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sexta-feira, 15 de outubro de 2021

Tragédias de um Orçamento.


Por vezes, interrogo-me se a actual geração de jornalistas estudou numa escola de jornalismo ou, se não terá estudado, antes, numa escola de produção de telenovelas!!!

A forma como se tem vindo a dramatizar a apresentação do próximo Orçamento de Estado, mais parece, de facto, uma telenovela do que um trabalho lúcido de informação, como seria de esperar por parte dos órgãos de comunicação social.

Ou talvez a escola seja a escola do ministro da propaganda nazi, Goebels, aliás um excelente professor para quem quer aprende como funcionam, eficazmente, a propaganda e a publicidade.

Uma das técnicas desta “escola” é aquela, segundo a qual, uma mentira várias vezes repetida se torna verdade, ou, adaptando aos dias de hoje, várias frases descontextualizadas e meias verdades repetidas até à exaustão e ampliadas pelo megafone de vários comentadores encartados, acaba por condicionar a própria realidade.

Aquilo que sempre foi perfeitamente normal na apresentação de orçamentos, em especial quando não há governos de maioria absoluta, como aconteceu em mais de 3/4 de governos democráticos, que é apresentar um projecto, que depois pode ser alterado após negociações, sempre duras, entre os partidos parlamentares, foi transformado numa novela tágico-cómica, como, aliás, se tem transformado qualquer caso e casinho nos últimos tempos.

O problema é quando esse ambiente de doidos,  criado por uma comunicação social ávida de escândalos e espectáculos para aumentar audiências, contamina a vida política dos partidos ditos “sérios”.

É ver o frenesim que reina nos partidos da direita tradicional, só com a possibilidade remota de voltarem ao poder nos próximos tempos (principalmente, o de controlarem os dinheios da "bauka", que é o que os move....).

Pode-se dizer que a direita anda com a pontaria desafinada, pois se alguém foi atingido pela agitação provocada à volta do Orçamento, não foi o orçamento, mas a liderança e o  interior dos próprios partidos de direita.

O aparecimento de dois candidatos, um no CDS, outro no PSD, ambos com experiência política e pessoas cultas, mas com um discurso extremista, fanaticamente ideológico e revanchista, não augura nada de bom para o futuro desses partidos, a não ser retirar campo de manobra à extrema-direita.

Se ambos ganharem a liderança desses partidos, o PS vai agradecer, pois o voto centrista vai fuigir desses partidos.

À esquerda espera-se, pelo contrário, bom senso. Para quem acha, dentro do BE e do PCP,  que estes perdem pelo facto de facilitarem a vida ao orçamento socialista, a realidade das últimas presidênciais e das autárquicas, aí está para o desmentir, ao contrário da falácia de algum jornalismo e de alguns comentadores, interessados em provocar o caos à esquerda.

Basta ver o que aconteceu a esses dois partidos à esquerda do PS, pelo facto de terem tomado decisões diferentes em relação ao último orçamento.

O BE, que votou contra o orçamento, pensando beneficiar à custa do PCP e do afastamento em relação ao PS, teve duas estrondosas derrotas nesses actos eleitorais, perdendo quase tudo o que tinha conquistado no tempo da geringonça.

Pelo contrário, o PCP, que aprovou o orçamento, tendo perdido alguma coisa, perdeu pouco, e aguentou-se, estabilizando dentro do histórico. Mesmo onde perdeu ou não conseguiu aumentar, como em Loures ou em Almada, continua uma força política considerável e com capacidade de  dar cartas por muito tempo.

No caso das presidênciais e das autárquicas em Lisboa, mais no segundo que no primeiro caso, até conseguiu um bom resultado com João Ferreira.

As perdas do PCP não se devem à sua “aliança” com o PS, mas a uma crise mais estrutural, de falta de renovação e de adaptação aos novos tempos. 

Foi, pelo contrário, a sua capacidade de negociação, ganha com a "geringonça", que travou a sua perda de influência e lhe pode dar, no futuro, um novo alento.

Espera-se, por isso, que à esquerda, ao contrário do frenesim que vai à direita, reine o bom senso.

Este Orçamento não é o ideal, se houver bom senso ainda pode ser aperfeiçoado nas negociações à esquerda, mas a alternativa é a realização de eleições antecipadas, que iriam beneficiar o PS (e o Chega), aprovando-se depois um orçamento menos social, e para o qual o PS, sentindo-se traido pela sua esquerda, seria tentado a negociar à direita, ou, na hipótese remota de uma vitória da direita, um orçamento revanchista, do ponto de vista social, e integrando o resto do “ir além da Troika” que não foi cumprido, com prejuízo para reformados, trabalhadores, pequenas e médias empresas, do país em geral.

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Isabel dos Santos; de ponta do "iceberg" da actuação do sistema financeiro neoliberal, a “peão” sacrificado pela "máfia" financeira de Davos.



Não deixa de ser curioso aparecer por aí tanta gente que só agora descobriu que a fortuna de Isabel dos Santos foi construída na corrupção e à custa da miséria da população angolana.

Ainda não há muito tempo a dita senhora era endeusada pelo jornalismo económico, pelo sector económico e por grande parte da classe política do centrão.

Sobre o que está em causa, leia-se AQUI a reportagem do Diário de Notícias.

Quando, no tempo de Sócrates e da “troika”, muitas empresas precisaram do seu dinheiro para se salvarem, nunca perguntaram a origem desse dinheiro.

Quando muitos políticos desempregados arranjaram emprego à custa de empresas financiadas por Isabel dos Santos, também nenhum se interrogou sobre o financiamento das ditas empresas.

O caso mais emblemático é o caso do Banco Eurobic. Fundado tendo por base a nacionalização e posterior privatização de um outro banco falido, o ministro que tomou a decisão, Teixeira dos Santos, é hoje o presidente desse banco “criado” com capitais de Isabel dos Santos. Nas origens do banco esteve outro tubarão da política financeira do centrão, Mira Amaral (leia-se, a propósito, o seguinte artigo, escrito AQUI já há dois anos).

Já agora, para memória futura, registem-se aqui algumas empresas, uma já extintas, outras não, que estiveram na base ou beneficiaram (ou contribuíram para) da fortuna e da influência política de Isabel dos Santos:

- Sonangol ;
- Santoro;
- GALP;
- Banco BIC, hoje EuroBic;
- Angola Diamond Corporation;
- Terra Verde (agropecuária);
- IDUKA, agência imobiliária em Braga;
- Unicer;
- etc, etc, etc,……

Detém ainda uma parte do jornal “Sol”.


(Fonte: Diário de Notícias) 


Convém ainda recordar que o investimento de Isabel dos Santos e das “suas” empresas em Portugal, iniciado com Durão Baroso, mas que conheceu um boom na era Sócrates, contou com a “colaboração” de empresas como a corticeira Amorim, a Amorim Energia,  o extinto Banco Espírito Santo, a rex-PT,  a NOS, a Mota-Engil,  a CGD , a Galp, o BCP, o Santander, a Sonae, a Efacec…

Entre os “quadros” que em Portugal beneficiaram ou ajudaram a influência política e financeira de Isabel dos Santos, encontram-se nomes, alguns entretanto “reformados”, como o ex-ministro do PSD Mira Amaral,  António Monteiro, Tavares Moreira, outra figura do PSD, ou António Pires de Lima, figura de destaque no CDS e nos tempos da “Troika”.

Leia-se, a propósito, este  artigo sobre  "os laços de Isabel dos Santos com a elite económica portuguesa".

Caída em desgraça, muitos dos mafiosos, que beneficiaram e promovem as mesmas práticas de fuga a impostos, lavagem de dinheiro e compadrio político-financeiro, como  os vampiros de Davos, vieram agora, apressadamente, tirar-lhe o tapete.

Um dos casos mais significativos foi a da consultadoria PWC que, durante anos andou a legitimar os negócios de Isabel dos Santos e que agora se apressa a cortar relações com ela. Se eu fosse investidor, apressava-me a riscar essa empresa nas decisões dos “meus” negócios, pois, ou essa empresa foi conivente com a corrupção da empresária angolana ou, se não sabia de nada, é incompetente na sua área de negócio.

Muitos que agora batem com a porta nunca se preocuparam com a origem de tanta riqueza, apesar de tantos avisos ao longo do tempo.

No fundo, toda essa gente sabe que essa riqueza e o seu tipo de negócios só se constrói fugindo ao fisco, roubando populações inteiras, destruindo o ambiente, colocando dinheiro em off shores, traficando influências entre o mundo da política e da alta finança.

Enquanto tudo corre bem, gentalha como a Isabel dos Santos anda nas boas graças, até porque também deu dinheiro a muitos dos seus actuais detractores.

Mas a procissão ainda vai no adro.

Isabel dos Santos não roubou sozinha e, se ela cair, vai ser uma razia na banca portuguesa, nalgumas esferas políticas do centrão, em conhecidos escritórios de advogados, e em grandes empresas onde pontificam GEO’s de renome, muitos colocados nesses cargos pelos favores políticos que fizeram à dita senhora.

Também o Banco de Portugal e o Ministério Público vão sair chamuscados de toda esta situação, porque, ao longo do tempo, ignoraram o alerta de jornalistas, de alguns políticos, e muita gente.

Desconfia-se mesmo da conivência do Banco de Portugal e do Ministério Público, bem como de uma grande parte do sector financeiro em Portugal e na Europa, com a situação agora publicamente denunciada.

Ainda hoje ouvi uma comentadora de economia a "justificar"  Isabel dos Santos com a desculpa de que ela fez o que é normal fazer-se no sector financeiro por essa Europa fora, só sendo escandaloso porque envolve um país africano pobre.

A atitude dos mafiosos do Forum de Davos dá razão a essa jornalista.

De facto, o tipo de actuação de Isabel dos Santos é igual ao tipo de actuação do sector financeiro do sistema neoliberal: fugir ao controle e à regulamentação através do recurso a paraísos fiscais, envolver a classe política dos seus negócios, de modo a influenciarem as políticas financeiras, económicas, sociais e fiscais dos governos, e explorar e delapidar os recursos naturais do planeta, apesar dos custos sociais e ambientais.

Tal como a máfia, o poder financeiro mundial, representado no Forúm de Davos, tem de “eliminar” aqueles que, no seu meio, caiam em desgraças, para desviarem as atenções das suas malfeitorias e não caírem com eles.

Vai ser divertido ouvir e ler por aí alguns comentários de jornalistas e comentadores da área económica e financeira que sempre legitimaram os métodos de actuação que foram seguidos por Isabel dos Santos .

Aguardam-se cenas dos próximos capítulos.



quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Onde estão os verdadeiros “social democratas”?



Anda por aí um debate entre partidos e comentadores para saber quem é o verdadeiro social-democrata.

Em termos gerais a social-democracia tem origem numa ruptura no movimento operário, entre os que defendiam a revolução para conduzir a classe operária ao poder, para acabar com a exploração capitalista, posição que esteve na origem do movimento comunista nas suas mais diversas tendências, e os que defendiam que a emancipação da classe operária se devia fazer pela via democrática, participando em eleições, em lutas legais, principalmente através dos sindicatos, com o objectivo de reformar o capitalismo por dentro.

As diferenças são bem mais complexas do que isso e o próprio movimento social-democrata acabou por seguir caminhos diversos (leia-se, a propósito, AQUI, um interessante resumo da história da social-democracia).

Com a Terceira Via (de Blair, Sócrates, Zapatero, Schroder e outros) a social-democracia acabou por trair todos os seus valores originais e tornou-se um dos principais pilares do neoliberalismo triunfante, deixando de defender aqueles que diziam ( e ainda dizem) defender.

Em Portugal não é totalmente incorrecto designar o PSD, o PS e até o BE de “social-democratas”, pois cada um deles defende as diferentes perspectivas que singraram, ao longo do tempo, no  movimento.

Contudo, tirando uma ou outra personalidade do PSD (Pacheco Pereira e pouco mais), a ala “esquerdista” do PS e, sem dúvida o BE no seu conjunto, os que defendem, em termos práticos e teóricos,  a verdadeira social-democracia, principalmente nos partidos do “centrão”, são uma minoria, cada vez mais isolada naqueles dois partidos.

Governos liderados pelo PSD e a maioria dos liderados pelo PS, mesmo que incluam uma retórica “social-democrata” no seu programa, têm, pelo contrário, contribuído para agravar as condições de vida de quem vive do seu trabalho, beneficiar o sector financeiro e os grandes empresários, esvaziar o “Estado Social” ( principal herança da prática passada da verdadeira social-democracia), retirar direitos a quem trabalha, e combater a influência dos sindicatos.

Claro que o último governo liderado pelo PS se afastou um pouco daquela prática histórica dos partidos do centrão, que, em tempos, já disputaram a presença na internacional socialista e social-democrática.

Tal aconteceu, em grande parte, porque o radicalismo neoliberal do governo de Passos Coelho foi tão desastroso para as condições de vida em Portugal, que qualquer mudança, em benefício dos cidadãos, por pequena que fosse, seria vista como um regresso à pureza “social-democrata”, para além da dependência deste governo em relação aos partidos à sua esquerda que o pressionaram a mudar o rumo das coisas.

BE e PCP, aceitando o jogo democrático e abandonando, na prática, a via revolucionária, são os que têm defendido, de forma consequente, a verdadeira social-democracia, ou seja, têm (principalmente o PCP) uma forte influência no meio sindical, defendem com unhas e dentes o Estado Social (recorde-se, o único objectivo conseguido pela social-democracia histórica), defendem quem trabalha e os mais desfavorecidos, combatem a expansão do neoliberalismo e a influência do capitalismo financeiro no destino das sociedades, única forma, aliás, de combater as alterações climatéricas de forma consequente.

Ou seja, se tivermos em conta a sua acção recente e a defesa consequente de valores sociais, os verdadeiros partidos social-democratas, hoje em Portugal, são, ( para além de outros pequenos partidos como o MAS ou o LIVRE), por um lado o Bloco de Esquerda, que até já assume a social-democracia, e, por outro, o PCP, que, não abandonando a retórica comunista e revolucionária, sempre actou, pelo menos desde que a democracia se consolidou em Portugal, como um verdadeiro partido social-democrata.

