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quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

Todos Somos Ucranianos

                                   


A “besta” está de volta.

As coisas não são simples, nem a preto e branco.

Tal como o Tratado de Versalhes, ao humilhar o povo alemão, “criou” Hitler, a forma como a NATO e o ocidente humilharam os russos, depois do fim da União Soviética, “criou” Putin.

A forma como os Estados Unidos desvalorizaram o papel da ONU no período pós-soviético, intervindo quase sempre sem mandato internacional, um pouco por todo o mundo, serviu de modelo à justificação retórica de Putin para atacar os países vizinhos e agora a Ucrânia.

O uso e abuso da retórica “antiterrorista” para invadir o Afeganistão e o Iraque, usada pelo “ocidente”, é agora usado por Putin para justificar a invasão da Ucrânia.

A destruição da Jugoslávia e os bombardeamentos da NATO na Sérvia, com a justificação de acabar com o genocídio, é agora copiada a pente fino por Putin para acabar com o “genocídio” dos russos na Ucrânia.

Claro que, como aconteceu em 1939, quando Hitler invadiu a Polónia, a altura não é para discutir o passado histórico ou as responsabilidades, a prioridade é destruir a “besta”.

Foi pena é que os líderes ocidentais não tivessem aprendido nada com a História e tivessem permitido o renascimento da “besta”, agora sob a forma de Putin.

A História não se repete, mas surge sob novas roupagens. Putin não é Hitler, mas a invasão da Ucrânia é uma violação do direito internacional tão grave como foi a invasão da Polónia por Hitler.

Claro que, em matéria de violação do direito internacional, a NATO e os Estados Unidos não têm lições a dar.

A Guerra, em pleno século XXI, é uma barbaridade, um anacronismo civilizacional, e por isso é preciso que, num momento propenso a intolerâncias e fanatismos, de parte a parte, suja alguém que consiga travar o descalabro desta guerra.

Já vimos que esse alguém não é a NATO, que se alimenta da guerra, mesmo a dos “outros”, nem os Estados Unidos, que dependem económica e financeiramente do militarismo.

A ONU está enfraquecida, sem grande poder de acção, graças à forma como foi marginalizada pela NATO e pelos Estados Unidos.

O PAPA Francisco, das poucas vozes humanistas, só tem o poder da palavra.

A “neutral” China, não tem interesse em destabilizar a Europa, que já controla financeiramente, mas vê aqui a oportunidade de enfraquecer os Estados Unidos, a União Europeia e o amigo da “onça” Putin e, portanto, vai ficar a ver “onde param as modas”, para, no fim, “sair por cima”.

A Turquia, que detém um dos maiores exército da NATO, logo a seguir ao dos Estados Unidos, é governado por um autocrata, igual a Putin, com pouco interesse em envolver-se numa guerra contra a Rússia, e tudo fará para ficar fora deste conflito.

Erdogan, paradoxalmente, até pode surgir como um dos raros intermediários entre o Ocidente e Putin.

Mas o importante agora é ir direito ao essencial: apoiar o povo ucraniano contra a brutal e desigual intervenção militar russa e não confundir os russos com o ditador Putin.

Por outro lado, é preciso criar um Tribunal Penal Internacional, independente, quer da propaganda ocidental, quer da propaganda de Putin, para reunir provas e informações para condenar todos os crimes de guerra perpetrados durante esta guerra, quer pelo exército russo, quer pelo exército ucraniano, quer pelas milícias russas, quer pelas milícias ucranianas, como forma de travar o pior da guerra.

Mas, por agora….TODOS SOMOS UCRANIANOS e solidários com o seu povo! 

sexta-feira, 11 de junho de 2021

Da “Bufaria”…ou o estranho caso da “casa” da Rússia!!


Ao longo da História portuguesa, a “bufaria” foi uma das actividades preferidas de gerações de portugueses.

Era assim nos tempos da “Inquisição”, foi assim nos tempos do Estado Novo, devendo este regime muita da sua longevidade a essa edificante actividade, e, ficamos a saber agora, mantem-se bastante activa nos nossos dias democráticos, nas redes sociais e entre autoridades oficiais.

Tudo isto a propósito de mais um “caso”, num país onde a política não se faz de projectos para o país e para os seus cidadãos, mas da exploração demagógicas de “casos”.

Tão bufo é quem (Câmara de Lisboa), num ataque de  “excesso de zelo”, resolve avisar os visados por manifestações, como é aquele (um tal Moedas) ,ou aqueles (comunicação social) que, meses depois do sucedido, denunciam, no momento político mais “adequado”, mais um caso, para gáudio das redes socias e para aumentar audiências.

Mas vamos por partes.

A notícia de que, em Janeiro último, foram fornecidos dados à embaixada russa em Portugal,  sobre os organizadores de uma manifestação anti-Putin, é gravíssima e uma vergonha para o nosso país.

Contudo, o “tempo e modo” como essa notícia foi divulgada, e tudo o que sobre o assunto se tem vindo a saber desde então, levanta uma série de dúvidas e interrogações.

Pelo que se sabe, tudo tem origem numa lei de Agosto de 1974, sobre a realização de manifestações, publicada poucos meses depois do 25 de Abril, dois anos antes de haver uma Constituição.

Mas…calma lá! Não venham já acusar o 25 de Abril ou o “gonçalvismo”!!!. Era óbvio que, derrubado um regime onde não eram autorizadas manifestações, a não ser as “manifestações espontâneas” de apoio a Salazar, era necessário legislar sobre aquilo que passou a ser uma “novidade”, o direito de manifestação.

Desconheço as alterações que essa lei conheceu ao longo dos tempos, mas, no essencial, até 2011, ela era da competência dos Governos Civis. Extintos estes, da forma atabalhoada que toda gente sabe, para “ir além da Troika”, “rapidamente e em força”, a competência de autorizar e organizar as manifestações passou para as Câmaras Municipais das capitais de distrito.

