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terça-feira, 20 de junho de 2017

Respigo da Semana: "As vítimas dos incêndios e da televisão" por António Guerreiro




"As vítimas dos incêndios e da televisão
Por António Guerreiro

In Público 19 de Junho de 2017

 
“Para as televisões, para a maquinaria dos directos e ao vivo, uma catástrofe como esta é um momento do sublime.

Nas televisões, o incêndio de Pedrógão Grande resultou num avatar técnico-totalitário da “obra de arte total”, na qual se dá uma confrontação dialéctica das várias artes. Com as imagens captadas pelos drones, a SIC compôs um filme com uma banda sonora que não era a Cavalgada das Valquírias, o excerto de uma ópera de Wagner a que Francis Ford Coppola deu uma grandiosa forma cinematográfica em Apocalypse Now, mas tinha a pretensão da “grande arte” wagneriana.

“Diz-se que os pilotos operadores dos drones, combatentes de uma guerra à distância, antes de disparar gritam de júbilo: “Oh, que belo alvo!” A nauseabunda estetização da catástrofe servida ao espectador — o “belo” cenário trágico resultante das montagens e encenações feitas nos estúdios das televisões — também mostra que alguém, certamente uma equipa, rejubilou com os seus belos alvos que lhes fornecem matéria para uma grande produção a baixo preço, para um filme-catástrofe que não precisa de efeitos especiais, só precisa de uma montagem bem ornamentada e música a condizer. Tudo devidamente sublinhado por textos, legendas e designações (por exemplo, “a estrada da morte”) que remetem para as grandes ficções de Hollywood. Às vezes, sobre essas imagens sobrepõe-se uma voz-off que lê um texto a imitar qualquer coisa de literário, a sublinhar a operação que reduz a tragédia real a uma opereta obscena. A estetização é uma violência exercida sobre as vítimas da catástrofe e, paradoxalmente, tem o efeito de uma anestesia aplicada ao espectador.

Para as televisões, para a maquinaria dos directos e ao vivo, uma catástrofe como esta é um momento do sublime. Se a emergência dessa categoria estética que é o sublime está relacionada com os sentimentos de medo e de terror perante algo que excede toda a medida, é preciso no entanto que a ameaça que eles representam seja suspensa para que da dor nasça o prazer. As reportagens da televisão, muito especialmente as imagens estetizadas que passam a servir de separadores ou de fechos do noticiário, procedem a esta conversão da dor em prazer. São maléficas e eticamente execráveis. Devemos perguntar como é que os jornalistas dos vários canais de televisão se relacionam com elas.

“O sublime, como sabemos, tem a dimensão do irrepresentável, deixa a faculdade da imaginação e a fala aniquiladas perante algo que tem uma potência ou um tamanho desmesurados. Por isso, é sempre ocasião para o uso de meios retóricos curtos, mas enfáticos. Para não ficarem em silêncio, para não dizerem pura e simplesmente que não têm nada a dizer ou que tudo o que são capazes de dizer é trivial, os repórteres recorrem aos parcos meios linguísticos que têm à sua disposição. Por exemplo, a palavra “dantesco” (para além de uma certa dimensão, o incêndio é sempre “dantesco” e configura “o inferno”). E porque os processos de descrição, na televisão, consistem sobretudo em mostrar, em dar a ver, entra-se sem pudor na exibição das imagens obscenas. Como vimos, alguns repórteres (Judite Sousa parece que não foi a única) nem hesitaram em aproximar-se dos cadáveres e oferecê-los aos espectadores como imagens ostensivas. Como uma personagem do filme de Francis Ford Coppola, eles poderiam dizer: “I love the smell of napalm in the morning.”

“Face à falta de meios linguísticos (e de tempo para qualquer elaboração mais cuidada) e porque a televisão pratica quase como ideologia jornalística um realismo ingénuo que acaba por nunca produzir o desejado efeito de real, os repórteres ou debitam lugares-comuns que não têm nem valor expressivo nem descritivo, ou recorrem aos testemunhos. Põe-se um microfone e uma câmara diante de pessoas em estado de choque e pede-se-lhes que elas testemunhem, que elas descrevam, que elas superem a afasia em que a situação as colocou. A violência é inominável e a televisão torna-se patética, no duplo sentido da palavra: porque quer mostrar o pathos, dê por onde der; porque exibe a estupidez na mais elevada expressão.

