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quinta-feira, 27 de outubro de 2022

Uma Visita ao AMADORA BD


Até ao próximo domingo 30 de Outubro podem visitar a 33ª edição do AMADORA BD.

Podem ver AQUI, uma vesita a essse espaço.

domingo, 23 de outubro de 2022

O que me ensinou o Dr. Adriano Moreira

                               

                                                         (foto revista Sábado)

Aprendi a respeitar e tolerar “adversários” com o meu pai, mas foi ao cruzar-me, ao longo de um dia inteiro, com  o Dr. Adriano Moreira que aprendi, definitivamente, a praticar o respeito e a tolerância pelos que pensam politicamente diferente de mim.

Foi a altura certa aquela em que me cruzei como “Senador”, jovem como eu era, ainda imbuído de certezas e da “superioridade moral” das minhas convicções.

Nesse diz desfiz preconceitos, sem abdicar das minhas ideias, e tive o privilégio a assistir àquela que foi, talvez , a única aula de que me lembro daquele curso, uma aula sobre estratégia atlantista.

Adriano Moreira é daquelas figuras que sempre souberam estar à frente do seu tempo e nos ajudaram a construir uma democracia tolerante e nos convidam a cultivar todos os dias a procura da compreensão do mundo à nossa volta.

Faz falta a sua maneira sábia e abrangente de conhecer a realidade histórica que nos rodeia, alargando o horizonte para além do que o nosso “nariz” alcança.

Numa época dominada por fake news, imeditismos, parcialismo, propaganda, intolerância, pensamento único, a sua visão abrangente e sábia, se já era rara, torna-se agora uma perda irreparável.

Que descanse em paz.

terça-feira, 11 de outubro de 2022

“Apontamentos” para a História da Banda Desenhada em Torres Vedras

                                               

                             (proposta de capa, inédita, para o fanzine torriense Impulso)

A história da Banda Desenhada em Torres Vedras ainda está por fazer, pelo que registamos aqui apenas um breve apontamento que possa servir de base para que, futuramente, a  história da 9ª arte nesta cidade possa ser feita.

Convém, em primeiro lugar, que não se confunda a Banda Desenhada com o cartoon e a caricatura, nem mesmo com o cinema de animação, embora seja um “primo” próximo destas artes.

Em Torres Vedras existe uma boa tradição de caricaturistas e cartoonistas, pelo menos desde a edição do semanário humorístico “A Laracha”, editado pela primeira vez em 20 de Janeiro de 1929, do qual se editaram 10 números, onde aparecia uma caricatura por edição, a maior parte da autoria de Amílcar (Guerreiro), outras, em menor número, de Cruz Martins e de um tal Jacques.

Também o Carnaval de Torres foi um dos palcos onde se manifestou a veia artística, com recurso a caricaturas e cartoon´s, de muitos artistas torrienses, ao longo dos tempos, principalmente nos muitos folhetos de promoção dessa festa, tradição essa que conheceu o seu auge com a publicação da revista “O Barrete”, a partir de 1996.

Foi em 1996 se surgiu a primeira edição dessa revista independente do Carnaval de Torres Vedras, como alternativa à revista oficial e na sequência de um acto de censura sobre um carro de Carnaval num dos anos anteriores, da autoria da Associação de Defesa do Património e do Espeleo Clube de Torres Vedras e financiada pela RadioOeste.

Coube a estas duas associações o lançamento dessa revista, com uma tiragem de mil exemplares, impressa na Sogratol, uma revista de humor  com textos, banda desenhada e cartoon´s da autoria de vários autores locais que foram passando, com maior ou menor regularidade, pelas páginas dessa revista.

Foram fundadores Antero Valério, Daniel Abreu, José Afonso Torres, Jorge Delmar, José Eduardo Santos, Jorge Humberto Nogueira, José Pedro Sobreiro, Luís Fortes e Valdemar Neves, aos quais se deve juntar o trabalho do Carlos Ferreira, não referido nessa primeira edição, mas que foi um dos principais responsáveis pelo trabalho de sapa que está por detrás da construção de um projecto com este.

Aos fundadores foram-se juntando outros autores, ao mesmo tempo que alguns dos fundadores íam ficando pelo caminho.

Na última edição, a 19ª,  no ano de 2015 mantinham-se o Antero Valério, o Carlos Ferreira, o Jorge Delmar, o José Eduardo Santos e o José Pedro Sobreiro.

Joaquim Moedas Duarte (desde 2004), Joaquim Ribeiro (desde 2013), Luís Fili Rodrigues (desde 2005), Manuela Catarino (desde 2009) e Sérgio Tovar ( desde 2004) completam a equipa desta última edição.

