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sexta-feira, 23 de abril de 2010

Evocando o DIA MUNDIAL DO LIVRO

O Livro começou a ser celebrado em Espanha, em 7 de Outubro de 1926, data no nascimento de Cervantes.

Em 1930 a data passou a ser celebrada em 23 de Abril, data da morte daquele escritor espanhol.

Só em 1996 é que a UNESCO estabeleceu nesta data o DIA MUNDIAL DO LIVRO E DOS DIREITOS DE AUTOR, já que ela coincide também com o falecimento de Josep Pia, escritor catalão e de William Shakespeare, embora neste caso a data seja controversa.

Na Catalunha é costume celebrar este dia, associando-o ao Dia de S. Jorge, oferecendo um livro e uma rosa.


O Livro, cuja morte muitos se têm apressado a anunciar, continua a resistir e até a revelar uma enorme capacidade de adaptação aos desafios que lhe são impostos pelas novas tecnologias.

Em países onde os hábitos de leitura estão bem enraizados, o livro mostra grande capacidade de inovação e sobrevivência.

Infelizmente, em países como o nosso, onde a leitura é considerado pelas autoridades e elites políticas , não só um luxo económico (só assim se explica o valor do IVA sobre esse bem cultural), mas também um empecilho à provinciana imposição da moda das novas tecnologias, onde ler é um hábito pouco enraizado e até socialmente ridicularizado, os níveis de leitura continuam baixos e, quando se vende alguma coisa, é promovendo obras medíocres.

Um grupo onde a leitura atenta e reflexiva devia ser a sua principal actividade, como é o dos professores, tem vindo a ver reduzido o seu pouco tempo livre para esse fim em troca de tarefas burocráticas e economicistas.

Apesar de tudo, este é um dia especial para quem gosta de ler.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Recordar Jack Kerouac


Há 40 anos, no dia 21 de Outubro de 1969, morria Jack Kerouac, de cirrose hepática.

Tinha apenas 47 anos mas era uma das figuras mais emblemáticas da literatura norte-americana, apelidado do pai da “Beat Generation”.
Nascido em Lowell, no Massachusetts, em 12 de Março de 1922. Quando entrou para a Universidade de Columbia em Nova Iorque, graças a uma bolsa obtida com jogador de futebol americano, conheceu Neal Cassady, Allen Ginsberg e William S. Burroughs.
Em 1950 publicou o seu primeiro livro, The Town and the City, assinando como John Kerouac, obra fortemente influenciada por Thomas Wolfe e bem aceita pela crítica.
Mas foi com o livro “On the Road” (“Pela Estrada Fora”) que se tornou conhecido.
Esta obra, considerada uma espécie de Bíblia da Beat Generation, foi escrita em três semanas, em Abril de 1951, inpirando-se na sua experiência pessoal de viajante no México e nos Estados Unidos. O manuscrito foi rejeitado por várias editoras e só seria editado em 1957.
As suas obras seguintes não tiveram o mesmo êxito e, além disso, afastou-se dos seus fãs quando, nos anos 60, resolveu criticar o movimento Hippie e apoiar a Guerra do Vietname.
A sua obra póstuma, “Visions of Cody”, publicada pela primeira vez integralmente em 1972, é considerada pelos especialistas o seu melhor livro.
Ao todo escreveu vinte livros de prosa e 18 de ensaios, cartas e poesia.

Algumas Palavras de Kerouac

1

“Assim, na América, quando o sol se põe, eu me sento no velho e arruinado cais do rio olhando os longos, longos céus acima de Nova Jersey, e consigo sentir toda aquela terra crua e rude derramando-se numa única, inacreditável e elevada vastidão, até a costa oeste, e a estrada seguindo em frente, todas as pessoas sonhando naquela imensidão, e em Iowa eu sei que agora as crianças devem estar chorando na terra onde deixam as crianças chorar, e você não sabe que Deus é a Ursa Maior? A estrela do entardecer deve estar morrendo e irradiando sua pálida cintilância sobre a pradaria, reluzindo pela última vez antes da chegada da noite completa, que abençoa a terra, escurece todos os rios, recobre os picos e oculta a última praia, e ninguém, ninguém sabe o que vaiacontecer a qualquer pessoa, além dos desamparados andrajos da velhice”

