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quarta-feira, 30 de abril de 2025

Apagão e Fake News


Nos primeiros minutos depois do apagão, uma das primeiras notícias que li, divulgada aparentemente por um orgão de comunicação espanhol, posteriormente reproduzida por outros orgão de comunicação e pela rádio era que, na origem desse acontecimento, estava um incêncio no sudoeste da França que teria danificado cabos de alta tensão, afastando assim a hipótese de um cyberataque.

Entretanto foram surgindo outras versões, identificando-se  origem do apagão em Espanha, cujas cauasas foram atribuidas a um fenómeno atmosférico raro.

Contudo, também essa versão ainda não é certa.

A melhor forma de não espalhar fake news é não serem as próprias autoridades a lancarem suspeitas infundadas. 

Por cá, a primeira comunicação de um membro do governo foi colocar a hipótese de um cyberataque, e o Sanchez, em Espanha, foi pelo mesmo caminho durante o dia de ontem.

Nada disso contribuiu para acalmar a população. Felizmente as pessoas souberam comportar-se e estar à altura das circunstâncias. 

Até agora, todos os verdadeiros técnicos que tenho ouvido até ao momento (e não os "tudistas" do costume, nem os antigos ministros do ambiente ou gestores de empresas energéticas, por nomeação política, estes são tão crediveis como os "tudistas") apontam para uma falha técnica, embora ainda não identificada.

E já agora, qual é essa do Zelensky se vir meter ao barulho (notícia de rodapé que estava ontem a correr na CNNPortugal [ou na SIC notícias, já não me lembro])? Está maluco, já manda nisto tudo, ou é apenas oportunista? [a noticia dizia mais ou menos isto: Zelensky oferece ajuda a Portugal e Espanha (??!!!)].

Parece-me que, neste momento, alguns políticos, dentro e fora da Europa, procuram adiar a divulgação dos factos com o objecticvo de retirar dividendos políticos. Para eles tudo teria sido mais fácil se este apagão fosse mesmo um cyberataque, justificando a sua deriva belicista.

É também bom recordar que estão em jogo, e podem ser explorados demagogicamente, opções energéticas, cada uma ligada a lobbies poderosos.

Por tudo isto, é urgente que se divulgue rapidamente a origem deste apagão, para não deixar espalhar os vários oportunismos que se escondem por detrás das fake news que por aí circulam.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Ecologia, transportes, Macron e ..."cavaquismo"!



Aparentemente, nada tem a haver com nada e tudo tem a haver com tudo!

Mas, hoje em França, Ecologia, Transportes e Macron tem tudo a haver com tudo!

Vamos por partes:

Em 1976 foi editado em Portugal o livro “Ecologia e politica” de  Michel Bosquet, hoje considerado precursor na defesa da ecologia.

O que retive da leitura desse livro, mais ou menos por essa altura, foi a sua denuncia do papel das grandes empresas petrolíferas no agravamento das condições de vida das populações, quer nos territórios de onde o ouro negro era extraído, principalmente no Médio Oriente, quer no agravamento das condições ambientais a nível global, pela promoção do transporte automóvel movido com derivados do petróleo.

Já então, os piores conflitos mundiais e as piores situações de miséria estavam associadas aos interesses financeiro e económicos ligados ao petróleo e ao sector energético.

Infelizmente, o tempo mostrou que, por um lado Bosquet tinha razão, por outros toda a geração de políticos que governaram o mundo nas décadas seguintes pouco se preocupou com a questão, ou revelou apenas uma preocupação retórica.

O neoliberalismo, que se tornou dominante como prática e pensamento económico a partir dos anos 80, agravou a situação, gerando a ilusão de um capitalismo popular, com convite a que se usufruísse do transporte individual em detrimento do transporte público.

Quem não caiu nessa armadilha que atire a primeira pedra.

Hoje, quando já começa a ser tarde para alterar o desastre ambiental para onde caminhamos, a situação agrava-se, com o mundo governado por políticos cada vez mais incompetentes e com a chegada ao poder, nos países decisivos para o ambiente, de ignorantes e arrogantes que põem em causa, não só o que os cientistas dizem sobre o clima, como o que os cidadãos já começam a percepcionar, no seu dia a dia, sobre o agravamento das condições de sobrevivência.

Em Portugal, o paradigma desse capitalismo popular, que levou os cidadãos a investir nos transportes privados em detrimento dos transportes público foi o chamado “cavaquismo”, que contaminou toda a população e toda a classe politica, promovendo a idéia de um enriquecimento rápido, à custa dos fundos europeus e da corrupção politica generalizada, à custa de grandes obras públicas que promoviam o uso do automóvel em detrimento do comboio e do transporte público.

Aliás, promoveu-se igualmente a idéia que o transporte público e o comboio era coisa de gente pobre e atrasada, de gente que não tinha aproveitado as “oportunidades” e que não era “competitiva” ou “empreendedora” e o uso do automóvel passou a ser uma questão de estatuto social e exibição.

Com isso agravaram-se as contas públicas, com a importação em massa de automóveis (beneficiando alemães e franceses) e  com o aumento da nossa dependência energética face aos grandes interesse petrolíferos que geraram esquemas de corrupção politica em larga escala, com ligações suspeitas a grupos angolanos, brasileiros e venezuelanos, situação ainda hoje mal esclarecida.

Hoje percebe-se que destruir, não só o sector produtivo nacional em nome dos fundos europeus e dos interesses financeiros dos países que dominam a Europa (França e Alemanha), mas também todo o sector de transportes públicos, em especial o ferroviário, foi um erro catastrófico, quer do ponto de vista ambiental, quer do ponto de vista financeiro, que vamos pagar durante décadas.

A aposta nos transportes públicos, mais eficientes do ponto de vista energético, ambiental, económico e em rapidez, é a única com futuro na Europa.

Alguns países já perceberam isso e investiram em força no TGV e nas energias alternativas para o transporte automóvel.

Anuncia-se, por exemplo, que o Luxemburgo vai tornar gratuito o transporte público.

Infelizmente, as medidas radicais na área dos transportes que são necessárias tomar para travar o desastre ambiental, pecam por tardias e por falta de alternativas credíveis.

Depois de décadas a empurrar os cidadãos para o uso do transporte individual, agora é difícil convencer esses mesmos cidadãos a mudar de rumo.

Para os convencer era necessário tomar as decisões há muito tempo adiadas, como a radical substituição da gasolina e do gasóleo por energias limpas, situação que é tecnicamente viável, mas que tem sido travada pelos grandes interesses da industria automóvel e, principalmente, da industria petrolífera, ou a criação de uma rede de transportes públicos viáveis, capaz até de concorrer com o transporte aeronáutico.

Foi isso que, atabalhoadamente, Macron tentou fazer em França, aumentando os impostos sobre o gasóleo e o uso do automóvel, mas esquecendo-se de antes, por um lado criar alternativas viáveis, como, por exemplo, a que vai ser seguida no Luxemburgo, e, por outro lado, saber fazer pedagogia em defesa do ambiente.

Ao lançar um fósforo ( o aumento do imposto sobre o gasóleo) sobre a “gasolina” ( o descontentamento crescente pelas suas medidas antissociais para agradar ao sector financeiro que domina em Bruxelas) Macron, não só comprometeu o seu futuro politico ( e provavelmente o da Europa), como “queimou” uma medida justa, que é a de limitar o uso do transporte privado e dos derivados do petróleo.

Aliás, Macron só cedeu naquilo em que não podia ceder, o imposto sobre energias poluentes, e com isso já perdeu.

Os políticos e o sector financeiro podem adiar decisões urgentes, mas o ambiente não vai esperar.