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quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Tudo sobre a novela perdida de Saramago

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A edição on-line do El País dedica um interessante dossier à primeira obra, nunca publicada em vida, de José Saramago, agora editad em Espanha, e que andava perdida:
La novela perdida de Saramago >> Papeles Perdidos >> Blogs EL PAÍS (clicar para ler).

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

O tema musical do filme "José e Pilar", da autoria de Camané, foi pré-seleccionado para os Óscares.



Portugal continua a receber boas notícias da àrea da Cultura.
Desta vez é o anúncio da pré-seleçcão do tema oficial do filme "José e Pilar", "Já não estar", da autoria de Camané, para o Óscar.
A Notícia detalhada pode ser lida em  baixo:
“Fado de Camané pré-selecionado para os Óscares

Ana Sanlez, RTP, 20 dezembro '11
 
“O fado “Já não estar”, interpretado por Camané, é uma das 39 canções pré-selecionadas pela Academia norte-americana de Artes e Ciências Cinematográficas para o Óscar de Melhor Canção Original. O tema faz parte da banda sonora do documentário “José e Pilar”, realizado por Miguel Gonçalves Mendes, que foi a película escolhida para representar o cinema português nos prémios da Academia.

“Com letra de Manuela de Freitas e música de José Mário Branco, o tema interpretado pelo fadista Camané integra o documentário "José e Pilar", que retrata dois anos da vida no Nobel português ao lado da jornalista espanhola Pilar del Río.

“Além do fado de Camané, a banda sonora de "José e Pilar" integra temas compostos por David Santos, conhecido no mundo artístico como noiserv, Pedro Gonçalves, Luís Cília, Adriana Calcanhoto, Paco Ibañez, Pedro Granato e Bruno Palazzo.

“Finalistas anunciados a 24 de janeiro
“Para determinar as cinco canções finalistas, os membros do júri irão visualizar, no dia 5 de janeiro, os excertos das películas que contenham o tema pré-selecionado, após a qual se seguirá o processo de votação. Para garantir a presença na lista final, os temas têm de uma pontuação mínima de 8,25 pontos, sendo que o número máximo de nomeações na categoria de Melhor Canção Original é de cinco.

“Os filmes com mais temas a concurso são "Os Marretas", com três canções nomeadas, o filme de animação "Rio", igualmente com três temas, e a coprodução indiano-árabe Dam 999, que também conquistou três pré-nomeações. Segundo as regras da Academia, um filme pode ter no máximo duas canções nomeadas.

“Os finalistas de cada categoria serão anunciados a 24 de janeiro e a 84ª cerimónia de entrega dos prémios da Academia terá lugar no dia 26 de fevereiro no Kodak Theater, em Los Angeles.

“O documentário português faz ainda parte da lista de 265 longas-metragens aceites pelo júri como possíveis nomeadas para o Óscar de "Melhor Filme", por cumprir requisitos essenciais como ter estreado em cinemas comerciais nos Estados Unidos e ter figurado durante pelo menos sete dias consecutivos em cartaz.

“Conquistas internacionais

“Poucas semanas depois de ter sido elevado a Património Imaterial da Humanidade pela UNESCO, a canção portuguesa recebe outra importante distinção internacional.

"José e Pilar" esteve durante quatro meses em cartaz em Portugal, tendo levado cerca de 22 mil espetadores às salas de cinema, aos quais se acrescentam mais de 40 mil no Brasil.

“A película de Miguel Gonçalves Mendes já conquistou o Prémio do Público na Mostra de São Paulo e o Prémio do Público na Mostra Visões Sul. Recebeu ainda nomeações para Melhor Filme pelos prémios de autor da Sociedade Portuguesa de Autores e de Melhor Filme Documental pela Academia Brasileira de Cinema”.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

O Som Do Dia - 16 - Luis Pastor canta José Saramago


PODE VER ESTE ESPECTÁCULO HOJE À NOITE NO S. JORGE, EM LISBOA (entrada gratuita)

domingo, 20 de junho de 2010

As Férias do sr. Cavaco...


(Foto: Correio da Manhã)

É compreensível que o cidadão Cavaco Silva não tenha comparecido ao funeral de José Saramago.

O cidadão Cavaco Silva, enquanto primeiro-ministro, tolerou atitudes persecutórias em relação a Saramago, por meras razões ideológicas.

