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domingo, 4 de agosto de 2013

As Crónicas de Maria Laura Madeira



A partir de Setembro contamos abrir o espaço de Pedras Rolantes a novas colaborações, procurando tornar assim este “idoso” blogue num espaço mais plural e com ideias e visões diferentes e mais inteligentes do que aquelas que eu por aqui, á flor da pele e em cima do joelho vou debitando.
É o caso da minha amiga Maria Laura Madeira.
Para abrir um pouco o “apetite”, aqui vos deixo três crónica da sua autoria
Voltaremos em Setembro
VM
:

 Uma aula de Catroga, na SicNotícias,
 por Maria Laura Madeira

 Correrei o risco de ser apedrejada ao distinguir hoje, em entrevista a Ana Lourenço, uma aula
de Eduardo Catroga acerca da «história da crise», como eu ouso chamar-lhe. Veio a propósito da interessantíssima trica sobre a Ministra Maria Albuquerque que, mentiu não mentiu, lá vai justificando os honorários de alguns.

Apreciei sobremaneira a sua capacidade de síntese, se calhar porque, nos meus trabalhos de jornalismo, depois de aprimorar a matéria, o léxico e a pontuação, eu recebia da coordenadora um sorriso aliviado e quase sempre uma ordem: «reduz para dois terços». Então, ao menos por isso, que ninguém se melindre da minha admiração episódica por Eduardo Catroga.

 Tão simples como o raciocínio de cada um de nós sobre a questão, mas desta vez sem brejeirices, o Professor fez o historial das crises do nosso país, a começar pela bancarrota dos finais do séc. XIX. Seguiu até Guterres e Cadilhe, para acentuar que foram estes quem desmanchou o organismo que entre nós controlava as matérias financeiras, empréstimos externos incluídos. Não disse por que razão Cadilhe abriu o curro, certamente uma razão de último recurso; tão último que Guterres acabou por sair espavorido e bem recompensado, com um bonito cargo. Mas a crise conheceu aí a grande hemorragia. Ou seja, as empresas públicas e mistas puderam tourear à vontade, com um «inteligente» que, fosse quem fosse, uma certeza tinha: quando a besta saltar será em cima do povo, como sempre.

Só havia de acautelar o rendimento de uns quantos, para que a pancada, quando viesse, não os deixasse sem pinga de sangue, como a milhões de nós. 

Catroga concluíu o óbvio, de que a gente parece esquecer-se. A responsabilidade dos gastos, excessivos, dos empréstimos tóxicos, de tudo o que tem sido a hemorragia nacional deve-se principalmente à tutela, a quem devia governar e não governou. Crime doloso, acrescento eu, de resultados previsíveis, cometido com a consciência de que recairia sobre os menos favorecidos o ónus de pagar a crise. As sucessivas crises. Os desfavorecidos do sistema que, se morrerem ou matarem, tanto melhor, mais fica.

E a força do trabalho, os que trabalham, que lhes aconteça como aos antigos escravos alforriados, livres e ao Deus dará. Enquanto alguns se lambuzam de marisco e dançam o samba, cumprindo alegremente o calendário religioso. 

 Justiça? Casos de polícia? Declaração de calamidade pública? Não, apenas silêncio.

Com tranquila graça Ana Lourenço rematou, a propósito das dívidas ocultas: «Saíram de todos os buracos».

Obrigada por me lerem, 

MLM/2013

A visão fria de António Barreto - SicNotícias, noite de 1/8/2013
por Maria Laura Madeira

Muito a propósito e recorrente da «aula de Catroga», António Barreto foi ontem convidado de Ana Lourenço. Um barulho danado, no resguardo discreto da conversa que travaram. A inteligência, no seu melhor.
 
Sem demérito algum para a densa e deveras interessante conversa que travaram, passo a destacar apenas o que parece responder à pergunta implícita na aula de Catroga, que frontalmente colocámos no nosso atrevido comentário. Ou seja, feito o diagnóstico da situação de crise que vivemos, por que não são responsabilizados todos aqueles que, de um modo frio e a diversos níveis, reiteradamente nos levaram ao abismo. 

Tecer conjecturas ao nível da nossa ingenuidade não é o mesmo que ouvir António Barreto. Como um cirurgião experimentado, com a calma e a frieza que o torna destro e quase indiscutível, o ilustre convidado retira-nos qualquer esperança: Não temos, não foram criadas as instâncias que possam dinamizar sequer uma acção de auditoria. Todas as inúmeras culpas ao longo do tempo e das circunstâncias que as envolveram, são hoje um verdadeiro convento de «freiras crísicas» que vão morrer solteiras.

E a democracia? Pergunta Ana Lourenço em coro connosco. Está reduzida aos actos eleitorais e aos aspectos formais daí naturalmente recorrentes; é o que pudemos entender. Donde que nem a «Casa da Democracia» prece ter nada a ver com nada.

