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quarta-feira, 5 de julho de 2017

O Respigo da Semana : "O que entra em lenta cinza pelas minhas janelas em Pedrogão Grande (...) é a via portuguesa para o capitalismo nos campos".


“(…)

“O que entra em lenta cinza pelas minhas janelas em Pedrogão Grande e pousa docemente sobre o meu teclado, os meus livros, a minha roupa, é a via portuguesa para o capitalismo nos campos.

“Sim, falo de um destino histórico, tanto mais português, mais cruel e inumano, quanto menos se confessa e se entende , quanto mais neutro e sereno parece.

“O “reordenamento do território”, essa miraculosa panaceia de que tantos falam e tão poucos percebem, está a rapidamente perante os nossos olhos: corre à velocidade das chamas e do vento.

“Depois do desastre, muitas dezenas de milhares dos quinhentos mil pequenos e pequeníssimos proprietários de floresta terão perdido tudo e perderão, por fim, a terra.

“O que arde em Portugal é o campesinato português, expulso do Alentejo pelo PS, varrido do centro e do norte pelas Politicas Agrícolas Comuns do PS e do PSD, despojado de tudo pelo fogo.

“Ardem os velhos de olhos rasos de lágrimas que só a conversa mole de enfermeiros vestidos de branco consegue arrastar, sobre um fundo de céu em cinza, para longe de meia dúzia de oliveiras a que dedicaram a vida.

“Ardem os bens dos descendentes de velhos já mortos que deixaram morrer os velhos e os sobreiros de que cuidavam para plantarem no seu lugar mato, casas vazias e eucaliptos.

“Haverá-haverá ainda? –outra história possível? Vejo na televisão a falsa tristeza de quem, lá no fundo, pensa que Clio só saúda os vencedores. Vejo nos telejornais os olhos serenos que quem atribui subsídios como quem deita pazadas de terra sobre um caixão.

“ E penso num camponês vizinho meu, do outro lado do Zêzere. Tem dezassete anos. Dezassete. O pai, falecido, deixou-lhe o que tinha, terra, gado, máquinas. Perdeu tudo. Vai certamente partir para o litoral, onde não há agricultura nem incêndios.

“Talvez não tivesse de ir se, em vez de menos Estado, em vez de mais liberalismo, o interior de Portugal tivesse tido a sorte de ter sido governada nestes últimos trinta anos, já nem digo por socialistas, bastavam social-democratas, agentes de uma história mais generosa.

“Os Canadair continuam a voar sobre a minha casa. Já não sinto raiva nenhuma”.
 
por Paulo Varela Gomes

…Não, este texto não foi escrito nestas duas últimas semanas. Foi escrito em 5 de Agosto de …2003!!! (durante o governo de Durão Barroso).

É um excerto da crónica “A Incendiária” de Paulo Varela Gomes, publicado no livro OURO E CINZAS, editado pela Tinta da China. Em 2016.

..e, infelizmente, Paulo Varela Gomes não está cá hoje para escrever uma crónica actualizada sobre acontecimentos recentes, porque esse grande professor e investigador faleceu há um ano.

Mas tudo o que ele escreveu há…14 anos (!!!!), ganha actualidade nos dias que correm.

Quem nos dera que entre a nossa classe política das últmas décadas existisse a lucidez de um Paulo Varela Gomes!

domingo, 24 de outubro de 2010

O Respigo da Semana - "Declaração" de Paulo Varela Gomes


"DECLARAÇÃO

"As medidas que o Estado português se prepara para tomar não servem para nada. Passaremos anos a trabalhar para pagar a dívida, é só. Acresce que a dívida é o menor dos nossos problemas. Portugal, a Grécia, a Irlanda são apenas o elo mais fraco da cadeia, aquele que parte mais depressa. É a Europa inteira que vai entrar em crise.

"O capitalismo global localiza parte da sua produção no antigo Terceiro Mundo e este exporta para Europa mercadorias e serviços, criados lá pelos capitalistas de lá ou pelos capitalistas de cá, que são muito mais baratos do que os europeus, porque a mão-de-obra longínqua não custa nada. À medida que países como a China refinarem os seus recursos produtivos, menos viável será este modelo e ainda menos competitiva a Europa. Os capitalistas e os seus lacaios de luxo (os governos) sabem isso muito bem. O seu objectivo principal não é salvar a Europa, mas os seus investimentos e o seu alvo principal são os trabalhadores europeus com os quais querem despender o mínimo possível para poderem ganhar mais na batalha global. É por isso que o “modelo social europeu” está ameaçado, não essencialmente por causa das pirâmides etárias e outras desculpas de mau pagador. Posto isto, tenho a seguinte declaração a fazer:

"Sou professor há mais de 30 anos, 15 dos quais na universidade.

"Sou dos melhores da minha profissão e um investigador de topo na minha área. Emigraria amanhã, se não fosse velho de mais, ou reformar-me-ia imediatamente, se o Estado não me tivesse já defraudado desse direito duas vezes, rompendo contratos que tinha comigo, bem como com todos os funcionários públicos.

"Não tenho muito mais rendimentos para além do meu salário. Depois de contas rigorosamente feitas, percebi que vou ficar desprovido de 25% do meu rendimento mensal e vou provavelmente perder o único luxo que tenho, a casa que construí e onde pensei viver o resto da minha vida. Nunca fiz férias se não na Europa próxima ou na Índia (quando trabalhava lá), e sempre por pouco tempo. Há muito que não tenho outros luxos. Por exemplo: há muito que deixei de comprar livros.

"Deste modo, declaro:

1) o Estado deixou de poder contar comigo para trabalhar para além dos mínimos indispensáveis. Estou doravante em greve de zelo e em greve a todos os trabalhos extraordinários;

2) estou disponível para ajudar a construir e para integrar as redes e programas de auxílio mútuo que possam surgir no meu concelho;

3) enquanto parte de movimentos organizados colectivamente, estou pronto para deixar de pagar as dívidas à banca, fazer não um, mas vários dias de greve (desde que acompanhados pela ocupação das instalações de trabalho), ajudar a bloquear estradas, pontes, linhas de caminho-de-ferro, refinarias, cercar os edifícios representativos do Estado e as residências pessoais dos governantes, e resistir pacificamente (mas resistir) à violência do Estado.

"Gostaria de ver dezenas de milhares de compatriotas meus a fazer declarações semelhantes."

in Público, 23 de Outubro de 2010