2

"Aqui estão os loucos. Os desajustados. Os rebeldes. Os criadores de acaso. Os pinos redondos nos buracos quadrados. Aqueles que vêem as coisas de forma diferente. Eles não curtem regras. E não respeitam o status quo. Você pode citá-los, discordar deles, glorificá-los ou caluniá-los. Mas a única coisa que você não pode fazer é ignorá-los. Porque eles mudam as coisas. Empurram a raça humana para a frente. E, enquanto alguns os vêem como loucos, nós os vemos como geniais. Porque as pessoas loucas o bastante para acreditar que podem mudar o mundo, são as que o mudam."

3

“Um dia hei de renascer numa grande cidade de outro sistema planetário, no passado ou no futuro, onde uma única montanha de 5 quilómetros de altitude se recorta no céu azul - com toda a compaixão que sinto dentro de mim, a única coisa que vou precisar é da sabedoria da terra."

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Jorge de Sena regressa à Pátria

Decorre esta manhã a cerimónia de trasladação dos restos mortais do poeta, escritor e ensaista Jorge de Sena.
Trinta e um anos após a sua morte, o escritor regressa à Pátria de onde teve de sair para fugir ao regime salazarista há 50 anos, primeiro para o Brasil, depois para os Estados Unidos, onde faleceu em 4 de Jnho de 1978.
Esse exílio nunca impediu Jorge de Sena de continuar a seguir atentamente a vida portuguesa e escrever em revistas e suplementos literários.
Nascido em 1919, Jorge de Sena, apesar de ser pouco conhecido do grande público, é um dos grandes nomes da literatura portuguesa.
Em sua homenagem transcrevemos aqui um dos seus poemas:

 Ode à Mentira

Crueldades, prisões, perseguições, injustiças,

como sereis cruéis, como sereis injustas?

Quem torturais, quem perseguis,

quem esmagais vilmente em ferros que inventais,

apenas sendo vosso gemeria as dores

que ansiosamente ao vosso medo lembram

e ao vosso coração cardíaco constrangem.

Quem de vós morre, quem de por vós a vida

lhe vai sendo sugada a cada canto

dos gestos e palavras, nas esquinas

das ruas e dos montes e dos mares

da terra que marcais, matriculais, comprais,

vendeis, hipotecais, regais a sangue,

esses e os outros, que, de olhar à escuta

e de sorriso amargurado à beira de saber-vos,

vos contemplam como coisas óbvias,

fatais a vós que não a quem matais,

esses e os outros todos... - como sereis cruéis,

como sereis injustas, como sereis tão falsas?

Ferocidade, falsidade, injúria

são tudo quanto tendes, porque ainda é nosso

o coração que apavorado em vós soluça

a raiva ansiosa de esmagar as pedras

dessa encosta abrupta que desceis.

Ao fundo, a vida vos espera. Descereis ao fundo.

Hoje, amanhã, há séculos, daqui a séculos?

Descereis, descereis sempre, descereis.


(Jorge de Sena, in 'Pedra Filosofal')

quarta-feira, 3 de junho de 2009

No Aniversário do nascimento de Allen Ginsberg


Comemora-se hoje o aniversário do nascimento do poeta Allen Ginsberg, nascido em 1926 e falecido em 1997.
Expoente máximo da Beat Generation, poeta preferido de Jim Morrison e dos The Clash, com quem chegou a actuar, foi também um dos símbolos da cultura gay.
Uma faceta sua pouco conhecida foi a de fotógrafo, revelada no site que lhe é dedicado, (http://www.allenginsberg.org/) , algumas das quais divulgamos em baixo.
Entre a sua imensa obra poética, deixo-vos com “Um Supermercado na Califórnia”,um bom exemplo da ironia e da crítica social que a sua poesia sempre revelou:

UM SUPERMERCADO NA CALIFÓRNIA


Muito tenho pensado em ti nesta noite, Walt Whitman,

enquanto caminho pela calçada sob as árvores, com uma incomoda

dor de cabeça e olhando a lua cheia.

