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terça-feira, 6 de setembro de 2016

Euro : o iceberg de um "Titanic" chamado União Europeia



Causaram por aí grande furor as declarações do Nobel da economia, Joseph Stiglitz,   defendendo a saída de Portugal do euro, principalmente no seio dos comentadores defensores das medidas de austeridade.
 
O que Stiglitz se limitou a dizer é aquilo que qualquer cidadão português, que não faça parte da elite da politica nacional, do grupo de boys do centrão, dos comentadores pagos a peso de ouro para defenderem a austeridade, dos gestores públicos de nomeação politica, dos gestores de grandes empresas ou dos especuladores e accionistas da banca, já percebeu olhando para o seu bolso ou para a sua conta bancária nos últimos anos, desde que o euro se tornou a nossa moeda: a austeridade e o empobrecimento  estão para durar, para salvarmos o euro e os seus principais beneficiários que são o corrupto sector  financeiro europeu e um pequeno número de países liderados pela Alemanha.
 
Nós cidadãos cumpridores e trabalhadores, que levámos uma década a engolir a perda de salários e pensões e a empobrecer em nome da salvação do euro, devíamos perguntar o que é que o euro fez pelos cidadãos europeus.
 
O euro, como idéia fundadora, até parecia uma boa idéia. Mas para isso era necessário que tivéssemos políticos honestos e um sector financeiro saudável a liderar o processo, que foi o que nunca aconteceu.
 
Para resultar em favor dos cidadãos cumpridores e trabalhadores, devia ter-se caminhado para uma harmonização entre países que usam a mesma moeda, a nível de salários, pensões, preços e impostos, não se podendo admitir no seu seio países ou regiões que funcionam como paraísos fiscais.
 
Essa uniformização devia ser idêntica à que se exige em relação ao deficit público, isto é, os "míticos" 3% de diferença máxima entre salários, pensões, preços e impostos. Só assim se podia dizer que a moeda única beneficiava todos os cidadãos do espaço do euro.
 
Sem este caminho, o euro só vai servir para enterrar cada vez mais as economias do sul e a generalidade dos cidadãos cumpridores e trabalhadores da europa e engordar as no norte e o corrupto sector financeiro que nos domina.
 
Esta crise devia ter servido para repensarmos, quer a construção da moeda única, quer a continuidade de países como Portugal no euro.
 
Não o fazer é continuar a enterrar a cabeça na areia à espera que a austeridade passe. O problema é que a austeridade e o empobrecimento generalizado faz parte da natureza do "euro", tal como ele foi construído.
 
A prazo, a moeda única é o iceberg do qual se aproxima perigosamente o "Titanic" chamado União Europeia, comandado por políticos irresponsáveis.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

É isto ( e outras coisas piores) que o Politburo de Bruxelas pretende disfarçar com a ameaça de sanções a Portugal: Deutsche Bank assusta com "alertas já indisfarçáveis"

O Diário de Notícias de hoje anuncia que o Deutsche Bank assusta com "alertas já indisfarçáveis"(clicar para ler).
 
Segundo essa notícia, o FMI " alertou a 30 de junho que o Deutsche Bank apresenta o maior risco para a estabilidade financeira mundial, tendo na altura recomendado ao governo alemão que tenha todas as ferramentas disponíveis para lidar com uma resolução bancária. No mesmo dia, a Reserva Federal divulgou que as subsidiárias norte-americanas do Deutsche Bank e do Santander chumbaram no teste anual de stress daquela autoridade, devido a falhas nos planos de capital e de gestão de risco. E este terá sido um dos catalisadores de uma nova fuga de investidores do banco alemão.
 
"A verdade é que os investidores estão a desfazer-se rapidamente dos papéis do Deutsche Bank, o maior banco da Alemanha e um dos maiores da Europa. Os ativos do Deutsche Bank são quase metade do PIB alemão. Os sinais alarmantes agudizaram-se desde que o banco falhou os testes dos EUA e à medida que se aproxima a data em que terá de se adequar aos novos rácios de capital para os bancos europeus".
 
O Santander, outro dos protegidos dos burocratas de Bruxelas, e o grande beneficiário  com o caso BANIF, que tanto contribuiu para aumentar o deficit português, é o outro banco em causa.
 
Percebe-se a necessidade de desviar as atenções para o incumprimento do deficit em Portugal e Espanha, ainda por cima provocado pela aplicação do próprio remédio imposto pela troika de Bruxelas e pela imposição da desastrosa "solução" BANIF.
 
Os burocratas de Bruxelas, precisam de desviar a atenção do seu próprio falhanço, da incompetência em resolver a crise migratória e o "Brexit", do descalabro do euro e da grave crise financeira que se avizinha.
 
É que quem enche os  bolsos dos burocratas do Politburo de Bruxelas é esse mesmo sistema financeiro que servem e que tem, a liderá-lo, o Deutche Bank.
 
...mais palavras para quê?

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Eurogrupo quer transferir activos gregos para banco de Schäuble e Gabriel


A notícia que transcrevemos em baixo já tem uns dias.

Essa notícia revela várias coisa:

-  por um lado,  a forma como as decisões europeias estão condicionadas pelos interesses privados dos burocratas que mandam nas instituições não democráticas, como o Eurogrupo, e estão dependentes do corrupto sistema financeiro europeu que os emprega;

- por outro,  a verdadeira natureza de personagens como os senhores Schäuber e Gabriel e a forma mafiosa como funciona o poder europeu;

- também a forma como actualmente a “democracia-cristã” e a “social-democracia” europeias são cada vez mais a duas faces da mesma moeda, e são coniventes com o corrupto poder financeiro europeu;

- por último, o pouco impacto que a notícia mereceu por cá dos comentadores televisivos do costume, é  revelador da “independência” desses propagandistas da austeridade.

Vamos então à notícia:

Eurogrupo quer transferir activos gregos para banco de Schäuble e Gabriel

Por FILIPE PAIVA CARDOSO, jornal “I” de 12/07/2015 .

A instituição independente no Luxemburgo para onde o Eurogrupo propõe transferir 50 mil milhões em activos gregos é gerida pelo KfW, banco estatal alemão, cujo chairman é Schäuble
“A transferência de “activos no valor de 50 mil milhões de euros” detidos pelos contribuintes gregos para um “Instituto do Luxemburgo para o Crescimento” é uma das condições que o Eurogrupo procura impor à Grécia para iniciar negociações de um terceiro resgate. Este instituto é no entanto gerido pelo KfW, um banco estatal alemão, cujo "chairman" é Wolfgang Schäuble, ministro das Finanças alemão, e cujo vice-chairman é Sigmar Gabriel, ministro da Economia alemão.

“Assim que a ideia de transferir activos gregos para entidades europeias foi colocada nas propostas do Eurogrupo levantou-se de imediato imensa polémica, já que no fundo tal medida representa uma enorme perda de soberania, algo que Tsipras tem tentado resistir bastante.

“Agora, com o passar das horas, começou a desmontar-se as estruturas de gestão deste Instituto até à conclusão de que a gestão compete ao KfW, cuja administração está toda nas mãos dos políticos alemães.


“A polémica no entanto não fica por aqui. É que além de se tratar de um banco estatal, e além de ter a sua administração dominada pela classe política no poder na Alemanha, também o poder executivo desta instituição vem com um pedigree pouco recomendável: OCEO do KfW é Ulrich Schröder, que fez carreira no WestLB, banco que desde 2008 teve direito a um total de quatro resgates com dinheiros públicos”.

domingo, 12 de julho de 2015

O que nós aprendemos com a crise “grega”: Não é possível agradar a “gregos” e a TROIKANOS…o problema está no euro, a moeda da austeridade e da desigualdade.


O governo grego encontra-se entre a espada e a parede, apesar do apoio democrático e esmagador que recebeu do seu povo para negociar com os burocratas das instituições europeias.

O seu problema é não ter um mandato claro para sair do euro e já se percebeu que o euro é a moeda da austeridade, do empobrecimento e da desigualdade, que apenas beneficia o corrupto sistema financeiro europeu , especialmente o alemão.

Também se ficou a perceber que os “credores” isto é, as instituições não democráticas que mandam na Europa, o BCE, o Eurogrupo, a Comissão Europeia e o Conselho Europeu, com o beneplácito do verbo de encher que é o Parlamento Europeu, não estão do lado dos cidadãos europeus e das suas necessidades, mas servem única e exclusivamente a voz do dono, isto é, o obscuro e desumano sistema financeiro europeu.

A maior parte dos políticos e burocratas que enxameiam essas instituições vivem acima das possibilidades do comum dos cidadãos europeus, vivem numa realidade paralela, que não é a da luta diária desses cidadãos por uma vida digna, e nenhum deles tem futuro fora do sistema financeiro que lhes dá de “comer” e acesso a um estilo de vida a que nenhum cidadãos europeu normal pode almejar .

Esses políticos e burocratas  circulam entre a representação política, a administração de grandes empresas, nomeadamente as financeiras, as “aulas” nas universidades de “referência” (embora raramente façam o trabalho “sujo”, entregue a subservientes assistentes), ou as funções principescamente pagas como “comentadores” televisivos (uma espécie de “gobelzinhos” da propaganda neoliberal), e, por isso, não se lhes pode exigir que percebam o ponto de vista :

- do trabalhador europeu que perde direitos todos os dias, que paga cada vez mais impostos, que vê o seu salário cortado ou estagnado,  num  emprego cada vez mais precarizado;

-  do reformado europeu, transformado em bode expiatório da crise, uma espécie de “judeu” do século XXI e do neoliberalismo, e que vê pender a ameaça da instabilidade constante sobre o valor da sua reforma, e tem como horizonte de futuro, caso não já faça parte dela, cair na estatística dos cidadãos pobres (40% na Grécia);

- do desempregado que perde qualquer direito à dignidade, pela redução constante do tempo em que dura o seu subsidio de sobrevivência ( na Grécia o subsidio de desemprego dura dois meses) e do valor do mesmo, e que não vislumbra no horizonte qualquer esperança de um emprego estável e remunerado justamente;

-  do jovem licenciado que, se não fizer parte dos quase 50% de jovens desempregados, vislumbra apenas como esperança um emprego precário e mal pago e que vai adiar permanentemente qualquer sonho de formar família, gozar o direito a uma vida com futuro e, como horizonte, daqui a umas décadas, uma reforma de miséria total.

Não nos podemos assim admirar que os “credores” não percebam o drama da Grécia, que também é, a prazo, o drama de Portugal, da Irlanda, da Espanha e até da Itália e da França, senão de toda a zona euro.

Não nos podemos assim admirar que os credores continuem a insistir na mesma receita de “reformas estruturais” e de “austeridade” que apenas conduzem ao rápido empobrecimento de países inteiros e à desesperança de muitos cidadãos europeus.

O euro não foi construído para aprofundar a estabilidade social dos europeus ou para atenuar as desigualdades ou a pobreza, nem com gesto de solidariedade entre povos.

Se fosse esse o objectivo do euro tínhamos visto a sua implantação ser acompanhada de verdadeiras reformas estruturais que aproximassem sistemas de pensões, que aproximassem o valor destas, que aproximassem preços e salários, que combatesse as desigualdades e o desemprego, que acabassem com a precaridade no emprego, que aproximassem o sistema de impostos.

Se a implantação do euro visasse a justiça económica e social, não era possível a existência de paraísos fiscais no seio de países da zona euros, com acontece com a Holanda ou o Luxemburgo, por exemplo.

Por isso uma das coisas que esta crise da Grécia tornou clara foi que o problema está no euro e não é possível, nestes moldes, combater de forma honesta e credível as desigualdades e a pobreza, em países como a Grécia, Portugal, Itália, Espanha, Irlanda e até na França, sem que esses países comecem a equacionar uma saída ordenada e colectiva dessa moeda, que é cada vez mais a moeda da austeridade, da desigualdade e da pobreza, pelo menos para esses países.

O Euro só beneficia os bancos e a industria alemã  francesa e finlandesa, os paraísos fiscais do Luxemburgo e da Holanda, os satélites do espaço vital alemão do leste ( e neste apenas as suas elites, já que a maior parte da população vive de salários baixos e emprego precário).

Basta aliás olhar com atenção para o único índice mundial credível, o do Desenvolvimento Humano, anualmente publicado pela ONU, para se perceber que o euro não é a moeda da prosperidade humana.

Entre os 20 países mais desenvolvidos estão 11 europeus, destes 7 estão na União Europeia, mas apenas 4 no euro, a Holanda (em 4º), a Alemanha (em 6º), a Irlanda (em 11º), e a França (em 20º).

Tirando o caso peculiar da Irlanda, apenas os países do euro que beneficiam com o euro estão nesse “pelotão da frente”.

A Irlanda, apesar da sua posição, foi o país de topo que mais posições desceu ,três lugares  entre 2012 e 2013, data dos dados registados no último relatório da ONU, com a data de 2014.

Portugal ocupava o 41ª lugar, na cauda do “pelotão da frente”.

Aguardamos pela saída do relatório de 2015, com dados de 2014, para aferir melhor da situação reveladora de os países do euro só contarem com 4 países entre os 11 europeus do raking.

E já agora, os dois países europeus que lideram essa lista, a Noruega, no 1º lugar, e a Suiça, no 2ª, não só não têm euro, como nem sequer pertencem à União Europeia.

Mas há ainda outra situação. Dois países com euro estão no segundo pelotão dos países desenvolvidos, o que mostra as desigualdades no seio dessa moeda.

Também já se percebeu que a dívida é impagável por países como a Grécia, Portugal e Irlanda, porque a austeridade destrui as suas economias e fez regredir em décadas o PIB de cada um desses países, apesar de, em termos nominais, o conjunto da dívida daqueles três países ser menos de metade da dívida nominal da Alemanha (esta é de quase 3 biliões de euros…), Alemanha que, também aqui não cumpre os critérios de Mastricht, pois esta atinge quase 80% do seu PIB…

O pagamento da dívida, à qual países como Portugal e a Grécia foram obrigados a contrair para pagar os desvarios do sector financeiro, que vai ser paga pelos cidadãos desses países, só permitirá que se volte a viver nalguma “normalidade” económica, social e financeira lá para meados da década de 50 deste século, e isso se tudo correr bem e não for necessário contrair mais empréstimos, pois até lá o investimento e a economia vão continuar estagnados.

Ou seja, sem se começar a equacionar a saída do euro a breve prazo, países como Portugal, Grécia, Irlanda, Espanha, Itália e até a França vão estagnar durante décadas.

Por isso se qualquer político o tentar convencer que é possível continuar no euro sem aumento de austeridade, sem aumento da pobreza, sem estagnação do emprego, sem cortes salarias e nas pensões, sem degradação dos serviços sociais, educativos e de saúde, está a mentir.

A alternativa é, cada vez mais,  entre continuar no euro e no empobrecimento e na estagnação, ou começar a negociar, desde já, a melhor maneira de sair do euro…a não ser que se mudasse alguma coisa na estrutura dessa moeda…mas isto não interessa à Alemanha, aos seus satélites nórdico e do leste, ou ao corrupto sistema financeiro da Europa.

sábado, 11 de julho de 2015

A crónica de Paulo Granjo : "Demita-se, senhor Dijsselboem!"


Demita-se, senhor Dijsselbloem!

por PAULO GRANJO in Público de 11/07/2015 .

“Hoje, está claro por toda a Europa que o senhor não é nem pode ser parte da solução. O senhor é, sim, uma parte muito significativa do problema.

“Sr. Dijsselbloem: Escrevo-lhe na minha condição de cidadão europeu, ciente de que partilho com muitos outros milhões de concidadãos as preocupações e o apelo que lhe transmito.

“O senhor sabe (melhor do que nós, simples cidadãos informados) que o primeiro resgate à Grécia foi fundamentalmente aplicado na salvaguarda da exposição dos bancos alemães e franceses à dívida pública do país, no resgate aos bancos gregos e na manutenção das encomendas de submarinos alemães e de caças franceses. E sabe que essa utilização dos fundos foi condição para que o empréstimo se realizasse.

“O senhor sabe que, dos subsequentes resgates, quase nada foi gasto em despesas correntes e na economia grega, mas antes no pagamento dos elevados juros e do reembolso dos anteriores empréstimos a curto prazo.

“O senhor sabe que, nesse processo, os “contribuintes do norte da Europa” não pagaram um cêntimo “para as pensões e boa vida dos gregos”. Porque não foi esse o uso do dinheiro e porque, pelo contrário, os seus governos e as instituições internacionais lucraram biliões de Euros em juros.

“O senhor sabe que as condições políticas, económicas e sociais associadas a esses empréstimos (estranhamente consideradas legítimas e “normais”, no exclusivo caso em que o devedor não seja um indivíduo ou uma empresa, mas um país em situação vulnerável) destruíram a economia grega e mergulharam o país numa situação de calamidade social.

“O senhor sabe (ou tem obrigação de saber, tendo em conta a responsabilidade do cargo que ocupa) que a espiral de endividamento e recessão criada pelas exigências das instituições europeias e do FMI tornou, para além desses custos, a dívida grega impossível de pagar, exigindo a sua restruturação, até para o interesse dos próprios credores.

“O senhor sabe também (bem melhor que qualquer um de nós, cidadãos que pagamos o preço da sua atuação e decisões) que as tentativas de construir uma solução que quebrasse esse círculo vicioso e não passasse por “mais do mesmo” foram sistematicamente inviabilizadas, não por razões económicas ou financeiras, mas pelo afã de manter as relações de poder que conduziram à situação presente e de inviabilizar, num país membro da EU, um governo que não esteja disposto a aceitá-las.

“Estou também certo de que o senhor sabe, independentemente do que diga, que a linha de atuação que o Eurogrupo manteve ao longo dos últimos meses é, hoje, insustentável.

“É insustentável, porque a ausência de um diálogo sério e de uma restruturação adequada da dívida grega, que empurrasse a Grécia para fora do Euro, acarretaria a países como a Alemanha enormes prejuízos e, aos restantes países enfraquecidos por políticas de “austeridade”, ataques especulativos à sua dívida pública.

“É insustentável, porque uma saída da Grécia da zona Euro (fosse ou não eventualmente benéfica para os próprios) induziria também, com enorme probabilidade, uma forte turbulência cambial e o reacender da recessão por toda a Europa.

“É insustentável, porque as duas maiores economias mundiais não podem correr o risco quês tais efeitos teriam sobre os mercados financeiros, o comércio mundial e as suas próprias economias domésticas – tendo já deixado clara a sua exigência de uma solução que mantenha a Grécia no Euro e tendo-se abstido de envolvimentos mais directos apenas por respeito para com as instituições europeias.

“É insustentável porque, para além disso, os equilíbrios estratégicos e a situação mundial não permitem, aos Estados Unidos e à NATO, deixar que imposições de poder no Eurogrupo e da União Europeia empurrem um membro mediterrânico e à beira do médio-oriente para o colo da Rússia, por ausência de alternativas.

“A anterior atuação do Eurogrupo é hoje insustentável porque, sobretudo (e peço desculpa por lhe lembrarum tão traumático acontecimento), o governo grego convocou e venceu de forma estrondosa, este domingo, um referendo infelizmente raro na construção europeia. Dele, saiu em muito reforçado o seu mandato democrático (infinitamente mais do que os dos seus parceiros no Eurogrupo) para negociar uma solução que inclua a restruturação sustentável da dívida, exclua mais “austeridade” sobre os mais fracos e, em grande medida, salve a Europa.

“O senhor sabe que essa vitória foi obtida sob pressões e ameaças internacionais e das instituições europeias sem precedentes. Aliás, a par da ação do BCE (que, com ela, traiu e ameaçou a sua missão de salvaguardar a estabilidade financeira e bancária na zona Euro), o senhor foi, nestes dias, o mais notório apóstolo do Apocalipse. Não só nas várias ameaças que fez acerca da saída do Euro, mas sobretudo na sua irrevogável declaração de que uma vitória do “Não” significaria a impossibilidade de quaisquer negociações, a partir de agora.

“Ora o “Não” ganhou de forma eloquente. E é evidente a inevitabilidade, agora, de acelerar negociações e de chegar a uma solução que acolha as questões fortes saídas do referendo grego - para além de da mera racionalidade e bom-senso.

“Hoje de manhã, o governo grego deu um passo surpreendente de abertura ao diálogo, maturidade política e despojamento. Para que tensões pessoais e guerras retóricas passadas não se transformassem em escolhos artificiais, durante as negociações que necessariamente se avizinham, o ministro das finanças grego, Yanis Varoufakis, demitiu-se do seu cargo.

“E você, senhor Dijsselbloem?

“O senhor sabe que a senhora Merkel se resguardou no silêncio, durante a última semana, tal como sabe que o seu peso político e responsabilidades de liderança de facto a salvaguardam, no caso de um evidentemente necessário volte-face na sua posição.

“O senhor sabe que o senhor Shauble se pode modestamente resguardar na sua mera posição de ministro das finanças, que segue a sua liderança em defesa dos interesses alemães e europeus.

“O senhor sabe que, apesar de excessos verbais semelhantes ou piores que os seus, ao longo da última semana, o senhor Junker se pode resguardar nas tentativas de aproximação e diálogo que antes fez e na sua aparente inimputabilidade.

“Mas você, senhor Dijsselbloem, queimou as pontes ao declará-las queimadas e não tem para onde recuar. E é, hoje, impensável que a busca e construção de um inevitável acordo sejam feitas sob a sua liderança, mesmo que apenas nominal.

“Independentemente da forma como o senhor avalie a sua atuação ao longo dos últimos meses, hoje, está claro por toda a Europa que o senhor não é nem pode ser parte da solução. O senhor é, sim, uma parte muito significativa do problema.

“Por isso apelo (já que não existem mecanismos democráticos que me permitam exigi-lo) a que faça a única coisa digna e racional.

“Demita-se, senhor Dijsselbloem!”


Cidadão português e europeu, antropólogo

quinta-feira, 12 de março de 2015

Na miséria Grega podemos ver o futuro da Europa

Transcrevemos em baixo uma excelente reportagem editada pelo jornal Público sobre a grave situação social que se vive na Grécia, da autoria da jornalista Maria João Guimarães.

Pela sua leitura percebe-se o desespero dos gregos e até algumas afirmações e atitudes mais disparatadas de alguns dos seus novos governantes.

Cinco anos de troika e austeridade levaram 35,7% dos gregos a caírem em risco de pobreza, 25,8% caíram no desemprego , 50% entre os jovens, a dívida pública aproxima-se velozmente dos 200% do PIB e o deficit continua altíssimo.

Este é o resultado de cinco anos de austeridade e de aplicação do plano de “ajustamento”.

Não se percebe a insistência por parte dos burocratas da União Europeia e do corrupto sector financeiro europeu em insistir nesse modelo, com o Eurogrupo, a Comissão Europeia, o BCE e a Alemanha à cabeça dessa condução desastrosa do destino de um país europeu.

Só a cegueira política, a intolerância financeira, a desorientação face à rebeldia dos cidadãos europeus, que começaram na Grécia a demonstrar o seu repudio pelos programas impostos por Bruxelas, mas que o vão continuar a demonstrar, talvez nem sempre da melhor maneira, nas próximas eleições em Espanha, em França e em Portugal, explica a insistência na mesma receita de continuar com as “reformas estruturais”, que o mesmo é dizer, mais cortes nos salários e pensões, mais despedimentos na função pública, destruturação na saúde e na educação, cortes nas ajudas sociais aos mais pobres, aumento de impostos, venda ao desbarato de bens nacionais para manter o corrupto sistema financeiro europeu a funcionar.

Aliás, reconhecer os erros é coisa que a actual elite burocrática da União Europeia nunca reconhecerá, pois isso iria questionar a sua própria utilidade perante os cidadãos da Europa e o trabalho sujo que têm andado a fazer para favorecer o corrupto sistema financeiro de que dependem para manter os seus altos cargos e o seu estilo de vida “acima das possibilidades”.

Não deixa também de ser estranho que, ao longo de cinco anos na Grécia, a troika nunca tenha penalizado e pressionado os anteriores governos, com fazem ao actual, para combater eficazmente a fraude e evasão fiscal e para levarem à prática uma profunda reforma do sistema fiscal grego, estas sim as verdadeiras “reformas estruturais” que é preciso levar a cabo nesse e noutros países.

Não o fazem porque combater a fraude e evasão fiscal era por em causa os bancos, a maior parte sediados na Alemanha e os países, como o Luxemburgo, a Holanda, a Bélgica ou a Finlândia, onde estão muitos dos bancos que lucram com os juros da divida soberana, alguns desses países funcionando e enriquecendo como paraísos fiscais. São esses que têm beneficiado com esta “crise” e , ao mesmo tempo, dominam  a burocracia europeia.

Como os governantes das instituições europeias estão formatados por um modelo financeiro corrupto e anti-democrático, nunca irão reconhecer o seu erro. Para eles o empobrecimento dos cidadãos não é um problema, desde que mantenham os seu chorudos vencimentos e possam continuar a lucrar com a crise.

Reconhecer o erro do efeito da austeridade era, também, reconhecer o erro que foi a “invenção” do euro, e a forma irresponsável como este foi implementado. A continuar por este caminho acabarão por destruir a prazo a sua própria criação, mas nessa altura essa gente estará comodamente a viver dos rendimentos num paraíso qualquer, sobrando os estilhaços para os cidadãos da Europa que, mais uma vez, cá vão estar para sofrer as consequências da incompetência da actual geração de políticos europeus que nos conduzem para o desastre. 

Talvez não seja por acaso que todos os países nórdicos, excluindo a Finlândia, mas esse é um mero satélite alemão, se tenham recusado aderir ao euro (Dinamarca e Suécia), e dois deles nem sequer tenham aderido à União Europeia (Islândia e Noruega), o que não impede que apresentem sempre os melhores indicadores sociais e económicos em todos os estudos internacionais. De facto o euro não presta, a não ser para a Alemanha...

Há quem diga que Portugal não é  Grécia e até apresente o "exemplo" português como contraponto. Mas que contraponto? Claro que ainda não atingimos a gravidade social e económica da Grécia. Talvez seja por isso que as instituições Europeias continuem a insistri cegamente na necessidade de continuar as "reformas estruturais". 

Contudo, todos os indicadores económico-socias em Portugal, se ainda não atingiram a gravidade da Grécia, para lá caminham. Não nos podemos esquecer que "apenas" levamos com três anos de austeridade, quase metade dos que leva a Grécia. Também, porque este ano é ano eleitoral, vamos assistir a algum abrandamento das tais "reformas estruturais" que nos conduzem ao desastre. Mas elas regressarão em força logo a seguir, pelo menos é esse o desejo de Bruxelas e dos "miguéis de vasconcelos" cá do "burgo".

O retrato que podemos ler na reportagem anexada em baixo, é o retrato do nosso futuro, aquele que as instituições europeias querem para nós, a não ser que nos juntemos aos gregos, aos franceses, aos espanhóis, aos italianos e aos irlandeses para bater o pé aos "donos" da Europa.

"Onde está a crise humanitária na Grécia?"

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

A Pátria da Democracia deu uma lição à “Pátria” do nazismo…


A vitória do Syriza na Grécia é a última oportunidade para travar este desastroso caminho que tem sido seguido na Europa nos último anos, por imposição de políticos corruptos e ignorantes, sob a liderança de Merkel, do banco central alemão, do Eurogrupo e da Comissão Europeia, nomeadamente enquanto esta foi liderada por Barroso, que apenas se preocupam em agradar à máfia do sistema financeiro (os tais “mercados”) e nos tem vendido a mentira do caminho único da austeridade, do empobrecimento, do desemprego, do emprego precário, dos cortes brutos em pensões e ordenados e da destruição do Estado Social como via para a “salvação” da Europa.

A vitória do Syriza é também a última oportunidade para salvar a democracia na Europa, pois só há democracia com alternativas e a vitória do Syriza mostra que se pode fugir ao destino que nos traçaram da alternância do centrão, onde se mudava de liderança para que tudo continuasse na mesma. Se o Syriza falhar como alternativa ao colete de forças da austeridade a extrema-direita já aí está à espreita (os neo-nazis ficaram em terceiro lugar nas eleições gregas), não só na Grécia, mas um pouco por toda a Europa.

A vitória do Syryza pode ser também a última alternativa para salvar o euro e a Europa, pois pode obrigar o BCE e a União Europeia a mudarem de política económica e financeira, recuperando o apoio dos cidadãos e afastando a idéia de que o euro é uma moeda que só pode agravar as condições de vida dos cidadãos e dos trabalhadores que vivem nos países do eurogrupo (com a excepção da Alemanha e da Finlândia…).

Pode até acontecer que, se o BCE e a Comissão Europeia continuarem no caminho da pressão e da chantagem sobre os gregos, a Grécia opte por abandonar o euro e, depois de alguns meses de turbulência, a Grécia, com uma moeda própria, venha a recuperar a sua economia e melhorar as condições de vida dos seus cidadãos, o que descredibilizava totalmente a chantagem da mensagem catastrófica que os defensores da manutenção da austeridade têm vindo a fazer para nos obrigarem a aceitar o nosso empobrecimento para salvar o euro.

A vitória do Syriza, para além de ser a derrota do modelo “austeritário” imposto aos cidadãos do sul da Europa é também da derrota da terceira-via “social-democrata” e um aviso sério para os partidos Socialistas que se têm prestado a fazer servicinhos ao corrupto sector financeiro, continuando as políticas anti-sociais da direita europeia liderada por Merkel , como aconteceu em Portugal, na Espanha e em França. O destino do PASOK pode vir a ser o destino certo dos velhos Partidos Socialistas e Social-democratas que traíram os seus ideais e o seu eleitorado em nome do carreirismo e das negociatas e se acobardaram face aos “mercados” financeiros. É de referir que parte dos eleitores do PASOK transferiram-se de armas e bagagens para o Syriza.

Por último, seria bom que os nosso comentadores do costume, os pequenos “gobelzinhos” da propaganda “austeritária”, deixassem de fazer confusão, não sei se por ignorância, se por pura má-fé, entre esquerda radical e extrema-esquerda, coisas bem diferentes.


terça-feira, 27 de maio de 2014

"Eurocépticos" somos todos…ou quase todos


As palavras “eurocéptico” e “anti-europeu” têm sido o rótulo mais utilizado para comentar o resultado das últimas eleições para o parlamento europeu.

Nessa designação misturam-se os conformistas que não foram votar (onde cabem, no mesmo saco, os mortos que não foram retirados dos cadernos eleitorais, os que emigraram e não alteraram o seu recenseamento, os anarquistas, os doentes graves que não se puderam deslocar à mesa de voto,  os indigentes de todo o género que nem sabem que há eleições, o chamado lúmpen proletariado, os que estão sempre contra tudo e contra todos, os que se acham tão acima de tudo e que só votariam num partido que os tivesse como líder, alguns nazis e fascistas que não se revêem no modelo democrático, acompanhados nessa intensão por alguns stalinistas puros, os indiferentes e conformistas de todo o tipo, e claro, muitos intelectuais que, à custa de complicarem tanto o seu pensamento, não sabem em quem votar, e ainda alguns ingénuos que passam a vida à procura do partido puro e ideal que represente a sua pureza e ainda muitos antigos salazaristas que, por uma questão de princípio, nunca votaram depois do 25 de Abril…), os que, ao fim de 40 anos de democracia, ainda não sabem usar um voto e vão parar ao monte dos votos nulos  dos que resolvem descarregar toda a sua raiva e frustração inutilizando o seu próprio direito de escolha e os que, num acto de consciência cívica, não abdicam do seu direito de voto, um direito que em Portugal custou a vida e o conforto de muita gente para que ele fosse obtido e, não se identificando com o actual sistema partidário, mesmo assim se dão ao trabalho de se deslocar à sua secção de voto e votam em branco, o único dos três casos que merecia resultar em consequência política (por exemplo, retirando lugares eleitos…).

Nesta designação os nosso comentadores e jornalistas também metem no mesmo saco os votantes nos partidos fascistas e neo-nazis que, pura e simplesmente, defendem o fim da União Europeia e o regresso a ditaduras antidemocráticas e nacionalistas, os partidos populista, das mais variadas matrizes, que se dividem entre os que defendem o fim da União Europeia,  os que “apenas” defendem o fim do “euro”, os que defendem simplesmente um novo caminho, mais próximo dos cidadãos, para a União Europeia, os partidos à esquerda que defendem a renegociação da dívida, subdividindo-se ainda, entre eles, entre os que estão contra a União Europeia, os que defendem a saída do euro,  os que defendem uma nova política em defesa dos cidadãos europeus e/ou os que defendem pura e simplesmente a manutenção do  Estado Social Europeu.

Ou seja, para muitos comentadores e jornalistas, eurocépticos e “antieuropeus” são todos os que defendem ideias diferentes daquelas que são defendidas pelos chamados partidos do arco do poder, isto é, os “liberais” do sr. Juncker ou os “socialistas” do sr. Schulz, que, no essencial, estão de acordo, ou seja, defendem as políticas de austeridade, com pequenas nuances , a “reforma” do Estado Social, a vontade dos “mercados” e a liderança alemã.

Se consideram que ser Europeu é apenas defender o que essas duas famílias políticas do “arco da austeridade” defendem, e reduzir as hipóteses de sobrevivência do projecto de União Europeia ao pensamento único neoliberal, então eu, e todos os atrás citados, somos “antieuropeus e eurocépticos”, e podem colocar todos no mesmo saco.

Se ser antieuropeu e eurocéptico é considerar que o Estado Social não deve ser limitado, para agradar aos “mercados” e fazer as vontades ao dumping social praticado pelos países emergente, procurando “adaptar” esse mesmo Estado Social ao “modelo social chinês”, então eu e todos os atrás citados, somos “antieuropeus e eurocépticos”.

Se ser antieuropeu é questionar a forma antidemocrática das grandes decisões, tomadas nas costas dos cidadãos pelo Conselho Europeu, pela Comissão Europeia, pelo Eurogrupo, pelo BCE e pelo FMI da srª Lagarde, escolhendo para os cargos de presidente do Conselho Europeu e da Comissão Europeia e para outros cargos burocratas gente que não foi sujeita ao sufrágio dos cidadãos europeus, então eu e todos os atrás citados, somos “antieuropeus e eurocépticos”.

Se ser antieuropeu e eurocéptico é considerar que a União Europeia tem de tomar um novo rumo, alterando os errados modelos de austeridade impostos pelas troikas, combatendo as crescentes desigualdades no seu seio, o escandaloso número de desempregados, nomeadamente entre os mais jovens, e a pobreza crescente, então eu e todos os atrás citados, somos “antieuropeus e eurocépticos”.

Se ser antieuropeu e eurocéptico é defender que, para que o euro possa sobreviver como moeda única, é necessário corrigir os erros do seu nascimento através de uma aproximação dos preços, dos salários, das pensões, dos juros e no sistema fiscal (não se pode admitir que se exija um deficit igual, não ultrapassando os 3%, a todos os países do euro, e depois existam disparidades de preços, juros, pensões, salários e de impostos que ultrapassem em muito aquele valor…), então eu e todos os atrás citados, somos “antieuropeus e eurocépticos”.

Se ser antieuropeu e eurocéptico é defender o fim  de paraísos fiscais no seio da própria União Europeia,  defender a penalização de  um sistema financeiro corrupto , combater  a fuga aos impostos de grandes empresas e criticar uma política de baixos salários e de redução de direitos laborais, então eu e todos os atrás citados, somos “antieuropeus e eurocépticos”.

Seria bom que os senhores comentadores soubessem distinguir o trigo do joio, aqueles que querem mesmo destruir a Europa e o seu projecto, daqueles que querem “apenas” um rumo diferente para o projecto europeu, alguns apenas a reposição do seu ideário fundador, combatendo o actual sistema antidemocrático de decisão, que afasta os cidadãos do projecto europeu.

Se esses comentadores ou, mais grave ainda, os burocratas da União Europeia e os partidos do “arco do poder” não distinguirem as diferenças e o significado político destas eleições, vão ser eles, e não os “eurocépticos” e “antieuropeus”, os principais responsáveis pela falência do projecto europeu.

Infelizmente as primeira declarações de Durão Barroso, de Lagarde e de Draghi após estas eleições vão no sentido de continuarem a não perceber (ou fingirem que não percebem) que, como muito gostam de dizer, “o mundo [a Europa] mudou” no dia 25 de Maio.


quinta-feira, 27 de março de 2014

Respigo da Semana: Euro e Democracia : ou mais argumentos para a abstenção nas Eleições Europeias:

Neste artigo, escrito por dois reputados articulistas, conhecedores da realidade europeia, demonstra-se que a criação do Euro foi a maior asneira na história de União Europeia e que a única hipótese de salvação para países como Portugal seria negociar a nossa saída dessa malfadada moeda, apenas feita para beneficiar a Alemanha e os especulativos meios financeiros.
Em vésperas de eleições para o Parlamento Europeu era isto que todos devíamos estar a discutir.
Mais uma razão para nem sequer me dar ao trabalho de ir votar no dia das eleições europeias...

"Euro e democracia

Por Stefan de Vylder  (1) e Jack Soifer (2)

In Público 13/03/2014

“A criação do euro foi o maior erro da política económica pós-guerra. Os países em crise estão num desastre económico, político e humano. O melhor seria a Alemanha sair do euro. O provável é a saída dos PIIGS, Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha. Isto é melhor do que a gestão de crises liderada por uma troika não eleita, odiada pela população da UE.

“Após três anos de recessão, o PIB da zona euro (ZE) parou de cair. Mas há pouca esperança na economia real, produção e emprego. Nos países mais afetados, Grécia, Espanha e Portugal, há declínio. O PIB da Grécia é 25% mais baixo do que em 2007, e não melhora. Na Grécia e Espanha, o desemprego real supera os 25%.

“O Eurostat diz que em Portugal há 89 candidatos para cada trabalho; Espanha, 71; Irlanda, 31. O custo do trabalho cai, mas o total aumenta. É o custo de contexto, de energia, cartéis, taxas e da burocracia fiscal que faz o dono de PME perder tempo, em vez de vender mais. O pacote da troika reduziu salários, pensões e subsídios, o que afetou a procura interna e não só.

“Os efeitos do desemprego jovem são difíceis de medir. Não entrar no mercado de trabalho, ou aceitar emprego não qualificado sem benefício da sua formação, é perda humana e económica. A qualificação hoje é perecível. Jovens qualificados de Espanha e Portugal saem para as ex-colónias na América Latina e África, e de todos os países em crise para a Alemanha, Reino Unido, Suécia e Noruega. É o brain-drain. Em 2013 saíram de Portugal 121 mil técnicos e especialistas. Dos enfermeiros formados em 2012 e 2013, 90% estão a emigrar.

“A natalidade nos PIIGS caiu muito; na Itália, Espanha, Portugal e Grécia, é hoje de 1,5 filhos/mulher. Isto é um alívio económico a curto prazo, mas com mais idosos crescem os gastos com saúde e pensões.

“À crise seguem problemas sociais. Depressão e suicídio tornaram-se comuns, e na Grécia duplicou a taxa de suicídio, que antes tinha a mais baixa da UE. Na Grécia e Espanha vimos os direitos democráticos reduzidos. O Governo espanhol propôs a Ley de Seguridad Ciudadana, que criminaliza reuniões ilegais e insultos à Espanha.

“Pode-se evitar ciclos de choque assimétrico nos países-membros. Como mobilidade de trabalho dentro e entre países, convergência de inflação e produtividade, preços e salários, uma política fiscal comum que permita apoio aos países em crise, e garantias unas aos depositantes, para evitar a fuga de capital.

“Nem todos estes requisitos precisam de ser cumpridos. Mas a UME não cumpre nenhum deles. Não houve, no início, um plano de emergência, mas sim a proibição de apoio financeiro aos países em crise e do BCE comprar títulos diretamente dos governos.

“A gestão da crise é emergencial, decidida no momento, sem ouvir os parlamentos eleitos, e num turbilhão de regras exclusivas da UME. Resolvem a crise no curto prazo, e ignoram os problemas do futuro.

“A taxa comum na UME aumentou as bolhas imobiliárias em países como a Irlanda e Espanha. Na Grécia e em Portugal os juros baixos e o euro-otimismo provocaram um consumo privado e público insustentável.

“A taxa comum traz um efeito pró-cíclico, i.e., estimula a economia dos países em boom, e aperta os em recessão. Quanto maior for a inflação num país, e quanto mais a economia precisa de abrandar, menor a taxa real de juros. E vice-versa, quando a economia deve ser estimulada. É a perversidade inerente a uma união monetária.

“Cresce o diferencial das taxas de juros entre os países na periferia da ZE e os centrais em torno da Alemanha. Apesar de o BCE emprestar a todos os países à uma taxa baixa, a que as empresas e as famílias pagam é alta.

“Os países com boa economia têm hoje taxas menores do que antes da crise. A liquidez nos seus bancos subiu com a fuga de capitais dos PIIGS. Estes tomaram emprestado a juros baixos, o que baixou a competitividade. Entre 1999 e 2008, o custo por unidade nos PIIGS subiu 20-35% em relação à Alemanha.

“Seria bom acordar num sábado e ouvir que alguns países saíram do euro e as bolsas e bancos do mundo estão fechados; que já existem novas notas e reprogramaram as caixas eletrónicas. Ouvir que o FMI, BCE e bancos centrais nacionais da UE impuseram controlo temporário à banca e apoiam o acesso à moeda estrangeira em alguns países.

“Mas nenhum chanceler alemão quer ir para a história como aquele que afundou o euro. Muito prestígio político foi investido. A exportação alemã beneficiou dos países em crise, com a taxa de câmbio baixa. O operário alemão merece que valorizem o marco, que traria um melhor salário real; isso equilibraria a competitividade externa na UE.

“A valorização do euro com economias fortes é péssimo para quem tem dívidas em euro. Os PIIGS não podem pagá-las. São valores em relação às suas economias maiores do que as reparações alemãs do pós-guerra. A alternativa é abater a dívida em 50% e alongar o prazo para 50 anos. Outra é trocar parte da dívida em crédito a longo prazo e juros do BCE para adquirir bens e serviços nos PIIGS, o que elevaria a competitividade empresarial destes”.

1 .Ex-presidente do Fórum Sueco de Desenvolvimento, autor de uma vintena de livros em inglês e sueco, ex-professor da Stockholm School of Economics;

2 . Consultor internacional, autor dos livros Como Sair da Crise, Portugal Rural e Ontem e Hoje na Economia

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

....e não há responsáveis?...:Portugal divergiu desde a criação do euro e a tendência deverá acentuar-se.



Quem, como nós, sempre viveu do seu trabalho e sempre pagou os seus impostos a tempo e horas, e nunca beneficiou de isenções estatais, fosse para o que fosse, já se tinha apercebido, desde há longa data, que a adesão de Portugal ao euro era um grande desastre.


Comprovando aquilo que já tínhamos observado empiricamente, pelo facto de a diferença entre o salário e o preço dos bens essenciais se afastarem cada vez mais (no dia a seguir à introdução da moeda única, o que custava 50 escudos passou a custar 50 cêntimos, o que custava 100 escudos passou a custar … 1 euro ( mais do dobro), enquanto se entrava numa espiral de contenção salarial…), é agora comprovado pela realidade dos números, como se revela pelo artigo abaixo transcritos.


Se a entrada de Portugal no euro foi o maior desastre de Portugal nos últimos anos, a pior consequência de tudo isso são as actuais medidas de austeridade que, empobrecendo os cidadãos, saqueando-os através de impostos, que em vez de serem canalizados para atenuar as crescentes e gravosas condições de vida dos portuguese, têm como principal destino pagar aos especuladores financeiros pelos seus desvarios e pelos seu “empréstimos”, e agravando as condições salariais e de trabalho, que já eram das piores ao nível europeu, está a contribuir para afastar o país da média europeia, colocando-nos ao nível dos piores países do leste.


Já era tempo de se começar a investigar quem foram os responsáveis por terem enganado os portugueses  com o euro(entre banqueiros, especuladores da bolsa, políticos, juntamente com o seu aparelho propagandístico na imprensa, maioritariamente controlada por esse mesmo sector financeiro) , e fazê-los pagar pelo crime económico-social do qual todos estamos a ser vítimas, seguindo o exemplo daquilo que foi feito na Islândia.
 

Portugal divergiu desde a criação do euro e a tendência deverá acentuar-se - PÚBLICO(clicar para ler)