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quinta-feira, 14 de março de 2019

O “Documento” de Macron sobre a Europa: uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma.



Só agora tive oportunidade de ler o tão badalado texto de Emmanuel Macron sobre o futuro da Europa, “Por um Renascimento Europeu”.

O que li não justifica o alarido à sua volta.

É um texto vazio, retórico, cheio de frases óbvias, sem uma única ideia nova para salvar  o trágico descalabro do projecto europeu.

Baseia-se em três temas fundamentais: Liberdade, Protecção e Progresso.

Em relação à liberdade meia dúzia de frases feitas, que ficam sempre bem em qualquer discurso bonapartista, culpando as “potências estrangeiras” (??)  e a internet pelo enfraquecimento da democracia na Europeia.

No capítulo da “protecção”, revela a mais abjecta cedência, embora de forma enviesada, ao discurso popular-nacionalista, enquanto, por outro lado, faz uma referência óbvia, mas inconsequente, ao dumping social que tem corroído o Estado Social europeu.

“Esquece-se” da responsabilidade que as chamadas “reformas estruturais”, por si defendidas em França, têm tido para a desprotecção do factor trabalho.

“Esquece-se” igualmente da cedência das instituições europeias ao sector financeiro, essa sim, a verdadeira causa pelo descrédito dos cidadãos europeus em relação às Instituições Europeia e que os têm atirado para os braços do nacional-populismo.

“Esquece-se” também de referir o papel dos paraísos fiscais no seio da União Europeia que estão na origem das crescentes desigualdades fiscais que beneficiam economicamente uns países em detrimento de outros, dentro da mesma comunidade e até da mesma zona monetária.

Por fim, quando fala do “Progresso”, apresenta as soluções óbvias, mas inconsequentes e cheia de frases retóricas que, espremidas, dão em nada.

Por exemplo, defendendo um “escudo social” que “garanta a mesma remuneração no mesmo local de trabalho e um salário mínimo europeu, adaptado a cada país”[sublinhado nosso], tem a preocupação de, ao contrário do que faz no resto do texto, pormenorizar que o mesmo salário não é extensível para todo a Europa e para o mesmo trabalho, mas apenas para o “mesmo local”, o que é bem diferente, o mesmo fazendo em relação ao salário mínimo, diferenciando para “cada país”.

Ora, o que seria novo e admissível era que, pelo menos nos países com a mesma moeda, que estão obrigados às mesmas regras financeiras e ao controle das “troikas”, o salário devia ser igual em toda a zona euro para a mesma actividade.

Tanta preocupação em limitar essa aparente “boa” idéia revela que é incapaz de questionar uma das causas do descrédito do actual projecto europeu que é a diferença de tratamento nos direitos sociais entre vários países, beneficiando sempre os mesmos países(Alemanha e…França) e os mesmos sectores sociais (grandes fortunas e sector financeiro e detrimento dos trabalhadores e reformados).

O resto é uma meia dúzia de verdades óbvias sobre o ambiente e a economia digital, que ficam sempre bem, mas suficientemente  vagas para não tocar nos verdadeiros interesses que beneficiam do descalabro ambiental (começando pelas opções energéticas francesas…) e da economia digital (que pode destruir empregos e desvalorizar o factor trabalho, “coisas” que pouco preocupam Macron).

Enfim, se é com este programa e este discurso que os “salvadores” do projecto Europeu contam para “renovar” a Europa e entusiasmar os cidadãos europeus pela sua construção, afastando-os dos braços do nacional-populismo que corrói esse projecto, é de temer o pior cenário.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Dijsselbloem em cartoon´s - uma figura que só deixa saudades aos cartoonistas

O Homem que liderou de forma desastrosa o Eurogrupo, tendo contribuído para aumentar as divisões e as desigualdades entre os Europeus, vai finalmente sair de cena no próximo dia 13 de Janeiro.

Os holandeses já correram com esse racista  há muito tempo.

Por cá não deixa saudades e representou o pior que existe entre os burocratas de Bruxelas.

É caso para dizer..."adeus, até nunca mais".

