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segunda-feira, 5 de julho de 2021

Ainda a propósito do “branqueamento da História” no Congresso do MEL (2)- As falácias de Nuno Palma.


O tão propagandeado “congresso das direitas”  (mais “fel do que MEL”), pouco mais serviu do que para revelar  a pobreza banal e bolorenta das ideias dessa família política portuguesa, incapaz de mobilizar  e inovar, mas revelador do seu desespero perante a possibilidade de se verem arredados do poder nos próximos anos.

Esse desespero terá contribuído para o radicalismo de algumas comunicações, destacando-se, no meio da pobreza geral,  pela retórica cuidada, inteligente e agressiva, a intervenção de Nuno Palma (ver reprodução em baixo).

Tratando de um tema interessante, “as causas míticas da divergência económica portuguesa”, apresentou algumas reflexões a considerar e que, caso orador não se tivesse deixado levar pelo ambiente revanchista dominante, até podiam ter enriquecido evento tão medíocre.

O problema foi quando começou a fazer comparações absurdas entre o Estado Novo e o Regime Democrático.

Partindo de uma verdade histórica, os níveis de crescimento económico observáveis na década de 60, até hoje inigualáveis, procurou extrapolar, de um simples gráfico estrutural, baseado no PIB, sem a devida contextualização, uma certa “superioridade moral” da economia do Estado Novo em relação ao actual regime.

Entusiasmado pela sua aparente “descoberta” e “novidade” (há anos que Fernando Rosa e outros historiadores falam do tema), e pela reacção da plateia, acabou a debitar uma série de falácias, meias-verdades e bombásticas frases propagandísticas, que fizeram estalar o verniz da aparente “objectividade cientifica “da sua “verdade”.

Sobre a correcta análise e contextualização desse gráfico, já outros fizeram a desmontagem do “mito” dessa comunicação de Nuno Palma ( José Pacheco Pereira , “A indústria de falsificação do Estado Novo”, in Público de 5 de Junho de 2021; Fernando Rosas, “O Milagre da economia sem política”, in Público de 20 de Junho de 2021;  Luís Reis Torgal, “E se só a Ciência for revolucionária”, in Público de 28 de Junho de 2021; António Barreto , “Sim, é verdade”, in Público de 3 de Julho de 2021).

Como escreveu Pacheco Pereira noutro texto, usando-se o mesmo estratagema também se conseguia facilmente demonstrar a “superioridade” do modelo de “desenvolvimento económica” do regime hitleriano em relação à República de Weimar ou do Stalinismo em relação ao regime czarista ou  da União Soviética em relação aos primeiros anos de democracia Russa.

Como se sabe, usar a evolução do PIB, a frio, sem contextualização, para comparar níveis de desenvolvimento, é falacioso e tem sido motivo de debate aceso entre economistas e historiadores. Hoje, aliás, têm sido ensaiadas outras formas de medir o desenvolvimento, que distinga o mero crescimento do verdadeiro desenvolvimento económico, que tem de ser também social, humano e cultural, como acontece com o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH)  ou como o índice Gini, que mede a desigualdade económica.

Ambos esses índices não estão isentos de críticas, como sucede com qualquer tipo de rating, que analise situações macroeconómicas, pois, não se pode resumir as complexas relações humanas e socias, a base do estudo histórico e social,  a meros “campeonatos” estatístico.

Muitas vezes o PIB compara economias que "produzem ricos" com economias que produzem riqueza, não distinguindo a desigualdade na distribuição dessa riqueza ou os métodos,muita vezes desumanos e antisocias como ela é alcançada, o que, aliás, acontecia no Potugal doa anos 60.

Mas o mais grave e falacioso da comunicação de Nuno Palma não foi só essa questão.

Uma das frases bombásticas do orador, levado provavelmente pelo ambiente favorável de uma plateia rendida ao radicalismo, foi a de dizer que “desde o 25 de Abril Portugal é um regime de Esquerda”, considerando que, mesmo “a única excepção duradoura é a década de Cavaco Silva com um programa até social-democrata” e que “a nível europeu isto até é centro-esquerda”.

E começa aqui o desfilar entusiástico e delirante de falácias.

Até Cavaco é de “esquerda” (“social-democrata”) e assim arrumam-se, sem hipótese de argumentar, 48 anos de democracia, ideia que pode ser facilmente desmontada consultando a lista e o tempo dos governos, democraticamente eleitos, convém recordar, desde o 25 de Abril.

