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quinta-feira, 24 de março de 2011

RESPIGOS DA CRISE - 4 - Pedro Lomba : A Retórica dos Fugitivos.

A retórica dos fugitivos


Pedro Lomba,  in Público 24 de Março de 2011

"A última sessão do Parlamento no fim da I República acabou sem quórum. Tal era o descrédito da casa que os deputados resolveram não comparecer. A última sessão do Parlamento ontem, no fim de Sócrates ou no princípio do fim de Sócrates, acabou quase sem Governo. As sumidades da governação eclipsaram-se. Sócrates saiu de cena logo que Teixeira dos Santos acabou de falar. E Teixeira dos Santos nem se dignou ouvir Manuela Ferreira Leite. Ambos assumiram o registo de provocação constitucional em que têm vivido há muito tempo e que usaram para esconder o PEC IV da Assembleia, do Presidente, dos parceiros sociais, de toda a opinião pública. Foi de propósito. Ambos desejaram ter este fim.

"Participar no debate com os deputados sobre o novo PEC era uma responsabilidade elementar do primeiro-ministro. O seu poder deriva do Parlamento. O seu dever é ouvir; e ouvir críticas, censuras, condenações, é também uma forma de ser responsabilizado. Mas como esperar responsabilidade de um governo e de um primeiro-ministro que aproveitaram a oportunidade do PEC IV para precisamente falsificarem e manipularem a responsabilidade pelo fracasso da sua governação?

"Convém estarmos atentos ao que se está a passar. Muita manipulação e desinformação se prepara. Sócrates, como de costume, está a tentar o seu próprio branqueamento por ter conduzido o país para a bancarrota. Tornou-se um fugitivo que procura escapar pela única frincha que as circunstâncias permitem, atirando o ónus do que aí vem, da crise, da intervenção externa - como se o país não estivesse há muito tempo em crise - para os seus sucessores. O seu pedido de demissão é uma fuga, um artifício para torpedear a possibilidade de os portugueses o responsabilizarem.

"É disto que se trata. Mas quem é que deverá ser responsabilizado por este momento crítico senão Sócrates? Quem é que nos governou nos últimos seis anos? Quem é que escondeu a situação real das contas públicas, quem contra todos os avisos e ameaças persistiu cegamente no erro e na mentira? E não foi Sócrates que apresentou PEC sucessivos com a colaboração do principal partido da oposição, ao mesmo tempo que não os cumpria? Não foi Sócrates que, dizendo agora "ou nós ou o FMI", finge que Portugal já tem recorrido à ajuda externa do Banco Central Europeu? Não foi Sócrates que atiçou a desconfiança dos mercados, expropriando Portugal da sua liberdade e independência?

"Tem sido esta a admirável estabilidade de Sócrates. E é desta mesma estabilidade que ele agora se proclama curador. Entre uma estabilidade destrutiva e uma clarificação urgente, há alguém que não prefire a clarificação?

"Era assim que tudo fatalmente acabaria. Com um primeiro-ministro acossado e em fuga, recorrendo a todos os truques para falsificar a sua responsabilidade, vitimizando-se e com um PS domesticado e desesperado por salvar o que resta.

"Quem quiser perceber a manobra fugitiva de Sócrates que leia um texto do cientista político espanhol José Maria Maravall "Responsabilidade e manipulação" (está disponível na Internet). O caso estudado por Maravall é a conduta do PSOE espanhol nos anos 80. Para manipular o processo de responsabilização política pelos eleitores, os media foram apertados; escondeu-se informação relevante que permitisse acompanhar o Governo; falsearam-se os resultados das políticas governamentais; o partido começou a viver com férrea disciplina e centralismo para aparecer artificialmente unido na crise, culpou-se a oposição pelo que fez e não fez; o Governo apresentou as suas políticas como necessárias e inevitáveis.

"Sócrates abraçou em absoluto esta retórica da manipulação da responsabilidade. É a sua única saída. A responsabilidade não é dele, é de outros. A crise não é dele, é de outros. Muito haverá para dizer sobre este período deletério que Sócrates encarna na nossa política. Um dia perguntaremos como foi possível".

domingo, 3 de outubro de 2010

O Respigo da Semana - Pedro Lomba descobre mais uma de Sócrates...

Só hoje esta situação chegou às primeiras páginas dos jornais, mas Pedro Lomba já a havia denunciado na passada 5ª feira. Mais uma aventura no admirável mundo de Sócrates e cujo “enredo” merece ser lido nesta crónica de Pedro Lomba:


"TRÊS PERSONAGENS EM BUSCA DEUM ENREDO
Por PEDRO LOMBA



In Público, 30 de Setembro de 2009

“Na semana passada, 23 de Setembro, notícias dos jornais informavam o mundo que António Mexia, o CEO da EDP, andava por Nova Iorque liderando uma comitiva da empresa de electricidade na Clinton Global Initiative, um fórum de líderes que organiza acções humanitárias. Com a comitiva de Mexia viajou também um "grupo de órgãos de comunicação social a convite da EDP" (Jornal de Negócios, 23-9) e, aqui como em tantos outros casos, "a convite da EDP" significa aquilo que já sabemos, que nos tempos recentes a agência de viagens EDP tem tido muito trabalho.

"Ao mesmo tempo que Mexia desaguava em Nova Iorque, acompanhado (como sempre) por uma pequena legião de jornalistas "a convite", quem também voou para a cidade americana na mesma altura foi outro português notório. "José Sócrates dá hoje início a uma visita de três dias a Nova Iorque. Na bagagem leva as políticas nacionais na área da energia e também a candidatura portuguesa ao Conselho de Segurança das Nações Unidas." (Antena 1, 23-9).

"Nem de propósito. Mexia e Sócrates em Nova Iorque cada um com programas distintos, embora tangíveis. E facilmente os jornalistas que integram a comitiva de Mexia passam a ser os jornalistas que acompanham a comitiva de Sócrates na sua expedição à ONU (um golpe publicitário sem interesse) e à Universidade de Columbia, no meio de outros gestos que escorreram para a imprensa.

"Continuemos, então. "Sócrates chega a Nova Iorque ao início da tarde e poucas horas depois discursa na Universidade de Columbia, num fórum mundial de líderes sobre política energética e agenda de crescimento em Portugal."??(Diário Económico, 23-9).

"Columbia é uma universidade de topo na América. Sucede que é também a universidade onde o anterior ministro da Economia Manuel Pinho, demitido pela célebre cena dos corninhos, se encontra de momento a dar aulas, adequadamente pago pela própria EDP (preço: 3 milhões). Então, se bem percebemos, Sócrates vai a Columbia dar uma lição em bad english, recomendado pelo seu amigo Pinho, que por sua vez só está em Columbia graças à generosidade do seu amigo Mexia (e, permito-me acrescentar, dos consumidores portugueses de electricidade). Esta coincidência de agendas só pode merecer elogios.

"De maneira que em Nova Iorque, na semana passada, Sócrates, Mexia e Pinho protagonizaram um daqueles momentos de teatralidade que, fora dos palcos, só podem existir na política, porque só a política produz este elevado grau de aparência e falsidade. Uma daquelas coreografias engendradas dentro dos gabinetes ministeriais, postas a circular pelas agências de comunicação e tragicamente "compradas" por uma imprensa impotente.

"Vai uma pessoa convencer-se disto. Mexia transposta uma comitiva de jornalistas com ele para Nova Iorque para expelir todo o seu humanitarismo e amor pelo próximo, Sócrates vai atrás (por estranho que pareça, na mesma exacta semana), levando consigo os feitos energéticos do Governo e Pinho, que já lá está, recebe Sócrates na prebenda universitária que Mexia lhe arranjou.

"Seria por isso tentador achar que estas três personagens estiveram em Nova Iorque na semana passada representando papéis autónomos, cada um na sua peça, indiferentes ao seu destino comum. Só que os três estão tão ligados entre eles, dependem tanto uns dos outros, beneficiam-se tanto uns aos outros, que são todos personagens da mesma tragicomédia, todos em busca do mesmo enredo. Jurista”

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

O Respigo da Semana - Pedro Lomba e o 1º de Dezembro.

Não deixa de ser irónico que se comemore hoje, dia da entrada em vigor do Tratado de Lisboa, um outro dia tão caro aos egos patrioteiros e nacionalistas que ainda por aí vão sobrevivendo.

Esse 1º de Dezembro de 1640, no meu tempo, era dia de desfile pelas ruas cá do burgo da Mocidade Portuguesa (MP) e da Legião Portuguesa.
O meu pai tinha conseguido negociar como o reitor do Liceu, onde eu estudava, que eu fosse dispensado de frequentara a MP, caso raro, penso eu.
Ainda criança, sem consciência política, lamentava, todos os Primeiros de Dezembro, não poder desfilar com os meus colegas, devidamente fardados, pela ruas da então vila de Torres Vedras, e invejava aquele rufar de tambores.
Hoje, à distância, agradeço ao meu pai aquela iniciativa. Sou dos poucos da minha geração que se pode gabar de nunca ter vestido uma farda da MP.
Actualmente, integrados na União Europeia, o 1º de Dezembro é uma data quase surrealista, ainda por cima comemora o facto de uns nobres, descontentes com o facto de terem perdido, com Filipe IV a influência que Filipe II lhes tinha garantido, resolveraem morder a mão de quem lhes tinha dado de comer ao longo de 80 anos, em troca de reprimirem ferozmente, durante todo esse tempo, qualquer tentativa, por mais leve que fosse, de revolta popular, essa verdadeiramente genuína e patriótica.
Por tudo isso, parece-me bastante certeira a crónica de hoje de Pedro Lomba no Público, que escolhemos como “Respigo da Semana”:

“Patriotismo remix

Por Pedro Lomba


“O nosso 1.º de Dezembro é um feriado virtual. Como todos os feriados históricos, aliás. A data simboliza o dia que Portugal se rebelou contra o domínio filipino, quando um grupo de conspiradores foi até ao Paço da Ribeira exigir à duquesa de Mântua que abdicasse do estatuto de regente. "Vossa Realeza deseja sair por esta porta ou por aquela janela?", foi o convite em modos suaves que lhe fizeram. A duquesa optou pela porta e uma Revolução educada, como quase sempre foram as nossas revoluções, pôde começar.
O que se comemora é a independência do país contra um invasor estrangeiro. Mas, hoje, isto da independência significa o quê? Além de virtual, o feriado parece anacrónico. Já não temos nem independência, nem invasores que não tivéssemos consentido ou desejado. O sentimento de sermos independentes na política não esconde o cardápio sombrio das nossas dependências económicas. Estamos em crise e mais dependentes do que nunca do exterior, de Espanha, de quem nos der a mão. A Europa salva-nos todos os dias de um destino de maior desgraça. Neste caso, a dependência só tem sido uma bênção.
A celebração da nossa independência também não esconde as muitas dependências individuais com que cada um vive a sua vida. Em Portugal acumulamos listas indetermináveis de dependências. Dependemos do Estado e, como por cá o Estado se confunde com o Governo, estamos sempre à mercê de quem ganha as eleições. Dependemos de mil e uma leis e regulamentos e de mil e uma interpretações sobre essas leis e regulamentos, de funcionários que dependem de outros funcionários e de superiores que dependem de outros superiores, dos poderes do fisco e dos corredores sinistros da nossa justiça abstrusa e encaracolada. Basta sermos apanhados pelas malhas de um para não sabermos o que esperar. Numa magnífica entrevista ao i, António Barreto explicou o mecanismo psicológico da dependência que continua a crescer entre nós. A dependência é a incubadora do medo e do silêncio. E o medo e o silêncio são os piores inimigos duma democracia livre.
O que há para comemorar então no 1.º de Dezembro?
Há pouco tempo pus-me a pensar na seguinte pergunta: será legítimo uma pessoa gostar e defender o seu país se este, longe de ser recomendável, decente e organizado, for antes um país sem futuro, cheio de oportunistas, cleptomaníacos e governantes sem escrúpulos? Teremos algum dever moral de defender um país que parece ter sido capturado por uma rede de predadores que usa o poder em seu próprio benefício?
Para alguns a resposta é fácil: "o meu país, certo ou errado". Mas este patriotismo retórico nunca me convenceu. O patriotismo não pode ser a exaltação das virtudes de um país contra os outros, nem assistir resignado ao nosso envilecimento colectivo. Para minha informação, o meu amigo Eduardo Nogueira Pinto fez-me ver há tempos que aquela frase célebre tem uma formulação mais completa: "O meu país, certo ou errado: se certo, que se mantenha certo; se errado, que se torne certo".
Quer dizer então que a liberdade de existirmos como país não serve de nada se não formos exigentes, críticos, insatisfeitos, até que os aldrabões e os governantes sem escrúpulos saiam dos lugares que ocupam. Os conjurados de 1640 estavam descontentes com quem os governava e resolveram por isso agir. Este é o único sentido de independência que ainda nos sobra. Já que este país é o nosso, não vamos deixar que no-lo estraguem ainda mais. É uma luta permanente. Jurista”

In Público de 1 de Dezembro de 2009