E tudo isto nos conduz ao nosso posicionamento em relação ao próximo acto eleitoral, tema ao qual voltaremos oportunamente.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

O Cartoon da Semana (uma alusão à censura no Carnaval de Torres)

Luís Afonso publicou no jornal Público de 25 de Fevereiro, 2ª feira, um cartoon alusivo à censura da figura de "Nossa Senhora da Bola" , retirada do "Monumento" do Carnaval deste ano, cartoon escolhido como Cartoon da Semana:


quinta-feira, 14 de setembro de 2017

“Universidade de Verão”


Tivemos hà dias uma “Universidade” de Verão  de um partido do regime que foi profícua em intervenções idiotas e estapafúrdias.

Não deixou de ser curioso que a nossa imprensa de referência se tenha referido a essa “Universidade”, sem aspas e muitas vezes em maiúsculas, e sem se rir ou publicar a notícia numa página humorística.

Chamar “Universidade” àquilo é, no mínimo, uma ofensa à Universidade.

E o que é que vimos nessa “Universidade”? enxurradas de mera propaganda política, uma espécie de lavagem ao cérebro a jotazinhos, candidatos a futuros cargos políticos, com intervenções que não foram mais longe que a mera boçalidade, armada em “lição” mal preparada, para encher as aberturas de telejornais, como aconteceu com um Paulo Rangel enraivecido e a espalhar ódio por todo o lado, insinuando que o actual governo e os seus cortes cegos (???)  seriam responsáveis por todas as mortes ocorridas em Portugal e arredores nos últimos dois anos!!! (claro que estou a caricaturar a própria caricatura dessa miserável intervenção), um vergonhoso aproveitamento politico da tragédia de Pedrogão Grande.

Outro momento “alto” foi o regresso de Cavaco Silva, numa intervenção ressabiada cheia de trocadilhos armado ao engraçado, misturada com graçolas baratas, no meio de pios e “contra-pios”, enfim, um Cavaco no seu pior!!!!

Cada partido é livre de iniciar os seus seguidores na narrativa e nos valores que o caracterizam, é livre de realizar acções de formação politica junto de militantes e de fazer a propaganda dos seus objectivos.

O que não pode é aviltar as instituições, como o fez com a Universidade, chamando àquilo “Universidade de Verão”.

Só faltou mesmo o Relvas a distribuir diplomas no fim!!!

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

TSU – Chantagem Irresponsabilidade e Oportunismo



Fazer da redução da TSU condição para aumentar miseravelmente um já de si  miserável ordenado mínimo nacional até se percebe, vindo dos representantes dos Patrões (…sim, Patrões…Empresários é outra coisa, rara por estas bandas…).

A TSU foi usada, de forma chantagista por esses patrões para assinarem um acordo de concertação social. Uma atitude miserável, mas à qual já nos habituamos. E os próprios patrões, habituados que estavam a mandar nas decisões do anterior governo, apesar de terem à frente da Concertação Social um grande senhor, um dos últimos social-democratas do PSD, Silva Peneda, que lhes fez frente e refreou-os muitas vezes, tudo fizeram, nos seus costumados modos arrogantes, usando comentadores e alguma comunicação social em seu favor, para encostar o governo socialista à parede.

A este apenas restou aceitar a chantagem para conseguir a garantia de um aumento do salário mínimo. mesmo que miserável, à custa da redução da TSU para o patronato, medida que tinha sido iniciada pelo governo de Passos Coelho.

Como seria óbvio e coerente, CGTP, BE e PCP estão contra.

O que não se esperava era o oportunismo político de Passos Coelho, que procura, em mais uma das suas patéticas e miseráveis atitudes politicas, aproveitar-se das divergências que aquele acordo gerou entre a actual coligação que sustenta António Costa, para dando o dito por não dito, renegar os valores que sempre defendeu e uma medida que ele iniciou, vendo aqui uma oportunidade para agitar as águas e tentar sobreviver à sua própria decadência política.

Ou seja, pura politiquice no seu mais abjecto sentido…

Vai ser curioso ver o PSD a fazer campanha contra o patronato na Assembleia da República …

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Há 30 anos que “somos” “europeus”


Passam este mês trinta anos sobre a entrada oficial de Portugal na então “CEE”.

O “saloioismo” nacional sempre fez alarde da nossa adesão à “Europa”, esquecendo-se que Portugal sempre foi Europeu, não só geográfica, como historicamente, e neste último aspecto, bem mais Europeu que muitos outros.

Só a subserviência reverente da maior parte da elite  portuguesa ( na política, na comunicação social, nas universidade e na economia) ,em relação às instituições e aos burocratas europeus, actualizada no retracto de Fernando Pessoa sobre o  provincianismo da elite nacional do seu tempo (ler AQUI), embasbacada face ao “progresso” da “Europa”, explica que essa adesão nos tenha conduzido a esta última década perdida.

Por infeliz coincidência, os primeiros passos de adesão de Portugal à então CEE coincidiram com os governos cavaquistas (1985-1995) e grande parte dos fundos estruturais que beneficiaram economicamente o país foram canalizados para levar a efeitos políticas de “desenvolvimento” que, como se provou já neste século, contribuíram para beneficiar a especulação financeira e imobiliária, a substituição de uma rede de transportes públicos por uma discutível rede de auto-estradas( que implicou um forte aumento das importações, com reflexos no aumento da dívida pública, e com graves custos ambientais),  e a destruição do já de si rudimentar aparelho produtivo nacional (pesca, industria e agricultura), um desastre anunciado mas maquilhado pela euforia consumista das duas primeiras décadas que os fundos estruturais, mal canalizados para o consumismo desenfreado, fomentado pelos bancos, permitiram disfarçar.

Enquanto houve dinheiro e fundos estruturais foi possível, apesar de tudo, melhorar muitos do indicadores económicos e sociais, graças, principalmente, à forma como os governos de António Guterres conseguiram emendar a mão dos desvarios cavaquistas, mas foi “sol de pouca dura”.

Poucos suspeitariam que, trinta anos depois da adesão à então CEE, hoje União Europeia, o país estivesse a viver um retrocesso social e económico com as actuais dimensões e que a União Europeia estivesse a lutar pela sua sobrevivência como projecto  solidário e de desenvolvimento económico-social, muito por culpa da abdicação e destruição desse projecto, entregue à especulação financeira e a uma geração de políticos de vistas curtas.

Apesar de tudo, Portugal está hoje muito melhor do que estava em 1986, embora, a continuar-se por muito mais tempo com as actuais medidas “austeritárias”, impostas pelas instituições  não-democráticas europeias (Comissão, Conselho, Eurozona e BCE) e diligentemente aplicadas nos últimos quatro anos pela dupla Coelho-Portas,  tudo o que, ainda assim, se conquistou nestas últimas décadas, em direitos sociais, em melhoria das condições de vida, em consolidação da democracia, corre o risco de sobraçar e de conduzir o país (e o resto da Europa) para um desastre social, económico e político de dimensões inimagináveis.

Ainda vamos a tempo de mudar o rumo às coisas e reconduzir Portugal e a Europa ao sonho que a construiu, o da cidadania, da solidariedade, da democracia, da identidade cultural, do conhecimento e do combate às desigualdades.

Estes são também alguns dos desejos para  este ano que agora se inicia.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

domingo, 8 de novembro de 2015

O CARTOON DA SEMANA

(Clicar na imagem para ver em tamanho grande)

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Quando Deus "não é nosso amigo" e se junta às "forças demoníacas" da natureza...

Estão "explicadas" as alterações climatéricas e as enxurradas como aquela que aconteceu no Algarve no passado Domingo.

Tudo se ficou a dever ao facto de a” fúria demoníaca da Natureza não ser nossa amiga” , de “ Deus nem sempre [ser] amigo” e  “de vez em quando”  nos dar “uns períodos de provação”.

Quanto ao homem que perdeu a vida em Boliqueime “entregou-se a Deus".

Quem o diz é o novo ministro da administração interna, Calvão e Silva.

Mas as “sábias palavras” que o ministro proferiu, na visita que fez a Albufeira,  não se ficaram por aqui.

Considerou que o temporal que causou avultados prejuízos “é uma lição de vida”, especialmente para quem não tem seguro, deixando a este o “conselho”  e o “exemplo” pessoal: "Eu sei que há muitas carteiras magras. Mas está a falar com uma pessoa que nasceu em Trás-os-Montes, que sabe o que é ser pobre e vir do pobre e tentar ser alguém. A mobilidade social funciona para todos. E todos temos de ter a nossa responsabilidade no sentido e dizer: 'eu tenho um negócio, vou fazer o meu seguro para que se o infortúnio me bater à porta tenha valido a pena pagar o prémio” acrescentando ainda  que cada um “tem um pequeno pé-de-meia. Em vez de o gastar a mais aqui ou além, paga um prémio de seguro. Não imagina a quantidade de pessoas que falaram que já accionaram o seguro. Isto é uma lição de vida para todos nós.”

Esqueceu-se de dois pequenos “pormenores” : em primeiro lugar que a maior parte dos comerciantes de Albufeira, que já tinham sido atingidos pelas cheias de 2008, ainda não receberam as indemnizações a que tinham direito por essa tragédia e que, em segundo lugar, desde essa data as condições impostas pelas companhias de seguro eram de tal modo incomportáveis que muitos desses comerciantes optaram por arriscar não fazer qualquer seguro.

Mas, se perante tão “piedosas” palavras alguém esperava uma acção consequente do novo governante, desenganou-se rapidamente quando ouviu da boca do mesmo ministro que este não dava  “qualquer certeza sobre a declaração de calamidade pública, afirmando que é necessário, antes de mais, que seja feito o levantamento dos danos, para depois se avaliar se os “requisitos legais” estão “preenchidos”, acrescentando que  “o que conta é a resposta imediata”: “Esta gente precisa de ajuda imediata, que passa por uma palavra de solidariedade imediata. Estou aqui hoje, mesmo que logo à noite já não fosse ministro.”

Mas não se pode esperar muito da mesma personagem que, há uns tempos atrás , defendeu a idoneidade do antigo líder do BES, Ricardo Salgado, quando este recebeu 14 milhões de euros não declarados com “presente”  de um  construtor civil, considerando que um presente dada “ao amigo de longa data” não punha em causa a “gestão sã e prudente” do banco, porque “o espírito de entreajuda e solidariedade” é um princípio geral de uma sociedade, sendo “natural, pois, que um amigo possa e tenha gosto em dar sugestões, conselho ou informações a outro amigo", tudo isto num parecer por si assinado para o Banco de Portugal.

Tudo isto seria anedótico se não tivéssemos perante uma tragédia.

Fazendo uma analogia com o historial do 1º de Novembro, é caso para imaginar o que teria sido de Lisboa e Portugal se, naquele outro  muito mais trágico e distante 1 de Novembro de 1755 tivéssemos líderes políticos como os actuais!!!!.

Em baixo reproduzimos os artigos do Público e do Expresso onde se refere, o primeiro às afirmações feitas em Albufeira, as segundas às ligações com o BES daquele caricato e “piedoso” ministro:

“Mau tempo no Algarve? "Deus nem sempre é amigo", diz ministro

Por Idálio Revez, in  PÚBLICO 02/11/2015 .

“O ministro da Administração Interna, João Calvão da Silva, esteve nesta segunda-feira em Albufeira e defendeu que o temporal que causou avultados prejuízos “é uma lição de vida”, especialmente para quem não tem seguro.

“Verifiquei que há muita gente que diz que já accionou os seus seguros. Fantástico. As pessoas estão conscientes que há outros mecanismos para além dos auxílios estatais”, disse o ministro da Administração Interna aos jornalistas, defendendo a necessidade de os comerciantes terem seguro. “Cada um tem um pequeno pé-de-meia. Em vez de o gastar a mais aqui ou além, paga um prémio de seguro. Não imagina a quantidade de pessoas que falaram que já accionaram o seguro. Isto é uma lição de vida para todos nós.”

“Questionado sobre a situação dos comerciantes que não têm seguro, Calvão da Silva respondeu. “Quem não tem seguro, aprende em primeiro lugar que é bom reservar sempre um bocadinho para no futuro ter seguro. Em segundo, é bom esperar que o levantamento seja feito pela autarquia, que é a autoridade adequada, e mostrar que os requisitos de calamidade se verificam”.

“E novamente confrontando com as dificuldades de quem não tem seguro, Calvão da Silva insistiu. "Eu sei que há muitas carteiras magras. Mas está a falar com uma pessoa que nasceu em Trás-os-Montes, que sabe o que é ser pobre e vir do pobre e tentar ser alguém. A mobilidade social funciona para todos. E todos temos de ter a nossa responsabilidade no sentido e dizer: 'eu tenho um negócio, vou fazer o meu seguro para que se o infortúnio me bater à porta tenha valido a pena pagar o prémio."

“O ministro não deu qualquer certeza sobre a declaração de calamidade pública, afirmando que é necessário, antes de mais, que seja feito o levantamento dos danos, para depois se avaliar se os “requisitos legais” estão “preenchidos”.

“Questionado sobre se essa declaração de calamidade ainda se poderá verificar no tempo de vida deste Governo, Calvão da Silva respondeu que “o que conta é a resposta imediata”: “Esta gente precisa de ajuda imediata, que passa por uma palavra de solidariedade imediata. Estou aqui hoje, mesmo que logo à noite já não fosse ministro.”

"Deus nem sempre é amigo"

“No início da visita ao Algarve, Calvão da Silva lamentou que “ao lado de danos patrimoniais avultados” ainda se tivesse verificado “a perda de uma vida humana”: “Por isso fiz questão de começar esta visita pelos cumprimentos de condolências à família enlutada. Era um homem que já tinha vindo do estrangeiro, tinha 80 anos, fica a sua mulher Fátima. Ele, que era um homem de apelido Viana, entregou-se a Deus e Deus com certeza que lhe reserva um lugar adequado.”

“Num discurso com muitas referências religiosas, o ministro defendeu ainda que as forças “operacionais funcionaram muito bem” numa situação difícil em que foi preciso enfrentar “uma fúria da natureza”. "A fúria da natureza não foi nossa amiga. Deus nem sempre é amigo. 

"Também acha que de vez em quando nos dá uns períodos de provação. Em quase todo o lado, excepto em Albufeira, o nível autárquico foi suficiente de acordo com as medidas. E só não foi suficiente aqui em Albufeira, porque a força da natureza, na fúria demoníaca, embora os ingleses digam que é um acto de Deus, um 'act of God', a gente tem traduzir de outra maneira..."

“Visão diferente têm os comerciantes de Albufeira, que acusam a câmara de não ter tomado as medidas necessárias”.


“Como Calvão da Silva defendeu Salgado: €14 milhões foram “uma atenção” por “conselho dado por amizade”

Pedro Santos Guerreiro, in Expresso 28.10.2015 

“O Expresso revela o parecer em que Calvão da Silva, agora indicado para ministro da Administração Interna, defendeu a idoneidade do antigo líder do BES. Os €14 milhões que o construtor José Guilherme deu a Ricardo Salgado foram um presente dada “ao amigo de longa data” que não punha em causa a “gestão sã e prudente” do banco.

“O espírito de entreajuda e solidariedade” é um princípio geral de uma sociedade e Calvão da Silva considera que “é natural, pois, que um amigo possa e tenha gosto em dar sugestões, conselho ou informações a outro amigo", sendo que "não é a circunstância de ser administrador ou presidente executivo de um banco que o priva dessa liberdade fundamental”.

"E se alguém decide dar dinheiro de presente (liberalidade) em reconhecimento desse conselho, como José Guilherme deu a Ricardo Salgado, isso não põe em causa a idoneidade de quem recebe.

“Assim escreve João Calvão da Silva, que aceitou esta semana ser ministro da Administração Interna do novo governo de Pedro Passos Coelho. Mal a indicação foi conhecida, logo o Bloco de Esquerda ligou o nome do jurista ao processo de Ricardo Salgado, por ter emitido um parecer defendendo a idoneidade do então líder do BES junto do Banco de Portugal. O Expresso, que no âmbito da sua investigação jornalística, publicou dezenas de documentos oficiais relevantes para o processo, revela hoje o parecer em causa, que pode ler na íntegra aqui.

“O parecer é de novembro de 2013, numa altura em que a "guerra" dentro da família Espírito Santo já se tornava pública, em que estava a ser vendido papel comercial do Grupo Espírito Santo em larga escala mas ainda se desconhecia o falseamento das contas do Grupo Espírito Santo (embora fosse nesse mês que o Banco de Portugal soubesse, mas não tornasse público, dos indícios desse "buraco"). O parecer é emitido por causa de outro assunto: depois das notícias de que Ricardo Salgado havia recebido dinheiro do construtor José Guilherme, no valor de €14 milhões de euros, o Banco de Portugal questionava a idoneidade do banqueiro. Salgado recorreu então a dois pareceres externos, um deles de Calvão da Silva.

“A defesa de Salgado: os amigos de longa data

“Para perceber o parecer de Calvão da Silva é preciso relembrar a argumentação de Ricardo Salgado para justificar ter recebido o dinheiro. Recusando tratar-se de uma comissão por serviços de consultoria, Salgado disse que se tratava de uma liberalidade: um presente.

“Segundo a defesa de Salgado, citada no parecer, José Guilherme era “um amigo de longa data a quem nas suas conversas foi dando alguns conselhos e opiniões sobre a evolução da economia e dos mercados a respeito de algumas decisões que quis tomar”. Na crise de 2008, falando com José Guilherme, “por amizade o dissuadiu” de investir na Europa de Leste, nomeadamente na Bulgária, e em vez disso “o aconselhou a apostar em Angola”. Nesse campo, deu-lhe “sugestões quanto à forma de abordar esse mercado e entidades a contactar”.

“Ora, diz o parecer, invocando a tese da defesa de Salgado, José Guilherme “teve enorme sucesso em Angola” e, depois, “tomou a iniciativa de se lhe dirigir, afirmando de modo categórico que queria ter para com ele uma atenção, pela ajuda preciosa que lhe dera". Após "reiterada insistência" de José Guilherme, Salgado "decidiu consultar dois juristas externos ao Banco [Espírito Santo], tendo estes assegurado que a questão era do foro pessoal e não colidia com quaisquer regras legais ou éticas”, além de que “nenhuma relação existiu entre a oferta e a relação deste com o Banco”. Finalmente, o “montante da oferta foi incluído da declaração de IRS”, diz o parecer, embora não refira que só o foi depois de várias retificações por parte de Salgado: não constava na declaração incial entregue às Finanças. "A oferta resultou de uma liberalidade em razão dos seus conselhos, orientações e ajudas dadas a título pessoal e de amizade, nunca a título profissional”.

“É pessoal, ninguém leva a mal

“Como a liberalidade foi por conselho dado a título pessoal, fora do exercício das funções e por causa das funções de administrador bancário, não se vê por que razão censurar a sua aceitação, muito menos que possa constituir fator relevante na decisão de registo sob o prisma de uma idoneidade necessária a uma gestão são e prudente da instituição de crédito”, escreve Calvão da Silva.

“O parecer destaca que a avaliação de idoneidade pelo Banco de Portugal visa “assegurar uma gestão sã e prudente da instituição, tendo em vista, de modo particular, a segurança dos fundos a ela confiados”, bem como ver da capacidade do banqueiro “para decidir de forma ponderada e criteriosa”, da tendência para cumprir obrigações e de não ter comportamentos incompatíveis com a preservação da confiança do mercado.

“Considerando que “nenhuma dúvida séria e consistente” põe em causa que “a lente exigida na lei na apreciação da idoneidade é a de gestor criterioso e ordenado”, Calvão da Silva refere que “não é, pois, a um ato isolado” que a lei se refere, mas sim “ao modo habitual da gestão dos negócios ou do exercício da profissão”, pelo que “não pode o Banco de Portugal deixar de considerar preenchido o requisito de idoneidade dessa pessoa indicada para administrador e aceitar o seu registo”. No caso, Ricardo Salgado.

“Calvão da Silva cita vários acórdãos, a Constituição e diretivas europeias. E fundamenta que “se o conselho de amigo de longa data de ir para Angola e não para a Bulgária exercer a profissão no setor imobiliário que exercia em Portugal se revelou certeiro e propiciou resultados lucrativos no exercício dessa profissão, nada impede a liberalidade feita ao amigo”. Além disso, “o conselho havia sido dado por amizade, sem vínculo jurídico algum, muito menos ao abrigo de contrato de consultoria por investimentos”.

“Código de Conduta do BES? Tudo ok

“Além de cumprir a lei, a liberalidade aceite por Salgado “não viola em nada o Código de Conduta do grupo [Espírito Santo], justamente por ser totalmente alheia à atividade profissional de administrador do grupo”. É assim, mesmo que o Código de conduta do BES proibisse a aceitação de “qualquer tipo de remuneração ou comissão por operações efetuadas em nome do grupo” ou de “presentes, convites, favores ou benefícios semelhantes” se relacionadas com a sua atividade profissional no grupo”.

“É tendo em conta estes argumentos que, no parecer, João Calvão da Silva defende “a não perda de idoneidade do administrador em causa”.

“Recorde-se que Ricardo Salgado nunca chegou a perder o estatuto de idoneidade durante o exercício das suas funções. Demitiu-se quando ainda a mantinha, em julho de 2014, oito meses depois da emissão deste parecer. Calvão da Silva deverá tomar posse na sexta feira como ministro, sendo que poderá não chegar a exercer funções efectivas, pois prevê-se o chumbo na Assembleia da República do programa do governo, levando à sua queda”.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

10 de Junho e Cavaco: o presidente de …alguns portugueses!


Este 10 de Junho teve um sabor especial…foi o último em que tivemos de ouvir os discursos enfadonhos, vazios, cheios de lugares comuns e frases feitas de Cavaco Silva.

Foi também o início da campanha eleitoral, com Cavaco a dar o mote à propaganda da coligação de direita.

Segundo ele, os portugueses que estão no desemprego, que foram forçados a abandonar a família para emigrar, que viram as suas condições de trabalho a agravarem-se, com cortes salariais e aumento de jornadas de trabalho, vivendo cada vez mais a prazo, os 50% de jovens, os mais qualificada do país, que não encontram emprego estável e os outros 49%  (os 1% restantes são os jótinhas empregados como assessores e gestores e os filhos daqueles que enriqueceram com a crise) que só encontram empregos mal pagos e precários, os pensionistas que viram as suas magras pensões ainda mais reduzidas, os que viram a pobreza aumentar , esses portugueses, ainda segundo o presidente de alguns portugueses (os que enriqueceram com a crise, os banqueiros, os gestores de topo, os “catrogas” com reformas chorudas, os “barrosos”  da nossa política, os “camilos lourenços” do comentário político”, os “césares das neves” e os “cantigas” das universidades…), não têm razão para o pessimismo.

Antes pelo contrário, aqueles portugueses que andam a semear o pessimismo  com a sua miséria, são meros “profissionais da descrença e os profestas do miserabilismo”, palavras do presidente que mais responsabilidade teve nesse miserabilismo, primeiro o miserabilismo ético e moral como primeiro-ministro, depois o miserabilismo económico e social como mentor do governo mais miserabilista dos último cinquenta anos (nem o  Marcel Caetano foi tão longe).

Felizmente o mandato de Cavaco, o pior presidente desde Américo Thomaz, está a chegar ao fim. Mas ainda pode fazer muito estrago no escasso tempo que lhe resta para exercer o cargo e as ameaças já começaram, com avisos a qualquer tentativa para inverter a austeridade ou para um governo que recuse a “estabilidade” que ele preconiza, que é a de continuar essas políticas.

Miserabilista tem sido a postura deste presidente, aquele que mais tem feito para descreditar a politica portuguesa, colocando a democracia em risco, e para desacreditar a própria função que exerce (os monárquicos devem estar a rir-se, a bom rir, de tudo isto).

Foi ele que nos avisou : vamos estar atentos às últimas malfeitorias que Cavaco ainda pode fazer aos portugueses e ao país.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

O Caso BES - A "Família" e "Amigos" que paguem a crise...nós não pagamos!!!




O BES é chamado o Banco do regime.

O seu poder está ramificado, não só na vida  financeira e económica do país, mas também na vida política, empregando gente mais ou menos conhecida do “centrão” e que teve responsabilidades políticas em vários governos. Os favores desta gente contribuíram para a afirmação do banco.

Ao mesmo tempo gente do BES e das empresas “satélite”, familiares e gestores, construíram uma rede de amizades pessoais e ligações familiares junto, não só de sectores da vida política, mas também junto da comunicação social e de alguns conhecidos opinion makers, que assim cumprem o papel de desviar a atenção da opinião pública, nem que seja pelo mero silêncio, dos verdadeiros responsáveis da nossa crise, tentando passar a mensagem dos portugueses que viviam “acima das suas possibilidades” , ou atirando para os direitos sociais, para os trabalhadores em geral e os funcionários públicos em particular , os reformados e trabalhadores, o ónus da crise que o sistema financeiro provocou.

Defensores das “reformas estruturais”, isto é, desvalorização salarial, aumento dos impostos sobre quem trabalha, redução das direitos laborais, distrairam as atenções da opinião pública das verdadeira reformas que era necessário fazer no sistema financeiro, continuando este, e os seus executantes, a gozar de todo o tipo de privilégios e de lucros das negociatas que continuaram a fazer à sombra do tal Estado que tanto dizem odiar.

Só que algo correu mal. Zangaram-se as comadres e descobriram-se as verdades e agora pretendem que, mais uma vez, sejam os contribuintes a salvar o corrupto sistema financeiro que está por detrás desta crise e da austeridade que todos sofremos.

É tempo de,por esta vez, serem eles a pagar, do seu bolso, a crise e, enquanto a família Espírito Santo e os seus capatazes (na administração e nos favores políticos) tiverem património, é com este que devem pagar os desvarios, não é o “Estado”, isto é, os contribuintes e os trabalhadores, com os seus impostos e mais austeridade.

Claro que, se não sobrar nada no fim, o Estado pode garantir a sobrevivência dessa gente: através do RSI’s para os que ainda não têm idade para a reforma, e de uma pensão mínima de sobrevivência para os maiores de 66 anos…

Entretanto aqui ficam dois textos que nos contam a história deste Banco e das suas ligações ao regime democrático, nos últimos anos e nas últimas semanas:

A HISTÓRIA RECENTE DE UM BANCO QUE (AINDA) MANDA EM PORTUGAL:

“(…) O maior accionista individual do BES é hoje [2010] Maria do Carmo Moniz Galvão Espírito Santo, a viúva de Manuel Ricardo Espírito Santo Silva, que presidiu ao BES no período de 1974 a 1991. É bisneta de Henrique Francisco Luís de Sommer (tal como António Champalimaud) e de José Maria do Espírito Santo Silva, o fundador do banco.

“O seu pai, Fernando Moniz Galvão, era simultaneamente administrador do BES e director do Banco Comercial de Lisboa, e conduziu a integração deste banco no grupo Espírito Santo, em 1937. Maria do Carmo tem dois filhos: um administra a Santogal (comércio de automóveis, factura 450 milhões por ano), o outro é presidente da ES Maria do Carmo Moniz Galvão Resources (1000 milhões por ano). As suas duas filhas, na tradição familiar que ela própria seguiu, herdam mas não dirigem.

“Na ditadura e depois na democracia, a genealogia dos Espírito Santo manteve sempre o mote que Ricardo Salgado anuncia em 2010: o BES é «um banco de todos os regimes» (DN, 12.04.2010). É mesmo: durante 140 anos, sobreviveu a muitos governantes e de todos obteve vantagens. Assim, o grupo BES detém hoje o banco, mas também participações financeiras importantes em mais de quatrocentas empresas, algumas estratégicas, como a PT. Está em mais de vinte países e «teve uma palavra a dizer em todos os negócios do país na última década, ao ponto de se poder dizer que a sua esfera de influência é hoje maior do que no tempo do Estado Novo», conclui uma investigação recente acerca do grupo (P, 08.03.2010). Representa mais de 5% do PIB, emprega vinte mil trabalhadores e organiza-se através de uma complexa rede empresarial, com duas holdings financeiras com sede na Suíça e no Luxemburgo, dois paraísos fiscais. A Escom, que actua nos petróleos e noutros negócios, tem sede nas Ilhas Virgens, outro paraíso fiscal - a empresa tem sido investigada em diversos casos, como o da Herdade da Vargem Seca, por tráfico de influências e financiamento ilegal do CDS, e por corrupção ou pagamento de comissões injustificadas nos contratos dos submarinos, entre outros (ibid.). O BES foi ainda o centro das investigações da Operação Furacão, que investiga fraudes fiscais.

"Em Portugal, Espanha (o juiz Baltazar Garzon ordenou buscas na sede do BES em Madrid), Brasil (ao caso «mensalão», compra de votos no parlamento) e Estados Unidos (o dinheiro de Pinochet), tem sido objecto de investigações judiciais (ibid.).

"O seu poder político é imenso: pelos seus quadros passaram ou colaboraram personalidades como Manuel Pinho, ex-ministro do PS, Ângelo Correia, ex-ministro do PSD, Durão Barroso, ex-primeiro-ministro e presidente da Comissão Europeia, António Mexia, ex-ministro do PSD.

"Freitas do Amaral, fundador do CDS e ex-ministro de vários governos, foi o presidente da Petrocontrol, a holding de diversos interesses na GALP, em que ressaltava o BES. A sua participação na empresa acabou por ser vendida à italiana ENI e à Iberdrola, por pressão do ministro Pina Moura, que mais tarde seria o presidente da Iberdrola em Portugal. Por acção do mesmo ministro, as mais-valias da venda das acções da Petrocontrol foram isentas de imposto (ibid.). Ângelo Correia, agora eminência parda do PSD, liderou o consórcio que incluía o BES, a Fomentinvest (5) e a Carlyle, o fundo especulativo dirigido por Frank Carlucci, ex-embaixador dos EUA em Lisboa e ex-director da CIA, e que concorreu à compra de parte da GALP, tendo sido derrotado (6).

"Pelo BES passaram ainda Nuno Vasconcelos e Rafael Mora, promotores do movimento Compromisso Portugal e dirigentes da Ongoing, que comprou parte da PT por 700 milhões de euros, financiados pelo banco de Ricardo Salgado e pelo BCP. O BES reforçou depois o seu investimento na empresa, através de aplicações de clientes. A Ongoing foi candidata à compra da TVI, mas falhou o negócio”.

“ (5) A Fomentinvest é dominada por Ângelo Correia, mas o BES tem 15% do capital. Pedro Passos Coelho fez a sua carreira profissional nesta empresa, sob a tutela de Ângelo Correia (P., 08.03.2010).

“(6) Devido a notícias publicadas no Expresso sobre este negócio, o BES decidiu retirar a publicidade nesse semanário e em todo o seu grupo”.

In “Os Donos de Portugal - Cem anos de poder económico (1910-2010)”, ed. Afrontamento 2010, pp 287 e 288.

….E A HISTÒRIA DOS ÚLTIMOS DIAS:

“Salvem o BES e deixem cair a família.

Por Pedro Sousa Carvalho, jornalista do Público, 11 de Julho de 2014

“O BES é um banco too big tofail Mas a família não. Há quem fale numa relação incestuosa a nível das holdings.

“É verde, viscoso e propagasse a uma velocidade estonteante. Quem entrar em contacto com o vírus do BES começa a sentir vertigens e arrisca-se a uma queda valente. 0 trambolhão do BES, que ontem chegou a cair mais de 18%, foi tal que o regulador teve de suspender a negociação das acções, colocando o banco numa espécie de quarentena para não infectar as restantes empresas da bolsa.

“O regulador tentou evitar o contágio, mas o pânico rapidamente se instalou nos mercados. A Portugal Telecom, já bastante infectada por ter estado em contada directo com o BES, afundou-se mais 7%, a banca foi toda atrás e nenhuma das empresas do PSI 20 saiu ilesa. Numa questão de segundos o que valia muito passou a valer pouco e o que valia pouco passou a não valer nada.

“Os juros da divida pública dispararam e tiveram a maior subida desde a crise política de 2013, quando Portas apresentou a demissão “irrevogável”.

“A crise no BES saltou fronteiras e fez mossa por esse mundo fora. Portugal voltou a ser manchete em todos os jornais internacionais. “Global markets tumble amid fears over portuguese lender”, escrevia ontem o The Wall Street Journal para nos contar que o vírus do BES já tinha contagiado as bolsas europeias e nos EUA. O espanhol Banco Popular cancelou uma venda de dívida convertível, o grupo farmacêutico italiano Rottapharm abortou um IPO e na Grécia o Governo reduziu uma colocação de dívida pública por falta de procura.

“O Espírito Santo não é um banco too big to fail a nível europeu. Mas a Lehman Brothers também não o era quando faliu. Pela reacção ontem dos mercados é fácil perceber que existe um risco sistémico, caso o BES vá ao charco. O assunto é particularmente sensível nesta altura em que bancos europeus estão todos a tentar alindar os balanços para realizarem os testes de stress do BCE.

“0 Banco Espírito Santo tem nesta altura dois problemas: um de liderança e outro de contabilidade. O problema de liderança já foi aparentemente resolvido pelo Banco de Portugal, que tratou de afastar Ricardo Salgado e toda a família da gestão executiva do banco. Não se sabe se por falta de competência, de idoneidade ou de honestidade. Nunca o disse. Carlos Costa limitou-se a abrir uma porta para que Ricardo Salgado e Companhia saíssem com alguma dignidade. E nem isso conseguiram.

“Resta um problema de contabilidade. É verdade que os rácios de capital do banco são sólidos. Mas o problema do BES resulta de uma intrincada teia de holdings: a ES Control, o quartel- general da família, detém 56,5% da ES International, que. por sua vez, é dona de 100% da Rioforte, que, por seu lado, controla 49% da ESFG, que é o maior accionista do BES, com 25% do capital. Estas empresas da família têm todas relações entre si, emprestam dinheiro e compram coisas umas às outras numa relação que ontem um colunista do Financial Times qualificava de “terrivelmente incestuosa”.

“É uma espécie de matrioska financeira. E no final há uma boneca pequenina que está falida. Aliás, uma das justificações dada pela Moody’s para baixar o rating da ESFG é precisamente a “falta de transparência em tomo não só da situação financeira do Grupo Espírito Santo, mas também da amplitude das ligações intragrupo”.

“O problema é que ao final do dia não se percebe até que ponto o banco está ou não refém dessa cascata de holdings. E aí é que o mercado começa a desconfiar. Se as holdings falirem, o problema é da família, azar o deles. Mas se as holdings contagiarem o banco, o problema já é de todos nós.

“O que se sabe até agora é que o BES emprestou 200 milhões à Rioforte e outros 780 milhões à ESFG. É muito dinheiro e aí o problema não é tanto de quem pede emprestado, mas de quem emprestou. Como dizia o magnata americano Jean Paul Getty: “Se deves 100 dólares ao banco, o problema é teu. Mas se deves 100 milhões, o problema já é do banco”. Apesar de tudo, mil milhões de euros de perdas o BES terá com certeza estofo para aguentar em caso de default das holdings. 0 problema é que, além dos empréstimos os clientes de retalho do BES têm uma exposição às holdings da familia que chega aos 651 milhões; e a exposição dos clientes institucionais do banco às empresas do grupo é de 1,94 mil milhões. Em caso de incumprimento, quem vai responder por esta dívida que não é do BES, mas que o banco vendeu nos seus balcões? Há aqui enorme risco, nem que seja jurídico, qui banco tem de explicar.

