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segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Em Defesa dos Professores

Vale a pena "perder" algum tempo a ouvir a crónica de hoje da rúbrica O Fio da Meada (clicar aqui)  da Antena 1.

Com o título " Incompetentes, lamuriosos e desonestos" , a crónica de Joel Neto é um forte e incisivo manifesto de apoio a uma das classes mais desprezada pelo poder político, por comentadores sem escrúpulos, e por economistas arrivistas.

Numa altura em que os professores voltam a estar no centro das atenções, esta é uma das crónicas mais lúcidas que ouvi até hoje.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Três Falácias acerca da luta dos professores.



O "argumentário" de comentadores habituais, como Miguel Sousa Tavares e outros “achistas” do seu gabarito, usado para denegrir os professores (existirão razões do foro psiquiátrico que desconhecemos, que justificam tanto rancor???…), baseia-se num conjunto de meias-verdades, má fé e num conjunto de  falácias :

Primeira falácia:

- Que os professores não podem ser privilegiados em relação a outros sectores da Função Pública!

Esta primeira falácia foi hoje desmentida pela seguinte notícia do Diário de Notícias (leiam principalmente o nosso sublinhado):

“Para Pedro Bacelar de Vasconcelos, constitucionalista e atual deputado do PS, liderando a Comissão de Assuntos Constitucionais na Assembleia da República, o facto de o governo estar já a reposicionar na carreira outros setores da Administração Pública que também sofreram o "congelamento" não implica a existência de uma inconstitucionalidade.

"Mesmo tendo o governo já aprovado a devolução, sem restrições, do tempo de serviço congelado à maioria dos trabalhadores da Administração Pública com carreiras gerais, deixando de fora - para já - apenas as que têm regimes específicos, como é o caso dos professores e dos polícias.

"Estamos a falar de políticas que têm também uma componente contratual, de negociação das carreiras e diferenças específicas quanto ao estatuto", defende ao DN, considerando "altamente improvável" a existência de uma inconstitucionalidade, "não a excluindo por completo"

"Já para Jorge Bacelar Gouveia, constitucionalista mais próximo do PSD, é "claro que há uma desigualdade de tratamento" face a outros trabalhadores. "isso parece-me evidente: viola o princípio da igualdade e também viola o princípio da confiança", diz, lembrando os compromissos assumidos sobre essa matéria.

"Recorde-se que além da devolução do tempo de serviço congelado ter sido objeto de um acordo de princípio, assinado em novembro entre os ministério das Finanças e da Educação e os sindicatos, a medida foi inscrita no orçamento do Estado deste ano, no artigo 19.º, tendo ainda sido objeto de um projeto de resolução aprovado por unanimidade na Assembleia da República”.

(sublinhado meu)

(in Pedro Sousa Tavares, “Quem tem razão na luta dos professores? Juristas divididos”, edição de 6/6/2018 do “Diário de Notícias”).

Ou seja, não são os professores os “privilegiados”  nesta situação, mas outros sectores da Administração Pública.

Segunda Falácia:

- Que os custos para o estado da contagem integral do tempo de serviço vão custar ao país cerca de 600 milhões de euros anuais.

Não se percebe onde se foi buscar esse número. Dividindo-o pelos cerca de 120 mil professores abrangidos pela medida (outro número a confirmar) dava qualquer coisa como 5 mil euros por ano a mais para cada professor…!!!!

Mas mesmo que esse número fosse o necessário para dignificar uma carreira, onde a maioria dos professores ganham pouco mais de mil euros por mês, pagam do seu bolso deslocações diárias de dezenas ou centenas de quilómetros e sofrem todo o tipo de pressões sociais, perdendo direitos todos os anos, pelo menos ao longo do últimos 15 anos, e ainda têm de fazer formação regular (apesar de terem estudado vários anos para se licenciarem), talvez  até não seja demasiado.

Como é que alguém que, para dizer meia hora de baboseiras semanais na comunicação social, umas mais certeiras, outras menos, (como acontece com qualquer pessoa informada…mas ninguém recebe salário por isso...), recebe de salário muito mais do que aquilo um professor, no topo da carreira, não sonha receber, se pode atrever a falar no salário dos outros???

E como é que existe “lata”, por parte de muito comentador, para se indignarem com os tais hipotéticos 600 milhões e ficar impávido e sereno perante a notícia, saída neste fim-de-semana, segundo a qual os portugueses pagaram 17 MIL MILHÕES DE EUROS para salvar a banca nos últimos dez anos (ou seja…MIL E SETECENTOS MILHÕES DE EUROS POR ANO PARA A BANCA!!!!).


TERCEIRA FALÁCIA

- Não há desemprego entre professores.

Esta é uma das falácias mais complicadas de provar.

Mas existe desemprego entre professores, só que ele confunde-se mais com emprego precário do que com o conceito clássico de desemprego.

Aliás, mesmo assim, basta percorrer os títulos da imprensa ao longo dos últimos anos para encontrar dezenas de notícias sobre o desemprego de professores.

Basta comparar a lista de candidatos a concursos anuais com os realmente colocados.

Muitos do que ficam de foram não são considerados  “desempregados” porque todos os professores têm de passar pelo “limbo” da precariedade antes de entrarem para o quadro.

No meu caso, passei dez anos nesse limbo, e era no tempo das “vacas gordas”, tinha de concorrer para tudo todos os anos e, se não fosse colocado, ficava no desemprego, mas não era classificado como tal, sem direito a subsidio de desemprego. Por isso tinha de me sujeitar a tudo, até a um ano inteiro a trabalhar para aquecer, pagando uma segunda casa longe da minha morada e da família… e fui dos que tiveram sorte.

Hoje a situação dos professores em início de carreira (um “início” que nalguns casos dura …10…15…20 anos…!!!!) é ainda pior. 

Não são desempregados, mas sujeitam-se a horários incompletos, mal pagos, a mudar todos os anos de casa e muitas vezes a centenas de quilómetros da família….e sem qualquer ajuda de custo…apenas para conquistarem uma melhor posição no concurso do ano seguinte, com a esperança de se efectivarem…


Enfim, ouvir comentadores, ditos “jornalistas”, falar nos privilégios dos professores…só por má-fé, ignorância (um jornalista ignorante???) ou pura desonestidade intelectual.


Podem existir razões financeiras e outras para ser difícil rever a situação do tempo perdido.

Pode haver uma intransigência exagerada dos sindicatos nesta questão.

Mas o que não se pode fazer, é usar este caso para atacar toda uma classe profissional que tem sido das mais sacrificadas e é, apesar disso, das mais empenhadas em melhorar as condições de vida de gerações de portuguesa.

Menos ainda é aceitável o afã com que alguns comentadores usam argumentos falaciosos, meias-verdades e falsidade para atacar toda uma classe profissional.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

A propósito do PISA :Parabéns Colegas Professores


Não sou adepto de rankings ou de generalizações estatísticas, coisas bem diferente da análise séria e científica de dados estatísticos.
Transformar estatísticas e rankings em concursos de misses é uma das práticas a que se costumam dedicar jornalistas, comentadores e políticos.
Por isso olho para dados como os da OCDE, como os célebres PISA, com desconfiança, não negando que tenham por base um cuidado trabalho científico, mas que se prestam a generalizações demagógica e apressadas.
Mas, mesmo assim, penso que o que há a reter dos relatórios PISA agora divulgados é que Portugal passou da cauda dessa estatística educativa, onde se encontrava há 16 anos, para o topo, em  todas as áreas e de forma continuada.
Se isso revela alguma coisa é o resultado um trabalho continuado dos professores junto dos seus alunos, contra ventos e marés e apesar de ministros como Maria de Lurdes Rodrigues ou Nuno Crato ,que tão mal trataram essa classe profissional, acolitados por um bando de comentadores identificados e de políticos oportunistas que andaram a tentar destruir a reputação desses profissionais.
É caso para dizer, com orgulho, pois também pertenci à equipa até há dois anos, parabéns colegas professores!!!

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

A Crónica de Vasco Pulido Valente sobre as "Provas" de avaliação de Professores: A estupidez à solta

Com meia duzia de frases Vasco Pulido Valente desmascara a idiotice das provas de avaliação impostas aos professores e todo o barulho que se tem feito na comunicação social sobre os níveis de reprovação:

A estupidez à solta(clicar para ler).

terça-feira, 22 de julho de 2014

O DIA DE HUMILHAR PROFESSORES...


A história repete-se, a primeira vez com tragédia, a segunda como comédia.

O ataque aos professores e à sua dignidade começou com Maria de Lurdes Rodrigues e foi...uma tragédia.

Agora repetiu-se, mas sob a forma de comédia, com o inenarrável Nuno Crato, rei do cinismo nacional e descarado ministro da educação (???) e ciência (???).

Ao menos Maria de Lurdes tinha um projecto, gostasse-se ou não dele, e tinha conhecimentos sobre o assunto,mesmo que fizesse destes, quanto a nós, um uso incorrecto e tendencioso.

Nuno Crato é a suprema ignorância, um mero executor das políticas de austeridade aplicadas à educação, competente em ver-nos a todos como simples números embrulhados em cálculos matemáticos.

A cereja em cima do bolo da sua inqualificável "política educativa" está no modo com convocou os professores mais novos para o exame deste dia, um exame também ele inqualificável e que tem como único objectivo humilhar os professores.

Em homenagem aos meus jovens ex-colegas, aqui deixo a última crónica de Pacheco Pereira sobre o tema, que arruma o tema (e Nuno Crato) com a mestria de um pensador atento e informado:

"Voltamos à moralidade ou à falta dela

por JOSÉ PACHECO PEREIRA in Público de 19/07/2014 

"Voltar a falar de moralidade é algo que só faço com imensa relutância. A palavra e a coisa são tão ambíguas e prestam-se a tantas manipulações, que a probabilidade de sair asneira ao usá-la é grande. Por regra, entre o moralismo hipócrita, tão comum no mundo católico apostólico romano, e o cinismo, eu acho que o cinismo faz menos estragos em democracia.

"O ponto de vista realista, ou, se se quiser, cínico, pode ser pedagógico em política, quando esta está cheia de falsos moralismos, densa de presunção moral. Já houve alturas em que foi assim e ocasionalmente, nalguns momentos e eventos, é assim. Nessas alturas faz bem lembrar que a natureza humana é como é, e pode-se ser um carácter duvidoso a título pessoal e ser-se um bom político, que sirva a comunidade e o bem comum. Churchill serve de exemplo, ou Lincoln. Parece chocante, mas a moralidade pessoal é um terreno pantanoso em que é mais fácil entrar do que sair e o julgamento da moralidade alheia, quase sempre hipócrita, tem a notável tendência de funcionar como boomerang. É por isso que só com pinças.

"Mas no tempo em que vivemos não é o moralismo o risco, dada a natureza dos nossos governantes que cresceram numa cultura amoral e de “eficácia”. Por isso é preciso o contrário, chamar a moralidade para a praça pública, porque há coisas que são inaceitáveis numa democracia que desejamos minimamente decente. Já não digo sequer decente, mas minimamente decente. E têm a ver com a moral porque atingem a verdade, a recta intenção, o objectivo do bem comum, o respeito pela dignidade das pessoas e são actos de maldade, de mau carácter, muitas vezes disfarçados de espertezas e habilidades.

"O exercício desta imoralidade activa na governação impregna toda a vida pública de maus exemplos, de salve-se quem puder, de apatia ou revolta, de depressão ou violência. Torna Portugal um país doente e um país pior, promove os habilidosos sem escrúpulos e afronta os homens comuns, insisto, minimamente decentes, que não querem o mal para ninguém, desde que os deixem sossegados e sem afronta. É isso que provoca a institucionalização do dolo, do engano, a construção de políticas destinadas a tramar portugueses, umas vezes muitos e outras vezes poucos, sem qualquer vergonha por parte dos seus executantes. E aí eu nasço redivivo como um moralista agressivo, e falo cem vezes do mesmo, sem descanso. Não gosto, mas falo.

"A história mais recente e que me fez escrever este artigo foi a desfaçatez do truque que o Ministério da Educação usou para marcar os exames aos professores com três dias úteis de pré-aviso, caindo do céu da surpresa no fim de Julho, com grande estrondo. Na verdade, são teoricamente cinco dias, o mínimo exigido por lei, mas só teoricamente. O truque foi pré-assinar um despacho em segredo, no quinto dia divulgá-lo no Diário da República a contar do dia da sua assinatura, para que na prática faltassem, após o anúncio ser conhecido, apenas três dias úteis até ao exame, 17, 18, e 21 de Julho. Professores que já estavam a receber o subsídio de desemprego, que já estavam de férias, e que não sabiam que iam ter um exame para que é suposto prepararem-se, cai-lhes em cima uma data que é já praticamente amanhã. Nem o gado é suposto ser tratado assim, mesmo quando vai para o abate.

"Porquê esta rapidez? A resposta é muito simples: para evitar que os sindicatos pudessem apresentar um pré-aviso de greve no prazo exigido pela lei – ou seja, o Governo faz um truque descarado e sem vergonha para contornar uma lei da República, que permite o exercício de um direito.

"Pode-se ter o ponto de vista que se quiser sobre os exames exigidos a professores que já tinham as qualificações necessárias para ensinar e, nalguns casos, já ensinavam há vários anos. Esta é outra questão e sobre ela não me pronuncio. O Governo pode até ter razão em querer os exames e os professores não ter ao recusá-los. Aqui posso ser agnóstico sobre essa matéria. Não é sobre isto que escrevo, mas sobre o pequeno truque, habilidade, esperteza e os seus efeitos de dissolução social como norma de governação.


"Vai haver quem encolha os ombros e ache muito bem que se pregue uma partida a Mário Nogueira e aos seus sindicalistas da Fenprof. (No entanto, todos os sindicato, mesmo os da UGT, dirigidos por membros e simpatizantes do PSD, estão de acordo em recusar o truque do Governo.) Mas, como a sociedade portuguesa está em modo de “luta de classes”, há aí muita gente agressiva a querer vingança no tempo útil que sobra até o Governo cair. A mó já é a mó de baixo e daí muita raiva pouco contida, que serve de base à indecência".

quinta-feira, 13 de junho de 2013

O Respigo da Semana: "Os três pastorinhos e a greve dos professores"...





Os três pastorinhos e a greve dos professores

in Público, 5 de Junho de 2013

por Santana Castilho *

“ Depois do presidente Cavaco, que não é palhaço como sugeriu Miguel Sousa Tavares, ter atribuído à Nossa Senhora de Fátima a inspiração da trindade que nos tutela para fechar a sétima avaliação, vieram três pastorinhos (Marques Mendes, Portas e Crato) pregar no altar do cinismo, a propósito da greve dos professores: “ … marcar uma greve para coincidir com o tempo dos exames nacionais … não é um direito … é quase criminoso … é uma falta de respeito … ” (Marques Mendes); “… se as greves forem marcadas para os dias dos exames, prejudicam o esforço dos alunos, inquietam as famílias …” (Portas); “… lamentamos que essa greve tenha sido declarada de forma a potencialmente criar problemas aos nossos jovens, na altura dos exames …” (Crato). Marques Mendes “redunda” quando afirma que a greve é um direito constitucional. Mas depois qualifica-a de abuso e falta de respeito. Que propõe? Que se ressuscite o papel selado para que Mário Nogueira e Dias da Silva requeiram ao amanuense Passos a indicação da data que mais convém à troika? Conhecerá Portas greves com cores de arco-íris, acetinadas, que sejam cómodas para todos? Que pretenderia Crato? Que os professores marcassem a greve às aulas que estão a terminar? Ou preferia o 10 de Junho? A candura destes pastorinhos comove-me. Sem jeito para sacristão, chega-me a decência mínima para lhes explicar o óbvio, isto é, que os professores, humilhados como nenhuma outra classe profissional nos últimos anos, decidiram, finalmente, dizer que não aceitam mais a desvalorização da dignidade do seu trabalho. 

“Porque se sentem governados por déspotas de falas mansas, que instituíram clandestinamente um estado de excepção. 

“ Porque, conjuntamente com os demais funcionários públicos, se sentem alvo da raiva do Governo, coisas descartáveis e manipuláveis, joguetes no fomento das invejas sociais que a fome e o desemprego propiciam.

“Porque têm mais que legítimo receio quanto à sobrevivência do ensino público. 

“Porque viram, na prática, os quadros de nomeação definitiva pulverizados pelo arbítrio. 

“Porque rejeitam a vulgarização da precariedade como forma de esmagar salários e promover condições laborais degradantes. 

“Porque foram expedientes perversos de reorganização curricular, de aumento do número de alunos por turma e de cálculo de trabalho semanal que geraram os propalados horários-zero, que não a diminuição da natalidade, suficientemente compensada pelo alargamento da escolaridade obrigatória e pela diminuição da taxa de abandono escolar. 

“ Porque a dignidade que reivindicam para si próprios é a mesma que reclamam para todos os portugueses que trabalham, sejam eles públicos ou privados.

“Porque sabem que a tragédia presente de professores despedidos será o desastre futuro dos estudantes e do país. 

“Porque a disputa por que agora se expõem defende a sociedade civilizada, as famílias e os jovens. 

“Rejeito a modéstia falsa para afirmar que poucos como eu terão acompanhado o evoluir das políticas de educação dos últimos tempos. Outorgo-me por isso autoridade para afirmar que é irrecuperável a desarmonia entre Governo e professores. A confiança, esse valor supremo da convivência entre a sociedade civil e o Estado, foi definitivamente ferido de morte quando a incultura, a falta de maturidade política e o fundamentalismo ideológico de Passos, Gaspar e Crato trouxeram os problemas para o campo da agressão selvagem. Estes três agentes da barbárie financeira vigente confundiram a legitimidade eleitoral, que o PSD ganhou nas urnas, com a legitimidade para exercer o poder, que o Governo perdeu quando escolheu servir estrangeiros e renegar os portugueses e a sua Constituição. Com muitos acidentes de percurso, é certo, a Nação cimentada pela gestão solidária de princípios e valores de Abril está a ser posta em causa por garotos lampeiros, apostados em recuperar castas e servidões. Alguém lhes tem que dizer que a educação, além de direito fundamental, é instrumento de exercício de soberania. Alguém lhes tem que dizer que princípios que o Ocidente levou séculos a desenvolver não se podem dissolver na gestão incompetente do orçamento. Alguém lhes tem que dizer que o desemprego e a fome não são estigmas constitucionais. Que sejam os professores, que no passado se souberam entender por coisas bem menores do que aquelas que hoje os ameaçam, esse alguém. Alguém suficientemente clarividente para vencer medos e comodismos, relevar disputas faccionárias recentes, pôr ombro a ombro contratados com “efectivos”, velhos com novos, os “a despedir” com os já despedidos. Alguém que defenda o direito a pensar a mais bela profissão do mundo sem as baias da ignorância. Alguém que diga não à transformação da educação em negócio. Alguém que recuse transferir para estranhos aquilo que nos pertence: a responsabilidade pelo ensino dos nossos alunos”. 

* Professor do ensino superior (s.castilho@netcabo.pt)

quarta-feira, 8 de maio de 2013

A Verdade das Mentiras- Santana Castilho desmascara Marques Mendes:



 (Fonte da Imagem: A Educação do Meu Umbigo).

É assim que se “faz” opinião pública em Portugal.


Hoje em dia a maior parte do “jornalismo” que se faz, em especial na televisão, o órgão de comunicação social com maior influência e expansão, baseia-se em comentários de comentários, sem confirmar os “factos” debitados.


Mesmo que esses comentários sejam desmascarados pelos factos, pela correcta análise das notícias, pela investigação séria ou pela realidade, o que passa é a opinião e a mentira debitada por tão “objectivos” comentadores, até porque os “jornalistas” raramente procuram confirmar ou contra-argumentar, com uma investigação cuidada (aliás, faz-se cada vez menos investigação com interesse, com a estafada desculpa das dificuldades financeiras, que não existem, contudo, para pagar principescamente à maior parte desses comentadores…). 


Num país de políticos "semianalfabetos" ou de analfabetismo funcional, quem que se apresenta bem engravatado, bem falante e mostrando uns gráficos bem feitos, repetindo até à exaustão as suas “verdades”, ganha imediatamente credibilidade na opinião pública e os seus argumentos são usados até à exaustão pelo público em geral, nos blogues,  nos fóruns públicos e nas conversas de café.


Para mim, um comentador devia ser alguém que conhecesse o assunto que aborda, com dados objectivos e, preferencialmente, sem ligações ao poder político.


Mas, com raras e honrosas excepções (Pacheco Pereira é uma dessas raras excepções), não é isso que se passa. Nas televisões enxameiam os comentadores que “sabem” de tudo , do futebol à economia, da política à culinária, e quase todos com um passado pelos partidos do “arco do poder” ou futuros candidatos a cargos do poder.


Hoje em dia, a melhor maneira de manipular a opinião pública é mostrar uns gráficos bem desenhados e comparar o que , muitas vezes, é incomparável ou apenas comparar parte da realidade, muitas vezes mera manipulação estatística.


A moda começou com o Medina Carreira e agora tem seguidores por todos os lados.


O último e escandaloso caso aconteceu com a “conversa” de Marques Mendes, o cada vez mais porta-voz não oficial do governo de Passos Coelho e da Presidência da  República (que são cada vez mais a mesma coisa), para justificar os cortes no número de professores.


Em baixo transcrevemos o artigo de Santana Castilho, hoje publicado no jornal Público, onde se desmonta as falácias e manipulações de Marques Mendes, do qual destacamos a seguinte passagem, bem elucidativa dessa manipulação:


Marques Mendes colocou, lado a lado no écran, o 2º e o 3º gráficos e foi claro nas explicações acessórias: o crescimento dos professores fez-se em contraciclo; os governos anteriores falharam, fazendo crescer os professores à taxa de 53%, enquanto os alunos diminuíam à taxa de 51%. Só que, quando comparamos o incomparável, corremos o risco de passar de pavão a espanador. Marques Mendes, ao dizer na SIC, como disse, que os professores cresceram 53%, passando de 95.400 em 1980, para 146.200 em 2010, usou o número de professores respeitantes a todo o sistema escolar não superior (1º. 2º e 3º ciclos do ensino básico, mais o ensino secundário). Como é evidente para qualquer, Marques Mendes só poderia relacionar o decréscimo dos alunos do 1º ciclo com a evolução do número de professores do 1º ciclo. E o que aconteceu a esse universo de professores? Cresceu 53% como disse o descuidado comentador? Coisíssima nenhuma! Em 1980 tínhamos 39.926. Em 2010 eram 31.293. Não cresceram na disparatada percentagem com que Marques Mendes enganou o auditório da SIC..”.

Também o blogue "A EDUCAÇÃO DO MEU UMBIGO" desmascara as mentiras de Marques Mendes.


O estilo falacioso de Marques Mendes também tem tido os seus seguidores nos últimos tempos entre vários comentadores , quando falam do “peso”  dos funcionários públicos ou dos “privilégios” dos pensionistas do Estado.


Mas isso é outra história.


Por agora convidamo-los a ler integralmente o texto de Santana Castilho:



Marques Mendes errou grosseiramente na SIC


de Santana Castilho  in  Público, Quarta-feira, 8 de Maio de 2013



“Marques Mendes referiu-se à situação dos professores portugueses, no sábado passado, durante o programa de análise política que mantém na SIC. Fê-lo com ligeireza. Evidenciou desconhecimento. Adulterou a verdade. Os erros em que incorreu serviriam para validar a tese oficial de que temos professores a mais e legitimariam os despedimentos futuros, se não fossem corrigidos. Marques Mendes apresentou três gráficos. O primeiro mostrava a evolução do número total de alunos, de 1980 a 2010. O segundo fazia o mesmo exercício, circunscrito aos alunos do 1º ciclo do ensino básico, para concluir que, entre 1980 e 2010, perdemos 51% desses alunos. E o terceiro gráfico dizia-nos que, no mesmo período, isto é, de 1980 a 2010, o número de professores tinha crescido 53%. Para que dúvidas não restassem, Marques Mendes colocou, lado a lado no écran, o 2º e o 3º gráficos e foi claro nas explicações acessórias: o crescimento dos professores fez-se em contraciclo; os governos anteriores falharam, fazendo crescer os professores à taxa de 53%, enquanto os alunos diminuíam à taxa de 51%. Só que, quando comparamos o incomparável, corremos o risco de passar de pavão a espanador. Marques Mendes, ao dizer na SIC, como disse, que os professores cresceram 53%, passando de 95.400 em 1980, para 146.200 em 2010, usou o número de professores respeitantes a todo o sistema escolar não superior (1º. 2º e 3º ciclos do ensino básico, mais o ensino secundário). Como é evidente para qualquer, Marques Mendes só poderia relacionar o decréscimo dos alunos do 1º ciclo com a evolução do número de professores do 1º ciclo. E o que aconteceu a esse universo de professores? Cresceu 53% como disse o descuidado comentador? Coisíssima nenhuma! Em 1980 tínhamos 39.926. Em 2010 eram 31.293. Não cresceram na disparatada percentagem com que Marques Mendes enganou o auditório da SIC. Outrossim, registou-se uma diminuição de 8.633 professores.



“Dir-se-á, removido o disparate, que a diminuição de professores não foi proporcional ao decréscimo de alunos, no ciclo de estudos em análise. Outra coisa não seria de esperar, considerando as alterações curriculares introduzidas nos 30 anos em apreço. Cito, a mero título de exemplo, a escola a tempo inteiro, que aumentou drasticamente a permanência dos alunos na escola, a introdução do Inglês no ensino básico, as actividades de enriquecimento curricular, as múltiplas modalidades de apoio a alunos carenciados, a diminuição das reprovações e a forte redução do abandono escolar. Se extrapolarmos estas considerações para o ensino secundário, não pode ser ignorado o novo regime da escolaridade obrigatória de 12 anos nem, tão-pouco, a circunstância de o número de professores que Marques Mendes situa em 2010 (146.200) ser hoje, em 2013, bem mais baixo: 111.704 (uma redução, de 2010 para 2013, de 34.496 docentes). Que isto não caiba na folha de Excel de Gaspar, que não acerta uma, já não surpreende. Que seja menosprezado pela insensibilidade e demagogia de Passos Coelho, cuja palavra vale nada, já é normal. Que tenha passado ao lado do rigor que se esperaria de quem ajuda a formar a opinião pública, no momento em que os funcionários públicos, em geral, e os professores, em particular, estão condenados a carregar a albarda pesada da incompetência do Governo, é intolerável. É péssimo serviço público. É serviço sujo.



“A diminuição da natalidade está muito longe de explicar a brutal redução do número de professores. O erro grosseiro de Marques Mendes ajudou a branquear o impacto de sucessivas medidas, cujo intuito se centrou, exclusivamente, em ganhos financeiros, a saber: encerramento de milhares de escolas, com a deslocação compulsiva de vastas populações de crianças de tenra idade e a correlata criação de criminosos giga-agrupamentos, inéditos no mundo civilizado; redução dos tempos lectivos de algumas disciplinas e abolição de outras; aumento do número de alunos por turma; aumento da carga horária dos professores; drástica redução das iniciativas de segunda oportunidade para os que abandonaram precocemente o sistema formal de ensino; e transferência para o Instituto de Emprego e Formação Profissional de valências que, antes, pertenciam às escolas públicas. Como se não tivéssemos 3.500.000 cidadãos, com mais de 15 anos, sem qualquer diploma ou apenas com a certificação do ensino básico. Como se não tivéssemos 1.500.000 cidadãos, entre os 25 e os 44 anos, que não concluíram o ensino secundário. Como se fosse possível crescer economicamente travando, sem critério nem visão, um esforço de 30 anos. Os 30 anos que Marques Mendes mal centrou na desfocada fotografia que revelou na SIC.



Marques Mendes não citou as suas fontes. As minhas foram: D.R., DGEEC/MEC, Pordata, “50 Anos de Estatísticas de Educação”- GEPE e INE”.