Que se saiba, a lei exige que se informe o município onde se realiza a manifestação, 48 horas antes, sobre o seu percurso e sobre os responsáveis pela sua organização. Se for um sindicato, um partido ou uma associação, não é necessário outro conjunto de dados, sendo fácil responsabilizar essas instituições pelo decorrer da mesma. Contudo, se a manifestação for convocada sem cobertura de instituições legais, a informação deve conter o nome de três organizadores, com as respectivas moradas e profissões, para se saber quem responsabilizar e para as autoridades poderem organizar os fluxos de trânsito e a segurança das mesmas.

Até aqui nada de mal.

O problema está no hábito de se avisarem as entidades, alvo da manifestação, o que também se pode justificar, mas essa informação nunca pode incluir os nomes dos organizadores, principalmente se estivermos perante regimes autoritários, que não respeitam os Direitos Humanos e, até, perseguem, raptam e assassinam os seus opositores fora do seu território nacional, que é o que acontece com a Rússia, mas também com regimes “amigos” como Israel e até já aconteceu com os Estados Unidos, a França e a Grã-Bretanha, sob o mesmo pretexto de Putin de “combater o terrorismo”, sem esquecer a perseguição política da nossa vizinha Espanha em relação aos nacionalistas catalães.

O que é estranho, em tudo isto, é o momento escolhido para denunciar essa situação.

Debitemos, então, algumas das estranhezas que este assunto nos desperta:

- se o caso se reporta a Janeiro último, foi conhecido pela Câmara de Lisboa em Abril, reconhecendo esta o “erro” e procedendo a mudanças de orientação quanto à forma de agir, a partir dessa data, e sendo o tema, segundo as palavras de um dos manifestantes visados, do conhecimento da comunicação social desde essas datas, porque é que só agora, no início de uma campanha autárquica, é que essa mesma comunicação social denuncia a situação?;

- se, já anteriormente, havia queixas desse procedimento, desta vez por parte de manifestantes em favor da causa palestinianas, e da forma como Israel e os seus assassinos da Mossad foram avisados, porque é que a mesma comunicação social e os mesmos políticos, que agora denunciam o caso dos manifestantes russos, não o fizeram, anteriormente, numa situação idêntica?

- por último, percebendo que os manifestantes denunciados às embaixadas, por “erro burocrático” ou excesso de zelo, se sintam preocupados com as suas vidas e as dos seus familiares, não  percebo porque não se coibiram de dar a cara na comunicação social, como se os serviços secretos russos precisassem dos dados do mail da Câmara para conhecerem e identificarem os manifestantes ou como se a embaixada não visse a televisão portuguesa?

É urgente averiguar quais foram os casos em que aquele procedimento burocrático colocou em perigo a vida de pessoas perseguidas, condenar os responsáveis, se se justificar, bem como alterar a lei de forma a proteger os cidadãos da violação de Direitos Humanos, sem desvirtuar o direito de manifestação.

quarta-feira, 26 de maio de 2021

Israel e Bielorrússia, os dois pesos e duas medidas da União Europeia.


O desvio de um avião de passageiros é um acto de terrorismo.

Quando esse acto ignóbil é organizado pelo governo de um Estado, reconhecido internacionalmente, estamos perante um acto de terrorismo de Estado que tem de ter uma resposta firme da comunidade internacional.

Foi isso que fez, e bem, a União Europeia, com rapidez e firmeza, rapidez e firmeza pouco habitual noutras situações.

Ainda recentemente tivemos uma semana de acções criminosas levada a cabo por um Estado “amigo” da União Europeia, o Estado de Israel.

Aliás, essa acção criminosa levada a cabo por Israel, ao contrário do acto de pirataria promovido pelo ditador Lukashenko, provocou mais de duas centenas de mortos, a maior parte civis.

Ao contrário do que aconteceu agora, a União Europeia, e o mesmo podemos dizer da NATO,  foi demorada e tímida e parca a condenar os crimes israelitas.

O que nos leva a concluir que a União Europeia usa dois pesos e duas medidas, para tomar posição contra actos tresloucados de figuras repugnantes como um Lukashenko ou um Natanyahu, cada um à sua maneira, “exemplos” de  “democratas iliberais”.

Aliás, tanto a União Europeia, como a NATO, têm os seus telhados de vidro, como Viktor Orbán no seio da UE, que tem seguidores em todos os países do leste, e não só, ou Recep Erdogan, na Turquia, país este com um dos mais poderosos exércitos da NATO.

Lukashenko, Natanyahu, Erdogan, Órban , tal como Putin, Maduro, Bolsonaro e, cada vez mais, tantos outros por esse mundo fora, estão todos ao mesmo nível no desrespeito pelos Direitos Humanos, pala Liberdade e pela Democracia.

Mas na União Europeia parece que,se são todos autoritários e repelentes, …. alguns são mais autoritários e repelentes do que outros!!!

terça-feira, 2 de junho de 2020

Estados Unidos : A incapacidade de acabar com uma história de violência


A violência a que se assiste não é estranha à realidade diária de um país como os Estados Unidos.

Os Estados Unidos foram construídos na violência, primeiro contra os indígenas, num lento holocausto temporal, mas que no fim atingiu um número mais trágico do que o holocausto nazi ou o Gulag soviético.

Em paralelo, aquele país foi construído pela massificação do trabalho escravo de negros vendidos pelos comerciantes de escravos europeus, numa dimensão nunca antes vista na história, nem talvez no tempo dos romanos.

Ainda por cima, ao contrário de outras épocas históricas, a escravatura não tinha alternativa e era um estigma racial.

Podemos juntar a toda essa violência, muito concentrada entre os finais do século XVIII e o início da segunda metade do século XIX, a violência dos pistoleiros que impunham o seu poder político, social  e económico, à lei da bala, realidade que inspirou grandes escritores e cineastas.

