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quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Cheias em Albufeira - As imagens que explicam tudo:

Como já aqui referi, tenho na memória as condições geográficas e o caos urbanistico de Albufeira, potenciadores da tragédia que agora se abateu sobre aquela cidade algarvia.

Na altura em que lá vivi, nos finais da década de 80, vivia-se o auge do modelo caótico de urbanismo que vigorava no Algarve e um pouco por todo o litoral do país, um dos pilares do "espírito cavaquista" de enterrar em betão os chamados "fundos estruturais" europeus, que então afluiam em barda a  Portugal.

Essa estratégia urbanística errada e esse modelo de "desenvolvimento", que hoje estamos a pagar caro, contaminou práticamente todo o poder autárquico de então, mesmo quando este era gerido pelo Partido Socialista, como acontecia nessa altura em Albufeira.

Nessa época estava à frente da Câmara de Albufeira um tal Xavier Xufre, que, anos depois, em 1996, seria forçado a renunciar ao seu longo mandato à frente daquela Câmara, a contas com a justiça devido a "alegadas irregularidades" com empreiteiros e que se tornou no autarca maldito do PS, passando a dedicar-se aos bares à restauração e à imobiliária.

Na altura em que lá estive já corriam muitos "rumores" e "histórias" sobre as relações do autarca com a construção civil, situação nunca provada ou, as que foram provadas, prescritas e arquivadas pela justiça.

Mas já então já estava à vista  o "patopbravismo" urbano em que tinha mergulhado a antiga vila de Albufeira, seguindo aliás o "modelo"  que grassava por todo o litoral Algarvios (com as excepções dos limites ocidental, a partir de Lagos, e oriental, a partir de Faro e Tavira).

A propósito não resisto a contar uma história, reveladora desse caos urbanístico algarvio, esta passada numa localidade vizinha de Albufeira, Portimão, 

Portimão é talvez o pior exemplo desse tipo de urbanismo(só ultrapassado por Armação de Pêra e Quarteira).

Tinha visitado essa localidade, uma formosa e calma vila de pescadores, aí por meados da década de 70 , voltando a deslocar-me aí no final da década de 80, onde já se notavam as aberrações urbanas caracteristicas do litoral algarvio, mas onde ainda era possível detectar alguma harmonia. Ora, no princípio deste século, voltei a Portimão, com o objectivo de ir ao porto e à prai dessa localidade. Pois andei uma hora ás voltas, entre o caos urbano e viários e, com muito custo,consegui sair, sem ter conseguido ver uma réstia de mar, nem saber por onde ir para chegar ao cais... claro que nunca mais lá voltei.

Mas voltando a Albufeira, consegui recolher aqui da net algumas imagens e mapas antigos de Albufeira que falam por si sobre as razões daquilo que aconteceu no passado fim-de-semana naquela cidade.
Convém aqui salientar que, aquela tipo de urbanização vai potenciar outras situações parecidas, um pouco por todo o país, não só devido ao previsto agravamento das condições climatéricas,  ainda mais graves junto ao litoral por causa da previsivel subida do nível do mar  e  que, no Algarve, terá de ter em conta uma previsivel repetição das condições que proporcionaram o maremoto de 1755, por ironia do destino também ocorrido num dia 1 de Novembro...
É caso para dizer que "palavras para quê" se as imagens aí estão para demonstrar o que potenciou a tragédia e pode repeti-la, de forma ainda mais grave, se não se arrepiar caminho:

O Percurso principal das àguas pela ruas de Albufeira no dia 1 de Novembro de 2015:

(vista aérea de Albufeira. 1 - Avenida da Liberdade; 2 - Largo Eng. Duarte Pacheco; 3 - Av. 25 de Abril; 4 - Praça e Praia dos Pescadores)

1 - AVENIDA DA LIBERDADE: O "ANTES", O "DEPOIS" E AS "CHEIAS":

O "ANTES":
...O DEPOIS..
(A seta indica a casa onde vivi entre 1988-1989, a mais pequena entalada entre prédios altos)

...E AS CHEIAS:

2- LARGO ENGENHEIRO DUARTE PACHECO: O "ANTES", O "DEPOIS" E "AS CHEIAS":

O "ANTES":


....O "DEPOIS"...:


...E AS "CHEIAS":

3 - AVENIDA DE ABRIL :
O "ANTES", O "DEPOIS" E "AS CHEIAS":

O "ANTES" ...:

...O "DEPOIS" ...:

...A "AS CHEIAS" :

4 - PRAÇA E PRAIA DOS PESCADORES:O "ANTES", O "DEPOIS" E "AS CHEIAS":

O "ANTES" ...:

...O "DEPOIS"...:
...E AS "CHEIAS" :

Penso que as imagens  acima divulgadas são bem elucidativas da situação.

