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segunda-feira, 9 de março de 2026

Os “meus” 10 Presidentes da República

 


Com a tomada de posse de Seguro, já “passaram” por mim 10 Presidentes da República.

Quando nasci era Craveiro Lopes o presidente, mas deste não me lembro, já que foi chutado por Salazar em 1958 e impedido de concorrer a um segundo mandato, por ter contestado o ditador.

De quem me lembro, e “me acompanhou” até aos 18 anos, foi do Américo Tomás, o corta fitas. Vi-o ao vivo quando da inauguração da Escola Técnica (actual Henriques Nogueira) em 1970.

Américo Tomás foi o vencedor das eleições fraudulentas de 1958, onde concorreu contra Humberto Delgado. O susto foi tal, que o processo de eleição presidencial passou a ser por nomeação de um colégio eleitoral controlado pelo regime, o que garantiu a perpetuação de Tomás como presidente.

Há quem diga que o único gesto de coragem do marinheiro foi ter nomeado Marcelo Caetano primeiro-ministro, contra a vontade dos ultras do regime, em 1968, por causa da doença do velho ditador.

De resto, Tomás ficou conhecido pelos seus inenarráveis discursos, motivo de chacota geral. Publicações da oposição transcreviam os seus discursos, forma de, ao mesmo tempo que fugiam à censura, ridicularizarem o regime, tal o “nível” desses discursos.

O segundo presidente da minha vida foi o Spínola, recebido por herói do 25 de Abril, mas que cedo mostrou não estar à altura das circunstâncias, envolvendo-se com grupos terroristas da extrema-direita depois de ter falhado dois golpes de Estado contra os capitães de Abril.

Seguiu-se Coata Gomes, o homem que conseguiu evitar a guerra civil e travar os ímpetos revolucionários que nos podiam ter conduzido a uma nova ditadura. Cruzei-me com ele uma vez, mas já não era presidente.

Eanes foi o primeiro presidente eleito democraticamente, o homem que contribui para a consolidação e a estabilidade da democracia, uma das raras figuras que continua a ser consensualmente respeitada por todos os sectores políticos, pala sua firmeza e honestidade.

Veio depois o primeiro presidente civil, Mário Soares, uma das personalidades mais marcantes e controversas da nossa vida democrática, uma das presidências mais marcantes. Também me cruzei com ele várias vezes, quer enquanto presidente, quer na vida civil e tenho livros por si autografados.

Também conheci Jorge Sampaio, o único presidente que apoiei desde a primeira hora, tendo feito parte da lista oficial de apoiantes. Homem culto e recto, cometeu contudo dois erros, nomear Santana Lopes e, pouco depois, ter conduzido José Sócrates ao poder.

Cavaco Silva foi o senhor que se seguiu, para mim o pior de todos os presidentes eleitos, arrogante, ignorante atrevido, responsável pelos abusos da banca e pela desastrosa política do “ir além da Troika”. Só deixou saudades a uma certa direita arruaceira.

Com Marcelo Rebelo de Sousa também me cruzei várias vezes. Deixa agora a presidência como o mais popular de todos os presidentes, um dos mais cultos e criativos, embora tenha cometido erros político que nos conduziram à actual situação de instabilidade política e contribui involuntariamente para a ascensão da extrema-direita em Portugal.

O novo presidente António José Seguro, vai encontrar um país com graves problemas, agravados pela grave crise internacional. É, contudo, até agora o politico com maior apoio político da nossa história democrática e tem a obrigação de estar à altura das circunstâncias.

Cá estaremos para ver, desejando-lhe as maiores felicidades, para bem do país.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

70 velas

(primeiras páginas do Jornal "Diário de Lisboa" de 10 e 11 de Fevereiro de 1956)

Há uns anos, quando passei por um problema de saúde grave, temendo não sobreviver muito tempo, fiz um primeiro desejo, chegar ao fim daquele ano para assistir à primeira eleição de um presidente negro nos Estados Unidos (Obama). Esse desejo concretizou-se.

Depois, como as coisas foram correndo bem, alarguei um pouco o espaço temporal desse desejo, ver a minha filha a atingir a maioridade. Felizmente este desejo também se concretizou.

Percebendo que o risco de mortalidade se ia afastando, atrevi-me a fazer um último desejo: chegar aos 70 anos e o resto era ganho.

E aqui estou!

Agora é viver o tempo restante, enquanto valer a pena, quer do ponto de vista físico, quer do ponto de vista intelectual.

Até aos 80 é planear ano a ano, ou de dois em dois anos como vai acontecer com a renovação da carta, dos 80 aos 90, se lá chegar, é planear mês a mês e, se por ironia do destino, chegar aos 90, desde que autónomo física e mentalmente , é planear semana a semana.

No historial de família, excluindo o caso do meu pai que não chegou aos 50 e a minha avó paterna que faleceu ao 79, ambos os avôs faleceram aos 83, a minha avó materna aos 94, até agora a recordista, a minha mãe já conta 93 e as minhas tias viveram todas até aos 90.

Há pouco mais de 150 anos, como pude confirmar numas listas censitárias para este concelho, os 70 anos eram mesmo o limite, contando-se pelos dedos das mãos os que ultrapassavam aquela barreira.

Como me sinto ao chegar aqui? A mesma pessoa que fui crescendo ao longo destas 7 décadas, que tem as primeiras memórias de acontecimentos familiares e de vizinhança a partir dos 3 anos, (várias mudanças de casa e de terra em 1959, fixando-me finalmente na Praceta Afonso Vilela onde fiz os 4 anos em 10 de Fevereiro de 1960),  mas só se apercebeu que havia um mundo mais vasto pelos 6/7 anos, como se comprova pela datação dos primeiros acontecimentos de que me lembro : o “grande assalto ao comboio” em Inglaterra em 8 de Agosto de 1963, muito comentado nas noticias e lá por casa; a morte de Edith Piaf (notícia que me lembro de ouvir anunciada na rádio) em 10 de Outubro de 1963; o assassinato de John Kennedy em 22 de Novembro de 1963, cujas imagens vistas na TV, muito me impressionaram.

Além disso faço, parte de uma geração que viveu grandes acontecimentos e grande mudanças. Só para citar algumas dessas mudanças, antes de atingir a maioridade, os Jogos Olímpicos de 1964, em Tóquio, os primeiros a serem transmitidos para todo o mundo pela televisão, a inauguração da ponte sobre o Tejo em 6 de Agosto de 1966, a morte de Walt Disney em 15 de Dezembro de 1966 (ávido leitor dos Tio Patinhas, Zé Cariocas e Mickeys que o meu avô me dava, essa morte foi a primeira morte que senti profundamente como uma perda pessoal, passando a ter a noção de como a morte ceifa as referências que julgávamos imortais), a Conquita do Espaço, cujas aventuras seguíamos com entusiasmo aqui por casa, e que culminou com a chegada do Homem à Lua em 20 de Julho de 1969, o despertar do rock and roll, à volta dos êxitos do Beatles, as grandes cheias de 1967 e o terramoto de 1969, a agitação politica de 1969 e 1973 e, finalmente, entre outros acontecimentos, o 25 de Abril de 1974, que me apanhou nos meus 18 anos.

Esse ano distante de 1956, sem que tivesse então consciência, foi também um ano rico em acontecimentos que marcariam o rumo do mundo: em 26 de fevereiro  Nikita Kruschev denunciou os crimes do stalinismo, em Outubro a invasão da Hungria pelas tropas soviéticas. Nesse ano Marrocos e a Tunísia tornaram-se independentes, e deu-se a nacionalização do Canal do Suez por parte de Nasser do Egipto, provocando uma curta guerra no Médio Oriente. Juan Manuel Fangio sagrou-se pela 4ª vez campeão de Fórmula 1 e tiveram lugar os Jogos Olímpicos de Melbourne. Na musica, Elvis Presley era uma das grande novidades. Nesse mesmo ano morria Bertolt Brecht enquanto Fidel Castro iniciava, na Sierra Maestra, o movimento que levaria o “castrismo” ao poder na ilha de Cuba três anos depois. Em Portugal a Fundação Gulbenkian iniciaou a sua actividade.

