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segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Eusébio, num poema de Manuel Alegre.


Eusébio

Havia nele a máxima tensão
Como um clássico ordenava a própria força,
sabia a contenção e era explosão,
havia nele o touro e havia a corça.

Não era só instinto, era ciência,
magia e teoria já só prática.
Havia nele a arte e a inteligência
do puro jogo e sua matemática.

Buscava o golo mais que golo: só palavra.
Abstracção. Ponto no espaço. Teorema.
Despido do supérfluo rematava
e então não era golo: era poema.


Manuel Alegre

terça-feira, 24 de abril de 2012

"Para Além de Abril" ....[par responder ao slogan contra-revolucionário "Para Além da Troka"]

A Liberdade foi o principal feito do 25 de Abril.

A partir dessa data, cada um pensou ser possível construir o país que imaginava, daí ser tão difícil a unanimidade sobre a interpretação desse acontecimento.

Penso que o espírito de Liberdade e Esperança que varreu o país nesses dias distantes de 1974 é muito difícil de explicar aos que não o viveram. Daí a dificuldade em encaixar e interpretar esses acontecimento à luz de um qualquer modelo teórico histórico-sociológico pré formatado

O 25 de Abril foi um golpe de Estado, uma revolução, uma festa? É comparável à Tomada da Bastilha, à Revolução Russa, à libertação do pós-guerra, ao Maio de 68? Foi tudo isso e…nada disso!

O ponto de partida foi para encontrar uma solução para a Guerra Colonial, juntando-se, por influência de alguns militares mais esclarecidos, o objetivo de conquistar a liberdade e a democracia.

Mais tarde aplicou-se o objetivo dos três D’s: Descolonizar, Democratizar, Desenvolver.

A Descolonização nem sempre correu bem. Seria difícil fazer melhor, dadas as contingências da época. Devido à teimosia do Estado Novo, a partir da segunda metade dos anos 60 qualquer descolonização pecaria por tardia e enfrentaria a situação trágica que lhe ficou associada, para além dos interesse político-estratégico-económicos que a condicionaram. Internacionalmente vivia-se o mundo da “guerra fria” e os interesse em jogo eram gigantescos para uma pequena nação como Portugal. De qualquer modo é de louvar o modo como o país, no meio de uma revolução, conseguiu absorver, sem grandes tragédias, cerca de meio milhão de portugueses oriundos das colónias e mais o regresso apressado de milhares de militares.

…Além disso, as jovens nações lusófonas começam, a pouco e pouco, a encontrar o seu caminho e a ultrapassar as dificuldades, apesar de tropeções como aquele que se vive atualmente na Guiné Bissau..

A Democratização foi cumprida, embora se possa discutir o monopólio dos partidos na sua construção e a fraca intervenção cívica da população, problema que não será estranho à trágica situação atual, mas que é também uma herança do autoritarismo cultural e educativo do salazarista. Um dos grandes feitos dessa democratização foi o aprofundamento do Poder Local que tem sido uma das componentes mais dinâmicas da vida democrática no pós 25 de Abril, mas que está sob fogo cerrado da actual vaga contra-revolucionária.

O Desenvolvimento não terá sido o que muitos almejavam, mas, comparativamente como os 48 anos anteriores, o país conheceu grandes avanços nos últimos 38 anos. Basta comparar todos os índices económico-sociais, nomeadamente em áreas como as da saúde, da educação e do bem-estar em geral. Quem tiver visão curta pode não se aperceber dessas melhorias, até porque a última década tem sido de estagnação, assistindo-se a uma crescente tentativa de destruir tudo o que se conquistou em termos socias por parte de velhos interesses, herdeiros dos mesmos que sustentaram a ditadura salazarista durante quase meio século.

Hoje muitos se interrogam se será necessário um novo 25 de Abril. Para mim o essencial do 25 de Abril , com avanços e recuos, vai sendo cumprido, mas será aquilo que quisermos fazer dele, nomeadamente no aperfeiçoamento da democracia participativa e no combate à corrupção e às desigualdades que impedem o saudável desenvolvimento económico e social.

Hoje, para responder ao oportunismo contra-revolucionário dos que defendem que se deverá ir “além da troika”, nós, os que continuamos a acreditar na esperança e nas “portas que Abril abriu”, devemos responder-lhes, não com um novo 25 de Abril, mas contribuindo para construir um país… para “além de Abril”…

“Além de Abril” é respeitar a liberdade, defender o aperfeiçoamento da democracia e um desenvolvimento económico-social justo e sustentável, mantendo acesa a chama da esperança.

Só assim poderemos continuar a afirmar : “25 de Abril, Sempre”!

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Sócrates, Alegre e o presente envenenado...

A direcção do PS, por imposição de Sócrates, lá se decidiu pelo apoio à candidatura presidencial de Manuel Alegre.

Sócrates, com essa decisão, distribui um presente envenenado a muita gente:

- em primeiro lugar ao próprio Manuel Alegre que a partir de agora perde toda a irreverência da sua primeira candidatura, calando-se uma das vozes mais incómodas para o próprio Sócrates;

- em segundo lugar ao Bloco de Esquerda, pois vai ser muito irónico ver Louçã de braço dado com Sócrates em comícios de campanha de Alegre;

-por último, à esquerda em geral, comprometendo-a com a política de Sócrates, já que agora “todos”, ou quase todos, navegam no mesmo barco eleitoral.

Quem se deve estar a rir com tudo isto é o próprio Cavaco Silva.

Pela minha parte, cada vez estou menos arrependido de apoiar Fernando Nobre, a única candidatura inovadora e irreverente que, a partir de agora, se encontra no terreno.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Alegre assume candidatura presidencial


Manuel Alegre anunciou esta noite, em Portimão, num jantar com cerca de mil apoiantes, que está disponível para se candidatar à presidência.

Nas suas edições on-line vários jornais publicaram o discurso que ele pronunciou esta noite, cujo conteúdo merece destaque:

“Começo por lembrar o almoço da última campanha em Portimão, com centenas de pessoas e um grande entusiasmo, apesar do temporal desse dia. Não o faço por nostalgia do passado, mas porque essa campanha foi uma campanha pioneira, que abriu no nosso país um novo caminho à cidadania. Foi uma campanha que afirmou o poder doscidadãos e mostrou a importância da democracia participativa. Eu creio que esse é o caminho para arenovação da vida democrática.

“É imperioso, no tempo que vivemos, afirmar o primado da cidadania sobre a lógica dos interesses, dos egoísmos e da indiferença.Esta é a cidade de um grande escritor português, Manuel Teixeira Gomes. Um poeta da palavra, um artista que foi Presidente da República e que, sendo Presidente, nunca deixou de ser artista. E acima de tudo um cidadão que nos deixou uma lição de ética e de sentido estético da vida.Neste ano em que se comemora o Centenário da República, voltamos a precisar desse rigor ético navida privada e na vida pública. E também de algo que vá para além do discurso cíclico sobre as contas públicas.

“As pessoas precisam de um horizonte e de uma perspectiva para além dos números e para além dos sacrifícios que lhes pedem no dia a dia. As pessoas precisam de saber porquê e para quê. E sobretudo, para além do direito ao trabalho e do direito ao pão, as pessoas precisam do direito à esperança, do direito ao sonho e do direito à beleza.

“É talvez a melhor maneira de celebrar o Centenário da República e é com certeza a melhor homenagem que se pode prestar ao Presidente poeta Manuel Teixeira Gomes: voltar a dar aos portugueses uma concreta razão de esperança, voltar a dizer aos portugueses que Portugal vale a pena e proclamar aos jovens que eles têm direito a viver e a dançar a vida, eles têm direito a outra forma de realismo: exigir o impossível. E o impossível é afinal tão simples: primeiro emprego, realização profissional, habitação, uma vida vivida sem ser em permanente precariedade.

“Mas para isso, como escreveu o Professor Vitorino Magalhães Godinho – “A política de emprego tem de pôr de lado recibos verdes e contratos de termos arbitrários. O trabalho precário é um cancro para o desenvolvimento económico”. Trabalho precário, desemprego, desigualdade, insegurança, incerteza, ausência de perspectivas e de futuro.

“Estes são os sinais de uma crise que atravessa o mundo e que, tal como tem sido dito, não é mais uma crise cíclica, é uma crise estrutural, uma crise que exige uma mudança profunda e de que só se sai com outro paradigma, outro projecto, outro modelo de desenvolvimento. Mais de que uma visão contabilística e tecnocrática, é preciso uma visão política, com abertura de espírito, inovação e criatividade. Mudar a economia, mudar o sentido da política, mudar a vida.

“Capacidade de invenção, poder de inspiração. Esse deve ser o papel de um Presidente da República. Ser uma referência e uma fonte de inspiração. Alguém que traga consigo uma nova liderança, não pela interferência nas áreas do governo, mas pela pedagogia do gesto, da palavra e da acção. Alguém que aponte o caminho e seja capaz de nos fazer ver um pouco mais longe do que o estreito horizonte do dia a dia. Alguém que dê um sentido aos trabalhos que nos são pedidos.

“Alguém que seja um patriota e um cidadão do mundo.

“Alguém que se identifique com as raízes profundas da nossa história e da nossa cultura, mas seja simultaneamente um cosmopolita aberto aos problemas das outras sociedades. Alguém que em todos os momentos exerça um magistério da causa pública e do serviço desinteressado do país.

“As pessoas precisam de um Presidente que não lhes fale apenas do presente, que não lhes repita apenas números e estatísticas, mas lhes aponte horizontes que lhes permitam esperar em vez de somente aguardar e muitas vezes desesperar. Como republicano, quero uma República moderna, escola pública, serviço nacional de saúde, protecção social, direitos políticos individuais articulados com os direitos sociais, culturais e ambientais.

“Como socialista, acredito na possibilidade de construir uma sociedade mais justa e solidária, através de serviços públicos geridos, não pela lógica do lucro, mas pela realização do interesse geral, e através de um novo modelo económico onde se conjuguem planeamento e concorrência, iniciativa pública e iniciativa privada. Como democrata, penso que o espaço e a intervenção da cidadania são o sal da vida pública e que a democracia participativa é indispensável à renovação da democracia representativa.

“Como português, digo que Portugal é muito maior do que a sua dimensão geográfica e que pela história, pela língua e pela cultura é um dos países que pode ser no mundo um actor global.

“O Mundo atravessa uma crise grave. Portugal vive uma hora difícil. É sempre mais fácil desistir e baixar os braços. É sempre mais fácil dizer que nada vale a pena. Mas Portugal existe, porque houve sempre, desde o princípio e através dos séculos, um povo que acreditou que Portugal vale a pena. Um povo e dirigentes que acreditaram e agiram. E é disso que hoje precisamos. Acreditar e agir. Não sucumbir à tendência para o queixume, para a lamechice, para o fatalismo.

“Dante dizia que os lugares mais quentes do Inferno estavam reservados para aqueles que em momentos críticos se mantiveram neutros. Quem me conhece sabe que não cometi nunca esse pecado. Posso ter-me enganado. E algumas vezes me enganei. Posso ter errado. E algumas vezes cometi erros. Mas nunca fui neutro. Nunca baixei os braços. Nunca fugi a nenhum combate. Nem antes, nem durante, nem depois do 25 de Abril. E também não ficarei neutro agora. Sei que para o PS e para os outros partidos parlamentares este é o tempo do Orçamento Geral do Estado. Desejo que seja possível que seja negociado sem que as negociações sejam orientadas de fora na tentativa de o orientar para certo sentido.

“Compreendo que para o PS seja o momento do Orçamento. Mas, como diria o meu amigo Jorge Sampaio, há mais vida para além do Orçamento. Queira-se ou não, a próxima eleição presidencial vai condicionar, ou melhor, já está a condicionar a vida política do país. Há duas opções. Os dirigentes mais lúcidos do principal partido da oposição já perceberam que é muito difícil encontrar, a curto prazo, um líder capaz de unir o partido e o centro direita.

“É grande a tentação de reagrupar o bloco conservador à volta do actual Presidente da República para, através da sua eventual reeleição, conseguir o que não se consegue por via partidária: uma maioria, um governo, um Presidente. Independentemente da pessoa do Presidente, que não ponho em causa, tal projecto, que foi sempre o sonho da direita, comporta riscos para o PS, para toda a esquerda e para o equilíbrio do regime. E tem uma lógica de deriva política de pendor presidencialista.

“A outra opção é não nos conformarmos e fazer da próxima eleição presidencial uma grande mobilização, não só das esquerdas, mas de todos aqueles, de todos os quadrantes, que desejam a mudança num outro sentido e querem ver renascer a esperança num Portugal sem bloqueios, um Portugal que valha a pena, um Portugal de todos.

"É esse Portugal que nos interpela. É esse o combate que chama por nós. E o que venho aqui dizer-vos é que estou disponível para esse combate. Com todos vós e com todos os portugueses que estão connosco, com todos os que a seu tempo virão a estar, para mudar e para vencer, pela República e por Portugal”.

A partir de hoje a actual direcção do PS terá de clarificar a sua posição. Ou me engano muito ou vamos ver José Sócrates a passar uma rasteira a Manuel Alegre.
Seja como for, a política portuguesa conhece, a partir de hoje uma nova reviravolta.

sábado, 11 de julho de 2009

Manuel Alegre apela à esquerda: "É urgente acordar"!

O semanário “Expresso” divulga hoje um texto de Manuel Alegre que devia servir de reflexão à esquerda portuguesa.
Denunciando o drama de sempre da esquerda portuguesa, o de governar à direita quando chega ao poder, a dificuldade em entender-se e a sua tendência para desenvolver atitudes sectárias, Alegre afirma que uma das originalidades portuguesas tem sido o facto de as “nossas esquerdas parecem ter como desígnio principal excluírem-se umas às outras”.
E avisa: se “a esquerda de poder imita o poder da direita e as outras continuam a sonhar com os amanhãs que já não cantam, se, no seu conjunto, a esquerda deixa de representar um horizonte visível de esperança, os eleitores viram-se para outro lado e para a ilusão da segurança que, em época de crise, a direita oferece”.
Denuncia igualmente a deriva neo-liberal da esquerda social-democrata europeia nos últimos anos: se “não mudar, o socialismo europeu corre o risco de ter um destino semelhante ao do movimento comunista”.
No PS denuncia o “estilo” dos seus actuais dirigentes, incapazes de alterar aquilo que ele considera errado, na política de educação, no trabalho, “na justiça, na função pública, na relação com os sindicatos, na afirmação do primado da política e na urgência de libertar o Estado de interesses que o condicionam”, bem como a preocupação desses mesmos dirigentes, dando mais importância às vozes da direita do que à “sua própria esquerda”. “Não se combate o liberalismo ultra com o liberalismo suave. Nem se vence o PSD com ex-ideólogos do PSD”.
Num ponto estamos em desacordo com Manuel Alegre, quando ele revela preocupação com o facto de uma vitória do PSD poder anunciar “o fim de um ciclo e de uma concepção da democracia em que direitos políticos e direitos sociais eram considerados inseparáveis”.
É que esse ciclo já iniciou o seu fim com este governo de José Sócrates.
Nunca um governo PSD, mesmo coligado mais à direita, foi tão longe no ataque aos direitos sociais e laborais, aos professores e aos funcionários públicos, como o de José Sócrates.
É isto que a esquerda não se vai esquecer, quando for votar em Setembro.

"É Urgente Acordar" - Manuel Alegre


(Publicado no Expresso em 11.07.2009)

Em nenhum outro país europeu a esquerda é eleitoralmente tão forte como em Portugal.
Mas essa força não serve para grande coisa. Sobretudo não serve para governar, seja em coligação seja através de acordos pontuais.
Em caso de maioria relativa do maior partido da esquerda, a governabilidade só é garantida à direita, quer através do bloco central, quer com o apoio do CDS.
Nem o PCP e o BE estão disponíveis, nem o PS quer governar com qualquer deles. As nossas esquerdas parecem ter como desígnio principal excluírem-se umas às outras. É uma das originalidades portuguesas.
Depois da queda do muro de Berlim, os partidos comunistas quase se evaporaram. Com a honrosa excepção do PCP, não só pelo seu papel na luta anti-fascista, mas também devido ao facto de Álvaro Cunhal ter preservado a ideologia tradicional do partido, fixando assim o núcleo essencial do seu eleitorado. Esperava-se então que fosse a hora do socialismo democrático. Mas o que veio foi a globalização neo-liberal.
Com os socialistas na defensiva ou ideologicamente colonizados. Essa é talvez a razão pela qual a nova crise global do capitalismo financeiro beneficiou a direita e não a esquerda. Parafraseando Saramago, para quê votar à esquerda se não há esquerda?
Como projecto de governo, não há. Se não mudar, o socialismo europeu corre o risco de ter um destino semelhante ao do movimento comunista. Se a esquerda de poder imita o poder da direita e as outras continuam a sonhar com os amanhãs que já não cantam, se, no seu conjunto, a esquerda deixa de representar um horizonte visível de esperança, os eleitores viram-se para outro lado e para a ilusão da segurança que, em época de crise, a direita oferece.
Pelo menos a direita sabe o quer: quer poder. E não tem os pruridos da esquerda, une-se para o conquistar. As próximas eleições serão marcadas por uma ofensiva ideológica da direita. O que está em causa é o consenso constitucional aprovado por larga maioria, incluindo o PSD, sobre os direitos sociais (escola pública, universalidade do acesso à saúde, segurança social pública).
A líder do PSD anuncia o fim de um ciclo e de uma concepção da democracia em que direitos políticos e direitos sociais eram considerados inseparáveis.Com o absurdo de o PSD partir para as eleições com a bandeira da ideologia que está na origem da actual crise mundial. Sabem-se os objectivos: papel do Estado, protecção social, direito do trabalho. Os resultados desta receita estão à vista em toda a parte: desregulação do mercado entregue a si mesmo, busca sem freio do lucro pelo lucro com total indiferença pelos custos sociais, ausência de ética e transparência. Na hora do colapso do neo-liberalismo, MFL faz o discurso ultra-liberal do Estado mínimo.
À força de tanto querer rasgar, acabará por rasgar o horizonte social do 25 de Abril, consagrado na Constituição.
E por isso impunha-se um sobressalto.
Seria preciso que os socialistas acordassem do seu torpor e que dentro do PS se ouvissem vozes a exigir uma mudança. Não só de estilo, mas de pessoas e de políticas. Na educação, no trabalho (cujo Código é imperioso rever), na justiça, na função pública, na relação com os sindicatos, na afirmação do primado da política e na urgência de libertar o Estado de interesses que o condicionam.
Seria preciso que o PS fosse capaz de se reencontrar consigo mesmo, com os seus valores e com o seu eleitorado. E que as outras forças de esquerda, sem abdicarem das suas posições próprias, definissem com clareza o adversário principal e se interrogassem sobre as consequências de um eventual governo de MFL. Se a direita governar, o povo da esquerda será o principal perdedor, independentemente da votação nos partidos que dele se reclamam.
Dir-me-ão que a maioria PS não governou à esquerda. Eu gostaria que tivesse governado de outra maneira. Mas também sei que uma maioria de direita jamais deixaria passar o referendo sobre a IVG e a lei do divórcio. Sei que com um governo de MFL o SNS será praticamente desmantelado e o papel do Estado, como ela já afirmou, “reduzido ao mínimo indispensável”. Como socialista, não me compete dizer ao PCP e ao BE o que devem fazer. Gostaria que uma maioria de esquerda fosse capaz de gerar soluções políticas alternativas. Mas não tenho ilusões. Tal só será possível com uma ruptura de cada uma das esquerdas consigo mesma. O que está longe de acontecer.
Aos socialistas digo que ainda há tempo. Ainda é possível vencer o PSD.
Mas não será com certeza ouvindo opiniões à direita e esquecendo a sua própria esquerda. Nas europeias, não foi o PSD que teve um aumento significativo de votação, foi o PS que perdeu grande parte da sua base social, a ponto de, pela primeira vez, ter ficado aquém de um milhão de votos. Várias vezes falei de um buraco negro na esquerda. A soma da abstenção com os resultados do BE e do PCP mostram que esse buraco se situa na área do PS. Não é crível que personalidades de direita consigam recuperar para o PS o eleitorado que este perdeu para a abstenção e para a esquerda. Os socialistas não podem ter um discurso emprestado. Não se combate o liberalismo ultra com o liberalismo suave. Nem se vence o PSD com ex-ideólogos do PSD. Ainda é possível dar a volta.
Mas algo tem de acontecer.
Apesar dos erros, a bandeira do PS não está no chão. Mais política e menos marketing. Mais socialistas e menos figurantes. Um pouco mais de esquerda. Ou, como diria Mário Cesariny, “um acordar”.
Para que um dia destes não estejamos a perguntar-nos como é que se perdeu mais uma oportunidade e como é que um país maioritariamente de esquerda pode acabar uma vez mais a ser governado pela direita.

Manuel Alegre