Em baixo transcrevemos também um mapa medieval de Albufeira e uma comparação entre o que era a antiga Al Buhera muçulmana e a zona inundada...

(Mapa retirado de AQUI)



... é caso para dizer que quando não se respeita a natureza e o passado estas voltam sempre para cobrar...

(Todas as fotos, postais e gravura foram retiradas da internet, numvariado número de sites, explorando as "Imagens" com as palavras e frases "Albufeira", "Cheias na Albufeira", "História da Albufeira" e também o site de venda de postais "Delcampe")

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Quando Deus "não é nosso amigo" e se junta às "forças demoníacas" da natureza...

Estão "explicadas" as alterações climatéricas e as enxurradas como aquela que aconteceu no Algarve no passado Domingo.

Tudo se ficou a dever ao facto de a” fúria demoníaca da Natureza não ser nossa amiga” , de “ Deus nem sempre [ser] amigo” e  “de vez em quando”  nos dar “uns períodos de provação”.

Quanto ao homem que perdeu a vida em Boliqueime “entregou-se a Deus".

Quem o diz é o novo ministro da administração interna, Calvão e Silva.

Mas as “sábias palavras” que o ministro proferiu, na visita que fez a Albufeira,  não se ficaram por aqui.

Considerou que o temporal que causou avultados prejuízos “é uma lição de vida”, especialmente para quem não tem seguro, deixando a este o “conselho”  e o “exemplo” pessoal: "Eu sei que há muitas carteiras magras. Mas está a falar com uma pessoa que nasceu em Trás-os-Montes, que sabe o que é ser pobre e vir do pobre e tentar ser alguém. A mobilidade social funciona para todos. E todos temos de ter a nossa responsabilidade no sentido e dizer: 'eu tenho um negócio, vou fazer o meu seguro para que se o infortúnio me bater à porta tenha valido a pena pagar o prémio” acrescentando ainda  que cada um “tem um pequeno pé-de-meia. Em vez de o gastar a mais aqui ou além, paga um prémio de seguro. Não imagina a quantidade de pessoas que falaram que já accionaram o seguro. Isto é uma lição de vida para todos nós.”

Esqueceu-se de dois pequenos “pormenores” : em primeiro lugar que a maior parte dos comerciantes de Albufeira, que já tinham sido atingidos pelas cheias de 2008, ainda não receberam as indemnizações a que tinham direito por essa tragédia e que, em segundo lugar, desde essa data as condições impostas pelas companhias de seguro eram de tal modo incomportáveis que muitos desses comerciantes optaram por arriscar não fazer qualquer seguro.

Mas, se perante tão “piedosas” palavras alguém esperava uma acção consequente do novo governante, desenganou-se rapidamente quando ouviu da boca do mesmo ministro que este não dava  “qualquer certeza sobre a declaração de calamidade pública, afirmando que é necessário, antes de mais, que seja feito o levantamento dos danos, para depois se avaliar se os “requisitos legais” estão “preenchidos”, acrescentando que  “o que conta é a resposta imediata”: “Esta gente precisa de ajuda imediata, que passa por uma palavra de solidariedade imediata. Estou aqui hoje, mesmo que logo à noite já não fosse ministro.”

Mas não se pode esperar muito da mesma personagem que, há uns tempos atrás , defendeu a idoneidade do antigo líder do BES, Ricardo Salgado, quando este recebeu 14 milhões de euros não declarados com “presente”  de um  construtor civil, considerando que um presente dada “ao amigo de longa data” não punha em causa a “gestão sã e prudente” do banco, porque “o espírito de entreajuda e solidariedade” é um princípio geral de uma sociedade, sendo “natural, pois, que um amigo possa e tenha gosto em dar sugestões, conselho ou informações a outro amigo", tudo isto num parecer por si assinado para o Banco de Portugal.

Tudo isto seria anedótico se não tivéssemos perante uma tragédia.

Fazendo uma analogia com o historial do 1º de Novembro, é caso para imaginar o que teria sido de Lisboa e Portugal se, naquele outro  muito mais trágico e distante 1 de Novembro de 1755 tivéssemos líderes políticos como os actuais!!!!.

