma decisão democrática legitima redunde, como aconteceu muitas vezes na história, passada e recente, numa imensa tragédia.

Hoje foi um dia de festa democrática. 

Mas temo que tenha sido um dos últimos por aqueles lados. 

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

O Fascismo "nunca existiu"!??...Ou existiu "apenas" num país!???...ou "anda ainda por aí"!?' (parte 2)


Nos anos 90, depois da derrota do comunismo real, e com o fim da Guerra Fria, parecia que a democracia e a liberdade iam vencer por todo o mundo.

Recorde-se que na década anterior se tinham desmoronado as ditaduras militares na américa latina e o apartheid na África do Sul.

Era o “fim da história” de Fukuyama.

Também por essa altura estudava-se afincadamente o fascismo, chegando a maior parte dos investigadores à conclusão que este regime estava datado histórica e geograficamente.

O fascismo puro só tinha existido em Itália.

Estabeleciam-se as diferenças entre os vários regimes que até aí tinham sido “misturados” sob a designação de “fascistas”: o Estado Novo português, o governo de Vichy em França e o franquismo espanhol, entre outros, não encaixavam no modelo fascista dos investigadores .

Mesmo o nazismo era uma excrescência totalitária do fascismo.

Já em artigo anterior abordámos algumas das características do fascismo apontadas por esses estudos.

Não deixa de ser, contudo, curioso, que, encontrando-se tantas diferenças entre esses regimes, nunca ninguém tenha feito  o mesmo exercício para distinguir os regimes e os movimentos comunistas, quer do ponto de vista cronológico, quer do ponto de vista sincrónico.

É que, na realidade, existem tantas diferenças, em termos práticos, em termos de violência ou em termos económicos e sociais,  entre o Estado Novo português, o nazismo alemão ou o fascismo italiano, como entre a União Soviética de Lenin, de Stalin ou Gorbachev, ou entre Cuba e a Coreia do Norte, ou entre o chamado eurocomunismo e o Partido Comunista Português…

Mas a preocupação em fazer esta distinção não terá motivado da mesma maneira os investigadores dessa altura.

Era mais importante retirar certos regimes e certos partidos da família fascista, do que fazer o mesmo exercício em relação aos regimes ditos comunistas.

Não questiono a seriedade desses estudos. Apenas noto a diferença de prioridades.

Claro que pode haver uma situação que explica essas opções.

A maior parte dos regimes que se inspiraram, com maior ou menos convicção, no modelo do fascismo italiano, raramente se designaram ou classificaram como fascistas, ao contrário do que aconteceu com os regimes comunistas ou com os vários movimentos comunistas, mesmo quando se combatiam entre si.

A maior parte dos regimes autoritários de direita e os futuros partidos de extrema-direita, principalmente depois da 2ª Guerra, não se gabavam, pelo menos publicamente, de admirarem Mussolini ou Hitler, a não ser em casos muito marginais.

Pelo contrário, apesar de todas as suas diferenças, tão grandes ou maiores do que as que existiram ou existem entre regimes e partidos da direita autoritária e antiliberal, os regimes do “comunismo real” e os partidos assim designados, todos invocavam a mesma origem comum, mesmo que aplicada ou interpretada de forma diferente, como mínimo denominador comum, em Engels, Marx e Lenine.

Nos anos 90 o fascismo era considerado assunto histórico encerrado e irrepetível, ao contrário do “comunismo real” que continuou a sobreviver até hoje na China, no Vietname, na Coreia do Norte e em Cuba, e em Partidos Comunistas que continuam a ter um peso significativo em muitos países democráticos.

Contudo, houve um autor que remou contra a maré.

Esse autor foi Umberto Eco que em 1997 publicou um ensaio intitulado “O fascismo eterno”, publicado e traduzido em Portugal com o título “Como reconhecer o fascismo”.

Para Umberto o fascismo não estava morto e enterrado, ao contrário do nazismo.

Começava por desmentir que o fascismo, ao contrário do nazismo, tivesse uma filosofia própria, mas apenas “retórica”.

Demonstrou que o fascismo italiano não era fácil de classificar ou de caracterizar, pois, ao contrário do modelo coerente em que muito o tentavam encaixar, era um movimento pragmático, muitas vezes contraditório e incoerente.

Ora, essa capacidade camaleónica do fascismo, permitiu a sua sobrevivência e a capacidade de reaparecer em qualquer outro lado ou época sob outras “vestes”.

