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terça-feira, 14 de abril de 2026

“Ventureira” da Figueira.


Hergé criou a figura de Oliveira da Figueira, um português representado como um charlatão, um dos raros personagens de origem portuguesa a aparecer nas aventuras de TinTin.

A forma como esse personagem português foi representado por Hergé não escapou à censura salazarista. Em contramão como uma das principais interferências da censura no universo da Banda Desenhada, que obrigava a “aportuguesar” os nomes de heróis estrangeiros da BD publicados em Portugal ( o caso mais famoso foi o do Major Alvega), o português mais famoso da BD franco-belga foi “transformado” num espanhol de Málaga.

A figura do charlatão, vendedor da banha da cobra e de pechisbeque, não se coadunava com o ideal salazarista da representação nacionalista do "português de bem".

Contudo, essa figura representa bem a figura do desenrasca português, aldrabão ingénuo, o "homem novo" que o salazarismo pretendia "construir".

Ingenuidade é um rótulo que não podemos atribuir ao líder da extrema-direita portuguesa.

Já a classificação de charlatão, vendedor da banha da cobra e de aldrabão, cola bem com o nosso Oliveira da Figueira dos tempos modernos, André Ventura, como ontem se viu no “debate” com José Pacheco Pereira na CNN.

Mal criado do principio ao fim, “Ventureira” da Figueira,  mistura alhos com bugalhos, descontextualiza factos, recorre à meia verdade, à falácia e à ignorância atrevida para vender a sua banha da cobra racista  e a sua ideologia de pechibeque.

Que muita gente vá atrás da sua conversa “comprar” as sua bugigangas ideológicas é bem sintomático da ápoca em que vivemos, onde a gritaria ignorante e o recurso a documentação duvidosa leva mais aplausos do que a análise fundamentada e inteligente.

Em Espanha a extrema-direita tem o seu mais perigoso Abascal. A nossa extrema-direita contenta-se, por agora, a apoiar o seu…chavascal, "Ventureira da Figueira"!

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Da “Beleza” do Extremismo


“Terrorista”, “nazi”, “comunista”, “putinista”, “antisemita”,tudo adjectivos com que somos brindados todos os dias para nos “identificar” como “extremistas”,  quando temos opiniões firmes, radicais ou, simplesmente contra a corrente,.

Politólogos, comentadores, analistas políticos, especialistas de relações internacionais, usam e abusam de tais adjectivos para reforçar as suas opiniões “moderadas” a “cientificas”, para se distinguirem da turba da populaça “extremista”.

Confundir o extremismo com opiniões firmes, radicais, e convictas é uma das armas argumentativas dessa gente.

Então se formos para as redes sociais, onde a opinião de um leigo vale o mesmo que a opinião de um cientista, e ganha a ignorância atrevida de quem berra mais alto, de quem leva mais likes e conquista mais seguidores, a confusão entre conceitos agrava-se.

Ser radical nas suas convicções não é a mesma coisa que ser extremista.

Posso ser radical (isto é, profundo, convicto e assertivo na defesa das minhas ideias) sem ser intolerante.

A intolerância, irmã gémea do extremismo, não é exclusivo de quem habita nas franjas mais afastadas do “centro” politico”. Vejo por aí, nas redes sociais  e na comunicação social, muito opinador, mais ou menos encartado, oriundo no chamado “centro politico”, muito mais extremista e intolerante para com os que pensam de maneira diferente do que muitos ditos “radicais”.

Mas, melhor do que ninguém, aqui deixo uma das melhores definições do que é ser extremista, da autoria de um dos fundadores dos Monty Python:

“A maior vantagem do extremismo é, ao fornecer-lhe inimigos, fazê-los sentir-se bem. A grande vantagem de se ter inimigos é poder fingir-se que toda a maldade do mundo está nos nossos inimigos e toda a bondade do mundo está em nós. Irresistível, não é? Se já possuirmos bastante raiva e ressentimento dentro de nós e, por essa razão, gostarmos de abusar das pessoas, podemos fingir que só o fazemos porque os nossos inimigos são pessoas muito más. Se não fossem eles, seriamos sempre bem-dispostos, amáveis e racionais. Assim, se quer sentir-se bem, torne-se num extremista. Agora, há que fazer uma escolha: se se juntar à extrema-esquerda, ser-lhe-á disponibilizada a lista dos inimigos autorizados – quase todos os tipos de autoridade, especialmente polícias, juízes, empresas multinacionais, estabelecimentos de ensino, donos de jornais (vários), caçadores de raposas, generais, traidores de classe e, claro, os moderados. Mas se preferir ser um extremista de extrema direita, não há problema. Serão apenas diferentes: grupos minoritários barulhentos, sindicatos, russos, gente esquisita, manifestantes, assistência social, parasitas da assistência social, clérigos intrometidos, pacifistas, a BBC, grevistas, assistentes sociais, comunistas e, claro, moderados e actores com mania. Uma vez abraçada uma destas superlistas de inimigos, pode ser tão desagradável quanto quiser e ainda assim sentir que o seu comportamento é moralmente justificado. Poderá pavonear-se por aí usando as pessoas e dizendo-lhes que poderia comê-las ao pequeno-almoço, sem deixar por isso de se considerar um campeão da verdade, um combatente do bem maior, e não o triste esquizofrénico paranoico que realmente é”. (John Cleese, Das Vantagens do extremismo, 1987).

Mais actual do que nunca, basta acrescentar alguns “inimigos” à lista!

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

BURKA ou NÃO BURKA, EIS uma NÃO QUESTÃO.


Não me lembro de ver uma burka por aí.

O único sítio onde as vi em grande quantidade foi em Londres, às compras nos grandes armazéns, num país onde a burka não é proibida.

Aliás, o uso da burka é só aplicado obrigatoriamente nalguns países de islamismo radical, de língua inglesa, como na Arábia Saudita e no Afeganistão (não no Irão, a indumentária é diferente).

Uma coisa que vi recentemente e que me chocou foi ver uma família de judeus radicais em Antuérpia, o homem à frente e as mulheres atrás, com o uso obrigatório de perucas para esconder o verdadeiro cabelo. Mas com esses ninguém se mete.

Claro que sou contra essa obrigação e é aviltante para as mulheres que são obrigadas a usá-la.

Mas, em Portugal, o principal problema das mulheres é a violência doméstica, o machismo tóxico das ruas e das redes sociais, as desigualdades salariais e nas progressões de carreira.

 Não vejo os mesmos deputados preocupados com a Burka, e os seus apoiantes aqui nas redes sociais, a preocuparem-se no parlamento com a real situação das mulheres em Portugal referidas no parágrafo anterior.

Simbolicamente, "Burkas há" muitas ó meus palermas", como aquelas "usadas" nas redes sociais pelos que se escondem atrás do anonimato, dos falsos perfis e da cobardia que a distância permite para insultar, ofender, divulgar fake news e discursos de ódio e racistas.

Enfim, uma não questão para nos distrair dos reais problemas deste país.

 

sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

Quando o Governo de Portugal adopta a táctica da “pesca de arrasto” de Israel.


Parece que a táctica do governo de Israel de “pesca de arrasto”, para apanhar presumíveis terroristas, está a servir de modelo para acções policias do governo português.

A táctica Israelita é a seguinte: presume-se que um presumível “terrorista”, assim classificado pelo governo israelita, vive num determinado bairro, então bombardeia-se o bairro e fica-se com a certeza que se eliminou o dito “terrorista”, de preferência junto com toda a família, pais, filhos, esposa, primos e tios, e já agora todos os moradores do bairro, transformados em “danos colaterais” .

Ao que parece, a moda está a pegar por cá, adoptada em acções policias de “combate ao crime”.

Não há mortes, embora por vezes as coisas não corram bem, como já aconteceu pontualmente em certos bairros ditos problemáticos, mas há humilhação e ameaças a habitantes de bairros inteiros, onde vivem alguns presumíveis  criminosos suspeitos.

Mais grave ainda, alinha-se no preconceito semeado pela extrema-direita em relação aos “estrangeiros” (não todos, se forem oligarcas de leste, especuladores financeiros em lavagem de dinheiro e especulação imobiliária ou  mafiosos ocidentais, as acções, se existem, são discretas, sem incomodar muito os bairros chiques onde essa gente vive), e escolhem-se os bairros onde esses “estrangeiros” vivem.

Depois, com estrondo e aparato, encostam-se todos os habitantes e pessoas que ali circulam, com ar de estrangeiro, à parede, e revistam-se, e pode ser que a táctica da pesca por arrasto dê alguns frutos.

Azarito!! “Apanharam” um pequeno traficante como umas gramitas e uma arma ilegal, e está justificado o aparato da operação. Azarito ainda maior, afinal o “perigoso” criminoso, apanhado por acaso, não é emigrante, é português!!!???

Provávelmente teriam mais êxito se usassem o mesmo método em certos bairros chiques de Lisboa, em ruas de bares frequentados por nómadas digitais ou por “jovens liberais”.

Experimentem o mesmo método nas festas da cidade, nos desfiles e festas de Carnaval e verão a surpresa que vão ter!!!

Pelo resultado, percebe-se que o objectivo não é apanhar criminosos mas, pura e simplesmente, intimidar e humilhar comunidades inteiras, fazendo um servicinho à extrema-direita xenófoba, talvez acreditando que tiram daí dividendos políticos, retirando argumentos a essa mesma extrema-dirieta.

Tenho uma má notícia. Quem tentou fazê-los por outras bandas só contribuiu para “normalizar” essa ideologia e dar-lhes “razão”, contribuindo para o seu crescimento eleitoral.

terça-feira, 1 de outubro de 2024

Ana Moura e os comentadores “pornohube”.

Entre o misógino e o machista, os habituais “comentadores  pornohube” viraram-se para as redes sociais, para “comentar” o “loock” arrojado da fadista Ana Moura nos Globos de Ouro.

A maior parte desses comentários roça a mais reles boçalidade, muitos ignorando a inovação que Ana Moura introduziu no fado português.

O que interessa a essa gente é o chinfrim das redes sociais, os 15 minutos de fama que lhe é atribuída à frase mais badameca.

Coincidência ou não, muito dessa gente é a mesma que anda por aí a apoiar os massacres de Israel ou outras “causas” como o discurso xenófobo, racista e militarista. Não há coincidências.

A obra musical de Ana Moura está muito acima desses comentários rascas.

terça-feira, 24 de setembro de 2024

O governo terrorista de Israel e a Banalização do Mal!!

 


O governo terrorista de Israel e as organizações terroristas que aplicam a sua política de terra queimada, a IDF (Forças Militares Israelitas) e a MOSSAD ( a Gestapo local), praticam todos os dias, há décadas, mas especialmente durante o ultimo ano, os mais hediondos crimes de guerra, com a benevolência ocidental, que arma esses terroristas.

Comparados com a acção desse bando terrorista, organizações terroristas como o Hamas o Hezbollah ou o Estado Islâmico fazem papel de meninos do coro…

Recorde-se, aliás, que quem introduziu no Médio Oriente o terrorismo como método de acção política foi Israel, na sua luta contar a presença britânica no pós-guerra-

Vejam a diferença de tratamento que o dito “ocidente” e a maior parte dos seus “comentadores” e jornais dão aos crimes diários praticados por Israel e aos crimes diários (mas em menor grau, diga-se de passagem…) praticados na Ucrânia.

A Rússia foi banida de quase todos os eventos culturais e desportivos, Israel continua todos os dias a participar nesses mesmos eventos, integrados  muitos desses eventos em representação da  Europa (???).

Igualmente inconcebível é a posição do poder ucraniano em relação a Israel. Não se percebe como é que a Ucrânia, vítima de uma agressão idêntica àquela que é todos os dias praticada pelo governo terrorista de Israel, se recuse a condenar a acção israelita.

Não perceberam ainda que essa posição e a posição ocidental de “dois pesos e duas medidas” estão a contribuir para reduzir o apoio da opinião pública mundial, principalmente a que vive fora da Europa, para a sua causa?

Aliás, quem, e bem, critica a invasão da Ucrânia e a acção do governo russo, mas, e mal,  tenta justificar a acção do governo terrorista de Israel, ou diz apoiar o povo ucraniano mas nega o apoio aos palestinianos, perde toda a legitimidade moral para defender as suas posições.

O governo terrorista de Israel, com os seu crimes diários, está a emporcalhar e  a envergonhar a memória das vítimas do Holocausto, o que nos leva a pensar que os actuais lideres desse estado terrorista não descendem dos judeus perseguidos mas dos kapos, ou até de nazis que se infiltraram entre os refugiados judeus, fazendo-se passar por eles para escaparem a serem julgados como criminosos de guerra.

A  acção terrorista desse governo é o mais contributo para o preocupante crescimento do antisemitismo, ao acusar qualquer critica, por mais moderada, à sua acção crimininosa de "antisemita", confundindo o antisemitismo com o antisionismo.

Claro que o estado terrorista de Israel está rodeado por países igualmente governado por gente pouco recomendável, entre ditaduras sanguinárias e extremistas religiosos.

A maior parte desses estados nada fazem para proteger os palestinianos, por razões de xenofobia ou por fundamentalismo religioso.

Contudo, a questão não é o asilo de palestinianos, mas a construção de um Estado Palestiniano onde possam conviver todas as religiões da região e a população nativa, com ou sem religião.

Aliás, tem sido contra isso que foi criado o Estado de Israel, um Estado religiosamente fundamentalista, um Estado de Apartheid,  onde existem cidadãos de primeira, os judeus, e uma população de segunda, com menos direitos, todos os não judeus. Enfim, uma “verdadeira” “democracia liberal” para uns, se forem judeu, mesmo que não tenham nascido em Israel, e uma ditadura radical para todos os outros habitantes desse território.

É essa banalização do mal que o “ocidente”, com a conivência de países como a Ucrânia, continuam a alimentar, colocando o mundo à beira do abismo….mas a industria militar e quem a financia agradecem!!!

terça-feira, 16 de abril de 2024

"DONAS DE CASA DESESPERADAS"

 

(montagem da autoria de Antero Valério)

O meu amigo Antero Valério criou uma montagem ilustrada onde ironizava com as ideias de um tal Movimento Acção Ética, liderado por Paulo Otero, onde se defende o papel “tradicional” da “dona de casa”, papel, aliás, vedado, segundo o mesmo, aos homens, a não ser aos viúvos.

Essa idéia veio na sequência de um livro, “Identidades e Família”, apresentado numa sessão pública pelo ex-primeiro ministro Passos Coelho, no qual, no meio de uma ou outra colaboração a merecer reflexão, o que se evidenciou foi a polémica intervenção daquele político e a defesa da chamada “família tradicional”, idéia enfatizada pelas intervenções pública de uma personalidade, até agora desconhecida, o tal Paulo Otero, professor da faculdade de Direito (uma escola pública, recorde-se àqueles que acham que a escola pública é uma coutada de “esquerdistas”, como afirmam alguns dos autores desse livro).

 Uma das virtudes da democracia é a liberdade de opinião.

Todas as ideias, mesmo as mais absurdas, têm liberdade de serem expressas, sem que ninguém vá preso por isso.

Contudo, a partir do momento em que se tornam públicas ou são debitadas por figuras públicas, estão sujeitas ao escrutínio da critica pública ou a serem ridicularizadas em cartoon’s, quando essas ideias roçam o absurdo ou o ridículo.

Mais do que as opiniões expressas por esse tal Otero ou por alguns dos autores desse livro, devidamente analisadas e escalpelizadas por Susana Peralta no jornal “Público” (“Promover a liberdade e acolher as diferenças”, Público de 12 de Abril de 2024), o que me espantou foram as reacções à publicação daquele “cartoon” humorístico do Antero.

Desde acusações de estar a defender o comunismo até a de ridicularizar as donas de casa.

Defender a igualdade de direitos entre mulheres e homens, o respeito pelas opções sexuais de cada um, a diversidade da composição familiar ou o direito das mulheres de decidirem sobre a sua maternidade, são direitos desde há muito consignado na lei e que fazem parte dos Direitos Humanos e dos Direitos sociais na União Europeia. Não são ideias “comunistas” ou “esquerdistas”. Não tenho dúvidas que toda a “esquerda”, assim como, por uma questão de princípios, a Iniciativa Liberal e a maior parte do PSD, e até gente do CDS, concorda e aplica no seu dia a dia os princípios consignados nessas leis.

Por outro lado, ninguém é proibido de viver numa “família tradicional” (seja lá o que isso for. Alguns estudiosos do tema consideram que esse tipo de família existe, no mundo ocidental, há menos de 200 anos, outros que esse é um mito criado pelas ideologias extremistas dos anos 1930). Também ninguém é obrigado a ser homossexual ou a abortar. Era o que faltava!.

Pelo contrário, são alguns dos autores desse livro e alguns dos seus apoiantes que defendem uma alteração na lei, essa sim com o objectivo de regressar à perseguição intolerante, marginalização e  criminização de outros tipos de organização familiar ou de opções sexuais.

Esse tal Otero chegou a comparar, num teste que efectuou aos seus alunos da faculdade de Direito, o casamento entre pessoas do mesmo sexo ao “casamento” entre pessoas e animais, teste revelado esta semana nas páginas do insuspeito jornal “Correio da Manhã”.

Muitas das ideias expressas por esse “professor” e por alguns dos autores desse livro não são muito diferentes, adaptadas à nossa realidade, do discurso que temos ouvido por parte de Vladimir Putin sobre a “decadência do Ocidente”, onde a lei persegue as pessoas pela suas opções sexuais e familiares, ou, pior ainda, pelos regimes fundamentalistas dos aiatolas iranianos, dos talibãs do Afeganistão ou de algumas monarquias absolutas do mundo árabe.

E já agora, para os que anseiam pelo regresso do estatuto “tradicional” da dona de casa, como é defendido por outro dos “aiatolas” desse livro, como César da Neves que “questiona a discriminação histórica das “senhoras, alegadamente tiranizadas, [que] nunca se queixavam ou manifestavam o seu desagrado”(citado do referido artigo de Susana Peralta), recorde-se qual era a situação das mesmas “donas de casa”, aqui recordo alguns dos principio, consignados na lei, nos tempos do Estado Novo:

Embora a condição da mulher durante o Estado Novo não fosse uma situação exclusiva de um regime, ela era transversal à sociedade e à época, o que esse regime fez foi enfatizar muitas das regras legais e sociais que marginalizavam as mulheres da vida social, económica, cultural e política e que já vinham de trás.

Recordamos, resumidamente, algumas características da condição feminina durante o Estado Novo:

Legalmente, a condição das mulheres nesse período regia-se pelo Código Civil de 1867, reformado e alterado parcialmente em 1930 e que vigorou até 1966, pelo Código Penal de 1889, que vigorou até 1982, famoso pelo seu artigo 372, segundo o qual o “homem casado que achar sua mulher em adultério (…) e nesse acto matar ou a ela ou ao adúltero, ou a ambos (…) será desterrado para fora da comarca por seis meses” e ainda pela Concordata de 1940, todos eles bastante restritivos sobre o poder de decisão e a liberdade das mulheres.

De acordo com essas leis, o divórcio nos casamentos católicos era proibido, a violência sobre a mulher e os filhos não era criminalizado, o marido, “chefe de família”, tinha todos os direitos de decisão sobre toda a vida conjugal.

Essa situação perpetuava-se em muitos aspetos da sociedade da época.