Para se acabar com esse crime desumano da escravatura, foi preciso uma Guerra Civil, só ultrapassada em violência pelas duas Guerras Mundiais.

Mas o fim da escravatura não acabou com o estigma racial, que atingiu o seu auge nos anos 60 do século passado e custou muitos mortos e assassinatos para ser oficialmente extinto.

Mas, se o racismo “acabou” legalmente, o estigma social e as desigualdades por ele provocadas não terminaram em muitas zonas da “américa profunda” e esteve por detrás da eleição de Trump para presidente, vingando-se da excepção que tinha sido a eleição Obama, o primeiro negro presidente.

É conhecida a violência policial e o carácter racista das autoridades policiais nalguns estados norte-americanos.

Sabe-se também que a violência racista sempre esteve latente nestas décadas todas, mas o que se esperava das lideranças políticas do século XXI é que tivessem capacidade para atenuar essas tensões.

Mas o que temos visto por parte da actual administração norte-americana é acicatar de ódios entre cidadãos, promover a lei da bala e do mais forte e falar para agradar apenas à parte mais retrógrada , intolerante e facciosa da grande nação norte-americana.

O resultado está à vista.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

No 75º aniversário da libertação de Auschwitz


(Foto publicada pelo Spiegel, de um conjunto inédito de um "álbum de fotografias das SS", que pode ser visto AQUI


Passam hoje 75 anos sobre a libertação do campo de concentração da Auschwitz por parte do Exército Vermelho.

O Holocausto foi o maior crime praticado por “humanos”.

Não existe nenhum outro crime que lhe seja comparável, pela frieza, pela organização, pela pura desumanidade.

Comparar o Holocausto com qualquer outro crime contra a humanidade é vulgariza-lo.

Claro que, só nos últimos 100 anos, foram cometidos os mais hediondos e terríveis crimes contra gente indefesa, do Gulag soviético, aos massacres norte-americanos no Vietname, dos crimes de Pinochet e de outras ditaduras latino-americanas, aos crimes do governo sionista contra os palestinianos, dos crimes do Uganda aos crimes da guerra civil angolana, dos crimes do Apartheid aos crimes racistas nos Estados Unidos, dos crimes dos maoistas na China aos crimes dos japoneses na primeira metade do século XX , dos   crimes do colonialismo aos crimes do terrorismo islâmico.

A lista é interminável, mas, mesmo assim, qualquer desses terríveis crimes fica muito aquém do Holocausto, não apenas pelo número e pela concentração temporal dos crimes, mas pela frieza, violência, desumanidade, calculismo, organização  e imprevisibilidade deste último.

Muitos dos crimes acima referidos tiveram, “apesar de tudo”, a sua “lógica” ou foram perpetrados “no calor do momento”, por "excesso de zelo" ou "descontrole", e , ao contrário dos organizadores do Holocausto, os seus criminosos autores não se vangloriavam publicamente dos seus actos.

Sem que nada disto sirva para desvalorizar ou desculpar esses crimes, as vítimas daqueles crimes sabiam, muitas vezes, porque eram as vítimas: adversários políticos, combatentes, resistentes, populações em cenário de guerra…

Pelo contrário, no Holocausto, a maior parte das vítimas nunca tinham esboçado um acto de resistência, não tinham ideologia política, eram pessoas vulgares, nem percebiam muitas vezes a razão da sua detenção.

“Apenas” não pertenciam à “raça superior”, eram judeus (muitos não professavam), eram ciganos ou eram eslavos ( e, se os nazis vencessem, a lista estender-se-ia a latinos e africanos…).

Pior ainda, muitas das vítimas do Holocausto, nem sabiam ao que iam e, para evitar incontroláveis cenas de pânico, os nazis orquestravam a chegada aos campos, para disfarçar o destino dos prisioneiros.

Toda a organização dos campos obedecia à frieza de uma “simples” organização administrativa, com registos, “metas” de “produtividade”, e toda uma burocracia do horror.

Se a negação do Holocausto é crime, a sua evocação não pode ser vulgarizada com comparações ou, ainda menos, com o abjecto aproveitamento político por parte do sionismo.

A intolerância, o desrespeito pelos “adversários”, o fanatismo ideológico e religioso, a xenofobia foram as sementes desse grande crime, e são as sementes de outros crimes contra a humanidade.

Numa época em que essa intolerância, desrespeito pelos “adversários”, fanatismo ideológico e religioso e xenofobia estão em crescendo, mesmo nas sociedades mais estáveis e democráticas, mesmo em circunstâncias diferentes, será importante manter viva a memória desse crime ignóbil.

Holocaustos, nunca mais!

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

A Vergonha da pobreza em Portugal( e na União Europeia).



Segundo os últimos números, mais de 17% dos portugueses vivem no limiar da pobreza, isto é, mais de 2 milhões!!!

Os números da pobreza em Portugal continuam a ser assustadores, para não dizer…vergonhosos!

Mais vergonhosos por esses números se referirem a um país da União Europeia e da zona euro.

Também vergonhosos, pelo facto de já se terem passado quase 45 anos após a implantação da democracia,  mais de 30 após a adesão à União Europeia e mais de 10 desde a implantação do euro, sem que número se reduza significativamente.

Ainda vergonhosos, quando esses números da pobreza coexistem no país da Expo98, do Euro 2004, onde os negócios do futebol envolvem milhões ou onde o Estado não se coíbe em salvar banqueiros com os milhões dos contribuintes.

Finalmente vergonhosos porque uma grande parte dos pobres portugueses trabalham, advindo a sua pobreza dos baixos salários que se pagam em Portugal.

Não deixa de ser igualmente significativo o título de quase todas a imprensa, tentando desvalorizar a gravidade da situação, dando realce à redução conjuntural daquela percentagem; “Risco de pobreza em Portugal é o mais baixo de sempre” (Diário de Notícias, título idêntico ao do Expresso e ao da Rádio Renascença), “Taxade pobreza e exclusão Baixou e Portugal alcançou a média da União Europeia” (Público, em vez de destacar a escandalosa média de União Europeia!!??)!!!

