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quarta-feira, 4 de maio de 2022

PASSARINHOS E PASSARÕES, "num cinema (Ideal) perto de si!"


No meio de tanta má notícia, uma boa notícia:

Está em exibição, no cinema Ideal em Lisboa, um dos mais interessantes, mas também menos conhecidos filmes de Pier Polo Pasolini.

Estreado em Maio de 1966, quase há 60 anos, a preto e branco, é uma ternurenta reflexão sobre a vida, a humanidade, a história  e a sociedade, entre pai e filho, acompanhados por um corvo falante, ao longo de uma caminhada pela "estrada fora".
Lembro-me da forma como este filme me marcou, ao vê-lo numa sessão do Festival da Figueira da Foz, na década de 70.

Nunca mais o voltei a rever, e, ao que parece, só agora o filme foi estreado numa sala de cinema em Portugal.

Já não me lembro muito bem da história, mas a humanidade das personagens e da sua história ficaram bem marcadas na minha memória.

Numa época dominada por tanta desumanidade, pela intolerância, pelo desrespeito pelas idéias contrárias e pela gritaria dominante na cloaca das redes socias, este é um filme que nos conforta e nos recorda que ainda há um lado humano a explorar.

Eis o resumo, transcrito da sinopse oficial do filme:

"Um conto alegórico estreado em Cannes e no qual brilha o lendário Totò com um desempenho memorável. Enquanto se deslocam pela estrada fora e através do tempo, com uma incursão à época de S. Francisco de Assis, Totò e o seu filho (Ninetto Davoli) encontram um corvo falante (e intelectual de esquerda) que os acompanha na digressão e vai comentando as peripécias que se sucedem de uma forma que o torna insuportável, pelo que os nossos heróis serão forçados a tomar uma medida drástica".

Sobre este mesmo filme, um dos menos conhecidos da sua cinematografia, escreveu Pasolini:

“é um filme sobre o fim do neorrealismo, uma espécie de limbo, que provoca o fantasma do neorrealismo, especialmente o princípio, acerca de dois personagens que vivem a sua vida sem pensarem nela – isto é, dois heróis típicos do neorrealismo, humildes, banais e ignorantes. Toda a primeira parte é uma evocação do neorrealismo, embora um neorrealismo idealizado. Há outros bocados, como o episódio dos palhaços, que pretendem deliberadamente evocar Fellini e Rossellini.” 

Este filme integra o  ciclo "O Cinema segundo Pier Paolo Pasolini", que celebra o 100º aniversário do nascimento desse realizador, organizado pleo cinema Ideal, perto do Largo de Camões, em Lisboa.

A não perder.



                                      


 

domingo, 14 de março de 2021

Recordações do Festival de Cinema da Figueira da Foz


A Guilhermina Pacheco, num seu post recente no facebook, para recordar o saudoso Jorge Barata, no seu dia de aniversário, veio  lembrara-me os dias passados no Festival de Cinema da Figueira da Foz.

Então nos meus 20 anos, deslocava-me anualmente a esse importante Festival de Cinema, aí pelos finais dos anos 70, início dos 80, ao longo de mais de 6 anos.

O Festival realizava-se em Setembro, ao longo de 10 dias, e era a “pré-temporada” antes do inicio das aulas, que então só começavam em Outubro, marcando o encerramento das férias de Verão, geralmente antecedido pela habitual romagem à Festa do “Avante”.

Recorde-se que esse festival realizou-se, pela primeira vez, em 1972, então ainda apenas uma “semana internacional de cinema”, destacando-se, entre os organizadores, o padre José Viera Marques, que no início dessa década também colaborou com o Cine Clube de Torres Vedas, tendo um papel importante na reanimação desta associação torriense.

Nos primeiros tempos, porque ainda estava a estudar e, depois, porque estava no início da minha vida profissional, o dinheiro era pouco e deslocava-me para o festival à boleia, levando quase um dia inteiro para chegar à Figueira, saindo de Torres Vedras, umas vezes sozinho, outras acompanhado.

Lembro-me de, para além das horas intermináveis à beira da estrada, muitas vezes no meio do nada, à espera da próxima boleia, ter apanhado alguns sustos, o maior de todos numa boleia que me deu um camionista, numa camioneta de carga muito velha, que se deslocava lentamente pela N1 (não havia então autoestradas), com uma enorme fila de carros atrás a apitar e a circular aos ziguezagues, porque, descobri já em andamento, o homem estava completamente embriagado. Felizmente este percurso foi curto.

Quando já tinha algum dinheiro, deslocava-me de comboio, pela linha do Oeste, uma longa viagem de várias horas, por vezes com transbordo na Bifurcação de Lares, uma estação que era uma espécie de ilha no meio do Mondego, onde se fazia a ligação entre a linha do Oeste e a linha entre de Coimbra e a Figueira, na qual, muitas vezes, aguardávamos horas por uma ligação, com a Figueira à vista ao longe e com milhões de mosquitos a rodear-nos.

Chegado à Figueira, acampava-se onde desse. Da primeira vez fiz campismo selvagem, na margem sul  do Mondego do outro lado da Figueira, junto de um parque privado, mas do lado de fora para não pagar nada.

De manhã viajava num barco que levava passageiros desse parque para a Figueira, mas à noite, quando acabava o festival, não havia essa ligação e então tinha de percorrer alguns quilómetros a pé, atravessando a velha ponte, hoje demolida para dar lugar à actual, sozinho, em plena escuridão.

Certa vez, ao aproximar-me da tenda, fui cercado por uma matilha de cães e só me safei porque costumava levar um rádio de pilhas, para tornar a jornada nocturna menos penosa, e pus o som no máximo. Os pobres cães, esfaimados, mas ainda mais assustados, lá me largaram, e eu escapei sem uma única dentada.

Mais tarde, quando já tinha mais dinheiro, ía acampar no parque a norte da Figueira, que mesmo assim ficava bastante longe do local onde se realizava o Festival.

Na Figueira encontrava-me com amigos de Torres Vedras, gente do movimento cineclubista, e colegas da faculdade que também costumavam ir ao Festival.

Nos primeiros tempos, em que andava mais teso, lembro-me de a Guilhermina e o Jorge, que íam partir para outras viagens nesse dia,  me terem deixado uma sandes de omelete para o meu jantar, uma iguaria para quem andava sempre esfomeado para poupar.

Quando comecei a ir como repórter do jornal “Badaladas” e, num dos anos, também do “Diário de Lisboa”, a situação era um pouco melhor, pois tinha direito a senhas de refeição, para além dos bilhetes de borla para as sessões de cinema, realizadas em várias salas, mas principalmente no Casino.

Nessa altura era a minha vez de ajudar amigos esfomeados, levando-os comigo às recepções de lançamento de filmes e apresentação dos realizadores, para as quais tinha convites, e onde serviam excelentes e saborosos aperitivos, que substituíam bem as refeições.

Lembro-me também de, em certa ocasião, já não tendo mais dinheiro para pagar o campismo e tendo esgotado as senhas de refeição, preparando-me para regressar no dia seguinte, dando uma volta naquela que seria para mim a última noite no festival para me despedir da Figueira,  ter encontrado, no chão, uma nota de cinco “contos” (cerca de 25 euros na moeda actual), muito dinheiro para época, e que me permitiu ficar mais 3 dias, dando até para pagar refeições a quem me acompanhava.

A maior parte do tempo era passado dentro das salas de cinema e nos debates, começando o dia às 8 da manhã e terminando aí por volta das 2 da manhã.

Por vezes, quando os filmes eram menos interessantes, aproveitava-se para dormitar e recuperar de noites mal dormidas.

Fora das salas, o tempo era ocupado com as refeições, a visita a uma livraria junto ao casino, apenas para ver novidades que não existiam em Torres, pois raramente dava para comprar alguma coisa, e conversar com amigos no café frente ao Casino.

Na mesa cruzavam-se os amigos de Torres , do cineclubismo ou da Faculdade e outros feitos no Festival, como o Mário Dorminski, que criou o Fantasporto, para cuja inauguração me convidou,  o João Lopes, critico de cinema que conhecíamos da presença nos debates do Cine Clube de Torres, o Carlos Pessoa, jornalista fundador do Público, conhecido dos tempos dos fanzines, o António Loja Neves, do mundo cineclubista e, nas mesas vizinhas, juntavam-se figuras mais ou menos conhecidas, como um Eduardo Prado Coelho, presença habitual no festival, muitos cineastas e artistas conhecidos e, num certo ano, a escritora Marguerite Duras, que veio apresentar ao festival um filme realizado por ela

Uma vez cheguei mesmo a fazer parte do júri do festival, como representante do público, o que me obrigava a ver atentamente todos os filmes em competição.

Por vezes passeava-se pela praia, famosa por ter o mar bastante longe.

Certo dia, passeando com um amigo de Lisboa, o Rui da “avenida de Roma”  (não me lembro do apelido e perdi-o de vista, até hoje), que chegou a ser uma espécie de manager dos Xutos e Pontapés (ou os Minas e Armadilhas, já não me lembro), encontrei duas colegas da faculdade, com quem passámos a tarde na conversa e  a fazer horas, porque havia um filme importante que ía ser estreado essa noite, e não o podíamos perder. Em certa altura, essas colegas convidaram-nos para ir passar a noite com elas ao hotel onde estavam, mas nós, mais interessados no filme, declinámos. Claro que elas nunca mais nos falaram, nem quando as encontrava mais tarde na faculdade de Letras.

Outra vez, estando numa das salas do Casino, vendo afixado um belo cartaz do filme “Cerromaior”, olhando para todos os lados, e vendo apenas uma pessoa sentada num sofá, resolvi arriscar e arrancar o cartaz da parede para ficar com ele, com o olhar complacente e um riso irónico nos lábios da tal pessoa.

O filme “Cerromaior” era exibido nesse dia e, geralmente após a exibição, seguia-se um debate com o realizador. Qual não foi o meu espanto quando foi apresentado como realizador o tal “tipo” que. sentado no sofá, assistira horas antes ao meu “roubo”. Era o realizador Luís Filipe Rocha, com quem me voltei a encontrar uns anos depois, em Torres Vedras, quando aqui exibimos um outro filme seu, tendo-nos então divertido muito com essa história do “roubo do cartaz”.

Quando as aulas começaram a ter início em Setembro deixei de poder ir ao festival, que entretanto entrou em decadência, até acabar de vez em 2002, engolido por festivais mais sofisticados, por uma certa decadência do cinema não comercial, e por um consumismo menos dado a experimentalismos da programação do festival.

Muitas outras histórias ficam por contar, mas aqui ficam algumas para diversão de quem nos lê e para avivar a memória de quem participou nesse saudoso festiva de cinema.

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Leituras da Quarentena : A Morte Não É Prioritária – uma biografia de Manoel de Oliveira



Acabei de ler, há uns dias, o meu primeiro livro da “Quarentena”, a mais recente e completa biografia do cineasta Manoel Oliveira.

Da autoria de Paulo José Miranda, a obra tem um sugestivo título, “A Morte Não É Prioritária”, tendo em conta que o cineasta faleceu com 106 anos, passou a dedicar-se a tempo inteiro à realização com 70 anos, idade a partir da qual realizou mais de vinte filmes e se consolidou como um dos mais importantes cineastas da história do cinema.

A sua vida, aliás, atravessou quase toda história da 7ª arte.

Tendo-se iniciado no cinema documental, com o fabuloso “Douro, FainaFluvial” de 1931, só realizou duas longas metragens de ficção antes do 25 de Abril, o icónico Aniki-Bóbó, de 1942, e o pioneiro, na história do chamado novo cinema português, O Passado e o Presente, em 1972.

Marginalizado pelo regime antes do 25 de Abril, deve ao movimento cineclubista a divulgação e apoio na realização dos seus importantes filmes documentais e das suas primeiras obras.

Infelizmente nunca vi a maior parte da sua cinematografia, a não ser alguma da mais antiga, como os filmes acima citados, sendo o Aniki-Bóbó uma referência na minha memória cinematográfica da juventude.

Da cinematografia mais recente, apenas vi “Benilde e Virgem Mãe” (1975), “Amor de Perdição” (1978) e partes de “Francisca” (1981).

O mais recente filme de Manoel Oliveira que vi foi “A Caixa”, de 1994, um dos melhores filmes da minha vida, pela forma irónica como trata a Lisboa popular, uma história adaptada do teatro passada nas escadinhas de S. Cristovão, entre a Rua da Madalena e a Mouraria, filmado em 1993 com Beatriz Batarda e Luís Miguel Cintra nos principais papéis.

Todos os  poucos filmes que vi de Manoel de Oliveira revelaram-me um autor criativo, irónico e inovador, com momentos de grande beleza estética, exactamente o contrário da imagem que muitos cultivaram de um autor “chato” e “monótono”.

Para além de toda a riqueza biográfica de Manoel de Oliveira, só por si dignas de entusiasmar os leitores, o livro acompanha também a forma como a história de cem anos de cinema influenciou o cineasta.

O melhor elogio que posso fazer ao autor da biografia, é a de que fiquei com uma enorme vontade de ver e rever toda a obra cinematográfica de Manoel de Oliveira, dentro das possibilidade de quem vive na “província”, longe de uma programação de cinema de qualidade e não meramente comercial.

Aqui fica, pois, uma sugestão de leitura para este período de quarentena.

A propósito, podem ver AQUI, AQUI e AQUi o que escrevemos e publicamos neste blog, noutras ocasiões, sobre Manoel de Oliveira.

sexta-feira, 3 de abril de 2020

As ruas do (quase) silêncio.


Mais uma vez a realidade volta a ultrapassar a ficção, embora muito daquilo a que estamos a assistir já fizesse parte da alguma dessa ficção.

Sociedades em pânico por causa de um vírus que se dissemina rapidamente pelo mundo, cidades vazias, desorientação dos políticos, televisões em directo dias seguidos, o caos da fuga para o campo (como vemos na Índia), rostos cobertos de máscaras como zombies , ruas onde o único som é os dos pássaros e invadidas por animais selvagens,  ocupando o lugar dos humanos… nada disso era totalmente desconhecido na ficção mas nunca tínhamos vivido essa realidade.

O silêncio, apenas recortado por um ou outro carro que passa pelas ruas, torna-se pesado quando desço à rua para passear as minhas duas cadelas, no vasto espaço verde, agora desértico, frente à “Madeira Torres”.

No relvado da Madeira Torres apenas se ouvem os pássaros, ao princípio as rolas e os melros dominavam a banda sonoro, acompanhados pelos pulos das “alvéolas”, agora aparecem os pintassilgos e um a série de trinados de pássaros desconhecidos camuflados nas árvores e na relva. As andorinhas que apareceram por aqui pelo carnaval, desapareceram misteriosamente.

As cidades vazias, situação tanto mais fantasmagórica e intrigante quanto maiores são as cidades, como vemos na televisão, fazem-nos recordar o filme  “Eu sou a lenda”, a história do último homem na terra , sobrevivente de um vírus que tornou os humanos em zombies nocturnos, deambulando pelas ruas vazias de Nova Iorque, ou, numa versão mais soft, o robot “Wall.E”, sozinho no mundo.

Mais realista, recordamo-nos da célebre bomba de neutrões, inventada durante a Guerra Fria, com o objectivo da “apenas” matar humanos, deixando as cidades intactas, ou aquela série da National Geographic que pretendia mostrar como seria a terra se os humanos desaparecessem de repente, sobrevivendo apenas animais e plantas.

Para já, é  o belo som dos pássaros e o azul do céu, abafado antes pelo barulho de gente e automóveis, ou por aviões poluentes, que se vai afirmando no horizonte, única realidade que vai deixar saudade quando tudo voltar à normalidade.

São as ruas silenciosas, uma das memórias que vai ficar destes estranhos tempos!

sábado, 21 de março de 2020

“O Dia da Marmota”



Hoje, ao acordar, a primeira coisa que me veio à memória foi o filme “Feitiço do Tempo”, aquele em que Bill Murray interpreta um jornalista que fica preso no mesmo dia, numa vilória norte-americana onde o personagem por ele interpretado, um jornalista , foi fazer a cobertura do “dia da Marmota”.

Devido a uma estranha  tempestade magnética, todos os dias acorda no mesmo dia e as cenas repetem-se, monótonas, sempre iguais, situação só percetível por esse personagem, que aproveita para aperfeiçoar as situações vividas, sem conseguir sair desse dia.

É assim que eu, e muitos outros retidos em casa, se sentem, nestes dias de interminável espera.
Limitados ao espaço da casa, os gestos vão-se repetindo diariamente, sem a liberdade e a diversidade vivida, apesar de tudo, naquele dia infindável de Bill Murray.

O grande momento do meu dia é o dos breves passeios com as minhas cadelas, no relvado em frente à “Madeira Torres”, num silêncio estranho, apenas cortado por um raro automóvel que passa, interrompendo momentaneamente o chilrear dominante de melros e rolas, com outros sons da passarada que, antes, nem me apercebia que existiam.

Dia Grande é o da ida ao supermercado, uma ou duas vezes por semana, agora estranhamente calmo e silencioso.

Até quando vai durar o nosso “dia da marmoata”?

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

Os Aeronautas – Ciência e Aventura


“Os Aeronautas”, realizado por Tom Harper, é um filme competente, sem grandes riscos em termos cinematográficos,  baseado em factos reais, mas ficcionados.

Retrata um século XIX, aberto à curiosidade científica e à aventura da descoberta, cruzando-se aqui os dois mundos.

Eddie Redmayne, no papel do pioneiro da meteorologia James Glashier, figura que existiu na realidade, e Felicity Jones, no papel da balonista Ameli Wren, figura ficcionada que reúne em si as características de vário balonistas da época, partem numa épica à conquista dos céus e das alturas, num balão, o primeiro pela curiosidade científica, a segunda em busca da adrenalina de uma aventura arriscada que a redima do passado.

Ambos os actores já se tinham encontrado noutro filme, mais importante do que este, "A Teoria de Tudo", sobre a vida de um outro cientista, Stephen Hawking.

Quase todo o filme passa-se no cesto de um  balão, no ano de 1862, enfrentando condições meteorológicas adversas e arriscando a vida numa aventura desconhecida, entre-cortada por flashbacks sobre a vida passada dos personagens, onde se revelam as motivações de cada uma para essa aventura quase suicida.

O mais motivante neste filme é percebermos a grande diferença entre um século, como o XIX, marcado pela curiosidade científica e pela aventura da descoberta de novos limites, desafiando tudo o que se conhecia e arriscando a vida em prol do conhecimento, e o século do espectador, este século XXI,  marcado pela ignorância arrogante das redes sociais e pelas certezas absolutas  que não passam do nosso umbigo e do  nosso horizonte visual, confortáveis em mentiras cómodas, onde cada uma considera que a sua ignorância tem o mesmo valor das certezas científicas, como se tem visto por aí, a propósito das questões do clima, talvez não por acaso, o tema base de "Os Aeronautas".

Só por isto, vale a pena ver o filme.

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

O “Joker” do nosso descontentamento


É cada vez mais difícil encontra um filme que nos encha as medidas e nos surpreenda, tendo em conta que já seguimos o que se faz na 7ª arte há várias décadas.

Sem questionar o facto de existirem todos os meses estreias de filmes interessantes, com bons argumentos e boas histórias, principalmente na cinematografia europeia ou no cinema independente norte-americano, raramente podemos apontar um filme que traga algo de novo ao universo do cinema.

A última vez que isso nos aconteceu foi com o filme Dunkerke, com uma montagem que recria uma das técnicas mais importantes da 7ª arte.

Desta vez deparámo-nos, no filme “Joker”, com um desses raros grande momentos do cinema, um filme que vai ficar nos anais da história da 7ª arte, facto, com dissemos acima, cada vez mais raro.

Um filme que aparece no momento certo, que faz a ligação entre uma realidade cada vez mais violenta, imprevisível e ameaçadora e a origem ficcionada de uma das mais tenebrosas personagens do mundo dos super-heróis.

Numa época em que o que existe de mais surpreendente na cinematografia norte-americana é a proliferação dos filmes de super-heróis, “Joker” apropria-se de uma personagem desse universo, num ambiente ficcionado, mas realista.


“Joker” podia ser qualquer ser esmagado por uma sociedade povoada de solidão, indiferença, desigualdade e violência, personagem bem verosímil e que nos remete para uma das influências do universo do filme, o icónico Taxi Driver.

A própria presença de um envelhecido e conformado Roberto De Niro que acaba assassinado pelo personagem que “criou”, através da influência mediatizada de um talk-show, não é estranha a essa influência, ou não estivesse Martin Scorsese, realizador daquele filme, na origem deste projecto.

A época de “Joker” é, aliás, a mesma de “Taxi Driver”, os anos 80, mais concretamente o ano de 1981, numa “Gothan City” que podia ser qualquer esmagadora megacidade dos nossos dias, num universo onde qualquer ser humano se sente violentamente esmagado, capaz de se tornar um “Joker” solitariamente desesperado, tonando-se um ser violento no aperto de um transporte público ou numa fila de trânsito caótico.

Com origem no universo da série Batman, a mais humanista de todas as séries de super-heróis, neste filme Batman ainda não existe como tal, aparecendo apenas esporadicamente como criança rica que vê os seus pais (o pai é o demagógico governador da cidade) a serem assassinados na rua por um anónimo criminoso com máscara de palhaço, inspirado no Joker, situação que vai estar na origem da formação do icónico herói do comic.

Mas aqui “Batman” ainda não “sabe” que o vai ser.


O filme remete-nos apenas para a origem de um dos mais célebres vilões desse universo, “Joker”, que já tinha originado algumas das mais interessantes representações no cinema, figura interpretada por Jack Nicholson e Heath Ledger nalguns dos filmes da série Batman.

A novidade deste filme é que, tanto o personagem, interpretado por um obvio  oscarizado Joaquin Phoenix, como a Cidade Gotan City,  podiam ser qualquer solitário desesperado ou qualquer cidade dos nosso dias, sem precisar de  recorrer a efeitos especiais ou ao aparato do cinema de ficção científica para se tornar verosímil.


O filme arrepia e incomoda, mais do que pela crescente violência,  pelo seu realismo e porque tudo aquilo nos parece possível, num mundo muito marcado pela solidão, pela mediatização da violência, pelo descontentamento generalizado que explode em revoltas de rua, hoje um pouco por todo o mundo.

O realizador Tedd Phillips escreveu o argumento com Scott Silver, baseado num roteiro de Martin Scorsese, contando a história de Arthur Fleck, comediante falhado que, vivendo em 1981 em Gothan City é conduzido à loucura por uma sociedade agressiva e violenta que o rodeia, ao mesmo tempo que se torna o símbolo da revolta generalizada contra um poder cada vez mais desumanizado, demagógico, desligado da triste realidade dos seus cidadãos.

A história vai também beber a uma das histórias de banda desenhada mais interessantes da série Batman, aquela que conta exactamente as origens do vilão Joker, intitulada “The Killing Joke” (em português “Batman: a Piada Mortal”), editada em 1988, com argumento de Alan Moore, desenho de Brian Bolland e colorida por John Higgins, vencedora do Prémio Eisner (o “Óscar” da Banda Desenhada), em 1989, para o melhor álbum gráfico.


Mais do que nunca, olhando à nossa volta, é caso para dizer que…o Joker está entre nós.

quinta-feira, 6 de junho de 2019

Dois filmes para recordar o DIA D

Pessoalmente, recordo dois filmes que retratam, na perfeição, o que se passou há 75 anos, no Dia D, aquele que iniciou a rápida derrocada do poder nazi na Europa.

Até esse dia, os britânicos, no início, e os soviéticos, a partir de 1942, foram os único a enfrentar o poder das tropas de Hitler.

Com a abertura dessa nova frente, depois de, a partir de Novembro de 1942, as tropas soviéticas terem começado a contra-ofensiva que só terminou em Abril de 1945 com a conquista de Berlim, as dificuldades de resistência do exército nazi acentuaram-se.

Abria-se assim, não a segunda frente da ofensiva aliada, com é habitual referir-se, mas a terceira, se tivermos em conta a invasão da Itália por tropas aliadas desde Setembro de 1943.

É vasta a filmografia que relata esse famoso dia D de 6 de Junho de 1966, mas, quanto a nós existem dois filmes que relatam, com bastante realismo, o drama desse acontecimento.

Um é o clássico O DIA MAIS LONGO, de Darryl F. Zanuck, de 1962, aquele que contribui para a minha geração, a primeira que viveu sem guerra na Europa, sentir e conhecer o que foi aquele dia decisivo.

Este é, talvez, o mais realista de todos, sendo muitas vezes confundido com um documentário, tal o realismo das cenas, que ainda hoje surpreendem e são muitas vezes confundidas com a realidade.

O DIA MAIS LONGO

Outro filme, muito mais recente, e que beneficiou de um aparato tecnológico desconhecido até então, é O RESGATE DO SOLDADO RAYAN, de Steve Spielberg, de 1998.

Neste filme quase que somos transportados para o meio do conflito e, de meros espectadores, quase nos transformamos naqueles soldados, sentindo as balas a assobiarem à nossa volta, a dor das feridas, o cheiro da morte e o desespero do medo, dando-nos uma imagem muito pouco romântica da guerra.

O RESGATE DO SOLDADO RAYAN

O realismo desses filmes é, assim, uma autêntica viagem no tempo, para nos "juntarmos " àqueles soldados que contribuíram para, até hoje,  acabar com a guerra em solo europeu (embora a Jugoslávia e a Ucrânia aí estejam para nos recordar que a guerra pode voltar em qualquer momento).

A melhor maneira de respeitar os milhares que caíram pela liberdade da Europa, na frente leste, na frente ocidental ou na frente sul, é continuarmos a defender uma Europa democrática e onde se possa continuar a viver sem conhecer os horrores da guerra, algo que parece começar a ser esquecido por uma geração que beneficiou desse clima de paz e liberdade que se começou a desenhar nas praias da Normandia.

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Morreu Bernardo Bertolucci, para quem o tempo não existia



Numa entrevista concedida para ao “Expresso” à jornalista Cristina Margato, Bertolucci despediu-se com uma frase enigmática: “o tempo não existe”.

Para cineastas como Bertolucci o tempo, de facto não existe, pois o cinema, o grande cinema, é mesmo o melhor meio para eternizar o tempo, onde a vida dos actores, as paisagens, os espaços, se tornam eternos.

É essa, talvez, a grande magia do cinema, até aos nossos dias a única máquina do tempo que nos leva a viajar por todas as épocas e espaços.

Bertolucci, ontem falecido aos 77 anos, em Roma, no país onde nasceu em 16 de Março de 1940, era um desses mágicos do tempo, do espaço e das épocas.

“1900”, a grande saga em duas partes que realizou, em 1976, sobre a história da Itália e da Europa da primeira metade do século XX, foi uma dessas obras que nos levou a viver e sentir uma época de grandes transformações socias e politicas, através da humanidade das suas personagens.

“1900” tornou-se um filme maldito para a crítica pós-modernista e neoliberal, pois desmontava muitos dos argumentos e mitos antissociais e revisionistas em que estes movimentos, hoje dominantes na ideologia politica, no discurso economicista e cultural,   se baseiam.

Não me admiraria hoje de ler muitos dos que quiseram desvalorizar esse filme, por meros preconceitos ideológicos, a escrever loas a essa obra.

Mas essa não foi a única grande obra do cineasta, nem a única a abordar a temporalidade histórica, não podendo deixar de recordar “O Último Imperador”(1989), um dos filmes que até hoje recebeu mais óscares, uma grande saga sobre o fim da China imperial e o inicio da sua caminhada para se tornar a potência dos nossos dias.

Bertolucci começou como assistente de Pasolini e estreou-se com uma obra pouco conhecida, “La Commare Secca”, realizado em 1962.

Em Itália foi mensageiro de “Nouvelle Vague”, embora seguindo um percurso original,  e a consagração chegou com “Antes da Revolução”, realizado em 1964 e, principalmente, “A Estratégia da Aranha” de 1970, o mesmo ano do “Conformista”.

Os seus filmes procuram sempre explorar o lado humanos dos personagens, sem nunca esquecer o enquadramento histórico das suas atitudes, sendo este um dos lados mais característicos da obra do realizador italiano, que continuou a sua actividade nos Estados Unidos, seguindo o caminho de outros grandes cineastas italianos da sua geração, como Copolla,  Scorsese e Sergio Leone.

Para este último escreveu o argumento daquele que é até hoje um dos melhores “Western’s” de sempre, “Aconteceu no Oeste”.

A poesia, na humanidade dos personagens e na forma como filmava os grandes espaços, foi uma característica que herdou da sua juventude, onde, antes do cinema, quis ser poeta.

E se há filme que representa o lado poético da sua obra é esse magnifico “Um Chá no Deserto”, de 1990, para além do anterior “La Luna” de 1979, obra um pouco esquecida.

O erotismo esteve, igualmente, presente em toda a sua obra, com destaque para o mais polémico dos seus filmes, “O Último Tango em Paris”, filme que perseguiu o cineasta ao longo da sua vida, nunca tendo ultrapassado a forma como Maria Schneider ficou marcada por essa obra, erotismo que marcou igualmente um dos seu filme mais recente, passado no ambiente do Maio de 68, “Os Sonhadores” de 2003.

Em 2012 realizou o seu último filme, “Eu e Tu”, uma viagem aos fantasmas da adolescência.
A morte de Bertolucci, o cineasta que fazia filmes “para perceber o mundo, os outros e a mim mesmo”, deixa um grande vazio no panorama cinematrográfico mundial, mas a sua obra é eterna.

quarta-feira, 14 de março de 2018

Stephen Hawkings e Jóhann Johansson , o "reencontro" !

O que há de comum entre Stephen Hawking, hoje falecido, e o compositor islandês Jóhann Johansson?

- O filme "Teoria de Tudo" (2014), do inglês James Marsh!

Hawking foi o biografado nesse filme e Johanson foi o responsável pela banda sonora, recebendo por isso um Globo de Ouro e sendo nomeado para os óscares em 2015.

Em comum também tiveram o ano da morte.

 Johansson, compositor nascido em Reykiavik em19 de Setembro de 1969, (ver mais AQUI) faleceu, com apenas 48 anos, em Berlim no último dia 9 de Fevereiro deste ano, depois de nos ter deixado 15 albuns e sendo responsável pela banda sonora de vários filmes. Pouco mais de um mês depois falecia, aos 76 anos, o famoso cientista Hawkings.

Hoje, quem sabe, talvez se voltem a encontrar, Johanson ao piano e Hawking falando-lhe da "Teoria de Tudo".

Que descansem em paz!:

sexta-feira, 9 de março de 2018

quarta-feira, 24 de maio de 2017

A Morte de um “Santo”


Pessoalmente recordo Roger Moore mais como “Santo” do que como James Bond.

“O Santo” foi, talvez, das primeiras séries que vi na televisão, nos anos 60, e a preto e branco.

Dizer que “via” a série, é uma forma de expressão, já que apenas conseguia ver uns bocados da série, escondido atrás da porta da sala da casa dos meus pais, porque, por regra, não me deixavam vê-la por causa da “violência” da mesma, “violência” que, comparada com os dias de hoje, é totalmente inócua.

Nunca fui fã nem nostálgico da série James Bond, de um primarismo ideológico muito kitch.

Contudo, se houve actor que se identificou com a figura de 007, foi Roger Moore, embora, pessoalmente, tenha preferido sempre a interpretação de  Sean Connery no papel do famoso espião.

Roger Moore conseguiu dar sempre um toque de humor e charme irrepetível na série criada por Ian Fleming.

Mas, para mim, Roger Moore vai ser sempre recordado como “O Santo”, mais um ícone da minha geração que nos deixa.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

O Regresso de Peter Gabriel com "The Veil".

Acaba de ser hoje divulgado o mais recente tema de Peter Gabriel, a canção "The Veil", que é também o tema do próximo filme de Oliver Stone sobre a vida de Edward Snowden.
 
A revelação foi feita hoje pela BBC que divulgou igualmente um comunicado do próprio músico, de apoio ao filme e a Snowden:
"As relevações de Snowden chocaram o mundo e deixaram muito claro por que precisamos de estar sempre atentos a quem nos vigia. Com ataques terroristas crescentes, a segurança é crucial,  mas não a qualquer preço. 
" Fiquei muito feliz por saber que Oliver Stone decidiu fazer um filme sobre Edward Snowden e acredito que este seja um filme muito poderoso e inspirador". 
 

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Volta “Tony”, NÃO estás perdoado!!


Foi um dos maiores bluff´s da política internacional, criador da chamada “terceira via” que, em Portugal, teve comoo principal seguidor, José Sócrates.

Foi o primeiro de uma geração de políticos europeus, ditos “modernos”. “cosmopolitas”, mas que acabaram, todos, abrindo caminho ao desastre que se vive da Europa e no Mundo.

Sonhou “espalhar” a “democracia” e a “liberdade” pelo mundo, através do poder das armas.

Ao seu lado estiveram políticos como Bush, Barroso e Aznar que lançaram o Médio Oriente no caos com as consequências que todos conhecemos.

Blair continua a defender-se, argumentando que o Iraque “está melhor sem Saddam” (!!!). Mas essa mentira é desmentida pelos próprios iraquianos que então  saudaram a queda do ditador, como Khadim, “o iraquiano que odiava Saddam e deu em 2003 o primeiro golpe na estátua do ditador derrubada em Bagdad” e que hoje , diz  “de forma lapidar à BBC: “Saddam foi-se, mas agora temos mil Saddams.” Bush imaginava um “efeito dominó” de democracias, mas foi o contrário disso que ele (ajudado por Blair) legou ao mundo” (in Público on-line).

Com a divulgação, ontem , ao fim de sete anos de investigação, do inquérito que condena Blair, está aberta a porta para o condenar, a ele e aos políticos que o apoiaram (Bush, Barroso e Aznar e muitos outros), por crimes de guerra contar a humanidade. Pelo menos é isso que as associações dos familiares mortos no Iraque, na Grã-Bretanha, estão apostados em fazer.

Nisso o excelente filme de Roman Polanski, de 2010,  “O Escritor Fantasma”, era premonitório, uma metáfora sobre Blair, aqui transformado em "Lang":

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Premiado em Cannes, Ken Loach critica austeridade neoliberal e alerta para a ascensão da extrema-direita



O filme “I,Daniel Bake” do veterano realizador britânico Ken Loach, venceu a palma de ouro do festival de Cannes.
O filme premiado é uma critica humana, mas ferozmente crítica, ao modo como funciona a segurança social na Grã-Bretanha, fortemente destruturada pelo modelo neoliberal imposto na época Thatchere continuado pelos governos seguintes, mostrando as dificuldades que os serviços colocam para prestar assistência aos mais desfavorecidos.
Ao receber a Palma de Ouro, Loach salientou que "receber este prémio neste momento é muito estranho", recordando "as pessoas que não têm comida na quinta nação mais rica do mundo, o Reino Unido."
Na sua intervenção denunciou o neoliberalismo que vigora na Europa, e que nos conduz à catástrofe:
“Este mundo onde vivemos encontra-se numa situação perigosa. Nós estamos a bordo de um projecto de austeridade que é conduzido por ideias que nós chamamos de neoliberais, e que nos conduz para uma catástrofe”, denunciando as “práticas neoliberais” que “lançam na miséria milhões de pessoas, da Grécia a Portugal”, beneficiando apenas uma minoria “que enriqueceu de forma vergonhosa”.
Alertou também para a ascensão da extrema-direita um pouco por toda a Europa:
“Aproximamo-nos de um período de desespero e com o desespero é a extrema-direita que se aproveita.
“Alguns de nós, os que já temos alguma idade, lembramo-nos o que essa extrema-direita fez”.
Loach não esqueceu o poder do cinema, recordando que "uma das tradições do cinema é o de dissidência, representando o interesse das pessoas contra os que são grandes e poderosos", desejando “que esta seja uma tradição que possamos manter viva."
Apesar do seu tom pessimista ficou no ar a seu apelo:
“É preciso, neste mundo de desesperança, recuperar a esperança, dizer que um outro mundo é possível”.
Ken Loach já apresentou 15 filmes no Festival, desde 1979, e já ganhou anteriormente uma  Palma de Ouro com o filme  "Brisa de Mudança" (2006) e três prémios do júri com "A Parte dos Anjos" (2013), "Agenda Secreta" (1990), e "Chuva de Pedras" (1993). Além disso recebeu seis prémios paralelos do júri ecuménico (3) e da crítica internacional, FIPRESCI (3).


 
A intervenção integral de Ken Loach na cerimónia de encerramento do Festival de Cannes, pode ser vista AQUI.