Em baixo reproduzimos os artigos do Público e do Expresso onde se refere, o primeiro às afirmações feitas em Albufeira, as segundas às ligações com o BES daquele caricato e “piedoso” ministro:

“Mau tempo no Algarve? "Deus nem sempre é amigo", diz ministro

Por Idálio Revez, in  PÚBLICO 02/11/2015 .

“O ministro da Administração Interna, João Calvão da Silva, esteve nesta segunda-feira em Albufeira e defendeu que o temporal que causou avultados prejuízos “é uma lição de vida”, especialmente para quem não tem seguro.

“Verifiquei que há muita gente que diz que já accionou os seus seguros. Fantástico. As pessoas estão conscientes que há outros mecanismos para além dos auxílios estatais”, disse o ministro da Administração Interna aos jornalistas, defendendo a necessidade de os comerciantes terem seguro. “Cada um tem um pequeno pé-de-meia. Em vez de o gastar a mais aqui ou além, paga um prémio de seguro. Não imagina a quantidade de pessoas que falaram que já accionaram o seguro. Isto é uma lição de vida para todos nós.”

“Questionado sobre a situação dos comerciantes que não têm seguro, Calvão da Silva respondeu. “Quem não tem seguro, aprende em primeiro lugar que é bom reservar sempre um bocadinho para no futuro ter seguro. Em segundo, é bom esperar que o levantamento seja feito pela autarquia, que é a autoridade adequada, e mostrar que os requisitos de calamidade se verificam”.

“E novamente confrontando com as dificuldades de quem não tem seguro, Calvão da Silva insistiu. "Eu sei que há muitas carteiras magras. Mas está a falar com uma pessoa que nasceu em Trás-os-Montes, que sabe o que é ser pobre e vir do pobre e tentar ser alguém. A mobilidade social funciona para todos. E todos temos de ter a nossa responsabilidade no sentido e dizer: 'eu tenho um negócio, vou fazer o meu seguro para que se o infortúnio me bater à porta tenha valido a pena pagar o prémio."

“O ministro não deu qualquer certeza sobre a declaração de calamidade pública, afirmando que é necessário, antes de mais, que seja feito o levantamento dos danos, para depois se avaliar se os “requisitos legais” estão “preenchidos”.

“Questionado sobre se essa declaração de calamidade ainda se poderá verificar no tempo de vida deste Governo, Calvão da Silva respondeu que “o que conta é a resposta imediata”: “Esta gente precisa de ajuda imediata, que passa por uma palavra de solidariedade imediata. Estou aqui hoje, mesmo que logo à noite já não fosse ministro.”

"Deus nem sempre é amigo"

“No início da visita ao Algarve, Calvão da Silva lamentou que “ao lado de danos patrimoniais avultados” ainda se tivesse verificado “a perda de uma vida humana”: “Por isso fiz questão de começar esta visita pelos cumprimentos de condolências à família enlutada. Era um homem que já tinha vindo do estrangeiro, tinha 80 anos, fica a sua mulher Fátima. Ele, que era um homem de apelido Viana, entregou-se a Deus e Deus com certeza que lhe reserva um lugar adequado.”

“Num discurso com muitas referências religiosas, o ministro defendeu ainda que as forças “operacionais funcionaram muito bem” numa situação difícil em que foi preciso enfrentar “uma fúria da natureza”. "A fúria da natureza não foi nossa amiga. Deus nem sempre é amigo. 

"Também acha que de vez em quando nos dá uns períodos de provação. Em quase todo o lado, excepto em Albufeira, o nível autárquico foi suficiente de acordo com as medidas. E só não foi suficiente aqui em Albufeira, porque a força da natureza, na fúria demoníaca, embora os ingleses digam que é um acto de Deus, um 'act of God', a gente tem traduzir de outra maneira..."

“Visão diferente têm os comerciantes de Albufeira, que acusam a câmara de não ter tomado as medidas necessárias”.


“Como Calvão da Silva defendeu Salgado: €14 milhões foram “uma atenção” por “conselho dado por amizade”

Pedro Santos Guerreiro, in Expresso 28.10.2015 

“O Expresso revela o parecer em que Calvão da Silva, agora indicado para ministro da Administração Interna, defendeu a idoneidade do antigo líder do BES. Os €14 milhões que o construtor José Guilherme deu a Ricardo Salgado foram um presente dada “ao amigo de longa data” que não punha em causa a “gestão sã e prudente” do banco.