Essas atitudes foram a principal razão de Saramago se ter auto-exilado em Espanha, onde foi muito mais acarinhado do que em Portugal, mesmo pelos seus adversários políticos.

Saramago, sem “papas na língua”, respondeu à letra ao cidadão Cavaco Silva, definindo-o como um político de uma “banalidade genial”.

Nestas situações é normal dizer-se que só faz falta quem está presente.

Mas o cidadão Cavaco Silva tornou-se Presidente da República Portuguesa, o mais alto representante da Nação.

A independência exigida ao exercício da presidência da República foi argumento usado por Cavaco Silva para justificar decisões que iam contra as suas convicções.

De facto, a importância do cargo devia-se sobrepor às sua convicções político-pessoais.

Só que Cavaco começa a agir de acordo com o calendário eleitoral. A salvaguarda do apoio eleitoral das facções mais ortodoxas e extremistas da Igreja Católica terá pesado na sua decisão.

Acabou por colocar os seus interesses eleitorais acima dos deveres de Estado.

Pode-se não gostar do homem ou do escritor, mas ninguém põe em causa o papel de Saramago na divulgação e renovação da língua portuguesa, ou, parafraseando um argumento muitas vezes usado para justificar homenagens públicas menos merecidas, Saramago foi alguém que pôs Portugal no mapa.

O mínimo que os cidadãos deste país exigiam ao seu Presidente era que representasse condignamente a Nação no funeral do nosso Prémio Nobel. É esse um dos papeís mais significativos do cargo que exerce.

Como também se costuma dizer, as atitudes ficam com quem as toma…

A Fotografia da Semana - A "última" Fotografia de Saramago.

Neste dia em que nos despedimos de José Saramago, divulgamos aqui aquela que foi, muito provávelmente, a sua última fotografia em vida, como tal ontem divulgada pelo periódico espanhol La Vanguardia, tirada em sua casa em Lanzarote nos finais de Maio.
Até Sempre Saramago. Agora...leiam-no!

sábado, 19 de junho de 2010

Adeus José...

O corpo de José Saramago já se encontra em Portugal.
Adelino Gomes publicou hoje, no Público, uma interessantíssima biografia do autor.
Surpreendentes são também os textos de Zapatero e Rajoy sobre Saramago, publicado no EL País, revelando uma grande sensibilidade cultural, apesar das diferenças e que, por comparação, revelam que a actual geração de  políticos portugueses se encontra a anos luz da estatura daqueles dois estadistas, pois não os estou a ver escrever da forma sentida e esclarecida dos líderes espanhóis.
Se Portugal não souber dignificar Saramago, um dia destes é a Espanha que se torna a sua Pátria...

sexta-feira, 18 de junho de 2010

No Dia em que morreu JOSÉ SARAMAGO

(Fotografia de Pedro Walter - El País)

Este dia será recordado para sempre como o dia em que morreu José Saramago.

Único escritor português a receber até hoje um Prémio Nobel, é muito provável que nenhum português hoje vivo volte a festejar a alegria desse dia 8 de Outubro de 1998 em que foi anunciado esse prémio.

Esse galardão, ao contrário do que seria de esperar num país normal, contribuiu para acentuar vários dissabores e injustiça cometidas contra ele por um país de invejosos , intriguistas e arrogantes, liderados por um bando de “opinadores” de bancada.

Não me esqueço de, nesse mesmo dia, depois de ter ouvido na rádio as primeiras declarações de Saramago, afirmando humildemente que só tinha havido um escritor português do século XX merecedor desse prémio que era, para ele Sophia de Mello Brayner, ter de ouvir, pouco depois, um furibundo Miguel Sousa Tavares a lançar sobre Saramago as maiores diatribes.

Infelizmente estas são as “elites” culturais que moldam há muito tempo os valores de Portugal. José Saramago sabia onde vivia e procurou calma e sossego na vizinha Espanha, que nunca lhe negou reconhecer o seu verdadeiro valor.

As maiores homenagens e os dossiers mais bem elaborados sobre Saramago estão já nas páginas on-line da imprensa espanhola, como no El País, ( o melhor de todos),  no El Mundo, no La Vanguardia ou no ABC.

A imprensa portuguesa também dedica um grande espaço das suas edições on-line ao acontecimento, como o Expresso, o Público, o Jornal de Notícias , a Visão e o Diário de Notícias.

AQUI podem ler o Último texto de Saramago.