Claro que existe maior sensibilidade para o problema quando temos governos mais à esquerda, e nessas conjunturas aqueles índices conhecem alguma redução, mas essa é uma situação conjuntural. É fácil melhor esses números por comparação com os negros anos do "ir além da Troika" de Passos Coelho, mas não chega para combater eficazmente esse grave problema social.

É estranho que a divulgação desses números não provoque a mesma indignação, junto de comentadores, economistas, políticos  e burocratas de Bruxelas, que provoca qualquer aumento, ao nível da décima ou da centésima, do deficit!!!

Basta, aliás, ver a reacção que provocou, entre toda essa gente, o aumento miserável do já de si miserável ordenado mínimo que se paga em Portugal, comparando agora com a sua reacção à divulgação desses números .

E esses números estão muito aquém da realidade. “Apenas” são considerados pobres os que têm um rendimento inferior a 510 euros, quando se sabe que ninguém vive condignamente em Portugal com menos de mil euros, e mesmo assim com dificuldades para pagar as contas.

Aqueles números também não têm em conta a actual situação a nível do arrendamento, situação que agrava as condições de sobrevivência de quem vive com baixos rendimentos.

Mesmo para quem vive com menos de mil euros, a situação é diferente se tiver de pagar uma renda de 400 ou 500 euros, ou se vive em casa própria, se tem um problema grave de saúde, ou vive com saúde, se necessita ou não de transporte público para a sua vida ou se têm ou não familiares a seu encargo.

Se todos estes parâmetros fossem tomados em conta, aqueles números seriam bem mais elevados, no mínimo…para o dobro!

A Caridade pode ser uma panaceia conjuntural, que até pode servir para "limpar consciências, mas só medidas estruturais e consequentes, impostas pelo Estado, podem atenuar o problema



Sem se combater a precariedade no emprego, sem se aumentar pensões e salários, sem se aprofundar o Estado Social, nomeadamente a nível da saúde e da educação, sem uma intervenção forte na selvajaria do mercado de habitação, sem melhor o sistema de transportes públicos, nunca se vai conseguir reduzir a pobreza para níveis mínimos "aceitáveis" (abaixo de 5%).

segunda-feira, 22 de julho de 2019

Ainda a “Ignóbil porcaria” de Mª de Fátima Bonifácio: a fase dos “limpa fundos”.



Quem tem ou conhece amigos com aquários, sabe bem o que são os “limpa fundos”.

São uns peixinhos que se alimentam e têm como função limpar a porcaria que os outros peixes fazem e que se vai acumulando no fundo do aquário.

Metaforicamente, nas últimas semanas temos visto a entrar em acção  os “limpa fundos”  para limpar o rasto de “porcaria” deixado pelas opiniões racistas da “catedrática” Bonifácio.

Não voltei ao assunto na semana passada porque não quis conspurcar uma semana marcada por um acontecimento tão nobre como o cinquentenário da chegada à lua com a referência a tão ignóbil criatura. Estive mesmo para não voltar ao assunto, mas como as ondas de choque daquela “ignóbil porcaria” continuam a ecoar na comunicação social, não quis deixar de dar o meu humilda contributo para o “debate”, reforçando o que na altura escrevi sobre o tema.

Embora, com a exclusão de Vasco Pulido Valente,  do bando do "Observador" do PNR, ninguém se tenha atrevido a defender os argumentos da dita senhora, tenho assistido a uma tentativa de branquear, não o que ela disse, mas o que ela representa para uma certa direita portuguesa.

É bom não esquecer que ela foi uma das principais apoiantes de Passos Coelho e Cavaco, uma espécie de legitimadora moral e intelectual das medidas do tempo da troika e da ideologia neoliberal portuguesa por aqueles ensaiada, com as resultado sociais conhecidos.

Começando todos por se demarcar do tal artigo, tentam depois desculpá-lo pelo feitio provocador de Bonifácio,  em defesa de tão tenebrosa figura.

Uns acham que as afirmações racistas e as bacoradas históricas do dito artigo (já referidas por vários intervenientes e por nós próprios em post anterior) foram um mero lapso ou uma mera provocação, como se o que ela escreveu nesse artigo não fosse o corolário lógico de todo o pensamento politico, intelectualmente “bem” elaborado,  de Bonifácio, revelado aliás noutras intervenções públicas em artigos de opinião ou em debates televisivos.

De facto, Fátima Bonifácio sabe o que escreveu e concorda com o que escreveu, não foi um simples lapso. Dizer que ela não queria escrever o que escreveu é mesmo um atentado contra a reconhecida inteligência da dita “catedrática”. Pelo menos reconheça-se a coragem de Fátima Bonifácio, coragem que não abunda muito entre os seus apaniguados e seguidores que, lá no fundo, concordam com o que ela escreveu, e o dizem nos bastidores, mas nãos se atrevem a escrevê-lo o dize-lo em público.

Outra forma de “limpar o fundo” da porcaria de Fátima Bonifácio é desviar a atenção do conteúdo daquele artigo.

Que o objectivo era nobre, dizem, o de questionar a questão da quotas e que aquela afirmações racistas foram um mero berloque a “enfeitar” a “intenção” principal do mesmo artigo.

Claro que, também nós questionamos a questão das quotas, embora se deve reconhecer que, em certas circunstâncias é a única forma de combater o preconceito, seja ele de género ou de “raça”. Toda a gente sabe que, em mais de 90% dos casos, se se apresentarem um cigano, um negro e um branco, em igualdade de circunstâncias de formação, sociais e económicas, para concorrerem a um emprego, a um lugar na Universidade ou a um simples aluguer de casa, e havendo lugar apenas para um, o branco é o escolhido.

Nesse tipo de situações parece-me que se justifica a imposição de um sistema de quotas.