Em meu faminto cansaço, e

fazendo compras na imaginação, fui

ao supermercado de néon e frutas, sonhando com as tuas listas de

compras!

Que pêssegos e que penumbra! Famílias inteiras

nas compras da noite! Corredores cheios de maridos! Mulheres nos

abacates e bébés nos tomates! — e você, Garcia Lorca, o que estava a fazer diante dos melões?


Vi-te, Walt Whitman, sem filhos, velho comilão solitário,

apalpando as carnes do refrigerador e lançando olhares

aos jovens vendedores.


Ouvi-te perguntar a eles todos: quem matou as costeletas

de porco? qual o preço das bananas? quem é meu Anjo, tu?

Vagueei por entre as prateleiras brilhantes de latas,

seguindo-te e sendo seguido pelo detective da casa, na minha

imaginação.


Percorremos os grandes corredores, juntos em nossa solitária

fantasia, provando alcachofras, pegando todas as delícias congeladas,

sem passar pela caixa. Para onde estamos indo, Walt Whitman?

Dentro de uma hora

as portas fecham-se. Qual o caminho que a tua barba hoje aponta?

(Toco no teu livro e sonho com a nossa odisseia no super-

mercado — e sinto-me absurdo).

Iremos caminhar a noite toda por essas ruas solitárias? As

árvores acrescentam sombras às sombras, luzes apagadas nas casas,

ambos estaremos sozinhos.

Andando e sonhando com a América perdida de amor, passaremos

por automóveis azuis no estacionamento a caminho do nosso solitário refúgio?

Ah, querido pai, de barbas cinzas, velho e solitário professor de coragem,

que América te conheceu quando Caronte desistiu de empurrar o seu

barco e te desceu na margem enevoada e ficou vendo

o barco desaparecer nas negras águas do Letes?


Allen Ginsberg

(tradução brasileira, corrigida para português, de Flávio Moreira da Costa)

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Um Blog para o Dia Mundial da Criança


Existe um blog (http://olivroinfantil.blogspot.com/) muito interessante dedicado ao universo da literatura infantil.
Chama-se “O Livro Infantil”, e foi elaborado pelos responsáveis pelo curso de pós-graduação da Universidade Católica.
Com um cabeçalho sempre em “movimento”, com ilustrações de vários livros para crianças, visitá-lo é uma excelente forma de comemorar este Dia Mundial da Criança.
Transcrevemos igualmente um texto publicado nesse blog no passado dia 25 de Maio, intitulado “Mitos e Preconceitos sobre o Livro Infantil”:


“No módulo de Edição do curso de Pós-Graduação em Livro Infantil fomos desafiados pela docente Isabel Minhós Martins (uma das mentes criativas da editora Planeta Tangerina) a alinhar num papel alguns dos preconceitos mais comuns que existem à volta do livro infantil.
“E são muitos. Ideias erradas, superficiais e generalistas que tomam a forma de verdades absolutas, reproduzindo-se nos leitores, na crítica, nas instituições e na própria comunidade produtora, sejam escritores, ilustradores ou editores.
“O que se segue é a síntese desse exercício, enumerada em tópicos pela nossa colega Paula Guerra. Para ler, acrescentar, contestar e, sobretudo, reflectir:

“Preconceitos quanto ao objecto “livro”:
- só os livros de capa dura têm valor;
- os livros mais finos, de capa mole, não valem a pena;
- não valem o investimento porque podem ser lidos rapidamente numa livraria;
- os livros infantis não valem mais que 5 euros.

“Preconceitos quanto ao conteúdo (texto e ilustração):
- os livros infantis são um género menor dentro da literatura;
- são livros fáceis, de conteúdo directo;
- têm uma estrutura interna formatada (no sentido de ser rígida: introdução, desenvolvimento e conclusão);
- devem imitar as obras para adultos;
- é mais importante o texto do que as imagens;
- deve haver uma correspondência directa entre o texto e a imagem;
- as ilustrações devem ser figurativas;
- há temas tabu;
- as imagens não podem ser assustadoras;
- devem ser coloridas, com recurso a cores “bonitas” (ausência de cores escuras e, em especial, de negro).

“Preconceitos quanto ao público a quem se destinam:
- destinam-se unicamente às crianças, ou seja, têm um público-alvo pré-determinado e bem definido (faixa etária);
- os livros têm uma classificação por género, ou seja, há livros para rapazes e livros para raparigas;
- os pais não lêem livros aos filhos ou não os compram porque as crianças não percebem, não lêem ou não sabem ainda ler; ou então porque as crianças preferem outras coisas;
- os próprios pais não têm tempo para ler aos filhos.

Preconceitos quanto à autoria:
- são assinados por escritores menores e ilustrados por aqueles que não conseguiram ser pintores;
- qualquer pessoa pode escrever um livro para crianças;
- é fácil ilustrar um livro para crianças;
- os livros para crianças não precisam ter grande qualidade global;
- o autor e o ilustrador não têm que estar em contacto, quando fazem o livro;
- os livros infantis são parte de um universo feminino (são as mulheres que se interessam por eles).

Preconceitos quanto aos objectivos:
- os livros infantis têm objectivos didácticos e pedagógicos;
- o grande objectivo dos livros infantis é a transmissão de uma moral;
- a sua concepção obedece sempre a uma finalidade;
- não proporcionam uma leitura literária.”

Eis um bom tema de reflexão para este dia, que deve ser vivido com “um brilhozinho nos olhos”…

domingo, 12 de abril de 2009

Edição de Abril da "Black & White"

A edição de Abril da revista Black & White dedica um dossier especial à agência Magnum.
Richard Pitnik é o autor da reportagem sobre essa agência fotográfica, fundada em 22 de Maio de 1947 por quatro fotojornalista, Robert Capa, Henri Cartier-Bresson, David “Chim” Seymour e George Rodger.
Alguns dos grandes ícones da segunda metade do século XX foram produzidos pelos fotógrafos daquela agência.
Na actualidade, um núcleo de jovens foto-repórteres dão continuidade ao projecto iniciado há 60 anos, divulgando a B&W o trabalho de alguns dos seus mais promissores fotógrafos : o chinês, de Taiwan, Chien-Chi Chang; o belga Martine Franck; o britânico Stuart Franklin; o novaiorquino Bruce Gilden; o italiano Alex Majoli; Trent Parke, natural de Newcastle; o italiano, de Roma, Paolo Pellegrin; o canadiano Lerry Towell.
De entre os habituais portefólios publicados por esta revista, destaca-se o que é dedicado a Elliot Erwitt que fez de Nova Iorque e do quotidiano desta cidade, um dos grandes temas da sua obra. É da sua autoria a capa desta edição, tirada na Provença francesa em 1955.

quarta-feira, 11 de março de 2009

UM DIA DE CÓLERA

Em “Um Dia de Cólera”, Arturo Pérez-Reverte consegue misturar o romance e a grande reportagem.
Este grandioso fresco literário relata um dos dias mais violentos da história de Madrid, o célebre 2 de Maio de 1808.
Para o seu autor, esta obra “não é ficção nem livro de História”, mas pretende “devolver a vida àqueles que, durante duzentos anos, foram apenas personagens anónimas em gravuras e telas contemporâneas, ou concisa relação de vítimas nos documentos oficiais”.
Baseado em relatos verídicos, com personagens que existiram de facto, Pérez-Reverte faz uma descrição minuciosa dos acontecimentos desse trágico dia.
Apesar da narrativa ser cruzada pelas histórias de muitos anónimos que deram a sua vida por Espanha, que ganham aqui um rosto e um nome, existe, como fio condutor, a acção de dois dos poucos militares espanhóis que, nesse dia, se puseram ao lado do seu povo, os capitães Pedro Velarde y Santillan e Luis Daoiz Y Torres, que resistiram até ao fim, até à sua morte, naquele que foi o último baluarte da resistência madrilena, o parque Monteleón.
Um povo, considerado por Napoleão uma “chusma de aldeões embrutecidos e ignorantes, governada por padres” conseguiu resistir várias horas ao mais poderoso exército do mundo, na maior parte armado com navalhas, facas de cozinha e machados de cortar lenha.
A população que participou nessa insurreição era maioritariamente formada por “gente do povo miúdo, operários, artesãos, funcionários humildes e pequenos comerciantes”, quase não contando com a participação dos mais abastados, dos representantes da nobreza e da hierarquia militar.
A vingança sobre os franceses foi terrível e cruel.
A descrição dos excessos de parte a parte, o sangue derramado, o fumo e a pólvora, enfim a tragédia humana desse acontecimento, conhece um retrato fiel na vivacidade da escrita de Pérez-Reverte , só possível de fazer por quem, noutros tempos, foi um exímio repórter de guerra, experiência que enriquece imenso este romance.
Às três da tarde dessa segunda-feira sangrenta, já os franceses dominavam a situação, iniciando uma das jornadas repressivas mais brutais que Madrid conheceu, imortalizada no célebre quadro de Goya, “3 de Maio”.
Para escrever este romance o autor efectuou “longos passeios pelas ruas de Madrid”, e, para acompanhar a narrativa pelo emaranhado de ruas dessa cidade no ano de 1808, o leitor pode socorrer-se do mapa, incluído no livro, dentro da lombada (pessoalmente, só me apercebi deste precioso auxiliar de leitura quando já ia a meio da leitura).
Com este romance, não temos dúvidas em afirmá-lo, Pérez-Reverte torna-se um dos grandes escritores espanhóis deste século.
Em Portugal, esta obra foi editada pela ASA.

quarta-feira, 4 de março de 2009

A "Minha" África...


