Pesquisar neste blogue

Mostrar mensagens com a etiqueta Grécia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Grécia. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 27 de julho de 2018

A Foto da Semana - Fugindo aos incêndios

(Fonte: VIP.PT)

Esta é uma fotografia reveladora da tragédia vivida esta semana pelos gregos. Condutores em fuga, terminam a sua viagem junto ao mar, o único refugio de muita gente para escapar à violência dos incêndios.

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Tragédia Grega (somos todos gregos!).



A tragédia vivida pelos portugueses no ano passado voltou mais uma vez a repetir-se, desta vez na Grécia.

Embora numa zona com características diferentes daquela onde ocorreu a tragédia em Portugal, a origem foi a mesma.

Para quem continua a desvalorizar as alterações climatéricas, aí está esta tragédia para provar o trágico resultado das mesmas…e a “procissão ainda vai no adro”!

Por cá, voltámos a ver a nossa comunicação social, principalmente a SIC, a tentar recorrer ao mesmo tipo de aproveitamento politico que já tínhamos visto o ano passado.

Desde o “procurar culpados” por um fenómeno imprevisível, (até porque a Grécia é governada pela esquerda e convém alguma contra propaganda politica) , até o tentar mais uma vez fazer um favor ao lobby nacional dos eucaliptos (uma “jornalista”, depois de ouvir um técnico a afirmar que na Grécia a floresta que ardeu era principalmente de uma espécie de pinheiro que potencia incêndios, logo se apressou a concluir, misturando “alhos com bugalhos”, que “afinal por cá andamos a diabolizar o eucalipto”. Felizmente o tal técnico não se deixou enrolar e, apesar de não se poder explicar por “falta de tempo”, ainda conseguiu, apressadamente, desmentir a “inocência” do eucalipto, tentando referir, mas sem tempo para se explicar, que ambas as árvores são perigosas e potenciam a dimensão dos incêndios provocados por fenómenos atmosféricos ou por mão criminosa. Mas o que ficou no ouvido foi a desculpabilização da jornalista em relação ao eucalipto…).

Acima do nosso jornalismo de sarjeta deve ser destacada a solidariedade europeia, não só para com a Grécia, mas também para com a Suécia que enfrenta o mesmo tipo de problemas (aqui, a inexistência de vítimas mortais justifica-se pelo tipo de povoamento desse país, onde as florestas estão longe de zonas habitadas).

O que esta tragédia vem demonstrar é, por um lado, a urgência em repensar toda a urbanização e organização florestal da Europa para fazer face à provável e cada vez mais frequente repetição de fenómenos extremos, como os que se registaram em Portugal no ano passado e na Grécia este ano, e, por outro, preparar as populações para essas mudanças climatéricas e melhorar a eficiência dos meios de prevenção e combate a incêndios.

Uma estratégia que tem de ser pensada, para já à escala Europeia, mas, cada vez mais, à escala global.

Neste momento o mais urgente é salvar os vivos e enterrar os mortos.

Por estes dias, devemos ser todos solidários.

 SOMOS TODOS GREGOS!

sexta-feira, 31 de julho de 2015

"O SOBRESSALTO GREGO" de Pedro Caldeira Rodrigues, uma sugestão de leitura para as férias.


Para estas férias pretendemos levar na bagagem esta última obra do jornalista Pedro Caldeira Rodrigues.

Pedro Caldeira Rodrigues, jornalista da Lusa, acaba de lançar um oportuno sobre a situação grega, que ele conhece bem, para além de conhecer a realidade de toda a zona balcânica, como repórter de guerra na ex-jugoslávia.

Formado em história, os seus trabalhos costumam ter sempre uma componente que vai muito além da “simples” reportagem jornalística, revelando amplos conhecimentos históricos sobre a realidade das suas reportegens.

Segundo o prefácio deste seu novo livro, ficamos a saber que eta obra faz uma abordagem “à turbulenta história da Grécia do século XX, com atenções mais centradas nos anos mais recentes de turbulência na Grécia, em particular a partir de 2008, quando, após a morte de um adolescente pela polícia em dezembro e que provoca tumultos sem precedentes por todo o país, à crise económica se associa uma grave crise política, as quais culminam com a realização do referendo de 5 de julho de 2015, e com as respetivas consequências imediatas.


“Um contributo que inclui variados testemunhos, recolhidos por Pedro Caldeira Rodrigues, jornalista da Editoria Lusofonia / Mundo da Agência LUSA, no decurso das reportagens efetuadas na Grécia nos "anos de crise" (novembro de 2011, fevereiro de 2012, janeiro de 2015 e junho e julho de 2015), acompanhados por mapas e quadros sobre a evolução dos resultados eleitorais desde o regresso da democracia em 1974, além de uma cronologia”.

Uma boa sugestão de leitura e reflexão para estas férias.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Eurogrupo quer transferir activos gregos para banco de Schäuble e Gabriel


A notícia que transcrevemos em baixo já tem uns dias.

Essa notícia revela várias coisa:

-  por um lado,  a forma como as decisões europeias estão condicionadas pelos interesses privados dos burocratas que mandam nas instituições não democráticas, como o Eurogrupo, e estão dependentes do corrupto sistema financeiro europeu que os emprega;

- por outro,  a verdadeira natureza de personagens como os senhores Schäuber e Gabriel e a forma mafiosa como funciona o poder europeu;

- também a forma como actualmente a “democracia-cristã” e a “social-democracia” europeias são cada vez mais a duas faces da mesma moeda, e são coniventes com o corrupto poder financeiro europeu;

- por último, o pouco impacto que a notícia mereceu por cá dos comentadores televisivos do costume, é  revelador da “independência” desses propagandistas da austeridade.

Vamos então à notícia:

Eurogrupo quer transferir activos gregos para banco de Schäuble e Gabriel

Por FILIPE PAIVA CARDOSO, jornal “I” de 12/07/2015 .

A instituição independente no Luxemburgo para onde o Eurogrupo propõe transferir 50 mil milhões em activos gregos é gerida pelo KfW, banco estatal alemão, cujo chairman é Schäuble
“A transferência de “activos no valor de 50 mil milhões de euros” detidos pelos contribuintes gregos para um “Instituto do Luxemburgo para o Crescimento” é uma das condições que o Eurogrupo procura impor à Grécia para iniciar negociações de um terceiro resgate. Este instituto é no entanto gerido pelo KfW, um banco estatal alemão, cujo "chairman" é Wolfgang Schäuble, ministro das Finanças alemão, e cujo vice-chairman é Sigmar Gabriel, ministro da Economia alemão.

“Assim que a ideia de transferir activos gregos para entidades europeias foi colocada nas propostas do Eurogrupo levantou-se de imediato imensa polémica, já que no fundo tal medida representa uma enorme perda de soberania, algo que Tsipras tem tentado resistir bastante.

“Agora, com o passar das horas, começou a desmontar-se as estruturas de gestão deste Instituto até à conclusão de que a gestão compete ao KfW, cuja administração está toda nas mãos dos políticos alemães.


“A polémica no entanto não fica por aqui. É que além de se tratar de um banco estatal, e além de ter a sua administração dominada pela classe política no poder na Alemanha, também o poder executivo desta instituição vem com um pedigree pouco recomendável: OCEO do KfW é Ulrich Schröder, que fez carreira no WestLB, banco que desde 2008 teve direito a um total de quatro resgates com dinheiros públicos”.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

A Boçalidade do Mal :


Esta fotografia vai ficar para história.

Foi divulgada na passada segunda-feira, por ocasião de uma reunião do Eurogrupo, após a “reeleição” de Dijsselbloem para a sua presidência, um dia depois de a Grécia e o seu governo terem sido humilhados por essa instituição não-democrática.

É a banalização do mal em todo o seu esplendor, o mal do século XXI preconizado por burocratas ao serviço do corrupto poder financeiro, o mal de “rosto humano” e sorridente.

Hoje , para essa gente, os cidadãos europeus são meros números estatísticos e as suas escolhas contam muito pouco.

Gente que nos governa sem nunca ter sido submetida ao voto popular e que vive acima das possibilidades de qualquer simples cidadãos europeu.

Por isso estão tão felizes e sorridentes, depois de mais uma sessão de malfeitorias.

O mal dos nossos dias não precisa de se socorrer das prisões, dos campos de concentração ou do poder das armas, basta sufocar-nos com o poder do dinheiro e da burocracia que nos impõe um modelo de sociedade empobrecida, desigual e amoral.

Hoje não são precisos Hitler´s ou Stalin´s, basta-lhes o poder de sufocar os povos em dívidas eternas e em futuros de exclusão alargada.

Nem a democracia tem qualquer valor, pois a escolha dos cidadãos está submetida aos ditames de acordos impostos pela força do dinheiro e de nada vale eleger quem nos defenda, porque serão humilhados e chantageados como o foram os gregos.

A liberdade essa está maniatada por grandes órgão de desinformação, onde manda a voz do dono, o poder financeiro que define os “critérios editorias” que melhor se adaptam às necessidades das instituições “credoras”, onde enxameia pequenos gobelzinhos da propaganda, onde a mentira várias vezes repetida se torna a verdade da lógica dos “mercados” e dos “credores”.

Aquela fotografia encarna a boçalidade do mal, as figuras sinistras que mandam nesta Europa da austeridade, da desigualdade e do empobrecimento.

Aquela fotografia vai ficar para a História! (tal como as que reproduzimos em baixo também ficaram):










segunda-feira, 13 de julho de 2015

O RESPIGO DO DIA : As três lições da crise grega segundo Soromenho-Marques:


Três lições de Xerxes em Atenas

por VIRIATO SOROMENHO-MARQUES

in Diário de Notícias, de 13 de Julho de 2015

“Uma semana depois do esmagador "não" grego, a rebelião foi esmagada. A capitulação de Tsipras, ao apresentar um programa duríssimo, não foi suficiente.

“ Ele terá de regressar ao Parlamento carregado de novas algemas. Tem até dia 15 para aceitar uma austeridade hiperbólica, que envolve o IVA, o mercado de trabalho, mais 50 mil milhões de euros de privatizações, e a derrota simbólica de ver a troika regressar a Atenas. Tudo pode ainda resvalar.

“Berlim mostrou não temer colocar a Europa a ferro e fogo com o grexit, eufemisticamente apresentado como um castigo para cinco anos (como se entrar ou sair de uma união monetária fosse uma brincadeira pueril).

“Este novo sacrifício da Grécia tem, contudo, três lições para quem as quiser aprender.

“Primeira: a zona euro (ZE) não é uma união económica e monetária, fundada na promessa de uma solidariedade política cada vez mais firme entre os seus membros, mas sim um clube de países, organizados pela hierarquia do poder efetivo, competindo pelas boas graças dos mercados financeiros.

“Segunda: Berlim não está disposta a estender os princípios do federalismo (que implicam transferências orçamentais solidárias) à ZE. Berlim está contente com esta união monetária low cost, que deveria chamar--se Zona Marco Alargada, pois está desenhada, essencialmente, para servir a economia alemã.

“Terceira lição: a ZE é hoje um grande pan-ótico, onde os prisioneiros e os carcereiros se vigiam mutuamente. Quem fica, perde a alma. Quem sai, arrisca o pescoço.

“ O protesto democrático de um povo empobrecido partiu-se contra o muro hegemónico ordoliberal, como os sabres da cavalaria polaca contra o aço dos blindados em 1939.


“Esperemos que Paris e Roma tenham aprendido alguma coisa, pois também chegará a sua vez”.

domingo, 12 de julho de 2015

O que nós aprendemos com a crise “grega”: Não é possível agradar a “gregos” e a TROIKANOS…o problema está no euro, a moeda da austeridade e da desigualdade.


O governo grego encontra-se entre a espada e a parede, apesar do apoio democrático e esmagador que recebeu do seu povo para negociar com os burocratas das instituições europeias.

O seu problema é não ter um mandato claro para sair do euro e já se percebeu que o euro é a moeda da austeridade, do empobrecimento e da desigualdade, que apenas beneficia o corrupto sistema financeiro europeu , especialmente o alemão.

Também se ficou a perceber que os “credores” isto é, as instituições não democráticas que mandam na Europa, o BCE, o Eurogrupo, a Comissão Europeia e o Conselho Europeu, com o beneplácito do verbo de encher que é o Parlamento Europeu, não estão do lado dos cidadãos europeus e das suas necessidades, mas servem única e exclusivamente a voz do dono, isto é, o obscuro e desumano sistema financeiro europeu.

A maior parte dos políticos e burocratas que enxameiam essas instituições vivem acima das possibilidades do comum dos cidadãos europeus, vivem numa realidade paralela, que não é a da luta diária desses cidadãos por uma vida digna, e nenhum deles tem futuro fora do sistema financeiro que lhes dá de “comer” e acesso a um estilo de vida a que nenhum cidadãos europeu normal pode almejar .

Esses políticos e burocratas  circulam entre a representação política, a administração de grandes empresas, nomeadamente as financeiras, as “aulas” nas universidades de “referência” (embora raramente façam o trabalho “sujo”, entregue a subservientes assistentes), ou as funções principescamente pagas como “comentadores” televisivos (uma espécie de “gobelzinhos” da propaganda neoliberal), e, por isso, não se lhes pode exigir que percebam o ponto de vista :

- do trabalhador europeu que perde direitos todos os dias, que paga cada vez mais impostos, que vê o seu salário cortado ou estagnado,  num  emprego cada vez mais precarizado;

-  do reformado europeu, transformado em bode expiatório da crise, uma espécie de “judeu” do século XXI e do neoliberalismo, e que vê pender a ameaça da instabilidade constante sobre o valor da sua reforma, e tem como horizonte de futuro, caso não já faça parte dela, cair na estatística dos cidadãos pobres (40% na Grécia);

- do desempregado que perde qualquer direito à dignidade, pela redução constante do tempo em que dura o seu subsidio de sobrevivência ( na Grécia o subsidio de desemprego dura dois meses) e do valor do mesmo, e que não vislumbra no horizonte qualquer esperança de um emprego estável e remunerado justamente;

-  do jovem licenciado que, se não fizer parte dos quase 50% de jovens desempregados, vislumbra apenas como esperança um emprego precário e mal pago e que vai adiar permanentemente qualquer sonho de formar família, gozar o direito a uma vida com futuro e, como horizonte, daqui a umas décadas, uma reforma de miséria total.

Não nos podemos assim admirar que os “credores” não percebam o drama da Grécia, que também é, a prazo, o drama de Portugal, da Irlanda, da Espanha e até da Itália e da França, senão de toda a zona euro.

Não nos podemos assim admirar que os credores continuem a insistir na mesma receita de “reformas estruturais” e de “austeridade” que apenas conduzem ao rápido empobrecimento de países inteiros e à desesperança de muitos cidadãos europeus.

O euro não foi construído para aprofundar a estabilidade social dos europeus ou para atenuar as desigualdades ou a pobreza, nem com gesto de solidariedade entre povos.

Se fosse esse o objectivo do euro tínhamos visto a sua implantação ser acompanhada de verdadeiras reformas estruturais que aproximassem sistemas de pensões, que aproximassem o valor destas, que aproximassem preços e salários, que combatesse as desigualdades e o desemprego, que acabassem com a precaridade no emprego, que aproximassem o sistema de impostos.

Se a implantação do euro visasse a justiça económica e social, não era possível a existência de paraísos fiscais no seio de países da zona euros, com acontece com a Holanda ou o Luxemburgo, por exemplo.

Por isso uma das coisas que esta crise da Grécia tornou clara foi que o problema está no euro e não é possível, nestes moldes, combater de forma honesta e credível as desigualdades e a pobreza, em países como a Grécia, Portugal, Itália, Espanha, Irlanda e até na França, sem que esses países comecem a equacionar uma saída ordenada e colectiva dessa moeda, que é cada vez mais a moeda da austeridade, da desigualdade e da pobreza, pelo menos para esses países.

O Euro só beneficia os bancos e a industria alemã  francesa e finlandesa, os paraísos fiscais do Luxemburgo e da Holanda, os satélites do espaço vital alemão do leste ( e neste apenas as suas elites, já que a maior parte da população vive de salários baixos e emprego precário).

Basta aliás olhar com atenção para o único índice mundial credível, o do Desenvolvimento Humano, anualmente publicado pela ONU, para se perceber que o euro não é a moeda da prosperidade humana.

Entre os 20 países mais desenvolvidos estão 11 europeus, destes 7 estão na União Europeia, mas apenas 4 no euro, a Holanda (em 4º), a Alemanha (em 6º), a Irlanda (em 11º), e a França (em 20º).

Tirando o caso peculiar da Irlanda, apenas os países do euro que beneficiam com o euro estão nesse “pelotão da frente”.

A Irlanda, apesar da sua posição, foi o país de topo que mais posições desceu ,três lugares  entre 2012 e 2013, data dos dados registados no último relatório da ONU, com a data de 2014.

Portugal ocupava o 41ª lugar, na cauda do “pelotão da frente”.

Aguardamos pela saída do relatório de 2015, com dados de 2014, para aferir melhor da situação reveladora de os países do euro só contarem com 4 países entre os 11 europeus do raking.

E já agora, os dois países europeus que lideram essa lista, a Noruega, no 1º lugar, e a Suiça, no 2ª, não só não têm euro, como nem sequer pertencem à União Europeia.

Mas há ainda outra situação. Dois países com euro estão no segundo pelotão dos países desenvolvidos, o que mostra as desigualdades no seio dessa moeda.

Também já se percebeu que a dívida é impagável por países como a Grécia, Portugal e Irlanda, porque a austeridade destrui as suas economias e fez regredir em décadas o PIB de cada um desses países, apesar de, em termos nominais, o conjunto da dívida daqueles três países ser menos de metade da dívida nominal da Alemanha (esta é de quase 3 biliões de euros…), Alemanha que, também aqui não cumpre os critérios de Mastricht, pois esta atinge quase 80% do seu PIB…

O pagamento da dívida, à qual países como Portugal e a Grécia foram obrigados a contrair para pagar os desvarios do sector financeiro, que vai ser paga pelos cidadãos desses países, só permitirá que se volte a viver nalguma “normalidade” económica, social e financeira lá para meados da década de 50 deste século, e isso se tudo correr bem e não for necessário contrair mais empréstimos, pois até lá o investimento e a economia vão continuar estagnados.

Ou seja, sem se começar a equacionar a saída do euro a breve prazo, países como Portugal, Grécia, Irlanda, Espanha, Itália e até a França vão estagnar durante décadas.

Por isso se qualquer político o tentar convencer que é possível continuar no euro sem aumento de austeridade, sem aumento da pobreza, sem estagnação do emprego, sem cortes salarias e nas pensões, sem degradação dos serviços sociais, educativos e de saúde, está a mentir.

A alternativa é, cada vez mais,  entre continuar no euro e no empobrecimento e na estagnação, ou começar a negociar, desde já, a melhor maneira de sair do euro…a não ser que se mudasse alguma coisa na estrutura dessa moeda…mas isto não interessa à Alemanha, aos seus satélites nórdico e do leste, ou ao corrupto sistema financeiro da Europa.

sábado, 11 de julho de 2015

A crónica de Paulo Granjo : "Demita-se, senhor Dijsselboem!"


Demita-se, senhor Dijsselbloem!

por PAULO GRANJO in Público de 11/07/2015 .

“Hoje, está claro por toda a Europa que o senhor não é nem pode ser parte da solução. O senhor é, sim, uma parte muito significativa do problema.

“Sr. Dijsselbloem: Escrevo-lhe na minha condição de cidadão europeu, ciente de que partilho com muitos outros milhões de concidadãos as preocupações e o apelo que lhe transmito.

“O senhor sabe (melhor do que nós, simples cidadãos informados) que o primeiro resgate à Grécia foi fundamentalmente aplicado na salvaguarda da exposição dos bancos alemães e franceses à dívida pública do país, no resgate aos bancos gregos e na manutenção das encomendas de submarinos alemães e de caças franceses. E sabe que essa utilização dos fundos foi condição para que o empréstimo se realizasse.

“O senhor sabe que, dos subsequentes resgates, quase nada foi gasto em despesas correntes e na economia grega, mas antes no pagamento dos elevados juros e do reembolso dos anteriores empréstimos a curto prazo.

“O senhor sabe que, nesse processo, os “contribuintes do norte da Europa” não pagaram um cêntimo “para as pensões e boa vida dos gregos”. Porque não foi esse o uso do dinheiro e porque, pelo contrário, os seus governos e as instituições internacionais lucraram biliões de Euros em juros.

“O senhor sabe que as condições políticas, económicas e sociais associadas a esses empréstimos (estranhamente consideradas legítimas e “normais”, no exclusivo caso em que o devedor não seja um indivíduo ou uma empresa, mas um país em situação vulnerável) destruíram a economia grega e mergulharam o país numa situação de calamidade social.

“O senhor sabe (ou tem obrigação de saber, tendo em conta a responsabilidade do cargo que ocupa) que a espiral de endividamento e recessão criada pelas exigências das instituições europeias e do FMI tornou, para além desses custos, a dívida grega impossível de pagar, exigindo a sua restruturação, até para o interesse dos próprios credores.

“O senhor sabe também (bem melhor que qualquer um de nós, cidadãos que pagamos o preço da sua atuação e decisões) que as tentativas de construir uma solução que quebrasse esse círculo vicioso e não passasse por “mais do mesmo” foram sistematicamente inviabilizadas, não por razões económicas ou financeiras, mas pelo afã de manter as relações de poder que conduziram à situação presente e de inviabilizar, num país membro da EU, um governo que não esteja disposto a aceitá-las.

“Estou também certo de que o senhor sabe, independentemente do que diga, que a linha de atuação que o Eurogrupo manteve ao longo dos últimos meses é, hoje, insustentável.

“É insustentável, porque a ausência de um diálogo sério e de uma restruturação adequada da dívida grega, que empurrasse a Grécia para fora do Euro, acarretaria a países como a Alemanha enormes prejuízos e, aos restantes países enfraquecidos por políticas de “austeridade”, ataques especulativos à sua dívida pública.

“É insustentável, porque uma saída da Grécia da zona Euro (fosse ou não eventualmente benéfica para os próprios) induziria também, com enorme probabilidade, uma forte turbulência cambial e o reacender da recessão por toda a Europa.

“É insustentável, porque as duas maiores economias mundiais não podem correr o risco quês tais efeitos teriam sobre os mercados financeiros, o comércio mundial e as suas próprias economias domésticas – tendo já deixado clara a sua exigência de uma solução que mantenha a Grécia no Euro e tendo-se abstido de envolvimentos mais directos apenas por respeito para com as instituições europeias.

“É insustentável porque, para além disso, os equilíbrios estratégicos e a situação mundial não permitem, aos Estados Unidos e à NATO, deixar que imposições de poder no Eurogrupo e da União Europeia empurrem um membro mediterrânico e à beira do médio-oriente para o colo da Rússia, por ausência de alternativas.

“A anterior atuação do Eurogrupo é hoje insustentável porque, sobretudo (e peço desculpa por lhe lembrarum tão traumático acontecimento), o governo grego convocou e venceu de forma estrondosa, este domingo, um referendo infelizmente raro na construção europeia. Dele, saiu em muito reforçado o seu mandato democrático (infinitamente mais do que os dos seus parceiros no Eurogrupo) para negociar uma solução que inclua a restruturação sustentável da dívida, exclua mais “austeridade” sobre os mais fracos e, em grande medida, salve a Europa.

“O senhor sabe que essa vitória foi obtida sob pressões e ameaças internacionais e das instituições europeias sem precedentes. Aliás, a par da ação do BCE (que, com ela, traiu e ameaçou a sua missão de salvaguardar a estabilidade financeira e bancária na zona Euro), o senhor foi, nestes dias, o mais notório apóstolo do Apocalipse. Não só nas várias ameaças que fez acerca da saída do Euro, mas sobretudo na sua irrevogável declaração de que uma vitória do “Não” significaria a impossibilidade de quaisquer negociações, a partir de agora.

“Ora o “Não” ganhou de forma eloquente. E é evidente a inevitabilidade, agora, de acelerar negociações e de chegar a uma solução que acolha as questões fortes saídas do referendo grego - para além de da mera racionalidade e bom-senso.

“Hoje de manhã, o governo grego deu um passo surpreendente de abertura ao diálogo, maturidade política e despojamento. Para que tensões pessoais e guerras retóricas passadas não se transformassem em escolhos artificiais, durante as negociações que necessariamente se avizinham, o ministro das finanças grego, Yanis Varoufakis, demitiu-se do seu cargo.

“E você, senhor Dijsselbloem?

“O senhor sabe que a senhora Merkel se resguardou no silêncio, durante a última semana, tal como sabe que o seu peso político e responsabilidades de liderança de facto a salvaguardam, no caso de um evidentemente necessário volte-face na sua posição.

“O senhor sabe que o senhor Shauble se pode modestamente resguardar na sua mera posição de ministro das finanças, que segue a sua liderança em defesa dos interesses alemães e europeus.

“O senhor sabe que, apesar de excessos verbais semelhantes ou piores que os seus, ao longo da última semana, o senhor Junker se pode resguardar nas tentativas de aproximação e diálogo que antes fez e na sua aparente inimputabilidade.

“Mas você, senhor Dijsselbloem, queimou as pontes ao declará-las queimadas e não tem para onde recuar. E é, hoje, impensável que a busca e construção de um inevitável acordo sejam feitas sob a sua liderança, mesmo que apenas nominal.

“Independentemente da forma como o senhor avalie a sua atuação ao longo dos últimos meses, hoje, está claro por toda a Europa que o senhor não é nem pode ser parte da solução. O senhor é, sim, uma parte muito significativa do problema.

“Por isso apelo (já que não existem mecanismos democráticos que me permitam exigi-lo) a que faça a única coisa digna e racional.

“Demita-se, senhor Dijsselbloem!”


Cidadão português e europeu, antropólogo

quarta-feira, 8 de julho de 2015

O Respigo da Semana - a crónica de José Vitor Malheiros sobre o resultado do referendo na Grécia:

Depois do "não" grego, talvez a Europa possa sobreviver

por JOSÉ VÍTOR MALHEIROS in Público de  07/07/2015 

"A vitória do "não" na Grécia foi a vitória da democracia contra a tirania, a vitória da política contra a burocracia, a vitória da liberdade contra a ditadura financeira, a vitória dos cidadãos contra os capatazes, a vitória da soberania nacional contra o colaboracionismo, a vitória da dignidade contra a chantagem, a vitória da honra contra a subserviência, a vitória da coragem contra o medo, a vitória da ousadia.

"Os gregos deram este domingo a toda a Europa e a todo o mundo uma lição de coragem e de dignidade pela qual não podemos deixar de nos sentir devedores e gratos.

"É surpreendente descobrir, de súbito, nesta envilecida Europa do racket e da negociata, nesta Europa da fuga aos impostos legalizada, nesta Europa capturada pela Alemanha, nesta Europa colonialista de proximidade que quer transformar os países devedores nas eternas vacas leiteiras dos mais ricos, nesta Europa onde quase todos os políticos parecem ter sido comprados pelo grande capital ou aspirarem a sê-lo, nesta adormecida Europa onde a democracia é sempre recebida com um esgar de desprezo, nesta Europa onde pontificam seres com a honorabilidade de um Jeroen Dijsselbloem ou de um Jean-Claude Juncker, nesta miserável Europa que nem sequer admite receber os refugiados que tentam fugir à morte através do Mediterrâneo, é surpreendente descobrir, dizia, que talvez ainda seja possível uma réstia de democracia. E isso é algo que não pode deixar de nos emocionar e de nos dar alguma esperança.

"O referendo grego mostra, acima de tudo, que a União Europeia pode não ser incompatível com a democracia, como tudo o que tem acontecido na Europa desde o Tratado de Maastricht parece provar, como tudo o que tem acontecido na União Económica e Monetária parece tornar evidente. Aquele que se orgulhava de ser o "clube das democracias" está de facto cada vez mais próximo de ser o "carrasco das democracias" e o referendo grego pode dar a esta trajectória assassina a inflexão moral que todos os democratas desejam.

"Não é apenas a vitória do "não" que é surpreendente, mas a dimensão dessa vitória, atendendo à pressão que foi colocada nos últimos dias sobre os cidadãos gregos, ameaçando-os de todas as formas possíveis e tentando aterrorizá-los com o que aconteceria caso se atrevessem a votar nesta opção. Eurocratas de direita ou nominalmente de esquerda, como o senhor Dijsselbloem ou o senhor Martin Schulz, presidente do Parlamento Europeu; políticos europeus de direita ou nominalmente de esquerda, como Matteo Renzi ou François Hollande, todos tentaram apresentar o "sim" como a única escolha razoável, porque garantia a manutenção da Grécia no euro, e o "não" como um voto irresponsável e suicida, porque empurraria a Grécia para fora do euro.

"Martin Schulz, o homem que gosta de se mostrar moderado, fez questão de afirmar que um voto "não" significaria o fim imediato do financiamento europeu e que "sem dinheiro, os salários não poderiam ser pagos, o sistema de saúde deixaria de funcionar, o fornecimento de electricidade e o sistema de transportes públicos ficaria paralisado". O auto-excluído ex-ministro das Finanças grego, Yanis Varoufakis, terá exagerado muito ao falar de "terrorismo"?

"Não só políticos europeus de vários sectores mas as próprias autoridades europeias, que deveriam estar obrigadas pelo seu cargo a uma estrita equidistância das várias posições em jogo, não hesitaram em apelar descaradamente à mudança de regime na Grécia, à substituição do democraticamente eleito governo do Syriza por um governo de tecnocratas que obedecesse a Bruxelas. Pouco faltou para que Bruxelas apelasse a um golpe de Estado em Atenas. Se alguém queria certificar-se de quão fino é o verniz democrático que cobre a política europeia, os últimos dias deram-nos uma resposta cabal e terrível. Na UE a democracia só é respeitada quando produz o efeito desejado pelo poder financeiro - leia-se, no caso concreto, pela Alemanha.

"Quanto àquilo que seria o custo político, económico, social e humano do "sim" e da aceitação de um acordo draconiano que manteria a Grécia na miséria durante décadas ou mesmo eternamente, ninguém, nos órgãos europeus, se preocupou. O voto grego foi um voto de rejeição de todas estas pressões e, por isso, é duplamente respeitável.

"É interessante ver a cobertura mediática que foi feita na Grécia durante a curta campanha antes do referendo. Uma medição feita nas seis principais estações de TV do país de duas grandes manifestações de sinal oposto deram um resultado claro: a manifestação do "sim" mereceu 46 minutos de cobertura; a manifestação do "não", 8 minutos. A vitória do "não" é também uma vitória contra a manipulação da informação.

"É verdade que ninguém sabe o que vai acontecer nos próximos dias e que a promessa de Tsipras de um acordo com a UE em 48 horas está longe de estar garantida. O que a UE não pode ignorar é que o povo soberano da Grécia disse não à austeridade, que mandatou o seu governo para não aceitar mais austeridade e que quer ficar no euro. Assim, a UE tem duas opções: ou muda de atitude e se coloca do lado da solução da crise, da solidariedade, da democracia e do progresso económico ou expulsa a Grécia e, a curto prazo, rebenta.


"Quanto ao governo grego que, devido à sua atitude conciliatória e à sua tentativa de manter a discussão aberta em vários tabuleiros, teve nos últimos meses um percurso por vezes difícil de compreender, deveria dar uma absoluta e permanente transparência a todos os passos das negociações, incluindo as respostas "informais" que receber. O povo grego precisa de saber e perceber o que está a acontecer para demonstrar o seu apoio. E não só o povo grego. Nesta batalha pela democracia e pela justiça social na Europa, há muitos milhões de cidadãos de muitos países ao lado de Atenas. E o povo não desistiu da democracia”.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

4 crónicas pela Grécia: Rui Tavares, Viriato Soromenho-Marques, Miguel Esteves Cardoso e Paul Krugman



“Solidariedade contra a chantagem

Por Rui Tavares, in Público de  06/07/2015

“ Os gregos disseram “não”. Contra ventos e marés, com os bancos fechados e as farmácias e supermercados já com problemas de abastecimento, esta foi uma demonstração de coragem e firmeza perante todos os avisos e pressões, chantagens e ameaças, temores e rancores.

“Que “não” disseram os gregos? Os gregos disseram “não” à aplicação de mais um pacote de austeridade. Mas o “não” dos gregos não foi sobre a saída do euro ou o afastamento da União Europeia. Só foi possível que o “não” ganhasse, num país em que 80% das pessoas não quer sair do euro nem da União Europeia, porque o Governo grego conseguiu fazer passar a mensagem de que um “não” no referendo não era um “não” ao euro.

“Esta diferença é relevante porque nos próximos dias vamos assistir a uma enxurrada de comentários dizendo que a Grécia voltou costas à Europa. Já começaram, aliás: o social-democrata alemão Sigmar Gabriel afirmou que o Governo grego queimou as últimas pontes com a Europa e o trabalhista holandês Jeroen Dijsselbloem disse que o resultado do referendo condiciona a presença da Grécia no euro. Pouco me surpreende a atitude deste dois porta-vozes da arrogância institucional da zona euro. São eles, e gente como eles, quem voltou as costas à Europa. São eles quem se apresta a sacrificar um país, primeiro, e todo um projeto de paz e democracia para este continente, depois, no altar das regras burocráticas e mecanismos cegos de uma união monetária mal concebida.

“É preciso fazer barragem a esta atitude revanchista e impedir que ela deite a perder aquilo que, apesar de todas as dificuldades e erros, se construiu na Europa das últimas gerações. Dijssebloem e Sigmar Gabriel perderam uma batalha política contra o Governo grego mas não têm o direito de levar a Europa para um buraco por causa disso. Vários governos europeus fizeram o que fez o grego e vários referendos europeus já deram “não” — na Irlanda, na Dinamarca, na França, na Holanda. Em todos os casos se voltou à mesa de negociações e se fizeram concessões para que os países em causa pudessem continuar no projeto europeu. Os gregos não merecem menos do que isso.

“Esta crise pode acabar amanhã se os mais inflexíveis dos governos europeus entenderem que não é possível exigir mais austeridade a uma economia deprimida e a uma sociedade exaurida. Mas é possível salvar a Grécia e a Europa combinando uma moratória imediata do serviço da dívida grega para os próximos dois anos, uma reestruturação das dívidas excessivas dos países da zona euro e um plano de relançamento económico financiado pelo Banco Europeu de Investimentos. Aí sim, será possível reformar o Estado grego — e o Syriza é provavelmente o partido mais bem colocado para o fazer. Onde o eurogrupo dizia: “Condições primeiro e alívio da dívida depois” é preciso dizer “alívio da dívida já para dar condições de reforma depois”.

“Quem ama a democracia e a Europa não pode deixar a Grécia ser empurrada para a porta de saída da União. Quem ama Portugal, já agora, também não. Nas cimeiras extraordinárias que se seguirão nos próximos dias, o Governo português não pode persistir numa atitude de confronto que, sem resolução desta crise, se poderia voltar contra Portugal mais depressa do que se pensa”.

“Coragem

por VIRIATO SOROMENHO-MARQUES

in Diário de Notícias de 6 de Julho de 2015

“Confesso que não esperava um resultado como aquele que deu à posição negocial do governo grego uma legitimidade tão reforçada. Sobretudo, depois de o BCE ter quase fechado a torneira da liquidez, obrigando os gregos, incluindo os mais idosos, a penarem nas filas dos ATM e dos bancos.

“Depois de todos os dirigentes das instituições europeias terem incitado, com mentiras e ameaças, à votação num sim que decapitaria o governo grego e atrelaria um povo inteiro à incerta clemência dos credores num ato de compreensível, embora lastimável, servidão voluntária. Como Aristóteles nos ensina, a coragem, a capacidade de resistir em vez de se render, é uma virtude. Um bem moral superior.

“Numa Europa governada por gente tão pequena, moral e intelectualmente, a coragem dos gregos - que não é a de um partido, ou de uma ideologia - é um tónico ético e cívico que vai ter impacto em todos os países varridos pela crise.

“ A resposta sobre o futuro da zona euro, e a sua integridade ou fragmentação, está agora do lado do diretório que se reúne hoje em Paris. Veremos se consegue digerir o azedume desta derrota da austeridade sem desperdiçar os dias escassos que a Grécia tem pela frente.

“Se escolherem o caminho da expulsão da Grécia, pelo menos não haverá dúvidas sobre quem fez vibrar o primeiro golpe, que fará desabar com estrondo uma união monetária incapaz de se curar dos seus males genéticos.

“ Talvez tenha chegado a hora, como sugeria Habermas num texto recente, de os povos salvarem a Europa do labirinto onde a cegueira dos atuais líderes a meteu. Mesmo que seja demasiado tarde, um combate por uma causa nobre, que se perde, é mais honroso do que uma vitória que nos rebaixa e envilece”.

"Assim não

 por Miguel Esteves Cardoso

in Público de 6 de Julho de 2015

“A maioria dos gregos disse “não”. Não disse “não” ao euro nem “não” à União Europeia. Foi “não” à maneira como os dirigentes democraticamente eleitos pelos gregos têm sido tratados pela troika.

“A troika pode queixar-se da maneira como se têm comportado os dirigentes gregos. Mas já não pode dizer que eles não têm defendido os interesses da Grécia. A Grécia, numa democracia parlamentar, é uma coisa simples: é a maioria dos eleitores gregos.

“A maioria dos eleitores gregos é a Grécia. E a Grécia disse maioritaria e directamente “não” à troika como disse “sim” aos dirigentes do Syriza que actualmente representa a Grécia.

“A austeridade é uma palavra mentirosa. Significa menos dinheiro e menos serviços sociais para todos. Quanto mais pobre se é, mais se sofre. Na Grécia todos os meses há cada vez mais pobres. A somar a todos os pobres que sempre o foram, há todos aqueles que só recentemente deixaram de o ser.

“Os dirigentes da troika e dos governos da União Europeia têm de ter a coragem e a clareza de deixar de culpar a Grécia e os dirigentes gregos e passar a culpar os próprios eleitores gregos.

“Os eleitores gregos, quando elegeram o Syriza e disseram “não” neste referendo, votaram na esperança de parar o empobrecimento. Não é heróico. Mas é digno por ser humano.

“Claro que os eleitores de cada um dos outros países da União Europeia têm a mesma importância do que os gregos. Os gregos não são nem podem ser especiais. Mas têm de ser considerados iguais. E irmãos.”

O referendo viso por Paul Krugman:

In The New York Times (tradução para espanhol doEl País) , 6 de Julho de 2015

“Tsipras y Syriza han logrado una gran victoria en el referéndum, reforzándose para lo que quiera que venga después. Pero no son los únicos ganadores: diría que Europa, y el concepto de Europa, han conseguido una gran victoria y han esquivado una bala.

“Sé que la mayoría no lo ve igual. Pero pensémoslo así: acabamos de ver a Grecia levantarse contra una campaña de acoso e intimidación, un intento de meter miedo a los griegos no solo para que aceptaran las exigencias de los acreedores sino para que se deshicieran de su Gobierno. Ha sido un momento vergonzoso en la historia moderna de Europa y, de haber prosperado, habría sentado un feo precedente.

“Pero no lo hizo. No tienes que amar a Syriza o creer que saben lo que hacen —no está claro que así sea, aunque la troika lo ha hecho aún peor— para considerar que ha redimido a las instituciones europeas de su peor yo. 

"Si Grecia hubiese sido forzada por el miedo a las consecuencias financieras, Europa habría pecado de tal manera que mancillaría su reputación durante generaciones. Dentro de un tiempo posiblemente recordemos esto como una aberración.

“¿Y si Grecia acaba saliendo del euro? En este momento hay, efectivamente, buenas razones para el Grexit pero, en todo caso, la democracia importa más que cualquier acuerdo monetário”.

Um dia histórico para a Democracia (e negro para as máfias financeiras que dominam as instituições europeias) nas primeiras páginas dos jornais










domingo, 5 de julho de 2015

Referendo grego - errei de propósito, e passo a explicar:

Em post anterior vaticinei a vitória do Sim, contra as minhas convicções e fi-lo de propósito, contra a intuição, e passo a explicar porque o fiz:

Costumo errar todas as minhas previsões eleitorais e por isso, deste vez, deixei-me dominar pela superstição: e se eu desta vez "anunciasse" uma previsão contrária daquela que era meu desejo?.

No fundo não é muito diferente do que fazem os comentadores de serviço bem pagos que por aí pululam a ganhar ordenados chorudos. (Eu pelo menos faço "previsões" de borla).

Aí está o resultado : "não acredito em bruxas...mas que as há, há!!!".

Só para ver a cara de melão e enterro da maioria dos jornalistas e comentadores de serviço, já valeu a pena a vitória do Não.

Agora vamos aguardar para ver qual vai ser o peso do Não.

Ao minuto: Varoufakis diz que "em 24h podemos ter um acordo" (clicar para seguir actualizações ao minuto).

Grécia : o "Sim " vai vencer...mas a razão está do lado no "Não"


O "Sim" vai vencer, embora por más razões:

- pela chantagem e pelas ameaças exercidas pelas instituições não democráticas europeias;

- pela abjecta campanha de medo da maior parte da comunicação social europeia, com destaque par a grega, na mão dos oligarcas que foram os grandes beneficiários com a crise grega e os responsáveis pela corrupção generalizada que conduziu os gregos aos desastre;

- pelo medo das "maiorias silenciosas" que, na hora de votar, optam pelo que é mais seguro,  preferindo o horror conhecido ao sonho do desconhecido.

...mas a razão está do lado do Não!

É isso que nos é explicado AQUI



quinta-feira, 2 de julho de 2015

É a Democracia, Estúpidos!!!



Anda por aí um frenesim imenso entre políticos e comentadores "campeões da democracia e da liberdade" por causa do referendo grego.

O jornalismo de sarjeta não pára de perseguir gregos em filas no multibanco, de tal maneira que já alguém escreveu numa parede junto duma dessas caixas : "agora preocupam-se com as filas nos bancos, mas preocuparam-se com as filas no centro de emprego ou na sopa dos pobres?".

Os mesmos que fecham os olhos aos atentados diários contra a democracia e a liberdade do governo húngaro, cuja actuação  faz de Putin um "democrata dos sete custados", ou que fecharam os olhos à forma como o poder foi tomado na Ucrânia por arruaceiros neo-fascistas, andam agora preocupados com o "atentado aos direitos humanos" do referendo grego (veja-se a posição do Conselho Europeu).

É pena que não se tenham lembrado dos "direitos humanos" quando a austeridade lançou na miséria milhões de europeus.

Uma das virtudes da Europa do pós guerra foi saber fazer a fusão entre direitos democráticos formais e direitos sociais, o contrário do que faz a actual geração de líderes europeus.

Paulo Granjo, no artigo reproduzido em baixo, vem-nos recordar que o "governo da Grécia foi eleito com o mandato de renegociar a dívida, de acabar com a espiral austeritária sobre os mais fracos, com o indigno diktat dos mangas-de-alpaca da troika e com o estado de calamidade social, de implantar medidas de dinamização económica.

“Tal como, se quisermos, Pedro Passos Coelho foi eleito com o mandato de não aumentar os impostos e de não cortar pensões e salários.

“Só que o governo da Grécia não é feito de gente capaz de vir, no dia seguinte, dizer que afinal é tudo ao contrário do que se comprometeram e que até querem ir mais longe do que as exigências da troika.

“Para o governo grego, tal como supostamente para qualquer pessoa de bem, aceitar um acordo que põe em causa uma parte daquilo para que foram eleitos – mesmo sendo esse acordo muito menos mau do que lhes queriam inicialmente impor – requer que os eleitores se pronunciem explicitamente".

Não é assim de admirar que os tais defensores da "democracia e da liberdade" e dos "direitos humanos" já comecem a fazer cair a máscara, defendendo agora um "governo de tecnocratas" para por "ordem" na Grécia ( acabei de ouvir esta "opinião" na rádio...foi dita pelo presidente do Parlamento Europeu , o alemão "social-democrata" (!!!!) Schultz....um grande democrata!!!).

Percebe-se o "espírito democrático" dessa gente: democracia sim, mas desde que continue tudo na mesma.


Dá-lhes com democracia!
Por Paulo Granjo
In Público de 02/07/2015

“Depois de o FMI recusar o plano grego (por uma parte do equilíbrio orçamental ser pago pelas maiores e mais lucrativas empresas e pelos salários mais altos, em vez de por mais cortes aos reformados e aumentos de preços) e depois de o Eurogrupo ter feito alegre coro com essas firmes exigências de mais austeridade para quem está na miséria ou à beira dela, o governo grego anunciou um referendo acerca do pacote de exigências que as instituições europeias pretendem impor, para desbloquear o financiamento ao país.

“Em Bruxelas, caiu o Carmo e a Trindade – ou o que quer que seja que por lá exista de equivalente.

“Não obstante, o recurso ao referendo como arma política e instrumento legitimador nada tem de novidade.

“Para desespero das esquerdas francesas, Charles de Gaulle recorreu extensivamente a ele quando as coisas lhe ficavam mais adversas.

“Mais perto de nós, em 2008, o presidente boliviano Evo Morales enfrentou um ataque em regra às suas políticas progressistas, que incluía a ameaça bem real (e com implícito beneplácito estado-unidense) de uma secessão dos estados dominadas pela oposição, a par de apelos explícitos e continuados a um golpe militar.

“Em vez de optar pelos anteriormente habituais endurecimentos de posições e escaladas securitárias, fez referendar o seu lugar, o do vice-presidente e os dos também eleitos governadores estaduais, pró-governamentais e oposicionistas. Foi confirmado no cargo com mais 8% do que tinha sido eleito, sendo também reconduzidos o vice-presidente e 6 dos 8 governadores provinciais (seus apoiantes, ou da oposição); nos outros 2 casos, houve novas eleições.

“A legitimidade democrática saiu reforçada, os Estados Unidos chamaram de volta os seus especialistas e entusiastas insurreccionais, as forças mais conservadoras submeteram-se ao jogo democrático e deixou de se falar de golpes de estado, ou de partir o país em dois.

“Nada permite afirmar que as consequências da convocação deste referendo na Grécia venham a ser tão positivas. E nada permite afirmar que o não venham a ser.

“O que não lhe falta, certamente, é lógica, espírito democrático, dignidade e oportunidade.

“O governo da Grécia foi eleito com o mandato de renegociar a dívida, de acabar com a espiral austeritária sobre os mais fracos, com o indigno diktat dos mangas-de-alpaca da troika e com o estado de calamidade social, de implantar medidas de dinamização económica.

“Tal como, se quisermos, Pedro Passos Coelho foi eleito com o mandato de não aumentar os impostos e de não cortar pensões e salários.

“Só que o governo da Grécia não é feito de gente capaz de vir, no dia seguinte, dizer que afinal é tudo ao contrário do que se comprometeram e que até querem ir mais longe do que as exigências da troika.

“Para o governo grego, tal como supostamente para qualquer pessoa de bem, aceitar um acordo que põe em causa uma parte daquilo para que foram eleitos – mesmo sendo esse acordo muito menos mau do que lhes queriam inicialmente impor – requer que os eleitores se pronunciem explicitamente.

“A decisão de não aceitar esse acordo, num quadro que é já diferente do das eleições, requer por seu lado um apoio popular maioritário que a legitime democraticamente perante os cidadãos que dela discordem, perante os potenciais entusiastas de pronunciamentos militares e perante os impositores de inevitabilidades, ao mesmo tempo que reforça a posição governamental e nacional, na busca de alternativas.

“Para além, se quisermos, dessa ideia caída em desuso numa Europa de supremacias nacionais e financeiras: a de que, em estados democráticos, as opções mais decisivas devem ser tomadas democraticamente.

“Um outro aspecto fulcral é que os impasses e tentativas de diktat a que temos vindo a assistir, por parte das instituições europeias e do FMI, pouco têm a ver com economia, mas antes com política.

“Têm em parte a ver – como o demonstra a justificação do FMI para recusar a última proposta grega, até aí rotulada como "uma boa base de trabalho" – com a continuidade de imposição, a países que estão financeiramente fragilizados, de um quadro específico de políticas económicas e sociais, independentemente daquilo que queiram os seus governos ou os seus povos.

“(E aqui, é curioso verificar que, se Marx escreveu metafórica e panfletariamente que os governos são "o conselho de administração delegado da burguesia", temos hoje banqueiros a exigir mandar – e mandando – nos governos.).

“Mas têm sobretudo a ver com a tentativa de tornar impossível a existência de governos, países e povos que se recusem a acatar, submissos, a destruição da sua economia e coesão social, em nome de ideologias e interesses que não escolheram nem escolhem.

“Têm sobretudo a ver com tornar impossível a vida ao governo grego, procurando criar uma lose-lose situation que o destrua e afaste veleidades semelhantes noutros países: inviabilizar as condições para a prossecução mesmo que parcial do seu programa (por sensato que ele seja), de forma a que ou se submeta, perdendo a credibilidade popular, ou crie uma situação provisoriamente caótica na tentativa de não se submeter, perdendo apoio para as soluções que preconiza.

“Para além do topete de dar a palavra ao povo, aquilo em que a convocação do referendo grego mais irrita chancelarias, ministérios das finanças e eurocratas é o facto de, através dele, o governo grego sair da armadilha.

“Uma eventual aceitação das agora mitigadas exigência euro-éfeémisticas não seria uma traição, mas uma opção popular, tal como a sua recusa não seria uma caturrice de radicais, mas uma decisão partilhada pelo país.

“Para além disso, o anúncio de referendo já não pode levar ao derrube de governos a partir do exterior – ao contrário do que aconteceu, há anos atrás e por exigência troikista, com o governo eleito do Pasok – e, pelo contrário, reforça a posição negocial da Grécia a nível mundial, ao demonstrar que não se pretende submeter e que está disposta a correr os riscos inerentes.

“Isto porque, ao contrário do que têm insistido em imaginar os governos europeus e os comentadores encartados, a solução do problema da Grécia não está restringida às fronteiras do Euro, ou mesmo da União Europeia.

“Mesmo com os cofres pouco cheios, seria para a Rússia uma pechincha ajudar a Grécia, ganhando influência sobre um país fulcral da NATO que lhe pode dar acesso ao Mediterrâneo, e sobre um país da União Europeia que pode, por exemplo, vetar sanções da União sobre outros países.

“Os interesses dos Estados Unidos não permitem, por essas razões, que a Grécia seja empurrada pela UE para o colo da Rússia.

“Para além disso, em termos económicos, também não permitem que braços-de-ferro de supremacia política e ideológica abram uma brecha no Euro de consequências imprevisíveis, mas que quase certamente incluiriam fortes mudanças cambiais e efeitos recessivos na Europa, com impacto na própria economia norte-americana e nos mercados financeiros mundiais.

“Só se estranha, então, que só agora Obama faça saber que insta Merkel a assegurar as condições para que a Grécia não saia do Euro e para que a dívida grega seja restruturada. Mas entre o anúncio do referendo e a divulgação desse telefonema, a relação não será certamente casual.

“Também a China se não pode dar ao luxo de uma cotação do Euro turbulenta, ou de recessão num continente fulcral para as suas exportações e, consequentemente, para a sua economia.

“E também ela, sábado à noite, veio pedir uma solução estável que viabilize a manutenção da Grécia no Euro, ao mesmo tempo que se oferecia para, se necessário, sacar do livro de cheques.

“Se não tivesse (como tem) as virtudes da dignidade, democraticidade, coerência e oportunidade, a convocação do referendo na Grécia teria pelo menos uma outra virtude: a de tornar evidente a miopia política, a auto-negação estratégica e o narcísico bruxelocentrismo com que todo este problema tem sido tratado, desde o início".


Antropólogo