Já noutra situação, onde apareça um branco com melhor nota e maior experiência, concorrendo contra outros brancos, ou negros, ou ciganos, ou mulheres,  apresentando estes menor formação ou experiência, o sistema de quotas torna-se injusto.

Ao contrário daqueles que desviam a atenção para a temática das quotas no dito artigo, o racismo revelado por Bonifácio não foi um assunto secundário. Para nós a questão das quotas é que foi pretexto para as afirmações boçais e racistas da dita “catedrática”.

Outros desviam a discussão para a questão da liberdade de opinião, mesmo quando esta é abjecta (leia-se, a propósito, AQUI a forma, meio irónica, como o insuspeito Pedro Marques Lopes desmascara esta situação, nas páginas do Diário de Notícias deste fim-de-semana).

Claro que afirmações boçais, racistas e ignorantes como as de Fátima Bonifácio são o preço a apagar pela liberdade de informação.

Mas Fátima Bonifácio tem lugar cativo em colunas de opinião e em debates televisivos devido ao seu “prestígio” como historiadora e, neste artigo, Fátima Bonifácio atropelou os mais elementares princípios da sua profissão, deturpando a própria História da Declaração dos Direitos do Homem, do Cristianismo e da Civilização Ocidental.
(As "Boas" companhias de Fátima Bonifácio)

Se era o seu prestígio como historiadora que lhe deu lugar como “fazedora” de opinião, o artigo em causa borrou toda a pintura e a suas opiniões não podem ter, a partir de agora, mais peso e importância que os mais reles argumentos que pululam nas redes sociais, estando ao nível de um Trump ou de um Bolsonero….a menos que a própria se venha retratar das ditas afirmações!

Mas, se Maria de Fátima Bonifácio tem o “direito” (discutível, basta ler a lei de imprensa, a Constituição Portuguesa, a legislação sobre o assunto ou mesmo a Declaração Universal dos Direitos do Homem) de ofender comunidades inteiras, porque é que reagir às opiniões da dita senhora passa a ser uma “condenável acto de ataque pessoal” ou uma tentativa de atentar contra ao direito de opinião?

Ou seja, umas opiniões têm o direito de se exprimir, outras não passam de “linchamentos públicos” de uma alta dignatária da Universidade Portuguesa.

Se há um discurso que legitima linchamentos públicos de minorias é o de Maria de Fátima Bonifácio.

segunda-feira, 3 de junho de 2019

Stuart Franklin, o fotógrafo de Tiananmen.

A FORMA E A LUZ: Stuart Franklin, o fotógrafo de Tiananmen.: Stuart Franklin foi o autor da icónica fotografia do “homem do Tanque” tirada em Tiananmen em 5 de Junho de 1989. (clicar para ler e ver mais).

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

O Socialismo tem futuro?



Depois de décadas de crimes cometido em nome da “construção” da “sociedade socialista”, depois de, em nome do “socialismo”, se terem cometido aos mais ignóbeis actos de corrupção (jurídica e/ou ética) (Blair, Sócrates, Maduro…), será que ainda há lugar para acreditar no Socialismo?

Se olhássemos para as sociedades actuais e víssemos as sociedades humanas caminhando para um mundo mais justo, equilibrado, menos desigual, vivendo em pleno a democracia e a liberdade, e caminhando para sociedades mais pacificas, com menos guerras, e mais respeitadoras do ambiente e da vida animal, então talvez pudéssemos acreditar que o fim do “socialismo real” e a decadência de todas a tendências do chamado socialismo democrático estavam a conduzir o mundo para uma nova era de prosperidade (que é o que nos têm vindo a anunciar os defensores do actual modelo “neoliberal”, governado pelos “mercados” e pela difusa ideologia do novo capitalismo) e podíamos dizer que as premissas das “velhas” ideias socialistas estavam erradas, mortas e enterradas.

Mas não é isso que temos visto acontecer nos últimos vinte anos.

O que vemos é o aumento das desigualdades sociais, o crescente desrespeito pela democracia, transformada num simples e caricato acto formal de recondução ou “renovação” de uma elite profissional ao serviço do corrupto poder financeiro, o aumento de conflitos cada vez mais violentos e descontrolados, o total desrespeito pelo ambiente e pela vida na Terra, uma sociedade dominada por um modelo cada vez mais selvagem de capitalismo neoliberal.

Apesar da má fama de que goza, devido aos modelos históricos e à corrupção que se tem colado à pele dos seus lideres recentes, o socialismo, o verdadeiro socialismo, aquilo que está na sua origem, é uma opção cada vez mais urgente.

Mas um socialismo que deve renovar todos os seus métodos de actuação e, essencialmente, deve respeitar, em coerência, princípios como a democracia, a liberdade e a justiça, aos quais deve acrescentar o seus valores de sempre,( que tão maltratado têm sido por muitos que se arvoraram em detentores do “verdadeiro socialismo”), como os valores da igualdade (de oportunidades, de tratamento na justiça e na economia..) do respeito pelos direitos sociais e pelos Direitos Humanos Universais consignados na carta das Nações Unidas.

Sim, o Socialismo (ou outro qualquer nome que lhe queiram dar) tem futuro, desde que se saiba renovar e demarcar dos erros e crimes do passado, porque a alternativa ao actual modelo neoliberal de selvajaria social e económica que se está a prefigurar é um novo “canto da sereia” de um fascismo disfarçado de “populismo”.

Liberdade, Democracia, Direitos Sociais, Direitos Humanos, Justiça económica, combate à corrupção,  Igualdade de oportunidades, Respeito pelo ambiente e pela vida animal, Mais educação e cultura, uma tecnologia ao serviço do bem estar da Humanidade, eis as novas “palavras de ordem”, à volta das quais se deve construir o Socialismo de Futuro…ou então quem não terá  mesmo futuro...é a própria humanidade!

