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quinta-feira, 7 de maio de 2020

COVID-19 – Outra maneira de olhar para os números (5ª Semana)


Voltamos hoje a fazer o balanço semanal da evolução do COVID-19 à escala mundial, com base na comparação da situação de um grupo de países.

Durante as primeiras 4 semanas (AQUI,  AQUI, AQUI e AQUI) comparámos um conjunto de 20 países, com base num critério já explicado na primeira dessas publicações.

A partir de hoje vamos passar a incluir mais um conjunto de 15 países, entre eles alguns do designados como “inteligentes” pelo governo chauvinista da Áustria, e que não estavam incluídos naqueles 20 (como a Austrália, a Nova Zelândia, Israel, República Checa, e Singapura), resolvendo incluir outros países que, só por razões políticas ou de puro racismo não foram incluídos naquela classificação abusiva (Islândia, Canadá, Japão, África do Sul, Palestina, Cuba e Noruega).

Aproveitámos essa renovação para passarmos a incluir países que, pela sua dimensão, ou por mera curiosidade, podem enriquecer aquela informação (Turquia, Rússia e Índia).

Esta semana ainda não é possível fazer as comparações que temos feito, com o total de 35 países agora incluídos, num dos critérios de comparação, pois não recolhemos dados nas semana anterior para esses novos 15 países.

A inclusão desses países ditos “inteligentes” vai permitir acabar ou confirmar esse mito de superioridade, embora alguns casos só se venham a revelar falaciosos com o evoluir das semanas, tal como já aconteceu com outros mitos anteriores, como foram os “casos” holandês, sueco e mesmo o finlandês.

Tal como nas semanas anteriores, começamos com a publicação do último número de mortos registados pela OMS com a data de hoje (7 de Maio), embora alguns casos possam ser reportados às 24 horas anteriores:

TOTAL DE FALECIDOS A NÍVEL MUNDIAL – 251 446;

Lista decrescente do nº de Mortos entre os 35 países escolhidos:

ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA – 65 197 mortos por COVID-19;
REINO UNIDO – 29 427;
ITÁLIA – 29 315;
FRANÇA – 25 491;
ESPANHA – 25 329;
BÉLGICA – 8 016;
BRASIL – 7 921;
ALEMANHA – 6 996;
IRÃO – 6 418;
HOLANDA – 5 168;
CHINA – 4 643;
CANADÁ – 4 111;
TURQUIA – 3 520;
SUÉCIA – 2 854;
ÍNDIA – 1 694;
RÚSSIA – 1 537;
SUIÇA – 1 482;
IRLANDA – 1 339;

MÉDIA MUNDIAL – (TOTAL MUNDIAL a DIVIDIR POR 195 países) – 1 304;

PORTUGAL – 1 074;
ÁUSTRIA – 606;
JAPÃO – 551;
DINAMARCA – 503;
REPÚBLICA CHECA – 257;
COREIA DO SUL – 256;
FINLÂNDIA – 246;
ISRAEL – 237;
NORUEGA – 209;
ÁFRICA DO SUL – 153;
GRÉCIA – 146;
AUSTRÁLIA – 97;
CUBA – 69;
NOVA ZELÂNDIA – 21;
SINGAPURA – 20;
ISLÂNDIA – 10;
PALESTINA – 4.

A maior alteração em relação à semana anterior é a subida do Reino Unido a segundo país com maior número e mortos.

Registe-se também a passagem, a nível mundial, da barreira dos 250 mil mortos, ultrapassando significativamente o número de mortos de outra das maiores tragédias deste século, o tsunami de 26 de Dezembro de 2004, no Índico, com a diferença que a epidemia levou cerca de 4 meses a atingir esse número à escala mundial, enquanto aquela tragédia aconteceu num só dia, em poucos minutos e numa área geográfica reduzida.

Pela primeira vez incluímos a média por país à escala global, sendo significativa a situação de países geralmente apontados como “exemplo”, a Alemanha, a Suécia e a Holanda, que ultrapassam largamente aquele limite, enquanto Portugal está pouco abaixo daquela média.

Percebe-se um pouco do critério usado para a escolha dos países “inteligentes” pela Áustria, mas o critério esbarra numa análise mais fina. Como se justifica o convite à Alemanha (que o recusou) ou  o facto de não se ter alargado o convite a países como Portugal, Japão, Coreia do Sul, Finlândia, Noruega ou África do Sul?

Mais escandalosa ainda é a preferência de Israel para ser incluído nesse grupo de “governos superiores” em detrimento da Palestina. A Palestina, apesar de todos os boicotes israelitas e das dificuldades económicas, consegue um do números mais reduzidos de mortos a nível mundial, diferença ainda mais gritante se comparada com a situação de Israel.

Contudo, os números em bruto dos mortos por COVID-19 pode distorcer a realidade, pois não tem em conta a dimensão, demográfica e geográfica de cada país, assim como a relação com o número de infectados.

Mas antes de passarmos à análise desses dois critérios mais esclarecedores, vamos observar a evolução da última semana, análise que esta semana só é possível fazer com os 20 países que inicialmente escolhemos para esta comparação, já que não pudemos recolher atempadamente os dados dos novos 15 países incluídos para elaborar esta relação:

AUMENTO PERCENTUAL DO Nº DE MORTOS REGISTADOS ENTRE O DIA 30 de ABRIL E O DIA 7 DE MAIO (por ordem decrescente):

BRASIL – aumento de 57,88% de mortes em relação aos nº total registado na semana anterior;
REINO UNIDO – 35,74%;
ESTADOS UNIDOS – 24,35%;
FINLÂNDIA – 23,61%;
SUÉCIA – 21,18%;

NO MUNDO – 19,15%;

DINAMARCA – 15,89%;
IRLANDA – 15,53%;
ALEMANHA – 14,49%;
PORTUGAL – 13,29%;
HOLANDA – 13,18%;
BÉLGICA – 9,34%;
FRANÇA – 7,88%;
IRÃO – 7,73%;
SUIÇA – 7,46%;
GRÉCIA – 7,35%;
ITÁLIA – 7,14%;
AUSTRIA – 6,50%;
ESPANHA – 6,32%;
COREIA DO SUL – 3,64%;
CHINA – 0%.

No geral, em relação à semana anterior, regista-se um abrandamento na velocidade de propagação.

Contudo ainda existem alguns casos preocupantes, como o Brasil, o Reino Unido e os Estados Unidos.

Pode-se afirmar que os que evoluem a uma velocidade  maior que a média mundial, continuam perigosamente “destravados”.

São de registar os casos da Finlândia e da Suécia que continuam a crescer acima da média, apesar da Finlândia, que está neste grupo há três semanas, continue a partir de uma base reduzida de casos.

É animador o aumento de países com um crescimento semanal inferior a 10%, especialmente o caso de países que registaram uma grande mortalidade.

A situação em Portugal também regista um abrandamento significativo, de um aumento semanal de 20,79% na semana anterior, então ligeiramente acima da média mundial, desceu para os 13,29%.

Uma outra forma de olhar para os números é a percentagem de mortalidade entre os infectados, um valor que pode ser interpretado como uma maior ou menor resiliência do Sistema de Saúde, mas que também pode ser condicionado pela existência de uma população mais ou menos envelhecida:

Percentagem de Mortos em Relação ao número de Infectados registados:

FRANÇA – 19,41%;
BÉLGICA – 15,87%;
REINO UNIDO – 15,09%;
ITÁLIA – 13,76%;
HOLANDA – 12,57%;
SUÉCIA – 12,29%;
ESPANHA – 11,54%;

MÉDIA MUNDIAL – 6,91%;

BRASIL – 6,90%;
CANADÁ – 6,58%;
IRÃO – 6,31%;
IRLANDA – 6,09%;
GRÉCIA – 5,52%;
CHINA – 5,5%;
ESTADOS UNIDOS – 5,46%;
DINAMARCA – 5,12%;
SUIÇA – 4,95%;
FINLÂNDIA – 4,54%;
ALEMANHA – 4,24%;
PORTUGAL – 4,17%;
CUBA – 4,05%;
AUSTRIA – 3,88%;
JAPÃO – 3,56%;
ÍNDIA – 3,42%;
REPÚBLICA CHECA – 3,25%;
TURQUIA – 2,71%;
NORUEGA – 2,64%;
COREIA DO SUL – 2,36%;
ÁFRICA DO SUL – 1,95%;
NOVA ZELÂNDIA – 1,84%;
ISRAEL – 1,45%;
AUSTRÁLIA – 1,41%;
RÚSSIA – 0,92%;
PALESTINA – 0,73%;
ISLÂNDIA – 0,55%;
SINGAPURA – 0,09%.

De notar a posição de Portugal, melhor colocado que alguns dos  proclamados “inteligentes”, como a Grécia, a Dinamarca e a Alemanha, estando muito próximo da Áustria e da República Checa.

Ainda menos se percebe aquela abusiva classificação se olharmos para os dados de países excluídos desse grupo, como a Noruega, a Coreia do Sul, a África do Sul, a Palestina e a Islândia.

Terminamos com a última lista elaborada com um outro critério, talvez o menos falível para aferir comparativamente da resiliência de cada país, onde se calcula o nº de mortos registados por cada 100 mil habitantes:

BÉLGICA – 69,97 mortos por cem mil habitantes;
ESPANHA – 54,19;
ITÁLIA – 48,54;
REINO UNIDO – 44,55;
FRANÇA – 38,05;
HOLANDA – 29,87;
SUÉCIA – 27,91;
IRLANDA – 27,56;
ESTADOS UNIDOS – 19,83;
SUIÇA – 17,38;
CANADÁ -  10,81;
PORTUGAL – 10,43;
DINAMARCA – 8,66;
ALEMANHA – 8,43;
IRÃO – 7,80;
ÁUSTRIA – 6,83;
FINLÂNDIA – 4,55;
TURQUIA – 4,23;
NORUEGA – 3,89;
BRASIL – 3,76;

MUNDO – 3,26;

ISLÂNDIA – 2,73;
ISRAEL – 2,57;
REPÚBLICA CHECA – 2,40;
GRÉCIA – 1,35;
RÚSSIA – 1,04;
CUBA – 0,61;
COREIA DO SUL – 0,49;
JAPÃO – 0,43;
NOVA ZELÂNDIA – 0,42;
AUSTRÁLIA – 0,37;
SINGAPURA – 0,35;
CHINA – 0,33;
ÁFRICA DO SUL – 0,26;
ÍNDIA – 0,12;
PALESTINA – 0,08.

Este quadro revela que se pode considera positivo um país que registe uma média de menos de 3 mortos por 100 mil habitantes e razoável uma relação de 5 por cem mil.

A situação pode ser preocupante ou mesmo desastrosa quando essa relação ultrapassa os 15 caso por cem mil.

De qualquer modo, este critério de análise também não parece explicar a tal designação de “inteligentes” para uns e ignorar outros com resultados idênticos.

Existe ainda uma situação algo incongruente com a realidade, o caso do Brasil, beneficiando da sua grande dimensão para disfarçar a gravidade da situação desse país.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Da Vida e Da Morte...

Anda muita gente a deixar esta vida e os que eu conheço não mereciam.

Desculpem, mas tenho andado um pouco a pensar nesse tema triste, pouco adequado para a quadra natalícia.

Há três anos que o tema não me sai da cabeça. Tive-a à frente de mim. Fui dos sortudos, até agora, mas passei a viver um dia de cada vez, como se fosse o primeiro. Deixei também de ter medo do futuro ou de dizer o que penso.

Há mais de um mês que investigo uns documentos que também não ajudam muito.

Tenho andado a consultar os livros de óbitos do concelho de Torres Vedras de 1918, para estudar os efeitos da pneumónica na sociedade torriense daquele tempo.

Os registos dos meses de Outubro e Novembro desse ano são aterradores. Morria-se às centenas, famílias inteiras, aldeias inteiras.

Pior que tudo eram as idades dos atingidos pela doença, a maior parte os jovens na flor da idade, entre os 15 e os 35 anos.

O terror e a dor deviam ser imensos, com a falta de informação, a ignorância e as condições de vida então existentes, e aquilo que não parava, dias e dias seguidos.

O alívio que senti quando, chegado aos registos de Dezembro, a pneumónica parou de repente. A mortalidade voltou quase ao “normal” ( um mortalidade infantil elevadíssima). Mas então, ao longo de 1919, deparei-me com uma realidade mais silenciosa, um surto de varíola que foi dizimando, lentamente, ao longo de todo o ano, os recém-nascidos, muitos deles órfãos dos mortos da pneumónica.

A morte era então uma presença bem mais avassaladora. A sua “naturalidade” deve ter levado muitos à beira do desespero, outros ao conformismo perante ela.

