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quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Recordar Pete Seeger - 4 - Pete Seeger recordado em cartoon´s













Recordar Pete Seeger - 3 - Como eu, com a "ajuda" de Ruben de Carvalho, recordo"aquela noite" em Lisboa:

Recordo-me bem daquele memorável noite, já lá vão...trinta anos e um mês (!!!).

O Pavilhão dos Desportos (hoje Carlos Lopes) estava a abarrotar.

fã de longa data de Pete Seeger, foi a realização de um sonho poder vê-lo ao vivo.

Lembro-me também de Pete Seeger, que se apresentava em palco com toda a humildade que o caracterizou em vida, mas ainda com uma voz forte e firme, ter aproveitado para homenagear o Zeca Afonso que se encontrava na primeira fila, já doente, e que se levantou com alguma dificuldade. 

Foi a última vez que eu, e muitos dos presentes, vimos o Zeca, que morreria pouco mais de quatro anos depois.

Do concerto resultou um LP duplo, que eu comprei assim que saiu, e, mais tarde um CD com um livro de fotografias e uma biografia de Pete Seegar, que também  adquiri religiosamente alguns anos depois.

Foi ainda com uma felis surpresas que pude ver o reaparecimento de Pete por ocasião da cessão comemorativa da tomada de posse do presidente Obama.

Aqui vos deixo a descrição desse concerto por um dos  responsáveis por esse grande concerto que ficou na memória musical de todos a que ele assistiram:


"Ruben de Carvalho recorda concerto "memorável" de Pete Seeger em Lisboa

in Lusa e Blitz on-line de 29 de Janeiro de 2014:

"Em 1983, o músico norte-americano que hoje faleceu tocou em Lisboa, "a pedido" de figuras como Sérgio Godinho. Do espetáculo esgotado nasceu um álbum ao vivo.

"O músico norte-americano Pete Seeger, que morreu na segunda-feira aos 94 anos, deu em 1983 um concerto "memorável" em Lisboa e que ficou registado em álbum, recordou à Lusa Ruben de Carvalho, um dos promotores do espetáculo.

"Considerado uma das figuras primordiais do folk norte-americano, Peter Seeger fez da canção uma arma de ativismo social e político, juntando-se a vários movimentos cívicos pelos direitos humanos ao longo do século XX, contra a opressão e a guerra.

"A 02 de dezembro de 1983 atuou no Pavilhão dos Desportos de Lisboa, para uma plateia que esgotou os bilhetes "num ai, em dois dias", e o concerto acabou por ser editado em álbum, acompanhado de um pequeno livro e um folheto com fotografias.


Ruben de Carvalho recorda concerto "memorável" de Pete Seeger em Lisboa -


"Fizemos várias tentativas para trazer o Pete Seeger a Portugal e conseguimos depois de lhe ter escrito uma carta. Criámos uma comissão, com João Paulo Guerra, José Jorge Letria, Daniel Ricardo e o Sérgio Godinho", recordou Ruben de Carvalho, antigo jornalista e membro do Comité Central do PCP.

"Ruben de Carvalho, responsável pelo ciclo "Hootenanny", de blues e folk, na Culturgest, afirmou ainda que na altura do concerto conseguiu convencer Pete Seeger a não atuar sozinho em palco, tendo contado com as participações de Júlio Pereira, Zé da Ponte e Guilherme Inês.

"Houve ainda uma projeção de "slides" com as letras das canções numa tela com imagens criadas pelo artista plástico Rogério Ribeiro.

"Não tínhamos pensado em gravar o concerto, mas o ambiente era tão simpático que se conseguiu reunir condições para isso", disse.

"Por essa razão, pela adesão do público - que Pete Seeger iria recordar noutras ocasiões - Ruben de Carvalho tem na lembrança "uma coisa verdadeiramente memorável. Foi uma coisa gloriosa".