Dando de barato que o PS sempre governou “à esquerda” e que todos os governos provisórios  liderados por Vasco Gonçalves (com ministros do PSD e PS) foram dominados pela esquerda, contabilizamos 286 meses de governo “à esquerda” e 272 à “direita”, mais 29 meses de governos “ao centro”, considerando como centrista o 1º governo provisório, com Sá Carneiro como ministro, o governo de Pinheiro de Azevedo, dominado pelo PSD  e pelo PS, e os governos de Nobre da Costa, Mota Pinto e Maria de Lurdes Pintasilgo, aquele argumento cai pela base.

Recorde-se, aliás, que o “esquerdista” Cavaco Silva chefiou o governo durante 120 meses, grande parte em maioria absoluta.

Recorde-se que a “direita”, coligação entre CDS e PSD, governou também em “maioria absoluta”, 40 meses com a AD e 77 meses com Passos Coelho…ah! mas esta gente, para Palma, é suspeita de governar em “social-democracia” ou ao “centro-esquerda”!!

A única maioria absoluta à “esquerda” aconteceu como o primeiro governo de Sócrates, cerca de 48 meses, um governo, aliás, muito bem recebido por alguns pensadores da direita neoliberal, exactamente por tomar muitas das medidas antissociais preconizadas pelos “Nunos Palma” da época…

A ideia de Palma é quase tão absurda como a cassete das “políticas de direita” do PCP.

Mas Palma vai mais longe nas suas atoardas. Em certo momento, tomado de delírio, vem em defesa do Chega. Porque ilegalizar o Chega? (nós também não concordamos com essa intenção). Segundo ele existem razões, sim, é para ilegalizar a “extrema-esquerda”, o BE ou o PCP, por exemplo, até porque, ao contrário do Chega, “o PCP é um partido anti-democrático” e insurge-se contra o museu do Forte de Peniche que , citando o programa da instituição, é “uma homenagem aos presos políticos que lutaram pela democracia” o que para Palma são “os tais do PCP que lá estiveram presos” (aplauso entusiásticos).

É provável que a maior parte dos presos políticos no Estado Novo, nomeadamente os que estiveram presos em Peniche, fossem do PCP, mas a afirmação ignorante e falaciosa de Palma ignora tantos presos políticos, das mais variadas tendências, que por lá passaram, bem como as razões do papel histórico do PCP no combate à ditadura, afirmação grave feita por um professor universitário que se diz objectivo e contra “as ideologias”.

A forma como ele enfatiza esta parte da sua intervenção, e o entusiasmo que ela provocou entre a assistência, demonstra que entre a assistência há muita gente que acha que, se eram “comunistas”, então até mereceram a prisão!!

Outra afirmação de Palma que mereceu aplausos entusiásticos da assistência: “a extrema-esquerda controla a educação”.

E “extrema-esquerda”, para ele, é o Bloco de Esquerda, o PCP e até sectores  do PS, classificação tão absurda, dita por um professor universitário, como classificar o PSD, o CDS  ou a Iniciativa Liberal como de “extrema-direita”.

E em que é que Palma fundamenta a sua argumentação? na citação cirurgica de uma parte do programa oficial de História do 12º ano : “…reconhecer que [o Estado Novo] …impediu a normalização económica e social do país” e, outra  falácia, como o demostrarei mais à frente, uma sugestão de trabalho sobre o Holocausto, “associando o Holocausto ao Estado Novo”, uma situação que, se fosse verdadeira, eu também consideraria absurda.

Insurge-se ainda com a bibliografia dominada por autores “marxistas”, como Hobsbawn e Fernando Rosas.

Fiz aquilo que Palma recomenda, fui consultar o programa disponível na página do Ministério da Educação e…até eu fiquei espantado com a falta de seriedade das afirmações de Palma!!!:

No Módulo 7, “Crises, embates ideológicos e mutação cultural na Primeira Metade do Século XX”,  o “conteúdo” 2.5 tem como título “Portugal: O Estado Novo” refere, entre outros, um conteúdo especifico sob a seguinte designação: “uma economia submetida aos imperativos políticos: prioridade à estabilidade financeira; defesa da ruralidade; obras públicas e condicionamento industrial; a corporativização  dos sindicatos; a política colonial”.

No final deste módulo refere como “aprendizagem a reter”, reconhecer “ que, no Estado Novo, a defesa da estabilidade  e da autarcia se apoiou na adopção de mecanismos repressivos e impediu a modernização económica e social”.