A partir destas premissas, Umberto Eco identifica um conjunto de características do “novo fascismo”, que ele apelida de “Ur-fascismo”, avisando, contudo, que essas “características não poderão ser ordenadas num único sistema: muitas contradizem-se reciprocamente, e são típicas de outras formas de despotismo ou fanatismo. Mas basta que esteja presente uma delas para fazer coagular uma nebulosa fascista”.

Hoje, esse ensaio, com mais de vinte anos, veio revelar-se mais actual do que nunca, quando assistimos ao renascimento de regimes, partidos e retóricas de extrema direita, pondo em causa a existência das democracias liberais que se julgavam eternas e em expansão naquela década.

Aliás, o próprio termo de “democracia liberal” é defensivo, como se a democracia não fosse liberal.

O que é um facto é que a maioria desses movimentos substituíram a rua e os golpes militares pela campanha em redes socias  e pela participação democrática e, onde chegam ao poder, como na Hungria, por exemplo, criaram um novo conceito, o de “democracia ileberal”, ou seja, manipulam as regras democráticas, mantendo a  fachada de actos eleitorais para se legitimarem e legitimarem o controle sobre a justiça e a comunicação social.

Vemos isso também na Turquia, na Russia, na Polónia, nas Filipinas…

Quais as são características do “Ur-fascismo” apontadas por Umberto Eco?

Fica para próximo artigo.

Eleições brasileiras em Cartoon

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Haddad não é Lula, nem Lula é Maduro.




Na grande mentira em que se tornou a campanha eleitoral brasileira, deixou de haver tempo para pensar.

Entre o chorrilho de mentiras da campanha histérica, a destilar ódio, de Bolsonaro e dos seus apoiantes, com muitos seguidores em Portugal, vem aquela de misturar tudo no mesmo saco.

Se Haddad é do PT logo é corrupto, porque Lula está preso, com acusações, no mínimo ridículas ou que fariam corar de vergonha qualquer juiz europeu.

Claro que não ponho as mãos no lume pela inocência de Lula ou do PT.

Sabe-se que o PT só pode governar porque teve de fazer cedências aos “establishement” financeiro e económico brasileiro, para, em  troca, tentar combater as gritantes desigualdades sociais que explicavam o descalabro social brasileiro.

Quem o empurrou para essas cedências foram figuras como Fernando Henriques Cardoso que, agora, cobardemente, se escondem na “neurtralidade” para deixar passar Bolsonaro.

Cedendo a essa gente, Lula deixou rabos de palha que acabaram por lhe ser fatais, num país habituado a funcionar na base da corrupção financeira e económica. 

Mas, mesmo assim, o tipo de acusações que apresentam e que o levaram à prisão são ridículas.

Pior ainda foi a destituição de Dilma, há dois anos, após outros dois anos em que a impediram de governar, destituição que foi conduzida por criminosos que acabaram na prisão ainda mais depressa do que Lula e com acusações bem mais graves e fundamentadas, nunca tendo conseguido encontra algo contra ela, a não ser o facto de terem maioria nos “parlamentos” e terem votado os seu afastamento, por razões meramente politicas, antes de irem quase todos presos.

Que há corrupção no Brasil, há. Que essa corrupção atingiu em força o PT, é verdade.

Mas ela atingiu o PT e todos os partidos e toda classe politica, e vinha muito detrás, e mesmo o “impoluto”  Bolsonaro e os seus apoiantes mais directos têm contas a prestar à justiça.

Só que a justiça está politizada de tal maneira, com muitos dos juízes mais conhecidos a apoiar directa ou indirectamente Bolsonaro, que este e os seu apoiantes nunca vão ser acusados, muito menos se, como tudo parece indicar, Bolsonaro se tornar o próximo presidente do Brasil.

Seja como for, esteja Lula inocente ou não, em relação a Haddad não existe nenhuma acusação de fraude, a não ser em “fake news” do costume, logo, por aí, Haddad não é Lula.

E Haddad também não é Lula do ponto de vista politico, já que representa a ala mais moderada do PT, algo que, em termos europeus, andaria próximo do centro-esquerda, nada da “extrema-esquerda” de que o acusam os fanáticos intolerantes  e ignorantes de lá e de cá.

Mas, por outro lado, nem Lula nem Haddad são Maduro, outra mentira que tentam colar ao PT e aos seus líderes.

