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sexta-feira, 4 de março de 2016

O "Alentejo" disparatado de Raposo e o direito ao disparate

Por aquilo que ouvi e li sobre o polémico livro de Henrique Raposo dedicado ao "Alentejo",até encontrei algum conteúdo com interesse para reflexão, sendo uma visão interessante sobre a história de vida da sua família de origem.

Contudo, ao querer generalizar a sua má e triste experiência familiar a todo o Alentejo e ao sul do país, Raposo resvala para o mais ignorante preconceito e para a ofensa mais abjecta a todo uma população.

Como amigo e familiar  de alentejanos, tendo visitado várias vezes e várias zonas do Alentejo, nunca encontrei a caricaturada figura de alentejano descrita por Raposo.

Quanto muito, aquilo que Raposo descreve como tipico dos alentejanos pode ser tipico de meios rurais mais "atrasados" ou marginalizados, económica, cultural e socialmente, de norte a sul do país, ou mesmo noutros países (nem o interior mais "atrasado" dos Estados Unidos fugiria a esse retrato forçado).

A questão do tratamento dado às mulheres, das violações silenciosas, dos suicídios, dos silêncios e das desconfianças, podemos encontrá-la em qualquer meio mais "ruralizado" ou economica, cultural e socialmente decadente ( a cinematografia e a literatura estão cheios desses retratos).

Por isso, como é tipico de Raposo e da generalidade dos cronistas feitos à pressa que pululam na imprensa dita de referência, ele usa e abusa de boas idéias para generalizar o seu preconceito social, politico e cultural.

Raposo, com cujos escritos não perco muito do meu precioso tempo a ler, tem todo o direito de exibir os seus preconceitos e as suas atoardas  e beneficiar da atenção mediática, e por isso repudio as ameças que têm sido feitas contra a sua "obra".

Vivemos num país livre, mesmo livre para se  exibir todo o tipo de disparates que se quiser.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

MAIS UM "CROMO": Presidente do Parlamento Europeu diz que o futuro de Portugal é “o declínio” .



As  afirmações do presidente do Parlamento Europeu, o sr. Martin Schultz, estão a fazer furor em Portugal.

Disse o sr Schultz (um nome que, na Alemanha, deve ser tão vulgar com sr.Silva e que me faz recordar nome de soldado nazi alemão nas aventuras do Major Alvega…) que o primeiro ministro português, tendo-se deslocado a Luanda “apelou ao Governo angolano que invista mais em Portugal, porque Angola tem muito dinheiro”. Ora, para o sr Schultz, o desenvolvimento das relações económicas de Portugal com Angola (ou, presumo, com qualquer outro país de expressão portuguesa, fora da União Europeia) anuncia um futuro de “declínio” e é “também um perigo social para as pessoas, se não compreendermos que, economicamente, e sobretudo com o nosso modelo democrático, estável [????]l, em conjugação com a nossa estabilidade económica [?????] , só teremos hipóteses no quadro da União Europeia”.

Pelo que ouvi há pouco na Antena 1, a intervenção do sr. Schultz foi ainda “alindada” com algumas referências ignorantes e preconceituosas sobre o colonialismo português…

Claro que, noutra conjuntura ou pela boca de outra pessoa, que não fosse um responsável político Alemão, até se podiam compreender as palavras do sr. Schultz e a sua preocupação com o facto de países europeus (como a própria Alemanha, aliás..), porem os interesses económicos e financeiros à frente da defesa dos direitos políticos e socias dos países com quem negoceiam, legitimando assim o dumping social de Estados ditatoriais e/ou corruptos.

O mesmo Schultz, mais á frente na sua intervenção, criticou a crescente aproximação entre a Europa e a China, um país cujo desenvolvimento económico assenta, segundo ele (e aqui estou plenamente de acordo) numa “sociedade esclavagista, sem direitos, numa ditadura que oprime implacavelmente o ser humano”.

O que o sr. Schultz não disse é que actual política de austeridade, imposta pelo poder político, económico e financeiro alemão, aos países da periferia, é responsável pela descrença dos cidadãos destes países na resolução da sua grave e trágica situação no “quadro da União Europeia”, e que países, como Portugal, que tenham alternativas fora deste espaço, só poderão encontrar soluções (para fugir ao circulo vicioso de “mais austeridade, mais desemprego, menos desenvolvimento económico, descida dos ratings, aumento dos juros, aumento do deficit e da dívida, mais auteridade, etc, etc….”) fora da União Europeia.

O que o sr. Schultz se esqueceu de dizer é que é exactamente o abandono da solidariedade devida no seio da União Europeia e as atitudes xenófoba, autoritária e arrogante do poder político e financeiro alemão que estão na origem do crescente descrédito, por parte dos cidadãos europeu, no próprio projecto europeu e que os leva a virarem-se para outros “mundos”, em busca de “salvação”.

Para quem (como eu, até hoje..) alentasse alguma esperança de que a Alemanha, mudando de política, abandonava a sua postura em relação à Europa e aos países periféricos em dificuldades, perdeu de vez todas as ilusões com as palavras do sr. Schultz. É que este senhor é um dos líderes do maior partido político alemão de oposição à srª Merkel, o Partido Social-Democrata.

Fica assim evidente que a postura autoritária, arrogante, preconceituosa, egoísta e insultuosa da sr. Merkel encontra eco na generalidade dos políticos alemães, mesmo naqueles que não fazem parte da sua família política.

Como se comprova, uma Alemanha unificada e forte, em vez de representar uma mais-valia para o desenvolvimento democrático e económico do projecto europeu, está a revelar-se um perigo para a estabilidade e a solidariedade que era necessário para ultrapassar a actual crise.

Pela terceira vez em cem anos, a Alemanha está a conduzir a Europa para o desastre…

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

O Cromo da Semana: "É tempo de saber quem quer ficar agarrado a velhas tradições" - Passos Coelho

Ontem o sr. Primeiro-ministro esteve especialmente inspirado no exercício da bacorada gratuita.
Efeitos da época carnavalesca? Ou será o poder que lhe está a subir à cabeça?

Primeiro cromo, em tom de ameaça: “é tempo de saber quem quer ficar agarrado a velhas tradições”.
Pensava eu que o "pós-modernismo"  estava morto e enterrado. Enganei-me redondamente.

Foi em nome do combate à “tradição” que, em Portugal, se confundiu desenvolvimento económico com a destruição das pescas, da agricultura e da indústria.
Foi em nome do combate à “tradição” que, por cá, se abandonou à pior sorte a já de si rudimentar rede de transportes públicos em nome do “progresso”, coroando o transporte privado motorizado, com custos económicos, energético e ambientais cada vez mais incomportáveis.
Foi em nome do combate à “tradição” que se destruiu a dimensão humana do comércio tradicional, em nome do “progresso” da implantação de centenas (milhares?), de mega superfícies comerciais e centros comerciais, apelando a um consumo desenfreado e convidando-nos a viver “acima das nossas possibilidades”, com a alegre complacência da banca, gerando o círculo vicioso do endividamento privado, que nos colocou na situação actual.
Foi em nome do combate à “tradição” que se destruiu a nossa paisagem rural e o nosso património urbano, duas mais valias que hoje tanto nos fazem falta para concorrer internacionalmente na actividade turística: a primeira rasgada por auto-estradas de duvidosa utilidade e enxameada por moinhos eólicos semeados sem regras e produzindo em benefício de poucos, já que a energia continua cada dia mais cara para os consumidores,: o segundo desvalorizado pela vizinhança de alarves urbanizações “à Taveira”, estádios de futebol de gosto arquitectónico duvidoso e tomadas pelo alcatrão em benefício do automóvel e em detrimento dos peões.
Em nome do combate à “tradição” promoveu-se a “cultura pimba”, em detrimento da valorização da nossa identidade cultural e histórica.
Agora, em nome do combate à “tradição”, abolem-se feriados e o direito ao descanso e ao lazer.

Segundo cromo: para o primeiro-ministro, pode saber-se os custos de um feriado, “basta[ando] (…) dividir o nosso PIB pelos dias de trabalho”!!!!. ....e os "nossos" economistas e  comentadores, sempre tão prontos em defender mais austeridade e a redução dos direitos de quem trabalha, não vêem agora protestar contra tal alarvidade?
Então, para sabermos quanto custa um dia de trabalho, dividimos o PIB por dias de trabalho? Que aldrabice, que falta de rigor, que ignorância estatística! …

Ao ouvir tamanhas alarvidades os portugueses, de facto, como pediu também ontem  o senhor primeiro-ministro, no terceiro Cromo do dia, devem começar a ser “menos piegas” e "complacentes" e a reagirem com cada vez maior indignação e revolta a tanta ignorância e boçalidade da nossa classe política, principalmente esta geração provinciana e inculta formada nas "jotas"....
É tempo de saber quem quer ficar agarrado a velhas tradições - Expresso.pt (clicar para ler reportagem sobre as afirmações do primeiro ministro).






segunda-feira, 14 de março de 2011

A MINHA COLECÇÃO DE CROMOS - 2 - : Miguel Sousa Tavares: a basófia de quem está bem instalado no sistema.



(Vejam AQUI a resposta dos organizadores da Manifestação dos portugueses à Rasca).

Entre outras coisas, tão ilustre "jornalista" opinava que a manifestação não ía ter grande sucesso "a não ser que o PCP se associe à mesma"... já muitos se encarregaram de dar a resposta ao sr. Tavares.
Tão ilustre opinador dá ainda uma idéia do público alemão do festival da canção como um grupo de mentecaptos que, levando a sério a opinião dos "Homens da Luta", não sabendo distinguir o que é um festival de musica "rasca" da real dimesão cultural de um país como o nosso, vão, depois de verem a actuação do grupo português nesse festival, deixar de aprovar os apoios da Alemanha a Portugal!!!
Não acredito que o público alemão tenha tanta falta de humor ou que seja tão bronco que não saiba dar o devido valor a esse festival.
O sr. MST é um daqueles "bobos" necessários à credibilidade de todos os regimes instalados, que precisam de alguém que por vezes lance uma alfinetadas para dar uma idéia de liberdade de opinião e de contestação consentida, mas que está bem instalado nesse regime, que beneficia da cultura de imagem, que tão bem sabe usar a seu favor, que sempre se soube encostar à gente certa no momento certo, beneficiando do nome de família e do medo que muitos têm pelo seu poder mediático e pela qualidade da sua escrita.
Enfim, mais um "cromo" a juntar à nossa "colecção"...

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

A MINHA COLECÇÃO DE "CROMOS" - 1 - QUANDO UM "CROMO" ESCREVE A DEFENDER A GUERRA DAS GERAÇÕES E INSPIRA ESTA CRÓNICA.

(Esta crónica foi-me inspirada por uma das mais abjectas crónicas jornalísticas que li até hoje (e já li muita porcaria ao longo da vida...) , e que pode ser lida aqui: A geração lixada pelos direitos adquiridos - Expresso.pt ...é caso para perguntar onde é que o EXPRESSO foi desencantar um cromo como este HENRIQUE RAPOSO !!!)


Começaram por tentar atirar os “pobres” contra os “remediados”, os que tinham trabalho precário contra os que tinham trabalho “seguro”, os desempregados contra os empregados.
Segundo eles, a culpa da crise é dos “grandes” rendimentos e “privilégios” dos funcionários públicos e dos professores, a culpa do trabalho precário é dos que lutaram pelos direitos sociais e por melhores condições de trabalho e a culpa do desemprego é dos empregados que “não podem ser despedidos”.

O objectivo é desviar a atenção dos verdadeiros privilegiados que eles são ou que eles defendem, os que apanharam os “tachos” dos boys em troca de darem a cara ao serviço da política do “centrão”, os que tiveram direito a reformas milionárias (uma, duas, muitas…) em troca de meia dúzia de anos de “serviço” na administração pública, na gestão das empresas estatais ou nos bancos do regime,os que ocupam os mais apetecidos cargos políticos ou as cátedras das universidades da situação...

Agora que aquela argumentação começa a ruir e a “verdade” começa a vir à tona, ei-los que recorrem a um novo argumento: a culpa é das gerações mais velhas. São estas que ocupam os postos de trabalho que deviam estar disponíveis para os mais novos, são estas que se mantêm fiéis aos sindicatos e aos valores “balofos” do 25 de Abril, são estas que pagam rendas de casa mais baratas e recebem pensões de sobrevivência pagas pelo “trabalho” (!) das gerações mais novas.

A nova “guerra” que essa gente precisa de lançar, depois das falhadas “guerras” contra os “privilégios” dos funcionários públicos e dos professores, contra os “direitos adquiridos” dos trabalhadores deste país e contra as forças de “bloqueio” que defendem o que resta do “Estado Social”, é a “guerra” das gerações, dos mais novos contra os mais velhos que, segundo eles, ocupam os lugares que a estes eram “devidos”.

…Faz lembrar os argumentos utilizados pelos nazis contra os empregos dos judeus!(os judeus, a "raça inferior", não era "digna" de ocupar as actividades que só podiam ser ocupadas pela "nova raça" ariana...Agora, são os "velhos" que ocupam o lugar devido às "novas gerações").

Para combater a precariedade laboral dos mais novos defendem….a precariedade laboral onde ela ainda não exista que é, segundo tão brilhantes pensadores, nos empregos ocupados pelas gerações mais velhas.

Para combater os baixos salários, aliás praticados pela classe empresarial que eles tanto prezam, defendem… que se nivele por baixo os “altos salários” (sendo que considerem alto qualquer salário acima dos …mil e quinhentos euros!) desses que são “privilegiados” só porque deram décadas da sua vida ao seu trabalho (muitas vezes para garantirem que as tais gerações mais novas pudessem estudar o que eles não tiveram oportunidade de estudar, pudessem aceder aos bens de consumo de que eles não beneficiaram ou que pudessem ocupar o tempo livre a viajar ou a divertir-se, como eles nunca puderam fazer).

Para combater o desemprego que afecta, de forma esmagadora, os mais jovens defendem…leis que facilitem o desemprego!!! …ou seja, acabar com os empregos “seguros” dos “velhos” para criar empregos precários para os mais novos!!!

Por último, não deixa de ser curioso que esses mesmos insistam em defender o aumento da idade da reforma!!! E argumentam com razões de ordem demográfica que é a relação do peso entre jovens e “velhos” que, segundo eles defendem, está na origem da falência do Estado Social (será, quanto muito, uma meia verdade…) e não se “lembram” que quanto maior o desemprego e menor o salário e a precariedade do emprego jovem, menos dinheiro entrará para os cofres da Segurança Social!!. Havendo pleno emprego, o envelhecimento da população é compensada com a emigração. (Já agora, porque não defendem que se dê um maior peso, do que aquele que é dado à idade, aos anos de desconto e ao valor do IRS e de outros impostos que cada um pagou ao longo da vida, para calcular o valor final da reforma?).

Aliás, se a situação dos jovens qualificados que não encontram emprego adequado à sua formação ou, simplesmente, a dificuldade geral de qualquer jovem à procura do primeiro emprego em conseguir um emprego que não seja precário é uma situação preocupante, essa situação é tão preocupante como a dos desempregados, ou dos que queiram mudar de emprego, da geração dos 40 ou 50 anos, que são considerados “velhos” para qualquer emprego. Aqui está um exemplo de uma situação que é transversal às gerações.

Enquanto atirar areia aos olhos dos incautos continuar a render a sobrevivência dos verdadeiros privilegiados é provável que o argumento da luta de gerações vá passando.

Ser jovem, aliás, não é apenas uma questão de idade. Infelizmente o mundo do jornalismo, dos meios financeiros, das universidades e da política está cheio de gente dos 20/30 anos com uma mentalidade velha de séculos, adquirida nessas coisas, onde se acoita todo o conservadorismo intelectual disfarçado de "modernidade”, que são os cursos de “ciência” (?) política ou de gestão empresarial, onde não entra qualquer valor de criatividade, de originalidade ou de humanismo, dispensando ou secundarizando disciplinas como a sociologia, a história, a filosofia, a literatura ou ar artes.

Talvez um dia, que pode estar mais próximo do que eles pensam, esses jovens despertem para a realidade e percebam que são seus aliados aqueles que, em todas as gerações, continuam a defender uma sociedade mais justa e mais humana, onde a identidade e a cultura se sobreponham à política, a política à economia e a economia às finanças, e não a ordem inversa, que é a de tudo se submeter à ditadura económico-financeira que tem marcado a sociedade nas duas últimas décadas, com os resultados sociais que se vislumbram.

Talvez um dia esses jovens se libertem da manipulação desses “economistas”, comentadores e políticos, que procuram lançar o desespero desses jovens contra os mais “velhos”, sobrepondo os valores de generosidade, criatividade e imaginação comum aos jovens, aos "valores" de uma sociedade espartilhada, desigual, injusta, dominada pelos “negócios” , defendidos por tais figurões, que aplicam sempre a velha máxima de “dividir para reinar”.

Ponham os olhos no Médio Oriente…