Tenho a honra de possuir dois livros autografados por José Saramago, um ainda antes do Prémio Nobel e outro posterior, ambos conseguidos por o ocasião de duas visitas que fez a Torres Vedras (sobre a relação de José Saramago e Torres Vedras, leiam AQUI).

Discute-se agora se Saramago será sepultado ou não em Portugal. Para mim essa é uma decisão que compete à família e que deve respeitar o desejo em vida do escritor, mas, se vier para Portugal, só há um sítio digno de Saramago que é o Panteão Nacional.

Deixa-nos o homem, fica a sua obra que sobreviverá para sempre aos seus detractores.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

O Respigo da Semana - a polémica de Saramago vista por Richard Zimler (Público - 27 de Outubro de 2009

De forma soberba, Richard Zimler coloca a polémica com Saramago na sua verdadeira dimensão.
Publicado hoje no Público, foi a nossa escolha para este "Respigo da Semana".




"Saramago e a insustentável leveza da ignorância


"Quando José Saramago decidiu espevitar o interesse pelo seu último livro afirmando que "a Bíblia é um manual de maus costumes", a minha primeira reacção - como escritor e como alguém de há muito tempo dedicado aos estudos de religião comparada - foi rir-me para comigo e murmurar "e depois?".

"São várias e de ordem vária as razões por que desvalorizei os comentários de Saramago. O Antigo Testamento, praticamente na sua totalidade, nunca teve como propósito constituir qualquer coisa de parecido com um manual de boas ou más maneiras. Ao ler a Bíblia, pouco que seja, ninguém pretende encontrar um modelo para o seu comportamento nos actos do Rei David, de Betsabé, de Noé, de Adão, de Eva ou de quaisquer outras pessoas referidas nas histórias bíblicas. Na tradição judaica, tal atitude pura e simplesmente nunca existiu. Nem o mais ortodoxo dos rabinos obedece hoje à maioria das regras de conduta doDeuteronómio, mais que não fosse por estarem de tal modo datadas que seriam irrelevantes para a vida dos nossos dias. Assim como ninguém no mundo judeu modela o seu comportamento pelo de Deus. Fazê-lo seria considerado ingénuo na melhor das hipóteses ou herético na pior. O Antigo Testamento é formado em grande parte por uma compilação de histórias, muito à semelhança de um romance. E o seu tema principal é a difícil e por vezes tumultuosa relação entre Deus e Israel, entre o criador transcendente de um universo e o seu povo escolhido. É uma história de sobrevivência, de como os israelitas usaram de todos os meios à sua disposição - incluindo a guerra - para defender aquilo que consideravam a sua particular aliança com o Senhor. Como qualquer romance ou outra forma de narrativa que intente descrever todos os cambiantes da conduta humana, dela fazem parte tanto a opressão intolerável, os crimes de guerra e os assassinatos, como também o amor, a dedicação e o heroísmo. Trata de seres humanos tal como eles são, e não como eles deveriam ser. Pegar no Antigo Testamento para criticar a brutalidade dos hebreus ou de outros povos da antiguidade é o mesmo que criticar Dostoievsky por escrever sobre um assassinato premeditado emCrime e Castigo ou criticar Anne Frank por descrever como a crueldade nazi afectou a sua família.

"Inclinava-me a pensar que qualquer escritor haveria de olhar como vital, tanto para ficcionistas como para ensaístas, a exploração de toda a gama das emoções e acções humanas, mas ao que parece enganava-me, pelo menos no caso particular de Saramago.

"Confesso que as palavras de Saramago me deixaram perplexo de um modo muito pessoal ao implicarem que não deveríamos escrever sobre os horrendos crimes cometidos por seres humanos, pois uma boa parte do que faço nos meus romances é explorar as vidas de pessoas cujas vozes têm sido sistematicamente silenciadas por ditadores, generais e inquisidores religiosos. Penso que escrever sobre a repressão violenta e sobre os tratamentos cruéis é essencial, sobretudo quando se busca a criação de um mundo de mais justiça e humanidade. E uma das coisas que mais respeito e valorizo no Antigo Testamento - apesar de não crer num Deus pessoal e de não praticar nenhuma forma de fé, nem sequer a religião dos meus pais, o judaísmo - é o facto de aí nada ser escamoteado ou escondido. Quem quer que deseje conhecer até onde pode chegar a abominação e a crueldade humanas e até que ponto Deus - ou o Destino - pode ser impiedoso bastar-lhe-á abrir o Antigo Testamento. Para quem nunca o fez, sugeriria que lessem o tratamento dado pelo Rei David a Urias, narrado no Segundo Livro de Samuel. Será difícil encontrar descrição mais poderosa da traição e da brutalidade humanas.