De facto, durante os governos de Lula e os primeiros tempos de Dilma, ao contrário do que aconteceu na Venezuela de Maduro, o Brasil conheceu um dos seus períodos de maior prosperidade, enriquecimento e desenvolvimento.

Também ao contrário de Maduro, e apesar das pressões da ala mais radical do PT, Lula recusou-se a alterar a Constituição para se perpetuar no poder.

Aliás, se à comparação a fazer, não é entre Haddad e Maduro, mas entre Maduro e Bolsonaro. 

Se há alguém tão demagógico, tão extremista, tão incompetente e irresponsável como Maduro é Bolsonaro.

E, sim, é com Bolsonaro, e não com Haddad, que o Brasil se vai tornar uma nova Venezuela.

Tudo descarrilou quando Dilma foi impedida de governar, sendo toda a sua acção sabotada por um Congresso e um Senado dominados pela direita e por corruptos, hoje quase todos na prisão, sendo destituída e seguindo-se dois anos de governo Temer.

Assim, nos últimos quatro anos, a sociedade brasileira conheceu um retrocesso que fez o país regressar à violência, à miséria e à desigualdade que tinha recuado nos tempos de Lula.

Hoje dá jeito aos fanáticos fanfarrões que estão por detrás de Bolsonaro misturar tudo, e colar o PT à realidade actual, que teve origem nestes últimos quatro anos de desgovernação, que tanto jeito deram ao crescimento do “fenómeno” Bolsonaro.

Pode-se ou não gostar de Haddad ou do PT.

Deve-se combater a corrupção (mas também a partidarização da justiça).

Mas Haddad não é igual a Lula e, muito menos, a Maduro.

E, não, não está em causa uma luta entre extremos, mas uma luta entre um candidato do centro-esquerda, Haddad, que respeita a democracia, e sem maioria no senado e no congresso, que o controlará nos seus excessos, e um candidato da extrema-direita, Bolsonaro, que controla a maioria do senado e do congresso, que já disse preferir a ditadura à democracia e que elogia e fomenta o ódio e a violência como forma de governar…o resto é (má) conversa!

Vai começar a 29ª edição do AMADORA BD

BêDêZine: Vai começar a 29ª edição do AMADORA BD: Tem início amanhã, 26 de Outubro, com duração até 11 de Novembro, a 29ª edição do Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora (clicar para ler programa).

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

O Fascismo “nunca existiu”!??...ou existiu “apenas” num país!???...ou “anda ainda por aí”!??



Nunca, como nos últimos tempos, o debate sobre o fascismo e a utilização desse termo para interpretar a situação actual foi tão usado.

E, na verdade, a definição de “fascismo”, continua por esclarecer e clarificar e é, desde longa data, tema de debates acalorados envolvendo historiadores, politólogos (seja lá o que isto for) e sociólogos.

Nos anos 90 chegou-se a um relativo consenso entre investigadores.

O Fascismo, na “pureza” das suas características, "apenas existiu" na Itália de Mussolini.

Tanto o nazismo, à sua direita, e o franquismo e o salazarismo (entre outros) à sua “esquerda” não encaixavam nas características puras do fascismo teórico.

O nazismo, embora seguindo o modelo de Mussolini, era, acima de tudo, “totalitário”, um conceito que, embora defendido teoricamente pelo fascismo italiano, só se teria concretizado, sem qualquer controle (da Igreja ou do rei, como aconteceu na Itália) na Alemanha de Hitler.

Contudo, o conceito de “totalitarismo” foi-se tornando pouco operativo, por um lado porque podia ser igualmente aplicado a regimes diferentes, como o estalinismo na União Soviética ou a China do tempo da “revolução cultural”, por outro, porque o seu termo se generalizou e vulgarizou como argumento da propaganda ocidental, durante o período da Guerra Fria,contra os regimes do “socialismo real” do leste europeu.

Por sua vez, regimes como o salazarista e o franquista não se encaixavam totalmente na classificação e no tipo de estrutura politica e social do fascismo.

O regime salazarista era um regime autoritário, antiliberal e antidemocrático, mas faltava-lhe o caracter de movimento de massas do fascismo, embora recorresse a estas sempre que necessitava do apoio da rua (lembram-se das célebres “manifestações espontâneas?”).

Apesar disso, até à 2ª Grande Guerra, principalmente quando se tornou evidente a derrota dos nazis, e a partir da Guerra Civil de Espanha, o salazarismo exacerbou a retórica e o modelo do fascismo italiano (Salazar era grande admirador do ditador italiano), altura em que se fundaram movimentos de características fascistas, baseados em organizações do nazismo e do fascismo, como a Mocidade Portuguesa e a Legião Portuguesa. Esta última organização foi mesmo a única organização do Estado Novo que fez, abertamente, o elogio do nazismo.

A partir do final da guerra essas organizações perderam as suas características fascistas, muito por influência da Igreja e do Exército e, claro, para branquear a sua origem quando o antifascismo saiu vitorioso da Guerra, e o regime alterou habilmente a sua natureza dos anos 30/40 para poder sobreviver, tendo mesmo conseguido tornar-se fundador da NATO.

A definição do que é o fascismo enforma de duas dificuldades:

- Se o resumirmos ao culto da violência contra os inimigos, ao governo autoritário e ditatorial e à rejeição da democracia e do liberalismo, teríamos de alargar o conceito a um universo mais vasto, que incluiria os regimes do “comunismo real” , as ditaduras militares de todas as cores e muitos dos regimes autoritários dos nossos dias (na Turquia, na Rússia, no Irão, na Arábia Saudita, na Hungria, na Polónia ….);

- Se desenvolvermos muito essas características, apenas o Fascismo Italiano e um certo número de movimentos nacionais, fixados nos anos 30, podem ser classificados como tal, com a agravante que, nem mesmo o fascismo italiano, pela sua evolução e adaptação, nãose  encaixaria plenamente nessas características retóricas.

E quais são elas (resumidamente)?

Recorremos a Stanley Payne:

- “As negações fascistas”: antiliberal, anticomunista, anticonservadorismo;

- “Ideologia e objectivos” : criação de um novo Estado nacionalista autoritário; organização de estruturas económicas nacionais integradas, reguladas e “pluriclassistas”, numa palavra, corporativista; a criação e a defesa de um Império que implicará uma relação de força com as outras nações; um novo credo idealista e voluntarista, impondo um novo tipo de cultura secular, moderna e "autodeterminada";

- “Estilo e Organização” : Importância estética dos símbolos, dos mitos e da coreografia politica; mobilização das massas, militarizando as relações sociais e da vida politica, através de organizações de massas; uso da violência contra os “inimigos”; dominação masculina; exaltação da juventude, fomentando o conflito de gerações, pelo menos na sua fase inicial de transformação politica; tendência para uma liderança pessoal, autoritária e carismática, mesmo recorrendo inicialmente à via eleitoral.

Conseguir o pleno destas características, só mesmo no Fascismo italiano de Mussolini.

Mas, para ser classificado como fascismo não é necessário fazer o pleno, basta a existência da maioria dessas características.

Assim, para Stanley Payne o fascismo, nos anos 30/40,  é uma das famílias daquilo que ele classifica como as “três caras do nacionalismo autoritário”, sendo as outras duas a “direita radical” e a “direita conservadora”.

Como “fascistas” classifica, entre outras, o Partido nacional-socialista alemão, o Partido Nacional Fascista Italiano, a Falange em Espanha e o Nacional-sindicalismo português.

Na “Direita radical” coloca, entre outros, a figura de Papen na Alemanha, os Integralistas em Portugal e os Carlistas em Espanha.

Na “direita conservadora” cabem, entre outros, o presidente Hindenburg na Alemanha,  o governo de Vichy em França, o presidente Horthy da Hungria, Pilsudski na Polónia, a União Nacional e Salazar em Portugal e a CEDA em Espanha.

Recorde-se que, em Portugal, a maior parte dos nacional-sindicalistas  e dos integristas, mais ou menos forçados, mais ou menos voluntariamente, acabaram por integrar o regime salazarista, sendo significativo o caso de Rolão Preto, líder dos nacional-sindicalistas, que, depois de preso, veio a apoiar a candidatura de Humberto Delgado.

O caso espanhol também é peculiar. Franco conseguiu fundir as várias organizações acima citadas, durante a Guerra Civil, numa falange mais abrangente, que se tornou o partido único do regime e que, na transição para a  democracia, se integrou, quase todo, no actual Partido Popular.

O caso português tem sido muito estudado por vários historiadores, destacando os trabalhos, divergentes nalguns pontos, de Fernando Rosas, Manuel Loff, António Costa Pinto e de Irene Flunser Pimentel.

Conta a corrente vai a tese de Jorge Pais de Sousa, que defende o salazarismo como um “fascismo de cátedra”, ou seja, um fascismo sem movimento de massas.

De qualquer modo, toda problemática referida coloca o fascismo como uma situação histórica “irrepetível”.

Não é essa a tese de Umberto Eco, no seu ensaio de 1997, mas mais actual do que nunca, “como reconhecer o fascismo”.

Mas a ele voltaremos em próxima crónica, analisando, até que ponto o fascismo “ainda anda por aí”.

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Para que servem os livros de memórias de Cavaco?



Sinceramente, ainda não percebi para que servem os livros de memórias de Cavaco.

Será que esses livros chegam aos top’s das livrarias?

E quem os compra, consegue lê-los até ao fim?

Tenho milhares de livros dos quais, confesso, ainda só consegui ler largas centenas.

Compro livros porque me interessam e vou lê-los rapidamente, ou porque “um dia pode ser que o leia” , ou porque trata de um tema que um dia destes vou investigar, ou apenas para ler um capítulo que me interessa, ou porque é um documento histórico que um dia vai ser interessante tratar, ou para ler na diagonal para me fixar numa ou outra idéia.

Não tenho um género preferido, posso ler policiais ou de ficção cientifica, clássicos da literatura universal ou Banda desenhada ( cada vez mais interessante a que se publica),livros de fotografia, sobre cinema, livros de História, por “defeito profissional”, principalmente a portuguesa ,a contemporânea e a local, biografias e, claro, memórias.

Nas memórias leio e/ou compro as memórias históricas, gosto muito das memórias de viagem, de gente que andou por Portugal noutras épocas, memórias de gente interessante, que sabe escrever, que viveu situações interessantes, mas nunca, mesmo nunca, me passaria pela cabeça comprar ou ler as memórias de Cavaco Silva.

O homem que desbaratou os fundos europeus em autoestradas e construção civil, que entregou a economia do país a corruptos (lembram-se do BPN ?) , que destrui a produção nacional porque queria ser o menino bem comportado da Europa, que, como presidente, foi um desastre ainda maior, que em vez de falar grulhe e fala por meias palavras, não me parece que tenha algo de interessante para nos dizer, e eu não perco o meu precioso e  parco tempo de leitura com inutilidades.

O homem até podia ser  um péssimo politico, mas podia ser uma figura interessante noutros domínios, com uma experiência de vida interessante, com uma escrita interessante, e então era capaz de comprar essas memórias (sim, porque compro e leio memórias de gente da área politica de Cavaco, ou mesmo mais à direita).

Mas, pelo que conheço dessas “obras”, por aquilo que a imprensa transcreve, não passam de um desfilar nojento de pequenas vinganças pessoais de um ressabiado que tem umas noções mecanicistas de economia e que é incapaz de ir além dos chavões habituais do “economês” e que, enquanto professor, foi uma autentica nulidade.

Por isso, continuo sem perceber para que servem as os livros de memórias de Cavaco.

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Cenas do ódio nas redes sociais (parte 2). As Notícias Falsas em Portugal.




O “Diário de Notícias” deste Domingo publica uma excelente reportagem da autoria do jornalista Paulo Pena, intitulada “Como funciona uma rede de notícias falsas em Portugal”.

Por ela ficamos a saber que vários “sites sediados no Canadá alojam fake news sobre a politica portuguesa. Depois, vários grupos no Facebook, com milhares de membros, divulgam-nas.”

Os referidos grupos e sites são: “Direita Politica”, o mais activo de todos, “A Voz da razão”, “Não Queremos Um Governo de Esquerda em Portugal”, “Video Divertido” e “Aceleras”).

Todos eles estão registados no protocolo de internet (IP) 198.50.102.106. registado no Canadá “em H3E Montreal, Quebec, na empresa iWeb Technologies".

Por detrás daqueles sites está uma mesma empresa de Santo Tirso, a Forsaken, que tem um único dono, João Pedro Roa Fernades, o responsável pelo conteúdo daqueles sites, todos ligados em Portugal à empresa Portugal na Web.

João Fernandes é também sócio de duas empresas têxteis a EMPA e a Larmoderno.