Esse foi o último ano sem televisão em Portugal mas, ainda nesse ano, em 4 de Setembro de 1956, tiveram lugar emissões experimentais da RTP na da Feira Popular, preparando o inicio de emissões regulares que se realizaram a partir de 7 de Março de 1957.

Numa geração marcada pela cultura da imagem (cinema, Banda Desenhada e Televisão), que começou a substituir a geração anterior muito marcada pela cultura literária e tendo-me tornado um apaixonado pelo cinema, a lista de filmes estreados nesse ano de 1956 é, só por si, uma mostra invejável do melhor da história da 7ª arte : Os Dez Mandamentos de Cecil B. DeMille;…e Deus criou a mulher de Roger Vadim com Brigitte Bardot; O Gigante de George Srevens com James Dean, Elisabeth Taylor e Denins Hopper; O Pecado Mora ao lado de Billy Wilder com Marilyn Monroe; O Homem que Sabia de Mais de Alfred Hitchcock; O Sétimo Selo de Ingmar Bergman; A Desaparecida de John Ford; Fugiu um condenado à morte de Robert Bresson; Um Roubo no Hipódromo de Stanley Kubrick; Moby Dick de John Huston;Noite e Nevoeiro de Alain Resnais, entre tantos outros.

Na outra arte que povoou  a minha infância, a Banda Desenhada, assinale-se nesse ano de 1956 a edição em álbum da aventura “Marca Amarela” da série Blake e Mortimer, um dos meus álbuns preferidos da minha série e autor preferido, bem como a criação da série Gil Jourdan, de Maurice Tellieux, o inicio das aventuras da série espanhola  “EL Capitan Trueno”, criada pela dupla Victor Mora e Ambros, editada em Portugal nuns pequenos livrinhos em formato italiano com o nome de “Capitão Trovão”, cujas aventuras eu devorei na infância. Dois outros gigantes da BD, Jules Feiffer e Benito Jacovitti, iniciaram a sua actividade nesse ano de 1956. A grande revista de BD que então se publicava em Portugal era o “Cavaleiro Andante”.

O país vivia então sob a ditadura de Salazar, sujeito a uma censura férrea, que castrava iniciativas culturais, informativas e jornalística, ao mesmo tempo que a PIDE e os seus informadores vigiavam qualquer conversa de café. Depois da agitação do pós guerra, com o MUD Juvenil em 1946, e a dois anos do abalo das eleições de 1958 de Humberto Delgado, o regime ditatorial vivia um período e alguma acalmia e estabilidade.

O que mais custa é ver numa tão longa caminhada é a lei da morte a despovoar as nossas referências, nas amizades, na cultura, na política, no desporto , na arte ou no simples encontro de rua.

O mundo que me viu nascer era um outro mundo muito diferente do actual. Ter testemunhado tantas mudanças é um dos grande privilégios de se chegar a esta idade.

 

quarta-feira, 22 de novembro de 2023

Há 60 anos - A Morte de um Presidente

 


Há dez anos publiquei por aqui este texto:

Já aqui me referi à minha primeira memória do mundo, para lá da minha casa, do meu quintal, da praceta e da escola primária.

Durante anos não soube muito bem qual das duas notícias, o anúncio da morte de Edith Piaf ou O assassinato de John Kennedy , tinha sido a primeira que me marcou para além do meu mundo de infância e que me despertou para a existência de um mundo mais vasto.

Vim a saber mais tarde que ambos os acontecimentos tiveram lugar no final de 1963, tinha eu então uns 7 anos de idade e que, cronologicamente, o primeiro acontecimento de que me lembro foi o da morte de Edith Piaf, em 10 de Outubro desse ano, como também já aqui referi.

De qualquer modo, o primeiro acontecimento histórico relevante foi o assassinato de Kennedy.

O tema foi tema de conversas entre os meus pais e lembro-me bem de ver na televisão os filmes do assassinato, embora o que me tenha marcado mais tenha sido o do assassinato de Lee Oswald por Jack Ruby, que aconteceu em directo nas televisões norte-americanas.

Desde aí, para o bem e para o mal, a história dos Estados Unidos, da sua cultura (cinema, banda desenhada, séries televisivas, musica rock) e dos seus feitos, como os da conquista do espaço, passaram a fazer parte do meu imaginário da infância.

As  eleições presidências norte-americanas eram sempre seguidas com atenção na minha casa, como contraponto de um país, como o Portugal de então, onde não existia democracia. 

Os Democratas eram os preferidos do meu pai, tendência que eu seguia com entusiasmo. Lembro-me de, no antigo liceu, brincarmos no intervalo às eleições presidenciais norte-americanas, onde nos dividíamos em grupos, uns apoiando os democratas (na altura Macgovern) e outros gritando por Nixon (mas isto foi já em 1972…).

Seja como for, a história do assassinato de Kennedy e da época foram sempre temas que me fascinaram.

quinta-feira, 12 de outubro de 2023

Os Massacres hediondos e os massacres “fofinhos”.


Há muitos anos conheci um amigo do meu pai, piloto da Força Aérea Portuguesa, homem da oposição, mas que, por razões profissionais, tinha combatido na Guerra Colonial, participando em bombardeamentos, na Guiné, sobre aldeias dominadas pelo PAIGC.

Ele sabia que tinha participado em massacres sobre a população civil, obedecendo às ordens do governo português e, porque não teve outra opção a não ser participar nesses massacres, considerava que o mínimo que podia fazer era denunciar esses crimes e desmentir a tentativa das autoridades do Estado Novo de negarem a realização desses massacres, já que ele tinha participado neles, a mando dos seus superiores hierárquicos.

Dizia ele que, apesar de tudo, como lá de cima não via o resultado dos bombardeamentos, não assistindo ao horror no terreno, como acontecia com tropas de infantaria, tinha evitado ficar traumatizado para vida. Mas não desistia de denunciar a situação junto de quem o ouvia.

Anos depois, aí pela década de 1980, conheci um mercenário, também piloto da Força Aérea, que tinha combatido na Força Aérea Israelita, e que  confirmou a actuação dessa força aérea, tendo participado em bombardeamentos sobre aldeias palestinianas, a mando do governo de Israel. Também ele lamentava o sucedido e tinha consciência que, nesses bombardeamentos, tinha massacrado populações civis, e, por isso, sentia-se com legitimidade para denunciar as tentativas dos governos de Israel de branquear a situação, o que lhe custou o emprego.

Nessa guerra fratricida entre Israelitas e Palestinianos, nenhum dos lados tem as mãos limpas de sangue, entrando-se num carrocel imparável de horror.

Como dizia Gandhi, entrando na lógica do "olho por olho, dente por dente", todos acabaram cegos.

Foi isso que aconteceu, mais uma vez, no passado Sábado, coma actuação terrorista e hedionda do Hamas em solo Israelita.

Israel tem o direito de, neste caso em concreto, retaliar contra os terroristas do Hamas, mas, se quer mostrar que é diferente, tem de actuar com discernimento e de forma cirúrgica, evitando massacrar ainda mais a população palestiniana, atirando-a para os braços dos extremistas islâmicos.

Com os meios que tem, de apoio aéreo, de acesso a satélites e a armas sofisticadas, com o uso da mais avançada tecnologia militar, apoiado pelos serviços de informação dos Estados Unidos, Israel, se se quer demarcar da barbárie, tem o direito de retaliar, mas tem a obrigação de evitar os massacres de outros tempos.

Infelizmente não é isso que temos visto, nas imagens de bombardeamentos à Faixa de Gaza, que em tudo nos fazem recordar a acção dos nazis no Ghetto de Varsóvia.

Infelizmente, mais uma vez, assistimos ao velho princípio dos dois pesos e duas medidas, em que uns massacres são hediondos, e são, mas outros, se forem realizado por “amigos”, são “fofinhos”.

sábado, 10 de setembro de 2022

Isabel II - Uma Rainha “arrastada” pela História

Roubei o título a um cartoon de Luís Afonso, do Público de 9 de Setembro.

Podia acrescentar ao título que …e nós arrastados com ela!.

De facto, pertenço à geração que nasceu com Isabel II como rainha e chegou aos dias de hoje, nos primeiros anos da “terceira idade”, a tê-la como referente de quase 70 anos.

O meu primeiro “contacto” com a rainha começou quando colecionava selos, onde encontrava o seu perfil desenhado em muitos deles, ainda antes de saber quem era aquela figura.

Penso que, tal como se dizia no século XX em relação à Rainha Vitória, que, nascida em 1819, reinou de 1837 a 1901, e marcou a chamada era vitoriana, ou a geração vitoriana, a minha geração vai ficar conhecida por “geração isabelina”.

São raras as figuras mundiais que sirvam com “referentes” para caracterizar o “tempo longo”, o tempo que vem do final da 2ª Guerra até aos nossos dias (do início da 3ª Guerra??).

Não sendo monárquico, considerando até que a monarquia é uma aberração dos tempos modernos, penso, contudo, que a monarquia “só ficava bem”, num sítio, na Inglaterra, talvez porque pertenço à geração que, vendo desaparecer várias referências históricas e assistindo a uma evolução histórica vertiginosa, sem igual na História humana, via na Rainha de Inglaterra uma espécie de referente seguro de continuidade e…”estabilidade”.

Não deixa de ser um mau presságio que essa referente nos deixe neste momento, quando a humanidade enfrenta várias ameaças, da Guerra atómica total aos caos ambiental.

É também um mau presságio para a Europa, mas principalmente para a Grã-Bretanha, que Isabel II nos tenha deixado dois dias depois da tomada de posse da nova governante britânica Liz Truus, figura patética, desonesta, oportunista e malformada, uma espécie de Trump de sais, para pior.

Também não deixa de ser de mau presságio que o novo rei se intitule Carlos III, pois os dois Carlos anteriores não tiveram um final feliz. O primeiro, reinando em clima de guerra civil, acabou executado. O Segundo Carlos, esteve exilado no inicio do seu reinado, então dominado pelos “republicanos” de Cromwell . Ao regressar marcou o seu reinado com graves conflitos com o parlamento, chegando mesmo a governar em ditadura. Enfrentou grandes pestes no seu reino e o célebre incêndio de Londres. A causa da  sua morte ainda hoje é motivo de debate, defendendo alguns que foi envenenado. Fica também para a história o seu casamento com Catarina de Bragança, filha de D. João IV, a única rainha inglesa nascida em Portugal.

Para já, seja qual for o futuro da monarquia inglesa, a “Época Isabelina” fica marcada por grandes acontecimentos e transformações históricas e será a referência comparativa com a época pós-Isabel II.

quinta-feira, 14 de julho de 2022

“Apagar fogos”, com um saco de carne numa mão e um ramo de palmeira na outra


Quando tocava o sino a rebate da Igreja da Graça, era sinal de fogo.

Era ver os bombeiros locais, todos amadores, a deixar as fábricas e as lojas onde trabalhavam ou sairem de casa a correr, deslocando-se de carro a apitar, os poucos que o tinham, para chegarem o mais depressa possível à sede dos Bombeiros, situada ao lado dos CTT.

Para a miudagem, era um dia diferente, principalmente se já estivéssemos de férias (que duravam do 10 de Junho ao 5 de Outubro), até porque, a maior parte dos fogos, dava-se nesse período.

Corríamos para o Largo da Graça para ver os carros dos bombeiros a passar, acenando aos nossos heróis verdadeiros.

Todos desejávamos ser bombeiros e muitas vezes, se o fogo fosse perto, geralmente para os lados do “Vale Paxis” ou das “termas dos Cucos”, lá íamos a correr para ver, “em directo” a acção dos nossos bombeiros.

Certo dia, nos meus 12, 13 anos, a minha mãe mandou-me ir buscar uma encomenda de bifes à casa da minha avó. Eu morava na Praceta Afonso Vilela, os meus avós perto da Igreja de S. Pedro, ao lado da “Colmeia”.

Quando vinha para, casa lá ouvi a toque a rebate e alguém, passando por mim, gritava, “é nos Cucos”.

Levado pela curiosidade e, provavelmente, por algum amigo com quem me cruzei, desviei-me do meu caminho e, com o saco de carne na mão, fui para os Cucos, pelo caminho de ferro.

Lá chegado alguém me passou para a mão um ramo de palmeira para ajudar no combate ao fogo.

Ao lado dos bombeiros e dos populares, lá íamos combatendo as chamas e lembro-me, a certa altura, do comentário de um bombeiro cansado, “agora é que essas febras, assaadas neste lume, sabiam bem!”.

Só nessa altura me lembrei do que trazia na outra mão e, apressadamente, deixei o combate ao fogo, para voltar para casa, onde a minha mãe já estava preocupada, numa altura em que não havia telemóveis e ter telefone em casa era um luxo que não existia em casa da minha avó.

Ouvi um raspanete quando cheguei, com o saco de carne meio derretido pelo calor do fogo e a carne quase pronta para ser servida!

quarta-feira, 25 de maio de 2022

Brincadeiras d’outro planeta – Brincar às “caricas”.


Conversa puxa conversa e ontem, numa almoçarada no Barreiro, com o Fernando, o Carlos e o sr. Gomes,  veio à memória o tempo das nossas brincadeiras com “caricas”.

Para quem não sabe, as “caricas” eram as tampas das garrafas de refrigerante.

Uma carica podia ser um “rei”, um “soldado”, um “ciclista”, um “atleta olímpico”.

Todos lá no bairro tinham o seu “exército de Caricas”, muitas apanhadas do chão.

Havia as “caricas” raras e preciosas, de refrigerantes “raros” ou “estrangeiros”.

Lembro-me que fiz um figurão exibindo uma colecção de “caricas” israelitas que uma tia avó minha, solteirona e muito católica, me trouxe de uma viagem a Jerusalém.

Eram poucas as pessoas que viajavam para fora do país, mas quando alguém conhecido o fazia, a única “prenda” que pedíamos era que nos trouxessem “caricas” desses países, para fazermos inveja aos nossos companheiros de brincadeira.

No dia do meu exame da 4ª classe, em Lisboa,  após o exame da manhã, eu, o Rogério e o Jorge perdemo-nos uns dos outros e das nossas mães no Rossio porque começámos a apanhar do chão todas as “caricas” que encontrávamos, largadas das esplanadas dos cafés aí existentes, porque muitas delas eram raras ou desconhecidas cá em Torres.

Cada um tinha um “país” das caricas, com “reis” ou “governantes” e por vezes, para disputar o “domínio” de uma marquise comum, de uma zona do quintal, ou da própria “casa” do nosso país das caricas, lá fazíamos umas “guerras”, ganhando quem “virasse” o maior número de caricas do adversário ou quando o nosso stock de caricas se começava a esgotar.

Um dia eu, o Carlos e não sei se mais alguém, fomos à casa do Carrilho, lá para os lados do Choupal. “Oficialmente” íamos participar nuns “jogos olímpicos” de “caricas”, mas, sem lhe dizer nada, levámos o máximo de caricas nos bolsos para lhe “invadir o país”.

Em plena “sessão de abertura” dos “jogos olímpicos” resolvemos pegar no “rei” do “país” do Carilho e lançá-lo para dentro da “chama olímpica”, conquistando-lhe o país, que ele teve de resgatar com um “pagamento” em “caricas”.

Certa vez fui eu o “invadido”. Penso que foi o Carrilho e o Jorge que chegaram à varanda das traseiras da minha casa com um exército de “caricas” para me invadirem, e eu não fiz mais nada, fechei à chave a porta de entrada das traseiras e deixei-os ao frio. Fui “traído” pela minha mãe que, ao vê-los lá fora, dirigindo-se à porta para a abrir, me ía ralhando por deixar os meus amigos lá fora, ao frio, deixando-os entrar e custando-me a “independência”, reconquistada com muitas negociações com os dois, e que me custou mais umas dezenas de “caricas” de resgate, entre elas algumas das "célebres" caricas israelitas, muito cobiçadas e que justificavam uma "invasão".

Também realizávamos “viagens ao espaço” com as “caricas-astronautas” viajando numa “caixa de fósforos foguetão” até ao armário mais alto lá de casa, com risco da própria vida (nossa, não dos "astronautas-caricas") em cima de velhos bancos, para levarmos os "foguetões" o mais alto possível .

O Carrilho fazia viagens mais sofisticadas. Colocava a “carica astronauta” enrolada numa prata de maço de tabaco dentro de um caixa de metal de comprimidos, colocava-a ao lume no fogão durante um tempo determinado, depois retirava-a a abria-a. Se a “carica” estivesse intacta, a “viagem” tinha sido um êxito, se estivesse queimada, tinha sido um “fracasso” e procedia-se ao “enterro” do astronauta que terminava no “cemitério”, o telhado da casa para onde era atirado o ”infeliz” “astronauta-carica”.

Também realizávamos anualmente “jogos Olímpicos”, "corridas de automóvel" e "desfiles de Carnaval" com as “caricas”.

Eu próprio fazia semanalmente um “jornal” escrito à mão com as notícias do meu “país das caricas”.

Mas uma das provas mais disputadas e que envolviam mais gente eram as corridas de “bicicleta” com caricas, que decorriam nas férias de Verão em Santa Cruz, com várias etapas e equipas, cujo resultado era diariamente registado num caderno, com os “tempos” de chegada, a pontuação e o resultado das “equipas”.

Os percursos eram “desenhados” na areia, com curvas, túneis e percursos mais ou menos longos. Por vezes uma onda invadia a pista e lá tínhamos de ir resgatar os “ciclistas” levados pelo mar ou que ficavam enterrados na areia.

Era assim que muitos de nós nos divertíamos aí pela década de 60 do século passado.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

O “sr.” “orgulhosamente” 1%...


 O “sr. orgulhosamente” 1%...sou eu, o próprio!

Quem diz 1% , pode dizer 5% ou, no máximo, uns 10%.

Pertenço a essa enorme minoria que só vota em partidos que rondam essas percentagens, no caso das últimas eleições, um pouco mais de 1%.

Pertenço ao restrito número dos cerca de 1% que veem o Canal 2, quando quase toda agente vê telenovelas, o big brother, ou debates com as mesma opiniões de sempre.

Também pertenço àquela imensa minoria que houve rádio, ainda por cima apenas a Antena 1 ou a Radar (às vezes lá me escapo para o M80 ou para a Antena 3).

Pertenço àquela gente rara que compra jornais e lê livros e os leva para todo o lado.

Acho, aliás, que é mais importante descobrir e ser curioso que “comer” o que todos comem e que estudar e criar é mais importante que consumir acriticamente.

Devo ocupar uma percentagem muito pequena, em comparação com a média, a frequentar redes socias e, nestas, costumo ser selectivo, pouco dado a fake new, gatinhos e pores do Sol…

Sou ainda dos raros cidadãos que acha que pagar impostos é um acto cívico, nunca fugindo a pagá-los, só não concordando que eles sejam usados para salvar bancos ou grandes empresários.

Tirei a carta depois dos 40 e só o fiz porque (o cavaquismo) me destruíram o meio de transporte preferido, o caminho-de-ferro, deixando-me sem alternativa.

Assim que voltarem a reconstruir o transporte ferroviário e melhorarem os transportes públicos, conto deixar o carro, a maior parte do tempo e já agora, gostava que, cada vez mais, o transporte ferroviário pudesse ser alternativa à aviação, pelo menos nos pequenos percursos, e, nisso (como noutra coisas) estamos muito atrasado em relação ao resto da Europa.

Também não escolho o carro pelo tamanho ou pelo prestigio da marca. Desde que ande, com segurança, qualquer calhambeque em segunda mão me serve.

Gosto muito de cinema, mas pertenço àquele pequeno número de cinéfilos que escolhe os filmes pela qualidade do tema, do argumento ou do realizador, dando pouca importância às modas do momento, ao nome dos famosos que participam nos filmes, aos milhões do casting e ao número de explosões por metro de fita.

Gosto de passar férias longe dos lugares da moda e visitar o que ninguém visita.

Aliás, sou dos poucos que frequenta museus e exposições, principalmente aquelas que fogem à massificação.

Na musica, não nego a nostalgia, mas procuro o que é inovador e minoritários, longe dos top’s, nem sou daqueles de acham que os anos 60 e 80 é que eram bons. Nesses anos, como agora, havia coisas boas, que ainda são audíveis, mas, à custa da nostalgia, também se anda a recuperar muita “trampa”.

Sou dos poucos que continua a comprar e a ler Banda Desenhada, sem o fanatismo dos coca-bichinhos que acham que tudo é bom nessa área e só comem “Marvel” e “Manga”.

Enfim…pertenço a essa imensa minoria que acha que, se não fossem as minorias, ainda vivíamos na Idade de Pedra, pois são estas que podem descobrir, fomentar e sonhar com a novidade que pode transformar o mundo.

Orgulho-me de pertencer a essa minoria, na política, na cultura, no pensamento económico e social, que não está “orgulhosamente só”, mas é uma imensa minoria…

....e já agora, sobre o cartoon da Mafalda que ilustra esta post, é apenas metafórico...eu gosto dos Beatles!

terça-feira, 18 de janeiro de 2022

Como conheci o libertino Luís Pacheco


A propósito da recente efeméride do seu falecimento, recordada pelo meu amigo Custódio Catarino, veio-me à memória o momento, aí pelos finais da década de 1970, ou inicio da década seguinte, em que me cruzei com o escritor libertino Luís Pacheco.

Já o conhecia da leitura dos seus textos, publicados em “Textos de Circunstância” e acompanhava-os, com o entusiasmo de um jovem à descoberta do “mundo”, nas suas crónicas publicadas no saudoso suplemento literário “Letras e Artes” do Diário Popular.

Mais tarde li a obra mais polémica de Pacheco, “O libertino passeia por Braga, a idolátrica, o seu esplendor”, escrito em 1961 e editado em 1970, e que lhe provocou muitos problemas com a PIDE e a Censura.

Foi assim que, certo dia, na Feira do Livro, o meu amigo e colega de faculdade, o saudoso  Manuel Hermínio Monteiro, então a dirigir a Assírio & Alvim, me apresentou ao Luís Pacheco.

Durante uma hora, ou pouco menos, andámos os três a percorrer a feira, e a assistir às “performances” de Pacheco, abordado por jovens fãs, que lhe pediam autógrafos.

Em certa altura o Hermínio vira-se para mim e diz-me : “repara no que ele está a escrever nas dedicatórias”. Olhei com atenção e então vi-o, em vez de escrever um texto com dedicatória por si assinada, o Luís Pacheco, com ar malicioso e divertido, a desenhr grandes falos nas folhas da dedicatória. Depois fechava o livro e entregava-o às jovens fãs, que lá seguiam todas entusiasmadas como “autógrafo”, não suspeitando ainda da marosca.

Voltei a vê-lo, anos depois, mais à distância, à mesa de um café aqui em Torres Vedras, (Café Avenida (?), frente à actual Câmara). Fiquei saber que ele estava “hospedado” no Hospital do Barro, por sofrer de tuberculoso. Dessa estadia resultou um livro seu intitulado “Textos do Barro”, editado em 1984.

Recentemente, já depois de ter falecido (em 5 de Janeiro de 2008), foi editado o Diário Remendado – 1971-1975, obra onde ele revela a sua visão do 25 de Abril e do PREC,  talvez uma das mais interessantes descrições desses tempos de descoberta e entusiasmo.

Para quem não o conhece, mas ainda mais para quem o conhece, aqui vos deixo uma excelente reportagem sobre o libertino Luís Pacheco:

sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

A Minha pequena colecção de cromos


Não vou falar dos “cromos vivos” que nos passam os dias a sarrazinar na política, no comentário jornalístico ou em tantas outras ocasiões da nossa vida terrena.

Davam uma bela colecção, mas ninguém compraria uma caderneta onde um deles pudesse sair.

Refiro-me aos verdadeiros, aquelas pequenas imagens que saiam de um pequeno invólucro  que abriamos expectantes, à espera que surgisse aquele raro ou aquele outro que nos faltava para completar a colecção.

Dei por mim a pensar na minha infância a abrir saquetas, um momento sempre mágico e cheio de surpresas, uma magia que apenas encontramos na infância e que raramente conseguimos reproduzir na idade adulta, ao observar alguns quiosques, onde vou comprar jornais e revistas, e uma ou outra raspadinha, “forrados” a cadernetas de cromos, do futebol, à vida animal, dos heróis dos vídeos jogos, à fórmula 1.

Pus-me a notar que este é um pequeno hábito da magia da infância que continua a atravessar gerações, talvez o único.

As qualidades de impressão e a forma de os colar, mudou, para melhor.

Os temas não variam muito: os heróis do desporto, principalmente do futebol, os heróis da infância (estes, sim, mudaram), a História ou o mundo animal.

O entusiasmo é tal que até as grandes superfícies já aderiram ao fenómeno, oferecendo aos clientes colecções de cromos, uma forma habilidosa de os adultos se verem obrigados a comprar mais e no mesmo sítio para satisfazerem a birra dos petizes.

Fui à procura dos álbuns que guardei da minha infância e lá encontrei uma dúzia deles, alguns ainda incompletos, onde encontro a reprodução dos filmes da Disney, da Bela Adormecida, à Alice no país das maravilhas, este o mais antigo, herdado da minha mãe, uma colecção de cromos distribuída nos primeiros chocolates da Regina.

Entre os temas que encontrei, lá está a História de Portugal, o Património de Portugal, a Vida dos Animais, a História dos automóveis de corrida…

Entre as preciosidades, uma colecção de 60 cromos, com muito texto, intitulada O Homem no Espaço, cromos que eram incluídos nas sobremesas Royal, editada pelos anos 60 do século passado, com texto de Eurico da Fonseca, a voz e o rosto sempre associado à minha infância de espectador pasmado das emissões de televisão sobre as viagens da missão Apolo e outras, naquela que foi (e ainda é) a última grande aventura humana. Os desenhos dessa série são do consagrado autor português de histórias aos quadradinhos (para usar o termo tradicional) Vitór Péon.

Dessa dúzia de cadernetas que guardei, a maior parte foi editada pela Agência Portuguesa de Revistas ou pelas edições Íbis e Bertrand, mas também as há editadas por marcas de gelados, como  a Olá, ou pela revista Mickey.

Não encontrei uma colecção dedicada aos jogadores portugueses de hóquei em patins, que colecionei na minha infância, ou as dos jogadores de futebol, as mais populares.

Lembro-me, a propósito destas, que os cromos vinham embrulhados nuns rebuçados, comprados num quiosque de uma velhota ( a mãe do Tavares da Maçaneta, o pide mais “famoso” da vila), onde hoje está o da papelaria União, na Avenida, dentro de uma grande lata metálica.

Rumor ou não, dizia-se que o último cromo da caixa oferecia uma bola de futebol a sério. Isso levou um colega nosso a roubar dinheiro ao pai para comprar a caixa inteira, com esperança de, assim, conseguir a bola. Não me lembro se o conseguiu, lembro-me sim que levou uma valente tareia quando o pai descobriu o feito.

Uma das mais antigas colecções de que me lembro, e da qual guardo ainda 3 ou 4 cromos, era uma dedicada aos Beatles, a cores, num papel grosso, impresso na Inglaterra e que, antes das nacionais “Gorila”, eram distribuídos e incluídos nas primeiras pastilhas elástica surgidas em Portugal, em pleno auge dessa banda.

Para além da divertida troca de repetidos, entre amigos e colegas da escola, havia ainda um jogo para arrebatar cromos às outras crianças que passava por coloca-los numa superfície lisa, com a imagem para baixo, e depois, com a mão, dar uma palmada. Os que se virassem eram conquistados pelo sortudo que tinha conseguido o feito, uma situação que gerava, muitas vezes, conflitos, que às vezes acabavam ao sopapo.

Não deixa de ser surpreendente que, depois da televisão, da internet e dos jogos de computador, as velhas colecções de cromos tenham sobrevivido ao tempo.

Que seja longa a vida desse pequeno prazer de infância!

quarta-feira, 2 de junho de 2021

Recordações à solta, dos tempos de infância.

(à porta de casa, na Praceta, 1º dia de escola, Outubro de 1962. O Pedro Rosado, o meu irmão Mário Luís, eu próprio e a minha prima São Rosado. Ao fundo o Tarique, o cão do Mabê)

A propósito do Dia da Criança, pus-me a recordar como foram os meus tempos de criança.

Tenho memórias dos meus 3 anos, vivia então numa vivenda no chamado "Bairro Lisboa", derrubada há poucos anos para dar origem a mais um incaracterístico  prédio de vários andares.

Era “Lisboa” porque esse era o apelido do proprietário das vivendas, mas também podia ter sido baptizado com o nome da capital porque ficava então no limite da vila, na estrada que ía para Lisboa.

Não nasci aí, mas essa é a minha primeira memória (do "mundo" só comecei a ter memórias em 1963, aos 7 anos, como a morte de Edith Piaf ou o assassinato do presidente Kenneddy...). As vivendas tinham um pequeno quintal de onde partia uma pequena escadaria, antecedendo a porta de entrada. Lembro-me das ambulâncias a entrar no hospital, quase em frente da vivenda. Conheci aí os primeiros companheiros de brincadeira. Eramos vizinhos dos pais da Manuela Moura Guedes, tendo ficado na memória, não na minha, mas contada pelos meus pais, uma célebre e dolorosa dentada que levei dela.

(Na escada de entrada da vivenda do Bairro Lisboa. Eu sou o de chapéu e rosto redondo. Os outros dois, segundo nota da foto tirada em Fevereiro de 1959, são o "Tó" e o "Zeca" (??))


Ainda antes de fazer os 4 anos, mudámo-nos para Coimbra e fomos viver para o Bairro das Colónias, na Rua de Guiné. Lembro-me de habitramos uma vivenda de dois andares, vivendo por baixo uma vizinha da minha idade. Não criei muitas raízes por aí, mas lembro-me do comboio que passava por perto e das visitas aos meus avós que viviam perto da Sé Velha e também do sossego desse bairro, afastado do centro de Coimbra, uma espécie de aldeia dentro da cidade.

Foi uma estadia de poucos meses e não deixou muitas memórias, regressando a Torres Vedras ainda com 3 anos, para a casa onde vivi o resto da infância, a juventude e o início da idade adulta, a casa da Praceta ( ainda sem nome na altura, mais tarde baptizada de Afonso Vilela), um prédio de 3 andares (hoje de 4) e onde conheci muitos dos amigos para a vida, não só os do mesmo prédio, mas os de prédios vizinhos ou outros que vinham brincar para aproveitar o sossego e a segurança do local, onde raramente passava um automóvel.

Quando para lá fui, existiam apenas quatro prédios com entrada pela praceta, o meu, o do Alfredo e do Zé Carlinhos, pegado ao nosso, e com quintais quase juntos, um, mais afastado, com um grande poço pelo meio, mais à esquerda (nascente) da entrada do nosso, e outro mais a sul, a poente, separado dos dois em vértice, acima referido, pelo caminho que ligava ao pátio por detrás do Venceslau, do lado poente. Existiam outros dois prédios, a sul, à saida da praceta, um de cada lado, mas com saida para a futura Rua dos Amigos de Olivença, que hoje separa as duas pracetas.

Os prédios tinham grandes quintais, onde muita gente tinha a sua pequena horta e árvores de fruto, ou onde se criavam galinhas e coelhos.

No meu quintal havia um limoeiro, uma videira, uma macieira (que nunca deu nada), sardinheiras e outras flores e um cacto trazido da praia de Santa Cruz. Num dos cantos, uma capoeira, onde a minha mãe criava galinhas, que íam “viver” para a marquise da minha casa em vésperas de nascerem os pintos. Aí também viveu o meu cágado, onde hibernava durante meses e passava outros dias na nossa casa. Eu cheguei a “ensaiar” criar formigueiros numa caixa transparente, obrigando as formigas do quintal a “emigrar”, mas com pouco êxito, pois elas depressa fugiam do formigueiro artificial, invadindo a casa, para desespero da minha mãe. Também “criei” caracóis em gaiolas, para fazer corridas.

Nas aventuras do quintal eramos muitas vezes acompanhados pelo Tarique e pelo Fleg, que aí tinham as suas casotas, cães de caça que pertenciam ao pai do Mabê. O Tarique (ver foto de cima), um grande cão pachorrento, fazia de cavalo para a miudagem…

Vou esquecer alguns, mas, par além do meu irmão Mário Luís, e do  Mabê, “viviam” no quintal e na “praceta” o Nanan a Guigui, o Alfredo, a Ana Maria. a Graça e o Emílio Gomes, o Pedro e a Sãozinha Rosado, estes dois últimos meus primos em segundo grau e vizinhos do andar do lado, o Zé Carlinhos, o João Camilo, o Luís Rodrigues, o Janeca, o Rui e a Paulina Belchior, a Bélinha e, mais tarde, a Peta e a Paula Brás, a Nini, o Raul, o Carlos e o Marcos Ferreira e tantos outros, alguns de prédios ou ruas vizinhas ou familiares dos “pracenterenses”.

Havia uma certa hierárquia na formação dos grupos da brincadeira: em primeiro lugar, os vizinhos do mesmo prédio, depois os vizinhos do prédio ao lado, com o quintal encostado ao nosso, depois amigos e familiares comuns que visitavam os membros do "bando". As raparigas não tinham muito lugar no grupo, a não ser que fossem irmãs de alguém. O mais velhos (poucos), isto é, com mais 2 ou 3 anos de diferença, o os mais novos, com mais de 4 anos de difrença, a não ser irmãos, também não tinham lugar facilitado.

Por vezes os grupos de cada prédio entravam em guerras de pedrada entre eles, guerras que terminavam, muitas vezes, com aintervenção da avó do Alfredo, que acabava com tudo à vassourada, depois de termos partido algum vidro, e a paz era rápidamente restabelecida.

Lembro-me também de um caso curioso. Quando no prédio soubemos que vinham uns novos vizinhos para o andar de baixo do meu, correu o rumor, para tristeza de todos, que os filhos do novo casal já eram "muito velhos", isto é tinham 15 ou 16 anos. Afinal não era bem assim. Um deles (o António João) era, de facto, mais velho, com essas idades, e não se misturava connosco, mas o outro, o Janeca, era até mais novo do que a maior parte de nós.

Recordo-me do dia em que integrámos o Janeca no grupo do prédio. Tinhamos construido uma cidade, em cima de uma grande porta de madeira velha, deitada num canto comum do quintal, coberta com terra e relva, com "estradas" desenhadas pelo meio, onde "circulávamos" com os nosso carrinhos, quando apareceu um míudo novo (o Janeca), brincando sózinho, num canto, com um carrinho muito sofisticado, que virava as rodas da frente, um grande "avanço tecnológico". Ficámos todos curiosos com o carrinho e conferenciámos entre nós a melhor maneira de o abordarmos. Uns propunham que lhe roubássemos o carro, aproveitando o facto de sermos mais e, alguns, "mais crescidos", outros, que lhe propusessemos deixá-lo brincar connosco, em troca de nos deixar brincar com o carrinho dele. Prevaleceu o bom senso, falámos com ele e o Janeca deixou-nos brincar com o seu carrinho e, desde aí, tornou-se membro do grupo de pleno direito.

(O Mabê e eu, frente ao nosso prédio, primeiro dia de escola primária, Outubro de 1962)
(A GuGui, irmã do Mabê, à porta do prédio, em Março de 1963)

A Praceta era o nosso sol e os quintais dos prédios, os planetas circundantes, as ruas e os pátios em redor, o universo profundo.

Daí só saímos para a escola primária,  perto do cemitério, num caminho de terra batida (ainda não havia Henriques Nogueira), rodeado de vinhas e trigais.

Mais tarde “aventurámo-nos” para um pouco mais longe, para o Liceu, a Escola Técnica, ou a Física, situadas onde está hoje a sede do município.

No Verão, a praceta enchia-se de miudagem a inventar aventuras, a aprender a andar de bicicleta, a jogar à bola e a tantos outros jogos, como as escondidas ou a apanhada, ou em guerras de pedrara, mais tarde nos primeiros “namoros”. Num certo ano resolvemos jogar hóquei, uns com patins muitos rudimentares, outros nem com isso, mas alguém da Física, que ficava a poucos metros da praceta, reparou nos miúdos e levou-nos para essa associação para formar as primeiras equipas de infantis e juniores. Muitos vieram a destacar-se nessa modalidade e pelo menos um , o Luís, ainda treina os miúdos de hoje.

Na praceta não fabricávamos carrinhos de rolamentos, porque não havia “inclinação” para os mover, mas muitas vezes íamos ver as “actuações” dos nossos “vizinhos”, os “malucos das máquinas de rolamentos” da Álvaro Galrão, uma das ruas mais íngremes da vila, a rua onde vivi os meus dois primeiros anos de vida, mas não tendo qualquer recordação desse tempo.

O dia acabava com as mães a chamarem cada um de nós para o jantar, mas no Verão voltávamos à rua, até ser noite.

Havia dias especiais: o Carnaval, ficando a praceta no meio do corso, que circulava pelas ruas vizinhas, e era por isso vivido com muito entusiasmo por todos nós; o Santo António, onde  organizávamos as festas do bairro, enfeitadas com as bandeiras de papel recortadas por nós e coladas com uma mistura de água e farinha, sendo também pretexto para a grande aventura de ir até aos Cucos apanhar as parras de palmeira, enquanto o Venceslau fornecia as sardinhas, o vinho e a gasosa. Com o início do Verão tinha lugar o cinema ao ar livre no ringue da Física, o chamado “Cine Esplanada”. Como a maior parte dos filmes eram para maiores de idade, eram exibidos à noite ou não havia dinheiro para cinema, nas noites de sessão, naquelas em que nos conseguíamos afastar da praceta sem os nossos pais darem por isso, a miudagem rumava para o sítio da hoje chamada escola do avião e “assistiamos” ao filme nas traseiras do écran, por vezes apenas sombras e luzes, e ouvindo as conversa em inglês, que ninguém entendia mas nos permitiam uma noite de emoções. Havia ainda a Feira de S. Pedro, na várzea, onde esgotávamos a parca mesada nos carroceis e nos carrinhos de choque. No Verão, alguns sortudos íam para a praia passar um dia, um mês ou os três meses de férias, conforme as posses da família de cada um, ou para a piscina do “Vimeiro” aos fins-de-semana. Também por essa época juntava-se a minha famíla e a do Mabê no Casal da Paúl, para animadas churrascadas de Verão. Havia também o dia da passagem do Rally de Portugal, por uma rua próxima da praceta, ou de alguma etapa da volta a Portugal em Bicicleta.

(Em Santa Cruz em 1963)


Havia ainda outro local de encontro da rapaziada, o desfile anual dos atletas da Física, onde alguns andavam na ginástica, recebendo eu, nesse dia, as únicas medalhas da vida, “ouro”, “prata” ou “bronze”, não por qualquer acto de “bravura”, mas de acordo com o número de faltas dadas ao longo do ano. Como estava sempre com alergias e faltava muito, que me recorde nunca recebi a medalha de “ouro”.

(eu a receber a medalha na Festa da Física de 9 de Junho de 1961, das mãos do pai do Victor César. Na mesa estão o sr. Vasco Parreira, administrador da Casa Hipóito, o presidente da Câmara, Teixeira de Figueiredo e António Hipólito Júnior)

(Eu, de medalha ao peito, com o Professor Dieguez, em 1965)
(A minha turma de ginástica no desfile da Física em 1966. Sou o terceiro na fila da frente, da direita para a esquerda.São visiveis o Lipa, o Zé Paulo Duarte, o Bacelar e outros rostos que não me são desconhecidos, mas não me lembro do nome)

No Inverno as brincadeiras ficavam mais por casa, pelas varandas das traseiras ou, na melhor das hipóteses, pelo quintal, e restringiam-se aos moradores do prédio.

Brincava-se com as caricas, construindo-se com elas e com os carrinhos feitos de caixas de fósforos, com rodas de rolha, grandes países, onde por vezes entrávamos em “guerra” com o país de caricas dos vizinhos. Outras vezes fazíamos com essas caricas (tampinhas de refrigerantes) corridas de “bicicleta” (que se prolongavam nas areias da praia de Santa Cruz), “jogos Olímpicos”, viagens “espaciais” ao ´´armário mais alto lá de casa. Eu cheguei a fazer um jornal manuscrito sobre a vida do meu “país das caricas”.

O “mundo” das caricas permitiu-me “viajar” para mais longe, para a casa do Carrilho ou do To Zé, quase no extermo oposto da vila, gosto partilhado também com o Jorge Pereira.

A “loucura” pelas caricas motivou, aliás, uma das maiores aventuras desses dias de criança. O exame da 4ª classe era feito em Lisboa, no Liceu Passos Manuel e, nessa ocasião, fiquei alguns dias hospedado em Lisboa com a minha mãe, juntando-se a nós o Jorge Pereira e o Rogério, com as respectivas mães. Acabado o exame, e tendo todos passado, fomos dar uma volta por Lisboa. No Rossio existiam muitas esplanadas e muitas “caricas” espalhadas pelo chão, algumas “raras” de encontrar em Torres Vedras. Comecei a apanhá-las e, às tantas, dei por mim, sozinho, no meio de uma imensidão de gente. Pouco depois encontrei o Jorge Pereira e, ainda mais à frente, o Rogério, todos perdidos das mães. Fomos andando até ao início da rua do Coliseu, ao lado do D. Maria. Aí juntou-se uma pequena multidão à nossa volta, até aparecer um polícia, que nos deu “vinte e cinco tostões” para irmos para casa (como se nós soubéssemos onde estávamos hospedados!). De repente, chegaram as nossas mães, muito aflitas, o Jorge levou logo uma palmada, a minha mãe, com o nervosismo, desatou a rir. Resolvido o assunto, e como o polícia já tinha desaparecido, comprei um gelado com o dinheiro que ele me deu e continuámos o nosso passeio, não acabando por aí a ventura. No Castelo de S. Jorge, chamado pelo Jorge para ver uns patos bébés, resolvi atalhar caminho por cima de umas nenúfares, mergulhando todo vestido num lago. Para mim, só havia plantas em terra firme, e não conhecia a capacidade das nenúfares de viverem no meio da aquático. Só regressámos aos nossos aposentos depois da roupa ter secado, ao sol, nas muralhas do Castelo de S. Jorge.

(Fotografia para o exame da 4ª classe. Só voltei a usar gravata para defender Tese de Mestrado!!)


Nos tempos de “hibernação” em casa, também “produzia” “revistas” de Banda Desenhada, com um único exemplar, o “Gavião” (“imitando” o Falcão), o “Pato Zé Zó”, imitando as revistas do Pato Donald, e outras tantas, onde colaboravam o meu irmão, o Janeca, o Marcos e o Carlos Ferreira.

Mais tarde, o gosto pela BD resultou na criação do fanzine Impulso no Liceu, juntando mais um “lote” de novos amigos para a vida (Mário Rui, Vilhena, Antero, Esteves, Zico, Calisto…).

Como o meu avô tinha uma papelaria, oferecia-me muitas revistas de BD, um dos passatempos caseiros, lendo as aventuras das revistas “Zorro”, “Falcão”, “O Foguetão” ou, mais tarde, o “TinTin”, sem esquecer a leitura das páginas dominicais do “Reizinho” e do “Príncipe Valente” do Primeiro de Janeiro ou dos Peanuts nas páginas do Diário de Lisboa.

Outro passatempo era a compra e troca de cromos, com vários temas, dos eternos jogadores de futebol, ao jogadores de hóquei, passando pelo filmes da Disney, pela história natural e de Portugal, pelos monumentos ou pelos cromos das pastilhas elásticas como os Beatles.

(A papelaria do meu avô, na 9 de Abril, onde me "abasteciam" de revistas de BD e cromos )


No Natal era obrigatória uma visita da miudagem do prédio à casa do Pedro e da São Rosado, pois o pai, o sr. Manuel Rosado, que hoje ainda vive nesse andar com mais de 90 anos, ocupava toda a marquise com um imenso presépio, cheio de figuras, noras em movimento, vários objectos animados. Era uma festa.

Também por essa altura, íamos aos Cucos apanhar musgo para os nossos presépio mais modestos. O meu era feitocom figuras de papel, pertencentes à minha mãe, com origem em figuras editadas pelas revistas da sua infância, o Diabrete, o Mosquito, ou o Cavaleiro Andante. Mais tarde a árvore de Natal, um pinheiro que o meu pai comprava, tornou-se dominante na época natalícia.

Anualmente, uma vez pelo Natal, outra vez pelo Verão, deslocava-me para “fora do Universo” da Praceta.

No Natal, ia com a minha mãe, de comboio, a Lisboa, à zona do Chiado para as compras de Natal, e lembro-me da forma como ficava a salivar com as montras cheias de brinquedos que eu nem imaginava que existiam.

No Verão, íamos todos de comboio, numa viagem interminável, até Coimbra, visitar os meus avós paternos.

Fomos fazendo outros amigos para a vida no Liceu e nas férias de Verão de Santa Cruz, e íamos crescendo à medida que o nosso universo se alargava, cada vez em maior velocidade, até chegarmos à idade adulta.

Muito fica por contar e recordar, mas aqui deixamos um pequeno apontamento de alguém que teve uma infância privilegiada, sem saudosismos balofos, nem confundindo os belos tempos da infância com os “negros” tempos da sociedade portuguesa de então.

terça-feira, 4 de maio de 2021

Carlos Bernardes, o Homem!


Torres Vedras entardeceu, em choque, na tarde desta 2ª feira.

O Presidente da Câmara tinha falecido, em circunstâncias ainda não devidamente esclarecidas, embora tudo aponte para suicídio.

Antes de ser presidente, conheci Carlos Bernardes noutras ocasiões.

Em três delas, por volta de 1990, realizámos juntos três visitas de estudo com alunos de Torres Vedras, uma a Sevilha, outra a Ceuta e outra à Mealhada, Almeida e Salamanca, eu como professor acompanhante de turmas e alunos, no primeiro caso, e como júri de um concurso sobre as invasões francesas nos dois outros, ele como responsável da Câmara.

Carlos Bernardes foi sempre um simpático, alegre e bom companheiro, e , desde então, sempre nos fomos encontrando por aí, com respeito e amizade.

Mais tarde, já com ele como vereador, tive a honra de ser seu professor numa disciplina de História da Arte da licenciatura de Turismo, revelando-se aluno inteligente, atento, curioso e empenhado, homem alegre e simples, mas já então um pouco tímido, tratando-me sempre, a partir daí, de forma carinhosa, com um “como vai professor?”.

Não partilhando as mesmas posições política, embora não tão distantes como isso, tal nunca impediu uma relação de respeito mútuo.

Cometeu alguns erros, como o de se deixar deslumbrar pelo título de “Doutor”, mais por ingenuidade e para se afirmar no meio de “tubarões da política”, do que pela necessidade real de provar o quer que fosse.

De facto, ele não precisava do “título” para chegar onde chegou. Bastava o seu entusiasmo, entrega e empenho em tudo o que fazia na Câmara, em prol daquilo que ele acreditava que era o melhor para os torrienses.

Foi um empenhado militante em defesa das questões ambientais, muito antes de estas se tornarem a “moda” nos nossos dias.

Apesar dos erros,  deu sempre provas de uma grande entrega à comunidade, como se revelou neste últimos meses pelo modo como dirigiu o combate local à epidemia, o que lhe custou ter sido  ele próprio contaminado e  sofrer um grave acidente de automóvel, devido ao desgaste do stress causado pela grave situação sanitária em que vivemos.

Por trágica ironia,  quis o destino  que um dos seus últimos actos públicos tenha sido a inauguração do popularmente designado “Museu do Carnaval”, uma causa que o motivava e onde colocou todo o seu empenho e entusiasmo. Mesmo assim não escapou à polémica.

Ultimamente, vivia uma situação de grande desgaste político, devido a cisões no seio da sua família política e a um confronto directo e violento com elementos da sua vereação.

Teve razão em afastar uma vereadora, por suspeitas, não esclarecidas e provavelmente infundadas, de corrupção, quando devia ter sido a própria vereadora a colocar o seu lugar à disposição, até ao devido esclarecimento dos factos , mas falhou ao não permitir, ou outro por si, o devido esclarecimento público da situação.

A tudo isso temos de juntar o efeito nefasto das redes sociais, onde, em vez de se discutirem ideias e projectos e se recorrer à crítica fundada, Carlos Bernardes, homem sensivel, era vítima constante de autêntico “bulling”, com ataques e insultos boçais e tentativas de humilhação pessoal.

Estes eram alguns dos momentos tensos que se viviam em Torres Vedras, que podem ter contribuído para uma situação de excessivo strees, que conduziu a tão trágico desfecho.

Como cidadão, espero que os motivos próximos desta tragédia sejam devidamente esclarecidos.

Como amigo, ficarão sempre na memória os momentos de leal e são convívio vividos no passado.

Que tenha encontrado a paz que procurava.

Os sentidos pêsames à família.

quinta-feira, 25 de março de 2021

Não é "mais um livro" sobre os Beatles...é muito mais!


Numa das minhas últimas visitas ao Barreiro, ao pavilhão do Ephemera, a “ephemerense” Rita Maltez ofereceu-me um livro da autoria de outro conhecido “ephemerense”, o Luís Pinheiro de Almeida.

Confesso que, no início, pensei : “mais um livro sobre os Beatles”!

Mas, sabendo que o Luís Pinheiro de Almeida é um “fanático”  colecionador e conhecedor de tudo o que diz respeito aos célebres músicos de Liverpool,  levado também pela curiosidade de saber quem era o “caro Jó” do título, peguei no livro e levei-o comigo para Lisboa, num dia em que tive de levar a minha filha à faculdade, para evitar os transportes públicos, e em que tinha de esperar por ela no carro, umas duas horas, porque estávamos numa das fases complicadas do confinamento, e acabei por ler, de uma assentada, o “com os Beatles caro Jó”.

Ultrapassou todas as expectativas, pois o livro consegue transmitir o espírito de uma época e todo o entusiamo adolescente na descoberta de novas realidades.

A vivência dessas descobertas remeteu-me para o meu próprio percurso, apesar de as ter vivido cerca de uma década depois do meu caro amigo Luís: a descoberta de novos grupos musicais, banda sonoro da nossa vida de adolescentes; a partilha, com os amigos, dessas descobertas; as gravações das musicas que passavam na rádio; as amizades para a vida, forjadas à volta de gira-discos partilhados em casa de uns de e de outros; as tentativas de imitar em guitarras, em congas e em tudo o que fizesse “barulho”, os grupos mais apreciados…

Apesar da década de diferença que me separa do autor, ainda sou do tempo do vinil, de procurarmos nas casas onde eles se vendiam as últimas novidades, a audição atenta das emissões de FM na (no meu tempo) Rádio Comercial, muitas vezes com antenas improvisadas com fios de cobre, porque existiam muitas interferências, culminando tudo, no meu caso, no movimento das rádios piratas, onde participei activamente, fazendo programas, amadores e mal feitos, em más condições técnicas, mas com muito entusiasmo e muita loucura, isto, da minha parte, já nos anos 80.

A minha “banda sonora” não foi exactamente a do Luís Pinheiro de Almeida, embora apreciasse os Beatles ( também colecionei as figuras das pastilhas elásticas referidas no livro), mas comecei a ouvir rock com mais frequência no final da década de 60, principio da de 70 (tinha 12 anos em 1968…), no quintal do meu amigo Mário Rui Hipólito, o único com algum poder económico para comprara as novidades, para além do seu pai possuir uma enorme colecção de "vinis".

Ainda apanhei os Beatles, mas já no final, sendo, contudo, mais apreciador da irreverência dos Rolling Stones.

Os meus primeiros ídolos foram os super grupos do rock sinfónico (Emerson, Lake and Palmer, Yes, Pink Floyd, Genesis..), depois, em tempo de universidade ( e a descobrir Lisboa, tal  como o o autor descreve…mas, o meu caso, uns 10 anos depois,  a partir de 1976), o punk e a New Wave, explorando muito a década de 80, quando já tinha algum poder de compra e me envolvi nas rádios piratas. Mantenho-me actualizado, muito graças à minha enteada e à minha filha, mas, para mim, a musica dos anos 80 foi o mesmo que os Beatles e os grupos da época foram para amigo “ephemerense”.

Descobri, no seu livro,  referências a muitos grupos dos quais nunca tinha ouvido falar. Estou a pensar em explorar essa descoberta no Youtube com a ajuda do  livro.

Mas há outro facto curioso. É muito provável que, em 1959, nos tenhamos cruzado, eu, o autor e o “célebre” Jó,  numa das ruas do bairro Carmona em Coimbra. Apesar de ter apenas 3 anos na altura, vivi aí com os meus pais durante uns 4 meses,  na rua da Guiné, uma transversal à Rua de Angola, muito citada nas cartas do livro, e lembro-me de um bairro de pequenas vivendas de 2 andares (nós morámos num primeiro andar) e que, no andar de baixo, onde eu vivia, haver uma miúda com a minha idade, com quem brincava no quintal que rodeava essa vivenda, assim como me lembro da proximidade do comboio que apanhávamos para ir ao centro de Coimbra, acompanhando a minha mãe às compras e para visitar os meus avós paternos, que viviam junto à Sé Velha.

Foi pouco tempo, mas foram das minhas mais remotas memórias.

Cheguei a ir mais vezes a esse bairro, para visitar um grande amigo do meu pai, o sr. Eurico Serra Caetano , pessoa e família de quem perdi o rasto depois do falecimento do meu pai.

Pois é, o mundo é mesmo pequeno.

Mas, já agora, quem é o célebre Jó? Nada mais, nada menos, do que o amigo de infância do Luís Pinheiro de Almeida, que tinha ficado no tal bairro de Coimbra, o destinatário das cartas que o autor lhe enviava, a partir de Lisboa, contando-lhe as novidades e as descobertas.

Foi o “Jó” que, tendo guardado religiosamente ao longo doa anos essas cartas, permitiu que este delicioso livro se escrevesse.

Como diz o presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, no prefácio ao livro, referindo-se ao seu amigo e autor Luís Pinheiro de Almeida, “admiro essa tua maneira de não envelheceres. Encontrando nos Beatles uma forma de continuar a sonhar com sonhavas há meio século…”.

Todos nós temos as nossas estratégias para encarar o envelhecimento. Recordar as “bandas sonoras” da nossa vida e os sonhos a elas associados,  é uma delas.