Esta “prendizagem” não se refere a todo o período do Estado Novo, mas à época antes do final da 2ª Guerra. Palma interpretou-a como uma “aprendizagem” mais generalista porque, ou lhe convinha a meia verdade, ou não reparou que o Estado Novo volta a ser analisado no Módulo 8, referente agora ao período do pós guerra, onde se estuda “Portugal do autoritarismo à democracia”, referindo-se no ponto 2.1 deste capítulo o “imobilismo político e crescimento económico do pós-guerra a 1974”. Repito : “CRESCIMENTO ECONÓMICO”!!!!

E neste ponto indicam-se como “aprendizagens relevantes”, relacionar “ a fragilidade da tentativa liberalizadora e da modernização económica do marcelismo com o anacronismo da sua solução para o problema colonial” e “reconhecer a modernização da sociedade portuguesa nas décadas de 60 e 70, no comportamento demográfico, na modificação de estrutura da população activa e na relativa aproximação a padrões de comportamento europeus”. Sublinho : “RECONHECER A MODERNIZAÇÃO (…) NAS DÉCADAS DE 60 e 70”.

Em relação à sugestão de trabalho sobre o Holocausto, esta, no documento, refere-se a outro tema do módulo 7, apesar de estar referido na mesma página do conteúdo 2.5, situação que se deve à organização das páginas, divididas em 3 tabelas, onde as duas primeiras, “conteúdos” e “conceitos”, estão relacionadas entre si e a terceira, com sugestões de trabalho, faz a listagem de todas as sugestões para todo o módulo. Um professor/investigador não ter reparado nisto e ter feito disto tema da sua comunicação é revelador da “competência” do mesmo em analisar documentos.

Pelo contrário, nesse documento, até surgem como sugestões de leitura, os discurso de Salazar.

Podemos discordar de certos conteúdos ou da ausência de outros, mas não existe no programa qualquer vestígio evidente do controle da educação pela "extrema-esquerda".

Por último, a infeliz referência ao “domínios marxista” da Bibliografia: de facto vem indicadas 3 obras de Hobsbawn, entre elas “A Era dos Extremos”, e 2 de Fernando Rosas, uma delas o “Dicionário de História do Estado Novo” por ele dirigido, mas com a colaboração de autores das mais variadas tendências, ao lado, aliás, dos 3 volumes do Dicionário de História de Portugal, relativos ao Estado Novo, coordenados por António Barreto e Filomena Mónica. Nas dezenas de sugestões de leitura também se incluem obras de “perigosos marxistas” como François Furet, José Mattoso, José Carlos Espada,Nuno Valério, José Hermano Saraiva, Joaquim Veríssimo Serrão, Braga da Cruz, A.H. de Oliveira Marques, Fátima Patriarca, António José Telo ou António Costa Pinto, entre outros.

Quanto muito, podemos criticar uma certa desactualização dessa bibliografia, mas não existe, na que é porposta, qualquer sinal de "domínio marxista".

Pela reacção do público de "direita" a esta comunicação, ficámos a "saber" que, na falta de um projecto económico para Portugal, alternativo ao mítico "modelo socialista", só têm para oferecer um "modelo económico" como o  do Estado Novo...sem Salazar (...eventualmente...sem ditadura!!), uma economia que "produz ricos", em vez de produzir riqueza, baseada na desigualdade na distribuição dessa riqueza, na perseguição aos sindicatos, na remessas da emigração provocada pela miséria das populações rurais, nos baixos salários e na negação de direitos sociais.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Passos Coelho, o seguro de vida da Geringonça


A tragédia de Pedrogão Grande e o roubo de armamento em Tancos estão a ser aproveitados demagogicamente, até à exaustão, pelos troikistas para tentarem abanar a Geringonça.

Toda a tropa fandanga dos gobelzinhos da propaganda troikista, que domina a comunicação social, usa e abusa de todo aparelho demagógico ao seu dispor para abrir fissuras na geringonça.

Só há um problema para essa gente: chama-se Pedro Passos Coelho ( e por, arrasto, Assunção Cristas...).

É que, para além do “jeito” de Passos Coelho para dar tiros no pé, nenhum deles está impune às causas últimas do desvario do Estado que levou ao desencadear daqueles casos.