Afinal, segundo bons autores com obra recentemente publicada sobre estas matérias, é na AR que estão as cabeças desta arrepiante Medusa.

De resto, quem ousaria colocar o país no banco dos réus, para gáudio dos seus grandes inimigos? Que Tribunal, que réus, mas sobretudo que propósito gorado. Fomos todos dados como chulos dos povos do Norte, tidos como preguiçosos, entre outras ofensas que ouvimos recentemente do nosso chefe do governo. 

Mas a matéria vazou, foi vazando de há muito. Usando provérbios, como ele gosta, diria que não adianta tapar o sol com a peneira.

 Já não será no meu tempo de vida, porém, creio que teremos de volta um organismo nacional e não só, para controlar os que se dão bem com a exploração do povo e, à posteriori, com a imunidade e a impunidade que os faz navegar em cruzeiro de luxo, enquanto o povo se afoga.

Obrigada por me lerem.

MLM/2013

Ana Drago com Ana Lourenço, em 2 de Agosto de 2013
Por  Maria Laura Madeira

Ana Drago é uma figura que irá comigo até ao fim. Dela sei apenas que é deputada pelo Bloco de Esquerda. Guardo o registo emocionado de inesquecíveis intervenções, onde defendeu ideias e propostas de actuação com profundidade, força, riqueza e sobriedade no discurso e nas imagens. Elegância e estilo são características que a distinguiram e distanciaram, infelizmente, da maior parte dos que vêm partilhando com ela o habitáculo da AR. Ana Drago tem aquele brilho nato que a uns prende e a outros ofusca; temos pena. É para mim uma das mulheres de sempre, na cena portuguesa.

Pela sua juventude, gostaria que muito ainda tivesse para transmitir a ensinar aos que agora começam a dar pelo fenómeno da vida, das causas e das escolhas.

Tal como ela o disse hoje a Ana Lourenço, eu acredito que a sociedade precisa de se encarar para trocar ideias, esboçar e levar por diante objectivos comuns. 

Precisamos de despir o velho figurino de carneiros obedientes e ainda assim invejosos, com síndrome de mal-amados, desfeiteando quem fere a zona de conforto onde cada um se acha aconchegado e protegido. Todos somos humanos, sempre haverá um modo de nos podermos entender sem hostilidade e demasiado apego ao seu ponto de vista.

 Temos muito trabalho pela frente, muita coisa para mudar.

 Ana Drago, felicidades, não se deixe apagar. A senhora até a mim faz falta. 

LM/2013
               

sábado, 13 de novembro de 2010

António Barreto Fotógrafo

O Sociólogo António Barreto é também um fotógrafo sensível e informado.

Pela primeira vez tem lugar em Lisboa uma retrospectiva do seu trabalho fotográfico que pode ser visitado na Galeria Corrente d’Arte, reunindo um conjunto de mais de 40 fotografias, tiradas entre 1967 e 2010.

“Diz que precisa de calma para fotografar. Já tem máquinas digitais, mas continua a preferir as analógicas e o rolo a preto e branco. António Barreto, conhecido sociólogo, é também, há mais de 50 anos, um fotógrafo”, afirma a jornalista Maria João Costa da Rádio Renascença, a quem António Barreto concedeu uma entrevista sobre esse evento cultural e que será editada amanhã naquela emissora a partir das 23h00, no programa Ensaio Geral:

“Todos nós temos várias maneiras de memorizar: há a memória dentro da cabeça e dentro dos afectos, as memórias sensoriais, a memória do papel, dos livros e, agora, dos computadores. E há a memória das fotografias. É mais um registo, mais uma maneira de ter a sua própria memória”, diz à Renascença.

“São imagens recolhidas em Portugal, França, Suíça e muitos outros países por onde passou. “Creio que, olhando para trás, quando viajo fotografo com mais vontade – não é voracidade, porque não sou voraz a fotografar, sou muito lento a fotografar”, afirma.

“São também fotografias com alguma distância em relação às pessoas, por vezes pequenos pontos numa paisagem. “Fotografo com alguma distância em relação às pessoas e é uma opção deliberada. Não só pelo efeito de intrusão ou de agressão, mas também porque gosto de ver o sítio em que as pessoas estão”, explica.

“Exemplifica com uma fotografia que fez com “pessoas minúsculas”, famílias de mineiros, que estão a subir uma pequena colina, atrás da qual estão os Andes, com seis mil metros de altura. “A desproporção não é só para sublinhar a pequenez do homem, é também para sublinhar que o homem esteve em todos os sítios e fez tudo, inclusivamente cavar aquelas montanhas” (do texto da edição on-line da Rádio Renascença, da autoria de Maria João Costa).

Também o jornal Público, na sua edição on-line, disponibiliza alguns dos trabalhos dessa exposição que podem ser visto AQUI .