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quinta-feira, 20 de março de 2025

O Novo "nazifascismo"


Não deixa de ser curioso.

Os Estados Unidos e a Rússia (herdeira da antiga União Soviética, que então incluía a Ucrânia), foram os principais responsáveis pela derrota do nazi-fascismo no século XX.

Os judeus,  os povos do leste e da antiga União Soviética foram os que mais sofreram como a violência do nazismo.

Os judeus fundaram Israel como consequência da violência que sobre eles se abateu com o Holocausto.

E o que vemos hoje?

Estados Unidos,  Rússia, Ucrânia e Israel,  nesse passado “antifascista” os principais combatentes ou vitimas do nazi-fascismo, são hoje os responsáveis pela disseminação, a nível mundial, dos ideais da extrema-direita, um novo "Nazismo", com várias vertentes e variantes, nalguns casos combatendo-se entre si, adaptado aos dias de hoje (a Rússia de Putin, algumas milícias e batalhões  ucranianos, os Estados Unidos de Trump e Israel de Nethanyhu).

Uma total e preocupante inversão e desrespeito pelo  passado histórico dessas nações e povos.

sexta-feira, 8 de novembro de 2024

Democracia e (ou?) Trumpismo!


Mais de 73 milhões de norte-americanos, pouco acima de 50% dos votantes, numa população de mais de 330 milhões, votaram em Trump e deram-lhe a vitória.

Com capacidade eleitoral estavam cerca de 240 milhões, tendo votado pouco mais de 140 milhões, dos quais cerca de 3 milhões votaram noutros candidatos que não os dois principais.

É assim a democracia, onde uma “grande minoria” de 22% (em relação à população total) ou de 30 % (em relação aos que têm capacidade eleitoral) pode obter o poder absoluto.

Contudo, quanto mais conhecemos a forma como funciona o sistema eleitoral norte-americano e o seu financiamento, mais perplexos ficamos sobre a verdadeira “democracia” e a “justiça” desse sistema, onde só dois partidos têm oportunidade de vencer, não possibilitando qualquer representatividade de minorias.

Claro que em França e na Grã-Bretanha, como vimos recentemente, a situação não é muito diferente.

É o problema dos sistemas de círculos eleitorais muito restritos, como nestes países europeus, ou do voto indirecto para um colégio eleitoral, como nos Estados Unidos, onde quem tem mais votos, mesmo pela diferença de um único voto, arrecada toda a representividade, dequilibrando a balança da equidade democrática.

Se juntarmos a isso o poder cada vez maior do sistema financeiro sobre os órgãos de comunicação social desse país, outro dos pilares que geralmente se lhe associa, o da “liberdade de expressão”, nos deixa cada vez mais perplexo.

Também por causa disso, nas democracias mais sólidas, existe todo um sistema de contrapesos que impede que uma "imensa minoria" se transforme em poder absoluto. 

Geralmente o que permite algum contrapeso no sistema norte-americano é a separação de poderes, mas alguns desses, como o judicial, estão cada vez mais dependentes do poder político e financeiro, só assim se explicando que Trump nunca tenha sido preso, pelos vários crimes de que é acusado.

Sobra alguma independência dos vários Estados Federais e o forte peso do tradicional associativismo de cidadania, sem esquecer que mais de 70% dos norte-americanos não estiveram com Trump.

Se a tudo isso associarmos o facto de o partido de Trump controlar todos os órgãos políticos (o senado e o congresso), e que esse candidato assumir a ruptura com todo o sistema político democrático norte-americano, a sua vitória, se bem que democrática, não deixa de ser preocupante para quem acredita nos valores de uma democracia saudável, da liberdade, do humanismo, da igualdade e do equilíbrio económico-social.

É a democracia a funcionar, sim senhor, mas também foi a democracia que levou Hitler ao poder, sem esquecer que foram “democracias”, algumas até menos viciadas que a norte-americana, que levaram ao poder Putin, Milei, Bolsonaro ou Órban, e que vai ser a democracia que está à beira de levar ao poder uma Le Pen…

Tempos complicado se avizinham.

Mas, como dizia um amigo meu, já desaparecido, quando os resultados eleitorais não nos agradavam, “não te preocupes, muitos dos que votaram neles [em Trump neste caso] vão sofre mais as consequências nrgativas das sua políticas que tu ou eu”.

terça-feira, 5 de novembro de 2024

Breve reflexão sobre as presidenciais norte-americanas por Pedro Caldeira Rodrigues (jornalista)


"À parte do superficial espetáculo mediático, de um efetivo entretenimento, 
diversos e atentos observadores têm assinalado qual a escolha obrigatória que se coloca aos eleitores norte-americanos nas eleições presidenciais de 5 de novembro de 2024: uma avalanche suprematista, reacionária e autoritária protagonizada pelo candidato do Partido republicano e ex-presidente Donald Trump, ou o prosseguimento de um império neoliberal assolado por fortes desigualdades sociais e pelas bombas norte-americanas que há mais de um ano caem sobre Gaza, e
depois sobre o Líbano.