A profusão de boys nos escalões intermédios do Estado, que lá estão, não por competência, mas por fidelidade política ao grande “centrão”, desde o cavaquismo, passando pelo barrosismo, agravando-se durante o socratismo e o passos ceolhismo, gerou toda a incompetência que esteve na origem daquele tragédia e daquele assalto.

Por sua vez, para além do agravamento da corrupção estatal durante os tempos de Sócrates , a austeridade troikista, que teve nos gobelzinhos da comunicação social os grandes propagandistas dos cortes cegos em todas as estruturas do Estado e da redução do poder do mesmo Estado, estão a montante de todas as causas que geraram as dramática conjuntura das últimas semanas e tudo isto tem um rosto: Pedro Passos Coelho ( e, por arrasto, Assunção Cristas…).

Por isso, enquanto Pedro Passos Coelho for o rosto visível da oposição à geringonça, esta pode  estar descansada que vai sobreviver a esta difícil curva da estrada que percorre.

Ou seja, a sobrevivência da geringonça, se tem em Passos Coelho o seu melhor seguro de vida, depende apenas de si própria, ou seja, de um inquérito rigoroso, transparente e convincente que esclareça o que falhou e aconteceu, assumindo depois todas as consequências políticas e fazendo uma limpeza dos resquícios do “boysismo” socrático-coelhista no Estado e tomando drásticas medidas de gestão florestal, no primeiro caso, e de controle dos negócios de armamento, no segundo, custe a quem custar.

Costuma dizer-se que é nas curvas apertadas da estrada que se revelam os bons condutores. Esta é a oportunidade de António Costa e da sua geringonça mostrarem o que valem.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

…tenham lá calma!…O PREC está morto e enterrado.


Sinceramente, pensava que o PREC estava morto e enterrado , que era coisa da  história e do passado, feito de mil historias para contar a filhos e netos.

Aliás, a história que por aí se conta do PREC é apenas uma parte da história, contada pelos “vencedores” e por muitos que querem fazer esquecer o seu passado nesse período, pois estiveram , então, na liderança , à direita ou na extrema-esquerda, do que de pior então se fez (seria curioso ver onde estão hoje os que atearam fogo à embaixada de Espanha, cercaram a assembleia da república, tomaram de assalto a Rádio Renascença e o “República”, os “ferro-em-brasa” da UEC, da JCP, da AOC ou do MRPP,  aqueles outros que andaram a por bombas nas sedes dos partidos da esquerda, assassinaram o Padre Max e outros militantes de esquerda, ou andaram a boicotar os comícios do PCP acusando-o de “social-fascista”, “burguês”, “traidor à revolução”, “revisionista” e “ colaboracionista” com os “partidos burgueses” – PS e PSD , acusando-o, enfim,  de ser muito “moderado”!!!!!) .

Nem o PREC foi aquela história  para assustar criancinhas que por aí se conta. Foi um processo previsível num país que saia de quase cinquenta anos de ditadura e treze de guerra colonial, num período de crise económica internacional, bem pior que a actual, e no meio de uma das fases mais acesas da “guerra-fria”.

No meio de tudo isso até se pode dizer que correu  tudo muito bem, quase sem mortos, sem cair numa ditadura, sem guerra civil. Talvez porque quem tutelava a revolução era um grupo de jovens militares onde a amizade contava mais que as divergências politico-ideológicas, secundados por líderes político (Álvaro Cunhal, Mário Soares, Sá Carneiro, Freitas do Amaral…) com uma envergadura que foi irrepetível na geração seguinte (a actual).

No fundo, o PREC aconteceu porque ,citando Sophia de Mello Breyner Andresen, vivia-se “a madrugada” esperada, o “dia inicial inteiro e limpo” que  emergiu “da noite e do silêncio”, onde  “livres habitamos a substância do tempo”, e todos  procurávamos um rumo para esse país novo, entre a segurança dos dogmas na moda e a aventura de criar tudo de novo.

No fundo, quem viveu o PREC teve o privilégio de ter vivido , num mesmo tempo, todos os tempos do século XX, a Revolução Russa, as Festas da Libertação do nazi-fascismo, o Maio de 68, e, por antecipação, a queda de todos os Muros.

Claro que o PREC foi vivido e percepcionado de forma diferente conforme se pertencesse:

-  a   uma juventude mais ou menos esclarecida,  que tinha tudo pela frente , libertando-se da perspectiva de ter de ir para a guerra ou de emigrar para fugir ao destino que o regime deposto lhe tinha traçado;

-  aos  “velhos” oposicionistas, que trouxeram para o PREC a suas velhas rivalidade da clandestinidade;

- aos acólitos do Estado Novo, que beneficiaram, participaram ou colaboraram na ditadura deposta e perderam os seus privilégios de classe e políticos;

-  aos envolvidos directamente nas decisões políticas da época, que viveram no "centro do furacão";

- aos muitos espoliados da descolonização tardia e apressada, inevitável nas circunstancias políticas, nacionais e internacionais, da época ;

-  à “maioria silenciosa” da população iletrada, pobre , rural e católica, habituada a obedecer e calar, receosa das mudanças, “educada” no servilismo salazarista.

Cada um desses “grupos” tem uma imagem diferente do PREC, que não foi um processo linear, coerente, estruturado, calculado, programado por qualquer mente malévola, como muitos pretendem fazer crer.

Mas o PREC foi irrepetível e quem pretende fazer comparações destes nossos tempos com esses tempos só o pode fazer por uma das seguintes razões ou por todas elas: por desonestidade intelectual, por ignorância, por má-fé, por intolerância , por fanatismo ideológico ou para espalhar o medo.

Aliás, se alguma coisa houve de tão radical como naqueles tempos, mas de sinal contrário, foram os último dez anos de governação “socrática” e “passoscoelhista”, destruindo a já de si periclitante classe média, retirando direitos sociais fundamentais aos trabalhadores, rompendo compromissos com os cidadãos, desrespeitando a Constituição, submetendo o social ao financeiro, impondo a propaganda de um novo “totalitarismo” do “caminho único”, “sem alternativa”, destruindo a capacidade de criar, imaginar e melhorar o mundo que nos rodeia.

Se houve radicalismo nos últimos tempos foi o da propaganda neo-liberal e o da direita que se radicalizou, destruindo o centro político.

Curiosamente, como agora se revelou, os mitos e os fantasmas do PREC não foram desenterrados pela esquerda, que, como se vê, já tem essa história resolvida, mas pela direita que, como se vê, continua presa a mitos do passado, talvez porque muitos dos seu actuais ideólogos e propagandistas no comentário político-económico e nas “redes socias”  tenham participado no lado negro desse PREC e estejam agora preocupados em limpar a imagem negativa que se lhes colou, pelos menos por parte dos muitos que ainda conhecem  e não esquecem o seu percurso…

Por isso, mais do que desenterrar os velhos “fantasmas” do PREC, a actual situação política pode contribuir para enterrar em definitivo esses fantasmas.

O que vem aí é uma incógnita, mas o PREC está morto e enterrado.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Não discutimos o "Deus" euro, Não discutimos a "Pátria" União Europeia, Não discutimos a Autoridade da Troika e do Tratado orçamental...


No meio da histeria que se abateu sobre os pequenos gobelzinhos do comentário político e económico, um dos argumentos mais usados em defesa do afastamento de partidos da esquerda da àrea do poder, e na diabolização dos mesmos, tem sido o de os acusar de  "anti-europeistas" e  de "eurocepticismo" e de "desrespeitarem" tratados e  instituições europeias.

Para esses, questionar a forma desastrada como nasceu o euro, e a responsabilidade desta moeda na decadência da União Europeia e no empobrecimento dos seus cidadãos, é ser "euroceptico" ou "anti-europeu" .

Para esses, questionar o caminho anti-social que tem sido seguido  por eurocratas não eleitos e por instituições sem controle democrático, ao longo da última década, é ser "euroceptico" e "anti-europeu".

Para esses, questionar a forma como foram elaborados alguns dos mais desastrosos tratados europeus, aprovados nas costas dos cidadãos europeus e, na maior parte das vezes, por instituições não democráticas, como o BCE, o Eurogrupo ou o Conselho Europeu, é ser "eurocéptico" e "anti-europeus".

Para nós, a única forma de salvar o que resta do projecto solidário e democrático da União Europeia só pode passar por discutir muitas daquelas decisões e combate-las.

E discuti-las e combate-las não quer dizer que não se respeitem os compromissos e os tratados, enquanto estiverem em vigor.

Mas respeitar compromissos, principalmente quando eles foram decididos por outros,  nas nossas costas e em nosso nome,  não quer dizer que se concorde com eles e que não se trave uma batalha legal e política para os aperfeiçoar ou rever.É assim que funciona a democracia.

Os verdadeiros "eurocepticos", os verdadeiros "anti-europeus", são os que insistem num caminho que vai levar a Europa ao desastre social, económico e político.

Os avisos já estão aí, por toda a parte.

Continuar a  insistir que discutir o "Deus" Euro , discutir a "Pátria" União Europeia, ou discutir a Autoridade (ou "austeridade"?...) dos tratados, como o tratado orçamental, imposto por instituições não democráticas, é ser-se "euroceptico" ou "antieuropeísta", leva-nos a recordar outros tempos em que esse tipo de retórica , noutro contexto histórico, também era utilizado como propaganda ideológica: 


quarta-feira, 23 de abril de 2014

Dos Três FFF’s do “Fascismo” (“Fado”, “Fátima” e “Futebol”) aos Três FFF’s da Democracia (Futebol, Futebol e … Futebol!)…


Durante os tempos do Estado Novo, nas acções de “contra-propaganda” a que a oposição anti-fascista recorria para denunciar o regime, uma das frases mais repetidas para encontrar justificação para a mansidão resignada de um povo, era denunciar o recurso , por parte do regime, a três pilares de alienação: Fado, Fátima e Futebol.

Contudo, observando com atenção, essa trilogia não passava de retórica propagandística, muitas vezes injusta.

De facto, os estádios de futebol foram muitas vezes aproveitados para contestar o regime e as figuras públicas que surgiam nas bancadas dos grandes desafios, como o único palco autorizado para manifestações de massas. O jornal que entre nós mais promoveu o desporto “rei”, “A Bola”, era controlado por gente da oposição que se aproveitava da aparente temática inócua desportiva para denunciar o regime nas entrelinhas ou transmitir, de forma cifrada, informação sobre acontecimentos nacionais, recorrendo à metáfora desportiva, como naquela célebre reportagem sobre um jogo de futebol, no fim-de-semana do falhado golpe militar do 16 de Março de 1974, onde se anunciava esse acontecimento de forma subliminar.

O fado, por sua vez, foi a base de onde partiu a musica de intervenção, como aconteceu com Zeca Afonso com o fado de Coimbra, ou com a própria Amália que, privando com poetas de esquerda, deles recebeu sugestões para algumas das suas mais emblemáticas canções.

Também a Igreja, apesar de ser de facto um dos pilares ideológicos do regime, foi o seio onde cresceram algumas das movimentações mais organizadas contra o regime, principalmente a partir da década de 60, como a atitude de frontal contestação por parte do Bispo do Porto ou as denuncias dos crimes perpetrados pelo regime nas colónias durante a guerra. Aliás, algumas das atitudes mais consequentes contra a guerra colonial partiram do seio dessa instituição. O escotismo, por exemplo, teve um papel importante como contraponto em relação à influência que o regime procurava ter junto da juventude com a Mocidade Portuguesa. Por cá é de recordar, por exemplo, o caso do jornal “Badaladas”, dirigido pelo saudoso padre Joaquim, dando guarida, nas páginas desse semanário, aos intelectuais da oposição.

Depois do 25 de Abril, o fado afirmou-se como património cultural, revelando grandes nomes da musica popular, e a Igreja é hoje uma das instituições que tem revelado mais coragem e consequência na denuncia de injustiças sociais e do empobrecimento levado a cabo pelas políticas dos últimos tempos.

Contudo, o futebol, esse sim, tornou-se o grande pilar de alienação colectiva dos nossos tempos, ou, mais grave ainda, o palco privilegiado de afirmação de gente medíocre e um grande centro de lavagem de dinheiro de origem duvidosa.

Falar de desporto em Portugal tornou-se sinónimo de falar de Futebol. A maior parte das outras modalidades tem sido quase totalmente esquecida e esmagada pelo poder do futebol.

Para isso muito contribuiu uma comunicação social indigente, nomeadamente a televisiva, que usa e abusa da sua influência par promover esse desporto, abrindo noticiários com intermináveis resumos futebolísticos, alterando programações para dar destaque a qualquer evento futebolístico, por mais irrelevante que seja,  dando o mesmo destaque a esse desporto  que a qualquer noticia que seja de facto importante.

Apesar de tudo, o futebol nunca nos deu um título mundial, olímpico ou europeu, a não ser duas únicas vezes, uma com o Futebol Clube do Porto, já lá vão umas décadas, outra com os sub-21, há muitos anos, numa altura em que o Futebol ainda não tinha o poder dos nossos dias.