“O espírito de entreajuda e solidariedade” é um princípio geral de uma sociedade e Calvão da Silva considera que “é natural, pois, que um amigo possa e tenha gosto em dar sugestões, conselho ou informações a outro amigo", sendo que "não é a circunstância de ser administrador ou presidente executivo de um banco que o priva dessa liberdade fundamental”.

"E se alguém decide dar dinheiro de presente (liberalidade) em reconhecimento desse conselho, como José Guilherme deu a Ricardo Salgado, isso não põe em causa a idoneidade de quem recebe.

“Assim escreve João Calvão da Silva, que aceitou esta semana ser ministro da Administração Interna do novo governo de Pedro Passos Coelho. Mal a indicação foi conhecida, logo o Bloco de Esquerda ligou o nome do jurista ao processo de Ricardo Salgado, por ter emitido um parecer defendendo a idoneidade do então líder do BES junto do Banco de Portugal. O Expresso, que no âmbito da sua investigação jornalística, publicou dezenas de documentos oficiais relevantes para o processo, revela hoje o parecer em causa, que pode ler na íntegra aqui.

“O parecer é de novembro de 2013, numa altura em que a "guerra" dentro da família Espírito Santo já se tornava pública, em que estava a ser vendido papel comercial do Grupo Espírito Santo em larga escala mas ainda se desconhecia o falseamento das contas do Grupo Espírito Santo (embora fosse nesse mês que o Banco de Portugal soubesse, mas não tornasse público, dos indícios desse "buraco"). O parecer é emitido por causa de outro assunto: depois das notícias de que Ricardo Salgado havia recebido dinheiro do construtor José Guilherme, no valor de €14 milhões de euros, o Banco de Portugal questionava a idoneidade do banqueiro. Salgado recorreu então a dois pareceres externos, um deles de Calvão da Silva.

“A defesa de Salgado: os amigos de longa data

“Para perceber o parecer de Calvão da Silva é preciso relembrar a argumentação de Ricardo Salgado para justificar ter recebido o dinheiro. Recusando tratar-se de uma comissão por serviços de consultoria, Salgado disse que se tratava de uma liberalidade: um presente.

“Segundo a defesa de Salgado, citada no parecer, José Guilherme era “um amigo de longa data a quem nas suas conversas foi dando alguns conselhos e opiniões sobre a evolução da economia e dos mercados a respeito de algumas decisões que quis tomar”. Na crise de 2008, falando com José Guilherme, “por amizade o dissuadiu” de investir na Europa de Leste, nomeadamente na Bulgária, e em vez disso “o aconselhou a apostar em Angola”. Nesse campo, deu-lhe “sugestões quanto à forma de abordar esse mercado e entidades a contactar”.

“Ora, diz o parecer, invocando a tese da defesa de Salgado, José Guilherme “teve enorme sucesso em Angola” e, depois, “tomou a iniciativa de se lhe dirigir, afirmando de modo categórico que queria ter para com ele uma atenção, pela ajuda preciosa que lhe dera". Após "reiterada insistência" de José Guilherme, Salgado "decidiu consultar dois juristas externos ao Banco [Espírito Santo], tendo estes assegurado que a questão era do foro pessoal e não colidia com quaisquer regras legais ou éticas”, além de que “nenhuma relação existiu entre a oferta e a relação deste com o Banco”. Finalmente, o “montante da oferta foi incluído da declaração de IRS”, diz o parecer, embora não refira que só o foi depois de várias retificações por parte de Salgado: não constava na declaração incial entregue às Finanças. "A oferta resultou de uma liberalidade em razão dos seus conselhos, orientações e ajudas dadas a título pessoal e de amizade, nunca a título profissional”.

“É pessoal, ninguém leva a mal

“Como a liberalidade foi por conselho dado a título pessoal, fora do exercício das funções e por causa das funções de administrador bancário, não se vê por que razão censurar a sua aceitação, muito menos que possa constituir fator relevante na decisão de registo sob o prisma de uma idoneidade necessária a uma gestão são e prudente da instituição de crédito”, escreve Calvão da Silva.

“O parecer destaca que a avaliação de idoneidade pelo Banco de Portugal visa “assegurar uma gestão sã e prudente da instituição, tendo em vista, de modo particular, a segurança dos fundos a ela confiados”, bem como ver da capacidade do banqueiro “para decidir de forma ponderada e criteriosa”, da tendência para cumprir obrigações e de não ter comportamentos incompatíveis com a preservação da confiança do mercado.

“Considerando que “nenhuma dúvida séria e consistente” põe em causa que “a lente exigida na lei na apreciação da idoneidade é a de gestor criterioso e ordenado”, Calvão da Silva refere que “não é, pois, a um ato isolado” que a lei se refere, mas sim “ao modo habitual da gestão dos negócios ou do exercício da profissão”, pelo que “não pode o Banco de Portugal deixar de considerar preenchido o requisito de idoneidade dessa pessoa indicada para administrador e aceitar o seu registo”. No caso, Ricardo Salgado.

“Calvão da Silva cita vários acórdãos, a Constituição e diretivas europeias. E fundamenta que “se o conselho de amigo de longa data de ir para Angola e não para a Bulgária exercer a profissão no setor imobiliário que exercia em Portugal se revelou certeiro e propiciou resultados lucrativos no exercício dessa profissão, nada impede a liberalidade feita ao amigo”. Além disso, “o conselho havia sido dado por amizade, sem vínculo jurídico algum, muito menos ao abrigo de contrato de consultoria por investimentos”.

“Código de Conduta do BES? Tudo ok

“Além de cumprir a lei, a liberalidade aceite por Salgado “não viola em nada o Código de Conduta do grupo [Espírito Santo], justamente por ser totalmente alheia à atividade profissional de administrador do grupo”. É assim, mesmo que o Código de conduta do BES proibisse a aceitação de “qualquer tipo de remuneração ou comissão por operações efetuadas em nome do grupo” ou de “presentes, convites, favores ou benefícios semelhantes” se relacionadas com a sua atividade profissional no grupo”.

“É tendo em conta estes argumentos que, no parecer, João Calvão da Silva defende “a não perda de idoneidade do administrador em causa”.

“Recorde-se que Ricardo Salgado nunca chegou a perder o estatuto de idoneidade durante o exercício das suas funções. Demitiu-se quando ainda a mantinha, em julho de 2014, oito meses depois da emissão deste parecer. Calvão da Silva deverá tomar posse na sexta feira como ministro, sendo que poderá não chegar a exercer funções efectivas, pois prevê-se o chumbo na Assembleia da República do programa do governo, levando à sua queda”.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Albufeira - a natureza volta a avisar...

Vivi em Albufeira durante um ano, no final da década de 80 e já então me apercebi no "aperto" urbanistico em que vivia aquela localidade.

Calcorreei quase diáriamnete a "rua dos bares", e a praia dos pescadores, duas das zonas ontem mais atingidas.

As ruas mais baixas estavam "entaladas" numa garganta entre serras, em direcção ao mar, a tal "albufeira" que está na origem do nome da localidade, e acontecimentos como o de ontem pareciam inevitáveis.

Voltei lá algumas vezes anos depois e a memória que eu tinha dos tempos em que lá vi já nada tinha a haver com a densidade urbana que tornou o lugar irreconhecível.

Contudo, aquilo que ontem aconteceu, era previsivel, quer pelas condições naturais das avenidas inundadas, quer pelo caos urbanístico em que se transformaram as sua ruas antigas, quer pelas alterações climatéricas que vão tornar cada vez mais frequente situações como essas, não só em Albufeira, mas um pouco por todo o país.

Aliás, em Albufeira já tinha havido um aviso em 2008.

Ao ver as imagens televisivas e as fotografias que abaixo reproduzo, retiradas das páginas da net de  vários canais informativos, não pude de deixar de recordar aquilo que aqui em Torres Vedras vivemos em 1983, também por esta altura do ano.

Históricamente, situações como as que Albufeira ontem viveu, não são únicas, como se recorda num excelente trabalho publicado ontem na página on line do jornal "Sul Informação" , da autoria do engenheiro Aurélio Nuno Cabrita , que reproduzimos em baixo.

Aos amigos e ex-alunos que deixei em Albufeira, embora tenha perdido o contacto de quase todos, mas sabendo que alguns estão neste momento a viver esse drama, aqui fica um abraço solidário e encorajamento para enfrentarem estes dias difíceis. 

















"Cheias em Albufeira, fenómeno tão antigo quanto a ocupação do vale ribeirinho"

POR AURÉLIO NUNO CABRITA  in “Sul Informação” , 1 DE NOVEMBRO DE 2015
Há 65 anos, também se andou de barco na baixa de Albufeira

"Há muito esquecidas e ignoradas, a magnitude das cheias que assolaram a baixa de Albufeira, em meados do século passado, repetiu-se neste 1 de novembro de 2015. É verdade que, amiúde e nos últimos anos, têm sido noticiadas diversas inundações na cidade, mas as últimas grandes cheias tinham ocorrido ainda nos anos de 1950.

"As décadas de 40 e 50 do século XX foram pródigas em inundações no Algarve, as quais adquiriram contornos violentos em Albufeira. Cheias causadas por intensa pluviosidade, que engrossaram a ribeira e invadiram a vila, que cresceu precisamente sobre a ribeira.

"Em consequência, as cheias semearam o pânico e o horror, provocando elevados prejuízos materiais e até perdas de vidas humanas.

"Nos últimos dias de novembro de 1949, um temporal de grande violência assolou o Algarve, e Albufeira não foi exceção. Preparada para receber a feira franca, a vila foi duramente atingida, conforme noticiou o jornal “O Século”, de 01/12/1949: “Em Albufeira, na noite passada (29/11) e todo o dia de hoje, também choveu torrencialmente. As águas da ribeira sobrepuseram-se aos dois diques e fizeram levantar alguns cascões da canalização das águas para o mar. A parte baixa da vila voltou a ser inundada pela cheia da ribeira, registando-se prejuízos materiais em diversas casas”.

"O Diário de Notícias (DN), da mesma data, acrescentava: “Duramente experimentada pelas inundações de 25 de Outubro e 23 de Dezembro de 1948, esta vila está de novo inundada (…). A feira franca, marcada para os dias 29 e 30 do corrente, não chegou a realizar-se, pois a água destruiu algumas barracas e ameaça arrastar para o mar as pistas de automóveis eléctricos e as barracas de cavalinhos. Os feirantes que foram atingidos por elevados prejuízos encontram-se albergados em várias casas, postas à sua disposição. Continua a chover e a população está sobressaltada”.

"Na sua edição de 03/12/1949, noticiava ainda o DN que “em Albufeira apareceu abandonada uma embarcação e avistou-se no mar o cadáver dum homem que se supõe ser um dos tripulantes. Durante todo o dia de ontem (1/12), por quatro vezes toda a parte baixa da vila ficou coberta de água. Todos os pavimentos das ruas estão revoltos e estragados”.

Cheias em Albufeira nas décadas de 40 e 50 do século XX

"A cheia de 30 de novembro de 1949 foi uma das primeiras da vila a ser amplamente fotografada, pela mão de Fausto Napier, e da qual existem hoje numerosas fotografias. Todavia, outras inundações ocorreram, como a de 25 de outubro e a 22 de dezembro de 1948 ou ainda a de 15 de janeiro de 1956, de efeitos e consequências mais nefastas, embora não abundem os registos fotográficos.

“As águas das chuvas transbordaram um dique alagando ruas, largos e quintais, desmoronando prédios e enchendo de pânico a população de Albufeira”, foi a manchete da notícia, que o jornal “O Século” de 26/10/1948 dedicou às cheias de 25 de outubro de 1948.

"O mesmo jornal acrescentava: “Difícil é descrever os momentos aflitivos que se viveram aqui, quando a chuva, como se fora um verdadeiro dilúvio, fez com que as águas inundassem a parte baixa da vila, tudo ameaçando assustadoramente. Transbordou o dique e alagaram-se ruas, largos, quintas, e casas de comércio e de habitação. Alguns edifícios que ameaçavam ruína desmoronaram-se, outros ficaram com as paredes fendidas. Tudo se registou inesperadamente, apesar das chuvas torrenciais que caíram durante a noite fazerem prever inundações. O pânico foi terrível, pois a cheia atingiu dois metros, e como, muita gente corresse perigo, logo se solicitaram os serviços dos bombeiros de Faro, Loulé e Portimão. Igualmente se utilizaram barcos para socorrer pessoas em perigo e haveres de muita gente”.

"O semanário farense “Correio do Sul” estimou os prejuízos em 2000 contos, sendo de 500 contos só no Grémio da Lavoura pela perda de sementes, alfaias, trigo, cimento e adubos. O restante era repartido pelos comerciantes, Central Elétrica (atual Galeria Samora Barros), e por proprietários de edifícios que ruíram.