Aqui se recorda a sua "acção", que quase conduziu à destruição do euro e da Europa e que tanto sofrimento causou em Portugal , numa recolha de cartoon´s, que retratam bem essa tenebrosa figurinha: 

quarta-feira, 22 de março de 2017

O sr Djisselbloem coloca mais um prego no "caixão" da União Europeia



Djisselbloem, o “credível” líder do Eurogrupo, (titular de um mestrado inventado…), o “lulu” de Wolfgang Schäuble, que levou o seu partido a uma humilhante derrota eleitoral, continua a contribuir para a subida eleitoral da extrema-direita euroceptica.

Metaforicamente ou não, de forma boçal ou mais velada, não duvido, seguindo a sua actuação ao longo do tempo como líder do Eurogrupo, que o sr. Djsselbloem pensa mesmo que os países do sul andam a desbaratar o dinheiro que ele nos “deu” (???) em mulheres e vinho.

Contudo, já há quem ande por aí a desvalorizar as hipotéticas palavra do arrogante Djisselbloem, comoo site “Os Truques da Imprensa Portuguesa” (ver em baixo o texto desse site).

Contudo . a interpretação algo rebuscada que aquele site faz das palavras daquela triste figurinha que lidera o Eurogrupo, não atenua nem um pouco a indignação que devemos sentir por aquelas palavras.

Apesar da tentativa esburacada de tentar branquear a costumada boçalidade de Djsselbloem, este estava mesmo a referir-se aos países do sul.

Mas até podia dar de barato a justificação que o site dá para o desvario do ainda Ministro das Finanças Holandês.

Mas foi o próprio Djsselbloem a lançar achas para a fogueira, na sua desastrosa intervenção no parlamento europeu.

A polémica não teria atingido a dimensão que está a tingir só  por causa do artigo, que até tinha passado quase despercebido do publico em geral, se não se tivesse registado a intervenção dessa triste figurinha, símbolo da actual elite política europeia, naquele parlamento.

Confrontado com esse artigo por um deputado espanhol, que interpretava aquela frase como uma acusação aos países do sul, a tal interpretação que o site “truques da imprensa…” contesta, o sr. Djsqualuquercoisa podia ter respondido com os argumentos do “truques…” e a coisa morria aí.

Mas não, ele, de uma forma talvez um pouco atabalhoada e confusa, talvez depois de uma noite de copos e “mulheres”, não só não desmentiu o deputado espanhol, como confirmou aquela interpretação.

Ou seja, pode ser verdade que no dito artigo o líder do Partido Trabalhista holandês humilhado nas últimas eleições nesse país, não tenha dito exactamente que os países do sul andaram a gastar dinheiro em bebidas e mulheres, mas acabou por confessar que era mesmo isso que pensava.

Isto é, o sr Djsselbloem, confrontado com uma interpretação que até podia ser abusiva sobre uma metáfora boçal e de mau gosto (como é seu timbre), em vez de explicar com argumentos idênticos aos usados por aquele site, reagiu como se pensasse : “boa idéia, era mesmo isso eu eu queria dizer e não o disse no artigo porque não me expressei abertamente”.

Pessoalmente não é esta polémica que altera o que penso, desde sempre, dessa figurinha. Um arrogante e boçal líder de uma instituição como o Eurogrupo, que tem agido de forma ilegítima,  e contribuído para  agravar a crise financeira na Europa, para destruir a solidariedade europeia e que todos os dias dá argumentos ao populismo euroceptico da extrema-direita.

Se esse senhor fosse um homem com ética, teria posto o seu lugar à disposição assim que foram conhecidos os resultados do seu partido nas eleições holandesas.

Por tudo o que fez nesse cargo e pela forma como continua agarrado ao cargo, para mim, como cidadão europeu que sempre votou e pagou os seus impostos e que sofreu na pela a austeridade mal conduzida por aquela instituição anti-democrática, as palavras de  Djsselbloem não têm qualquer valor e só continuam a arrastar o Eurogrupo para a total ilegitimidade e, o que é mais grave, a União Europeia para a desagregação.

Escreve esse site o seguinte:

“Não há nada que una mais um povo que ser insultado por estrangeiros. O português não é diferente e a imprensa sabe-o.

“Vem isto a propósito das declarações de Djisselbloem, presidente do Eurogrupo.