"Ruben de Carvalho admitiu ser um enorme fã da família Seeger ("já cá trouxe o irmão Mike Seeger e o sobrinho Anthony Seeger"), descrevendo Pete Seeger como "um exemplo de firmeza ideológica", um nome fundamental "de toda uma geração que fez parte da folk".

"Juntamente com Woody Guthrie, foi um dos responsáveis pela divulgação da música folk norte-americana, assinando canções como "Where Have All the Flowers Gone?", "If I Had a Hammer (The Hammer Song") e "Turn, Turn, Turn", e interpretando temas como "We Shall Overcome".

"Tocador de guitarra, ukulele e banjo (instrumento no qual tinha gravada a frase "Esta máquina cerca o ódio e força-o à rendição"), Peter Seeger participou em 2009 no concerto de celebração da eleição de Barack Obama como presidente dos Estados Unidos, interpretando, ao lado de Bruce Springsteen e do neto Tao Rodríguez-Seeger, a canção "This land is your land", de Guthrie.

"Os 90 anos do músico foram celebrados no Madison Square Garden, em Nova Iorque, com um concerto em que Bruce Springsteen o apresentou como "um arquivo vivo da música americana e da sua consciência, um testemunho do poder da música e da cultura".

"Alinhamento do disco Pete Seeger Ao Vivo em Lisboa (gravado a 2 de dezembro de 1983).

1 Introdução Ao Espectáculo
2 Union Maid
3 Guantanamera
4 Italian Flute
5 I Come And Stand At Every Door
6 We Shall Overcome
7 Wasn't That A Time
8 Christo Ya Nació
9 Well May The World Go
10 This Old Man
11 We Shall Overcome"



Recordar Pete Seeger - 2 - Pete Seeger em Portugal , recordado por Nuno Pacheco (Público)


"Pete Seeger em Lisboa, numa noite febril de 1983



"Foi no dia 2 de Dezembro de 1983 e havia uma enorme ansiedade para ver Pete Seeger. Sim, vê-lo a cantar de perto, porque ouvi-lo já todos o tinham ouvido. Dos discos, da rádio, da lenda que ele nobremente tecera numa mistura de brio e humildade. Não era uma vedeta nem queria sê-lo, era um porta-voz de ansiedades, de histórias, de poemas, de vidas alheias, de alegrias e de imperativos de justiça.

"No Pavilhão dos Desportos (mais tarde Carlos Lopes) a gente era muita e o som era mau, mas ninguém se importou com isso. Quando Seeger, então com 64 anos, chegou ao palco, foi recebido com uma tempestade de aplausos. “Faltava-nos Pete Seeger”, declarava por escrito a comissão encarregada de organizar o concerto, como se fosse uma cimeira ou convénio. E deixou de faltar.

"No palco, ele fez o que melhor sabia: cantar histórias. De vida, de esperança, também de morte – uma outra forma de reacender a esperança. Cantou canções dele próprio e de Woody Guthrie, José Martí, Carlos Mejía Godoy ou de Nazim Hikmet (por sinal o poema onde o poeta turco dá voz ao fantasma de uma menina morta em Hiroxima).

"Ouvimos Guantanamera, Union maid, Wasn’t that a time, Christo ya nasció, Well may the world go, We shall overcome e muitas outras canções feitas hinos. E nunca ao longo da noite na sala se fez silêncio, fosse com palmas sincopadas ou coros desafinados, todos queriam participar. Afinal, estava ali Pete Seeger. E que outra oportunidade  haveria de voltar a cantar com ele? Nenhuma.

"Dessa noite ficou um bom disco (LP, mais tarde reeditado em CD) e um bom livro. E ficou a memória de uma noite de festa, ansiosa, febril, por algo indistinto a que poderíamos chamar futuro. E era já passado".

Recordar pete Seeger - 1 - :Biografia de Pete Seeger, por Mário Lopes (Público)


"Morreu Pete Seeger, o decano da folk americana

Por Mário Lopes 
"O autor de If I had a hammer, activista que atravessou todas as convulsões do século XX, morreu aos 94 anos em Nova Iorque.

"Pete Seeger, o decano da folk americana, o activista pelos direitos civis e pela ecologia, morreu de causas naturais, disse a família ao New York Times, na manhã de segunda-feira no Hospital Presbitariano em Nova Iorque, onde estava internado há seis dias. Tinha 94 anos.

"Um dos grandes responsáveis pela transmissão do conhecimento sobre a música de raiz americana aos seus compatriotas, autor de Turn turn turn, If i hada a hammer  e responsável pela popularização enquanto hino de We shall overcome, Pete Seeger atravessou todas as convulsões do século XX e as do início deste em que vivemos actualmente. Sempre presente. Como nota em obituário o Washington Post, cantou contra o terror de Hitler, nas décadas de 1930 e 40, opôs-se à utilização da energia nuclear, foi incluído na lista negra do McCarthismo na década de 1950, juntou-se, na década seguinte, aos movimentos pelos direitos cívicos liderados por Martin Luther King e aos protestos dos estudantes americanos na década de 1960, e, já nonagenário, fez questão de marcar presença nas mais recentes manifestações Occupy Wall Street: “Desconfiem dos grandes líderes”, declarou nesse contexto à Associated Press, em 2011. “Desejem que existam muitos, muitos pequenos líderes.”

"Companheiro de estrada de Woody Guthrie no início de carreira, com influência marcante na ascensão de uma figura chamada Bob Dylan (foi ele que o recomendou a John Hammond, que o contrataria para a editora Columbia), Pete Seeger era, como titula o obituário do Los Angeles Times, “a consciência da América”. Várias das suas canções foram alvo de diversas versões, muitas vezes com maior popularidade. Cantaram-no, por exemplo, Marlene Dietrich (em inglês, francês e alemão), Peter, Paul & Mary ou os Byrds. Em 2006 Bruce Springsteen dedicou-lhe um álbum inteiro, We Shall Overcome: The Pete Seeger Sessions.

"Nascido a 3 de Maio de 1919 em Manhattan, Nova Iorque, viveu uma vida longa e preenchida, activa até ao fim. “Ainda há dez dias estava a cortar lenha”, contou a sua neta, Kitama Cahill-Jackson, ao Washington Post. Deixa na memória colectiva a sua imagem imponente, o rosto adornado pela barba icónica e, a tiracolo, o banjo, instrumento pelo qual se apaixonou ainda muito jovem e que divulgou incansavelmente. Isso e, claro, a sua voz, arma poderosa contra a opressão, qualquer que fosse a forma que esta assumisse.

"A sua voz, incapaz já de atingir tom de tenor, pouco rico timbricamente, mas muito expressivo, que lhe ouvimos na juventude, continuava hoje a ser instigadora daquilo que Seeger via de mais precioso na música, a capacidade de reunir comunitariamente e de contribuir para a transformação do mundo. Nos concertos dos últimos tempos, limitava-se a lançar o início dos versos ao público e a deixar que este os completassem num coro de milhares – desejo de partilha que o público português pôde testemunhar, voz ainda intocada, em Dezembro de 1983, data do único concerto em Portugal de Pete Seeger, no Pavilhão dos Desportos.

Não por acaso, afirmava que as suas canções não eram verdadeiramente suas (fazia até questão de desvalorizar os seus talentos de compositor, afirmando que se limitava a adaptar velhas canções do cancioneiro do folclore e dos espirituais negros americanos). O seu forte sentimento comunitário, aliado a uma humildade desarmante, conduzia a afirmações como as dadas ao Guardian numa entrevista de 2007. 

"Comentando o álbum que Bruce Springsteen lhe dedicara, disse que preferia que o cantor de New Jersey não tivesse utilizado o seu nome na capa. “Sobrevivi todos estes anos mantendo um perfil discreto. Agora o meu disfarce foi desmascarado. Se tivesse sabido antecipadamente, ter-lhe-ia pedido que só mencionasse o meu nome algures no interior.” Depois, enfatizou novamente o seu papel reduzido enquanto compositor: “Aquelas não são as minhas canções, são velhas canções, eu limitei-me a cantá-las.” Exemplo máximo, We shall overcome, o hino da luta pelos direitos cívicos nos Estados Unidos, hino intemporal para qualquer luta de oprimidos perante a opressão, tem a sua génese na canção gospel I'll overcome someday, de Charles Albert Tindley. Em 1948 surge publicada no People's Song Bulletin, dirigido por Seeger, com o título We will overcome. A sua única contribuição, diria depois o cantor, seria uma pequena alteração prática: "shall" adequava-se melhor ao canto que "will". Ainda assim, apesar de Seeger procurar a discrição, essa não foi uma marca permanente na sua carreira.

"Filho de um musicólogo, Charles Louis Seeger, e de uma violinista, Constance de Clyver Edson, ambos professores na prestigiada Juilliard School, e enteado de uma compositora modernista, Ruth Crawford Seeger, segunda mulher do pai, Pete Seeger foi colega de John Kennedy enquanto estudante de Sociologia em Harvard, período em que se juntou à Juventude Comunista Americana. Desiludido com o percurso académico, teria os momentos definidores da sua vida quando, juntamente com o pai, viu uma velha cantora tocar o banjo de cinco cordas, que se tornaria o seu instrumento de eleição – usava um de braço longo, criado por si. “Gostei do tom vocal estridente dos cantores, da dança vigorosa”, recorda na biografia de David Dunaway, How Can I Keep From Singing, citado no obituário do New York Times. “As palavras das canções tinham todo o sangue da vida nelas. O seu humor era mordaz e não trivial. A sua tragédia era real, não sentimentalista.”

"Pouco antes de assistir na Carolina do Norte àquele festival, começara a trabalhar na Biblioteca do Congresso Americano, fazendo catalogação e transcrição da música tradicional recolhida em todo o país. Fora convidado por John Lomax, histórico folclorista e amigo próximo de Charles Seeger. Essa música passou a ser a sua música e foi perante ela que ele se definiu enquanto músico, autor e intérprete.

"Encontramo-lo então, no final dos anos 1940, enquanto membro dos Weavers, uma das bandas que se revelariam fundamentais no revivalismo folk com centro na Greenwich Village nova-iorquina (essa que os irmãos Cohen revisitam no recente A Propósito de Llewyn Davis). Durante o seu curto primeiro período de vida, os Weavers estiveram no topo das tabelas de vendas com uma versão de Goodnight Irene, original do mítico bluesman Leadbelly (que Seeger conhecera através de Lomax), e venderam em quatro anos cerca de quatro milhões de discos, números impressionantes para a época. Foi o momento de maior exposição mediática e sucesso comercial de Seeger, contrapondo com o breve período durante o início da Segunda Guerra Mundial em que percorrera os Estados Unidos à boleia ou saltando ilegalmente para os vagões de comboio, como o faziam os milhões de deserdados da Grande Depressão. Ganhava dinheiro  tocando o seu banjo em cafés a troco de gorjetas. Aprendera as melhores técnicas para o fazer com Woody Guthrie, que se tornaria seu mentor e companheiro.

"Tocaram juntos nos Almanac Singers, cantando canções antiguerra e anti-racismo e promovendo o poder sindical na luta por melhores condições de vida dos trabalhadores. A entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial acabaria com a banda. O fim da guerra traria o nascimento dos Weavers e a imagem inusitada de Pete Seeger no topo das tabelas de venda – “não consigo lembrar-me de um momento que ele sinta como menos importante na sua vida”, declarou Arlo Guthrie, filho de Woody, no concerto de celebração dos 90 anos de Seeger. A América em histeria anticomunista dos anos McCarthy não tardaria, porém, a voltar-se para ele.

"Abandonara o Partido Comunista em 1950, em conflito com o estalinismo, mas não o invocou em sua defesa perante a Comissão de Actividades Antiamericanas. Recusando-se a qualquer denúncia declarou perante ela, em 1955: “Sinto que não fiz nada de natureza conspirativa em toda a minha vida. Não vou responder a quaisquer questões relacionadas com as minhas filiações, as minhas crenças filosóficas, religiosas ou políticas, ou em quem votei nas últimas eleições, ou qualquer um desses temas da minha privacidade. Julgo ser muito imprópria colocar essas perguntas a um americano, especialmente neste contexto de coacção” – na supracitada reportagem do Guardian, o jornalista Edward Helmore conta que, ao subir ao palco de um pequeno clube em Beacon, a terra nas margens do rio Hudson em que viveu desde os anos 1940, se apresentou dizendo: “Ainda me considero um comunista falhado.”

"Condenado em 1961 a um ano na prisão, que não chegou a cumprir, foi colocado na lista negra, impedido de actuar na rádio e televisão e proscrito dos grandes palcos. Os Weavers terminaram (três dos quatro membros tinham enfrentado a comissão) e, no que é um aparente paradoxo, Pete Seeger entrou naqueles que considerou serem os melhores anos da sua vida. Passou a tocar apenas em universidades ou em pequenas associações locais. Adepto da máxima “pensa globalmente, age localmente”, revelou aos jovens estudantes a música americana que eles nem imaginavam existir e mostrou a todos os que o ouviam, dizia, que não era necessário entrar no jogo do comércio para viver em sociedade. Foi neste período que ouviu com atenção um jovem Bob Dylan, de quem se tornou conselheiro. E seria com Bob Dylan que viveria um episódio que entrou nos anais da história da música popular.

"Em 1965, Dylan apresentava-se novamente no Newport Folk Festival, de que Seeger fora em 1959 um dos fundadores. Momento histórico: pela primeira vez, a jovem esperança da folk, a “voz de uma geração”, surgia acompanhado de uma banda eléctrica. Conta a lenda que, irado com o seu protegido, que trocava a pureza acústica do folclore pela selvajaria gratuita e burguesa do rock’n’roll, terá pegado num machado e tentado cortar a fonte de alimentação do palco. Seeger e outras testemunhas viriam a negá-lo. Estava irritado, sim. Não com Dylan, mas com o técnico de som que afogara as palavras do cantor sob o volume da guitarra – e Seeger achava que era importante que o público ouvisse os versos de Maggie’s farm.

"Era difícil, de resto, imaginá-lo a tomar tal atitude. Se a guitarra de Woody Guthrie tinha inscrita no seu corpo “This machine kills fascists” (“Esta máquina mata fascistas”), no banjo de Seeger lia-se “This machine surrounds hate and forces it to surrender” (“Esta máquina cerca o ódio e força-o a render-se”). Firme nas suas convicções, corajoso na sua afronta ao poder, dono de uma coerência a toda a prova, Pete Seeger era um revolucionário humanista, crente no futuro – autor de música para crianças, afirmava que era impossível não acreditar no futuro quando cantava para elas.

"O homem que fora sentenciado pelo Estado americano, que erguera a sua voz com Martin Luther King e 200 mil pessoas na Marcha de Washington contra a ignomínia desse crime legalizado que era a segregação racial; ele que amante e estudioso da tradição americana se mantivera sempre aberto ao mundo (cantou Guantanamera, cantou canções republicanas da Guerra Civil de Espanha, transformou uma canção russa sobre cossacos partindo para a guerra em hino anti-Guerra do Vietname, Where have all the flowers gone), seria, já septuagenário, distinguido por Bill Clinton com a Medalha Nacional das Artes, a mais alta distinção que o Estado americano atribui aos seus artistas. Cinco anos depois, em 1999, Cuba concedeu-lhe homenagem semelhante, a medalha da Ordem Félix Varela, pelo seu “humanismo e trabalho  artístico em defesa do ambiente e contra o racismo”. A 18 de Janeiro de 2009, estava nas escadas do Memorial Lincoln cantando This land is your land, a canção do velho amigo Woody Guthrie, para o novo presidente americano, Barack Obama.

"Nada disso o alterou. Continuou a tocar regularmente nos pequenos clubes nas redondezas de sua casa, que construíra na década de 1940 com a mulher, Toshi-Aline Öta (morreu em 2013, a dias de festejar os 70 anos de casamento), e a participar em acções de intervenção social e de activismo ecológico, principalmente em defesa da despoluição do seu amado rio Hudson. O humor mantinha-se intacto. Os locais lembrar-se-ão dos autocolantes que distribuía com o slogan “Gravity – it’s just a theory” (“Gravidade – é apenas uma teoria”), encorajando a que os enviassem para alguém no Kansas, o estado criacionista por excelência.

“A chave para o futuro do mundo”, afirmava em 1994, “é encontrar as histórias optimistas e torná-las conhecidas.” Pete Seeger encontrou as histórias e cantou-as. No processo, pelo seu exemplo e atitude, tornou-se também ele parte da história. Essa. Com agá maiúsculo".

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Esta foi a digressão a que assisti em 2008 em Lisboa: Lou Reed - berlin live Intro (+lista de reprodução)

Em 2007/2008 Lou Reed realizou uma das suas últimas digressões. O Tema dessa digressão foi a homenagem a um dos seus albuns mais carismático: Berlim.

Essa digressão incluiu Lisboa, numa noite de Julho de 2008, no Campo Pequeno, no mesmo dia em que actuou, também em Lisboa Leonard Cohen. 

A escolha foi dificil, mas em boa hora optei pelo espectáculo de Lou Reed, pois, dois anos depois, Cohen voltou a Lisboa e pude vê-lo também.

A recordação desse noite pode ser lida na reportagem do Blitz, que AQUI recordamos, bem como nas imagens ao vivo de um dos espectáculos dessa digresão, que podem ser vistas em baixo:

domingo, 27 de outubro de 2013

Uma Homenagem ao Musico hoje falecido : Lou Reed Fotógrafo

Lou Reed, o musico hoje falecido, tinha uma faceta menos conhecida, mas tão genial como a sua faceta musical.

Em 2009 lançou um livro e realizou uma exposição com alguns dos seus trabalhos fotográficos, que intitulou "Romanticism", dedicado à sua esposa, a musica Laurie Anderson.

Em homenagem a Lou Reed, aqui recordamos alguns desses seus trabalhos fotográfico:









quinta-feira, 10 de outubro de 2013

NO CINQUENTENÁRIO DA MORTE DE EDITH PIAF - A minha primeira memória do mundo.



A minha primeira memória de um mundo que existia para lá das casas onde vivi na infância, da escola e das ruas à volta da minha casa, foi a do dia da morte de Edith Piaf.

Embora só com o tempo me tenha apercebido disso, pois, dos acontecimento que marcaram o mundo após o meu nascimento, os mais recuados no tempo de que me conseguia lembrar eram os da morte de Piaf e do assassinato de John Kennedy ( cujo cinquentenário acontece no próximo dia 22).

Lembro-me desse momento como se fosse hoje. Brincava então na sala da casa dos meus pais, ainda hoje a mesma, o rádio estava aceso e lembro-me perfeitamente  de ouvir o locutor anunciar a morte daquela cantora imortal e de, em seguida, passar um tema de Piaf.

Só como tempo aprendi a conhecer essa voz inconfundível, mas, mais do que isso, da importância daquele momento com o da iniciação da minha consciência de um mundo para lá do meu pequeno mundo da infância.

Por isso, não podia deixar de invocar hoje o cinquentenário que hoje passa sobre a morte de Edith Piaf.

Em baixo podem ler um dossier sobre do Le Matin sobre a sua vida e AQUI uma reportagem do jornal Público sobre o mesmo tema, bem como um video raro como uma das suas actuações ao vivo:



No Cinquentenário do falecimento de Edith Piaf - momentos da sua vida em imagens.









segunda-feira, 7 de outubro de 2013

“À Procura de Sugar Man” - Um documentário sobre a integridade



INTEGRIDADE : esta é uma palavra que escasseia no discurso político, no discurso jornalístico e no discurso cultural dos nosso dias.

“À Procura de Sugar Man”, de Malik Bendjelloui  é um documentário sobre o modo como se podem conjugar a  integridade, os valores e o talento numa sociedade marcada pelo espectáculo constante, pelo carreirismo a toda o custo e pela falta de respeito pelo ser humano.

O documentário, que ganhou o óscar, conta-nos a fabulosa história de Sixto Rodriguez, um talentoso musico que gravou dois álbuns entre 1968 e 1970 e que desapareceu tão depressa como apareceu.

Por um acaso da história, um dos seus álbuns chegou à África do Sul na época do apartheid e o talento da sua musica e a crueza esclarecida das suas letras representaram uma lufada de ar fresco, entre a jovem comunidade branca que não se sentia bem naquela regime.

As músicas de Rodriguez começaram a circular clandestinamente entre grupos de jovens brancos contestatários e o seu nome tornou-se tão famoso, na África do Sul, como um Bob Dylan ou os The Beatles.

Contudo ninguém sabia do paradeiro de Rodriguez e circulavam as mais incríveis lendas, tudo apontando para a sua morte trágica e precoce.

Com o fim do regime do apartheid  cresceu a curiosidade sobre o destino do musico.

 O filme retracta exactamente a investigação que alguns fãs de Rodriguez levaram a efeito, conduzindo-os a um desfecho imprevisível. 

Afinal Rodriguez estava vivo, morando num subúrbio da decadente cidade norte-americana de Detroit.

E o contacto com Rodriguez revelou um homem que nunca se interessou pela fama ou pelo êxito, consciente do seu talento, mas que levou uma vida simples, trabalhando na construção civil, tendo tirado um curso de filosofia, tendo criado três filhas a quem proporcionou cursos universitários e a quem ensinou, ao longo da vida, os valores da integridade e da cultura, mas que desconhecia o êxito e a importância que ainda hoje tem na África do Sul.

Na África do Sul, depois de o descobrirem  na década de 90, realizou mais de trinta concertos, enchendo estádios e grandes salas de espectáculo.

Mas o êxito que ele descobriu que tinha naquele país africano, duas décadas depois de ter deixado de editar musica, não o deixou deslumbrado, viu tudo aquilo com muita curiosidade e lucidez, doou todo o dinheiro que obteve como os concertos e continua a viver na velha casa de sempre, procurando continuar a viver a vida simples e anónima  que sempre levou em Detroit.

A fama nunca o atraiu e, contudo, teve-a à mão, pois a sua musica é de uma qualidade intemporal e as suas letra são de um profundidade avassaladora.

Talvez que a  crueza dos seus temas não se adaptasse ao optimismo dos anos 60.

Mas Rodriguez também nada fez para obter essa fama. Fez uma opção consciente. 

Entre a fama ou a simplicidade e a integridade da sua vida, preferiu a segunda opção. Quando no filme alguém o questiona sobre a oportunidade  que deixou escapar, sobre se não achava que podia ter tido uma vida “melhor” ele acrescentou “melhor…ou não!”.

Quando vivemos num mundo onde as pessoas estão viciadas no êxito fácil, tudo fazem para os seus quinze minutos de fama, onde, parafraseando uma personagem de Woody Allen, se é famoso por ser famoso, onde a comunicação social , principalmente a televisiva, promove a mediocridade em todas as áreas, a história da vida de Rodriguez é um edificante história humana, que nos faz recupera a esperança na humanidade.

…como eu percebo Rodriguez!