Não, nunca fui a África. Ou antes, de África conheço o mesmo que conhecia D. João I, a cidade de Ceuta, que só é África na localização geográfica.
África esteve no meu horizonte por duas ocasiões na minha vida:
Uma, durante a adolescência e a juventude, com a possibilidade, sempre presente, de ser mobilizado para a guerra colonial, tendo o 25 de Abril chegado no limite, pois completei os 18 anos, 2 meses e 15 dias antes do 25 de Abril;
Outra, quando, nos finais da década de 70, me inscrevi como cooperante para a Guiné-Bissau, tendo a viagem sido adiada em definitivo, poucas horas antes da partida, por causa de um conflito diplomático, mal esclarecido, entre o governo português e o guineense.
Duas partidas falhadas, provavelmente decisivas para a minha vida.
A África tem sido um continente sacrificado ao longo da História.
Os recentes e trágicos acontecimentos na Guiné-Bissau trouxeram-me à memória um livro, lido há uns anos, ÉBANO, do jornalista polaco Ryszard Kapuscinski, falecido o ano passado.
Tendo acompanhado a realidade africana durante cerca de três décadas, exactamente aquelas que assistiram à descolonização e à formação das primeiras nações africanas, Kapuscinski conseguiu captar o espírito africano e as raízes do drama, num continente onde a vida humana tem muito pouco valor.
As moscas que invadem tudo, o calor sufocante, os odores nauseabundos de algumas cidades, o total desordenamento da vida social e económica que muito devem agradar aos neo-liberais, a corrupção e a violência dos poderosos, o saque permanente das suas riquezas, as intermináveis guerras civis, tudo isto atravessa a obra, escrita com a dinâmica e o colorido de um grande romance, infelizmente bem real.
Mas também o colorido dos mercados, a ingenuidade genuína dos seus habitantes, o mistério da sua cultura e a imensidão da sua paisagem.
O drama africano começou no século XV, com o início dos descobrimentos, situação que se agravou nos séculos seguintes com o desenvolvimento de um novo tipo de escravatura, que implicava guerras constantes para capturar cada vez mais escravos.
As guerras tribais africanas, que até então não passavam de meras escaramuças ou guerras rituais, tornaram-se cada vez mais violentas e uma questão de sobrevivência. Os Europeus forneciam armamento às populações africanas em troca de escravos, e a posse das armas tornou-se essencial para resistir à escravização.
O fornecimento de álcool pelos ocidentais, em grande escala, às populações africanas, ajudava a manter os conflitos, necessários para o clima de guerra permanente que alimentava o mercado esclavagista.
O Ocidente nunca se preocupou em olhar o continente africano com olhos de ver, percorrendo “apenas a superfície sem penetrar mais fundo”.
Para o jornalista polaco, o “drama de algumas culturas – entre as quais a europeia – foi devido ao facto de, no passado, os seus primeiros contactos com outras culturas terem sido estabelecidas por pessoas da mais estranha espécie – mercenários, aventureiros, criminosos, traficantes de escravos, etc. Havia também outros, mas em menos número – missionários honestos, viajantes e exploradores entusiasmados. Porém o tom, o clima, era ditado por esta internacional de salteadores. É óbvio que eles não perdiam tempo a pensar em conhecer outras culturas, em encontrar um língua comum, em respeitar as pessoas. (…) O seu único interesse era pilhar, saquear e matar” (p. 359).
Neste círculo vicioso destruíram-se civilizações milenares, desequilibrou-se demograficamente todo um continente e destruíram-se estruturas económicas e sociais.
Quando a escravatura foi extinta, de forma significativa apenas no século XIX, seguiu-se a partilha do continente pelas potências europeias na famigerada Conferência de Berlim de Novembro de 1884 a Fevereiro de 1885.
O Continente Africano foi dividido a régua e esquadro em colónias com fronteiras totalmente artificiais, ora separando povos inteiros, ora misturados populações com culturas muito diferentes.
Refere Kapuscinski que, nos “tempos anteriores ao colonialismo, havia em África mais de dez mil pequenos Estados, reinos, associações étnicas, federações. No seu livro The African Experience (…) Ronald Oliver chama a atenção para um paradoxo muito vulgar: consagrou-se a teoria de que os colonialistas europeus são os causadores da divisão africana.”Uma divisão?”, pergunta Oliver surpreendido. “Foi uma união criada à força, imposta a ferro e fogo! De dez mil passou-se para cinquenta” (p.361).
Iniciou-se então o saque final desse continente de todas as suas riquezas, impondo-lhe um sistema económico, cultural e político totalmente antagónico com a sua cultura e a sua história.
Mas o drama desse continente não terminou quando, nas décadas de 50 e 60 do século passado, se deu início aos movimentos de independência.
Os novos Estados Africanos foram construídos com bases em tais fronteiras antagónicas, numa economia e numa ideologia importada da Europa e, com algumas honrosas excepções, dirigidas por líderes corruptos, que usavam a violência para se manterem no poder, desrespeitando os mais elementares direitos humanos das populações que governavam.
A guerra fria alimentava essa gente, com cada um dos lados do conflito a exibir os seus ditadores de estimação, fornecendo-lhes armamento em troca de vantagens estratégica ou económica. Era o neo-colonialismo em toda a sua força.
Com o fim da guerra fria, a situação não melhorou, as velhas guerras ideológicas transformaram-se em guerras tribais ou de bandos de malfeitores, com massacres de milhões de pessoas, como aconteceu na região dos grandes Lagos.
Um documentário, recentemente exibido na televisão, mostra com as coisas funcionam actualmente.
A um aeroporto da região dos Grandes Lagos, no Uganda, onde se aterra com apoio de um telemóvel, quando este funciona, pejado de destroços de aviões aí acidentados, chega um avião russo que vai descarregar ajuda alimentar da ONU, transportando igualmente armamento para os grupos responsáveis pelos milhares refugiados da região que esperam por aquela ajuda.
Na volta, o mesmo avião transporta para a Europa a valiosa perca do Nilo, peixe muito apreciado, mas cuja criação descontrolada dizimou outras espécies daquela região, arruinando as pequenas comunidades de pescadores locais, que engrossam os milhares de refugiados ou os bandos de salteadores locais.
Os restos da perca, que não são enviados para os consumidores ricos do norte, são transportados em camionetas, percorrendo um caminho em mau estado, durante horas, debaixo de um Sol abrasador, até uma imensa lixeira, com um chão coberto de larvas, onde centenas de africanos recolhem as partes do peixe “aproveitáveis”, para fornecer os vendedores ambulantes da cidades próximas, que fritam esses restos para alimentar os seus habitantes.
Mesmo assim, pode haver esperança para um continente que não deixa indiferente ninguém que o visita, ou que deu à luz o mais humano e grandiosos de todos os políticos dos últimos 50 anos, Nelson Mandela.
Berço da humanidade, esta deve a África um sinal de esperança…