"Devemos novamente perguntar: a que coerção estão submetidos os jornalistas para que aceitem o papel de idiotas? Ou fazem-no voluntariamente? Os jornalistas tornam-se então indivíduos ávidos, paranóicos, como os amantes que não se satisfazem com um simples “amo-te”. Desconfiados com a declaração tão lacónica, achando que o amor é uma imensidão que precisa de se dizer com mais palavras, perguntam: “Amas-me como?” E o outro responde: “Amo-te como se fosses o mais doce dos frutos.” E aí começa um encadeamento de metáforas cristalizadas, de estereótipos. Assim são os jornalistas munidos de microfones e de câmaras: não desistem de querer extorquir as palavras e a alma aos seus interlocutores; não deixam de querer arrancar testemunhos a gente moribunda ou a viver a experiência dos limites.

“Esta maquinaria é totalitária, expansiva, reduz tudo a uma peça integrada. Este jornalismo é um aparelho ao serviço da lógica da “partilha” da comunicação, da informação e da opinião da nossa época. A utilização dos drones realiza na perfeição esta atitude predadora de quem se acha munido do olho de Deus: o olho que abarca, na vertical, a totalidade do mundo. Era fatal que a televisão viesse a pôr ao seu serviço o drone de omnivisão, dotado de uma vista sinóptica, capaz de uma vigilância de largo alcance, “wide area surveillance”, como se diz na linguagem da guerra”. 

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Web Summit versus provincianismo, preconceito e jornalismo de sarjeta


Iniciativas como a Web Summit são iniciativas louváveis e prestigiantes para Portugal.

Infelizmente, a pretexto dessa relevante iniciativa, escrevem-se as maiores alarvidades, assentando, quer no preconceito ideológico, quer na desinformação, quer no mais primário provincianismo.

Foi o que aconteceu com a última crónica do “jornalista” Manuel Carvalho, no jornal Público, intitulada, significativamente, “Este país não épara novos”, na edição de 2 de Novembro de 2016.

O título já é, só por si, um tratado ideológico de desonestidade intelectual, potenciando a idéia de que a inovação e a criatividade é dos “jovens” e o tradicionalismo e o imobilismo é dos “velhos”, dando seguimento a uma idéia de que os “velhos”, impondo a “sua” “cartilha dos direitos” sociais, estão a mais na sociedade, impedindo a sua “modernização” (ouvimos muito disso a propósito do Brexit), como se a modernidade, a inovação tecnológica e a criatividade só se pudessem expandir contra os direitos sociais defendidos pelas “redes clientelares dos sindicatos ou o ensimesmamento da função pública”.

Os sindicatos, a esquerda, ( e alguma direita “rançosa”), o Estado de Direito, a Função Pública são os alvos principais da crónica, escrita a (des)propósito da louvável iniciativa do Web Summit.

Nalguns pontos o seu rancor contra o “público” revela-se até contraditório, quando fala numa “geração que fala inglês” [já não toca piano nem fala francês!!!] “e recebeu NAS UNIVERSIDADE PÚBLICAS [sublinhado nosso] um nível de formação mundial” ( e já agora, não a terá recebido também no ensino público, no básico e no secundário, para aí chegar tão bem preparada???).

Misturando preconceitos ideológicos que, de modo “freudiano”, o “jornalista” defende como uma “visão” que “será sempre facilmente torpedeada com os anátemas do neoliberalismo”, com uma visão provinciana  da inovação tecnológica, no fim do artigo pouco ficamos a saber sobre aquela importante iniciativa e essa, quanto  nós, devia ser a missão do “jornalista”.

Ao opor os “direitos” e os “sindicatos” ao significado daquela iniciativa, o articulista parece querer colar às empresa tecnológicas a imagem, para ele positiva, mas quanto a nós injusta em muitos casos, e em especial entre as empresas representadas naquela iniciativa, segundo  a qual a inovação e a criatividade  implicam e confundem-se com a precariedade no emprego, os salários baixos, o trabalho sem horários e o  torpedeamento de direitos socias.

O título e o pretexto da crónica do “jornalista” é também revelador de um certo provincianismo no modo como alguns encaram as novas tecnologias, como se substituir uma velha máquina registadora por um computador ou um balcão de comércio por uma  plataforma digital fosse, só por si, um sinal de mudança e inovação. Como se a tecnologia não fosse um simples meio ao serviço da   inovação e da criatividade e a “bondade” dessa  tecnologia não dependesse do seu uso.