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

70º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos



Passam hoje 70 anos sobre a aprovação da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Num mundo cada vez mais dominado por mensagens de ódio e intolerância e por uma economia predadora do homem e da natureza, é importante recordar a existência dum documento como esse, hoje mais actual do que nunca.

O documento surgiu como tentativa de responder a um novo paradigma de convivência humana, depois de terminado um período de guerras devastadoras e de genocídios que puseram em causa principio civilizacionais.

Esse documento esteve igualmente na base da construção da ONU.

Infelizmente em muitos casos a sua aprovação não passou de pura retórica.

São raros, ainda hoje, os países onde se aplica a totalidade desses princípios.

Alguns aplicam apenas as partes que lhe convém, esquecendo tudo o resto.

Esse documento alia princípios básicos e históricos de Direitos Humanos (Igualdade, democracia e liberdade) com Direitos Sociais (como o direito ao trabalho e a um salário justo, por exemplo, ou o direito à saúde, à educação e à habitação).

A actualidade desse documento, que devia ser ensinado nas escolas e integrado nas Constituições de países democráticos (como, aliás, acontece na Constituição Portuguesa), reside, por um lado em serem ainda raros os casos em que é  aplicada na integra e de forma consequente e, por outro, no de vivermos um período histórico em que as lideranças das nações mais poderosas estão entregues a gente que desrespeita todos os dias os princípios consignados nesse documento.

Existe, aliás, um crescente movimento que defende a revisão desse documento, que, pesem as boas intenções de alguns, só pode resultar na redução e no desvirtuar dos seus principio, principalmente quando temos na liderança de países que dominam o conselho de segurança da ONU uma maioria de lideres que não oferecem qualquer garantia na preservação e concretização daqueles direitos.

Além disso, as actuais lideranças mundiais estão sobre forte pressão de sectores financeiros que desprezam os valores democráticos, de liberdade e os direitos sociais, sempre que isso põe em causa os seus interesses, como se viu durante a crise de 2008 (o célebre TINA).

Não tenhamos dúvida que qualquer revisão que saísse das mãos dessa gente ia no sentido de limitar os valores democráticos, a liberdade e os direitos sociais.

Sendo aquele um documento de valor universal,  a melhor forma de o celebrar é,  em primeiro lugar conhecê-lo e estudá-lo e, em segundo, defendê-lo face a esses lobbies que o procuram desvirtuar e apaga-lo da memória colectiva.

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

“Politicamente Correcto” é…Politicamente Correcto!



Hoje, quem pretende justificar as opiniões mais absurdas, mais abjectas e reacionárias, trata logo de diabolizar o “politicamente correcto”.

Como se o politicamente correcto não fosse uma conquista civilizacional.

Politicamente Correcto, quer dizer isso mesmo: Politicamente Correcto! Qual foi a palavra que não perceberam?

Vamos ao dicionário:

Politicamente”: “que está de acordo com as regras da politica, da organização e gestão dos assuntos públicos, de administração e do poder”. Também pode significar agir com diplomacia, cortesia, delicadeza, com habilidade, astúcia e perspicácia (Dicionário de Língua Portuguesa Contemporânea, [ DLPC] Academia de Ciências de Lisboa, ed. Verbo, 2001).

Não é esse o tipo de actuação que todos defendemos em democracia e liberdade? Não é esse tipo de actuação que nós devemos exigir aos agentes e responsáveis políticos e da administração?

Pode-se dizer que, quando agem em proveito próprio, quando  se deixam corromper ou quando abusam do poder, tais agentes políticos…não estão a ser políticos. E devem ser penalizados por isso;

“Correcto” : “que está de acordo com as regras estabelecidas; que não tem falhas, que está certo,  que é exacto, que está de acordo com as regras estabelecidas de carácter ético e social, que age com delicadeza, que é justo (DLPC) .

Não é tudo isto que devemos exigir dos diversos poderes e dos responsáveis pela governação de um país? Não é esse o exemplo que devemos, não só exigir a nós próprios e dar aos nossos filhos, enquanto cidadãos, mas também aos principais agentes com responsabilidades no funcionamento das instituições democráticas, como agentes de autoridade, juízes, professores, jornalistas, médicos, gestores públicos, agentes económicos e financeiros?

Os antónimos de “correcto” são…errado, inadequado, incorrecto, desonesto, indigno, injusto, grosseiro inexacto… (Dicionário Houaiss de Sinónimos e Antónimos, ed. Círculo dos Leitores, 2007). É isto que queremos defender, quando diabolizamos o “politicamente correcto”?

Talvez o problema e a confusão comecem no estabelecimento do tipo de regras e códigos que devem obedecer a uma acção e atitude politicamente correctas.

Tenho por mim que a celebre frase da Revolução Francesa da Igualdade, Fraternidade e Liberdade é o ponto de partida, à qual se deve juntar a formação de um Estado Democrático e Constitucional, baseado na soberania de cidadãos livres e na separação de poderes.

Depois devemos acrescentar os avanços civilizacionais na melhoria das condições de vida da Humanidade e no respeito pela própria humanidade, tudo muito bem sintetizado na Declaração Universal dos Direitos Humanos.(clicar para a sua leitura integral).

Aliás, esta declaração devia ser de leitura e estudo obrigatório nas escolas e Universidade, e, já agora, de leitura obrigatória nos actos de contratação dos agentes acima referidos e, em especial, nos partidos políticos e nos órgãos de comunicação social.

Está lá quase tudo, sem segundas interpretações do que, quanto a nós, separa o que é politicamente correcto daquilo que é politicamente incorrecto.

A esse documento devemos acrescentar outros avanços civilizacionais, como a defesa do Ambiente, os Direitos das Crianças, os Direitos das Mulheres, os Direitos dos Animais, o respeito pelas minorias e a construção de um Estado Social .

Como pessoas não somos perfeitos, somos muitas vezes politicamente incorrectos, mas não devemos fazer jus dessas atitudes e imperfeições nem delas “programa politico” ou  argumento, e devemos exigir aos poderosos que, no mínimo, não defendam o ódio e a violência, respeitem os Direitos Humanos e Ambientais e os conhecimentos científicos, ou seja…sejam politicamente correctos.

Existem interpretações fundamentalistas e exageros na aplicação e defesa do que é politicamente correcto? Existem. Mas isso não anula o fundamental da defesa do que é politicamente correcto

O resto é conversa de gente ignóbil, ignorante, mal formada e mal intencionada, seja qual for a a sua origem ou formação politica social, cultural ou religiosa.

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Holocausto Ambiental.



Foi o mais recente e último aviso.


Havia uma velha máxima índia segundo a qual todos “herdamos as terras dos…NOSSOS FILHO!”.

Ou seja, para quem não percebeu ( e as redes sociais estão cada vez mais cheias de gente que, ou não percebe ou não quer perceber), temos a responsabilidade de “devolver” a Terra às gerações futuras com qualidade para eles poderem viver em paz e harmonia.

Infelizmente não é isso que temos feito nos últimos tempos.

Temo que, mais uma vez, como tem vindo a acontecer há décadas, os avisos só sejam escutados quando for tarde de mais ou alguma catástrofe nos atinja pessoalmente.

Da actual classe politica e económica  que governa o mundo nada ou pouco podemos esperar.

Leiam-se as opiniões e atitudes de Trump, que preside à nação que é a maior poluidora do mundo.

No Brasil, uma das maiores economias do mundo, vamos ter, ao que tudo indica, um presidente que tem, como principal tarefa do seu programa, acabar com a protecção ambiental e entregar a Amazónia aos madeireiros e criadores de gado, ameaçando os índios que a habitam e a preservam, e o próprio mundo, pois a Amazónia é um dos últimos pulmões do nosso planeta.

A África está a ser vendida aos interesses chineses que prometem continuar o trabalho de destruição ambiental desse continente iniciado pelas grandes multinacionais ocidentais.

Na maioria dos países asiáticos e na Rússia, a economia está entregue às industrias poluidoras.

No ocidente, os interesses financeiros da industria automóvel ,da  petrolífera, da criação de gado e da extração mineira, mandam mais do que a vontade dos ambientalistas.

O cumprimento das decisões do tratado de Paris não tem passado de mera retórica folclóricas.

Infelizmente, a defesa do ambiente não é compatível com o modelo económico dominado pelo capitalismo selvagem e pelo neoliberalismo.

Quando, em termos mais locais, vemos tanto afã em derrubar árvores, criticar medidas que visam afastar o automóvel dos centros históricos ou urbanizar nas poucas zonas florestais que restam, sem se melhorar o sistema se transportes públicos ou a preservação dos ambientes naturais (veja-se o caso recente do "aeroporto do Montijo" ou do porto de Setúbal), então a esperança de escaparmos à catástrofe é cada vez menor.

Um dia, se ainda houver humanos, quando se fizer a história deste principio de século, os causadores do anunciado e cada vez mais provável holocausto ambiental para onde nos conduzem irão figurar ao lado dos grandes criminosos do século XX, como Hitler ou Stalin.

Até lá, a cada um de nós só nos resta remar contra a maré, à espera que o bom senso ainda nos possa salvar. 

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

“Solidariedade Flexível”, a nova “causa” dos líderes Europeus.



Sem acordo sobre “o que fazer” em relação aos refugiados que fogem das guerras e da miséria, os lideres europeus encontraram um novo eufemismo para disfarçara as divergências : “Solidariedade Flexível”.

À boa maneira da linguagem “lilicaneçiana”, o caquético Jean-Claude Junker resumiu o conceito nos seguintes termos: “Há países que aceitam refugiados e há países que não querem receber refugiados” (!!!!).

A “Solidariedade Flexível” passa  por certos países (principalmente os “iEuropeus” e “iliberais” países do Grupo de Visagardo (Hungria, Polónia, república Checa e Eslováquia), aos quais se juntou a Itália), pagarem para manterem as suas fronteiras fechadas aos emigrantes.

Será bom recordar que todo este drama da emigração foi provocada por atitudes erradas, quer do ponto de vista militar, quer do ponto de vista económico, tomadas pela Europa, ao longo de séculos, mas que se acentuou nas últimas décadas, que geraram as guerras e a miséria da  qual essas população fogem.

É de enaltecer, contudo, a posição do primeiro ministro do Luxemburgo sobre aquele desumano disparate  que renega os tão propagados “valores europeus”, apenas secundado por Macron.

Indignado, Xavier Bettel, afirmou: “Sei que agora se discute a possibilidade de pagar pela solidariedade (...), mas esta não é uma questão de mercado. Estamos a falar de pessoas, não de tapetes. Quando começamos a discutir o preço do migrante, é uma vergonha para todos nós”.

Quando os líderes da União Europeia cedem à chantagem da extrema-direita “populista” (eu usaria o termo correcto: “fascista”, mas isso sou eu a divagar!!!...) então é caso para se dizer que está o caminho aberto para a legitimação e crescimento dessa mesma extrema-direita…

O “medo” e a cedência é o  caminho mais rápido para levar o “populismo”  e a sua retórica ao poder na Europa, basta olhar para a História, assunto que não é do interesse dos lideres Europeus que só veem cifrões!!

quarta-feira, 27 de junho de 2018

o orgulho de Ser Português



Não, não vou falar de futebol e da selecção nacional.

Também não vou falar de “descobrimentos”.

Nem de prémios Nobel ou trabalhadores portugueses no estrangeiro.

Hoje sinto-me orgulhoso em ser português pelo simples facto de ler a notícia ontem divulgada, segundo a qual o governo de Portugal está disponível para receber emigrantes do navio “Lifeline”.

O mesmo orgulho que deve ter sentido Aristides de Sousa Mendes , seus amigos e familiares quando este, desobedecendo a Salazar, salvou milhares de judeus do Holocausto, mesmo custando-lhe uma vida de miséria.