Diversos académicos e intelectuais de renome interrogam-se crescentemente sobre a sanidade da democracia norte-americana, também devido aos crescentes custos das campanhas que impõem uma espécie de plutocracia e que sugere serem os doadores, os financiadores, quem escolhe antecipadamente o futuro ocupante do Gabinete Oval.

Outros consideram que as instituições estão impregnadas de racismo, fanatismo, corrupção, com opiniões polarizadas num país fraturado. A direita radical insurge-se contra uma elite estatista que acusa de ter falsificado as eleições de 2020, a esquerda militante considera o processo eleitoral antidemocrático devido ao peso de um Colégio eleitoral que favorece os estados pouco povoados.

Começou a evocar-se o espetro da guerra civil, debateu-se o facto de a Constituição ser omissa sobre a possibilidade de reeleição de um Presidente condenado, a dessacralização de instituições profundamente abaladas após o assalto ao Capitólio em 6 de janeiro de 2021, o controlo do Supremo Tribunal pelo “trumpismo”, ou o recuo no direito de a mulher decidir sobre o seu próprio corpo.

Trump e a constelação que o rodeia preenchem listas de inimigos, apoiados pelos representantes do “capital inovador” e proprietários de redes sociais, onde se destaca Elon Musk. MAGA (Make America Great Again), é o seu slogan, assente na obtenção de dinheiro por todos os meios, também pela exploração desenfreada das riquezas naturais.

Depois, mobilizar o Exército contra os “inimigos internos” e os migrantes, expulsar muitos milhões, perseguir os media e o pensamento desalinhado. A sua rival democrata acusou-o, literalmente, de “fascista”.

Mas após a sua apressada nomeação pelo Partido democrata devido às crescentes deficiências cognitivas de Joe Biden, Presidente em exercício, Kamala Harris não hesitou em convocar centenas de figuras conservadoras ou antigos colaboradores ou colaboradoras de ex-presidentes republicanos, onde se incluem o ex-vice-presidente Mike Pence, um evangélico tradicionalista, John Kelly, chefe de gabinete na presidência de Trump ou Dick Cheney, antigo vice-presidente
neoconservador de George W. Bush, mentor das guerras dos EUA no Afeganistão e Iraque após o 11 de setembro de 2001 e dos programas de torturas secretas da CIA.

Nas primárias do Partido democrata de 2019, onde ocorreu contra Biden e o veterano “esquerdista” Bernie Sanders, Kamala apresentou um programa virado para as classes médias e parte do setor empresarial, com promessas dirigidas à sua esquerda, em particular segurança social para todos ou um New Deal verde.

Entretanto, mudou de posição, e durante campanha eleitoral para as presidenciais recuou na promessa de proteção social global, prometeu expandir o muro fronteiriço, permitir novas prospeções petrolíferas, omitindo as questões climáticas. E foi incapaz de sublinhar uma efetiva e positiva “grande alteração” ocorrida nos últimos quatro anos.

O duo Biden-Harris foi também totalmente cúmplice dos implacáveis bombardeamentos israelitas sobre Gaza que se seguiram ao violento ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023 no sul de Israel. Enquanto os protestos eram duramente reprimidos, sobretudo nas universidades, e que denunciavam a mortífera cumplicidade com Israel de Biden, apelidado de “Genocide Joe”, Kamala Harris demonstrava firmeza no apelo à libertação dos reféns israelitas que permanecem em Gaza mas reservas em apelar a um cessar-fogo imediato, e argumentava com o “direito de Israel a defender-se” para justificar o contínuo envio de armamento.

Como na contestação à guerra do Vietname ou ao ‘apartheid’, a causa palestiniana mobilizou os espíritos, fomentou novas solidariedades entre estudantes com diversas perspetivas, judeus e muçulmanos, e causou embaraço na liderança do Partido democrata. As universidades norte-americanas envolvidas nos protestos afirmaram-se como contrapoderes e bastiões de um pensamento livre num país que foi perdendo o hábito de lidar com opiniões divergentes. Uma população atomizada e sob tutela, sintomas de uma democracia doente, carente de revitalização. “Uma primavera americana que arrisca tornar-se num longo outono”, na expressão de Thomas Dodman, professor na universidade Columbia, Nova Iorque.

O apoio, na prática incondicional, da administração Biden-Harris ao genocídio em Gaza e à deriva extremista, colonial e expansionista do Executivo israelita poderá ser determinante para o resultado final em 5 de novembro. Mesmo sabendo que com o regresso de Trump à Casa Branca – apoiado pela influente e milionária corte de teleevangelistas e cristãos sionistas –, Benjamin Netanyahu terá novo alento para prosseguir a “limpeza”, o projeto do Grande Israel e a concretização da profecia bíblica do “regresso do Messias à Judeia e Samaria”, a designação que atribuem à Cisjordânia ocupada".