Não nos surpreende essa opinião, vinda de quem vem, pois já escreveu e disse coisas do género noutras crónicas e intervenções no comentário televisivo, mas desta vez foi longe demais, misturando alhos com bugalhos, servindo-se de modo ideologicamente oportunista de uma  iniciativa louvável para lançar todo o seu rancor contra os “direitos”, os sindicatos, a Função Pública, a “esquerda” e os “velhos”, prestando um mau “serviço público” que devia ser a preocupação central de um jornalismo livre e independente.

Esperamos que esta infeliz crónica não seja um sinal de algum descalabro e desorientação que se tem notado nos últimos tempos no seio do jornal Publico desde a chegada de David Dinis à direcção do jornal (ainda hoje, na sua primeira página, se publica um título apressado e mal informado sobre a ADSE, entretanto desmontado pelo bom jornalismo que, cada vez mais, se faz na Antena 1).

…e esperamos também que apareçam notícias, feitas com rigor jornalístico, realmente esclarecedoras sobre a feliz iniciativa do Web Summit…

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

O Balanço de 2015 pelo jornal Público

Com os desejos reforçados de um Bom Ano, vale a pena dar uma vista de olhos AQUI  pelo balanço que o Jornal Público fez do ano que está prestes a terminar.



sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Timor e as "virgens" ofendidas ...e se o governo de Timor tivesse razão?


A pouco e pouco, vai-se fazendo luz sobre as razões que levaram à expulsão de magistrados portugueses de Timor.

Por cá, a gente do costume apressou-se a vir em defesa da “honra do convento”, acusando de imediato o governo timorense.

Contudo, nalgumas das entrelinhas dos textos jornalísticos começa-se a perceber melhor o que aconteceu.

Já ontem, numa pequena e quase despercebida  passagem de um artigo do Público (clicar para ler), dáva-se voz a um prestigiado jurista português, Pedro Bacelar de Vasconcelos, que apoiou na redacção da Constituição Timorense e que participou em duas avaliações internacionais do sistema jurídico daquele país, onde este denuncia que a “justiça timorense está completamente paralisada por funcionários internacionais ao serviço dos mais variados interesses”.

hoje, na edição daquele mesmo jornal (clicar para ler), fica-se a saber quais são esses interesses, os interesses das grandes companhias de petróleo que procuram enganar o Estado timorense através da fuga ao pagamento de impostos, taxas petrolíferas não pagas e dedução ílicitas, tudo por causa da ineficácia dos tribunais timorenses , por cujo funcionamento os magistrados portugueses são responsáveis.

Por cá, em Portugal e na Europa (como se soube ontem com o “caso Juncker”) é “normal” o sistema jurídico e o funcionamento dos tribunais estar cativo dos interesses das grandes empresas e instituições   financeiras, daí o “escândalo” que a decisão do governo timorense está a provocar.

Por cá estamos habituados a que as grandes empresas e o instituições financeiras tenham um tratamento “diferenciado” por parte dos tribunais ou que os gabinetes de advogados trabalhem com elas condicionando a elaboração de leis, através da cativação do poder político, em troca de favores e jobs para os boys “reformados” da política.

Por cá estamos habituados a que os tribunais funcionem com celeridade e mão pesada para pequenos delitos ou quando os arguidos são os cidadãos comuns, e deixem” prescrever”  e arrastar os processos, muitas vezes através de erros cirúrgicos nos processos, quando se trata de gente graúda ou de grandes interesse financeiros e económicos.

Ao que parece, alguns magistrados portugueses terão levado para Timor os vícios do sistema português e europeu, e por isso ficaram muito admirados e ofendidos com a atitude do governo timorense.

Pode ser que, mais uma vez, Portugal tenha alguma coisa a aprender com Timor. 

terça-feira, 28 de outubro de 2014

O "PADRINHO" PARTE 2 - "BES- A Reta Final" (jornal Público)


Este domingo o jornal Público editou a segunda parte do trabalho de investigação sobre a ascensão e queda do Império da família Espírito Santo, acção  liderada por Ricardo Salgado desde a década de 90 do século passado. (BES - A RETA FINAL (clicar para ler artigo)).

Esta segunda parte reporta-se aos acontecimentos recentes, passados ao longo de 2014, onde se fica a perceber o modo como Ricardo Salgado já era o "verdadeiro dono" da PT e as conivências de Bava e Granadeiro par com os interesses do império BES que vão colocar em causa uma das empresas nacionais mais prestigiadas.

Também se percebe a conivência do poder político e do próprios Banco de Portugal com a "família", ao tentarem aguentar a queda do Império até ao fim.

Ficamos a perceber como os "amigos" de sempre do "padrinho" (Cavaco Silva, Durão Barroso, Carlos Moedas - o "comissário" europeu -, José Luís Arnaut, Paulo Portas.., ) o abandonam, procurando lavar as mãos de qualquer responsabilidade ou ligação à "família", quando o desastre se torna evidente.

Entretanto,ontem, em novo artigo do jornal Público (Membros do Governo tinham mais de um milhão de euros no GES quando decidiram o seu futuro (clicar para ler) ), ficou-se a saber que o governo decidiu em relação ao BES em "causa própria", (diga-se em abono da verdade que apenas um ministro clarificou a sua situação em relação àquele banco de forma transparente e justa, o ministro da economia Pires de Lima).

Por último aqui deixamos um "organigrama" (retirado do livro colectivo "Os Burgueses") que resume as ligações do império BES ao poder político dos últimos anos:


terça-feira, 21 de outubro de 2014

Morreu o fotógrafo suíço da Magnum René Burri (1933-2014)



Faleceu ontem, aos 81 anos o fotógrafo suiço René Burri, um dos mais importantes fotógrafos de reportagem da segunda metade do século XX e um dos mais destacados da Magnum.

A história desse fotógrafo pode ser conhecida no artigo do Público que transcrevemos em baixo, da autoria de Sérgio B. Gomes.

Uma das melhores homenagens que se pode fazer a um grande fotógrafo é divulgar o seu trabalho, parte do qual pode ser apreciado em baixo, através de fotografias da sua autoria, tirada em várias partes do mundo e várias épocas, revelando as qualidades de René Burri. As fotografias que divulgamos em baixo foram retiradas do site da Magnum.




























segunda-feira, 30 de junho de 2014

Uma grande reportagem do jornal Público:A história nunca contada dos portugueses nos campos de concentração



São cada vez mais raras as grandes reportagens no jornalismo português e por isso é de realçar o excelente trabalho de Patrícia Carvalho, jornalista do Público sobre um tema que era até agora quase ignorado, mesmo pela historiografia portuguesa, a história dos portugueses que estiveram em campos de concentração durante a segunda guerra.
Ao longo de dois fins de semana o jornal Público editou duas excelentes reportagens,completadas pela publicação de outros materiais disponibilizados na edição on-line desse diário.

A primeira dessas reportagens,intitulada "A história nunca contada dos portugueses nos campos de concentração - PÚBLICO", pode ser lida clicando sobre o título. 

Nesta foi recolhido o depoimento da historiadora torriense, a viver e a trabalhar em Paris, Cristina Climaco,
" com estudos publicados sobre o internamento de opositores de Salazar nos campos do sudoeste de França, no tempo de guerra e que realça a importância deste trabalho jornalistico: “Não há nada trabalhado sobre portugueses nos campos de concentração ou envolvidos com a Resistência. Há muitas coisas que
se dizem, mas não há nada trabalhado”.

A segunda parte desse trabalho pode ser lida AQUI.

São ainda de realçar os seguintes trabalhos on-line, que completam aquele trabalho.

  Luiz Ferreira, um português que  esteve preso no campo de concentração de Buchenwald.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Homenagem a Miguel Gaspar (1960-2014)

(Fotografia tirada por Joaquim Esteves em 11 de Outubro de 2011, na manifestação dos "indignados")

Miguel Gaspar era uma dos mais lúcidos e certeiros jornalistas e comentadores portugueses.

No meio de tanto lixo mediático era sempre um momento de frescura e revelação a leitura atenta das suas crónicas do jornal Público.

Apenas com 54 anos este jornalista deixou-nos demasiado cedo, quando vozes informadas e ponderadas como a sua se tornam mais urgentes.

Na página on -line do público o jornalista apresentava-se assim:

"Aterrei no jornalismo em 1986 vindo directamente do curso de Filosofia. Troquei Platão pela secção de polícias do Correio da Manhã e de idealista passei a tarimbeiro. Não me dei mal: comecei a sonhar em ser jornalista quando vi A Primeira Página, do Billy Wilder. Continua a ser uma fonte privilegiada da minha semiótica jornalística. Como animal de hábitos que sou, passei quase toda a minha vida nos diários. Muitos anos no DN e desde 2007 no PÚBLICO. Um dia escrevo uma tese sobre os dois. Fui crítico de televisão durante dez anos (no DN, no Independente e na Renascença) e hoje não consigo ver televisão. Olhos do ofício. Também fundei e dirigi o site da TSF, em 2000, no auge da bolha da Internet. Gostava de saber onde é que o jornalismo vai aterrar no futuro. Mas isso é outro filme".

Miguel Gaspar vai deixar um grande vazio no jornalismo português.

Em baixo publicamos duas das suas mais lúcidas crónicas sobre a grave situação política portuguesa, a primeira publicada quando do inicio da actual governação e a segunda, há poucos meses, quando se anunciava, com a pompa e a falsidade do costume, a saida da troika de Portugal.


O Governo oculto
Por MIGUEL GASPAR
In Público de 10/11/2009

 “Desapareceram a exigência ética e a convicção de que a corrupção possa ser o extraordinário e não o banal.

“A atmosfera continua carregada. Afinal de contas, as eleições foram apenas um intervalo no ciclo, já quase banal, de casos judiciais envolvendo actores políticos, negócios pouco claros, jogos de influência e acusações de corrupção. Parece mesmo que existem ao mesmo tempo dois governos. Um público, que aparece à vista de todos no Parlamento ou na televisão, a discutir com a oposição ou a anunciar medidas. Outro oculto, que longe dos olhares públicos intervém no mundo dos negócios, capta financiamentos, influencia decisões empresariais. Qual dos dois é o verdadeiro? Um e outro não estão distantes quanto parecem. Não só a influência do Governo oculto se estende aos negócios dos media como a propaganda do Governo público se tornou num formidável instrumento de ocultação.

“O problema de fundo é político - e ético. Começa na complacência instalada no regime em relação a problemas como o financiamento partidário, a promiscuidade entre o universo da política e o universo dos negócios e a corrupção. Questões que minam a credibilidade pública da democracia. E permitem questionar em que é que o Governo público é mais do que uma camuflagem por detrás da qual se tomam as decisões que contam.

“Pacheco Pereira tem razão quando diz que não é possível separar a justiça da política. A cada novo caso, os partidos encolhem os ombros e repetem declarações de conveniência sobre como é importante confiar na justiça. Compreende-se que casos concretos não sejam usados para o combate partidário quotidiano - em teoria, é até mesmo uma boa prática. Mas na ausência de um discurso sério contra a corrupção e de uma política que a combata eficazmente, esses silêncios confundem-se facilmente com uma conivência. Como se cada um estivesse a proteger os seus telhados de vidro.

“Sem leis efectivas contra a corrupção e sem um sistema jurídico capaz de julgar com competência e celeridade, a democracia transforma-se num palco vazio. A complacência que vem do topo contagia toda a sociedade. Os jogos de influência, os favores, a corrupção, tudo isso flui através de um crivo alargado que fecha os olhos aos jogos de bastidores. Desapareceram a exigência ética e a convicção de que é possível viver num sistema político em que a corrupção seja o extraordinário e não o banal.

“Não é apenas o problema de haver "Estado a mais" que torna possível esta situação. Ela é também a consequência de uma perda de influência do poder político perante o poder económico. A desideologização do político conduziu a uma reificação do económico. Na ausência de valores ideológicos, a economia tornou-se um valor em si. A desregulação da economia ou a influência excessiva do Estado - que se verifica em Portugal - concorrem no mesmo sentido. Um estado de coisas em que os negócios, os grandes negócios, se tornam o centro da vida política e a política retira o seu poder da capacidade de os influenciar.

“Uma nova legislatura começa e com ela o desenho de um novo jogo de equilíbrios entre Governo e Parlamento, à sombra das próximas eleições presidenciais. O caso dos submarinos primeiro, o Face Oculta depois, incluindo as certidões extraídas do processo e relativas às conversas entre Armando Vara e José Sócrates, vieram mostrar que o jogo de equilíbrios será outro. O poder político está outra vez sob suspeita, a política propriamente dita volta a sair para intervalo. Sem que fique claro em que medida os timings políticos influenciam os tempos da justiça. As próprias razões pelas quais cada processo se torna público num dado momento estão elas próprias sob suspeita. Como se fossem também parte de um Governo oculto.

“Como se desfaz este nó? Tornou-se demasiado urgente fazê-lo - a alternativa é deixar que a democracia fique reduzida a uma caricatura, a face visível de um jogo de sombras. Há respostas possíveis, se mudarmos as regras. No combate à corrupção, no financiamento partidário, na transparência do sistema.

“Não é possível continuar assim - e não é a primeira vez que muitos dizem que não é possível continuar assim. Os custos de olhar para o curto prazo dos interesses imediatos e dos atalhos mais curtos para os satisfazer em vez de privieligiar a estabilidade e a credibilidade do sistema político no longo prazo são elevados. O Governo oculto não pode continuar a esconder-se atrás do Governo público”.

"PÓS-TROIKA - Do insanável consenso
POR   MIGUEL GASPAR
In Público 3 de Março de 2014


"Os beijos roubados já não são o que eram. Há alguns dias, surgiu nas redes sociais uma série de fotografias em que estranhos beijavam estranhos. Rapidamente, a coisa tornou-se viral, como agora se diz. Veio a saber-se que era uma estratégia de marketing. Onde foi parar a espontaneidade? Em Portugal, a ideia pegou, mas de outra maneira. Foi mais ou menos por essa altura que o PÚBLICO divulgou, em primeira mão, o Manifesto dos 70 a favor da renegociação da dívida. Entre os signatários, multiplicavam-se os nomes daqueles que, assinando este documento, se beijavam pela primeira vez. Manuela Ferreira Leite e Francisco Louçã, por exemplo, quem os teria imaginado alguma vez na mesma trincheira? Sou adepto da teoria de que entre certos governantes e certos deputados da oposição se estabelecem relações de amor/ódio. Era o que via sempre que Ferreira Leite, quando ministra das Finanças, respondia, com elevado respeito académico, a Francisco Louçã. Nos tempos que correm, sinto um clima semelhante entre Passos Coelho e Catarina Martins. Mas não vejo estes dois a assinarem um manifesto daqui a dez anos.

“O Manifesto dos 70 provou que afinal o consenso em Portugal existe, mas no sentido oposto ao que o Governo pretende. Em vésperas da visita à sra. Merkel, o primeiro-ministro não gostou nada da brincadeira. Ainda por cima, o Presidente da República, enquanto vai, também ele, entoando a melodia do consenso, ofereceu ao Governo um veto político. Passos Coelho percebeu que estava na hora de, também ele, beijar um estranho. E convidou António José Seguro para ir a São Bento, a tempo de a fotografia dos dois juntos ser publicada nos jornais antes do encontro com a chanceler, em Berlim.

“Sem surpresa, o líder da oposição não deixou que lhe roubassem um beijo. E acrescentou uma nova palavra-chave aos termos que compõem esta crise. A “consenso” e a “irrevogável”, Seguro acrescentou um solene “insanável”. Ficávamos sem entender para que foram precisas três horas para os dois ficarem a saber o que já sabiam. Seguiu-se o pim-pam-pum dos inflamados amuos e contra-amuos entre PSD e PS, uma conversa vazia que o país justamente despreza e deixa correr em circuito fechado.

“Só em Berlim e nos beijos maternais de Angela Merkel, Passos encontrou consolo. A chanceler precisa do bom aluno para não se ver grega perante os seus eleitores e faz de conta que perdoa tudo. Portugal pode escolher o programa cautelar se bem o entender. E desfez a tragédia do consenso perdido. Quase uma carta de amor. Mas se há algo insanável nesta crise, é que o único consenso que conta é o que a chanceler pensa. Só que ela, tal como a rapaziada cá de casa, nem sempre diz aquilo que pensa. Há amores assim...”.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Na Islândia havia lugar para essa gente: Passos Coelho criou ONG financiada apenas pela Tecnoforma .

Este caso da Tecnoforma é “apenas” mais um caso de compadrios políticos, de uso indevido de dinheiros públicos, de estratagemas de engenharia financeira, de fuga ao fisco, e de falta de ética na gestão da “coisa pública”, de que nos vamos habituando a ouvir falar, quando alguém resolve, com coragem e risco profissional, como o fizeram os jornalistas do Público, fazer uma investigação a sério sobre as ligações passadas e a história da ascensão pessoal da nossa elite política dos últimos vinte anos.


Claro que, comparativamente com o caso BPN, isto é apenas uma pequena migalha, provavelmente menos elaborada e mais “naïf”, mas não deixa de ser uma história pouco edificante sobre o modo como a nossa elite política constrói a sua carreira. Mais preocupante ainda porque ela revela como se geriram os dinheiros públicos e se utilizaram os fundos europeus ao longo das últimas décadas.
Revela também o estado da nossa justiça que permite que tudo o que é agora relatado sobre a Tecnoforma se tenha passado nos limites da legalidade.
Já se sabia que a lei é feita pelos mesmos que dela beneficiam, ou serve apenas aqueles que têm poder financeiro e político para contratarem “bons” advogados e para arrastarem processos até á sua prescrição.
É caso para dizer que, em Portugal, o crime, desde que seja financeiro, com dinheiros públicos e envolvendo grandes valores, compensa sempre, como se vê pelos cargos ocupados hoje em dia pelos envolvidos nesse caso, nada menos que um primeiro-ministro, um ministro de Estado, um ex-líder partidário e conhecido comentador político, e outras figurinhas de segundo plano, mas todos com o seu futuro financeiro garantido.
Este é apenas mais um caso, mas existem milhares de outros casos idênticos por esse país fora, envolvendo politicos do centrão,  dinheiros públicos e fundos europeus. Afinal estes fundos não serviram apenas para destruir a nossa agricultura, a nossa pesca e a nossa industria. Serviram também para enriquecimentos eticamente ilícitos ou para promover carreiras políticas.
E é por tudo isso que os portugueses, os que sempre trabalharam, cumpriram com os seus deveres fiscais, pagaram do seu bolso os seus estudos e os dos seus filhos, são os que agora estão a pagar acima das suas possibilidades, estão a sofrer um tratamento de empobrecimento e perdem a perspectiva de um futuro para este país e para os seus filhos .
Percebe-se agora porque é que a situação da Islândia é escamoteada do discurso dos políticos e dos comentadores “camilolourencianos” que enxameiam a nossa comunicação social. 
Nesse país, casos como aquele deram direito a prisão, e os responsáveis tiveram de pagar dos seus bolsos os desvarios. Com isso, a Islândia saiu da crise e do endividamento e é um dos países com mais sucesso no mundo actual. Claro que tem a vantagem de estar fora do euro e da União Europeia, outra verdade que também  não convem muito que  se saiba  por cá…
Na Islândia, os responsáveis estão na prisão. Por cá, os seus "equivalentes" ocupam o poder político, financeiro e económico, apoiados pelo braço armado de alguns comentadores que moldam a opinião pública e que tudo farão para desacreditar o jornalismo sério do jornal Público.
Hoje começamos a saber para onde foi tanto dinheiro dos fundos europeus. Um dia ficaremos a saber para onde foi o dinheiro “emprestado” pela troika, que estamos todos a pagar como o nosso trabalho, os nossos impostos e a nossa vida…

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

ESTAMOS SOLIDÁRIOS PARA COM OS JORNALISTAS E TRABALHADORES DO JORNAL "PÚBLICO".

Já restam, em Portugal, poucos orgão de comunicação social com coragem para denunciar a corrupção ética das nossas  elites políticas, sociais e económicas.

O diário "Público" tem sido um dos raros  pilares da imprensa séria e de referência em Portugal, com coragem para denunciar situações como aquela que revelamos no nosso post anterior e que envolvem Passos Coelho e Relvas.

Não sei se isto é "teoria da conspiração", mas não deixa de ser  coincidência a mais que este tenha sido o momento escolhido para fazer pender a ameaça de despedimento a dezenas de jornalistas e trabalhadores daquele jornal.

Com uma redução tão drástica de jornalistas, numa época com a actual, é a liberdade de imprensa que mais uma vez está em risco.

A única coisa que posso fazer, como leitor diário desde o primeiro número desse excelente projecto jornalistico como tem sido o "Público", é enviar daqui a minha solidariedade para com os profissionais que tão bom serviço têm prestado à lberdade de informação em Portugal.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Aniversário do Jornal Público.

O Jornal "Público" comemora hoje o seu 22º aniversário, chegando também à ....8001ª edição!
Para comemorar a data, a edição de hoje é de distribuição gratuita, e é dirigida, por um dia, pelo filósofo José Gil.
Outra novidade desta edição é o seu novo grafismo, mais arejado, e que anuncia uma nova etapa editorial daquele que, para mim, é cada vez mais o melhor jornal do país.
Um original dossier sobre o Estado da Nação é o tema principal desta edição, onde se inclui um conjunto de perguntas que poucos têm coragem de fazer...
O editorial e o resultado desse estudo pode ser consultado em baixo:

sexta-feira, 5 de março de 2010

VINTE ANOS DE PÚBLICO

O Público comemora hoje o seu 20º aniversário com uma edição gratuita.

Para além das secções habituais, ao longo das páginas desta edição comemorativa recordam-se algumas das fotografias que fizeram parte da história do jornal.

Vários gráficos comparam a evolução do país e do mundo ao longo destes últimos vinte anos.

O Público nasceu numa década marcada pela esperança, tanto em Portugal como no Mundo. Depois tudo ruiu.

Em Portugal ela foi destruída pela chegada ao poder da geração a que eu infelizmente pertenço, cujas marcas são o oportunismo, o carreirismo, a negociata fácil e a incoerência político-cultural.

Politicamente, em Portugal, esse descalabro foi representado pelos governos de Durão Barroso, de Santana Lopes e, desgraça das desgraças, de José Sócrates.

No mundo, a chegada de George W. Bush, acompanhado por Bin Laden, a outra face da mesma moeda, marcou o descalabro económico-social da moda neo-liberal, secundados por artistas de segunda, com Aznar, Blair ou Berlusconi.

Contudo, a crise actual pode ser também a oportunidade de varrer de vez toda essa gente da frente dos destinos do mundo, como parece estar a acontecer nos Estados Unidos.

Na Europa ainda vivemos sob a liderança de figurinhas como Barroso ou Trichet (agora secundado pelo inenarrável Constâncio), mas, a prazo, se a Europa quiser sair reforçada e inovada neste mundo em mudança, passarão rapidamente ao esquecimento. Felizmente temos um Zapatero ou uma Merkel, que podem ombrear com Obama na construção do mundo e da Europa pós-crise .

Na voragem das transformações, crises, ilusões e desilusões que marcaram estas duas últimas décadas, o Público soube sempre ser um marco de referência nesse mundo turbulento.

Aos jornalistas, colaboradores e gestores do Público desejamos que continuem a revelar capacidade de arriscar e inovar, marcando a diferença tão necessária à nossa comunicação social para recuperar a sua credibilidade.

sábado, 31 de outubro de 2009

na despedida de José Manuel Fernandes da direcção do Público



José Manuel Fernandes não me conhece de lado nenhum, nem vai ler este texto, pois tem coisas mais interessantes para fazer na vida.


De qualquer modo quero aqui dedicar-lhe algumas palavras na hora da sua despedida como director do “Público”.
Devo confessar que muitas vezes as suas opiniões me irritaram e que discordei de mais de 90% daquilo que ele escreveu ou disse.
Mas confesso também que ouvi-lo ou lê-lo foi sempre bastante estimulante. É que a sua escrita é de uma clareza, tão bem fundamentada e culta que se torna difícil rebater as suas opiniões.
Ao lê-lo ou ouvi-lo ele obrigava-nos a pensar, principalmente em racionalizar a nossa discordância, o que implicava um esforço intelectual enorme.
Uma outra faceta importante da sua passagem pelo Público foi a forma como sempre contribuiu para o pluralismo de ideias que sempre caracterizou esse jornal. Não poucas vezes, a sua voz era uma voz isolada no conjunto de comentadores ou editorialistas, sem que uma única vez se tivesse notado que tenha usado o seu poder para impedir qualquer opinião ou notícia que desmentisse ou discordasse das suas idéias
Por tudo isso os seus editoriais vão fazer-nos falta, esperando que o Público continue na linha de pluralismo e independência, consolidada e reforçada pela direcção de José Manuel Fernandes.