A revista não foi publicada em 2001 e, em 2010, passou a ser patrocinada pela Promotorres. Desde 2011, a até 2015, foi editada apenas pela Associação do Património.

Para além dos nomes citados foram muitos os autores que passaram pelas suas páginas, com destaque para João Sarzedas (2006-2013),  Jaime Umbelino (1997-1999) ou José Almendro (1998-2007).

Colaboraram ainda, irregularmente, por vezes apenas numa ou duas edições,  a Ana Palma, o Carlos Bartolomeu, o Jordão Pereira, o Jorge Ralha, o João Camilo, o Vitor Alexandre, o Carlos Carneiro, o José Sanina, o Marcos Ferreira, o Venerando António, o Nuno  Raimundo, o Fernando Miguel, o Rui Matoso e o Tiago Ferreira.

(ver reprodução de todas as capas do Barrete AQUI)

Recentemente, um caricaturista torriense dessa revista, o professor José Sanina, viu uma caricatura sua selecionada para o World Press Cartoon de 2022.

Cartoon de José Sanina no World Press Cartoon 2022, Caldas da Rainha
Mas aqui estamos no domínio da caricatura e do cartoon, quando é da BD que pretendemos falar.

O que diferencia a BD do simples cartoon é a dinâmica da sua narrativa, numa sequência de imagens (fixas e bidimensionais, o que, por sua vez, a distingue do desenho animado), onde a fala dos personagens é representado dentro de um “balão” ou filoctera.

Embora chegassem regularmente a Torres Vedras alguns dos grandes títulos históricos da divulgação de BD, como o “Mosquito” (1936-1953), o “Diabrete” (1941-1951), ou o “Cavaleiro Andante” (1952-1962), entre muitas outras revistas de quiosque,  juntamente com as excelentes páginas dominicais do Primeiro de Janeiro (1948-1995), e quase todos os jornais publicassem diariamente “tirinhas” de BD, sem esquecer os suplementos como a  “Nau Catrineta” no Diário de Notícias (1964-1974) ou o “Pim-Pam-Pum” no Século (1925-1977), não encontramos qualquer BD publicada localmente ou por autores locais, antes dos anos 70.

Podemos referir uma única excepção, a publicação de umas “tirinhas”, com  as características gráficas da BD e o uso de balões, mas de tipo publicitário, da Casa Hipólito, no jornal do “Torreense” e no “Badaladas”, na década de 1950.

Tirinha publicitária à Casa Hipólito, de entre várias, publicada na década de 1950 na imprensa local (Jornal do Torreense e Badaladas)

Foi o aparecimento em Portugal da revista Tintin, em 1 de Junho de 1968, que contribui para o crescente entusiasmo do alguns jovens torrienses pela Banda Desenhada, tentando imitar o que liam produzindo “revistas” caseiras de exemplar único, dadas a ler à família.

Na edição portuguesa do “TinTin” destacou-se Vasco Granja como divulgador de uma nova forma de editar autores desconhecidos, ou que procuravam dar a conhecer as suas “obras”, entre o naif e o criativo, a edição de “fanzines”, situação facilitadas por novos processos tipográficos, mais simples e baratos, como o stencil, primeiro a álcool, com uma maquete em cera, depois electrónico.

o primeiro fanzine português

Essa técnica foi muito divulgada nas escolas, para reproduzir testes, e acabou por ser aproveitado para elaborar jornais escolares, onde se tornava possível a divulgação de Bandas Desenhadas amadoras.

Foi o que aconteceu em Janeiro/Fevereiro de  1971, no Liceu de Torres Vedras, com a publicação do jornal “O Padrão”, editado pelo “núcleo de jornalismo do Liceu Nacional D. Pedro V – secção de Torres Vedras”, ligado à Mocidade Portuguesa, o qual, nas duas primeiras edições, incluiu um suplemento, “O Padrão Ilustrado”, onde saíram 4 pranchas das “Aventuras de João Alfredo”, intitulando-se essa primeira, única e incompleta aventura “O Assalto ao Banco Nacional”, da autoria de Vaam.


Entretanto, nesse mesmo Liceu, cruzaram-se  vários entusiastas da revista TinTin e da BD, que seguiam com atenção o crescente movimento de fanzines.

Em 1972 surgiu o primeiro fanzine português de BD, o Argon e, em 6 de Janeiro de 1973, nascia o fanzine “Impulso”, editado pelo Liceu de Torres Vedras, usando a técnica do stencil electrónico, recorrendo aos recursos técnicos da escola para a reprodução de testes.

Expansão dos fanzines em Portugal deveu-se também a um certo abrandamento da censura, fruto da chamada “primavera marcelista”.