“Disse Djisselbloem (tradução do Público): “Na crise do euro os países do Norte mostraram solidariedade para com os países do Sul. Como social-democrata, a solidariedade é para mim extremamente importante. Mas quem a pede, tem também deveres. Não posso gastar o meu dinheiro todo em bebida e mulheres e depois disso ir pedir a vossa ajuda. Este princípio vale para o nível pessoal, local, nacional e também europeu”.

“Nos ecos desta frase (um pouco por toda a Europa), omite-se convenientemente, em muitos deles, a última frase. Para nós, faz toda a diferença.

“Vejamos: Djisselbloem estava a dar uma entrevista e tinha como tal um interlocutor direto. Deu-lhe um exemplo: não posso gastar O MEU dinheiro em bebida e mulheres e depois pedir a VOSSA ajuda. E indicou que este princípio governa (ou deve governar) não só as relações pessoais (como era o exemplo que ele estava a dar) mas todas as outras.

“É claríssimo, com a citação completa, que Djisselbloem não acusou os países do sul de gastar dinheiro em mulheres e copos. Djisselbloem utilizou uma metáfora, que se aplica nas relações pessoais (e que cada um de nós a poderia ter dito e concordará com ela quando aplicada nesse tipo de relações pessoais).

“Foi, porventura, uma metáfora infeliz, por dever saber que a imprensa não perdoa. A metáfora de Djisselbloem depressa se transformou numa acusação literal: “Djisselbloem diz que os países do sul gastaram o dinheiro todo em bebida e mulheres”. De facto, quem é que não se insurge contra uma frase estúpida destas? Nem sequer faz sentido!

“Entretanto, a imprensa portuguesa já cita, alterando, uma nova frase: “Não SE PODE gastar em mulheres e álcool”. Ora, nesta formulação e sem a última frase, a ideia de que Djisselbloem estava a utilizar um exemplo (e não a acusar) desaparece por completo.

“Tivesse Djisselblom sido mais cauteloso e passasse a mesma mensagem com outra metáfora: “Não posso furar os pneus da minha bicicleta e depois pedir ajuda para a arranjar”. Já imaginaram os títulos? “Djisselbloem acusa os países do Sul de estragarem as suas bicicletas de propósito.” Hum, não ia soar bem.

“Aceita-se a crítica do que está por detrás das palavras de Djisselbloem: a ideia de que os países do Sul gastaram mais do que deviam, de que os países do Norte são uns coitados que nos sustentam. Essa ideia, muitas vezes apregoada, merece ser debatida, discutida e rebatida.

“Agora: Djisselbloem não acusou os países do sul de gastarem dinheiro em mulheres e copos. Simplesmente, não o fez. E a imprensa que nos vende isto sabe-o bem, mas assim vende mais”.
 

quinta-feira, 16 de março de 2017

O Eurogrupo "perde" as eleições na Holanda


São muitas as leituras que se podem fazer das eleições holandesas.
A maioria dos comentadores aponta apenas no sentido da “derrota” da extrema-direita.
Uma “derrota” que, bem analisada, não é assim tão evidente, já que o partido de extrema-direita foi o segundo partido mais votado e um dos que mais cresceu na Holanda, elegendo 20 deputados, mais cinco do que nas eleições anteriores.
Ou seja, os que se apresaram, com base em sondagens à boca da urna, em anunciar a “morte” da extrema direita, revelaram mais uma vez não perceber as raízes do populismo e arriscam-se a continuar a sofrer dissabores nas eleições que se seguem.
Mas a maior derrota foi a do Partido Trabalhista, ao qual pertence o arrogante líder do Eurogrupo, o até aqui ministro das finanças dos Países Baixos Jeroen Dijsselbloem.
De segunda maior força política na Holanda, o partido trabalhista holandês ficou em 7º lugar nas eleições, elegendo apenas 9 deputados, perdendo um total de 29 deputados.
Dijsselbloem é o rosto da austeridade que foi imposta aos holandeses nos últimos anos, mas é também o rosto do” austeritarismo” que marcou a acção ilegítima do eurogrupo contra os cidadãos europeus e um dos grandes responsáveis pelas divisões no seio da União Europeia que fomentaram o crescimento do populismo de extrema-direita.
Por isso, os verdadeiros derrotados nestas eleições forma os defensores da austeridade europeia, em especial o bando do Eurogrupo, derrota que não foi ainda mais marcante  porque a dispersão do eleitorado holandês disfarçou a queda também abrupta do partido conservador de Mark Rutte, que só ficou em primeiro, apesar de ter perdido 8 deputados, a segunda maior queda partidária destas eleições, graças a essa dispersão de deputados por 13 partidos.
O facto positivo foi a grande subida da “Esquerda Verde” que elegeu 15 deputados e a manutenção da grande votação no Partido Socialista, com 14 deputados.
Outro partido de Esquerda, o Partido pelos animais, elegeu 5 deputados, registando uma grande subida nas eleições.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Eurogrupo quer transferir activos gregos para banco de Schäuble e Gabriel


A notícia que transcrevemos em baixo já tem uns dias.

Essa notícia revela várias coisa:

-  por um lado,  a forma como as decisões europeias estão condicionadas pelos interesses privados dos burocratas que mandam nas instituições não democráticas, como o Eurogrupo, e estão dependentes do corrupto sistema financeiro europeu que os emprega;

- por outro,  a verdadeira natureza de personagens como os senhores Schäuber e Gabriel e a forma mafiosa como funciona o poder europeu;

- também a forma como actualmente a “democracia-cristã” e a “social-democracia” europeias são cada vez mais a duas faces da mesma moeda, e são coniventes com o corrupto poder financeiro europeu;

- por último, o pouco impacto que a notícia mereceu por cá dos comentadores televisivos do costume, é  revelador da “independência” desses propagandistas da austeridade.

Vamos então à notícia:

Eurogrupo quer transferir activos gregos para banco de Schäuble e Gabriel

Por FILIPE PAIVA CARDOSO, jornal “I” de 12/07/2015 .

A instituição independente no Luxemburgo para onde o Eurogrupo propõe transferir 50 mil milhões em activos gregos é gerida pelo KfW, banco estatal alemão, cujo chairman é Schäuble
“A transferência de “activos no valor de 50 mil milhões de euros” detidos pelos contribuintes gregos para um “Instituto do Luxemburgo para o Crescimento” é uma das condições que o Eurogrupo procura impor à Grécia para iniciar negociações de um terceiro resgate. Este instituto é no entanto gerido pelo KfW, um banco estatal alemão, cujo "chairman" é Wolfgang Schäuble, ministro das Finanças alemão, e cujo vice-chairman é Sigmar Gabriel, ministro da Economia alemão.

“Assim que a ideia de transferir activos gregos para entidades europeias foi colocada nas propostas do Eurogrupo levantou-se de imediato imensa polémica, já que no fundo tal medida representa uma enorme perda de soberania, algo que Tsipras tem tentado resistir bastante.

“Agora, com o passar das horas, começou a desmontar-se as estruturas de gestão deste Instituto até à conclusão de que a gestão compete ao KfW, cuja administração está toda nas mãos dos políticos alemães.


“A polémica no entanto não fica por aqui. É que além de se tratar de um banco estatal, e além de ter a sua administração dominada pela classe política no poder na Alemanha, também o poder executivo desta instituição vem com um pedigree pouco recomendável: OCEO do KfW é Ulrich Schröder, que fez carreira no WestLB, banco que desde 2008 teve direito a um total de quatro resgates com dinheiros públicos”.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

A Boçalidade do Mal :


Esta fotografia vai ficar para história.

Foi divulgada na passada segunda-feira, por ocasião de uma reunião do Eurogrupo, após a “reeleição” de Dijsselbloem para a sua presidência, um dia depois de a Grécia e o seu governo terem sido humilhados por essa instituição não-democrática.

É a banalização do mal em todo o seu esplendor, o mal do século XXI preconizado por burocratas ao serviço do corrupto poder financeiro, o mal de “rosto humano” e sorridente.

Hoje , para essa gente, os cidadãos europeus são meros números estatísticos e as suas escolhas contam muito pouco.

Gente que nos governa sem nunca ter sido submetida ao voto popular e que vive acima das possibilidades de qualquer simples cidadãos europeu.