Pedro Caldeira Rodrigues

4 novembro 2024

quarta-feira, 19 de junho de 2024

A Invasão da Ucrânia pela Rússia. Diversos antecedentes - UMA GUERRA QUE NECESSITA DE CONTEXTUALIZAÇÃO Por Pedro Caldeira Rodrigues


A Invasão da Ucrânia pela Rússia. Diversos antecedentes - UMA GUERRA QUE NECESSITA DE CONTEXTUALIZAÇÃO

 Por Pedro Caldeira Rodrigues

(jornalista da LUSA)

 Etnonacionalismos

No dia 22 de abril de 2022, no decurso de uma cerimónia em Moscovo que assinalou o nascimento de Lenine, o Partido Comunista da Federação da Rússia (KPRF) manifestou o seu apoio à invasão militar à Ucrânia desencadeada por Vladimir Putin, definida sem hesitações como um confronto entre Moscovo e Washington.

“Os anglo-saxões vieram [à Ucrânia] para combater com o objetivo de dominar o planeta”, afirmou o primeiro-secretário, Guennadi Ziuganov, nessa celebração que decorreu na Praça Vermelha, em Moscovo.

“Hoje, nas planícies ucranianas, está em disputa a questão de saber se o mundo será unipolar sob o seu comando [dos anglo-saxões] ou multipolar”, acrescentou.

Insistiu ainda ser "necessário defender o Estado”, acusando a NATO e os Estados Unidos de combaterem “o mundo russo”, e quando este partido, representado na Duma, há muito que pressionava para o reconhecimento por Moscovo das repúblicas secessionistas de Donetsk e Lugansk, leste da Ucrânia, um passo que Putin apenas dará em 21 de fevereiro de 2022, três dias antes do início da invasão.

Estas afirmações enquadram-se afinal na versão da História impulsionada por Putin baseada no nacionalismo étnico, e quando há pouco menos de um ano acusou diretamente as elites ucranianas de perpetrarem um genocídio contra o "mundo russo", e que também permitiu justificar a invasão militar. 

Num artigo de 12.000 palavras publicado no início de julho de 2021 intitulado Sobre a unidade histórica de russos e ucranianos, Putin desenvolveu uma versão da história da Rússia e da Ucrânia destinada a diminuir a consistência deste último país como Estado-nação.

Neste texto apresenta uma imagem negativa da designada "Revolução de Maidan" ou "Euromaidan" que implicou a queda do Presidente “pró-russo” Viktor Fedorovych Yanukovych, que eclodiu após a sua decisão de suspender um acordo de associação com a UE em finais de 2013 que considerava nefasto para os interesses nacionais, e reforçar a cooperação económica com a Rússia.

Um dos principais argumentos de Putin consiste em afirmar que o fim da URSS colocou 25 milhões de russos fora da Federação da Rússia, um drama "humanitário". Uma observação sobre a catástrofe geopolítica e humanitária soviética que constitui um alento para a sua estratégia política, diplomática, cultural, económica e militar de longo prazo. 

Putin divulgou este seu artigo num momento em que, nessa primavera, decorriam grandes manobras militares junto à fronteira da Ucrânia.

E em dezembro de 2021, a coincidir com a concentração de mais de 100.000 soldados na Bielorrússia e junto às fronteiras ucranianas, emitiu uma acusação mais grave a Kiev, a do "genocídio dos russos".

No seu artigo refere-se a uma unidade orgânica e substancial, que russos e ucranianos "formam um só povo, um todo", com destaque para o aspeto religioso desta "unidade" e onde a religião ganha supremacia sobre a política. E considera que as ligações entre a Ucrânia e outros países e instituições devem ser estabelecidas de acordo com a Rússia, lamentando que os dois países se tenham afastado.

Insiste na fraqueza do Estado ucraniano, na conjunção de forças internas e externas e de “agentes externos negativos” que comprometeram essa "unidade" primordial. E que fizeram erguer um "muro" que separou "um espaço histórico e espiritual de facto partilhado". Uma "tragédia" devido aos nossos "erros", mas também a "forças" que querem sabotar a "unidade" e que permanecem ameaçadoras e ativas, sublinhou então o Presidente da Federação da Rússia.

Putin considera que o Rus' de Kiev originário é a casa comum de russos, ucranianos e bielorrussos, e que a conversão de Vladimir I (958-1015) ao cristianismo originou os laços "parentais" dos três povos.

Sugere que, para fazer face às ingerências do estrangeiro próximo (Polónia, Alemanha), a independência da Ucrânia deveria ser controlada por Moscovo, e sempre considerou a possibilidade inscrita na Constituição soviética de as repúblicas federadas poderem separar-se da URSS – anunciada logo em 1924 mas ignorada até Gorbatchov – como uma "bomba ao retardador".