Ouvido na mesma reportagem, João Fernandes, que se considera uma espécie de justiceiro da direita, diz ter como referência jornalistas com Hernâni Carvalho ou Ana Leal, o falecido Medina Carreira, Paulo Morais e “alguns juízes e procuradores” , declarando-se também apoiante “desde o primeiro momento” de Trump e Bolsonaro.

Justifica as mentiras, as meias verdades e as manipulações das notícias publicadas (como “relógio de 21 milhões” de Catarina Martins ou a montagem fotográfica que “mostrava” a nova PGR, Lucília Gago, num “jantar em casa de José Socrates", noticia que chegou a ser divulgada por um site do PSD, mas que a desmentiu depois, com pedido de desculpa) com a possibilidade de pode acontecer “termos uma notícia que não seja 100% precisa”.

Hoje o jornal Público denuncia uma nova fake new que está a ter algum impacto nas redes sociais, mostrando como um sindicato de policias decidiu atacar o ministro da administração interna com imagens falsas.

Essas imagens divulgadas nas redes sociais mostram idosos, vítimas de violência, sugerindo que tinham sido agredidos pelos criminosos que fugiram à policia em Gondomar.

Contudo, os idosos das fotografias  não foram os agredidos pelos assaltos perpetrados por aqueles criminosos, não são portugueses, nem as imagens são  actuais.

O fenómeno, à boleia do apoio implícito ou explicito da opinião pública de parte da direita portuguesa a Bolsonaro, começa a fazer o seu caminho de ódio e intolerância, alimentando o medo e insegurança que estão historicamente na origem da ascensão de todo o tipo de "fascismos" e autoritarismos.

Noutros tempos, o “fascismo” usava a rua para atemorizar, ameaçar, espalhar a intolerância e o ódio.

Hoje usa as redes sociais, espalhando a mentira e a calunia para minar a democracia.

A mentira é o pior inimigo da verdade e a indignação não justifica o recurso à mentira.

Como dizia o ministro da propaganda de Hitler,  a mentira várias vezes repetidas acaba por se tornar verdade.

É assim que funcionam as Fake News, com mentiras, manipulações ou meias verdades, e é assim que os Trump's e os Bolsonaros do nosso tempo chegam ao poder.

A alternativa ao funcionamento de uma justiça democrática, por muito mal que ela funciona, é uma ditadura, onde "não existe corrupção" ou "crime" porque esses assunto são proibidos de divulgar pela censura e os corruptos e criminosos estão no poder ou são coniventes com ele (Salazar até publicou um decreto para acabar com a pobreza...mandando prender os pedintes e os sem-abrigo que fossem apanhados na rua, “acabando” assim com a pobreza em Portugal e, quando das cheias de 1967, proibiu a divulgação do número de mortos para não se notar tanto a tragédia, que também trazia ao de cima a vida miserável de muitos portugueses, os mais atingidos pela tragédia).

Numa ditadura também “não existe crime” porque as notícias sobre ele são proibidas e tudo conduz para uma imagem de “paz e estabilidade”, que era o que acontecia no “Portugal de Salazar”.

Devemos denunciar a corrupção, a mentira e as injustiça, mas quando se usa a manipulação estamos a descredibilizar esse combate, ao mesmo tempo que damos força à intolerância e ao ódio.

Pela minha parte, que acredito que ainda vivemos num estado de direito, só posso exigir justiça contra criminosos e corruptos, mas não alinho na histeria de mentiras, intolerância  e ódio que prolifera nas redes sociais.

domingo, 21 de outubro de 2018

Anna Calvi no Capitólio



A cantora britânica Anna Calvi apresentou este Sábado em Lisboa o seu terceiro albúm, “Hunter”, num inesquecível concerto de hora e meia.

Já a tinhamos visto em 2013 na Aula Magna, num registo mais contido.

Desta vez a sua actuação foi de uma grande entrega, num contínuo grito de liberdade e cheio de energia, conquistando mesmo os mais cépticos.

Este concerto arrisca-se a ser já um dos melhores do ano em Portugal, concorrendo com o concerto dos Arcade Fire no Campo Pequeno ou o de David Byrne em Cascais.

Calvi é considerada uma das grandes revelações do rock actual, considerada por Brian Eno como a nova Patti Smith.

Concertos como este levam-nos a acreditar que o rock nunca vai morrer, pois há sempre quem faça renascer das cinzas a energia e a criatividade desse género musical.

Aqui divulgamos algumas das fotos desse concerto.