Quando da edição do Impulso apenas se editavam mais 4 fanzines em Portugal, para além do pioneiro “Argon”, editavam-se o “Quadrinhos”, o “Copra” e o “Saga”.


Neles publicavam-se críticas e noticias sobre o mundo da BD, bem como trabalhos originais de autores portugueses.

Em Janeiro de 1973 editavam-se em Portugal quatro revistas de BD com edição regular : para além do já citado Tintin, existiam o “Jornal do Cuto”, o “Jacto” e o “Mundo de Aventuras”.

Por sua vez, na imprensa editavam-se suplementos semanais colecionáveis de BD, como os citado “Quadradinhos”, “Pim-Pam-Pum” e “Nau Catrineta”.

O grupo que esteve na origem da edição do Impulso tinha em comum, para além da amizade pessoal, escolar e de vizinhança, de longa data entre alguns dos seus membros, o gosto pela leitura de Banda Desenhada e o desejo de editar aquilo que, de forma por vezes muito naif, cada um de nós ía fazendo.

A edição do “Impulso” contou com o apoio do então reitor do liceu, o Dr. Semedo Touco, homem liberal e compreensivo, e que nos garantiu, não só o suporte técnico, mas também o suporte financeiro para a edição desse fanzine, sem nunca ter intervindo nos conteúdos deste.

O fanzine tinha uma tiragem média de 150 exemplares e um custo de cerca de mil escudos (cinco euros) por edição, dois terços dos quais eram suportados pela escola e o restante pelas vendas. Inicialmente o “Impulso” vendia-se ao preço unitário de dois escudos e meio (pouco mais de …um cêntimo), mas o seu preço foi subindo ao longo do ano, 3$50 a partir do nº3, 5$00 a partir da 4ª edição.

Fizeram parte da equipa do “Impulso” o Vaam, o seu irmão Mário Luis, o Carlos Ferreira, o João Nogueira (Janeca), o Mário Rui Hipólito, o Manuel Vilhena, o Calisto,  o José Eduardo Miranda Santos (Zico), este exterior à escola mas amigo dos restantes, e que possui uma das mais variadas e extensa colecções de álbuns  e revistas de BD que todos liam avidamente.

Ao grupo de vizinhos e amigos de longa data, juntaram-se dois prometedores autores de BD, o Joaquim Esteves e o Antero Valério, sem dúvida os que, de todos nós, possuíam melhores qualidade artísticas. Mais tarde juntaram-se à equipa o Jorge Barata e o António Trindade.

O Carlos Caetano também andou com o grupo, mas acabou por não integrar a colaboração.

 Entretanto começaram a colaborar, nuns casos com textos sobre BD, noutros com desenhos, outros amigos de outra regiões do país, como o José de Matos-Cruz,  o Carlos Pessoa, o Jorge Magalhães, o Al Bonjour,  o Carlos Nina, o A. Vilarinho e a Maria Clara.

Alguns membros do Impulso, num encontro na década de 90 do século XX. Da esquerda para a direita, Joaquim Esteves, João Nogueira, Antero Valério, Vaam, e Mário Rui Hipólito

Encontro de "fanzinistas" torrienses, do Impulso, do Aleph e do BêDêzine, em 2014 [Da esquerda para a direita, de baixo para cima: no primeiro degrau, de casaco vermelho, o Mário Rui Hipólito, ao lado o Vaam, no segundo degrau, de óculos, o José Manuel Bastos, o José Eduardo Sapateiro (Zico) e, de camisa branca, o Calisto Ferreira. Atrás, de barbas brancas, o Joaquim Esteves e o Fernando Sarzedas e, sentado ao lado deste, o Mário Luís Matos. Depois, de pé, de camisola às riscas vermelhas, o Emílio Gomes, o Antero Valério e o Carlos Ferreira. Ao lado destes, sentado, o Manuel Vilhena e, de camisola verde, encostado à parede, o João Nogueira (Janeca)] (ver mais AQUI)

Do Impulso foram editados 5 números ao longo de 1973, feitos com a “revolucionária” tecnologia de então , o “stencil electrónico”, existente no liceu para a feitura dos testes escolares, contando então com a preciosa colaboração do Emílio Gomes que dominava essa tecnologia e ensinou a todos o seu uso.

Como todos se envolveram na vida associativa e política em 1974 e 1975, só voltaram, e pela última vez, a editar o “Impulso” em 1976, agora financiado pelo Cine-clube de Torres Vedras.

Refira-se ainda que, em finais de Outubro de 1976, a equipa do Impulso organizou a primeira exposição de BD realizada em Torres Vedras e uma das primeiras no país, integrada no 8º Encontro Nacional de Cine-Clubes.