Na sua abordagem, também critica a política bolchevique de "indigenização" (desenvolvimento das especificidades locais dos povos constitutivos da URSS) que produziu "três povos eslavos distintos", russos, bielorrussos e ucranianos, em detrimento de uma "grande nação russa". Na sua perspetiva, a "Ucrânia moderna" é uma consequência artificial da política soviética.

Putin considera assim que a Ucrânia foi criada "em larga medida à custa da Rússia histórica" e que a "Rússia foi despojada". 

Os efeitos de Maidan

Em 2014, com a revolução de Maidan, que Moscovo define como um "golpe de Estado", foi acentuada uma ativa política de "descomunização" seguida de "desrussificação", e uma aproximação aos Estados Unidos, União Europeia e NATO, com um profundo impacto negativo nas trocas económicas e culturais com a Rússia.

Na perspetiva da liderança do Kremlin, a Ucrânia torna-se assim numa "testa de ponte" virada contra a Rússia, num inaceitável projeto "anti-russo". Diz que atual Ucrânia arriscava-se a ser forjada pela hostilidade à Rússia e ataca a política linguística do Governo ucraniano após 2014, que conduz os russos da Ucrânia a renunciar às suas "raízes" e a considerar a Rússia um "inimigo".

Assim, um Estado ucraniano "etnicamente puro" conduziria ao desaparecimento de centenas de milhares ou milhões de russos, uma verdadeira arma de "destruição massiva".

Religião, cismas, laços familiares

O cisma com o patriarcado de Moscovo, a cisão entre as igrejas russa e ucraniana foi outro dos argumentos de Putin para justificar a oposição de Kiev pós-Maidan a um espaço que partilhasse a língua, religião e referência partilhada a um passado comum.

Neste cenário, assinala que as regiões de Donetsk e Lugansk, no leste ucraniano,  pegaram em armas na primavera de 2014 para lutar contra a "limpeza étnica" que os ameaçava, o perigo de "pogroms" que podiam ser perpetrados pelos adeptos de Stepan Bandera (1909-1959), numa referência ao polémico líder ultranacionalista ucraniano e chefe da Organização dos nacionalistas ucranianos (OUN-B) e dirigente do Exército insurrecional ucraniano (UPA), que colaborou com os nazis após da invasão a URSS pela Alemanha de Hitler em 1941.

Assim, Putin recorreu à retórica para justificar uma intervenção na Ucrânia por motivos humanitários.

Mas também indica que "nós" respeitaremos a língua e tradições ucranianas e o desejo dos ucranianos num Estado "livre e próspero". Mas acrescenta que "é em parceria com a Rússia que esta verdadeira soberania é possível". E que o "parentesco" entre russos e ucranianos "transmite-se de geração em geração", que a pertença ao povo russo se transmite hereditariamente.

"Formamos um único povo", insiste no final. Para Putin, a história é antes de tudo o instrumento de uma política baseada no nacionalismo étnico, uma evidência considerada comprovada pela emergência do nacionalismo radical ucraniano, caracterizado por uma russofobia permanente e consistente.

Em oposição, Putin define-se como Presidente da Federação da Rússia e líder do povo russo. Nega a especificidade da Ucrânia enquanto Estado-nação, para afirmar a pertença da população russófona da Ucrânia ao "povo" russo e negar que a Ucrânia possa ter uma trajetória histórica diferente da Rússia ou da Bielorrússia.

A vasta abordagem de Putin, que remonta ao final do século X e ao Rus' de Kiev, destinava-se afinal justificar uma operação militar "humanitária" contra a Ucrânia, que deveria ser "desnazificada" e "desmilitarizada", que acabou por acontecer.

Aposta no expansionismo

A devastação provocada pela intervenção militar da Rússia na Ucrânia correspondeu em paralelo a um aumento da presença militar dos EUA na Europa e novas perspetivas de alargamento da NATO.

Nos corredores do poder em Washington, a invasão russa suscitou um amplo debate em torno de duas correntes principais: a primeira considera a ação militar um reflexo das fricções que a expansão da NATO em direção ao leste criou entre a Rússia e os Estados Unidos; o segundo campo contesta os “argumentos falaciosos” de Putin, sublinha a sua animosidade à democracia, e que um triunfo militar na Ucrânia e os seus efeitos na Rússia, e no mundo, constituem o único motivo da guerra.

No entanto este complexo conflito não pode ser reduzido a um único fator, e não impedir que se abordem as diversas circunstâncias que o provocaram.

Assim, qual a função da NATO, em particular a queda do "socialismo real" a partir de 1989, e que segurança europeia se pretende?

À semelhança da invasão do Iraque pelos EUA em 2003, o ataque da Rússia contra a Ucrânia pode ser considerado uma "guerra preventiva", movida contra um inimigo que no futuro poderia constituir uma séria ameaça. Mas são guerras que, para além de terem violado o direito humanitário internacional, tornam o mundo mais perigoso. 