“Mas nem o Banco de Portugal, nem BCE, nem o Governo vão deixar cair o banco, as holdings da família estão falidas e não têm dinheiro para pagar o que o banco e clientes lhes emprestaram, o Estado deve simplesmente obrigar a família a vender posição de 25% que detém no BES e usar o dinheiro para saldar pelo menos parte do que devem. Isto, partindo do princípio que os 25% ainda não estão hipotecados a servir de colateral a algum empréstimo. Com novos accionistas, fazia-se um rebranding, até porque hoje em dia o maior  passivo do BES é reputacional; é o nome da família “Espírito Santo”, que carrega a marca. E se a família recusar sair do BES o Estado tem sempre a bomba atómica de nacionalizar o banco. E aí não há nenhum vírus que sobreviva”.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

No dia em que o futebol morreu e nasceu a máquina de fazer golos


Ontem foi um dia triste par o futebol.

Aquele futebol descontraído, alegre, travesso, criativo, capas de nos surpreender, morreu para sempre.

A derrota humilhante do Brasil frente à Alemanha marcou o fim de uma era em que o futebol se jogava com arte, com rasgos geniais, com heróis, com rapidez e sempre espectacular.

A táctica da selecção alemã deste mundial ( a mesma do seu “satélite” holandês) que tinha sido derrotada no anterior mundial, conseguiu afirmar-se desta vez.

E qual é essa táctica? É a táctica do Blitzkrieg (“guerra relâmpago) da Wehrmacht no ataque, combinada com a táctica do muro de Berlim na defesa, desorientando e paralisando qualquer equipa adversária.

Funcionando como uma autêntica “máquina de fazer golos”, só pode resultar com a frieza quase desumana de jogadores possantes e agressivos, que se comportam como se vivessem em regime militarista, o ideal do espírito alemão, na guerra ou na economia.

Começa assim uma nova era do futebol e, o surpreendente agora, seria a Argentina vencer uma equipa que joga como a Alemanha, a Holanda, e derrotar depois a Alemanha, um cenário que me parece pouco credível.

A frieza e o calculismo alemão já destruíram o interesse por outros desportos, como a Fórmula 1, e, sendo eficaz para por a senhora Merkel aos pulos, vai contribuir para fazer do futebol um desporto cada vez mais chato e previsível.

Que o futebol que conheci, alegre, criativo e travesso, descanse em paz!!

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Apesar do Passos Coelho...ainda há gente de bem no PSD : carta de um militante do PSD ao presidente da JSD ( a propósito do referendo sobre a a co-adopção):


Carta aberta ao presidente da JSD e seus compagnons de route

por Carlos Reis dos Santos
Jurista, militante do PSD n.º 10757 e militante honorário da JSD

 in  Público de 18/01/2014

“Hesitei em decidir a quem me dirigir: não sei quem hoje é o mandante da JSD, nem a quem prestam vassalagem. Assim, terei de me dirigir ao presidente formal da JSD – e a quem deu publicamente a cara por uma das maiores indignidades que se registaram na história parlamentar da República.

“Para vocês, que certamente não me conhecem, permitam-me que me apresente: sou militante do PSD, com o n.º 10757. Na JSD onde me filiei aos 16 anos, fui quase tudo: vice-presidente, director do gabinete de estudos, encabecei o conselho nacional, fui quem exerceu funções por mais tempo como presidente da distrital de Lisboa, fui dirigente académico na Faculdade de Direito de Lisboa, eleito com a bandeira da JSD, fui membro da comissão política nacional presidida por Pedro Passos Coelho, de quem, de resto, fui um leal colaborador. Quando saí da JSD, elegeram-me em congresso como vosso militante honorário.

“Por isso julgo dever dirigir-me a vocês, para vos dizer que a vossa actuação me cobre de vergonha. E que deslustra tudo o que eu, e tantos outros, fizemos no passado, para a emancipação cívica, económica, cultural e política, da juventude e da sociedade.

“Com a vossa proposta de um referendo sobre a co-adopção e a adopção de crianças por casais de pessoas do mesmo sexo, vocês desceram a um nível inimaginável, ao sujeitarem a plebiscito o exercício de direitos humanos. A democracia não deve referendar direitos humanos de minorias, porque esta não se pode confundir com o absolutismo das maiorias. Porque a linha que separa a democracia do totalitarismo é ténue – é por isso que a democracia não dispensa a mediação dos seus representantes – e é por isso que historicamente as leis que garantem direitos, liberdade e garantias andam à frente da sociedade. Foi assim com a abolição da escravatura, com o direito de voto das mulheres, com a instituição do casamento civil, com a autorização dos casamentos inter-raciais, com o instituto jurídico do divórcio, com o alargamento de celebração de contratos de casamento entre pessoas do mesmo sexo. Estes direitos talvez ainda hoje não existissem se sobre eles tivessem sido feitos plebiscitos.

“Abstenho-me de fundamentar aqui a ilegalidade do procedimento que se propõem levar avante: a violação da lei orgânica do referendo é grosseira e evidente – misturaram numa mesma proposta de referendo duas matérias diferentes e nem sequer conexas. Porque adopção e co-adopção são matérias que vocês pretendem imoralmente enfiar no mesmo saco.

“Em matéria de co-adopção vocês ignoram ostensivamente o superior interesse das crianças já criadas em famílias já existentes e a quem hoje falta a devida segurança jurídica e protecção legal. Ao invés, vocês querem que os seus direitos sejam referendáveis. Confesso que me sinto embaraçado e transido de vergonha pela vossa atitude: dispostos a atropelarem o direito de umas poucas crianças e dos seus pais e mães, desprotegidos, e em minoria, em nome de uma manobra política. E isto é uma vergonha.

“Mas é também com estupefacção que vejo a actual JSD tornar-se numa coisa que nunca foi – uma organização conservadora, reaccionária e atávica. Vocês empurram, com enorme desgosto meu, a JSD para uma fronteira ideológica em contradição com a nossa História e ao arrepio do nosso património de ideias e valores: o humanismo em matéria de liberdades individuais sempre foi nossa trave mestra. O que vocês propõem é uma inversão de rumo: conservadores na vida familiar mas liberais na economia. Eu e alguns preferimos o contrário. Porque o PSD, em que nos revimos, sempre foi o partido mais liberal em matéria de costumes e em matérias de consciência.

“Registo, indignado, o vosso silêncio cúmplice perante questões sacrificiais para a juventude portuguesa. Não vos vejo lutar contra o corporativismo crescente das ordens profissionais e a sua denegação do direito dos jovens a aceder às profissões que escolheram. Não vos vejo falar sobre a emigração maciça que nos assola. Não vos vejo preocupados com muitas outras questões.

“Mas vejo-vos a querer que eu decida o destino dos filhos dos outros.

“Na JSD em que eu militei sempre fomos generosos: queríamos mais direitos para todos. Propusemos, entre tantas coisas, a legalização do nudismo em Portugal, o fim do SMO, a despenalização do consumo das drogas leves, a emancipação dos jovens menores e o seu direito ao associativismo. Nunca nos passaria pela cabeça querer limitar direitos.

“Hoje vocês não se distinguem do CDS e alguns de vocês nem sequer se distinguem da Mocidade Portuguesa, ou melhor, distinguem-se, mas para pior.


“A juventude já vos não liga nenhuma. E eu também deixei de vos ligar”.