"Não eram decorridos dois meses, a 23/12/1948 o DN faz notícia de primeira página: “Temporal no Algarve – Na Vila de Albufeira a água das chuvas atingiu cerca de 7 metros de altura”. “A parte baixa daquela vila ficou completamente bloqueada pelas águas. É tal a violência do temporal na costa que muitas embarcações têm sido arrastadas para o mar, e estão-se a partir na ressaca contra as rochas da praia. Estabelecimentos comerciais onde a água não tinha entrado em inundações anteriores tiveram agora prejuízos quase totais. Em muitos sítios a água atingiu os primeiros andares, cobrindo completamente as árvores. Da frota pesqueira há mais de 40 barcos destruídos”.

Cheias em Albufeira nas décadas de 40 e 50 do século XX

"A inundação principiou cerca das 8 horas da manhã do dia 22 e prolongou-se por cerca de 20 horas: “A pressão da torrente a certa altura rebentou o dique e destruiu em enorme extensão, a rampa que serve de varadouro aos barcos de pesca. Nalguns locais, como por exemplo no largo Duarte Pacheco, as águas atingiram o nível de sete metros! Na avenida da Ribeira, a água escavou o solo numa profundidade de 4 a 5 metros, pondo a descoberto o antigo leito da ribeira, que àquela artéria deu o nome. E com a destruição da rampa do varadouro, as águas do mar invadiram a vila e juntaram a sua fúria às devastações da inundação. Paredes e alicerces de vários edifícios de construção mais ligeira, minados pelo ímpeto das águas, estão agora a desmoronar-se, ficando assim dezenas de famílias sem-abrigo. (…) Em suma Albufeira viveu horas de indescritível horror, de uma angústia de que é impossível dar, sequer uma pálida ideia”. (DN de 24/12/1948).

"Sete anos depois, e após uns dias mais chuvosos, as cheias em Albufeira foram de novo notícia nos jornais: “Temporal no país – Em Albufeira a água da cheia atingiu três metros de altura! Os prejuízos são grandes e uma mulher desaparece na enxurrada” (DN de 16/01/1956).

"Em suma tudo se repetia! “No largo Eng. Duarte Pacheco, transformado num pequeno lago, e onde a água subiu a três metros de altura (…). Alfarrobeiras centenárias foram arrancadas cerce e vieram ribeira abaixo em direção ao enorme esgoto ali recentemente mandado construir para evitar a repetição das inundações de 1948, o qual apesar dos cálculos acabou por não ser suficientemente grande para comportar o volume das águas. (…) Os prejuízos sofridos pelas dezenas de estabelecimentos inundados e os verificados em inúmeras residências são de alguns milhares de contos, pois houve vários comerciantes com danos de centenas de contos só à sua parte”.

"Em termos de vidas humanas, faleceu, arrastada pelas águas, uma senhora de 48 anos de idade. Outros habitantes foram salvos pelos bombeiros de todo o Algarve que ali acorreram, após fortes apelos lançados pela Emissora Nacional, e por populares, pois houve pessoas que “tiveram de agarrar-se às árvores como aconteceu no jardim público e ali se conservaram, lutando para não serem arrastadas pela água e por ela submersas, despendendo toda a sua energia e esforço até que foram em seu auxílio”. (DN 16/01/1956)

Albufeira, nos anos 40 e 50 do século XX – a ocupação do vale e do leito de cheia ainda apenas despontava

"Na realidade, a ribeira foi sendo canalizada em conduta ao longo dos últimos 100 anos, e simultaneamente, foram sendo construídas mais habitações/prédios nas “margens” e sobre o seu leito. Ainda em 2009 foi intervencionado mais um troço, uma obra polémica entre o Parque de Campismo e o Centro de Saúde.

"Sendo as cheias um fenómeno cíclico e normal no clima mediterrânico, e a função dos cursos de água tão-somente transportá-la, seja ela muita ou pouca, a ocorrência de cheias fluviais em Albufeira são, nas circunstâncias atuais, uma verdadeira “bomba relógio”, de consequências imprevisíveis, que urge corrigir.

"Quanto a responsáveis, somente o Homem o é, afinal ocupou, usou e abusou de uma área que não era sua, mas da Ribeira de Albufeira".


Autor: Aurélio Nuno Cabrita é engenheiro de ambiente e investigador de História Local .