“A mais vermelha de todas as linhas vermelhas”

O facto de Putin ser o principal responsável pela intensificação da guerra na Ucrânia, não implica que a atitude da NATO possa ser considerada irrepreensível. Quando a tensão subia e a guerra se aproximava, o secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, e o Presidente dos EUA Joe Biden continuavam a insistir que a declaração da Aliança Atlântica na cimeira de Bucareste em 2008, sobre a adesão da Ucrânia e a Geórgia, se mantinha atual, e que não era negociável a exigência de Putin em tornar a Ucrânia num estado "neutro", mesmo que as hipóteses de adesão da Ucrânia fossem escassas a curto prazo.

Durante 14 anos, a Ucrânia bateu à porta da NATO, e em vão. Mas essa possibilidade fez aumentar os receios da Rússia, colocando a Ucrânia em crescente perigo. Kiev foi deixada na incerteza, após uma decisão insensata, pela qual a Ucrânia paga hoje um pesado tributo, enquanto a NATO nada pagou. Pelo contrário.

Para quem considera a Rússia um país "naturalmente agressivo" e "irrecuperável", a expansão da NATO constituiria um "contrapeso" às ações presentes e futuras de um país, e que são explicadas pelo seu passado.

De facto, a oposição russa ao alagamento da NATO é muito anterior à presidência de Putin, remontando à década de 1990 quando sob a presidência de Boris Ieltsin a Rússia era aclamada como uma democracia, e um parceiro. Mas para os neoconservadores em Washington, Putin – que num discurso em 25 de abril de 2005 perante a Duma (Parlamento) considerou a dissolução da URSS como a “maior catástrofe geopolítica do século XX” – permanece o único responsável pela deterioração das relações russo-norte-americanas, mais uma justificação para o expansionismo da Aliança militar ocidental.

Documentos desclassificados demonstram que Ieltsin manifestou por diversas vezes junto da administração de Bill Clinton a sua oposição à expansão da NATO, posição que foi transmitida a Washington por importantes diplomatas dos EUA.

Em 10 de maio de 1995, durante um encontro em Moscovo, Ieltsin abordou a questão de forma direta com Clinton: "Desejo compreender claramente a vossa ideia de expansão da NATO, que se for em frente apenas entendo como uma humilhação para a Rússia. Como pensa que nós ficaríamos se um bloco continuar a existir enquanto o Pacto de Varsóvia foi abolido? (...) Talvez a solução consista em adiar a expansão da NATO até 2000, para que de seguida possamos propor nova ideias".

Uma sugestão totalmente ignorada.

Num despacho de fevereiro de 2008, redigido pouco antes da controversa cimeira de Bucareste e dirigido ao secretário de Estado, ao secretário da Defesa e aos chefes militares, o então embaixador dos Estados Unidos na Rússia, William Burns, atual chefe da CIA, considerava que "o alargamento da NATO, em particular à Ucrânia, permanece uma questão 'sensível e nevrálgica' para a Rússia" que a entende como uma "potencial ameaça militar". Burns também manifestava os receios de que esta questão "dividisse a Ucrânia em dois, implicando violências ou mesmo, segundo alguns, uma guerra civil, e que obrigaria a Rússia a determinar se deveria intervir".

Numa nota dirigida à então secretária de Estado Condoleezza Rice, ainda em fevereiro de 2008, Burns insistiu: "A entrada da Ucrânia na NATO é para a elite russa, e não apenas para Putin, a mais vermelha de todas as linhas vermelhas", considerando-a "um desafio direto aos interesses russos".

Assim, será redutor reduzir a aversão russa à expansão da NATO a uma "paranóia" de Putin e ao seu receio pela democracia, ou mesmo à autoritária tradição histórica da Rússia.

Mas durante Ieltsin, devido à sua fraqueza e dependência económica face ao ocidente, em particular face aos Estados Unidos, Moscovo teve de assinar o Ato fundador NATO-Rússia em maio de 1997, e ainda o Conselho NATO-Rússia, criado em maio de 2002, já com Putin no poder.

Após o consulado de Ieltsin, com uma Rússia à beira do colapso económico e Forças Armadas enfraquecidas, a chegada de Putin ao poder permite que a Rússia recupere a potência económica e militar necessária para uma nova posição de força.

O catalisador foi a já citada cimeira da NATO de Bucareste entre 2 e 4 de abril de 2008 (adesão da Ucrânia e Geórgia), com o primeiro sinal expresso na guerra entre 7 e 12 de agosto entre a Rússia e a Geórgia, quatro meses após a conclusão da cimeira.

Recorde-se ainda que no início de 2008, o Kosovo, antiga província da Sérvia, declarou unilateralmente a independência à revelia das instâncias internacionais, e que foi de imediato reconhecida pelos EUA e posteriormente pela generalidade dos países ocidentais, e de outras regiões do mundo.