Em Janeiro de 1973, o mais velho do grupo tinha 16 anos, quase 17,  e os mais novos tinham cerca de 11 anos.

(Ver mais sobre o Impulso AQUI).

Nas suas páginas surgiu também a primeira entrevista conhecida com Vasco Granja, dirigida pelo “Zico”, e que gerou alguma polémica com o fanzine “Aleph”.


Caricatura do grupo do Impulso publicada no Aleph, da autoria de João Sarzedas.


Da equipa do Impulso, apenas o Antero Valério acabou por se notabilizar como autor de BD, muito activo com a edição de um blog  Anterozóide, e, actualmente com  uma página do facebook, Facetoons, dedicados à divulgação dos seus cartoons.

Em Novembro de 2008 o Antero Valério editou o livro de cartoon´s e banda desenhada “Como se tornar um docentezeco”, reunindo a sua abordagem critica à acção da ministra da educação Maria de Lurdes Rodrigues, cartoon´s que mereceram reprodução em cartazes de manifestações de professores realizadas nessa época.


Em Fevereiro de 2022 o mesmo Antero Valério editou "Diário de uma Matrafona".

Em 1985, desta vez patrocinada pela Cooperativa de Comunicação e Cultura, alguns elementos da mesma equipa organizaram uma nova e mais elaborada Exposição de Banda Desenhada, com  a pomposa designação de  1º Salão de Banda Desenhada de Torres Vedras, realizado  entre 14 e 22 de Dezembro desse ano.

Nessa ocasião foi editado um número único de um novo fanzine torriense de BD, o “Bêdêzine”, editado pela Cooperativa de Comunicação e Cultura.

Esse número foi organizado pelo Vaam, pelo Esteves, pelo Antero e pelos irmãos Sarzedas, João e Fernando, estes dois ligados também ao movimento dos fanzines, no “Aleph”, e contou com a publicação de trabalhos originais da autoria de "Ruca" (Rui Cardoso), autor da Azambuja, ligado ao fanzine "Rumo", Humberto Leonardo, autor natural da Encarnação de Mafra, do torriense José de Sousa Bastos e do Antero.
Alguns dos responsáveis pelo "BêDêzine" e pelo "Salão de BD de T. Vedras de 1985. Da esquerda para a direita, Vaam, Jorge Delmar (Quinha), Joaquim Esteves e João Sarzedas.
Imagem de uma das salas do Salão de BD, nas primeiras intalações da CCC, Galeria Nova, no Convento da Graça.

José Basto publicava, nesse ano de 1985, uma BD humorística no suplemento “Espaço Novo” do jornal “Badaladas”.

A capa desse número Zero do “BêDêzine” foi da autoria do consagrado autor nacional Arlindo Fagundes e contou ainda com a colaboração de um histórico da BD nacional, o José Ruy, este com um texto sobre a condição de autor de BD em Portugal e um desenho original .

Uma pequena menção a João Sarzedas, nascido em Lisboa em 9 de Fevereiro de 1943, mas que se estabeleceu profissionalmente em Torres Vedras em 1979, falecendo em 27 de Julho de 2013.

Com o seu irmão Fernando, colaborou activamente como cartoonista e autor de BD nos dois primeiros números do fanzine Aleph, editados ainda antes do 25 de Abril, respectivamente em Julho de 1973 e Março de 1974.

Era um apaixonado pela Banda Desenhada e pelo cartoon, artes que desenvolveu ao longo da sua vida, dedicando-se profissionalmente às artes gráficas.

Ainda antes do 25 de Abril, e no período imediatamente a seguir, colaborou em várias outras publicações, como o Jornal do Exército, ou no famoso suplemento humorístico do Diário de Lisboa, "A Mosca", e numa revista feminina liderada por jornalistas como Helena Neves e Fernando Dacosta.

Em Abril de 1974 editou o seu primeiro livro de banda desenhada, “Luz Verde Para Tuntas”.

Motivos profissionais levaram-no a estabelecer-se em Torres Vedras em 1979, onde criou um atelier de serigrafia e de venda de artesanato gráfico da sua autoria, "Boom Serigrafia".

Em Torres Vedras continuou a dedicar-se à sua actividade preferida, o cartoon e a Banda Desenhada, que repartiu como outra paixão sua, a actividade policiária e charadista, sendo membro da Associação Policiarista, tendo realizado várias ilustrações e mais de 50 capas do orgão oficial daquela associação, "Célula Cinzenta".

Foi colaborador nos jornais Badaladas e Frente Oeste, fez parte da organização da já mencionado Exposição de Banda Desenhada de Torres Vedras, realizada em finais de 1985, e co-responsável pela edição do fanzine “BêDêzine”.