Também hoje Portugal, um país tão humilhado pelos ricos do norte, mostra que o valor da solidariedade fala mais alto que a vergonhosa cedência da maior parte dos governos Europeus ao populismo xenófobo, com os tais países do norte à cabeça.

Hoje sinto-me mais orgulhoso de ser português do que se ganharmos o mundial de futebol.

segunda-feira, 25 de junho de 2018

Quando a "História" lava mais branco (acerca do debate sobre os "descobrimentos")


Anda por aí uma grande polémica sobre a designação do “futuro” Museu dos “descobrimentos” a construir em Lisboa.

A polémica centra-se principalmente em duas situações: a designação de “Descobrimentos” para esse museu e o destaque a dar ao papel de Portugal na escravatura.

A designação de “descobrimentos”, para referir uma época histórica precisa,  é uma designação eurocentrista e terá sido "inventada" por Filipe II, num decreto de 1573, onde se ordenava que se usasse apenas a palavra “descobrimentos” em substituição de “conquista”, para camuflar designação usada por Bartolomeu de las Casas, que denunciava a violência que os colonos exerciam sobre as populações indígenas na América.

Por cá, principalmente entre os historiadores do século XX, houve sempre uma grande discussão para distinguir, ao longo da “expansão”, aquilo que foi “descoberta” daquilo que foi “conquista”. A primeira tinha um caracter de tipo comercial, e mais “pacifico”, a segunda implicava ocupação violenta por meios militares.

Muitos procuraram apresentar essa diferença como caracterizando objectivos políticos diferentes.  

 O regência de D. Pedro, os reinos de D. Duarte e D. João II inseriam-se no primeiro objectivo, por influência da “burguesia”.

Os reinados de D. Afonso V, D. Manuel e D. João III inseriam-se no segundo objectivo, por influência da “nobreza”.

Tentando dar a volta ao caracter eurocêntrico da designação “descobrimentos” os historiadores da chamada Escola dos Annales usaram um termo mais pacífico, o de “mundialização”, hoje referida por muitos autores e comentadores como “primeira globalização”.

De facto,  os Europeus não descobriram nada de novo, a não ser para os próprios europeus: apenas puseram em contacto “mundos” que não tinham contacto ou onde este era apenas esporádico e feito por terceiros, devido, em parte, às limitações técnica da navegação no alto-mar.

Não me parece, contudo, que a designação de “Descobrimentos” para um museu, num país como Portugal, que, na sua perspectiva, “descobriu” de facto aquilo que desconhecia, seja totalmente desadequada.

Já numa prespectiva de um museu sobre essa época, que fosse instalado em países como Angola ou Brasil, por exemplo, essa designação não faria qualquer sentido.

Não me parece, contudo, que esse tipo de discussão mereça tantas ofensas, insinuações e até algum ódio entre os que defendem e os que contestam tal designação.

A discussão sobre a designação tem de ser científica, isto é, entre historiadores especialistas nessa época. O resto é lixo.

Mais grave do que a escolha do nome para o Museu é, quanto a mim, a tentativa de branquear os aspectos negros desse período e a responsabilidade Europeia nas indignidades históricas cometidas.

Os “descobrimentos” provocaram o maior “holocausto” humano da História, pelo menos em dois continentes, o africano e o americano e isso não deve ser esquecido ou branqueado.

Na América a população índigena foi quase toda dizimada, acto que ainda continuou pelo século XIX dentro.

Mas um dos temas preferidos pelos “branqueadores” é o da escravatura, recorrendo às falácias e às meias-verdades.

Para estes, a responsabilidade pela escravatura deve ser, no mínimo, repartida por “vítimas” e “algozes”.

E o argumento usado baseia-se em duas “meias verdades”: A escravatura não foi uma “invenção” dos Europeus e os próprios povos escravizados colaboraram no processo.

Isto, dito assim, a preto e branco, até é verdade.

A escravatura existe desde a antiguidade clássica, foi prática dos grandes impérios pré-medievais e era prática entre tribos africanas.

Contudo havia diferenças que tais “branqueadores” se costumam “esquecer”.

Para já, antes dos “descobrimentos”, a escravatura, em termos de dimensão e sistema económico, estava em retrocesso ou tinha uma dimensão residual, um pouco por todo o lado.

Depois, a situação de escravo não tinha, em muitos casos, o estatuto “indigno” que veio a ter com o desenvolvimento do grande comércio esclavagista transatlântico.

Também não era uma situação necessariamente permanente ou que se mantivesse por herança.

Muito menos era uma condição relacionada com a cor da pele.

O problema desse “fenómeno” anti-humano foi que ele se tornou um comércio, de grandes dimensões e que conduziu ao racismo que passou a penalizar apenas uma cor de pele, a negra.

Muitas tribos africanas, para escaparem à crescente procura de escravos, só o podiam fazer defendendo-se e, para isso, tinham de recorrer ao armamento que lhe era fornecido pelos esclavagistas ocidentais e só o obtinham…em troca de escravos.

Criou-se assim um círculo vicioso que destruiu a civilização africana, situação que, agravada pelo colonialismo dos séculos XIX-XX, conduziu esse continente à desgraça actual.

De facto, em relação à escravatura, os “descobrimentos” não trouxeram nada de novo.

O que trouxeram de novo foi a dimensão e a organização que transformaram um processo identificado na História numa grande máquina de desumanização e destruição humana e num grande negócio que permitiu ao “Ocidente” tornar-se economicamente dominante…até aos nossos dias.

Não sou especialista nestes temas, nem pretendo com este texto escrever um ensaios “histórico”, que não é.

Mas parece-me importante que este debate enterre de vez todo o tipo de preconceitos e todo o tipo de branqueamento da História que o tema está a gerar.

Só assumindo os “erros” e os “horrores” do passado podemos afastar erros e horrores futuros.