Outro sinal sobre a prevalência do unilateralismo sobre o multilateralismo e que irá alterar de forma decisiva a abordagem geopolítica e a nova estratégia nacional de segurança do Kremlin. Ainda hoje, cerca de 100 países, incluindo Rússia, China, Brasil, Índia, África do Sul, Indonésia, para além de cinco Estados-membros da União Europeia, recusam reconhecer a independência do Kosovo.

E após a “revolução de Maidan” em 2014, por recear que este desfecho implicasse um exclusivo alinhamento com a NATO e UE, a Rússia anexou a Crimeia e apoiou as duas regiões separatistas no Donbass, Donetsk e Lugansk, em rebelião contra Kiev.

Depois, vieram os acordos de Minsk I e II, nunca respeitados, o Formato de Normandia envolvendo Rússia, Ucrânia, França e Alemanha, que não resultou, a guerra el larga escala e a decisão de anexação à Rússia dos ‘oblasts’ de Donetsk, Lugansk, Zaporijia e Kherson, para além da já consumada integração da península da Crimeia.

Mas este desfecho também poderá servir para questionar se os Estados Unidos, e a NATO, não falharam a ocasião, a partir de 1989, de fomentar uma ordem europeia que incluísse a Rússia, em detrimento de uma ordem que a manteve de fora, aumentando o seu sentimento de alienação e exclusão.

Regresso a Gorbatchov

Após a queda do Muro de Berlim, o colapso dos regimes do leste europeu aliados de Moscovo, e a dissolução do Pacto de Varsóvia em meados de 1991, surgiu um desafio decisivo: a possibilidade de existir uma nova forma de organizar a Europa que não implicasse o alargamento da Aliança em direção à fronteira russa como a única escolha possível.

Quando a unificação da Alemanha se tornou iminente, Mikhail Gorbatchov propôs a dissolução da NATO e do Pacto de Varsóvia em nome de uma nova ordem de segurança transeuropeia inclusiva, do Atlântico aos Urais.

O Presidente dos EUA George H. W. Bush rejeitou a ideia, tal como a de uma Alemanha unificada mas neutra. Em posição de fraqueza, o último líder da URSS não conseguiu contrariar as intenções dos EUA em manter a NATO na Europa e englobar na organização militar o conjunto da Alemanha unificada.

A “arrogância” ocidental intensificava-se. Os EUA renunciavam à “promessa” feita a Moscovo, nunca firmada num documento oficial, de renunciar à expansão da NATO em direção a leste, em troca da unificação alemã e a incorporação da extinta RDA na organização militar aliada.

A posição de Bush sugere que, mesmo com o final da Guerra Fria, os EUA pretendiam uma NATO alargada e com tropas e armas na Alemanha de leste, corredor em direção ao centro-leste europeu.

Hoje, os que possuem maior influência na política externa dos EUA não perdem tempo a meditar sobre as diversas ocasiões perdidas. A intervenção militar da Rússia passou a ser interpretada como uma resposta à decisão de prosseguir a expansão da NATO.

A opinião dominante defendia que os EUA redobrassem os esforços e aumentassem a sua presença militar na Europa, incluindo no flanco oriental da NATO. Mesmo que a secção IV do Ato fundador NATO-Rússia estipulasse que não haveria "estacionamento permanente suplementar de importantes forças de combate" nessa região.

Já os defensores do "modelo europeu" consideram que à Europa falta vontade política...  E que a verdadeira lição a tirar da invasão da Ucrânia pela Rússia é que a Europa deve, a um ritmo moderado mas deliberado e efetivo, evoluir para uma maior autonomia em termos de defesa, mesmo que evite o objetivo mais ambicioso da "autonomia estratégica".

Em jeito de conclusão

Desencadear uma guerra é a parte "fácil". Pelo contrário, é difícil, mesmo impossível, servir-se desse argumento para obter o que possa ser entendido como um sucesso estratégico.

Uma guerra significa que um número indiscriminado de pessoas vê as suas vidas, num amplo sentido, expostas à destruição.

A invasão da Rússia e a devastação que está a provocar não nos deve inibir de tentar entender as causas do conflito, também um exercício necessário para tentar forçar à sua resolução.

Será premente que a ética da palavra pública se afirme, de reconhecer a complexidade da situação, de garantir a possibilidade de "tomar uma posição".

Surgiram tentativas de intimidação, apelos ao silêncio, um aumento da violência verbal, a multiplicação dos insultos. E entre sentimentos de insegurança e culpabilidade, consideram-se cúmplices do "agressor" quem se opõe às suas opções e conclusões.

Afinal, o paradoxo de nos pronunciarmos sobre um tema, com os riscos do erro, da intriga, mesmo do ridículo. Mas num momento em que uma guerra global se tornou numa possibilidade concreta no nosso horizonte, que nem a “Conferência da Paz” organizada pelos aliados de Zelensky não consegui dissipar.

Afinal, a Rússia ainda não desistiu de reassumir a função de decisivo ator na geopolítica internacional, de voltar a ser considerado um interlocutor imprescindível na arena internacional. Afinal, um dos principias objetivos de Putin e que tenta concretizar, custe o que custar.

