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terça-feira, 30 de abril de 2019

O Dia do “Colaborador”



Na novilíngua neoliberal há um termo bem revelador da tentativa de branqueamento social que essa ideologia pretende impor.

Trata-se da substituição da designação de “Trabalhador” pela de “Colaborador”.

“Colaborador” tem menos peso histórico, social e politico e serve para branquear todos os abusos económicos do neoliberalismo sobre o mundo do trabalho.

“Colaborador” tem um peso paternalista que inibe um “colaborador” de exigir melhores condições de trabalho e de salário.

No fundo  “colaborar” com a entidade patronal é quase um tu cá tu lá com esta entidade e, por isso, um “colaborador” não reivindica nem exige, limita-se a…colaborar!

No fundo um “colaborador” está ao nível do “empreendedor” (outro eufemismo neoliberal para o velho patrão), menos no salário e no poder de decisão.

Um “colaborador” não deve exigir direitos, apenas …colaborar!

Um "colaborador" não tem limite horário para...colaborar!

Um “colaborador” não se deve preocupar com o salário, porque o seu privilégio é …colaborar!

Quem sabe se, em breve, deixamos de ouvir falar em “partidos trabalhistas” e passamos a ouvir falar em “partidos dos colaboradores”.

Ou talvez o Dia do Trabalhador se passe a designar…DIA do COLABORADOR!

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

"Fake News" e "novilingua" :“corporação” , “extremo” e “populismo”


Na novilíngua neoliberal que se expandiu por cá nos anos da troika, como uma espécie de antecipação à portuguesa das “fake news” , numa atitude revisionista na utilização de conceitos, com o objectivo de lançar a confusão, há três “conceitos” que continuam a fazer o seu caminho, ao sabor da propaganda e das conveniências de cada momento.

São eles os de “coporação”, “extremismo” e “populismo”.

Hoje, muitos jornalistas e comentadores, alguns, pasme-se, com formação universitária, usam a abusam desses conceitos de forma falaciosa e tendencioso, pois, não acredito  que o façam por ignorância.

É assim que confundem,propositadamente, interesses “corporativos” com lutas sindicais ou reivindicações profissionais.

Existem milhares de obras a explicar as diferenças entre “sindicato” e “corporação”, mas essa gente insiste em usar, de forma pejorativa,esta designação, exactamente porque sabem que as “corporações” são conotadas com um passado medieval não liberal nem democrático, ou com a recuperação dessas instituições pelos regimes fascistas ou de filiação ideológica próxima, corporações que apareceram e estiveram na base institucional destes regimes para, entre outros objectivos, retirarem influência aos sindicatos.

Por cá, existem ainda corporações, devidamente enquadradas no regime democrático e com um funcionamento legal, mas que nada têm a haver com os objectivos da luta sindical, embora possam colaborar nesta em certas conjunturas, mas com a designação de “ordem” em vez de “corporação”, como  as ordens dos médicos, dos advogados, dos enfermeiros, dos engenheiros … e, embora, neste caso, sim gerador de alguma confusão, um sindicato dos jornalistas que, na realidade, funciona como uma “ordem”.

Outro conceito abusivamente usado, quase sempre pelos mesmos comentadores e jornalistas, é o de “extrema-esquerda” para designar, a nível português, mas que também usam e abusam a nível internacional, o BE e o PCP e, lá fora, a actual liderança trabalhista britânica, o Melanchot e o seu movimento, o Podemos, o Syryza e outros movimentos do género, confundindo, propositadamente, o radicalismo, no sentido de defesa de mudanças estruturais anticapitalistas e  o radicalismo, no sentido da coerência de valores, ou a ideia de ir à raiz dos problemas, com a intolerância, o sectarismo e a violência, caractaristicas do verdadeiro Extremismo (que existe tanto à esquerda como à direita), apenas para lançar a confusão e o anátema sobre forças politicas que, em democracia, têm um importante e legitimo papel de absorver as vozes de protesto, de defenderem minorias ou de manterem acesos ideais de justiça social.

Uma classificação tão idiota como seria o de classificar o CDS de "extrema-direita"...

Por último, há um terceiro conceito abusivamente usado por essa gente, hoje muito actual, que é o de “populismo”, confundindo essa característica, que existe em quase todas as formas de actuar politicamente, transversal a todos os partidos, da direita à esquerda, que têm, ou deviam ter por objectivo, ouvir as preocupações da população e darem voz a essas preocupações, com um conceito, este sim ligado a uma tendência politica,a extrema-direita neofascista, que tem como principal motor da sua existência fazerem-se porta-voz de preocupações populares, mas arvorando-se, ao mesmo tempo, como únicos responsáveis por essa vontade, ditos representantes de um “povo” que fazem coincidir com a “Nação” e a “raça”.

Ao confundirem a legitima defesa de direitos socias e económicos, no seio de uma Europa (que, em vez de se preocupar com os seus cidadãos e o seu bem-estar, tem como preocupação quase exclusiva agradar aos “mercados”), com o dito “populismo”, onde misturam tudo numa amálgama “antieuropeia” (como se defender esses direitos sociais, não fosse uma forma de ser Europeu…), apenas procuram desacreditar essas legitimas e democráticas reivindicações.

Quem usa o termo “corporação” para caracterizar lutas sindicais, quem usa a designação de extrema-esquerda (em vez de esquerda ou esquerda radical) para caracterizar BE, PCP, Podemos e outros movimentos do género, quem chama “populistas” aos que criticam a destruição do estado social europeu  e defendem os seus cidadãos contra os interesses dos ditos “mercados”, não tem, para mim , qualquer credibilidade, mesmo que embrulhe as suas diatribes em belas palavras ou numa argumentação aparentemente fundamentada e “informada” (mas, quem usa aqueles conceitos no contexo referido, destrói, à partida,  a credibilidade dessa mesma “fundamentação” ou “informação”…).

Hoje, quando procuro saber da credibilidade de um jornal ou de um comentador, uso como forma de aferir, o modo com aplicam esses três conceitos.

Quem fomenta,deliberadamente, a ignorância, não merece credibilidade.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Os verdadeiroa inventores de "factos alternativos" ...ou usar "factos alternativos" contra a liberdade

Kellyanne Conway não foi a inventora de “factos alternativos”.
Aqui pela Europa a retórica dos “factos alternativos”, um “derivado” da “pós-verdade”, tem vindo a ser construída todos os dias nos últimos anos, nos gabinetes do politburo de Bruxelas, na argumentação usada para humilhar os países do sul da Europa e para justificar as “reformas” “austoritárias”, para retirar direitos sociais aos cidadãos do velho continente.
Em Portugal todos os dias vemos, ouvimos e lemos  “factos alternativos” debitados por comentadores ao serviço do “austeritarismo” e todos os dias os  ouvimos de viva voz nas intervenções de Passos Coelho.
A única novidade introduzida pela porta-voz de Trump é dar nome à “coisa”.
“Facto alternativo” é apenas mais um slogan da novilíngua contruída nas últimas décadas pela “santa Aliança” entre neoconservadores, neoliberais e neofascistas para justificarem as malfeitorias contra os cidadãos do mundo.
“Factos alternativos” juntam-se assim à “pós-verdade”, ao “colaborador” do “empreendedor” , ao “reformar o Estado” para “ atacar os privilégios e as corporações”, aos que “viveram acima das suas possibilidades”, ao objectivo de “acalmar os mercados” e tornar a economia “competitiva” e “respeitar os compromissos internacionais”, porque “não há dinheiro”, e a “austeridade” é a  “única alternativa”.
A frase agora “inventada” pelo trumpismo é apenas mais um contributo para desacreditar a democracia, destruir a liberdade de expressão e os Direitos Humanos em geral.
Enquanto Trump se entretém a combater a liberdade de expressão, desacreditando-a com “factos alternativos”, por cá o politburo de Bruxelas continua entretido a discutir décimas de “deficits” criados pelas suas medidas e a ameaçar quem defende os cidadãos europeus e os seus direitos.
Os “mercados”, por sua vez, parecem dar-se bem no “trumpismo”, mais preocupados em dar largas às desacreditadas agências de rating que usam classificações humilhantes como as de “lixo” para assaltarem povos inteiros através de juros agiotas.
Por cá tudo vai bem e já começamos a assistir ao contorcionismo habitual dos comentadores do sistema para normalizarem o trumpismo ...com “factos alternativos”!!!