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Os Bonecos do Antero


O Antero Valério nasceu aqui em Torres Vedras, nos idos de 25 de Abril de 1960.Pessoalmente, tive o privilégio de privar desde os meus tempos do liceu com a sua amizade, que se mantém até hoje.Na altura, aí por volta de 1972, dirigi um dos primeiros fanzines de Banda Desenhada editados em Portugal, "O Impulso". Foi então que conheci o Antero que se tornou, desde a primeira hora, um dos membros permanentes da equipa desse fanzine.
Dos cerca de 10 membros dessa equipa ele acabou por ser o único a enveredar pelas artes visuais.
Tendo tirado o curso de Belas Artes, lecciona actualmente numa escola nos arredores de Lisboa. Artisticamente tem-se revelado na Pintura e na Banda Desenhada .
Colaborador habitual do “Barrete”, uma publicação humorística independente do Carnaval de Torres, publicada anualmente, o Antero tem participado em vários projectos editoriais, como ilustrador e gráfico.
É dele o painel de azulejos do terminal rodoviário de Torres Vedras, alusivo ao Carnaval de Torres.
Contudo, foi o seu blog “Anterozóide” que o projectou a nível nacional, graças ao humor dos cartoons aí publicados, que têm como temática a actual política educativa. Não há escola neste país que não tenha nos seus placards os bonecos do Antero.
Recentemente o Antero Valério reuniu alguns dos seu melhore bonecos no livro, por si editado, com o título “Como Se Tornar um Docentezeco” que pode ser adquirido através do seu blog ou nalgumas livrarias do país.
Reúnem -se aí algumas das sátiras mais corrosivas sobre os disparates da actual equipa do Ministério da Educação. Na brincadeira já lhe têm dito que o único defeito dos seus bonecos reside no facto de conseguir humanizar uma figura como a Ministra da Educação…
O único motivo que nos pode levar a desejar uma longa vida para esta equipa ministerial (lagarto! lagarto! lagarto!) é que continue a inspirar os bonecos do Antero.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Wellington Contra Massena

Algumas das obras mais interessantes sobre a Guerra Peninsular têm sido escritas em Inglaterra. Infelizmente, raramente encontram editores portugueses interessados na sua publicação entre nós.
Contrariando essa tendência, a Gradiva editou recentemente o livro de David Buttery, “Wellington contra Massena – a Terceira Invasão de Portugal – 1810-1811”, obra editada em Londres em 2007.
Apesar de se assumir como uma obra de divulgação, este livro é uma muito boa e bem documentada síntese sobre esse período da nossa história, agora que estamos próximos de iniciarmos as comemorações bicentenárias das Linhas de Torres Vedras.
Podemos dividir a estrutura deste livro em cinco partes distintas.
Numa primeira parte faz a contextualização da Guerra Peninsular , desde os seus antecedentes com o Bloqueio Continental à expulsão de Soult de Portugal em 1809.
Numa segunda parte traça o perfil biográfico, em capítulos distintos, de Wellington e Massena.
Na terceira parte, a mais importante da obra, aborda o período histórico identificado em Portugal como o da IIIª Invasão Francesa, desde a chegada de Massena a Valladolid, em 10 de Maio de 1810, para assumir o comando do chamado “Exército de Portugal”, até à sua destituição por Napoleão, exactamente um ano depois.
Aqui vamos encontrar uma descrição pormenorizada das tácticas seguidas por ambos os lados, das principais batalhas e da importância das Linhas de Torres, sem nunca esquecer os custos humanos, para as populações locais, desse acontecimento.
Se, em relação às Linhas de Torres, o autor pouco acrescenta àquilo que é conhecido por quem estuda este tema, é de realçar o pormenor descritivo dos cercos e das batalhas, onde se revela a especialização do autor na História Militar do século XIX.
Numa quarta parte, refere a evolução política de Massena, após ter caído em desgraça perante Napoleão, o seu regresso à ribalta política, após a derrota do Imperador e a restauração da monarquia e a amizade pessoal que se desenvolveu entre Massena e Wellington, quando se encontraram em Paris, durante um jantar oferecido por Soult, no principio de 1815.
Então, os dois antigos rivais conversaram sobre as Linhas de Torres Vedras, ironizando Massena que Wellington lhe estava a dever um jantar “pois quase me matou à fome”, ao que o irlandês retorquiu, sorrindo, que devia ser o marechal francês a pagar “pois impediu-me de dormir”. Seguiu-se depois uma animada conversa sobre as estratégias de ambos durante a Guerra Peninsular (pp.246 e 247).
A última parte do livro é dedicada a uma descrição da viagem que o autor do livro fez à Península Ibérica, pelos lugares onde decorreram os principais acontecimentos narrados, com indicações preciosas para os viajantes.
Em Torres Vedras visitou o castelo e o forte de S. Vicente, recomendando aos visitantes para deambularem “pelas ruelas que sobem para o castelo” (p. 265).
Na sua visita aos últimos vestígios das linhas, o autor queixa-se de, em Portugal, “ao contrário de muitos países, os locais de interesse histórico nem sempre são adequadamente assinalados – o que é uma pena, dada a abundância de sítios interessantes” (p.266).
O livro inclui ainda uma detalhada cronologia do período, uma interessante documentação iconográfica (mapas, gravuras e fotografias), e uma vasta e completa bibliografia, de origem britânica, sobre estes acontecimentos.
Um livro de leitura obrigatória.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

A Fábula de Bush


Neste último dia da era Bush, recordo aqui uma das mais interessantes obras de Banda Desenhada publicadas recentemente.
Refiro-me á “Fábula de Bagdad”, da autoria do escritor californiano Brian K. Vaughan e do desenhador quebequiano Niko Henrichon.
Esta obra, editada entre nós pela BDMania, em Dezembro de 2007,apenas um ano depois da sua edição original norte-americana, baseia-se num acontecimento verídico, acontecido em Abril de 2003 quando, na sequência dos bombardeamentos norte-americanos a Bagdad, se deu a fuga de um bando de leões do zoo daquela cidade martirizada.
A história desenrola-se num ambiente de autêntico pavor provocado por um clima de guerra total.
O grupo de leões encontra a sua libertação graça à destruição das grades das suas jaulas e dos muros do zoo, destruídos pelos bombardeamentos norte-americanos, percorrendo as ruas destruídas de Bagdad, num cenário de autêntico pesadelo.
Paradoxalmente acabam todos mortos por soldados americanos.
A “Fábula de Bagdad” questiona a legitimidade de impor a liberdade pela força das armas, revelando toda a inutilidade da guerra.
Uma obra a ler ou reler, neste dia que marca o fim de uma das épocas históricas mais pavorosas do mundo ocidental.
Uma verdadeira “Fábula da Era Bush”.