Não tenho medo da morte, mas comecei a ver a luz do sol, o frio da noite e os pingos de chuva com outra atenção e cheguei à conclusão que ainda quero viver muito tempo e que gostava que aqueles de quem eu gosto ou com quem simplesmente me cruzo, e que partilham comigo vários espaços , pudessem sentir o sol, o vento e a chuva até à exaustão.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Maria 'Coveira' enterra os mortos como há meio século - Portugal - DN


Esteve para ser a minha primeira profissão.
Aí nos idos de 70 precisava de trabalhar para poder sustentar os estudos, pois o meu pai tinha falecido há pouco, e uma pessoa amiga, que trabalhava na Câmara de Lisboa, sugeriu-me que concorrese a um concurso que ía abrir ara coveiro. Era uma porta aberta para depois poder concorrer em concursos internos para outras funções mais adequadas às minhas habilitações. Mas o problema foi exactamente este...tinha habilitações a mais para coveiro...e não fui aceite...

ANTES A SORTE QUE TAL MORTE....

"Dar Vida aos Mortos"…

É isso que tenho andado a “fazer” nos últimos tempos.

Não, não, não me converti ao sobrenatural.

Passo a explicar-me:

Todos os anos costumo preparar uma comunicação sobre Torres Vedras para apresentar nos encontros Turres Veteras, este ano dedicado ao tema da Doença na História.

Pela primeira vez, em cerca de dez anos, julgava que não tinha nada para explorar sobre esse tema.

Pensei, contudo, num assunto que já tinha abordado ao de leve, o da Pneumónica de 1918 e o seu impacto em Torres Vedras.

É isso que tenho andado a fazer no pouco tempo livre que me sobra: consultar os registos de óbitos da Conservatória do Registo Civil de Torres Vedras, onde fui muito bem recebido pelos seus responsáveis e funcionários.

Desde logo me alertaram para o facto de os registos de óbitos de 1918 serem os maiores de toda a documentação aí existente.

Para 1918 existem 5 livros de registos.

Já consegui ver…o primeiro.

Só a título de curiosidade, este primeiro livro regista todos os óbitos dos seis primeiros meses do ano, o que dá bem a dimensão da tragédia que se abateu sobre o país e este concelho no final desse ano, pois os restantes quatro livros reportam-se ao segundo semestre.

Mas confesso que me custou um pouco a entrar na recolha de dados a partir desses livros.

É diferente lidar com a frieza das estatísticas de “encararmos” com “pessoas” concretas, devidamente identificadas.

Em cada nome adivinhamos um drama pessoal, muitas vezes uma história de vida que se adivinha pesada e complicada.

Ainda não cheguei ao período que me interessa, o da pneumónica, que atingiu a região com grande força em finais de Outubro e se prolongou pelo mês de Novembro de 1918, nem comecei a trabalhar estatisticamente esses dados, mas já dá para perceber algumas evidências sobre o modo como se morria nessa época, umas esperadas, outras nem tanto.

Confirma-se que todos morriam em casa, alguns na rua ou no campo, ou porque a morte vinha de repente ou porque “não tinham onde cair mortos”.

Apesar de se saber que existia uma alta taxa de mortalidade infantil, é impressionante quando a confirmamos nos registos. Ainda não fiz as contas, mas penso que não erro se disser que quase metade das mortes registadas são de menores de idade, muitos registados com dias, horas, ou mesmo minutos de vida, muitos como “nados-mortos” …muitos “nados mortos”! Entre estes alguns registados sem nome, porque não se conhecia pai ou mãe, o que prefigura o simples abandono dos recém-nascidos, adivinhando-se os muitos dramas pessoais por detrás desta situação.

É igualmente raro o registo de mortos de sexo masculino com mais de sessenta e cinco anos, o que revela alguma coisa sobre a baixa esperança de vida, em especial entre os homens.

A diferença entre a mortalidade masculina e a feminina a partir dessa idade é igualmente evidenciada pela forma diferente como dois Asilos, fundados na República, o Asilo Elias Garcia no antigo Convento do Barro, para homens, e o Asilo Latino Coelho, no Convento do Varatojo, para mulheres, contribuem para os registos de mortalidade, muito mais frequente no primeiro que no segundo caso.

Todas as mulheres registadas eram “domésticas”. Só algumas não o eram por serem mendigas ou indigentes, situação frequente quando se enviuvava.

Os homens, mesmo os raros casos dos que morriam com 80 ou 90 anos, morriam a trabalhar, ou então como asilados ou mendigos. Só registei até agora um reformado, um professor aposentado.

Este é o padrão quando as causas da mortalidade decorriam dentro da “normalidade” da época. Ainda não cheguei ao efeito da pneumónica, mas adivinho que rompeu com todo esse padrão.

Momentaneamente, ao abrir aquelas páginas, voltei a trazer “à vida” todos aqueles mortos de há quase cem anos…