Foi contudo na já mencionada revista “O Barrete” que evidenciou todas as suas qualidades enquanto cartoonista e autor de Banda Desenhada.

Vítima de doença prolongada, ainda teve tempo para deixar pronto o livro de cartoon´ intitulado "Sorria com Eólicos na Paisagem" é editado a título póstumo em 7 de Fevereiro de 2015, que tem como temática uma realidade muito marcante na zona oeste, a profusão de moinhos eólicos, numa região com uma longa tradição de moinhos e azenhas para moer o trigo.

edição a título póstumo do último projecto de João Sarzedas
A arte de João Sarzedas, a sua simplicidade e irreverência, sem cedências à sociedade de consumo e profundo respeito pela cultura local, marcaram profundamente todos aqueles que tiveram o privilégio de o conhecer e com ele conviver.

Recorde-se ainda que, entre 20 de Junho de 1975 e o início de 1976, se publicou, durante cerca de 30 semanas, uma série de “tirinhas” de Banda Desenhada, nas páginas do jornal local de Torres Vedras "Oeste Democrático", intitulada “Rei Minimus” da autoria de Vaam.

Também o jornal “Área” publicou, regularmente, em 1979, uma BD da autoria de Jorge Delmar, com argumento de Mário Luís Matos.

Regularmente, a partir dessa década de 1970, encontram-se várias bandas desenhadas em jornais escolares editados pelas escolas locais.

Recorde-se ainda que, em 2008, a Banda Desenhada foi o tema escolhido para o Carnaval de Torres Vedras desse ano:





Recentemente editaram-se dois álbuns de BD de autores torrienses ou por cá radicados, como “As Aventuras do Matame – o super-herói do carnaval torreense”, com argumento de Fred Zombie, personagens de David Cara-Nova e desenhos de Filipe Branco, e “Homo-Inventor – Quando o Homem se Pôs a Inventar”, da autoria de um professor de português numa escola torriense, Lança Guerreiro, consagrado autor da nova geração de autores portugueses, uma edição da Escorpião Azul, editora da Lourinhã, de Outubro de 2019.



Existe assim uma tradição de autores e amadores  de BD em Torres Vedras, e seria interessante criar uma bebeteca nesta cidade, integrada num dos vários espaços já existentes,, aproveitando muitas colecções privadas existentes em Torres Vedras, uma delas, uma das melhores a nível nacional, na posse dos herdeiros do grande colecionados, já falecido, sr. Aurélio Lousada (ver AQUI, reportagem sobre esse espólio).

Seria igualmente interessante comemorar o cinquentenário do fanzine Impulso, em 2023, com a reactivação da organização regular de “Exposições”, “Encontros” ou salões de BD.

quinta-feira, 6 de outubro de 2022

World Press Photo - Parque dos Poetas, Oeiras, até 16 de Outubro


Até ao próximo dia 16 de Outubro podem visitar a exposição World Press Photo de 2022, no Parque dos Poetas, uma original exposição ao ar livre num dos melhores espaços verdes urbanos da grande Lisboa.

Vejam reportagem fotográfica da exposição AQUI.

quarta-feira, 21 de setembro de 2022

21 de Setembro - Dia Internacional da Paz

                                     
Não deixa de ser tragicamente irónico que hoje, dia 21 de Setembro, seja o “Dia Internacional da Paz”, declarado como tal pala ONU, exactamente no dia em que só se fala em guerra, devido a mais um panfletário e belicista discurso do ditador Putin.

A minha esperança é que o feitiço se vire contra o “feiticeiro” (Putin) e o povo russo se levante de vez contra a guerra.

O grave é que os povos, muitas vezes, levam tempo a acordar, como aconteceu em Portugal, onde só “acordou” após 13 anos de uma guerra injusta, e não se pode estar tanto tempo à espera que os russos “acordem, até porque, o que se perfila para substituir Putin é ainda pior.

Além disso, o agravante da situação actual é que estamos a falar de uma potência nuclear.

Claro que o discurso belicista do outro lado também tem ajudado à festa, principalmente por parte da NATO e dos Estados Unidos, que aproveitam a situação para “vender” o seu “produto” e “entalar” a União Europeia.

Pior ainda, a dificuldade em resolver esta situação é que esta guerra não pode ter vencedores nem vencidos, mas também não pode acabar a beneficiar o infractor (a Rússia de Putin).

No meio disto, as únicas personagens com “tino” e capazes de fazer alguma coisa pela humanidade (o papa Francisco e o secretário-geral da ONU, António Guterres) não têm qualquer poder de intervenção.

Paradoxalmente, a “esperança” de pôr cobro ao conflito e evitar mais destruição reside em países como a China e a Turquia, ambos governados por regimes ditatoriais e autocracias que não são muito mais recomendáveis do que o regime criado por Putin.

No fundo, no fundo, deviamos continuar a insistir na defesa da paz, mas uma paz que não pode ser defendida à custa da Ucrânia e do seu povo.

A “curva” está cada vez mais apertada, mas costuma-se dizer que é nas “cusrvas apertadas” que surgem os grandes “condutores”.

Não vislumbro nenhum “condutor” capaz de ultrapassar a “curva”, mas cada um de nós pode tentar dar uma “forcinha” na defesa da paz, para que, mesmo em tempo de guerra, não se perca de vista esse grande objectivo da humanidade ou, depois da “guerra”…não haverá humanidade!

terça-feira, 20 de setembro de 2022

Quem tem põe…quem não tem tira (ou – estão-me a ir ao bolso!)

Pessoa amiga, que conhecia alguém que frequentava uma “igreja” evangélica local,  contou-me que esse alguém lhe contou que, no final da “missa”, o “padre” circulava pela “igreja”, com um cesto na mão, a apregoar: “quem tem põe [dinheiro], quem não tem tira”.

Até que, certo dia, alguém resolveu tirar dinheiro do cesto, sendo imediatamente interpelado pelo “padre”, que, fixamente frente a essa pessoa ía repetindo “quem tem põe, quem não tem tira!”, ao que essa pessoa replicou : “mas eu não tenho (dinheiro), por isso estou a tirar!”.

Recebeu de imediato resposta do “padre”: “mas agora tem e por isso tem de pôr o que tirou”.

É assim que eu, como pensionista, me tenho sentido em relação ao actual debate sobre a actualização das pensões.

Tendo antecipado a minha reforma há 8 anos, depois de vários anos com cortes frequentes no ordenado, por imposição da “troika” e do “brutal” aumento de impostos do passos-coelhismo, recebi uma reforma que foi metade daquele que me garantiram quando comecei a trabalhar, com a agravante de ter sido empurrado para essa decisão, para não perder ainda mais e de, mesmo reformado, pagar de IRS e ADSE muito mais do que estava previsto, de acordo com a lei que ainda estava em vigor nos últimos anos da minha carreira.

Até, certo ponto, tudo bem, foi uma decisão minha, fiz contas ao que podia cortar, mas acreditava que a lei iria ser cumprida e não ía, mesmo com o rendimento mais baixo do que aquele que previa a poucos anos do final da carreira, perder o poder de compra que essa pensão me garantia.

Infelizmente vivemos no país onde a lei só é cumprida para “tramar” os cidadão e beneficiar o Estado e os poderosos, pois, quando essa lei beneficia o cidadão comum ( o que trabalha ou vive da pensão), logo se arranjam mil e um argumentos, ou para a não cumprir ou para mudar a lei, geralmente com efeitos retroactivos, se for para tramar o cidadão.

Ora é isso que se passa com a situação da actualização das pensões.

Os cortes que sofremos nos cálculos das pensões, de acordo com a lei de 2005,  são para toda a vida,  mas a lei que calcula a actualização das pensões já não conta para toda a vida.

Desde que me reformei, há 8 anos, a minha reforma nunca foi actualizada, como previa a lei, com o recurso às mais variadas desculpas “económicas”. A primeira vez em que havia possibilidade de cumprir a lei, como acontece agora, esta só é cumprida pela metade, falando-se até na sua alteração para “beneficiar o infractor”.

Note-se que a desculpa para não cumprir a lei, que é a de seguir as recomendações da União Europeia para não aumentar salários nem pensões de acordo com a inflação, não é seguida no que respeita às carreiras dos funcionários da União Europeia, como se lia ontem no artigo “A reforma encapotada da segurança social” do economista Ricardo Cabral, no jornal Público:

“Sabe-se que a Comissão Europeia recomenda aos governos dos Estados- membros que não indexem os salários dos funcionários públicos [ e as pensões] à taxa de inflação, para evitar uma “espiral inflacionista”. No entanto, de acordo com a revista Politico, os funcionários da Comissão Europeia (baseados na Bélgica e no Luxemburgo) vêem os “salários ajustados anualmente para compensar aumentos do custo de vida. Mas este aumento pode ocorrer duas vezes por ano e ser aplicado retroactivamente, se a taxa de inflação sobe acima dos 3% no período de referência, que foi o que ocorreu (…). A indexação é corrigida das alterações ao poder de compra de funcionários públicos em dez Estados-membros da União Europeia”, que perderam 1,1% do poder de compra nesse período (esses dez países não incluem Portugal). Assim, em Junho de 2022, os salários dos funcionários da Comissão Europeia foram aumentados em 2,4%, retroactivamente a janeiro de 2022. E serão aumentados de novo em dezembro de 2022”.

Assim é fácil à União Europeia pedir “sacrifícios” aos seus cidadãos e apoiar o discurso ilegal dos governos em relação à reposição do poder de compra dos trabalhadores e pensionistas.

Não sei porquê, mas tudo isto me faz lembrar a anedota com que comecei esta crónica.

segunda-feira, 12 de setembro de 2022

Russofobia, a xenofobia dos “democratas” e “intelectuais” “ricos”, "politicamente correctos".

                                 

Responder à criminosa invasão da Ucrânia, pelo exército de Putin, com russofobia é um mau serviço prestado a uma boa causa, a do direito de defesa da Ucrânia, como país soberano.

Infelizmente é isso que se tem assistido como “arma” de combate contra Putin, confundindo o ditador russo com o povo russo e a sua cultura.

Podemos perceber a raiva dos ucranianos, mas já não podemos perceber que essa raiva seja alimentada, de forma disparatada, pelos seu líderes políticos e, ainda menos, pelos aliados da causa ucraniana (alguns desses “aliados” alimentaram a máquina de guerra russa, aceitaram chorudos negócios como oligarcas russos e ainda beneficiam do gaz e do petróleo russo!!!)..

Ainda menos percebemos o alinhamento da União Europeia e das suas lideranças com esse tipo de discurso e atitude.

Aliás, proibir cidadãos russos de se deslocarem ao “ocidente” é uma forma de os manter sujeitos à propaganda de Putin. Saindo do país, mesmo que em turismo, pelos contrário essa era uma oportunidade desses cidadãos ficarem a conhecer outras versões do que se passa na Ucrânia, podendo divulga-las, quando regressassem ao país, contribuindo para desacreditar a versão que Putin tenta vender na sua comunicação social.

No caso português até temos um bom exemplo para “não ir na cantiga” da perseguição de tudo o que é russo.

Nos anos 60 e início dos de 70 do século passado, o ditador português, Salazar, incapaz de ver os sinais dos tempos ( e deles foi avisado por gente que lhe era fiel, como Marcelo Caetano ou Adriano Moreira), foi incapaz de resolver o problema colonial, envolvendo o país numa guerra sangrenta e criminosa, condenada por grande parte da comunidade internacional, nomeadamente na ONU.

Se a atitude dos países democráticos, que condenavam a Guerra Ultramarina, fosse a mesma que hoje tomam em relação aos russos, os nossos emigrantes, em França, na Alemanha, na Suíça, no Canadá, teriam sido perseguidos e intimidados pelos governos, pela imprensa e pelos cidadãos desses países, recordando que a maior parte dos emigrantes eram apolíticos e alguns até apoiariam o regime de Salazar e a Guerra Colonial.

A diferença é que, nesses tempos, tínhamos o “ocidente” governado por grandes líderes, que sabiam distinguir valores, e hoje ele é governado por figuras liliputianas, incultas, apenas preocupadas com audiências televisivas e as "opiniões" nas redes sociais.

Não deixa também de ser curioso que, muitos dos que não se cansam, e bem,  de perorar contra atitudes xenófobas, são os mesmos que argumentam, com a mesma veemência, defendendo atitudes russófobas.

Percebe-se assim que a sua critica à xenofobia não passa de uma atitude de puro oportunismo, para “parecer bem” e alinhar com o “politicamente correcto”, mas, perante os russos, duplamente vítimas do ditador Putin e da “perseguição” do “ocidente”, esses “líderes” , “pensadores” e “influenciadores” quebram o verniz e são xenófobos como aqueles que criticam.

No fundo, no fundo, a russofobia é a xenofobia dos ditos “democratas” ricos e “livres pensadores”.

sábado, 10 de setembro de 2022

Isabel II - Uma Rainha “arrastada” pela História

Roubei o título a um cartoon de Luís Afonso, do Público de 9 de Setembro.

Podia acrescentar ao título que …e nós arrastados com ela!.

De facto, pertenço à geração que nasceu com Isabel II como rainha e chegou aos dias de hoje, nos primeiros anos da “terceira idade”, a tê-la como referente de quase 70 anos.

O meu primeiro “contacto” com a rainha começou quando colecionava selos, onde encontrava o seu perfil desenhado em muitos deles, ainda antes de saber quem era aquela figura.

Penso que, tal como se dizia no século XX em relação à Rainha Vitória, que, nascida em 1819, reinou de 1837 a 1901, e marcou a chamada era vitoriana, ou a geração vitoriana, a minha geração vai ficar conhecida por “geração isabelina”.

São raras as figuras mundiais que sirvam com “referentes” para caracterizar o “tempo longo”, o tempo que vem do final da 2ª Guerra até aos nossos dias (do início da 3ª Guerra??).

Não sendo monárquico, considerando até que a monarquia é uma aberração dos tempos modernos, penso, contudo, que a monarquia “só ficava bem”, num sítio, na Inglaterra, talvez porque pertenço à geração que, vendo desaparecer várias referências históricas e assistindo a uma evolução histórica vertiginosa, sem igual na História humana, via na Rainha de Inglaterra uma espécie de referente seguro de continuidade e…”estabilidade”.

Não deixa de ser um mau presságio que essa referente nos deixe neste momento, quando a humanidade enfrenta várias ameaças, da Guerra atómica total aos caos ambiental.

É também um mau presságio para a Europa, mas principalmente para a Grã-Bretanha, que Isabel II nos tenha deixado dois dias depois da tomada de posse da nova governante britânica Liz Truus, figura patética, desonesta, oportunista e malformada, uma espécie de Trump de sais, para pior.

Também não deixa de ser de mau presságio que o novo rei se intitule Carlos III, pois os dois Carlos anteriores não tiveram um final feliz. O primeiro, reinando em clima de guerra civil, acabou executado. O Segundo Carlos, esteve exilado no inicio do seu reinado, então dominado pelos “republicanos” de Cromwell . Ao regressar marcou o seu reinado com graves conflitos com o parlamento, chegando mesmo a governar em ditadura. Enfrentou grandes pestes no seu reino e o célebre incêndio de Londres. A causa da  sua morte ainda hoje é motivo de debate, defendendo alguns que foi envenenado. Fica também para a história o seu casamento com Catarina de Bragança, filha de D. João IV, a única rainha inglesa nascida em Portugal.

Para já, seja qual for o futuro da monarquia inglesa, a “Época Isabelina” fica marcada por grandes acontecimentos e transformações históricas e será a referência comparativa com a época pós-Isabel II.

quarta-feira, 7 de setembro de 2022

Bem-Vindos à defesa das “Causas Justas”.

A propósito da defesa da justa causa Ucraniana, contra a criminosa invasão russa de um país soberano, tenho encontrado, muitas vezes pela primeira vez ao longo da minha vida, muita gente que não costumo encontra a defender “causas justas”.

Entre os mais velhos, muitos nunca os encontrei a criticar a criminosa Guerra, francesa primeiro, norte-americana depois, do Vietname.

O mesmo posso dizer em relação à condenação dos crimes da França na guerra de independência da Argélia, ou dos muitos crimes do “ocidente” nas mais variadas guerras coloniais do século XX.

Também houve muitos que nunca encontrei a condenar a Guerra Colonial portuguesa. Alguns até tenho visto por aí a justifica-la e até a negar os crimes de guerra nela cometidos.

Também não têm sido vistos a defender a causa palestiniana contra o Estado cada vez mais criminoso de Israel (assim considerado recentemente pela Amnistia Internacional).

Quando da criminosa e ilegal invasão do Iraque, com as consequências conhecidas, ou dos criminosos bombardeamentos da NATO na Sérvia, ou dos crimes cometidos por tropas ocidentais no Afeganistão ( e para nada, como se viu recentemente com o regresso dos fanáticos Taliban´s ao poder), ou da violentíssima Guerra do Iémen, liderada pelo grande aliado norte-americano no Médio Oriente, o criminosos regime da Arábia Saudita, com armas ocidentais, também nunca os vi por aí.

Nem os vejo na defesa do povo curdo, usado como moeda de troca pela NATO para que a Turquia aceite a entrada da Finlândia e da Suécia nessa organização.

O mesmo posso dizer quanto à ausência da qualquer sinal de indignação em relação às intermináveis guerras africanas, alimentadas pelos mais variados imperialismos (Chinês, russo, norte-americano, francês, inglês…) e pelos tão endeusados “mercados financeiros” e da industrias do armamento (aliás, até há pouco, foram as industrias de armamento ocidental que alimentaram a máquina de guerra de Putin).

Sim, já sei, para muitos de vocês o “ocidente”  não comete crimes de guerra, apenas “danos colaterais”!

Mas ainda bem , estou feliz por, finalmente, ver muitos de vocês a abraçar uma causa justa,  a justa causa da defesa do povo ucraniano contra a criminosa invasão russa.

Como o crescimento do belicismo internacional nos leva a temer, esta não é nem vai ser a única guerra injusta das próximas décadas ( se é que, em pleno século XXI, existem “guerras justas”!!), e, por isso, espero continuar a vê-los indignados com as próximas guerras e próximos crimes de guerra, venham eles de onde vierem.

Bem-vindos pois à defesa das boas causas!