Por isso estão tão felizes e sorridentes, depois de mais uma sessão de malfeitorias.

O mal dos nossos dias não precisa de se socorrer das prisões, dos campos de concentração ou do poder das armas, basta sufocar-nos com o poder do dinheiro e da burocracia que nos impõe um modelo de sociedade empobrecida, desigual e amoral.

Hoje não são precisos Hitler´s ou Stalin´s, basta-lhes o poder de sufocar os povos em dívidas eternas e em futuros de exclusão alargada.

Nem a democracia tem qualquer valor, pois a escolha dos cidadãos está submetida aos ditames de acordos impostos pela força do dinheiro e de nada vale eleger quem nos defenda, porque serão humilhados e chantageados como o foram os gregos.

A liberdade essa está maniatada por grandes órgão de desinformação, onde manda a voz do dono, o poder financeiro que define os “critérios editorias” que melhor se adaptam às necessidades das instituições “credoras”, onde enxameia pequenos gobelzinhos da propaganda, onde a mentira várias vezes repetida se torna a verdade da lógica dos “mercados” e dos “credores”.

Aquela fotografia encarna a boçalidade do mal, as figuras sinistras que mandam nesta Europa da austeridade, da desigualdade e do empobrecimento.

Aquela fotografia vai ficar para a História! (tal como as que reproduzimos em baixo também ficaram):










sábado, 11 de julho de 2015

A crónica de Paulo Granjo : "Demita-se, senhor Dijsselboem!"


Demita-se, senhor Dijsselbloem!

por PAULO GRANJO in Público de 11/07/2015 .

“Hoje, está claro por toda a Europa que o senhor não é nem pode ser parte da solução. O senhor é, sim, uma parte muito significativa do problema.

“Sr. Dijsselbloem: Escrevo-lhe na minha condição de cidadão europeu, ciente de que partilho com muitos outros milhões de concidadãos as preocupações e o apelo que lhe transmito.

“O senhor sabe (melhor do que nós, simples cidadãos informados) que o primeiro resgate à Grécia foi fundamentalmente aplicado na salvaguarda da exposição dos bancos alemães e franceses à dívida pública do país, no resgate aos bancos gregos e na manutenção das encomendas de submarinos alemães e de caças franceses. E sabe que essa utilização dos fundos foi condição para que o empréstimo se realizasse.

“O senhor sabe que, dos subsequentes resgates, quase nada foi gasto em despesas correntes e na economia grega, mas antes no pagamento dos elevados juros e do reembolso dos anteriores empréstimos a curto prazo.

“O senhor sabe que, nesse processo, os “contribuintes do norte da Europa” não pagaram um cêntimo “para as pensões e boa vida dos gregos”. Porque não foi esse o uso do dinheiro e porque, pelo contrário, os seus governos e as instituições internacionais lucraram biliões de Euros em juros.

“O senhor sabe que as condições políticas, económicas e sociais associadas a esses empréstimos (estranhamente consideradas legítimas e “normais”, no exclusivo caso em que o devedor não seja um indivíduo ou uma empresa, mas um país em situação vulnerável) destruíram a economia grega e mergulharam o país numa situação de calamidade social.

“O senhor sabe (ou tem obrigação de saber, tendo em conta a responsabilidade do cargo que ocupa) que a espiral de endividamento e recessão criada pelas exigências das instituições europeias e do FMI tornou, para além desses custos, a dívida grega impossível de pagar, exigindo a sua restruturação, até para o interesse dos próprios credores.

“O senhor sabe também (bem melhor que qualquer um de nós, cidadãos que pagamos o preço da sua atuação e decisões) que as tentativas de construir uma solução que quebrasse esse círculo vicioso e não passasse por “mais do mesmo” foram sistematicamente inviabilizadas, não por razões económicas ou financeiras, mas pelo afã de manter as relações de poder que conduziram à situação presente e de inviabilizar, num país membro da EU, um governo que não esteja disposto a aceitá-las.

“Estou também certo de que o senhor sabe, independentemente do que diga, que a linha de atuação que o Eurogrupo manteve ao longo dos últimos meses é, hoje, insustentável.

