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segunda-feira, 25 de novembro de 2024

O RESPIGO DA SEMANA : "O que se está a comemorar não é o 25 de Novembro...", por José Pacheco Pereira

 

"A mistificação histórica e política do 25 de Novembro apouca-o, porque o seu significado real justificava uma comemoração digna nos seus 50 anos, em 2025, mais aquilo que traduz esta capa do Diabo, a ideia de que a liberdade e a democracia nasceram impolutas apenas no 25 de Novembro de 1975. O 25 de Abril não dera aos portugueses a “verdadeira liberdade”.

Era isto que, em 1974 e 1975, diziam, afirmavam e em função disto actuavam os partidários da ditadura que, de 1926 a 1974, oprimia os portugueses. Estas frases têm implícitas várias afirmações. Uma é de que não falo de “saudosistas” da ditadura, porque a palavra é mole. Eram muito mais que “saudosistas”. E digo oprimir porque, durante 48 anos, os portugueses não mandavam no seu país, naquela que foi a mais longa ditadura da Europa no século XX, com excepção da URSS. Não é pouco, é muito, e a capa do Diabo glorifica esse muito, mistificando o que aconteceu no 25 de Novembro de 1975 para atacar o 25 de Abril.

Há quem vá dizer que uma coisa é o Diabo, outra o “espírito” do 25 de Novembro, que seria o que presidiria às comemorações da Assembleia da República. Infelizmente para a nossa democracia não é verdade.

Começo por perguntar por que razão o 25 de Novembro é comemorado aos 49 anos, quando o 25 de Abril foi aos 50. As datas de comemoração normalmente correspondem a números redondos, e não se percebe a pressa de antecipar um ano a comemoração do 25 de Novembro, a não ser para o colocar no mesmo plano do 25 de Abril, ou, pior ainda, considerar que se pode comparar o seu significado histórico. Está-se a um passo de materializar a posição que está por detrás da capa do Diabo. O resto da capa, o “escapar à ditadura comunista”, também não tem qualquer fundamento histórico.

O 25 de Novembro pode e deve ser comemorado, mas é como ele foi, “como ele foi” foi sem dúvida importante no processo que, do 25 de Abril à plena democracia, teve várias etapas. O nascimento da nossa democracia, a partir da conquista da liberdade em 25 de Abril, demorou mais ou menos dez anos. Esses anos foram convulsivos, conflituais, mas o que é que se esperava da queda de uma ditadura, que conduzia uma Guerra Colonial, com censura todos os dias, com uma polícia política sem lei, com prisões e repressão, com altas taxas de analfabetismo, emigração em massa e enorme pobreza? Queriam que essa transição fosse “higiénica”, sem pecado? Muito bem, ajudassem a derrubar a ditadura mais cedo, a acabar com a guerra, pagando as consequências, e para isso

Por que razão o 25 de Novembro é comemorado aos 49 anos?

Muitos dos que se queixam do tumulto do pós-25 de Abril, com efeitos trágicos em particular nas colónias, não mexeram uma palha. O nascimento da democracia teve avanços e recuos e várias etapas que se estendem desde a revolução à derrota do 11 de Março (silêncio), às eleições para a Assembleia Constituinte, à vitória do 25 de Novembro, à vitória da AD, ao fim da tutela militar da democracia e, por fim, à eleição do primeiro Presidente civil.

Nesses avanços e recuos, o 25 de Novembro foi crucial para travar não uma “ditadura comunista” — o PCP continuou no governo e algumas das mais importantes nacionalizações são posteriores a Novembro —, mas sim o risco de um confronto entre fracções militares que se podia transformar numa guerra civil. Aliás, quando se confronta os defensores da versão “diabólica” do 25 de Novembro com as provas da participação comunista num golpe, não passam da “entrevista” de Cunhal a Oriana Fallaci, que qualquer pessoa que conheça o pensamento de Cunhal, com o que se sabe da estratégia do PCP nesses meses e da posição da URSS, sabe que ele não poderia ter dado aquelas respostas. Acresce que, quando confrontada com os desmentidos à sua “entrevista”, Fallaci prometeu divulgar as gravações, o que nunca aconteceu. O PCP tem muitas culpas no cartório no PREC, mas esta não tem.

Na verdade, os derrotados do 25 de Novembro são, a 25, a ala esquerdista ligada ao Copcon, que por razões intrinsecamente militares e corporativas sai à rua, ficando isolada e derrotada. A 26, os derrotados são outros, todos aqueles que queriam ilegalizar o PCP.

A mistificação histórica e política do 25 de Novembro apouca-o, porque o seu significado real justificava uma comemoração digna nos seus 50 anos, em 2025. O problema é que as pessoas a serem homenageadas seriam, com excepção de Jaime Neves — o herói solitário das comemorações “fake” de 2024 —, o Presidente general Costa Gomes, os militares do Grupo dos Nove, que são os mesmos que hoje se recusam a ir a estas comemorações, os seus vivos como Vasco Lourenço ou Sousa e Castro — demasiado “esquerdistas” para os propugnadores das comemorações “diabólicas” —, Ramalho Eanes e, no plano civil, Mário Soares, os seus companheiros da luta da Fonte Luminosa e os homens do PPD, Sá Carneiro e Emídio Guerreiro.

Ou seja, tudo gente que merecia a “verdadeira” homenagem, e não a que tem na sua propositura na Assembleia um destacado membro da resistência armada ao 25 de Abril e os membros da direita radical no CDS e no PSD. Vão todos participar numa mistificação histórica, que é ao mesmo tempo uma menorização do valor do 25 de Novembro. Mas os tempos estão para estas coisas, que a prazo se pagam caro."

José Pacheco Pereira (Historiador).

In Público - Edição Lisboa, 23 Nov 2024

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

O Respigo da Semana - "A Histeria das Classificações" por Pacheco Pereira



A histeria das classificações
Por José Pacheco Pereira

In revista  Sábado, 15 de Dezembro de 2016
“Existe hoje, como sinal do reducionismo e simplismo que vai crescendo na vida política portuguesa, uma verdadeira histeria das classificações. A morte de Fidel foi disso um bom exemplo, com metade do mundo a acusar quem não dizia que ele era "ditador" de ser conivente com todas as ditaduras, e a outra metade indignada com o modo como Fidel era equiparado a Pinochet e mesmo a Salazar. Depois vinha outra habitual palermice a que estamos cada vez mais habituados, a medida das ditaduras pelo número de mortos que tinham causado, uma boa maneira de atirar Fidel ao fundo, e de reabilitar a ditadura soft de Salazar. O número de mortos conta certamente para não metermos tudo no mesmo saco, e aí Hitler e Estaline são a primeira divisão, mas a contabilidade exige outros critérios, que são históricos e políticos. Por exemplo, na contabilidade de Salazar incluímos os mortos pela PIDE, ou em manifestações, mas excluímos os mortos da guerra colonial. Deixemos essa sinistra contabilidade que pouco nos diz sobre a natureza das personalidades e dos regimes, a não ser que são, regra geral pouco amigos da vida humana.

“Voltemos a Fidel. Fidel foi várias coisas; um combatente contra a ditadura de Batista e a corrupção da máfia, do jogo e da prostituição que faziam de Cuba o entreposto daquilo que o moralismo americano não queria no seu território; foi, num jogo perigoso que ele jogou plenamente, "empurrado" pelos americanos para os braços geopolíticos da URSS; passou de proponente de uma via diferente de fazer a revolução, que competia com o comunismo soviético e o chinês, para um dos mais ortodoxos apoiantes da URSS, sendo um dos primeiros, com Cunhal, a apoiar a invasão da Checoslováquia; moldou, como aconteceu também em África, o sistema de partido único a uma variante de "comunismo cubano" que implicou desalojar os velhos comunistas para o exílio nos países do Pacto de Varsóvia e substituí-los pela elite que vinha da guerrilha; conheceu conspirações americanas e tentativas de assassinato contínuas e também algumas conspirações soviéticas, e acabou órfão do poder soviético quando este ruiu em 1989. O regime cubano permaneceu num país pobre, com algumas e relevantes conquistas sociais, mas encurralado no seu futuro a que apenas Obama mostrou uma alternativa, que Trump vai querer fechar.

“Os americanos ajudaram, com uma política incentivada pelos exilados cubanos contra-revolucionários, a isolar Cuba e a consolidar o regime castrista, os russos davam -lhe petróleo enquanto puderam mas exigiam disciplina naquilo que eram os seus interesses mundiais. Fidel pelo meio ia sobrevivendo assente numa repressão que conheceu diferentes fases, mas que era sempre muito dura. Sim, Fidel foi um ditador, havia uma polícia política, prisões e execuções, praticamente até à véspera da sua retirada por doença, com o processo do general Arnaldo Ochoa como estertor final. Os Papas e Obama, alguns dirigentes latino-americanos que desafiaram o boicote americano e alguns países europeus que tinham relações históricas com Cuba, como Espanha, funcionaram como moderadores do regime com algum sucesso, mas Cuba não é uma democracia e os seus dirigentes são um misto de nostalgia guerrilheirista e de aparelhismo burocrático à soviética.

“Porém, no exterior, as "imagens" de Cuba e de Fidel traduziam as sucessivas contradições da sua história e a fixação revolucionária em Fidel e Che, permitia a gerações de órfãos de qualquer revolução aí procurar um modelo diferente. Na verdade, numa procura de legitimidade romântica, que era simbólica, mas não histórica e muitas vezes despolitizada. Que o digam os múltiplos dirigentes da direita portuguesa que foram ao beija-mão de Fidel quando este esteve recentemente em Portugal, ou mesmo o Presidente da República que foi a Cuba para ter uma photo opportunity com Fidel. Surpreendentemente não ouvi os que agora gritam por "ditador" criticar essa viagem e o encontro.

“Mas hoje só se percebe as multidões nas ruas de Cuba – e nem tudo é encenado – se tivermos em conta que, com a evolução da história, Fidel é visto cada vez mais como um nacionalista cubano e menos como um dirigente comunista. Estas mutações ocorrem na história várias vezes, e nem apagam o passado, nem deixam de ter significado no presente. Para os cubanos que conheceram a colonização espanhola, a "libertação" pelos americanos, depois a subjugação por uma aliança muito comum na América Latina entre os interesses económicos americanos e os ditadores locais, e que se sentem afrontados pelo longo embargo dos EUA, que vivem perigosamente perto do maior poder mundial, o nacionalismo é identitário. Como estamos numa Europa que acha que a identidade nacional acabou – está muito enganada –, nem sempre percebemos estes fenómenos, que a histeria das classificações coloca fora do lugar”.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Acaba de sair o 4º volume de "Álvaro Cunhal - uma biografia política" de José Pacheco Pereira




Acaba se ser editado o 4º volume da Biografia de Álvaro Cunhal da autoria do historiador José Pacheco Pereira.

Tivemos ocasião de ler os três primeiros volumes dessa obra monumental e esperamos em breve iniciar a leitura deste novo volume.

Daquilo que lemos dos volumes  anteriores esta é, não só a mais completa e bem documentada biografia de Álvaro Cunhal, como a obra mais completa sobre a história da oposição ao Estado Novo, já que o autor não se limita à figura de Cunhal, mas analisa, com base em muita documentação inédita e até então desconhecida, tudo o que gravitava à volta de ´Álvaro Cunhal
E o que gravitava à volta de Álvaro Cunhal não era apenas o PCP e a Internacional Comunista, mas práticamente toda a oposição que com ele de perto privou.

Tive a oportunidade de confrontar o rigor da obra de Pacheco Pereira com a prova viva de um velho, e entretanto já falecido, militante do PCP que viveu  a história desse partido, na prisão e na clandestinidade e me comprovou a veracidade de tudo o que está escrito nesta monumental obra.

Só foi de lamentar, até agora, que o próprio PCP nunca tenha facultado o acesso de Pacheco Pereira ao seu arquivo ou que Álvaro Cunhal sempre se tivesse recusado a ser entrevistado pelo historiador. 

Mas as grandes qualidades de Pacheco Pereira como investigador conseguiram ultrapassar e contornar essa lacuna, ao ponto de o próprio Álvaro Cunhal em vida e os responsáveis do PCP nunca desmentirem ou encontrarem motivo para desacreditar a obra histórica que agora conhece a edição do seu 4º volume.

Para além de ser impossível fazer a história do século XX português ( e até europeu) sem consultar esta obra, ela própria inclui um vasto manancial de documentação e de orientação bibliográfica imprescindível para  qualquer investigação séria sobre a época.

sábado, 27 de junho de 2015

O Respigo da Semana - a crónica de hoje de Pacheco Pereira no Público :"A Europa que nos envergonha"


A Europa que nos envergonha

Por José Pacheco Pereira

In Público de 27/06/2015.

“Bater nos gregos tornou-se uma espécie de desporto nacional. Tem várias versões, uma é bater no Syriza, outra é bater nos gregos propriamente ditos e na Grécia como país. As duas coisas estão relacionadas, bate-se na Grécia porque o Syriza resultou num incómodo e, mesmo que o Syriza morda o pó das suas propostas, – que é o objectivo disto tudo, – o mal-estar que existe na Europa é uma pedra no orgulhoso caminho imperial do Partido Popular Europeu, partido de Merkel, Passos e Rajoy e nos socialistas colaboracionistas que são quase todos que os acolitam. É isto a que hoje se chama “Europa”.

“Se não fosse sinal de coisas mais profundas, e péssimas, seria um pouco ridículo que nós portugueses nos arrogássemos agora o direito moral de bater nos gregos. Somos mesmo um belo exemplo! Ah! Fizemos o “trabalho de casa” e isso dá-nos a autoridade moral, “sacrificamo-nos” para ter agora esta gloriosa “recuperação” e os gregos não, Passos Coelho dixit. Para além de estar certamente a falar para a Nova Democracia e para o Pasok e não para o Syriza, o balanço do “ajustamento” grego foi devastador para a economia e para a sociedade. Porquê? Nem uma palavra. Ninguém fala da “herança” do Syriza, recebida em princípios de 2015, das mãos de dois partidos da aliança dos “ajustadores”, a Nova Democracia irmã da CDU, do PP espanhol e do PSD e do CDS português, que governou a Grécia com a eficácia que conhecemos e pelo PASOK, irmão do PS, que a co-governou. Eram esses que a “Europa” queria que ganhassem as eleições.

“Só que os gregos “não fizeram o trabalho de casa”… e por isso tem que ser punidos. Caia o Syriza na lama, e venha um qualquer outro governo dos amigos e ver-se-á como muita coisa que é negada ao Syriza será dada de bandeja ao senhor Samaras e os seus aliados. O problema não é o pagamento aos credores, não é a “violação das regras europeias” (quais?), não é uma esforçada dedicação pela “recuperação” da Grécia, é apenas e só político: não há alternativa, não pode haver alternativa, ninguém permitirá nesta “Europa” nenhuma alternativa que confronte o poder dos partidos do PPE e seus gnomos de serviço socialista, porque isso fragiliza aquilo que para eles é a Europa.

“A ideia de que a Grécia não é um Estado ou que é um “país falhado” é um absurdo. A julgar por esses critérios muitos países da Europa não são Estados, a começar pelo “estado espanhol” aqui ao lado e a acabar nalgumas construções de engenharia política ficcional que a Europa ajudou a criar nos Balcãs, seja o Kosovo, seja mesmo a bizarra FYROM. É evidente que a Grécia não é a Alemanha, mas Portugal também não é. A Grécia não é a França, mas vá-se à Córsega perguntar pela França, ou mesmo às zonas dialectais do alemão na Alsácia. Ou então a esses territórios muito especiais da União Europeia, sim da União Europeia, que são por exemplo a Reunião e Guadalupe, “departamentos franceses do ultramar”.

“A Grécia é a Grécia, muito mais parecida com Portugal naquilo é negativo que os que hoje lhe deitam pedras escondem, e bastante menos parecida com Portugal, numa consciência nacional da soberania, que perdemos de todo. No dia da vitória do Syriza, o que mais me alegrou, sim alegrou, como penso aconteceu a muita gente, à esquerda e à direita, não foi que muitos gregos tenham votado num “partido radical” ou num programa radical, ou o destino do Syriza, mas sim o facto de que votaram pela dignidade do seu pais, num desafio a esta “Europa” que agora os quer punir pelo arrojo e insolência. Escrevi na altura e reafirmo que mais importante do que a motivação de acabar com a austeridade, foi o sentimento de que a Grécia não podia ser governada por uma espécie de tecnocratas a actuar como “cobradores de fraque” em nome da Alemanha. Por isso, mais grave do que o esmagamento do Syriza, que a actual “Europa” pode fazer como se vê, é o sinal muito preocupante para todos os que querem viver num país livre e independente em que o voto para o parlamento ainda significa alguma coisa. Nisso, os gregos deram uma enorme lição aos nossos colaboracionistas de serviço, que andam de bandeirinha na lapela.

“Voltemos ao não-pais. A Grécia é um país muito mais consistente na sua história recente do que muitos países europeus, principalmente do Centro e Leste da Europa. Tem dois factores fortíssimos de identidade nacional, a religião ortodoxa e a recusa do “turco”. E foi “feita” por eles. Vão perguntar ao fantasma de Hitler o que ele disse da Grécia quando a invadiu e não disse de nenhum outro país e vão perguntar aos ingleses que apoiaram os resistentes gregos, duros, ferozes e muitos deles, como em Creta, “bandidos da montanha”. Sem Estado.

“Esta identidade nacional dá para o mal e para o bem, como de costume, mas existe. Muitas aventuras militares e políticas resultaram dessa forte identidade e da relação mítica e simbólica com o passado, como seja a invasão da Anatólia numa Turquia em crise pós-otomana para reconstituir a Grande Grécia clássica e bizantina, ou as reivindicações sobre o Epiro albanês, ou mesmo a pressão contra a existência da Macedónia como estado. A aventura de Venizelos e a Megali Idea foi uma das grandes tragédias do século XX, apoiada irresponsavelmente pelos ingleses, mas mostram como é ligeiro apresentar a Grécia como um “não país”, quando nesses anos as poucas cidades “civilizadas” nessa parte do mundo não eram Atenas, mas Salónica e Esmirna. Esmirna, incendida pelos turcos e Salónica purgada dos seus judeus por Hitler.

“O argumento “geográfico” das ilhas para afirmar que a Grécia “não é um estado” então é particularmente absurdo. A Grécia tem centenas de ilhas e a Indonésia milhares. Então a Indonésia também não é um país? É-o certamente menos do que a Grécia, visto que a diversidade rácica, linguística e religiosa da Indonésia é muito maior e mais complicada do que as ilhas gregas cujo cimento, até mesmo a Rodes, que fica bem em frente da costa turca, é de novo, a religião e a história.

“Os gregos, povo de comerciantes e marinheiros, são um alvo fácil, como os camponeses do Sul de Itália e os alentejanos, para os do Norte industrial e “trabalhador”. É um estereótipo conhecido: ladrões, vigaristas e, acima, de tudo preguiçosos. Por isso “enganaram a Europa” e querem viver á nossa custa. A Grécia enganou a Europa? Sim with a little help from my friends. A Europa ajudou activamente a Grécia a falsificar os números, a Alemanha em particular, enquanto isso lhe interessou. E nós? Só para não ir aos inevitáveis exemplos socráticos, vamos para este governo e bem perto de nós. Com que então a TAP foi comprada por um português? O brasileiro-americano o que é, o consultor para a aviação? De onde veio o dinheiro, a pergunta que se faz sempre aos remediados, que já são vigiados por 1000 euros, e ninguém faz aos ricos e poderosos? Para que é esta cosmética? Para enganar a União Europeia dando a entender que a TAP foi comprada por um cidadão da União. O truque é tão evidente, que muito provavelmente, como aconteceu com os gregos, a União Europeia já assinou de cruz pelas aparências porque lhe convém. Atirem pois mais uma pedra aos gregos.

“Os gregos não querem pagar impostos? Não, não querem, mas nós portugueses também não queremos. Há uma diferença, é que em Portugal se aceitou nos últimos anos, um poder fiscal muito para além do que é aceitável numa democracia. Será que é isso a que se chama “fazer o trabalho de casa”, ter um Estado? Já agora, as estatísticas da economia informal na Europa são muito interessantes. Sabem que Estados tem uma economia informal muito superior à grega? A Noruega, a Suíça, o Luxemburgo, a Dinamarca, a Finlândia e… a Alemanha.

“A questão mais importante e que merece ser analisada e discutida mais a fundo, não é a Grécia e muito menos o destino do Syriza. É a mudança de carácter da União Europeia, da “Europa”, nestes anos de crise. A hegemonia alemã é um facto, mas a principal mudança foi a substituição de um projecto europeu de paz e solidariedade, por um projecto de poder. A substância desse poder é a hegemonia política do Partido Popular Europeu que, apoiado pelo papel do governo alemão, mas indo para além dele, transformou o “não há alternativa” na legitimação de todos os governos conservadores, muitos dos quais viraram francamente à direita nestes anos. Esses governos recebem todas as complacências (como Portugal a quem se fechou os olhos nos falhanços na aplicação do memorando) e todos os apoios.


“A “Europa” é hoje a principal aliada eleitoral e de governo de partidos como o PSD em Portugal e o PP em Espanha, interferindo qualitativamente nas eleições nacionais e transformando o reforço do poder comunitário num instrumento de poder “europeu”. Hoje qualquer passo que reforce a “Europa” reforça o PPE e o “não há alternativa”. Esta não é a Europa dos fundadores, é a Europa dos partidos mais conservadores, com os socialistas à arreata. Não terá um bom fim e, nessa altura, muita gente lembrará a Grécia”.

terça-feira, 22 de julho de 2014

O DIA DE HUMILHAR PROFESSORES...


A história repete-se, a primeira vez com tragédia, a segunda como comédia.

O ataque aos professores e à sua dignidade começou com Maria de Lurdes Rodrigues e foi...uma tragédia.

Agora repetiu-se, mas sob a forma de comédia, com o inenarrável Nuno Crato, rei do cinismo nacional e descarado ministro da educação (???) e ciência (???).

Ao menos Maria de Lurdes tinha um projecto, gostasse-se ou não dele, e tinha conhecimentos sobre o assunto,mesmo que fizesse destes, quanto a nós, um uso incorrecto e tendencioso.

Nuno Crato é a suprema ignorância, um mero executor das políticas de austeridade aplicadas à educação, competente em ver-nos a todos como simples números embrulhados em cálculos matemáticos.

A cereja em cima do bolo da sua inqualificável "política educativa" está no modo com convocou os professores mais novos para o exame deste dia, um exame também ele inqualificável e que tem como único objectivo humilhar os professores.

Em homenagem aos meus jovens ex-colegas, aqui deixo a última crónica de Pacheco Pereira sobre o tema, que arruma o tema (e Nuno Crato) com a mestria de um pensador atento e informado:

"Voltamos à moralidade ou à falta dela

por JOSÉ PACHECO PEREIRA in Público de 19/07/2014 

"Voltar a falar de moralidade é algo que só faço com imensa relutância. A palavra e a coisa são tão ambíguas e prestam-se a tantas manipulações, que a probabilidade de sair asneira ao usá-la é grande. Por regra, entre o moralismo hipócrita, tão comum no mundo católico apostólico romano, e o cinismo, eu acho que o cinismo faz menos estragos em democracia.

"O ponto de vista realista, ou, se se quiser, cínico, pode ser pedagógico em política, quando esta está cheia de falsos moralismos, densa de presunção moral. Já houve alturas em que foi assim e ocasionalmente, nalguns momentos e eventos, é assim. Nessas alturas faz bem lembrar que a natureza humana é como é, e pode-se ser um carácter duvidoso a título pessoal e ser-se um bom político, que sirva a comunidade e o bem comum. Churchill serve de exemplo, ou Lincoln. Parece chocante, mas a moralidade pessoal é um terreno pantanoso em que é mais fácil entrar do que sair e o julgamento da moralidade alheia, quase sempre hipócrita, tem a notável tendência de funcionar como boomerang. É por isso que só com pinças.

"Mas no tempo em que vivemos não é o moralismo o risco, dada a natureza dos nossos governantes que cresceram numa cultura amoral e de “eficácia”. Por isso é preciso o contrário, chamar a moralidade para a praça pública, porque há coisas que são inaceitáveis numa democracia que desejamos minimamente decente. Já não digo sequer decente, mas minimamente decente. E têm a ver com a moral porque atingem a verdade, a recta intenção, o objectivo do bem comum, o respeito pela dignidade das pessoas e são actos de maldade, de mau carácter, muitas vezes disfarçados de espertezas e habilidades.

"O exercício desta imoralidade activa na governação impregna toda a vida pública de maus exemplos, de salve-se quem puder, de apatia ou revolta, de depressão ou violência. Torna Portugal um país doente e um país pior, promove os habilidosos sem escrúpulos e afronta os homens comuns, insisto, minimamente decentes, que não querem o mal para ninguém, desde que os deixem sossegados e sem afronta. É isso que provoca a institucionalização do dolo, do engano, a construção de políticas destinadas a tramar portugueses, umas vezes muitos e outras vezes poucos, sem qualquer vergonha por parte dos seus executantes. E aí eu nasço redivivo como um moralista agressivo, e falo cem vezes do mesmo, sem descanso. Não gosto, mas falo.

"A história mais recente e que me fez escrever este artigo foi a desfaçatez do truque que o Ministério da Educação usou para marcar os exames aos professores com três dias úteis de pré-aviso, caindo do céu da surpresa no fim de Julho, com grande estrondo. Na verdade, são teoricamente cinco dias, o mínimo exigido por lei, mas só teoricamente. O truque foi pré-assinar um despacho em segredo, no quinto dia divulgá-lo no Diário da República a contar do dia da sua assinatura, para que na prática faltassem, após o anúncio ser conhecido, apenas três dias úteis até ao exame, 17, 18, e 21 de Julho. Professores que já estavam a receber o subsídio de desemprego, que já estavam de férias, e que não sabiam que iam ter um exame para que é suposto prepararem-se, cai-lhes em cima uma data que é já praticamente amanhã. Nem o gado é suposto ser tratado assim, mesmo quando vai para o abate.

"Porquê esta rapidez? A resposta é muito simples: para evitar que os sindicatos pudessem apresentar um pré-aviso de greve no prazo exigido pela lei – ou seja, o Governo faz um truque descarado e sem vergonha para contornar uma lei da República, que permite o exercício de um direito.

"Pode-se ter o ponto de vista que se quiser sobre os exames exigidos a professores que já tinham as qualificações necessárias para ensinar e, nalguns casos, já ensinavam há vários anos. Esta é outra questão e sobre ela não me pronuncio. O Governo pode até ter razão em querer os exames e os professores não ter ao recusá-los. Aqui posso ser agnóstico sobre essa matéria. Não é sobre isto que escrevo, mas sobre o pequeno truque, habilidade, esperteza e os seus efeitos de dissolução social como norma de governação.


"Vai haver quem encolha os ombros e ache muito bem que se pregue uma partida a Mário Nogueira e aos seus sindicalistas da Fenprof. (No entanto, todos os sindicato, mesmo os da UGT, dirigidos por membros e simpatizantes do PSD, estão de acordo em recusar o truque do Governo.) Mas, como a sociedade portuguesa está em modo de “luta de classes”, há aí muita gente agressiva a querer vingança no tempo útil que sobra até o Governo cair. A mó já é a mó de baixo e daí muita raiva pouco contida, que serve de base à indecência".

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

O RESPIGO DA SEMANA - A opinião de Pacheco Pereira sobre a situação do país


"UMA IMENSA IRRITAÇÃO E A POLÍTICA DO MEIA BOLA E FORÇA

por Pacheco Pereira

“A expressão "meia bola e força" parece vir do futebol, um mau augúrio. O Ciberdúvidas da Língua Portuguesa remete para o Dicionário de Frases Feitas, de Orlando Neves, que lhe dá o significado de "desajeitadamente; de qualquer maneira". Acrescenta a génese futebolística por comparação com "pontapé para a frente e fé em Deus", e "designa um modo de jogar atabalhoado, sem arte", onde "a técnica da força se sobrepõe à força da técnica". Parece-me bem, estamos no terreno certo do que quero dizer. Mais à frente voltaremos aqui.

“Agora vamos a outro lado: a "irritação". Os portugueses ainda não andam na rua a partir coisas e a deitar cocktails Molotov à polícia diante do Parlamento como acontece em Atenas. Sejamos justos, como os portugueses, também a esmagadora maioria dos gregos nunca fizeram tal coisa, obra de pequenos grupos que tomaram o gosto ao dedo da gasolina. Por cá também se estão a formar os mesmos grupos, mas ainda não sabem fazer cocktails Molotov, mas aprenderão porque não é muito complicado.

“Mas, seja como for, a conflitualidade portuguesa ainda está longe de ser bem medida pela rua, mas é mais que evidente que existe. Está na fase da zanga e a caminho da imensa irritação. Convém não menosprezar este caminho, porque a zanga pode ser muito passiva, viver com o desespero, a depressão e a impotência, mas a irritação é mais complicada, porque ela transporta uma violência latente muito superior. E os sinais dessa irritação estão por todo o lado e em crescendo.

“A vox populi moderna chega hoje ao universo mediático, não tanto na sua forma politizada, mas numa parte mais selvagem, sem regras, nem educação, nem civilidade, nem moderação. Chega aos gritos. Por exemplo, nos fora das rádios e televisões, em que supostamente essa vox populi se faz ouvir, o grau de violência verbal é cada vez maior. Eu sei que é preciso muita prudência para aceitar esses programas como representativos da vox populi, com todas as precauções para depurar a parte de manipulação política desses "locais de fala", onde é habitual alguns militantes partidários mais empenhados organizarem-se para fazer barragens de falsos "ouvintes" a telefonar para defenderem o seu clube político e esmagar os outros. Mas, quando os temas desses fora estão longe da agenda politizada, o que se ouve é a voz dessa imensa irritação, pura e dura e cruel, vociferando contra os "políticos", contra "esta democracia", contra as prepotências dos ricos e poderosos e os "arranjinhos" que fazem em conluio com os "políticos". Propostas: deviam ir todos presos, devia "cortar-se-lhes a cabeça", deviam ser proibidos de falar, deviam viver com salários abaixo do mínimo, deviam ver os seus bens confiscados e "obrigados a trabalhar", etc., etc.

“Nos casos "mediáticos" da justiça encontra-se também um crescendo de violência verbal e, embora o terreno pareça diferente, o facto desses casos se passarem no espaço público sob o megafone de jornais, rádios e televisões, torna o discurso nestes casos também um discurso sobre o país e a política. Duas características manifestam-se nestes discursos da vox populi: uma forte identificação com as vítimas, sejam reais, sejam imaginárias, e uma vontade quase física de violência punitiva, muito para além da lei. No caso de Lousada (o desaparecimento de uma criança) e da pedofilia na Casa Pia, pode ouvir-se nos media propostas de pena de morte, de tortura, de mutilação ("deviam-lhe cortar os dedos um a um"), proibição de meios de defesa para os arguidos, censura ("Carlos Cruz devia ser proibido de publicar livros e dar entrevistas"), acompanhadas de tentativas concretas de agressão.

“Pode argumentar-se que se trata de casos especiais, mas o contínuo discursivo, a mecânica social e psicológica da descrição das vítimas que não obtêm justiça versus os poderosos que escapam a tudo, são narrativas sobre o Portugal contemporâneo e são, na sua essência, sobre a crise, entendida como uma violência dos "políticos" contra as pessoas comuns, os pobres, os trabalhadores, o povo. É por isso que o pior que se pode fazer na actual situação é provocar esta ira poderosa, mais violenta do que qualquer cocktail Molotov.


“Voltemos ao "meia bola e força". Existe na actual governação uma forte dose de "pontapé para a frente e fé em Deus", e de "um modo de jogar atabalhoado, sem arte", onde "a técnica da força se sobrepõe à força da técnica". E há dois aspectos em que este "meia bola e força" resultam numa provocação desnecessária, inútil e perigosa para a irritação que já por aí anda. Um diz respeito à incompetência e impreparação que nos deu a baixa da TSU, as "gorduras do Estado", o "colossal desvio" resolvido apenas por meio subsídio de Natal "irrepetível", a "meia hora de trabalho suplementar", a saga dos feriados agravada pelo modus operandi do Carnaval.

“Quanto a isto há pouco a fazer, há quem o atribua a um plano ideológico "neoliberal" e há quem o atribua à ignorância do país. Existem as duas coisas, mas eu tendo a hesitar em dar grandes roupagens ideológicas, aquilo que me parece mais fácil de explicar por uma combinação de ideias na moda (e aí de facto e pela primeira vez a sério, essas ideias correspondem à caricatura do liberalismo que faz a esquerda) e falta de experiência e competência, salvo excepções que nem precisam de ser nomeadas porque são auto-evidentes.

“Mas há um outro aspecto, mais "politiqueiro" nas provocações, que também tem a ver com o tipo de formação política do topo da governação, que é comum à liderança do PS, e que faz e pode vir a fazer estragos consideráveis, corroendo o que de positivo existe em muitas medidas tomadas recentemente. Voltemos, por comparação, à fase "boa" de José Sócrates, os seus primeiros três anos, 2005-2008. O "boa" está entre aspas, porque, do meu ponto de vista, sempre a achei péssima, embora saiba que muita gente do PSD está hoje esquecida de a louvar. Nos seus primeiros anos, a narrativa de Sócrates foi muito parecida com a actual: recebeu o país com um "défice colossal", convenientemente cozinhado pelo Banco de Portugal, e com esse pretexto, abandonou todas as promessas eleitorais e lançou-se no controlo do défice. A comparação com a situação actual é legítima visto que as promessas eleitorais do PSD fizeram-se já no contexto da intervenção da troika e não antes, pelo que, como em 2005, a "surpresa" pelo que se "encontra" é fictícia.
“Sócrates obteve alguns resultados no controlo do défice, não aqueles de que se gabou, mas alguns; reformou a Segurança Social e iniciou um conjunto de medidas de "reformas" com muitas parecenças com a luta actual contra as "gorduras do Estado". A retórica política é muito semelhante. Começou a utilizar os argumentos do populismo e da inveja social, que são sempre eficazes. Dois casos são exemplares: atacou os juízes e magistrados e em seguida os professores. Fez o mesmo com os farmacêuticos e os médicos. Em todos os casos, o discurso foi o mesmo, trata-se de grupos profissionais privilegiados, com regalias inaceitáveis e pela primeira vez havia um político com "coragem" para defrontar estes grupos.

“Os resultados estão à vista: alienando todos os aliados que podia encontrar nesses grupos profissionais para fazer reformas, uniu-os como nunca se uniram, e acabou por perder quase tudo, reforçando o sentimento corporativo e bloqueando por muitos anos qualquer mudança nessas áreas. Quando os ventos mudaram, e Sócrates começou a tombar do seu pedestal, recebeu em dobrado o preço das irritações que tinha semeado, numa fúria nacional que o correu do poder e de que o PSD beneficiou eleitoralmente.

“Ora discursos como o do "piegas", a interpretação do país do Carnaval como opondo diligentes formigas poupadas e trabalhadoras às cigarras municipais com milhões de dívidas, o apontar dos funcionários públicos como privilegiados face aos privados, o modo como os militares profissionais foram convidados a irem-se embora se não concordavam com o ministro e mais mil e um exemplos são versões actuais do mesmo moralismo social que pode começar por ter resultados, mas que depois se transforma numa fúria colectiva que volta para trás com raiva.

“A combinação do "meia bola e força" com um contexto de irritação nacional, cada vez mais recebido pelos governantes como uma afronta aos seus desígnios "revolucionários" de mudar o país de alto a baixo (e este revolucionarismo verbal tem também um papel na retórica governamental), pode levar a uma certa forma de autoritarismo político, num contexto de grande crise social, o mais perigoso caminho no meio de uma crise profunda. Há sinais, como no tempo de Sócrates, mas podem ser epifenómenos e não the real thing. Benevolamente ainda me fico pelo "meia bola e força", porque me parece uma explicação mais simples, económica e, acima de tudo, mais portuguesa. Mas o terreno está a ficar movediço”.

In Público de 25 de Fevereiro de 2012

segunda-feira, 12 de abril de 2010

O Respigo da Semana - Pacheco Pereira, as Minas de Neves Corvo e um país "irreal"

(Foto: Lusa)

"DESLAÇAMENTO

Por PACHECO PEREIRA

"Quando, há já umas semanas, ouvi um deputado do PCP, José Soeiro, subir à tribuna para falar da luta dos mineiros de Neves Corvo, em Castro Verde, senti uma forte sensação de irrealidade, uma espécie de distância imensa entre tudo e tudo, o deslaçamento enorme que Portugal atravessa, sem direcção nem destino. A pergunta que se me atravessou - e atravessou é o termo mais exacto - era: mas quem é que quer saber dos mineiros de Neves Corvo para alguma coisa? Mas a pergunta atravessada era na realidade outra: mas quem é que aqui, nesta sala, quer saber dos mineiros de Neves Corvo para alguma coisa?

"Podia-se dizer que os comunistas querem, mas mesmo nesse sentido seria possível desvalorizar esse "querer". No fundo, o que se passava era a mais estandardizada das situações. Um deputado comunista alentejano, a falar de trabalhadores alentejanos, que são na sua maioria seus eleitores, e a enunciar uma clássica reivindicação sindical defendida por um sindicato que é também constituído na sua maioria por comunistas. Estava a fazer o que é normal, o que se espera, o mesmo que fazem os deputados algarvios que querem que se consumam mais laranjas do Algarve, ou os de Viseu que não querem encerrar um posto de saúde. Era política "local", aquela que os americanos dizem ser "toda a política". E era uma função clássica de representação do "seu" eleitorado: os comunistas falam para o "seu" Alentejo, como os deputados da Madeira e dos Açores falam para os madeirenses ou os açorianos.

"Mas não era só isso. Havia uma diferença. E de novo a pergunta atravessada passou para outra expressão, muito mais atravessada, essa sim também muito mais complicada porque já caminhava para fora da pergunta, para uma resposta: por que razão nós falhamos a estes homens, nós falhamos aos portugueses como os mineiros de Neves Corvo, que mais do que quaisquer outros precisam de bom governo, porque são os mais frágeis, os primeiros a pagar os custos das asneiras que são cometidas lá longe, em Lisboa, num outro mundo tão distante do Alentejo como a Lua. O pano de fundo das perguntas atravessadas é a, para mim, clara e evidente percepção da enorme, gigantesca indiferença com que olhamos para estes homens, os mineiros de Neves Corvo. Eles não são mais do que uma longínqua perturbação noticiosa na sua greve (entretanto suspensa), a que na Assembleia reagimos com total desatenção. É quando muito uma coisa para os comunistas (verdade seja que Cavaco Silva, que não renega as suas origens sociais, os recebeu), ou uma excrescência anacrónica de "neo-realismo", que não merece nem um parágrafo no mundo modernaço dos gadgets em que se entretém o primeiro-ministro, nem os interesses dos blogues finos da direita e dos blogues fracturantes da esquerda. Este não é o Portugal deles, esta é a face póstuma de um Portugal que eles desconhecem e abominam, que vota politicamente errado (embora votem nos únicos que dão voz aos seus interesses, tão irracionais economicamente como todos os outros interesses, como dos professores, por exemplo, ou os dos gestores), que não é fashionable, não tem "marca" nem griffe, nem aparece no Time Out dos urbanos da moda, nem tem graça para ser gozado em qualquer programa menor de humor, como os que proliferam hoje por todo o lado. Se aparecem nos jornais é como arqueologia industrial, arcaísmo, anacronismo, ou, pior ainda, folclore local, que é visto com a distanciação de uma bactéria exótica.

"Os problemas sociais são para muita gente uma maçada. Melhor: as diferenças sociais e a conflitualidade que daí surge são para muita gente uma maçada. O mundo deles é constituído por uma pirâmide social que começa nos abusadores do rendimento mínimo, passa para a "classe média baixa", para a "classe média" propriamente dita, a abstracção de muitas políticas, e sobe depois para os arrivistas com dinheiro, que o Independente tratava como o "novo dinheiro", os que vêm no jet set das revistas populares, para terminar na aristocracia do "velho dinheiro", o jet set invisível da verdadeira alta. Com esta pirâmide social, tão fictícia como os Morangos sem Açúcar, não há lugar para portugueses como os mineiros de Neves Corvo.

"Mas os mineiros de Neves Corvo existem, estão lá, à superfície e no fundo, vivem nas suas aldeias e vilas, com famílias, presas num Portugal tão profundo como o das minas onde trabalham. Não são muitos, não são novos, não fizeram as Novas Oportunidades e se saíram do Alentejo ou foi porque emigraram, ou porque vão nas excursões nos autocarros da autarquia. Os seus slogans, o penhor que pagam à hegemonia da comunicação, nem sequer são muito eficazes fora do mundo das minas. Tinham duas reivindicações: o aumento do "subsídio de fundo" e a "comparticipação de Santa Bárbara", expostas em duas palavras de ordem - "aumento do subsídio de fundo, não é nada do outro mundo", "Sta. Bárbara padroeira, comparticipação inteira".



O "fundo" era o "fundo" das minas, um lugar que dificilmente imaginamos na sua dureza, mesmo que as minas já não sejam como as do Germinal. Mesmo assim, quanto vale trabalhar nestas condições? Como é que calculamos com justiça o valor de um trabalho duríssimo e perigoso? Não sei. Só sei que não pode ser calculado apenas em termos de pura "racionalidade económica" como agora se diz. E, imaginem, eu sou um liberal... E o dia de Santa Bárbara, 4 de Dezembro, padroeira dos mineiros, a noiva à força da Bitínia, convertida ao cristianismo e que viu a terra abrir-se para a esconder, querem nesse dia os mineiros a "comparticipação inteira". A Santa que uma antiga oração que apela a outras suas virtudes milagreiras, contra os trovões e os relâmpagos, talvez os ajude, a "enfrentar de fronte erguida e rosto sereno todas as tempestades e batalhas da vida".

"Pois é. Isto é o Portugal que falhamos, o Portugal que ignoramos, o Portugal que deixamos deslaçar, fragmentar, perder-se numa deriva para a obscuridade que as luzes do espectáculo fátuo em que vivemos não alumiam. E no entanto, há muito desse Portugal lá fora: mineiros, pescadores, agricultores, operários, trabalhadores da construção civil, empregadas da limpeza, marinheiros, gente que faz os trabalhos menos qualificados nos hospitais, nas escolas, nas autarquias, numa deriva para a pobreza, para o desemprego, para o fim da breve esperança de um Portugal melhor e mais justo. Claro que há outro Portugal, mais jovem, mais culto, mais dinâmico, apesar de tudo com mais expectativas realizáveis e menos peso de más condições de vida ancestrais. Mas, mesmo esse, está em crise, mesmo esse prepara-se para emigrar, prepara-se para se soltar na esperança da mobilidade social. Mas o nosso drama é o deslaçamento entre os dois mundos, a perda de contacto entre as realidades sociais diferentes, o afastamento de portugueses dos portugueses e a ignorância, quando não a indiferença, que os afasta uns dos outros.

"É por isso que não queremos saber para nada dos mineiros de Neves Corvo e da sua arcaica greve. Na verdade, nunca houve muito cimento entre os portugueses, mas agora há menos e tudo trabalha para que ainda haja menos".

(in Público de 10 de Abril de 2010.)

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

O Respigo da Semana - A opinião de Pacheco Pereira sobre José Sócrates.

Discordo muitas vezes das opiniões de Pacheco Pereira. Mas tenho-o em conta de um político e historiador sério, que sabe argumentar e fundamentar as suas opiniões.

A sua leitura é por isso um desfio constante e um estímulo aos nosso pensamento.
O texto que escolhi resume de forma clara a desconfiança que com ele partilho em ralação à figura política de José Sócrates e a tudo de negativo que ela representa para esta país.
Por isso esta foi a minha escolha para “o respigo da semana”


“UM PROBLEMA DE CONFIANÇA

“Compreendo muito bem que haja meus amigos no PS que se interroguem sobre as razões pelas quais "ataco" tantas vezes José Sócrates e que entendam esse ataque como uma questão de animosidade pessoal. Divirjo profundamente das suas políticas, que penso fazem mal ao país, e coloco-o numa espécie de top ten daqueles políticos do PS, do PSD e do CDS que entendo terem, pela sua acção política e governativa, provocado mais danos ao Bem Público, como foi o tandem Guterres-Pina Moura. Mas não são as discordâncias políticas, nem sequer é o julgamento sobre o Governo, que inclui ministros que respeito, que explicam a minha atitude.

“O problema com Sócrates é outro: é um problema de desconfiança política profunda. Acrescentei o adjectivo "política" porque o terreno dessa desconfiança é o da própria acção política, não o da pessoa, embora reconheça que é impossível separar de todo os dois níveis, porque a desconfiança implica também com uma questão de carácter. Mas gostaria que, no que eu digo e no que eu faço, a desconfiança ficasse no político e fosse a partir do político que inquinasse o julgamento do carácter e não ao contrário. Não penso que os políticos tenham que ser julgados pelo carácter, o que é sempre uma atitude propícia a um moralismo que acaba por ser arrogante, mas o carácter também importa e em determinadas circunstâncias importa mais. É o caso de José Sócrates.

“Essa desconfiança não me surgiu com o aparecimento da personagem na cena pública, cuja acção como secretário de Estado na co-incineração apoiei, nem na sua vitória de 2005. Pelo contrário. Foi encontrando terreno propício quando me foram sendo cada vez mais nítidos o papel da encenação e da pose na sua acção e a crescente disparidade entre os resultados e a propaganda. Mas também não foi por isso. Sócrates era um político típico da sua geração e da sua formação e nisso não era muito diferente de muitos políticos oriundos do interior dos partidos, das "jotas" em particular", feitos pela promiscuidade entre as "fontes" e os jornais, com "biografias do nada", especializados nas técnicas interiores das carreiras partidárias, construindo "imagens" e obcecados pelo "protagonismo". Portugal e a Europa estão cheios deste tipo de políticos, que se entendem bem entre si e movem-se com habilidade pelo actual panorama mediático, as televisões em particular. Nesse estilo, Sócrates era aliás do melhor, porque não se chega onde ele chegou sem qualidades, muito trabalho, determinação e - e isto é uma questão-chave - sem um grupo. No aparelho sobe-se sempre em grupo, e o de Sócrates anda à sua volta em tudo o que é complicação passada e presente. Mas, mesmo assim, nada disto chegava para me mover contra Sócrates com a intransigência que, reconheço, tenho.

“O clic, chamemos-lhe assim, foi, de facto, a primeira "história", a do curso e a do diploma. Nada daquilo seria muito relevante, se fosse apenas uma certa ligeireza associada à pose, e um curso mais ou menos artificial, que não foi apenas o dele, mas o de muitos da sua geração que apareceram "formados" em escolas privadas pouco exigentes e facilitadoras. Confrontado com o facto de usar um título académico que não possuía, Sócrates podia ter acabado com a questão num instante, dizendo que partilhava a reivindicação dos seus colegas de considerar que o seu curso era de "engenheiro", ou admitindo que não fora muito rigoroso. Toda a gente passaria em frente e não haveria danos.

“Mas ele insistiu que estava tudo bem, e não só que estava bem como tudo era exemplar. E esta atitude, acompanhada por algo que acompanha sempre Sócrates, que é uma enorme e agressiva pressão sobre todos os que não lhe são subservientes - e como são poucos nota-se mais -, levou-me a olhar com outros olhos para o que aparecia e para documentos particularmente bizarros como o currículo emendado existente na Assembleia. Fiquei convicto de que ele era capaz de fazer muita coisa que não devia, por seu próprio interesse, e como se trata de um homem poderoso, isso preocupa-me.

“A partir daí não há pedra em que não se dê um pontapé, casinhas, processos na área do ambiente quando ele foi secretário de Estado ou ministro, Freeport, negócios ligados ao controlo da comunicação social, Face Oculta, em que Sócrates não apareça. Pode-se dizer que isso é perseguição, como há quem no PS diga. Mas não é, o problema é que Sócrates aparece sempre lá, perto ou longe, com mais ou menos responsabilidades, e aparece porque está lá. Ele, a família, os seus amigos do PS, as pessoas que escolheu, as áreas onde governou e governa. E, quando ele aparece, nada nunca se esclarece cabalmente. Nem na justiça (e isso é uma arma de dois bicos, porque também o prejudica), nem na parte da política que exige transparência. Por isso, a minha desconfiança original não tem conhecido a não ser um crescendo, porque encontra um padrão e não "casos". E penso, posso estar enganado, mas penso, que essa desconfiança é puramente racional.

“O que está a acontecer com o seu envolvimento no caso Face Oculta, e isto para usar o termo exacto "envolvimento" e não "culpa", é mais uma pedra em que, quando se lhe dá um pontapé, aparece Sócrates. Ou dito de outra maneira, cada cavadela sua minhoca, numa terra que, pelos vistos, é fértil nas ditas porque algum adubo há-de ter. Esclareço já que sou contra a violação do segredo de justiça, e, como não sou jornalista, desejo apenas que os jornalistas sejam especialmente criteriosos e restritivos na utilização de documentação oriunda da violação desse segredo. Ou seja, que sejam muito rigorosos no julgamento do interesse público daquilo que publicam e dos direitos conflituais que colocam em causa. Não digo isto apenas agora, já o disse na questão da Casa Pia, talvez o único caso em que houve momentos de "justicialismo" na investigação criminal.

“Mas, uma vez publicada a informação, admitindo que ela é verdadeira, não se pode evitar que nos pronunciemos sobre o "escândalo público" que ela suscita, nem sobre os factos que ela revela. E isto é válido tanto para José Sócrates, em que há uma verdadeira barragem, quase chantagem, para que não se discuta o conteúdo do que vem a público, como para António Preto, em que parece que ninguém repara sequer que o que se esteve a discutir nestes últimos anos foram escutas publicadas em violação do segredo de justiça, em que aparecia a história da "mala". Não pode haver filhos e enteados, com critérios diferentes.

“E o que se sabe, sem ter sido desmentido, sendo até confirmado da habitual forma retorcida pelo primeiro-ministro, é que José Sócrates mentiu ao Parlamento sobre o seu conhecimento e eventual papel na tentativa de compra pela PT de parte da TVI. Esta não é uma matéria secundária, mas releva das relações institucionais entre órgãos de soberania. E quando digo que ele próprio já confirmou de forma retorcida, foi por o ver começar a fazer uma distinção, demasiado útil, entre conhecer e ter sido "oficialmente informado", que se percebe ir ser a escapadela que vai usar. E é isso que me faz desconfiar e muito, porque o que José Sócrates disse ao Parlamento e aos jornalistas nessa ocasião foi que "não estou sequer informado disso" quando se tratava de saber que grau de envolvimento tinha ele próprio e o Governo no processo. E neste caso, saber a verdade é crucial porque envolve algo de que este Governo tem sempre negado: a interferência a partir do poder na comunicação social. Pelos vistos, o que veio já a público explica que quem temia a chamada "asfixia democrática" tinha até mais razão do que imaginava.

“É por isso que desconfio de Sócrates. Vale o que vale, mas para o meu julgamento vale muito. E as razões pelas quais desconfio fazem-me considerar que existe perigosidade na sua actuação para a democracia e para Portugal.”

(Pacheco Pereira, Público de 14 de Novembro de 2009) .