Entretanto temos centenas de campeões mundiais, olímpicos e europeus, nas mais variadas modalidades, cujos feitos merecem muitas vezes pouco mais que uma nota de rodapé, no meio de uma qualquer polémica boçal sobre o futebol.

E o mesmo podemos dizer em relação às centenas de prémios internacionais conseguidos por portugueses na área da Cultura, da Arte e da Ciência.

O que se passou no passado domingo foi, a todos os níveis, do mais vergonhoso exagero “jornalístico”, e eu até sou benfiquista e vibrei com a sua vitória.

Todos os canais “informativos” passaram horas com reportagens a acompanhar a festa dos benfiquista, dando largas aos quinze minutos de fama da mais alarve boçalidade, a roçar muitas vezes o puro vandalismo.

A partir das 17 horas (nalguns casos antes disso ) não houve qualquer outra informação sobre o que se passava no mundo ou no país.

É caso para dizer que a Democracia também criou os seus “FFF’s”… Futebol!, Futebol ! , e…Futebol!

Por isso fazemos nossas as palavras do jornalista José Vitor Malheiros, ontem publicadas na sua crónica do jornal Público, e que transcrevemos em baixo:



"Pertenço ao grupo dos milhares de portugueses que ontem não puderam adormecer à hora habitual devido aos festejos esfuziantes dos adeptos do Benfica, noite fora, que encheram as ruas com as suas cornetas, buzinadelas, gritos e petardos. Não guardo pelo facto nenhum azedume, apesar do incómodo. Gosto de festas ruidosas, gosto de ver pessoas na rua, tenho a felicidade de um sono fácil, tenho janelas com vidros duplos e não tenho nenhuma antipatia particular pelo Benfica. Mas confesso a minha dificuldade para entender estas euforias com as vitórias alheias, ainda que perceba o entusiasmo que o futebol transmite. Percebo o gosto, mas não consigo compreender a febre. De Gaulle dizia que patriotismo era amar o seu país e que nacionalismo era odiar o país dos outros. O que me espanta no fervor futebolístico é haver tanto “nacionalismo” e tão escasso “patriotismo” ou, dito de outra forma, que o “nacionalismo” que consiste no ódio aos outros clubes seja a forma predominante de viver o “patriotismo” que é o amor ao seu clube. Tanto ou mais do que a vitória do seu clube, o que arrebata os adeptos é a derrota e a humilhação dos adversários (basta ouvir os gritos na rua e ler os blogues), e isso é algo que tenho dificuldade em aceitar, tanto mais que as grandes conquistas vão sempre muito para além da derrota dos rivais.

"Há no fervor guerreiro dos adeptos dos clubes um aspecto puramente tribal, que há anos é objecto de estudos antropológicos e psicológicos. Não há no amor clubista nenhum valor substantivo, mas apenas uma adesão à camisola, à bandeira e ao grupo. O que é estranho é que a forma mais fácil de mobilizar multidões e de acirrar os seus ânimos seja através de um ritual tribal e não através de valores substantivos, de ideias ou de projectos que tenham um real impacto na vida dessas próprias pessoas.

"Ontem, ao ouvir as buzinadelas, pensava em quantos adeptos deste ou de outro clube, loucos de alegria pelo resultado de um jogo que em nada modificaria a sua vida, estariam dispostos a sair à rua para defender o aumento do salário mínimo, o aumento das pensões, o fim das propinas ou o pleno emprego. Quantas dessas pessoas seriam capazes de vir para as ruas exigir o fim da pobreza? Quantas dessas pessoas viriam para a rua indignadas pelos milhares de crianças que passam fome? Quantas dessas pessoas viriam para a rua exigir um combate eficaz à corrupção e uma justiça igual para todos? Quantas viriam defender uma escola pública de qualidade? Quantas destas pessoas virão para a rua no 25 de Abril gritar que não esquecemos a liberdade? Quantas dessas pessoas irão votar nas eleições europeias? Quantas irão votar nas legislativas? E quantas irão votar nos mesmos que hoje os condenam a eles à pobreza e os seus filhos à ignorância? Para que lhes serve este feroz orgulho de grupo e esta embriguez selvagem da vitória se, nos momentos que importam realmente, irão baixar o pescoço onde se irá pousar a canga?"

José Vitor Malheiros, "O jogo da Banca e o Jogo da Bancada", in Público, 22 de Abril de 2014