"Por outro lado, considerei que no fundo não valia a pena dar importância aos comentários de Saramago, pela ingenuidade e infantilidade da interpretação literal que ele (juntamente com os fundamentalistas religiosos) faz das histórias do Antigo Testamento. Uma das mais importantes lições que retirei do estudo da história das religiões e da mitologia é que as narrativas mitológicas são - na sua maior parte - poesia e não prosa. A história de Adão e Eva é poesia. Ou será que haverá alguém que acredite que Eva foi feita de uma costela de Adão? O autor desta narrativa do Antigo Testamento está a recorrer a uma linguagem simbólica - tal como poetas muito posteriores, como Shakespeare ou Camões, recorreram à linguagem simbólica para criarem as suas obras-primas. Ou será que algum leitor de Os Lusíadas pensa que os navegadores portugueses depararam com um temível gigante chamado Adamastor nas suas viagens da época das Descobertas? Ou, quando a narrativa bíblica conta que Moisés separou as águas do Mar Vermelho no Livro do Êxodo para que o seu povo pudesse fugir do Egipto, será que alguém com mais de dez anos acredita que ele possa ter murmurado algum abracadabra hebraico e produzido tal milagre? Espero bem que não. O Antigo Testamento pode ter como referência um acontecimento histórico - a libertação do povo hebraico -, mas a linguagem utilizada é poética e simbólica. Por assim ser, está aberto a diferentes interpretações. Pode acontecer que o que aqui se pretende é falar da viagem espiritual que cada um de nós pode fazer ao longo das nossas vidas, da escravidão para a liberdade. Nesse caso, a história de Moisés será sobre a nossa aspiração - como indivíduos e como povo - à segurança, a uma vida realizada e com sentido.

"Tomar à letra estas histórias é simplesmente não entender o Antigo Testamento e ignorar por completo dois mil anos da tradição poética ocidental.

"As palavras de Saramago pareceram-me ainda como o "much ado about nothing", o muito barulho para nada, com que soa qualquer coisa que nem remotamente é novidade. Há cerca de dois mil anos que os filósofos judeus vêm debatendo a brutalidade de Deus e da humanidade no Antigo Testamento, em tons bastante mais emocionados do que os usados no debate em causa. Talvez a história mais criticada do Antigo Testamento seja narrada no livro deJob. Depois de um Satanás céptico dizer a Deus que a piedade de Job se deve apenas à prosperidade de que goza, Deus põe à prova a fé e a dedicação de Job arruinando-lhe a vida da forma mais horrível. Podemos encontrar comentários sobre a interpretação a dar a esta história - assim como de qualquer outra história bíblica - em centenas de livros escritos por filósofos judeus - e também alguns cristãos - ao longo dos últimos dois mil anos. Como é possível que alguém que se considera instruído não tenha consciência desta herança cultural?

"As primeiras obras escritas analisando a natureza de Deus, tal como é descrita no Antigo Testamento, são o Talmude, um compêndio dos textos rabínicos sobre ética e cultura compilados entre os anos 200 e 500 da era cristã. Mais tarde, na época medieval, o tema da natureza de Deus foi explorado por dezenas de talentosos filósofos medievais, incluindo pensadores magníficos como Maimónides e Moisés de Leão, autor do século XIII, que escreveu o livro mais influente do misticismo judaico, oZohar. Mais recentemente, estudiosos como Walter Benjamin e Martin Buber acrescentaram facetas modernas ao debate. A natureza da relação de Deus com o homem - a Sua crueldade e, em particular, a Sua "surdez" face ao sofrimento humano - tornou-se num dos mais importantes tópicos de discussão no mundo judaico desde o Holocausto, pelo mais óbvio e terrível dos motivos. Simultaneamente, este debate filosófico foi sendo reflectido na literatura judaica desde os meados do século XIX, na obra de muitos escritores, de Sholem Aleichem e Shmuel Yosef Agnon - que recebeu o Prémio Nobel em 1966 - a Philip Roth.

"Concluindo, custa-me compreender como é que alguém, ainda que vagamente familiarizado com a filosofia e a literatura ocidentais, pode acreditar que erguer-se em 2009 contra a crueldade contida no Antigo Testamento tem alguma coisa de novo ou de chocante. Ou sequer interessante.

"O que é interessante é perguntarmo-nos por que razão exige Deus uma tão absoluta fidelidade aos israelitas e os castiga tão brutalmente por Lhe desobedecerem. Por que são outros povos, como os cananitas, olhados com tanto desprezo. O que diz tudo isto sobre as condições políticas e sociais em Israel em 500 a.C. E o que diz a relação de Deus com Israel sobre a "natureza tribal" das religiões da antiguidade.

"Estes, sim, são temas importantes a merecer respostas sérias dos estudiosos.

"Mas, naturalmente, nada disto mereceu a atenção de Saramago nem dos que reagiram às suas críticas ao Antigo Testamento. O que me traz ao aspecto mais perturbador e alarmante de toda esta tola controvérsia. Os jornalistas e os responsáveis religiosos portugueses de um modo geral trataram os comentários de Saramago como importantes! Graças a eles, os meios de comunicação deram-lhe mais tempo na televisão e mais espaço nos jornais do que a outras questões muito mais importantes. E alguns representantes da Igreja Católica atacaram-no com uma ferocidade emocional que revela bem que consideram tais opiniões sobre o Antigo Testamento como um obstáculo à fé. Mais uma vez, tal como salientei mais atrás, os comentários de Saramago não são nem chocantes nem novos. E apenas representam um obstáculo à fé para quem não tenha a menor ideia do que é e do que pretendia ser o Antigo Testamento. As críticas de Saramago são unicamente banalidades superficiais, que revelam uma profunda ignorância da filosofia e da religião ocidentais e uma total incompreensão da linguagem poética e narrativa de desde há mais de três mil anos. Só quem ignora tal herança, jornalistas e responsáveis religiosos incluídos, poderia tornar o patético desabafo do romancista numa tal polémica. E, para mim, essa foi a parte mais desanimadora e mais perturbante de toda esta "inventada" notícia: descobrir que na sociedade onde vivemos, entre os seus membros mais ilustres e cultivados, possa prolongar-se tão lastimosa ignorância de uma parte importantíssima do legado civilizacional da filosofia e da cultura ocidentais.

(Tradução de José Lima)

RICHARD ZIMLER

In Público 27 de Outubro de 2009

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

o "Zé Povinho" no seu pior



Portugal continua a ser notícia pelos piores motivos.

Desta vez é a forma indigna e saloia como muita gente bem pensante deste país continua a tratar José Saramago.
É o “Zé Povinho” no seu pior.
Para vergonha de nós todos, há duas horas o El Mundo publicava a seguinte notícia:

(vai em espanhol)



“En el olvido ha quedado para muchos portugueses el Premio Nobel de Literatura que José Saramago consiguió en 1998; el escritor luso se ha convertido en el "enemigo número uno" de su país natal.


"Este hombre es el diablo", repetía una mujer de edad avanzada que esperaba el comienzo de la misa dominical en una céntrica iglesia lisboeta. A raíz del lanzamiento de 'Caín', un libro en el que Saramago arremete contra los principales pilares del cristianismo -Dios, Biblia e Iglesia-, ésta es una opinión muy extendida entre los compatriotas del escritor.


Saramago -ateo y comunista confeso- definió la Biblia como "un manual de malas costumbres" en su último trabajo. Para el autor de 'Ensayo sobre la ceguera', el libro sagrado del cristianismo es "un catálogo de crueldades" sin el que probablemente la humanidad "sería mucho mejor".


Tampoco le han faltado arrestos al literato para negar la existencia de Dios y tildar su figura de "cruel, mala persona y vengativo", por no ser "alguien de fiar", ya que "fue creado por los hombres a su imagen y semejanza".


Estas declaraciones han suscitado reacciones airadas de gran parte de la sociedad portuguesa que ya ha convocado manifestaciones públicas de protesta, la primera el pasado sábado en Penafiel, cerca de Oporto.


Al rechazo popular se han sumado figuras representativas de la vida política y social del país ibérico. El eurodiputado socialdemócrata Mario David ha instado a Saramago a abandonar la ciudadanía portuguesa "lo más rápido posible", mientras que el ex subsecretario de cultura, Sousa Lara comparó al autor de 'El viaje del elefante' con el primer ministro italiano Silvio Berlusconi.


Saramago sabía seguro que sus palabras iban a provocar el rechazo de las principales agrupaciones religiosas del país, que no han tardado en mostrar su descontento; la Conferencia Episcopal y la Comunidad Islámica se han sentido muy ofendidas y el líder judío Eliezer di Martino ha asegurado que el escritor "no conoce la Biblia".


Esta nueva polémica ha servido para revivir la antipatía con la que cuenta el escritor de 86 años en su país de origen. Miguel sousa Tavares -autor del 'best-seller' 'Ecuador' opinó este fin de semana en su columna en el rotativo 'Espresso' "que todo en Saramago es vanidad y autopromoción".


También la edición portuguesa de la revista 'GQ' se ha unido a las críticas contra el dramaturgo, al que ha tachado de "ignorante y "blasfemo", "amargado" y "loco por publicidad". "Es el tipo más desagradable de la Península Ibérica".


Pocos son profetas en su tierra, pero la hostilidad que existe entre Portugal y Saramago, Saramago y Portugal, ha llevado al novelista a instalarse "en el exilio" en la isla de Lanzarote, donde vive hasta hoy con su esposa Pilar del Río.”

Embora Saramago se tenha posto a jeito, esta é mais uma situação que nos devia envergonhar a todos.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Ainda as polémicas afirmações de Saramago...


Não sou católico, embora tenha sido baptizado.

Contudo, não tenho dúvidas que muitos dos meus valores são o que são porque nasci num país católico e, por isso, não lhes sou indiferente .
Nunca li a Bíblia, a não ser de modo indirecto, através da arte que se inspirou no seu conteúdo, nomeadamente na pintura e no cinema.
Porque no meu tempo era obrigatório a frequência da disciplina de religião e moral, onde tive aulas de um padre “liberal”, como o era o padre Joaquim Maria de Sousa, que não nos obrigava a saber de cor os princípios da Igreja, antes procurava transmitir os valores católicos através de visitas guiadas ao património local ou à apresentação de episódios da Bíblia através dos recursos audiovisuais então disponíveis (diaporamas e filmes), e mais tarde com o Padre Brito que discutia connosco, de modo aberto os problemas que nos preocupavam enquanto adolescentes, é dessa disciplina, conjuntamente com as aulas de História da Cecília Travanca ou as de Geografia de Mário Fernandes, que guardo boas memórias.
Não aprendi muito sobre a Bíblia, embora seja uma obra sobre a qual tenho alguma curiosidade, mas aprendi a gostar de arte e do património, já que, neste cantinho, só podemos apreciar arte conhecendo o papel histórico e ideológico da Igreja, e também aprendi a gostar muito de artes visuais (o cinema, a fotografia, a banda desenhada).
Tenho por mim que a Bíblia, tanto pode ser um manancial de bons costumes, como, lida de forma dogmática, um manual para os maiores crimes da humanidade ( a Inquisição e, no mínimo, a indiferença face ao holocausto, são exemplos disso).
Também sei separar o Velho do Novo Testamento, o primeiro transmitindo a ideia de um Deus vingativo, autoritário e arrogante, o segundo mais humano, ou não nos contasse ela uma história baseada na realidade histórica.
Por tudo isso percebo, mas não subscrevo, as afirmações de Saramago. De facto, lida de forma dogmática, a Bíblia “é um manual de maus costumes”, de facto, o modo dogmático como funcionam muitas instituições religiosas, cristãs, judaicas ou muçulmanas, têm levado aos maiores crimes contra a humanidade. A tentativa de imitar o mesmo dogmatismo por parte de “religiões” político-ideológicas, como o nazismo ou o stalinismo, é responsável pelos crimes que sobram.
Não subscrevo as afirmações de Saramago, porque revelam um jacobinismo que se esperava morto e enterrado, ditas num país, como Portugal, onde a actual Igreja Católica Portuguesa é liderada por uma geração de gente muito culta e aberta, ao contrário, por exemplo, da Igreja Espanhola, ultra-conservadora e ultra reaccionária.
Há contudo que dar o devido desconto.
A Obra de Saramago vale mais do que as suas já habituais declarações públicas, descabeladas, incoerentes e muitas vezes ignorantes, assim como a Bíblia vale mais do que a interpretação que muitos procuraram fazer dela ao longo dos tempos, para justificar os crimes mais hediondos e os costumes mais desumanos.