“É insustentável, porque a ausência de um diálogo sério e de uma restruturação adequada da dívida grega, que empurrasse a Grécia para fora do Euro, acarretaria a países como a Alemanha enormes prejuízos e, aos restantes países enfraquecidos por políticas de “austeridade”, ataques especulativos à sua dívida pública.

“É insustentável, porque uma saída da Grécia da zona Euro (fosse ou não eventualmente benéfica para os próprios) induziria também, com enorme probabilidade, uma forte turbulência cambial e o reacender da recessão por toda a Europa.

“É insustentável, porque as duas maiores economias mundiais não podem correr o risco quês tais efeitos teriam sobre os mercados financeiros, o comércio mundial e as suas próprias economias domésticas – tendo já deixado clara a sua exigência de uma solução que mantenha a Grécia no Euro e tendo-se abstido de envolvimentos mais directos apenas por respeito para com as instituições europeias.

“É insustentável porque, para além disso, os equilíbrios estratégicos e a situação mundial não permitem, aos Estados Unidos e à NATO, deixar que imposições de poder no Eurogrupo e da União Europeia empurrem um membro mediterrânico e à beira do médio-oriente para o colo da Rússia, por ausência de alternativas.

“A anterior atuação do Eurogrupo é hoje insustentável porque, sobretudo (e peço desculpa por lhe lembrarum tão traumático acontecimento), o governo grego convocou e venceu de forma estrondosa, este domingo, um referendo infelizmente raro na construção europeia. Dele, saiu em muito reforçado o seu mandato democrático (infinitamente mais do que os dos seus parceiros no Eurogrupo) para negociar uma solução que inclua a restruturação sustentável da dívida, exclua mais “austeridade” sobre os mais fracos e, em grande medida, salve a Europa.

“O senhor sabe que essa vitória foi obtida sob pressões e ameaças internacionais e das instituições europeias sem precedentes. Aliás, a par da ação do BCE (que, com ela, traiu e ameaçou a sua missão de salvaguardar a estabilidade financeira e bancária na zona Euro), o senhor foi, nestes dias, o mais notório apóstolo do Apocalipse. Não só nas várias ameaças que fez acerca da saída do Euro, mas sobretudo na sua irrevogável declaração de que uma vitória do “Não” significaria a impossibilidade de quaisquer negociações, a partir de agora.

“Ora o “Não” ganhou de forma eloquente. E é evidente a inevitabilidade, agora, de acelerar negociações e de chegar a uma solução que acolha as questões fortes saídas do referendo grego - para além de da mera racionalidade e bom-senso.

“Hoje de manhã, o governo grego deu um passo surpreendente de abertura ao diálogo, maturidade política e despojamento. Para que tensões pessoais e guerras retóricas passadas não se transformassem em escolhos artificiais, durante as negociações que necessariamente se avizinham, o ministro das finanças grego, Yanis Varoufakis, demitiu-se do seu cargo.

“E você, senhor Dijsselbloem?

“O senhor sabe que a senhora Merkel se resguardou no silêncio, durante a última semana, tal como sabe que o seu peso político e responsabilidades de liderança de facto a salvaguardam, no caso de um evidentemente necessário volte-face na sua posição.

“O senhor sabe que o senhor Shauble se pode modestamente resguardar na sua mera posição de ministro das finanças, que segue a sua liderança em defesa dos interesses alemães e europeus.

“O senhor sabe que, apesar de excessos verbais semelhantes ou piores que os seus, ao longo da última semana, o senhor Junker se pode resguardar nas tentativas de aproximação e diálogo que antes fez e na sua aparente inimputabilidade.

“Mas você, senhor Dijsselbloem, queimou as pontes ao declará-las queimadas e não tem para onde recuar. E é, hoje, impensável que a busca e construção de um inevitável acordo sejam feitas sob a sua liderança, mesmo que apenas nominal.

“Independentemente da forma como o senhor avalie a sua atuação ao longo dos últimos meses, hoje, está claro por toda a Europa que o senhor não é nem pode ser parte da solução. O senhor é, sim, uma parte muito significativa do problema.

“Por isso apelo (já que não existem mecanismos democráticos que me permitam exigi-lo) a que faça a única coisa digna e racional.

“Demita-se, senhor Dijsselbloem!”


Cidadão português e europeu, antropólogo