Na educação, a separação por sexos vigorou por largos anos e em quase todos os graus de ensino, até 1972, destacando-se o facto de o ensino obrigatório, que ia até à antiga 4ª classe, só ser obrigatório para os rapazes. A maior parte dos conteúdos escolares reproduziam a lógica e o estereótipo da mulher submetida às funções do lar e ao serviço do marido. De destacar ainda o facto de as professoras necessitarem de autorização para se casarem, nunca podendo auferir um rendimento superior ao do noivo.

Noutros aspectos da vida profissional, destacavam-se outras normas restritivas e discriminatórias da condição feminina: as enfermeiras e telefonistas do Estado eram proibidas de se casarem; a discriminação salarial era consagrada na lei; o marido podia ficar com o ordenado da esposa e mesmo fazer cessar o contrato da esposa, proibindo-a de trabalhar; existiam profissões que estavam vedadas às mulheres (a magistratura, a aviação, as forças de segurança, a carreira diplomática e militar…).O exercício da advocacia era uma rara excepção de uma profissão permitida às mulheres, bem como as profissões liberais e o funcionalismo público, onde não era necessário o consentimento do conjugue para o seu exercício.

Na vida política, que se regia pelas leis eleitorais, decreto 1931, lei 1946 e lei 1968, embora se tivesse registado um alargamento do corpo eleitoral em relação ao que aconteceu na 1ª República, só as mulheres chefes de família, isto é, viúvas, ou que tivessem completado o ensino secundário, uma “imensa” minoria, é que possuíam o direito de voto .

Enfim, não vou perder mais tempo com este tema e acredito que a "imensa minoria" de mais de um milhão de portugueses que pensa de acordo com algumas das ideias do referido livro e com as opiniões de Paulo Otero e César das Neves, respeite os direitos dos restantes 9 milhões consignados em lei.

sexta-feira, 15 de março de 2024

O Respigo da Semana :

 

O milhão do contra

Por Miguel Esteves Cardoso

“Com que então o Chega obteve um milhão de votos?

Ficámos assim a saber que há um milhão de portugueses que são do contra.

É deprimente? É. Um milhão é muita gente. Mas é um erro tentar apanhar esses votos. São votos do contra. São votos anti-sistema. Só passarão para o PSD ou para o PS no dia em que o PSD ou o PS se transformem em partidos do contra. Que será nunca.

Para o milhão de portugueses que votou no Chega — e para o próprio Chega – os votos obtidos pelo Chega foram uma desilusão e uma derrota.

Queriam ganhar as eleições. Ou ser o segundo maior partido. Não queriam ter menos de 25 por cento. Queriam ir para o governo. Não queriam ficar de fora.

Não tiveram nem 25 nem 20 por cento: só tiveram 18. Desses 18, muitos são abstencionistas que, insatisfeitos com o mau resultado, voltarão para a abstenção e tão depressa não cairão noutra.

A verdade é que o Chega nunca mais terá uma oportunidade como esta. Ver-se-á aflito para segurar o milhão do contra.

São estas as contas que os partidos com inveja dos votos do Chega têm de fazer. É escusado ir atrás dos eleitores do contra. Eles não estão apenas zangados: são mesmo do contra. E agora estão mais zangados ainda: votaram para ganhar. E perderam.

Contra os 20 por cento do Chega, há os 80 por cento que votaram nos partidos que são contra o Chega. Todos os votos em partidos que não são o Chega são votos contra o Chega. E todos os votos do Chega são votos contra os outros partidos.

Contra esses 20 por cento, há os 60 por cento da AD e do PS: o bipartidarismo vale três vezes mais. A moderação vale três vezes mais. O centro vale três vezes mais.

Imagine-se se a AD e o PS se recusavam a formar governo e calhasse ao Chega tentar formar governo. Que poderia fazer um partido só com um milhão de votos, isolado e odiado pelos outros partidos e pelos outros eleitores?

Quem é que poderia querer aliar-se a um tal governo? Ninguém.

Os partidos do contra só sabem ser do contra. Não servem para mais nada”.

(in Público de 12 de Março de 2024)

segunda-feira, 11 de março de 2024

O Ressentimento dá votos


Em momentos como este, recordo-me muitas vezes de uma conversa com o meu saudoso amigo Carlos Cunha : numa dada ocasião, não me lembro qual, em que lamentava determinado resultado eleitoral, respondeu-me: “ Estás preocupado? Descansa, que a maior parte dos que votou neles vai sentir e sofrer mais na pele o que eles vão fazer, do que tu ou eu”.

Como dizia Paulo Raimundo em plena campanha, “não confundimos os eleitores desse partido com o dito partido”, ou, como afirmou ontem Pedro Nuno Santos, “não existem em Portugal 18% de portugueses racistas e xenófobos”.

O que aconteceu foi que esse partido explorou os sentimentos mais primários que cada um de nós sente perante as injustiças do mundo.

Usando a propaganda das redes sociais com eficácia, a demagogia do combate à corrupção (o pior cancro da democracia), o abandono de partes significativas da população à voragem das elites económico/politico/sociais, esse partido conseguiu federar todos os descontentamentos acumulados por governações desastrosas, num mundo onde as grandes decisões económicas e financeiras, que afectam a vida de cada cidadão, estão entregues a instituições não eleitas e sem controle pelos cidadãos, seja o BCE, a Comissão Europeias, ou…o Ministério Público.

Claro que esse partido não tem nada para oferecer ou gente capaz de ir além da propaganda demagógica e da exploração de ressentimentos e sentimentos de intolerância social.

Como partido que fez do combate à corrupção o principal tema da sua campanha, não deixa de ser curioso que tenha , entre os seus principais apoiantes e dirigentes, um “preso por violência Xenófoba”, um líder de uma “rede de tráfico de armas”, detido pela PJ, um “candidato que disparou para matar” acusado pelo Ministério Públio, um segurança do líder “julgado por agressão” e por “sequestro, falsificação de documentos e roubo”, agressões ocorridas numa discoteca nocturna de Torres Vedras, o responsável por uma imobiliária insolvente, com uma dívida de 300 mil euros, um vice-presidente de uma distrital condenado por pequenos furtos e burlas, entre os quais a caixa de esmolas de uma Sé Catedral, outro acusado por ameças a jornalistas e ainda um outro condenado por violência doméstica, sem esquecer um conhecido líder de uma extinta organização terrorista que cometeu crimes de sangue (leiam a reportagem de investigação “A Grande “família” do Chega” publicada no jornal Público de 25 de Fevereiro último).

Infelizmente, guiados pelas redes sociais, vivemos num mundo onde a boçalidade rende mais votos que o debate racional, onde a velocidade de imagens e textos decontextualizados influenciam mais uma opinião que umas horas de leitura atenta, onde o ter conta mais do que o ser, onde todos se atropelam pelos “15 segundos de fama”  e pelo exibicionismo balofo de pequenas vaidades pessoais, onde quem pensa de forma diferente da nossa não é um adversário com quem se dialoga de forma civilizada, mas passa a ser encarado como inimigo contra o qual devemos descarregar toda a nossa raiva intolerante, “valores” inteligentemente explorados para minar a democracia em proveito próprio (será bom recordar que Hitler chegou ao poder através do voto democrático).

Nuno Ramos de Almeida escreveu hoje no Diário de Notícias:

“Foram precisas muitas gerações a lutar, muitas centenas de pessoas presas e torturadas e muitos mortos para termos conquistado a liberdade de palavra e de votar livremente.

“Pela primeira vez, desde há quase meio século, temos um partido claramente contra a revolução democrática com uma grande votação. Não quer dizer que os seus eleitores sejam admiradores do fascismo, quer dizer que muitas promessas desta revolução, interrompida a meio, não foram cumpridas.

“Vivemos, há dezenas de anos, num sistema em que a maioria das decisões económicas estão fora da decisão democrática.

“As pessoas sentem necessidade de protestar contra um sistema que dá sempre quase tudo aos mesmos, embora o seu proteste falhe, no meu entender, o alvo: não são os imigrantes, os ciganos ou as populações dos subúrbios que são culpadas deste falhanço (…). Continuamos a precisar de um sistema mais justo e igualitário que dê a toda a gente o que merece e é necessário”.

Também nos merece a atenção a opinião de António Brito Guterres, nas páginas do mesmo jornal, analisando os “ressentimentos” que estiveram na base do resultado eleitoral da direita intolerante:

“O Chega é de extrema-direita, fruto da visão dos seus ideólogos, mas a maior parte dos seus votantes não o são (…). O ressentimento explorado pelo Chega é cúmplice das atuais hegemonias económicas e um aliado para a sua perpetuação. É um garante de que o bolo cada vez maior da precariedade entre nós não aja numa consciência colectiva que poderia ameaçar o poder instituído.

“A riqueza aumenta, mas concentra-se num grupo cada vez mais restrito de pessoas. Os lucros atingem valores recorde, mas o risco de pobreza sem transferências sociais mantém-se superior aos valores de 1994. O Chega não vai resolver esta décalage, é um aliado sistémico para a sua expansão.

“Querem verdadeiramente combater o Chega? Saiam dos gabinetes, criem saber político instalado, deixem a população participar verdadeiramente, e filiem as pessoas como comandantes de uma mudança social”.

O ressentimento, a intolerância, a desinformação, a xenofobia, não vão construir nada de novo para o país e para as pessoas, vão funcionar apenas como uma válvula de escape para as frustrações colectivas ou pessoais, que nos desviam da verdadeira resolução dos problemas importantes que  temos de enfrentar, na habitação, na educação, na saúde, na solidariedade social, num mundo cada vez mais violento e desigual.

Uma travessia no deserto, à esquerda, pode ser benéfico, se esta souber reflectir sobre os seus erros e conseguir responder aos verdadeiros anseios das pessoas, mesmo daquelas que votaram na extrema-direita.

A democracia tem essa vantagem, não acaba no dia das eleições, respeita as minorias e a liberdade e funciona para além do voto, todos os dias, na sociedade e, como se costuma dizer, existem mais marés que marinheiros, ou, rematando como Carmo Afonso na sua crónica de hoje no jornal Público, o “dia de hoje é de festa para alguns e de profundo pesar para outros (…). É o jogo da democracia. Digo-vos que nem a festa nem o pesar nos podem dispensar de pensarmos bem nisto tudo”.

 

 

 

 

 

 

terça-feira, 15 de junho de 2021

Tão “liberais” que “nós” somos!!!

Tal como defendi as manifestações do 25 de Abril, do 1º de Maio, a realização da Festa do Avante e dos Congressos de vários partidos, não vi, à partida, nenhum problema na realização de um arraial de Stª António organizado pela Iniciativa Liberal (IL).

Defendi essas manifestações, desde que fossem respeitadas as regras imposta pela Direcção Geral de Saúde, e elas foram cumpridas nos primeiros casos citados.

Não o foram no evento da Iniciativa Liberal e, o pior, é que não foram cumpridas de forma deliberada e provocatória, comportando-se como “putos mimados da linha”.

Mas o pior nem foi isso.

Foi a grande intolerância manifestada pelas “barracas de tiro”. Nem o Chega se lembrou de tanto!

De facto, gente que se diz muito liberal e “educada”, revelou a sua verdadeira face.

Desde um manequim de “um comunista” (segundo a ideia preconceituosa dos líderes desse partido) até um alvo com as fotografias dos “socialistas” de todos os quadrantes, onde nem faltou a fotografia de Rui Rio, valeu de tudo para descarregar ódio e intolerância sobre os adversários.

Eu, que até achava piada a algumas das iniciativas desse partido, fiquei definitivamente esclarecido sobre as suas intenções.

Por detrás do rótulo “fofinho” de “liberais”, esconde-se a “direita” troglodita e rançosa de sempre.

Obrigado, pela iniciativa, pois ficámos esclarecidos sobre as verdadeiras intenções dessa gente.


segunda-feira, 31 de maio de 2021

À Direita, muito fel, pouco “MEL”.

 

(cartoon de ANTÓNIO GASPAR)

A direita portuguesa tem andado muito activa nas últimas semanas.

“Ele” foi a Convenção do MEL (Movimento Europa e Liberdade)!

“Ele” foi o 3º Congresso do Chega!

Em ambos os eventos, a direita assumiu um discurso cada vez mais extremista, intolerante e arrogante.

Para o país, nem uma ideia nova.

Sobre o Chega estamos “falados”, já sabemos ao que vem, assumindo-se como partido extremista da direita, no próprio discurso do líder, xenófobo nas atitudes, que vem para “limpar o país”, sabendo nós o que representa essa “limpeza”.

Da Convenção do MEL esperava-se um pouco mais, mas o que ficou foi o branqueamento e a recuperação do salazarismo, pela mão de uma “eminente” historiadora, Fátima Bonifácio, foi o ressuscitar de Passsos Coelho e do ir “além da Troika”, e foi a “normalização” do CHEGA.

Não deixa de ser curiosa a recuperação da figura de Salazar numa convenção que se intitula da “Europa” e da “Liberdade”, se nos lembrarmos que Salazar foi o construtor e o símbolo da mais longa ditadura da nossa história nos últimos cem anos e o defensor do “orgulhosamente sós”.

Apelidar o movimento que defende tais ideias de “Europa e Liberdade”, faz lembra as velhas designações  de Repúblicas “Democráticas” e “Populares” dos regimes ditos “comunistas” do leste ou da actual Coreia do Norte.

Não se ouviu uma palavra sobre o que essa gente pensa dos problemas do país: a crise da habitação, os salarios baixos, a precariedade do emprego, as desigualdades socias, a corrupção. Quanto muito, mas de forma dissimulada, defendeu-se a redução ou mesmo a total ausência do  Estado na educação e na saúde, com a privatização de tudo, menos da justiça e da segurança, a entregar à “gente de bem”.

O silêncio sobre essas questões contrastou com o “ruído em surdina” à volta do sebastianismo de Passos Coelho, atitude que é suficiente para ficarmos a conhecer, nas entrelinhas do endeusamento do ex-primeiro-ministro, o “programa” social para o país: o revanchismo do “mais do mesmo”,  do “ir além da troika”, ou seja, privatização do Estado, entregue à gestão de amigos e “empresários de bem”, brutal aumento de impostos para as classes médias, esmagamento dos direitos sociais, cortes salariais, precariedade do emprego, substituição da solidariedade social pela caridadezinha, total submissão aos ditames do corrupto sector financeiro, pois esse foi, até agora, em democracia, o único programa executado pela direita mais consequente, a do “passos-coelhismo” (o outro "programa" conhecido foi o do salazarismo).

Por último, a terceira “cereja” no "pote" do MEL, a promoção de André Ventura e do seu discurso assumidamente extremista no seio da família da direita, contrastando com o desprezo demonstrado pelas posições moderadas da direita, representadas por Rui Rio, um dos bombos dessa “festa”.

Da direita sobra pouco “mel” e destila-se, cada vez mais, muito “fel”!

sexta-feira, 30 de abril de 2021

Arruaceiros ao Poder…os outros já dirigem o futebol!

(caricatura de Herman José à candidata Suzana Garcia)

Parece que o que está na moda na política já não é debater projectos e ideias, mas sim ver quem grita mais alto ou diz o maior disparate ou a maior alarvidade.

É isso que dá direito a comentários nas redes socias ou a aparecer em programas de reality show e nos debates televisivos, para aumentar audiências e ganhar votos.

Suzana Garcia, a candidata à Câmara da Amadora do PSD, é a prova mais recente do grau zero a que chegou o debate político.

Confesso que não me recordo, nas últimas décadas, de ouvir alguém em Portugal, candidato num partido com representação parlamentar, ou mesmo noutros, defender a “exterminação” de adversários políticos.

Foi isso que a candidata afirmou, numa entrevista a um programa de reality show: “Eu espero mesmo que o Bloco de Esquerda seja EXTREMINADO”.

Depois, questionada pelo entrevistador sobre se defendia o mesmo para o CHEGA, acabou por dar a resposta “politicamente correcta”, para parecer independente : “Também”.

Confesso que, desde o nazismo, não me lembro de alguém defender em público a “exterminação” de adversários ou de quem quer que fosse (o que não quer dizer que não se tenha feito, mas raramente assumindo).

O nível arruaceiro a que já estamos habituados no meio futebolista, como tivemos ocasião de assistir ainda na última semana, parece ter agora descido de vez ao mundo da política, tanto mais que não estamos a falar de uma candidata de um qualquer grupo marginal, da direita ou da esquerda, mas da candidata de um partido responsável, fundador da democracia.

Estranho também é o silêncio das redes socias, sempre tão indignadas quando o disparate vem da esquerda, revelando o grau de infiltração e influência, nesse meio, do extremismo de direita, de onde é oriunda a boçal Suzana Garcia.

A arruaça, dominante nos debates das redes sociais, parece estra agora preparada para tomar conta do poder do debate político.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Ilegalizar o Chega? Expulsar Mamadou Ba? Onde estão agora os Indignados?


Parece que anda por aí uma petição para expulsar Mamadou Ba do país.

Esse tipo de iniciativas é equivalente a outra, de sinal contrário, a de ilegalizar o Chega.

AQUI dissemos o que pensamos sobre o assunto do Chega.

Vivemos em democracia e em liberdade e, desde que se respeite as leis da mesma democracia, cada um é livre de defender o que quiser, mesmo as ideias mais disparatadas, absurdas ou mesmo ofensivas.

Mamadou Ba é livre de fazer as polémicas afirmações que costuma fazer, embora não me identifique com a maior parte delas.

Aliás, olhando para os milhares de afirmações publicadas na imprensa, proferidas nas televisões, declaradas nas rádios ou postadas nas redes socias, encontro afirmações, do mesmo teor ou de sentido contrário, tão disparatadas, intolerantes e ofensivas como as que costumam ser proferidas por Mamadou Ba.

É curioso que ainda ninguém se tenha lembrado de propor ou assinar uma petição  para expulsar as centenas de “idiotas” ( epiteto que muitas vezes é aplicado apenas a quem não concorda connosco) que todos os dias postam, escrevem e publicam as mais alarves boçalidades, os mais disparatados insultos e as mais intolerantes e ofensivas idéias.

Será apenas porque são "portugueses bem”, cheios de "portugalidade" (!!!) e, de preferência, brancos?

Também me espanta que tantos “comentadores” , tão ofendidos e preocupados com a absurda ideia de ilegalizar o Chega, não venham agora debitar preocupação idêntica por um outro acto absurdo, o de propor a expulsão de um cidadão de pleno direito.

É o que se chama de “dois pesos e duas medidas”, conforme o peso e a medida da ideologia de cada um.

E eu termino a interrogar-me: onde param agora os indignados que se manifestaram tão preocupados com o acto, atentatório da democracia e da liberdade ,que era a proposta de ilegalizar o Chega?

segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

No país do "dito cujo"


Por cá, o “dito cujo” ficou em 2º, situação que se repetiu em 10 das 13 freguesias, com um total  de mais de 4 mil votos obtidos.

Ana Gomes só ficou à frente do “dito” na maior freguesia (a urbana), na do Turcifal (uma terra com pergaminhos, dominada por uma elite culta e endinheirada, alguma brasonada) e na freguesia onde o PCP tem mais peso, a da Carvoeira.

Muita da minha  gente que vota à esquerda, mesmo PCP, votou Marcelo, para evitar uma segunda volta, outros votaram Ana Gomes, para travar o xenófobo. 

As poucas pessoas que conheço que estão com o Ventura vieram maioritariamente do CDS, menos do PSD, outros da abstenção ressabiada com tantos anos de democracia, alguns têm origem na extrema-direita de sempre, saudosos de Salazar, há mesmo monárquicos, da monarquia mais retrógrada (ainda saudosos do miguelismo, onde militaram antepassados), e alguns "anarco-convencido", daqueles que falam mal de tudo.

Esta é a minha "análise" empírica.

“Cientificamente”, recordo uma sondagem publicada no Público de 6ª feira, com análise da origem dos eleitores de cada partido, onde a maioria dos votantes do Chega que não tinham votado já no Chega nas anteriores legislativas, tinham origem no PSD (cerca de 10%) e no CDS (outros 9%). Seguiam-se os que votaram na Iniciativa Liberal (6%),no BE (5%),no PS (3%) e, só então,  no PAN (2%) e na CDU (2%).

Esta situação, mais a que eu observei em cima de forma empírica, e uma análise fina dos resultados, mostra que, ao contrário da intervenção disparatada do Rui Rio, a origem do crescimento do Chega não está nos eleitores do PCP, mas da direita clássica.

A forte votação do “dito” no Alentejo deve-se, não tanto aos eleitores tradicionais do PCP, embora possa haver uma pequena minoria nessa situação, mas a uma espécie de coligação negativa anticomunista, ressabiada com a longa influência da esquerda nesse território, já que o candidato do PCP, numa situação de maior abstenção, teve, nessa região, quase os mesmos votos e percentagem do candidato desse partido em 2016.

O CDS, como se verá em próximas eleições, e as sondagens já revelam, é, para já, o mais penalizado com o crescimento da extrema-direita, o que mostra de onde vem o crescimento do Chega, mas, se Rui Rio continuar por esta via, de euforia pelos resultados do “dito”, normalizando-o, então o PSD corre risco idêntico, e, com o desaparecimento do CDS e o enfraquecimento do PSD à direita, é a nossa democracia vai estar em perigo.

Por outro lado, a esquerda, enquanto andar preocupada com as capelinhas próprias e a ver quem é a "verdadeira esquerda", numa espécie de campeonato dos pequeninos, sem se unir no essencial, também presta um grande favor ao dito intolerante.

Também não é numa posição de gritaria histérica “antifascista” que se combate o crescimento da “coisa”.

O “fascismo” teve o seu momento histórico, mas foi um movimento “pragmático”, de tal forma que  quem defenda que nunca houve um fascismo puro.

Enquanto andar à caça do “fascista”, vai continuar deixar escapar a verdadeira origem do crescimento do dito: a intolerância, o medo, a ignorância, a raiva, a pobreza, a desigualdade, a corrupção.

Embora com pontos em comum    na  origem do "coiso", esse conceito de “fascismo” não é o que melhor pode ajudar a compreender e combater o fenómeno.

É através de argumentos sólidos, do exemplo, da desmontagem das mentiras, do desmascarar das falácias, da informação fundamentada, mostrando a superioridade da democracia, da liberdade e da tolerância, que se consegue isolar esses intolerantes de discurso fácil, de promessas tentadoras, gente sinistra que gravita à volta do “dito”, remetendo-os para as "catacumbas" de onde vieram.

Esta é a minha modesta e superficial análise da trágica situação a que chegámos.

Que "são Marcelo" nos valha!

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

“ANDRÉ VENTURA PELA VERDADE”, onde começa o humor e acabam as fake news?



Ontem caí na esparrela de divulgar uma fake new.

Era um texto, publicado num site credível, onde se reproduzia uma presumível afirmação de D. Manuel Clemente.

Punha na boca do Patriarca de Lisboa a seguinte afirmação:

“Esta narrativa de ódio aos nossos irmãos promovida pelo André Ventura e o seu partido Chega é totalmente contrário aos ensinamentos de Jesus, sendo uma aberração nesta sociedade que se pretende mais justa e mais fraterna. O Santo Padre foi claro quanto a isso na sua Encíclica Fratelli Tutti”.

Acontece que esse post fora retirado de um site intitulado “André Ventura pela Verdade”, acompanhado de um presumível comentário do “próprio” candidato da extrema-direita: “Também tu a atacar-me? Era só o que faltava…”.

Seguiam-se depois dezenas de comentários entre o apoio ao presumível Ventura atacado pelo presumível patriarca e a defesa do “ofendido” com ataques à Igreja.

Eu próprio caí na esparrela de acreditar que aquilo era verdade, mas, se tivesse parado um pouco para raciocinar, devia ter-me apercebido da estranheza daquela frase, por um lado porque aquele não é, não só o estilo de D. Manuel Clemente, que ainda  há poucas semanas se deixou fotografar ao lado do  líder do Chega em recepção cordial, por outro, porque a Igreja portuguesa costuma assumir uma postura mais metafórica e ambígua em termos políticos.

Também me deixei cair na esparrela porque me pareceu que uma frase como aquela era coerente com a nova atitude e a coragem do exemplo do Papa Francisco. Mas isto sou eu que sou um ingénuo…

Espantado fiquei com algumas reacções a esse texto no meu post. Algumas não se indignavam tanto com o facto de ser uma fake new, mas mais com a possibilidade de alguém da Igreja pensar nesses termos. Alguém até considerava aquelas palavras como um incitamento ao ódio (!!!).

Curioso e apercebendo-me do erro, procurei a origem e encontrei-a num site autointitulado “André Ventura pela Verdade”. É um site de humor que, explorando a arma da criação de “factos alternativos”, como se fosse um site do próprio candidato, e usando as próprias armas e argumentos do Ventura e dos seus apoiantes, desmonta assim, pelo ridículo da situação, os próprios argumentos.

Observando com tenção por baixo do cabeçalho, lá está o aviso que me escapou e a muita gente : "Sátira/Paródia" e no próprio cabeçalho outro aviso, em tom humorístico : "As Nossas Fake News São Mentiras Necessárias":



É curioso ver também a quantidade de gente que cai na esparrela de comentar tudo aquilo como se fosse verdade (como eu próprio, aliás, acabei por fazer), mas é um bom barómetro para ver o impacto do fenómeno “Ventura” e os próprios perigos do mesmo.

No fundo, este site faz aquilo que fazem páginas como o “Inimigo Público” ou, lá fora, um “Charlie Hebdo”, embora de forma mais disfarçada e não assumida.

O próprio título goza e glosa  com as muitas páginas “pela Verdade”, de divulgação de fake News e “verdades alternativas”, surgidas durante a actual crise, muita delas controladas pela extrema-direita.

Os extremistas não gostam de serem gozados este site mostra uma das formas mais eficazes de combater os "venturas" deste mundo.

(Em baixo o post falso):


terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Os “portugueses de bem”!!!

(original de "irmaolucia")

Tenho assistido a muitas campanhas presidenciais e, em comum, há o  facto de todos os candidatos prometerem, para além de cumprirem e fazerem cumprir a Constituição,  serem “o presidente de todos os portugueses”.

Este ano, para além da “novidade” de uma campanha em epidemia, temos um candidato que, caso seja eleito (…Lagarto!, Lagarto, Lagarto!!!!), para além de  negar cumprir a Constituição, promete ser o presidente de apenas  alguns portugueses.

E quais são esses portugueses?...os “portugueses de bem”!!!!.

O candidato introduz assim um “novo conceito” de ciência política, o  “português bem”.

Esse “conceito” traz-me à memória outros conceitos de “superioridade pela bondade”, como o de “civilização de bem”, tão útil para justificar o colonialismo e as suas atrocidades, o de “nação de bem”, tão útil para justificar as carnificinas nas frentes de batalha da  primeira guerra mundial, o de “classe social de bem”,  aplicado por Stalin para justificar os crimes do Gulag, ou de “raça de bem” aplicado pelos nazis para justificar o pior crime da história, o holocausto.

Em Portugal também já tivemos, no passado recente, a aplicação de algo parecido com a ideia de “português de bem”, no celebre “estatuto do indígena”, aplicado nas colónias entre 1926 e 1961, com várias alterações legais, onde se definiam os direitos, e principalmente os deveres, dos habitantes originais dessas colónias, e onde se justificava o facto de tais “indígenas”  não terem direitos civis, jurídicos ou de cidadania, estabelecendo-se, aliás, um mecanismo de transição entre o “não cidadão” e  o “português de bem” no decreto de 20 de Maio de 1954, classificando três grupos de habitantes das colónias: os “indígenas”, os “assimilados” e os “brancos”. Para a condição “superior” de “assimilado”, os” indígenas” tinham de saber ler e escrever português, deviam vestir como os brancos, professar a religião católica e os hábitos e costumes ocidentais. Mesmo assim nunca passariam de “assimilados”. Tão aberrante situação acabou em 1961 por iniciativa de Adriano Moreira, o que lhe terá custado a antipatia de muitos colonialistas e salazaristas.

Aliás, a primeira coisa que me veio à memória ao ler tal slogan eleitoral, foi a ideia de superioridade da raça ariana, numa versão soft adaptada ao século XXI.

Um ariano também era um “alemão de bem”, em contraste com um judeu, um cigano ou um eslavo (ou mesmo um latino), um comunista ou um social-democrata, ou mesmo um “simples” democrata.

A ideia de raça ariana tinha, pelo menos, o “mérito” de ser fácil de identificar, ao contrário da Ideia de  “português de bem”.

Um “ariano” era um louro, de olhos azuis, de porte atlético,” tudo”, aliás, que “saltava à vista” olhando para a imagem dos mais altos dignatários do regime nazi, como um Goering, um Gobbel, um Himmler, ou um Hitler… todos “autênticos arianos”….

Não sendo claro o que é o tal “português de bem”, podemos tentar definir o conceito pelo seu contrário, a partir de afirmações do candidato ou do programa do seu partido.

Não é “português de bem” quem estiver a cumprir pena de prisão, seja qual for o motivo da mesma, incluindo presumíveis “criminosos” ainda não julgados, a não ser pelas redes socias e pelas fake news.

Não é “português de bem” um homossexual, uma mulher que abortou, um casal em união de facto.

Não é “português de bem” um cigano, um africano, um emigrante, um muçulmano, um habitante de bairro social.

Não é “português de bem” um “subsídio-dependente”, ou seja, um cidadão pobre, um desempregado, um doente crónico, um deficiente ou um pensionista.

Não é “português de bem” um funcionário público ou um sindicalista.

Não é “português de bem” um “esquerdalho”, isto é, um  comunista, um  socialista ou mesmo um social-democrata ou um simples defensor do Estado Social.

Não é “português de bem”, um “traidor” da direita, um democrata-cristão, um critico do extremismo das suas propostas, que “pactue” com o regime democrático que ele pretende substituir pela “IV República” ( talvez uma ….”República de Mil Anos”!!??).

Pelo contrário, talvez seja “um português de bem” alguém que falsifique assinaturas para legalizar um partido político extremista, como aconteceu com o partido desse candidato.

Talvez seja “um português de bem” alguém que usa de todos os estratagemas para fugir ao pagamento de impostos, recorrendo a paraísos fiscais, com a ajuda do próprio candidato enquanto exerceu a advocacia.

Também deve ser “um português de bem” todo aquele que fez fortuna através de negócios obscuros, como aconteceu com muitos dos apoiantes e financiadores dessa candidatura.

Pela minha parte, porque não sou esse “ português de bem” , talvez por  “ser um criminoso” ( já fui multado algumas vezes), “subsídio-dependente” (trabalhei no ensino público e sou pensionista) e um “esquerdalho” incorrigível, espero, talvez de forma egoísta, para fugir a um “campo de reeducação”, contribuir para a derrota desse candidato e do seu projecto.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

As imagens da vergonha : Assalto ao Capitólio


Estamos habituados a ver imagens como as de ontem, no Capitólio, em países onde a democracia é uma caricatura.

Vimos cenas parecidas na Rússia, com as tropas de Iesltsin a atacarem um parlamento que lhe era hostil, aí pelos meados da década de 90, não se sabendo ainda hoje o número exacto de deputados assassinados.

Vimos cenas idênticas, mais recentemente, na Ucrânia e na Venezuela.

Recuando ainda mais no tempo, todos se recordarão de, em pleno PREC, se ter assistido ao cerco do parlamento, mas, apesar de tudo, sem invasão do edifício, sem actos de vandalismo, nem com a violência como a que ontem se viu.

O que não se esperava era ver tais cenas  no país que se gaba de ser um exemplo de democracia, como os Estados Unidos, ainda por cima por instigação do presidente em exercício.

Uma verdadeira tentativa de golpe de estado, que, em qualquer democracia, implicaria o julgamento dos líderes e instigadores.

Se isto se tivesse passado noutro sítio qualquer, não faltariam as ameaças de comentadores e políticos do mundo dito ocidental, apelando a sanções e a uma intervenção militar da NATO.

Este vai ser o modelo insurrecional a seguir pelos trumpistas de todo o mundo, o momento de glória para os "chega" e populistas de toda a espécie.

As imagens que retirámos da imprensa e agências internacionais falam por si: