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sexta-feira, 15 de março de 2024

O Respigo da Semana :

 

O milhão do contra

Por Miguel Esteves Cardoso

“Com que então o Chega obteve um milhão de votos?

Ficámos assim a saber que há um milhão de portugueses que são do contra.

É deprimente? É. Um milhão é muita gente. Mas é um erro tentar apanhar esses votos. São votos do contra. São votos anti-sistema. Só passarão para o PSD ou para o PS no dia em que o PSD ou o PS se transformem em partidos do contra. Que será nunca.

Para o milhão de portugueses que votou no Chega — e para o próprio Chega – os votos obtidos pelo Chega foram uma desilusão e uma derrota.

Queriam ganhar as eleições. Ou ser o segundo maior partido. Não queriam ter menos de 25 por cento. Queriam ir para o governo. Não queriam ficar de fora.

Não tiveram nem 25 nem 20 por cento: só tiveram 18. Desses 18, muitos são abstencionistas que, insatisfeitos com o mau resultado, voltarão para a abstenção e tão depressa não cairão noutra.

A verdade é que o Chega nunca mais terá uma oportunidade como esta. Ver-se-á aflito para segurar o milhão do contra.

São estas as contas que os partidos com inveja dos votos do Chega têm de fazer. É escusado ir atrás dos eleitores do contra. Eles não estão apenas zangados: são mesmo do contra. E agora estão mais zangados ainda: votaram para ganhar. E perderam.

Contra os 20 por cento do Chega, há os 80 por cento que votaram nos partidos que são contra o Chega. Todos os votos em partidos que não são o Chega são votos contra o Chega. E todos os votos do Chega são votos contra os outros partidos.

Contra esses 20 por cento, há os 60 por cento da AD e do PS: o bipartidarismo vale três vezes mais. A moderação vale três vezes mais. O centro vale três vezes mais.

Imagine-se se a AD e o PS se recusavam a formar governo e calhasse ao Chega tentar formar governo. Que poderia fazer um partido só com um milhão de votos, isolado e odiado pelos outros partidos e pelos outros eleitores?

Quem é que poderia querer aliar-se a um tal governo? Ninguém.

Os partidos do contra só sabem ser do contra. Não servem para mais nada”.

(in Público de 12 de Março de 2024)

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