Pedro Caldeira Rodrigues , Abril 2022/Junho 2024   

terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

Tínhamos a “Guerra” do Solnado…agora temos…”a Guerra” do Biden!!


Parece que a “guerra” começa amanhã, segundo o presidente norte-americano Joe Biden!

A ser verdade, era a primeira vez que uma guerra começava a hora marcada e anunciada ao mundo.

A pressa de Biden justifica-se pela necessidade de Biden fazer esquecer o  descalabro no Afeganistão, de vender à Europa o gás americano, “libertando-a” da dependência do gás russo e, claro, vender armamento, o sustento da economia norte-americana, numa altura em que o país está em decadência social e económica e perde influência na cena internacional.

Já tínhamos um “maluco” no Kremlin, vários no terreno da Ucrânia, milícias pró-russas e milícias pró-ucranianas, lideradas, respectivamente, por neosstalinistas e neofascistas , e, quando pensávamos que Washington se tinha livrado do “maluco” do Trump, eis que Biden se revela um novo candidato a “maluco do ano”, assessorado aliás pelo “maluco” de Londres.

Só esperamos que, com tanto “maluco” no terreno, as profecias não se cumpram.

Diz Biden que se baseia, para anunciar ao mundo a “guerra de 16 de Fevereiro”, em informes dos seus serviços secretos, provavelmente os mesmos que “descobriram” armas de destruição de maciça no Iraque.

Pelos vistos, alguém trocou o “relatório” e enviou a Biden o vídeo do Solnado (ver em baixo)!!

terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

Como uma “certa” “América” vê o mundo, colocando-o à beira da guerra.


 ...um mundo a preto e branco, com “maus” absolutamente maus e “bons”, sempre bem-intencionados, “justos” e  “heroicos”.

É esse o mundo visto por uma certa América, longe da América cosmopolita, multicultural e criativa de S. Francisco ou Nova Iorque, uma América que se revelou em toda a plenitude com Trump, que contaminou o Partido Republicano e agora parece contaminar o Partido Democrático.

O pior é que essa ideologia, fomentada pela “Marvel”, pela “FoxNews” e pelos “jornais de referência” é consumida, sem ser questionada, pelo mundo “ocidental”.

E é isso que se está a ver na “questão Ucraniana”, como já se viu nas “questões”” jugoslava” “iraquiana”, “afegã”, “líbia” e “síria”, com os resultados conhecidos.

Toda a economia norte-americana é sustentada pelo complexo económico-militar e por isso, desde a 2ª guerra, que o poder económico e político norte-americano precisa de criar sempre novos “inimigos” para o justificar e para vender o seu arsenal militar pelo mundo fora.

Ora, “inimigos” à medida é o que não falta por aí, da China, à Rússia, ao Irão…

É só preciso depois criar uma narrativa credível, de diabolização de gente fácil de diabolizar.

Putin é uma dessas figuras.

Já o disse algumas vezes : Putin é o “Hitler do nosso tempo”, não porque considere Putin um sociopata e um genocida como Hitler, mas porque as razões que o levaram ao poder, instituindo uma autocracia na Rússia pós-soviética, fazem lembrar  as mesmas condições que levaram Hitler ao poder nos anos 30 do século passado.

Ao apoiar oligarcas, ao incentivar a desagregação da Rússia, ao humilhar os russos, ao faltar à palavra sobre a promessa de travar a expansão da NATO para leste ( para convencer as autoridades pós-soviéticas a dissolverem o Pacto de Varsóvia), o “ocidente”, com os norte-americanos à cabeça, criou as condições ideais para o aparecimento de um Putin.

O problema é que Putin não é muito diferente dos líderes da Ucrânia, ou mesmo de líderes de  países da NATO, como na Turquia ou nas “iliberias”  Polónia e  Hungria.

Quanto às lições de “superioridade moral”, em “democracia e liberdade” dadas pela NATO e pelas lideranças norte-americanas, é bom recordar que, quando da sua fundação, em 1949, a NATO aceitou, como país fundador, um Portugal liderado pelo ditador Salazar,  a mesma NATO, permitiu (e, ao que se sabe, até incentivou) a instauração de uma ditadura militar na Grécia em 1967, sem beliscar esse regime num país membro da NATO desde 1967. E podíamos recordar a importância de uma autarcia como a turca, no seio da mesma NATO.

À actual retórica militarista dos Estados Unidos e da NATO não será estranho o descalabro militar no Afeganistão, que se segue ao mesmo descalabro na Líbia, às dificuldades de política interna do presidente Biden, à crescente perda de influência a nível global dos Estados Unidos.

Quando é o próprio presidente da Ucrânia a referir que a retórica militarista da NATO e dos Estados Unidos é exagerada e prejudicial à própria Ucrânia, está tudo dito.

O problema é que o crescente clima de provocação em relação à Rússia pode levar Putin a cair na armadilha, até porque, aliada à retórica militarista, a única ameaça concreta em relação a uma invasão russa é a das “sanções económicas” e armar milícias ucranianas, mal preparadas e dominadas pela extrema-direita (um dos tirocínios dos movimentos extremistas ocidentais é fazerem um “perninha” nas milícias ucranianas que combatem nas províncias autonomistas ucranianas controladas pela população de maioria russa, apoiada pela Rússia).

Apoiado pela China, as sanções económicas ocidentais não fazem muita mossa a Putin, a não ser conjunturalmente a alguns oligarcas russos, já que a China é a principal potência económica do mundo actual.

Depois de décadas a fechar os olhos aos negócios dos oligarcas da Rússia e do leste na Europa e à crescente influência financeira e económica da China, pois o sector financeiro europeu e as grandes empresas europeias beneficiaram desses negócios, quem vai ficar a perder, a prazo, com uma situação militarmente descontrolada no leste da Europa, é o próprio mundo “ocidental”.

Obviamente que os Estados Unidos, que fomentam o clima de guerra na Europa, como já o fomentaram na Ásia e no Médio Oriente, só têm a ganhar com a destabilização da Europa, reforçando o seu militarismo e o seu domínio político-militar e económico sobre a Europa.

Para já, tal como fizeram no passado com as célebres “armas de destruição maciça” “controladas “ por Saddam Hussein (outro “mauzão” credível, como hoje o é um Putin), os Estados Unidos vão inventando narrativas cada vez mais irracionais, como a última que circula por aí (sem apresentarem provas) sobre o hipotético vídeo de propaganda, a ser “filmado” pelos russos, “inventando” um ataque ucraniano a forças russas, para “justificar” uma verdadeira invasão da Ucrânia pelo exército russo.

Essa informação parece-nos mais reveladora sobre os métodos fomentados pelos Estados Unidos para justificar  muitas das guerras onde se tem envolvido, do que pela credibilidade da mesma.

Provavelmente o que vai acontecer, para justificar um conflito contra a Rússia, até para justificar o investimento militar crescente do ocidente na Ucrânia e o reforço financeiro na NATO, é que algo de parecido aconteça, mas elaborado pelos sempre competentes serviços secretos norte-americanos.

Putin é um autocrata, não é de confiança, mas é inteligente. Como o lobo da história do menino mentiroso que gritava sempre que vinha aí o lobo, que é o que faz o “ocidente”, Putin só avança, se essa for a sua intenção, quando já ninguém acreditar que vem aí o lobo.

Só uma última pergunta. Se a Rússia resolvesse instalar no México o arsenal militar que o ocidente está a colocar na Ucrânia e em países vizinhos da Rússia, ou se procurasse atrair o mesmo México para a área de influência russa, como reagiriam os norte-americanos?

E já agora, se a Ucrânia, como estado soberano, tem todo o direito para aderir à organização militar que quiser e instalar material de guerra no seu território apontado à Russia, então porque é que que os americanos fizeram tanto barulho quando, nos anos 60, houve a crise dos mísseis em Cuba?

A ditadura cubana, um regime reconhecido internacionalmente, não tinha então mesmo direito de escolher a sua posição, direito que hoje o “ocidente” pretende atribuir ao estado autocrático da Ucrânia?

É o que se chama de “dois pesos e duas medidas” ou, pior ainda, brincar com o fogo (dos outros)!!

 

 

 

 

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

A Fotografia do Dia


 Uma fotografia de esperança, mas sem falsas ilusões.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

As imagens da vergonha : Assalto ao Capitólio


Estamos habituados a ver imagens como as de ontem, no Capitólio, em países onde a democracia é uma caricatura.

Vimos cenas parecidas na Rússia, com as tropas de Iesltsin a atacarem um parlamento que lhe era hostil, aí pelos meados da década de 90, não se sabendo ainda hoje o número exacto de deputados assassinados.

Vimos cenas idênticas, mais recentemente, na Ucrânia e na Venezuela.

Recuando ainda mais no tempo, todos se recordarão de, em pleno PREC, se ter assistido ao cerco do parlamento, mas, apesar de tudo, sem invasão do edifício, sem actos de vandalismo, nem com a violência como a que ontem se viu.

O que não se esperava era ver tais cenas  no país que se gaba de ser um exemplo de democracia, como os Estados Unidos, ainda por cima por instigação do presidente em exercício.

Uma verdadeira tentativa de golpe de estado, que, em qualquer democracia, implicaria o julgamento dos líderes e instigadores.

Se isto se tivesse passado noutro sítio qualquer, não faltariam as ameaças de comentadores e políticos do mundo dito ocidental, apelando a sanções e a uma intervenção militar da NATO.

Este vai ser o modelo insurrecional a seguir pelos trumpistas de todo o mundo, o momento de glória para os "chega" e populistas de toda a espécie.

As imagens que retirámos da imprensa e agências internacionais falam por si: