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quinta-feira, 5 de março de 2026

O Público faz anos.


Fabulosa a página de hoje do jornal "Público", um número de aniversário dirigido, por um dia, por Souto Moura..

Aos 36 anos o jornal voltou a recuperar o elan dos primeiros tempos.

Comprava-o todos os dias, desde o primeiro número, até aparecer um tal David Dinis, que quase destrui o jornal. Felizmente foi despachado para o "Expreso", que é onde ele está bem.

Infelizmente, desde essa altura, deixei de o comprar diáriamente e agora só o compro aos fins-de-semana ou quando há alguma coisa importante a acontecer, como aconteceu hoje.

Longa vida ao melhor jornal e à melhor imprensa de Portugal, é o que eu desejo ao "Público".

sexta-feira, 15 de março de 2024

O Respigo da Semana :

 

O milhão do contra

Por Miguel Esteves Cardoso

“Com que então o Chega obteve um milhão de votos?

Ficámos assim a saber que há um milhão de portugueses que são do contra.

É deprimente? É. Um milhão é muita gente. Mas é um erro tentar apanhar esses votos. São votos do contra. São votos anti-sistema. Só passarão para o PSD ou para o PS no dia em que o PSD ou o PS se transformem em partidos do contra. Que será nunca.

Para o milhão de portugueses que votou no Chega — e para o próprio Chega – os votos obtidos pelo Chega foram uma desilusão e uma derrota.

Queriam ganhar as eleições. Ou ser o segundo maior partido. Não queriam ter menos de 25 por cento. Queriam ir para o governo. Não queriam ficar de fora.

Não tiveram nem 25 nem 20 por cento: só tiveram 18. Desses 18, muitos são abstencionistas que, insatisfeitos com o mau resultado, voltarão para a abstenção e tão depressa não cairão noutra.

A verdade é que o Chega nunca mais terá uma oportunidade como esta. Ver-se-á aflito para segurar o milhão do contra.

São estas as contas que os partidos com inveja dos votos do Chega têm de fazer. É escusado ir atrás dos eleitores do contra. Eles não estão apenas zangados: são mesmo do contra. E agora estão mais zangados ainda: votaram para ganhar. E perderam.

Contra os 20 por cento do Chega, há os 80 por cento que votaram nos partidos que são contra o Chega. Todos os votos em partidos que não são o Chega são votos contra o Chega. E todos os votos do Chega são votos contra os outros partidos.

Contra esses 20 por cento, há os 60 por cento da AD e do PS: o bipartidarismo vale três vezes mais. A moderação vale três vezes mais. O centro vale três vezes mais.

Imagine-se se a AD e o PS se recusavam a formar governo e calhasse ao Chega tentar formar governo. Que poderia fazer um partido só com um milhão de votos, isolado e odiado pelos outros partidos e pelos outros eleitores?

Quem é que poderia querer aliar-se a um tal governo? Ninguém.

Os partidos do contra só sabem ser do contra. Não servem para mais nada”.

(in Público de 12 de Março de 2024)

quarta-feira, 23 de março de 2022

OS VENCEDORES DESTA E DE TODAS AS GUERRAS


Quando uma guerra começa, não se sabe como acaba nem quem a vai vencer.

Mas existem, à partida, dois “vencedores”, a desinformação e os “candongueiros” de todo o tipo.

Aqui, em Torres Vedras, até existia um bairro, contruído depois da 2ª Guerra, que era popularmente conhecido pelo “bairro da candonga”, porque, dizia-se, tinha sido construído com o lucro daqueles que beneficiaram com a especulação e o mercado negro provocado pela guerra e fortalecido pela “neutralidade” portuguesa.

Por isso, o título de primeira página da edição de hoje do jornal Público, acima reproduzido, não nos surpreende.

Percebe-se que há muita gente a lucrar com esta guerra ilegal, desencadeada por Putin, e não são apenas os oligarcas russos nem a igreja ortodoxa russa.

Por detrás de uma guerra há sempre um lado obscuro, uma mistura de grandes grupos financeiros e negociantes de armas.

Estes últimos, a par dos cartéis de droga e de especuladores de todo o tipo, beneficiando da manutenção de paraísos fiscais, são o rosto invisível do tão apregoado “mercado” que domina o sector financeiro mundial.

Aliás, ainda há dias atrás fomos “surpreendidos” (??) com a noticia, segundo a qual, os grandes fornecedores de armamento ao exército invasor de Putin foram vários países da União Europeias, com destaque para a Alemanha e a França, e a própria Ucrânia foi outro dos fornecedores.

Se alguma lição devemos tirar desta guerra, e se algumas consequências devem resultar da mesma, é que se tomem medidas para combater o tráfico de armas e a especulação financeira, começando por acabar com os paraísos fiscais.

Para além das responsabilidades assacadas a Putin e ao seu governo pela destruição provocada por esta guerra, a reconstrução da Ucrânia e as indemnizações devidas ao povo que sofre com esta guerra devem ser assacadas, não só à Rússia, mas a todos os especuladores que estão a lucrar com a guerra, que devem ser chamados ao tribunal penal internacional e a entregar os lucros obtidos com a guerra na reconstrução e nas indemnizações às famílias de ucranianos mortos, feridos ou que perderam todos os seus bens.

Uma segunda medida é acabar, de uma vez por todas, com os paraísos fiscais, a especulação financeira e o negócio ilegal de armamento, que é o que alimenta os oligarcas de todo o mundo.

 Vão ver que, se o fizerem, depois de terminar esta guerra criminosa, talvez se consiga construir um mundo mais pacífico e menos desigual.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

O Fim do "Inimigo Público"

 

A desculpa é a de sempre. Dificuldades económicas, novas prioridades, alterações editoriais...

Enfim...o blá! blá" do costume par justificar o silenciar de vozes incómodas, irreverentes e independentes.

Porque será que, em Portugal, quando chega o aperto financeiro, muitas vezes mera desculpa para uma censura disfarçada, é sempre o elo mais fraco da cultura, da criatividade e da inovação que tem de ser descartado?

De facto, durante 18 anos, o "Inimigo Público", suplemento humorístico do Público, incomodou muita gente.

A desculpa das dificuldades financeiras para acabar com o suplemento das 6ªas feiras, não convence.

Se o problema é finaceiro, talvez pudessem começar por cortar no excesso opinativo, algum mera propaganda política ou obedecendo a agendas de carreirismo pessoal.

O humor em Portugal tem sido sempre incómodo para todos os poderes.

Noutros tempos, em condições mais difícies, enfrentando uma censura real, e não a actual censura disfarçada, recordamo-nos da coragem editorial do "Diário de Lisboa", com a edição de "A Mosca", um dos mais criativos suplementos humoristicos.

Mas esse era um tempo, apesar da censura e da PIDE, em que existia um jornalismo feito por jornalistas e onde o trabalho destes era respeitado e influente na linha editorials, ao contrário dos nossos dias em que os jornalistas se têm de submeter a editores que, muitas vezes, são meros  mercenários ao serviço do poder económico ou político.

Ficam as boas recordações das leituras do "Inimigo Público" ao longo dos últimos 18 anos.

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Pôr a “Ordem” [dos médicos] na ordem!



Reminiscências medievais, combatidas pelo liberalismo novecentista, recuperadas pelo corporativismo fascista e pelo Estado Novo, as Ordens profissionais são hoje poderosas e elitistas organizações que vivem à margem de um desejado relacionamento liberal e democrático de uma sociedade aberta .

Se algumas se adaptaram aos tempos modernos e à democracia liberal, prestando importantes contributos na investigação científica e na formação profissional, como tem acontecido, por exemplo, com a Ordem dos Psicólogos, outras mantiveram o seu estatuto de oposição não formal ao Estrado de Direito Democrático, funcionando como meros poderes  de influência subterrânea, à margem do poder democrático, substituindo-se à acção sindical,  e apêndices ao serviço  não formal de ideologias e facções políticas reacionárias.

É neste último caso que se enquadram, entre outras menos conhecidas ou actualmente mais silenciosas, a Ordem dos Enfermeiros e a Ordem dos Médicos.

Esta última, de forma oportunista, à “boleia” da grave crise sanitária que atravessamos, tem-se colocado diariamente ao serviço de uma comunicação social ávida de escândalos, também ela maioritariamente controlada por editores e directores “formados” na propaganda “austoritária” e na defesa do “ir além da Troika”, ressabiados com a “geringonça”.

É caso para perguntar onde estavam essas “Ordens” quando um primeiro-ministro convidou jovens médicos e enfermeiros a emigrar, ou quando um governo, para “ir além da Troika”, tratou de descapitalizar e enfraquecer todas as estruturas do Serviço Nacional de Saúde.

Também não deixa de ser contraditório que a Ordem dos Médicos, pela voz do seu bastonário, passe a vida a queixar-se da falta de recursos humanos, enquanto, por outro lado, impede a abertura de mais vagas para a formação de médicos, situação, aliás, comum à Ordem dos Enfermeiros.

Finalmente, assistimos à atitude corajosa de um grupo de médicos, que também pertencendo à Ordem dos Médicos, porque a isso, de forma não democrática, são obrigados para exercerem a sua profissão, recordam que o bastonário não fala por todos os médicos, dividindo a classe, em vez de ser o denominador comum, e usando a sua influência para fazer politica partidária (juntamente, acrescentamos nós, com um dos sindicatos médicos, o SIM, e a Associação dos médicos de saúde pública, instituições controladas pelas ala mais retrógrada do PSD, a do “cavaquismo-passos-coelhista”).

Se a célebre e propagada carta do bastonário e ex-bastonário à ministra da Saúde mereceram grande destaque na comunicação social e acolhimento no Palácio de Belém, não foi, infelizmente, o caso da Carta destes médicos, publicada hà dois dias nas páginas do Público, jornal que nem sequer se referiu a esse importante documento na sua primeira página, como o fez com a referida carta da “Ordem”.

Para colmatar a falta de pluralismo e sectarismo ideológico e dos “dois pesos e duas medidas”, cada vez mais evidente na comunicação social, mesmo na dita de “referência”, tentamos contribuir, junto da nossa modesta  audiência, para a divulgação desse importante documento, para que não cai no esquecimento, publicando-o integralmente:

“Em resposta à carta aberta à ministra da Saúde, subscrita por bastonários da Ordem dos Médicos

 In Público de  27 de Outubro de 2020

A carta dirigida à ministra da Saúde pelo bastonário da Ordem dos Médicos (OM) e cinco dos seus antecessores enquadra-se num movimento mais amplo de intervenções de “influenciadores” nos meios da comunicação social e em meios universitários, todas com a mesma orientação e a mesma substância.

“Começam por enunciar dificuldades reais do SNS, sobretudo derivadas da pandemia, ampliam-nas em tom alarmista e daí passam ao ataque político à ministra. Finalmente, e para culminar, chegam ao objetivo mercantil: perante tal “caos”, “desorganização” e “risco” há que recorrer aos serviços privados.

“Poderá haver médicos concordantes com essa carta, por coincidirem com os seus objetivos. Nós não. Não nos sentimos representados.

“A Ordem dos Médicos é uma entidade de direito público, de inscrição obrigatória. Portanto, as posições expressas pelos seus órgãos eleitos têm que corresponder ao máximo denominador comum.

“Todos os cidadãos têm o direito de, em grupo ou isoladamente, expressarem as suas opiniões. O que não é lícito é que a natural credibilidade da Ordem dos Médicos seja mobilizada para as posições pessoais de ex-bastonários e do seu bastonário atual.

“Descrevendo um ambiente de perigo iminente, vaticinando a falência do SNS e amplificando as suas dificuldades, desassossegando e perturbando a saúde mental das famílias e, sobretudo, das pessoas mais idosas e mais isoladas.

““(...) não há tragédia maior do que esta”, diz a carta dos (ex-)bastonários. É bom que se tenha respeito pelas verdadeiras tragédias. É bom que se contribua para a perceção de risco de forma racional e transmitindo a serenidade necessária a quem de facto tem de fazer escolhas todos os dias e tomar as precauções para prevenir o contágio. O alarme transmite pânico e bloqueia a capacidade de decidir racionalmente.

Sabemos que o financiamento para o Serviço Nacional de Saúde tem sido curto ao longo de anos e que os seus custos superam sempre os valores orçamentados. Sabemos também que o Orçamento do Estado para 2021 é insuficiente no que respeita à saúde e a única atenuante é que haverá outra perspetiva quando se discriminar a utilização do Fundo de Recuperação Europeu nesta área. Sabemos também que os concursos para médicos ficam com vagas por preencher porque os salários são baixos, porque a carreira não é atrativa, porque há um excesso de horas extraordinárias e porque é maior a recompensa remuneratória nos estabelecimentos privados.

“A resposta exemplar do SNS na primeira vaga não foi só devida à abnegação de médicos e outros profissionais. Deveu-se também à estrutura e ao espírito do SNS. Diz a carta: “É vital que haja uma mudança imediata de rumo na estratégia do SNS. O SNS está novamente exposto a uma disrupção grave no seu funcionamento, na altura em que ainda nem sequer foi capaz de recuperar o fortíssimo abalo sofrido ao longo dos últimos meses”. Era este também o tom de mais uma intervenção do atual bastonário da OM no jornal da RTP-2, às 21h30 de dia 21 de outubro.

“Curiosamente, cerca de 1 hora depois, na Grande Entrevista da RTP3, o diretor dos Cuidados Intensivos do Hospital de São João, Nelson Pereira, descrevia que logo a seguir ao confinamento tinham estado a preparar tudo para uma eventual segunda vaga e que, tendo recuperado de tal modo as listas de espera não-covid, até tinham ultrapassado a produção do período homólogo do ano anterior.

“Sabe-se que o País é heterogéneo. Não podemos, por exemplo, generalizar as dificuldades, por razões locais, do Vale do Sousa ou de Lisboa e Vale do Tejo para a região Centro onde, durante o ano 2020, têm sido feitos mais rastreios e vacinações que no ano anterior.

“Mas a carta e os “influenciadores” são claros no que propugnam: “Os setores sociais e privados podem ser mais envolvidos no esforço Covid e não-Covid para que a capacidade instalada seja efetivamente usada em vez de desperdiçada” e “(...) o momento do SNS liderar uma resposta global, envolvendo (...) os setores privado e social”.  Muito simplesmente, tratar-se-ia de levar o SNS a comprar (ainda mais) serviços aos estabelecimentos privados, aqueles que, no início da crise, praticamente fecharam, logo disseram que não recebiam doentes com covid-19 e enviaram grávidas positivas para os serviços públicos.

“Mas será que o SNS não está mesmo a utilizar privados em suplementação dos seus serviços internos?

“Bem pelo contrário. De acordo com o Jornal de Negócios de 26 de agosto, 41% do orçamento do SNS é para pagar a privados. Em 2018, últimos números a que temos acesso, 6657,7 milhões de euros foram para comprar serviços a privados (exames auxiliares de diagnóstico, hemodiálise, fisioterapia), num total de custos de 10.909,3 milhões de euros (Relatório e Contas, 2018 - Processo de Consolidação de Contas). E, no momento em que o SNS está a fazer cerca de 20.000 testes diários de RT-PCR ao SARS-COV-2, 55% dos quais nos privados, em muito aumentou (600 mil euros/dia) o fluxo financeiro que sai do Estado para o setor privado.

“A concretização da proposta de operacionalização do chamado “sistema” de saúde, com “normalização” da compra de serviços de saúde a prestadores privados, subverteria o conceito constitucional do Serviço Nacional de Saúde. Com esta proposta, só aumentariam as insuficiências que se apontam ao SNS, bem como o que os portugueses teriam de pagar pela sua saúde.

“O sentido da melhoria do SNS é exatamente o contrário: reforço da capacidade interna, para melhor servir a população em todas as necessidades de saúde e não apenas nas que dão lucro.

Nós, médicos que aqui assinamos, não nos sentimos representados por esta posição dos (ex-)bastonários”.

Aguinaldo Cabral, Álvaro Brás de Almeida, Ana Abel, Ana Jorge, Ana Raposo Marques, António Jorge Andrade, António Faria Vaz, António Rodrigues, Augusto Goulão, Bruno Maia, Carlos França, Carlos Silva Santos, Carlos Vasconcelos, Casimiro Menezes, Filipe Rosas, Graciela Simões, Henrique Delgado Martins, Isabel do Carmo, Jaime Mendes, João Álvaro Correia da Cunha, João Goulão. João Manuel Valente, João Marques Proença, João Oliveira, João Rodrigues, Joaquim Figueiredo Lima, José Labareda, José Manuel Boavida, José Manuel Braz Nogueira, José Ponte, Júlia Duarte, Luiz Gamito, Manuela Silva, Maria Deolinda Barata, Maria Isabel Loureiro, Mário Pádua, Patrícia Alves, Pedro Miguéis, Pedro Paulo Mendes, Rogério Palma Rodrigues, Sara Proença.

quinta-feira, 2 de julho de 2020

O respigo da Semana - "Desesperadamente procurando bodes expiatórios" Por Ana Sá Lopes



Desesperadamente procurando bodes expiatórios

Por Ana Sá Lopes

in Editorial do Público de 1 de Julho de 2020

“Nunca, mas nunca, se tinha visto Fernando Medina tão severo, tão rude, tão ríspido, tão áspero. Foi na TVI24, na segunda-feira à noite, e é uma peça política de inegável importância. Qual foi o alvo relativamente ao qual Fernando Medina foi agreste de maneira nunca antes vista? Foi o Governo, dirigido pelo seu pai político, António Costa, que o escolheu para sucessor na CML.

“Ao pedir a cabeça das “autoridades da saúde” por causa dos números de Lisboa, Medina está a pôr em causa o seu Governo. Ele sabe-o, é inteligente, mas talvez não tão inteligente como o homem de quem herdou a câmara: António Costa, esse, sim, o cúmulo da sagacidade política, se houvesse cúmulo para isso. Ele que, antes desta intervenção de Medina a pedir demissões na saúde, se irritou na reunião do Infarmed da semana passada, pondo em causa a ministra Marta Temido, que, de resto, não desmentiu a cena.

“Está António Costa, com o apoio de Fernando Medina, a querer arranjar bodes expiatórios para o caso dos números de Lisboa – um desastre para aquele que outrora foi um país-modelo no combate à covid? A oposição colaborante de Rui Rio já identificou o problema: é Graça Freitas. Para Rio, não é Marta, é Graça. Parece que se tem agora que arranjar um bode expiatório. Se não é dos testes a mais, se não é da construção civil, se não é dos transportes cheios, é da Marta (ou da Graça).

“As mulheres que aguentaram os piores dias da pandemia que continuem a aguentar (ainda por cima, já se sabe, são genericamente chatas e não percebem um avo de cerimónias comemorativas da conquista da final da Champions, que obviamente não se inclui naquilo que Fernando Medina tão bem criticou sobre sinais errados do desconfinamento). Ah, Marta estava lá – a culpa é dela. Medina também, mas isso não interessa.

“Fernando Medina não é um comentador político qualquer. É presidente da Câmara de Lisboa, presidente da Área Metropolitana de Lisboa, co-responsável pelo que se passa no terreno, incluindo os maus números. Tem poder, a menos que o devolva nos momentos mais infelizes, o que parece ser o caso.

“Não é bonito de se ver. Quando a oposição foi tão saudada pela sua prestação durante a crise epidémica – e, apesar de algum “desconfinamento”, não tem posto o governo em causa –que seja o PS e alguns dos seus principais dirigentes a dar estes tristes espectáculos, mete dó".

terça-feira, 28 de abril de 2020

Esta é a “solidariedade” das Instituições Europeias !!: Quando “O crime compensa”:



A notícia devia ter merecido aberturas de telejornal e títulos de primeira página.

Infelizmente passou quase despercebida numa página interior ( a página 30…!!) do jornal “Público”  da passada 6ª feira de 24 de Abril, inserida na crónica “Esquinas” da responsabilidade do jornalista António Rodrigues.

A notícia é bem reveladora do tipo de ajuda que se pode esperar por parte das Instituições Europeias e da hipocrisia da retórica dos principais representantes dessas instituições.

Mas antes, convém transcrever esse texto, inserido naquela crónica, subintitulado “O crime compensa”:

“A União Europeia vai dar à Hungria e Polónia, no âmbito da Iniciativa de Investimento de Resposta ao Coronavírus, muito mais dinheiro que à Itália e Espanha, os Estados-membros mais afectados pela doença.
“Os Governos de Viktor Orbán e de Mateusz Morawiecki que tudo têm feito para corroer as suas democracias e os alicerces da Europa comunitária, vão ser assim recompensados com fatias maiores dos 37 mil milhões de euros, mesmo que o primeiro tenha usado a pandemia para passar a governar por decreto como o “ditadorzinho” que Jean-Claude Juncker lhe chamou um dia e o segundo tenha insistido em levar por diante as eleições presidenciais de 10 de Maio, pondo todas as pessoas a votar por correio, só porque as sondagens são mais favoráveis agora ao Partido da Lei e Justiça de Jaroslaw Kaczynszki.
“ Pelos cálculos feitos pela European Stability Iniative, citados esta semana pelo New York Times, Itália, que tem mais de 187 mil casos e 25 mil mortos pela pandemia, tem direito a 2,3 mil milhões de euros, ou 0,1% do seu PIB, enquanto a Hungria, com cerca de 2300 casos e 239 mortos, consegue 5,6 mil milhões de euros, equivalente a 3,9% do seu PIB. A Espanha, o país europeu com mais casos – acima de 213 mil –, consegue uma verba que equivale apenas a 0,3 do seu PIB”.

Pouco podemos acrescentar a essa triste notícia.

Vê-se assim, por um lado a desigualdade de tratamento que se adivinha no futuro, quando for necessário relançar a economia e apoiar os cidadãos europeus das consequências da crise, onde vai pesar a teoria do “espaço vital” alemão, a xenofobia dos países nórdicos e a vontade de governos agiotas como o  holandês.

A Hungria e a Polónia são mais importantes para esses interesses do que a situação dos países do centro e do sul.

Por outro lado, revela-se naquela atitude, toda a plenitude da retórica hipócrita dos líderes europeus, quando, por um lado vêm com o discurso “politicamente correcto” contra a deriva antidemocrática na Polónia e na Hungria e, com a outra mão, recompensam esses países.

Como diz o articulista, o crime compensa.

Assim se começa a ver como vai funcionar a tão apregoada “solidariedade” europeia!

terça-feira, 24 de março de 2020

Morreu Albert Uderzo, o "pai" de Astérix

Morreu Albert Uderzo, o desenhador e criador, em 1959,  juntamente com René Goscinny (falecido em 1977), da série Astérix.

Tinha 92 anos, e morreu de crise cardiaca, na sua casa em Neuilly-Sur-Seine, em França.

Recordamos AQUI a sua obra.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Os Títulos manipulados do Jornal "Público"

Tal como acontece desde há muito, noutro jornal dito de "referência", o "Expresso", nos últimos tempos, outro jornal  de "referência", o "Público",  usa e abusa da manipulação de títulos de primeira página, com nítida má fé, e meias verdades, apenas com o intuito de provocar reacções de tipo populista.

É o que se chama "descer ao nível do "Correio da Manhã"!

Na edição de hoje do Público, o alvo, mais uma vez, diga-se de passagem, é a classe dos professores.

Não admira que um dos jornais que mais apoiou a acção da antiga ministra Maria de Lurdes Rodrigues contra os professores  e endeusou os malfadados e tendenciosos rakings , continue a usar e abusar da má fé.

O título que acima reproduzimos é um abusivo uso de uma meia verdade.

A intenção é dar a ideia que os professores forma beneficiados com uma subida de escalão  apenas num   ano, alimentando todo o tipo de reacções populistas que tanto têm contribuído para desprestigiar uma classe fundamental para o futuro do país.

Aliás, já se começa a ver o resultado desse tipo de campanhas, alimentadas por comentadores e políticos vários, como o dramático envelhecimento de um grupo profissional e a recusa dos mais novos em abraçar tão nobre actividade.

A escolha de um título manipulador e  de má fé como aquele  esquece que esse escalão foi criado há cerca de dez anos, sem que, ao longo de quase outros dez anos, nenhum professor tivesse beneficiado de uma subido de escalão, apesar de ter de se submeter a avaliação interna e frequentar regularmente acções de formação obrigatórias.

Para ser correcto, o título devia dizer que "ao fim de quase dez anos, finalmente alguns professores, com mais experiência e depois de frequentarem dezenas de hora de formação, paga do seu bolso e frequentada nas suas horas livres, começaram a aceder ao escalão a que têm direito"!.

Mas a intenção de grande parte do jornalismo dito de referência não é informar, mas fazer politica faccioso, servindo os interesses económicos e financeiros que os sustentam.

Depois admiram-se de serem "batidos" pelas redes sociais!

segunda-feira, 22 de julho de 2019

Ainda a “Ignóbil porcaria” de Mª de Fátima Bonifácio: a fase dos “limpa fundos”.



Quem tem ou conhece amigos com aquários, sabe bem o que são os “limpa fundos”.

São uns peixinhos que se alimentam e têm como função limpar a porcaria que os outros peixes fazem e que se vai acumulando no fundo do aquário.

Metaforicamente, nas últimas semanas temos visto a entrar em acção  os “limpa fundos”  para limpar o rasto de “porcaria” deixado pelas opiniões racistas da “catedrática” Bonifácio.

Não voltei ao assunto na semana passada porque não quis conspurcar uma semana marcada por um acontecimento tão nobre como o cinquentenário da chegada à lua com a referência a tão ignóbil criatura. Estive mesmo para não voltar ao assunto, mas como as ondas de choque daquela “ignóbil porcaria” continuam a ecoar na comunicação social, não quis deixar de dar o meu humilda contributo para o “debate”, reforçando o que na altura escrevi sobre o tema.

Embora, com a exclusão de Vasco Pulido Valente,  do bando do "Observador" do PNR, ninguém se tenha atrevido a defender os argumentos da dita senhora, tenho assistido a uma tentativa de branquear, não o que ela disse, mas o que ela representa para uma certa direita portuguesa.

É bom não esquecer que ela foi uma das principais apoiantes de Passos Coelho e Cavaco, uma espécie de legitimadora moral e intelectual das medidas do tempo da troika e da ideologia neoliberal portuguesa por aqueles ensaiada, com as resultado sociais conhecidos.

Começando todos por se demarcar do tal artigo, tentam depois desculpá-lo pelo feitio provocador de Bonifácio,  em defesa de tão tenebrosa figura.

Uns acham que as afirmações racistas e as bacoradas históricas do dito artigo (já referidas por vários intervenientes e por nós próprios em post anterior) foram um mero lapso ou uma mera provocação, como se o que ela escreveu nesse artigo não fosse o corolário lógico de todo o pensamento politico, intelectualmente “bem” elaborado,  de Bonifácio, revelado aliás noutras intervenções públicas em artigos de opinião ou em debates televisivos.

De facto, Fátima Bonifácio sabe o que escreveu e concorda com o que escreveu, não foi um simples lapso. Dizer que ela não queria escrever o que escreveu é mesmo um atentado contra a reconhecida inteligência da dita “catedrática”. Pelo menos reconheça-se a coragem de Fátima Bonifácio, coragem que não abunda muito entre os seus apaniguados e seguidores que, lá no fundo, concordam com o que ela escreveu, e o dizem nos bastidores, mas nãos se atrevem a escrevê-lo o dize-lo em público.

Outra forma de “limpar o fundo” da porcaria de Fátima Bonifácio é desviar a atenção do conteúdo daquele artigo.

Que o objectivo era nobre, dizem, o de questionar a questão da quotas e que aquela afirmações racistas foram um mero berloque a “enfeitar” a “intenção” principal do mesmo artigo.

Claro que, também nós questionamos a questão das quotas, embora se deve reconhecer que, em certas circunstâncias é a única forma de combater o preconceito, seja ele de género ou de “raça”. Toda a gente sabe que, em mais de 90% dos casos, se se apresentarem um cigano, um negro e um branco, em igualdade de circunstâncias de formação, sociais e económicas, para concorrerem a um emprego, a um lugar na Universidade ou a um simples aluguer de casa, e havendo lugar apenas para um, o branco é o escolhido.

Nesse tipo de situações parece-me que se justifica a imposição de um sistema de quotas.

Já noutra situação, onde apareça um branco com melhor nota e maior experiência, concorrendo contra outros brancos, ou negros, ou ciganos, ou mulheres,  apresentando estes menor formação ou experiência, o sistema de quotas torna-se injusto.

Ao contrário daqueles que desviam a atenção para a temática das quotas no dito artigo, o racismo revelado por Bonifácio não foi um assunto secundário. Para nós a questão das quotas é que foi pretexto para as afirmações boçais e racistas da dita “catedrática”.

Outros desviam a discussão para a questão da liberdade de opinião, mesmo quando esta é abjecta (leia-se, a propósito, AQUI a forma, meio irónica, como o insuspeito Pedro Marques Lopes desmascara esta situação, nas páginas do Diário de Notícias deste fim-de-semana).

Claro que afirmações boçais, racistas e ignorantes como as de Fátima Bonifácio são o preço a apagar pela liberdade de informação.

Mas Fátima Bonifácio tem lugar cativo em colunas de opinião e em debates televisivos devido ao seu “prestígio” como historiadora e, neste artigo, Fátima Bonifácio atropelou os mais elementares princípios da sua profissão, deturpando a própria História da Declaração dos Direitos do Homem, do Cristianismo e da Civilização Ocidental.
(As "Boas" companhias de Fátima Bonifácio)

Se era o seu prestígio como historiadora que lhe deu lugar como “fazedora” de opinião, o artigo em causa borrou toda a pintura e a suas opiniões não podem ter, a partir de agora, mais peso e importância que os mais reles argumentos que pululam nas redes sociais, estando ao nível de um Trump ou de um Bolsonero….a menos que a própria se venha retratar das ditas afirmações!

Mas, se Maria de Fátima Bonifácio tem o “direito” (discutível, basta ler a lei de imprensa, a Constituição Portuguesa, a legislação sobre o assunto ou mesmo a Declaração Universal dos Direitos do Homem) de ofender comunidades inteiras, porque é que reagir às opiniões da dita senhora passa a ser uma “condenável acto de ataque pessoal” ou uma tentativa de atentar contra ao direito de opinião?

Ou seja, umas opiniões têm o direito de se exprimir, outras não passam de “linchamentos públicos” de uma alta dignatária da Universidade Portuguesa.

Se há um discurso que legitima linchamentos públicos de minorias é o de Maria de Fátima Bonifácio.

sexta-feira, 24 de maio de 2019

Contra a demagogia : em defesa de Carlos Miguel


A Demagogia populista anda por aí. 

Desta vez foi o jornal "Público" a "borrar o pé", tentando insinuar que uma edição de autor, apoiada pelo município de Torres Vedras com a compra de metade da edição, prefigurava uma situação de favorecimento ilícito. 

Em defesa de Carlos Miguel e denunciando o carácter especulativo do título (mais do que da notícia em si) AQUI publicámos o que pensamos sobre o tema.

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

15 anos de Inimigo Público

Completahoje 15 anos a edição do suplemento humorístico semanal editado pelo jornal "Público".

O humor politico é uma das características mais marcantes da história da Imprensa Portuguesa desde o século XIX, tendo Rafael Bordalo Pinheiro com "pai" fundador.

Essa característica tem sido mantida muito graças a esse excelente suplemento jornalístico.

Hoje, no tempo das "fake news" é por vezes difícil separar o que é verdadeiro do que é falso e este suplemento muito tem contribuído para desmistificar esta realidade.

Confesso que, muitas vezes, quando passo das páginas do "Inimigo Público" para as páginas "sérias" levo algum tempo a perceber que o absurdo de muitas situações que leio já não fazem parte daquelas páginas.

Esperamos que o "Inimigo Público" continue a desmistificar, com o humor corrosivo e inteligente que o caracteriza, situações da nossa realidade. Temas não faltam.

LONGA VIDA AOS "CAMARADAS" DO "INIMIGO PÚBLICO.!

terça-feira, 24 de julho de 2018

Um título ignóbil!



Pensava que tinha comprado o “Público”. Afinal comprei o “Correio da Manha” disfarçado do jornal “Público”.

Foi essa a impressão com que fiquei ao ler o título de primeira página da edição de ontem, confrontando-a com a entrevista no interior das suas páginas.

De facto, todo o título é um programa de desinformação e de aviltamento sobre uma classe profissional.

Ao ler a entrevista não vejo nela a intenção desse título, por parte do entrevistado.

Quem ler a primeira página fica com a idéia de um  Ministro das Finanças a tentar rebaixar uma classe profissional.

Ou seja, fica a idéia que o Ministro das Finanças procura desvalorizar os professores, recorrendo à velha atitude “passos-coelhista” de atirar classes profissionais umas como outras, confrontando os “privilégios” de uns com a situação da “maioria”.

Ao ler o título, a idéia que fica é a de os professores querem ser tratados como privilegiados, atitude à qual o Ministro das Finanças responde com um “Orçamento que é para todos os portugueses”.

E foi isto que esteve na origem de mais um dia de comentários para desacreditar toda uma classe profissional, motivando até a interrupção das férias algarvias de Miguel Sousa Tavares, que se deu ao “incómodo” de se deslocar aos estúdios em Faro da SIC para mais uma sessão de “malhação” no seu ódio de estimação, os professores, atitude que provavelmente já lhe pagou essas mesmas férias.

Contudo, quem ler a entrevista, percebe que aquele sentido que o Público pretende dar no título de primeira página não é, de todo, o sentido dado pelo Ministro na entrevista.

Percebe-se que a orientação da entrevista procura justificar aquele título, como se este já tivesse escrito antes da entrevista, e agora fosse necessário encontrar justificação para o mesmo.

Numa entrevista sobre o próximo Orçamento, as primeiras sete (7!!!) perguntas centram-se na questão da recuperação do tempo de serviço dos professores. A todas elas o Ministro responde com a sua conhecida cautela, remetendo para a abertura de negociações e respondendo, obviamente, com a idéia de um Orçamento que tem de ser pensado para o conjunto dos portugueses, mas sem negar a especificidade de cada situação.

Tanto assim foi que os jornalistas, não conseguindo justificar o título que parecia previamente escolhido, acabam por reconhecer que “Portanto, o tema dos professores não é determinante no quadro do OE?”, respondendo o Ministro que “O OE é um exercício complexo e para todos os portugueses (…). Ninguém iria entender que não fizéssemos exactamente isto , portanto, não gostaria de singularizar num só tópico”, preocupação que continua a ser manifestada quando mais à frente se fala de salários na Função Pública, aumento de pensões ou investimento no Serviço Nacional de Saúde.

Ou seja, não se percebe aquele título, a não ser numa tentativa desonesta e forçada de virar o público contra os professores.

Na lógica de manipulação de informação daquele título, este podia ser: “Médico? “O OE é para todos os portugueses”…ou “Pensionistas? “ O OE é para todos os portugueses”…ou “Funcionários Públicos? “O OE é para todos os portugueses”….e tudo o mais que a manipulação jornalística do ´Público” do Dinis quisesse imaginar…

Uma vergonha…

Leitor desde o primeiro número daquele jornal, tenho-me sentido cada vez mais defraudado desde que o jornal foi tomado pela gente o “Observador”, como o David Dinis e o Diogo Queirós de Andrade…felizmente estes vão deixar o jornal, esperando que o “Público” retome rapidamente a sua qualidade como jornal de referência e credível.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

A “correiodamanhãzação” da imprensa de “referência”.


Os títulos da “Expresso”, ao estilo do “Correio da Manhã”, mas para gente “culta” e “séria”, já não me espantam.

São a sua imagem de marca de há muitos anos para cá e foram um dos motivos, como um dia expliquei AQUi, que me levaram a deixar de comprar um semanário que eu segui desde o seu primeiro número.

Contudo este fim-de-semana foi longe de mais.

Confesso que ao ler este titulo, pensei que o “Expresso”  tinha encontrado dezenas ou mesmo centenas de mortos que não tinham sido declarados, aliás em linha como muitas das “fake news” que circulam nas “redes sociais” e que, ao que parece, estão na moda e já servem de “fonte” a esse jornal.

Afinal a discussão anda à volta de …uma (UMA!!!!!) presumível morte de “diferença”.

Que o “Expresso” tenha aderido ao estilo das “feke news” já é grave, mas que ande a explorar a tragédia de Pedrogão Grande da forma como o fez, raia já a indignidade e uma grande falta de respeito pelas vítimas dessa tragédia.

Mas o fim-de-semana não se ficou por este caso.

Outros jornal de referência, o jornal Público, enveredou pelo mesmo estilo, pela forma como, ontem, deu destaque , de uma forma que raia a pura manipulação, a uma carta, aliás bastante bem escrita e onde se apontam preocupações legítimas, mas da qual aquele mesmo jornal descontextualiza uma passagem, para tentar forçar, nessa carta, um ataque à “geringonça”.



No título lê-se: “O Estado Falhou. A Nação não existiu”, com a intensão que, numa leitura apressada, se lei nas entrelinhas: “A Ministra da Administração Interna Falhou.A Geringonça não existiu”, porque toda a gente identifica, neste momento, essa ministra e este governo com o Estado e as suas falhas.

Depois, para explorar o estilo “Correio da Manhã”  de dramatizar situações, acrescenta, “a carta de uma mãe que perdeu um fillho…”.

Que o Público, outro jornal que compro todos os dias desde o seu primeiro número, ande a viver um período de desorientação editorial, alinhando no clima generalizado das “fake news”, já não me admira.

Desde que foi colocado à frente do jornal David Dinis, que ainda recentemente assinou a meias um artigo com outro jornalista daquele jornal onde, mais de metade do artigo (sobre o debate do Estado da Nação) dava palavra aos argumentos da oposição e 1/3 era a transcrição de um comentário “independente”, publicada no facebook por Poiares Maduro, o autor de discursos de Passos Coelho, já nada me espanta.

David Dinis foi um dos mais activos comentadores televisivos da propaganda “troikista” e “alémtroikista”, que, antes de chegar à direcção do Público, “estagiou” ideologicamente no Observador.

Claro que, por enquanto, o Público ainda é ideologicamente mais equilibrado que o “Expresso”, mas começam a surgir cada vez sinais mais preocupantes sobre o futuro deste jornal de referência, com se revela pela primeira página de ontem.


O estilo “Correio da Manhã” já tinha contaminado os noticiários televisivos. Não se esperava é que começasse a contaminar alguma imprensa escrita de referência!!!

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

A Noite de Polly Jean

PJ Harvey, regressa esta noite a Portugal para apresentar o seu mais recente trabalho, The Hope Six Demolition Project.

A artista britânica, nascida numa zona rural do sul da Inglaterra, inspirou-se para este álbum nas viagens que fez entre 2011 e 2014 ao Afeganistão e ao Kosovo, na companhia do fotojornalista irlandês Seamus Murphy,(clicar para ver trabalho do fotógrafo) viagem que terminou em Washington, local onde se tomaram as decisões que decidiram a situação de guerra vivida por aqueles dois países.

Desta viagem, para além no novo albúm de Polly Jean, resultou também o primeiro livro de poesia da cantora, The Hollow of the Hands, editado no ano passado, com a colaboração fotográfica de Seamus.
 

Harvey, além de musica de grande mérito criativo, também se dedica às artes plásticas, actividade que muito a inspira nas suas performances musicais.

Esta noite promete ser mais um memorável momento no Coliseu de Lisboa.

Em baixo transcrevemos o texto de Mário Lopes, hoje editado no jornal Público, sobre este evento:
 
PJ Harvey tem coisas muito importantes para dizer – outra vez
Por Mário Lopes   In Público de 27/10/2016
 The Hope Six Demolition Project resultou de viagens ao Afeganistão, ao Kosovo e a Washington. É um álbum negro, habitado pelos fantasmas bem vivos deste nosso tempo. Agora chega ao Coliseu dos Recreios, em Lisboa.
“Não será um concerto de blues endiabrado e guitarra em punho a corroer o rock’n’roll. Não. Isso já foi há muito tempo e, neste tempo, não é isso que PJ Harvey persegue. Ou melhor, será um concerto de blues, mas blues arrancado às entranhas, blues enquanto retrato e denúncia. Sabemos porque vimos o que aconteceu dia 10 Junho no Nos Primavera Sound, no Porto, quando PJ Harvey assinou o concerto mais relevante, o mais negro e emocionalmente intenso do dia, com entrada directa para a história do festival. Quem o viu, ou quem ouviu os relatos do que se passou, não pode não estar ansioso pelo reencontro esta quinta-feira no Coliseu dos Recreios, em Lisboa (21h, bilhetes a 40 euros).
“Cinco anos antes víramos a primeira parte desta história, quando PJ Harvey apresentou Let England Shake em duas datas esgotadas na Aula Magna, em Lisboa. Era um álbum inspirado em leituras sobre a Primeira Guerra Mundial e sobre a poesia que brotou daquele cenário. Um álbum habitado por fantasmas dolorosos e permanentes, os da guerra que tudo ceifa, das trincheiras que sufocam, da impotência do homem soldado que não passa de peão de uma máquina que não controla. Cantou-o vestindo de negro, plumas caindo-lhe sobre o rosto. “What is the glorious fruit of our land?”, perguntou em The glorious land, “Its fruit is deformed children”.
“The Hope Six Demolition Project foi o passo seguinte, o segundo tomo de um díptico (afirmamo-lo com margem para erro, dado desconhecermos se terá continuidade) que começou em terras distantes, o das trincheiras de 1914/1918, e que, depois, inspirada pelo trabalho do fotojornalista Seamus Murphy, levou PJ Harvey a perseguir a morte, a turbulência, a iniquidade das desigualdades e a impunidade de quem decide no Afeganistão, no Kosovo e em Washington – o título do álbum é uma referência a um programa federal americano de revitalização de bairros sociais problemáticos.
“No Nos Primavera Sound vimos um palco onde o negro imperava, onde a luz era trabalhada para que se destacassem mais as sombras dos músicos do que os seus corpos. As vozes graves uniam-se como um coro gospel, ou como um coro de tragédia grega, acentuando a sensação de que o presente cantado tinha raízes fundas no tempo. PJ Harvey não pegou na guitarra uma única vez, substituindo-a pelo saxofone que dardejava notas sobre as melodias e sobre as tarolas rufadas como marcha assombrada, acentuando o ambiente fantasmagórico vivido durante todo o concerto. The Hope Six Demolition Project foi, como não podia deixar de ser, o centro de tudo. PJ Harvey só se afastou dele para recuperar os longínquos To bring you my love e Down by the water ou The words that maketh murder, do antecessor Let England Shake.
“A julgar pelo alinhamento dos últimos concertos da digressão, em Itália, essa estrutura manter-se-á razoavelmente inalterada na apresentação portuguesa, em nome próprio, de The Hope Six Demolition Project. Não se espere, portanto, uma celebração de carreira, uma visita guiada ao percurso iniciado por PJ Harvey em 1992, com Dry. Polly Jean tem coisas muito importantes a dizer e quer mostrá-las sem distracções. A julgar pelo extraordinário concerto de Junho, onde surgiu acompanhada, por exemplo, pelos habituais cúmplices Mick Harvey ou John Parish, resta-nos ouvi-la muito atentamente”.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

UMA PRIMEIRA PÁGINA QUE É O RETRATO DE UM PAÍS

Olhamos para esta primeira páginas do jornal Público e vemos o Portugal de hoje.

Por um lado, uma iniciativa levada a cabo pela sociedade civil consegue, em poucos meses, angariar fundos para adquirir uma obra de arte fundamental para a nossa cultura.

Foram poucas as empresas e os bancos a contribuírem para essa iniciativa, com  honrosas excepções (como a Fundação Aga Khan, que contribuiu como um terço do seu valor, sem esquecer o Público, Fuel, RTP e o banco Millenium BCP).

Que se saiba, a esmagadora maioria das empresas cotadas em bolsa não deram um cêntimo...percebe-se, lendo o título de cima..andaram ocupados em desviar dinheiro para os offshores.

E este é o outro lado dessa primeira página.

Durante os anos da troika as grandes empresas deste país, tão "patrioticamente" gabadas pelo anterior governo e por Cavaco Silva, tiraram de Portugal 10 mil milhões de euros.

Sobre esta notícia ouvi hoje um comentário de um fiscalista tentando por àgua na fervura, dizendo que esse dinheiro já paga impostos em Portugal e também no local onde depositaram aqueles milhões (!!!).

Mas alguém acredita nisso? Ou será que os nossos grandes empresários são estúpidos ao ponto de pagarem duas vezes impostos para colocarem dinheiro fora do país? Ninguém desvia aquelas quantias sem tirar daí benefícios e os benefícios só podem ser ou para lavar dinheiro ilegal, ou para fugir aos impostos...senhores comentadores...não tomem os portugueses, e as empresas que pagam os seus impostos e trabalham, por parvos!!!.

Mas aquela primeira página mostra também porque é que alguma classe política anda arredada, por um lado, do apoio a iniciativas culturais como aquelas que referimos e, por outro lado endeusam as grandes empresas que fogem ao fisco, ao mostrar a ligação entre políticos e empresários corruptos, como aquele apanhado na operação "lava jato"....

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

O RESPIGO DA SEMANA - "Luaty e a vergonha Angola-Portugal" por Alexandra Lucas Coelho


Luaty e a vergonha Angola-Portugal

Por Alexandra Lucas Coelho, in Público, 18 de Outubro de 2015

“1. Não sei como José Eduardo dos Santos dorme à noite. Não sei como Isabel dos Santos dorme à noite. Não sei como milhares de homens e mulheres de negócios dormem à noite. Não sei como o Governo português dorme à noite. E o PCP podia arranjar melhor companhia do que o governo português nesta matéria, a greve de fome de Luaty Beirão. Milhares de comunistas portugueses presos, torturados e mortos em nome da liberdade merecem muito mais.

“2. Não há número que diga tanto sobre um país como a taxa de mortalidade infantil. Angola tem a pior taxa de mortalidade infantil do mundo: 167 crianças em 1000, o que quer dizer que uma em cada seis crianças angolanas morre antes dos cinco anos (Unicef). Quando a taxa de mortalidade infantil de um país é alta, isso é uma urgência. Mas quando ela é a mais alta do mundo num país dominado por uma oligarquia milionária isso é uma espécie de crime por negligência na forma continuada. E não faltam dados contundentes sobre o statu quo em que essa espécie de crime acontece, por exemplo, o Índice de Desenvolvimento Humano da ONU (calculado a partir da esperança de vida, taxas de escolaridade e rendimento nacional bruto). No último relatório, que abrange 187 países, Angola está em 149.º lugar. Ou seja: em Angola, segundo maior produtor de petróleo da África subsariana, oficialmente uma democracia presidencialista com a qual Portugal tem estreitíssimos laços económicos, vive-se pior do que em quase todo o planeta, incluindo países em guerra, ditaduras, catástrofes. E a estes três números (mortalidade infantil, desenvolvimento humano, produção de petróleo) podemos acrescentar mais dois para completar a mão: o Presidente e líder do MPLA, José Eduardo dos Santos, está há 36 anos no poder; e a sua filha Isabel dos Santos é a mulher mais rica de África, com 3,2 mil milhões de dólares.

“3. Foi neste país que, a 20 de Junho passado, a polícia do regime deteve sem mandato 15 jovens que estavam numa casa de Luanda a discutir a situação política. Tinham dois livros com eles, Da Ditadura à Democracia, de Gene Shar, e Ferramentas para Destruir o Ditador e Evitar Nova Ditadura — Filosofia política da libertação para Angola, do jornalista angolano Domingos da Cruz. Os 15, incluindo Domingos, foram acusados de preparar um golpe de Estado. Ao fim de quase quatro meses, continuam presos, sem culpa formada e sem julgamento. Vários fizeram greves de fome, um deles, Luaty Beirão, não desistiu. No dia em que escrevo, quinta-feira, 15 de Outubro, Luaty está sem comer há 25 dias. Terá perdido cerca de 20 quilos, não consegue beber água, foi posto a soro no hospital-prisão, tudo isto enquanto a polícia do regime reprimia vigílias de solidariedade e protesto. Luaty é um activista com experiência, foi preso logo a 7 de Março de 2011, dia-símbolo para o levantamento dos jovens angolanos inspirados pela Primavera Árabe. Entre 2011 e 2015, viu o regime desdobrar-se em raptos, espancamentos, tentativas de suborno, ameaças a familiares, perseguições políticas, tudo para tentar combater activistas. A posição de Luaty é clara: manter-se em greve enquanto os 15 estiverem presos, contra a lei, mesmo a lei de Angola. Visto que Angola, descontando censura, prisões arbitrárias, raptos, espancamentos, suborno, ameaças, perseguições e repressão, é oficialmente uma democracia. Os observadores internacionais nem têm achado prioritário observar as eleições angolanas. Como Luaty diz, na entrevista que o PÚBLICO transcreveu e disponibilizou em vídeo, primaram pela ausência.

“4. Foi bom ter visto, esta quarta-feira, em Lisboa, centenas de pessoas que fizeram o contrário, estiveram lá, na vigília convocada pela Amnistia Internacional, com a cara de Luaty, e dos outros 14 (Osvaldo Caholo, Afonso Matias, Albano Bingobingo, Nelson Dibango, Sedrick de Carvalho, Domingos da Cruz, Inocêncio António de Brito, Arante Kivuvu, José Gomes Hata, Manuel Baptista Chivonde Nito Alves, Fernando Tomás, Nuno Álvaro Dala, Benedito Jeremias e Chiconda ‘Samussuku’). Bom ter visto lá angolanos como Rafael Marques de Morais, José Eduardo Agualusa, ou Kalaf, a cabo-verdiana Mayra Andrade, e tantas dezenas tão jovens ou muito mais do que aqueles que estão presos. Era uma pequena multidão com música, palavras e imagens. Mas não sei onde estavam, nem o que pensam, angolanos que estiveram tanto tempo presos pelo que pensaram e escreveram, como Luandino Vieira. Gostava de saber.

“5. Enquanto Luaty, cidadão angolano e português, pode morrer a qualquer momento nestas circunstâncias, o Governo português tem, naturalmente, questões a debater, equacionar e mesmo ponderar, na sua relação com o Estado democrático de Angola, e portanto, até à hora de fecho desta crónica, que se saiba, fez exactamente zero. “Considera o Governo de Portugal a possibilidade de apresentar uma queixa junto do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas e de todas as demais instâncias internacionais competentes devido à violação de direitos humanos essenciais por parte do Estado angolano neste caso concreto afectando um cidadão português?”, foi a pergunta de Pedro Filipe Soares, deputado do Bloco de Esquerda. Através do ministro dos Negócios Estrangeiros, Rui Machete, a resposta do Governo português, até à hora de fecho desta crónica, era: “Nós estamos a acompanhar a situação do ponto de vista humanitário, visto tratar-se de uma matéria interna de Angola no que diz respeito ao problema da averiguação se existe ou não existe uma infracção de carácter penal, e nisso não nos imiscuímos.”

“6. A declaração de Machete foi feita segunda-feira. Terça, o Bloco de Esquerda apresentou na Assembleia Municipal de Lisboa este voto: “1. Exprimir solidariedade a Luaty Beirão, sua família e amigos; 2. Exprimir solidariedade para com todas pessoas detidas no dia 20 de junho; 3. Recomendar a imediata libertação das pessoas detidas no dia 20 de junho; 4. Remeter este voto aos órgãos de soberania e aos grupos parlamentares representados na Assembleia da República; 5. Remeter este voto à Embaixada de Angola em Portugal.” Pois, o PCP votou contra. E não só votou contra, como resolveu contrapor um voto que diz assim: “Apelar às autoridades angolanas, no quadro do respeito da sua soberania e ordem jurídico-constitucional, a consideração da situação humanitária de Luaty Beirão.” Ricardo Robles, do Bloco, argumentou: “Não é uma situação de cariz humanitário. É uma questão política. Ele é um preso político e está em risco de vida. Um preso político é um preso político. Em Angola, na China, em Cuba, nos Estados Unidos, na Turquia ou na Palestina. É um preso político e devemos respeitá-lo, porque houve tantos presos políticos no Partido Comunista Português e tanto respeito que eles merecem.” Mas o efeito, no PCP, foi exactamente zero, em consonância com a posição do Governo PSD-CDS. Para um partido que tanto preza a coerência, que desonra à sua própria história, a milhares e milhares de comunistas que deram tudo pela liberdade.


“7. Uma das coisas que Luaty diz no vídeo que o PÚBLICO pôs online esta semana é que um filho não é responsável pelo pai. Ele, Luaty Beirão, é filho de João Beirão (entretanto falecido), um próximo de José Eduardo dos Santos a ponto de ter dirigido a poderosa Fundação Eduardo dos Santos. Luaty tomou outro caminho; depois de estudar em França e Inglaterra, onde se tornou politicamente activo em manifestações e ocupações, fez uma viagem a pé de Lisboa a Luanda, com dois quilos de frutos secos e cem euros no bolso; conheceu parte de África, lentamente e sem rede; e de volta a casa manteve uma intervenção constante como rapper e activista. O extremo oposto do que aconteceu com a verdadeira filha do regime que é Isabel dos Santos, dez anos mais velha. Não só Isabel parece dormir bem com todos aqueles números sobre Angola, como a sua fortuna tem crescido inversamente às estatísticas dos miseráveis. E, como a Forbes detalhou numa investigação conjunta de Kerry A. Dolan, uma veterana da revista americana, e o incansável jornalista e activista angolano Rafael Marques de Morais, a presidência do pai favoreceu o império da filha. Isabel tem fama de trabalhar sete dias por semana para não deixar em mãos alheias o património conquistado, é um talentoso caso de estudo, alguém disse mesmo que Harvard devia estudar o talento dela. Também está bem posicionada em Portugal: Galp, BPI, NOS, BIC. Cada um faz da sua vida o que faz. O melhor que posso esperar é que esta noite Isabel dos Santos não durma assim tão bem e José Eduardo dos Santos menos ainda, e quando esta crónica sair Luaty esteja em liberdade, com todos”.