domingo, 12 de julho de 2015

O que nós aprendemos com a crise “grega”: Não é possível agradar a “gregos” e a TROIKANOS…o problema está no euro, a moeda da austeridade e da desigualdade.


O governo grego encontra-se entre a espada e a parede, apesar do apoio democrático e esmagador que recebeu do seu povo para negociar com os burocratas das instituições europeias.

O seu problema é não ter um mandato claro para sair do euro e já se percebeu que o euro é a moeda da austeridade, do empobrecimento e da desigualdade, que apenas beneficia o corrupto sistema financeiro europeu , especialmente o alemão.

Também se ficou a perceber que os “credores” isto é, as instituições não democráticas que mandam na Europa, o BCE, o Eurogrupo, a Comissão Europeia e o Conselho Europeu, com o beneplácito do verbo de encher que é o Parlamento Europeu, não estão do lado dos cidadãos europeus e das suas necessidades, mas servem única e exclusivamente a voz do dono, isto é, o obscuro e desumano sistema financeiro europeu.

A maior parte dos políticos e burocratas que enxameiam essas instituições vivem acima das possibilidades do comum dos cidadãos europeus, vivem numa realidade paralela, que não é a da luta diária desses cidadãos por uma vida digna, e nenhum deles tem futuro fora do sistema financeiro que lhes dá de “comer” e acesso a um estilo de vida a que nenhum cidadãos europeu normal pode almejar .

Esses políticos e burocratas  circulam entre a representação política, a administração de grandes empresas, nomeadamente as financeiras, as “aulas” nas universidades de “referência” (embora raramente façam o trabalho “sujo”, entregue a subservientes assistentes), ou as funções principescamente pagas como “comentadores” televisivos (uma espécie de “gobelzinhos” da propaganda neoliberal), e, por isso, não se lhes pode exigir que percebam o ponto de vista :

- do trabalhador europeu que perde direitos todos os dias, que paga cada vez mais impostos, que vê o seu salário cortado ou estagnado,  num  emprego cada vez mais precarizado;

-  do reformado europeu, transformado em bode expiatório da crise, uma espécie de “judeu” do século XXI e do neoliberalismo, e que vê pender a ameaça da instabilidade constante sobre o valor da sua reforma, e tem como horizonte de futuro, caso não já faça parte dela, cair na estatística dos cidadãos pobres (40% na Grécia);

- do desempregado que perde qualquer direito à dignidade, pela redução constante do tempo em que dura o seu subsidio de sobrevivência ( na Grécia o subsidio de desemprego dura dois meses) e do valor do mesmo, e que não vislumbra no horizonte qualquer esperança de um emprego estável e remunerado justamente;

-  do jovem licenciado que, se não fizer parte dos quase 50% de jovens desempregados, vislumbra apenas como esperança um emprego precário e mal pago e que vai adiar permanentemente qualquer sonho de formar família, gozar o direito a uma vida com futuro e, como horizonte, daqui a umas décadas, uma reforma de miséria total.

Não nos podemos assim admirar que os “credores” não percebam o drama da Grécia, que também é, a prazo, o drama de Portugal, da Irlanda, da Espanha e até da Itália e da França, senão de toda a zona euro.

Não nos podemos assim admirar que os credores continuem a insistir na mesma receita de “reformas estruturais” e de “austeridade” que apenas conduzem ao rápido empobrecimento de países inteiros e à desesperança de muitos cidadãos europeus.

O euro não foi construído para aprofundar a estabilidade social dos europeus ou para atenuar as desigualdades ou a pobreza, nem com gesto de solidariedade entre povos.

Se fosse esse o objectivo do euro tínhamos visto a sua implantação ser acompanhada de verdadeiras reformas estruturais que aproximassem sistemas de pensões, que aproximassem o valor destas, que aproximassem preços e salários, que combatesse as desigualdades e o desemprego, que acabassem com a precaridade no emprego, que aproximassem o sistema de impostos.

Se a implantação do euro visasse a justiça económica e social, não era possível a existência de paraísos fiscais no seio de países da zona euros, com acontece com a Holanda ou o Luxemburgo, por exemplo.

Por isso uma das coisas que esta crise da Grécia tornou clara foi que o problema está no euro e não é possível, nestes moldes, combater de forma honesta e credível as desigualdades e a pobreza, em países como a Grécia, Portugal, Itália, Espanha, Irlanda e até na França, sem que esses países comecem a equacionar uma saída ordenada e colectiva dessa moeda, que é cada vez mais a moeda da austeridade, da desigualdade e da pobreza, pelo menos para esses países.

O Euro só beneficia os bancos e a industria alemã  francesa e finlandesa, os paraísos fiscais do Luxemburgo e da Holanda, os satélites do espaço vital alemão do leste ( e neste apenas as suas elites, já que a maior parte da população vive de salários baixos e emprego precário).

Basta aliás olhar com atenção para o único índice mundial credível, o do Desenvolvimento Humano, anualmente publicado pela ONU, para se perceber que o euro não é a moeda da prosperidade humana.

Entre os 20 países mais desenvolvidos estão 11 europeus, destes 7 estão na União Europeia, mas apenas 4 no euro, a Holanda (em 4º), a Alemanha (em 6º), a Irlanda (em 11º), e a França (em 20º).

Tirando o caso peculiar da Irlanda, apenas os países do euro que beneficiam com o euro estão nesse “pelotão da frente”.

A Irlanda, apesar da sua posição, foi o país de topo que mais posições desceu ,três lugares  entre 2012 e 2013, data dos dados registados no último relatório da ONU, com a data de 2014.

Portugal ocupava o 41ª lugar, na cauda do “pelotão da frente”.

Aguardamos pela saída do relatório de 2015, com dados de 2014, para aferir melhor da situação reveladora de os países do euro só contarem com 4 países entre os 11 europeus do raking.

E já agora, os dois países europeus que lideram essa lista, a Noruega, no 1º lugar, e a Suiça, no 2ª, não só não têm euro, como nem sequer pertencem à União Europeia.

Mas há ainda outra situação. Dois países com euro estão no segundo pelotão dos países desenvolvidos, o que mostra as desigualdades no seio dessa moeda.

Também já se percebeu que a dívida é impagável por países como a Grécia, Portugal e Irlanda, porque a austeridade destrui as suas economias e fez regredir em décadas o PIB de cada um desses países, apesar de, em termos nominais, o conjunto da dívida daqueles três países ser menos de metade da dívida nominal da Alemanha (esta é de quase 3 biliões de euros…), Alemanha que, também aqui não cumpre os critérios de Mastricht, pois esta atinge quase 80% do seu PIB…

O pagamento da dívida, à qual países como Portugal e a Grécia foram obrigados a contrair para pagar os desvarios do sector financeiro, que vai ser paga pelos cidadãos desses países, só permitirá que se volte a viver nalguma “normalidade” económica, social e financeira lá para meados da década de 50 deste século, e isso se tudo correr bem e não for necessário contrair mais empréstimos, pois até lá o investimento e a economia vão continuar estagnados.

Ou seja, sem se começar a equacionar a saída do euro a breve prazo, países como Portugal, Grécia, Irlanda, Espanha, Itália e até a França vão estagnar durante décadas.

Por isso se qualquer político o tentar convencer que é possível continuar no euro sem aumento de austeridade, sem aumento da pobreza, sem estagnação do emprego, sem cortes salarias e nas pensões, sem degradação dos serviços sociais, educativos e de saúde, está a mentir.

A alternativa é, cada vez mais,  entre continuar no euro e no empobrecimento e na estagnação, ou começar a negociar, desde já, a melhor maneira de sair do euro…a não ser que se mudasse alguma coisa na estrutura dessa moeda…mas isto não interessa à Alemanha, aos seus satélites nórdico e do leste, ou ao corrupto sistema financeiro da Europa.

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