Pesquisar neste blogue

Mostrar mensagens com a etiqueta Tradições. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Tradições. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Profissões Desaparecidas – Memória à volta de um livro



Acabei de adquirir o livro “Porto – Profissões [quase] desaparecidas” de Germano Silva, o historiador da cidade do Porto (em Espanha, cada localidade tem o seu cronista “oficial”, Germano da Silva cumpre, por mérito próprio, mas não oficialmente, essa função na cidade do Porto).

Ao desfolhar esse belo livro, com histórias e muita História, ilustrado por uma trabalhosa investigação nos arquivos fotográficos, pus-me a pensar sobre as recordações que ainda tenho de algumas dessas profissões.
Algumas são do “meu” tempo, outras nunca existiram por aqui, muitas desapareceram, de facto, mas outras ainda existem ou reconverteram-se.
Germano da Silva explicou, em entrevistas que deu a propósito do lançamento desse livro, que não pretendia valorizar uma atitude saudosista, até porque muitas dessas profissões, por ele referidas, eram autêntico  trabalho de exploração humana, mal pago, exercido em condições desumanas, duro, sem horários, sem direitos, ocupando toda a vida do profissional dos mais desvalidos, que só se podiam “reformar”…morrendo, ou então quando adoeciam de exaustão, acabando na pior das misérias.
Sem saudosismos,  desfolhar esse livro leva-me também a “viajar” pela memória de um tempo que não volta e que, na maior parte dos casos, não se deseja que regresse.

Muitas das profissões referidas existiam em Torres Vedras, ou ainda existem.

Havia por cá muitos alfaiates, os quais, entre os  ofícios referidos, até eram bem pagos, embora tivessem de lutar constantemente por trabalho. O meu avô materno era alfaiate, e viveu sempre com grandes dificuldades e “reformou-se” para ficar acamado. Hoje é uma profissão que está na moda, embora rara. Por aqui, em maior quantidade, associadas a essa profissão, existia um numeroso contingente de costureiras. Hoje essa actividade rareia, mas ainda existe.

Ainda me lembro de alguns ferreiros, profissão hoje praticamente extinta, a não ser exibindo-se em “Feira Medieval” ( hoje em maior número que na própria Idade Média!).

Os marceneiros ainda continuam por aí, apesar da concorrências dos IKA’s, conseguindo resolver o aproveitamento daquele espaço lá de casa que não entra nas medidas estandardizadas.

Moleiros também vão rareando, mas estavam muito disseminados pelo concelho e, antigamente, eram a elite dos artesãos, pois exigiam conhecimentos bastante especializados, entrando em decadência com o aparecimento das moagens e, mais recentemente, com as padarias de bairro, com pão a toda a hora. Hoje tornaram-se mera atracção turística.

O ourives foi substituído pelo vendedor de pilhas para relógios, mantendo-se apenas para fabricar bugigangas para turista ou acessórios de luxo para qualquer “isabeldossantos” do novo-riquismo nacional.

Sapateiros ainda existem, são o recurso para quer poupar uns tostões no arranjo daqueles velhos sapatos, mas já não fabricam calçado e rareiam cada vez mais. Antigamente era a actividade artesanal mais numerosa  e disseminada no concelho.

Numa região de vinhos, ainda existem tanoeiros, mas agora, em vez de trabalharem a madeira, trabalham o metal dos depósitos de adegas.

Por aqui, só muito vagamente me lembro do almocreve, muito referido em documentos locais até ao início do século XX, em decadência com a profusão da camionagem a partir dos anos de 1920, mas que continuavam a preencher as rotas rurais onde a camioneta de carga não chegava. Embora as carroças puxadas por mulas, conduzidas pelos almocreves, tivessem desaparecido por completo, tal só aconteceu em meados da década de 1970. Perto da minha casa havia o segeiro, que se dedicava a arranjar as rodas das carroças, num trabalho que encantava a miudagem do bairro. Já sem burro, havia o “Ferrer” que puxava, à força dos braços, os pacotes da estação de comboios ou correios para distribuir pelos comerciantes locais, homem que ainda se via pelas ruas da cidade na década de 1980, já idoso, mas sempre esforçado.

O amolador é figura que, cada vez mais raramente, ainda vai aparecendo pelas ruas de Torres, imortalizado pelo som característico da “gaita de beiço”, de onde sai sempre  a mesma nota repetitiva, mas é um trabalho de gente pobre.

Já não há ardinas. No meu tempo o único ardina era um adulto, o sr. “Fusco”, meu vizinho, pai de um dos meus amigos de infância, sempre vestido com o mesmo fato macaco e o seu boné de pala, e com o seu enorme saco, onde transportava os jornais, vendidos ao longo das ruas da então vila, até arranjar ma pequena loja onde se fixou na velhice, morrendo pobre. Hoje compram-se os jornais nos quiosques, abundantes pela cidade.

O canastreiro aparecia nos mercados e feiras, fabricando os cestos à nossa frente, geralmente de etnia cigana. Os cestos duravam uma vida. Eram muito usados na vindima. Eu cheguei a alombar com alguns, quando trabalhava nas vindimas para arranjar dinheiro para as férias. Os cestos de vime foram substituídos pelos alguidares de plástico.

As criadas de servir, referidas pelo autor, existiram ao longo da história por cá, servindo nas casas de “gente fina”. As classes médias recorriam à “mulheres a dias”, uma das poucas profissões femininas, recurso económico para abreviar a miséria das gentes das aldeias.

Os dactilógrafos extinguiram-se com o computador ou reciclaram-se para outras tarefas administrativas.

O engraxador ainda existia até há bem pouco tempo, percorrendo os cafés da “vila”. Ainda se vêm por Lisboa.

As lavadeiras apenas se viam nas aldeias, já não a lavar no rio Sizandro, mas à volta dos lavadores públicos das aldeias, uma da raras inovações do Estado Novo, inaugurados sempre com pompa e circunstância.

Ainda me lembro do casal de leiteiros, de farda branca, percorrendo as ruas da vila diariamente. Faziam-se transportar numa daquelas pequenas lambretas com caixa atrás. Eram eles que vendiam o leite consumido ao pequeno almoço e, a partir de certa altura, introduziram uma novidade, a venda de queijo fresco, que, quando fora de prazo, ficavam a secar ao sol, para, passados uns dias, serem consumidos como queijo seco. Um petisco, que hoje seria proibido pela ASAE!!

Havia depois o padeiro, espécie de homem invisível, pois quando todos acordávamos, já tinha deixado o pão em sacos de pano pendurados do lado de fora da porta, deixado na noite anterior, com um recado indicando a quantidade e as moedas enroladas no papel para o pagar.

O pica do eléctrico era “espécie” que não existia por cá, mas podíamos encontra uma profissão similar no “pica” bilhetes das “carreiras” de camioneta ou do comboio .

Os oleiros eram vistos em grande quantidade na Feira de S.Pedro, onde se compravam os vasos para as flores que alindavam as varandas das casas da vila.  Ainda hoje o seu trabalho continua a ser apreciado, apesar do plástico também ter substituído muita da sua produção.

O sinaleiro era uma das atracções dos “saloios”, como nós, de visita à “capital”, deixando-nos embasbacados com a sua dança de braços e pernas, conduzindo um trânsito pouco habitual na vila ( a não ser pelo carnaval ou durante a passagem do Rali de Portugal).

O tipógrafo era uma das actividade nobre, existente em Torres Vedras desde o século XIX, muito ligada à edição dos jornais locais ou aos folhetos e cartazes das festas de aldeia. A composição dos textos era feito letra a letra, em caixas de chumbo, que voltavam a ser derretidas depois de imprimidas as páginas. O cheiro a tinta era  muito activo, e a tinta preta ficava nas mãos durante muito tempo. O barulho das máquinas das rotativas assustava. Lembro-me bem dessas máquinas no interior da actual Papelaria Gráfica ou no antigo edifício da União,  lugares que frequentava a acompanhar o meu pai nas suas aventuras jornalísticas. Recordo que sou trineto  do primeiro  tipógrafo de Torres Vedras.

Por último, e seguindo a ordem da publicação no dito livro, excluindo profissões que já não conhecemos por aqui, chegamos ao vendedor de castanhas, uma das referidas actividades tradicionais que sobreviveu à modernização. Todos os anos, pelo inverno, encontramos-los pelas ruas de Lisboa e aqui em Torres Vedras, geralmente na Avenida, continuando na mesma família de décadas, apregoando as “quentes e boas “, profissão que só está em risco porque as alterações climatéricas tornam os Invernos menos frios. De significativo o agradável cheiro da castanha assada que impregna toda a Avenida em tardes de Inverno.

Sem saudosismos, deixamos aqui um convite para que cada um faça um exercício de memória sobre essas actividades, de gente humilde, que faz parte da história de uma geração.

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

A “Tourada” que eu gosto



Em criança assisti muitas vezes, na televisão, a espectáculos de tourada.

Havia apenas um canal, começava a emissão ao fim da tarde (menos aos fins-de-semana, que começava mais cedo), era a preto e branco e não havia assim tantas  alternativas ao futebol e às touradas.

Nem eu, nem ninguém lá em casa, éramos  apreciadores desse espectáculo, mas o preto e branco atenuava a sua violência.

Só quando, esporadicamente e de relance, comecei a ver touradas a cor na televisão é que deu para ver a sangria a que era sujeito o touro.

Nunca percebi o gozo de ver aquele espectáculo de torturar um animal encurralado.

Claro que a tourada portuguesa é um pouco mais “civilizada” que a espanhola.

Ainda posso aceitar o trabalho do toureio a pé com capa ou o dos forcados, e as habilidades dos cavaleiros, mas não aceito que se encha o corpo do animal de bandarilhas.

Quando chega à fase do toureio a pé ou da entrada dos forcados, o touro já deve estar tão enfraquecido que apenas reage para manifestar a sua dor e já pouco perigo deve oferecer aos “valentões” que o enfrentam.

Escusado será dizer que torço sempre pelo touro e pelo cavalo, personagens involuntárias daquele triste espectáculo, embora ainda nutra algum respeito pelos forcados, e desejando  que nada de muito grave aconteça ao toureiro, ao forcado ou  ao cavaleiro, embora, como se costuma dizer, "quem corre por gosto não cansa".

E não venham fazer comparações com os animais do circo, com a caça ou com a criação de animais para alimento. Neste caso não se trata de torturar animais, mas dar-lhes alguma utilidade, por muito discutível que isto também possa ser.

No caso da tourada não há qualquer utilidade naquilo, a não ser torturar um animal indefeso.

Aliás, toda a polémica que anda por aí não se relaciona com qualquer tipo de proibição do espectáculo, mas apenas com o retirar do privilégio de classificação de espectáculo  cultural àquela barbaridade, aumentando o IVA das touradas.

Embora discutível, até admitia mais facilmente a proibição desse espectáculo do que a proibição, já aprovada, do uso de animais de circo.

A diferença é que a gente do circo é pobre e não tem poder ou voz, ao contrário da gente que vive à volta da tourada.

Uma coisa é o uso de animais para alimento,(que pode ser discutível,principalmente pelo excesso, prejudicial para à saúde, do uso de carnes vermelha),  pelas implicações ambientais do excesso de criação de gado ou pela forma como são transportados e abatidos, outra coisa é o uso de animais, como acontece nas touradas, apenas para os torturar  para gáudio dos instintos mais primitivos do público.

E não venham falar em tradição, se não, para a manter, ainda assistíamos a espectáculos de gladiadores ,  ao sacrifício ritual de animais, a queimar gente nas fogueiras ou à luta de cães.

De facto, impedir ou, pelo menos, tirar benefícios fiscais, é o mínimo que se pode exigir para combater tradições degradantes e a utilização de animais apenas para os torturar em público.

A única “tourada” de que eu gosto é aquela que nos representou no festival da canção de 1973, que escapou à censura, que não percebeu que essa canção não enaltecia a tradição da tourada, mas usava-a com metáfora para denunciar um Estado Novo apodrecido:

Não importa sol ou sombra
camarotes ou barreiras
toureamos ombro a ombro
as feras.

Ninguém nos leva ao engano
toureamos mano a mano
só nos podem causar dano
espera.

Entram guizos chocas e capotes
e mantilhas pretas
entram espadas chifres e derrotes
e alguns poetas
entram bravos cravos e dichotes
porque tudo o mais 
são tretas.

Entram vacas depois dos forcados
que não pegam nada.
Soam brados e olés dos nabos
que não pagam nada
e só ficam os peões de brega
cuja profissão
não pega.

Com bandarilhas de esperança
afugentamos a fera
estamos na praça
da Primavera.
Nós vamos pegar o mundo
pelos cornos da desgraça
e fazermos da tristeza
graça.

Entram velhas doidas e turistas
entram excursões
entram benefícios e cronistas
entram aldrabões
entram marialvas e coristas
entram galifões
de crista.

Entram cavaleiros à garupa
do seu heroísmo
entra aquela música maluca
do passodoblismo
entra a aficionada e a caduca
mais o snobismo
e cismo...

Entram empresários moralistas
entram frustrações
entram antiquários e fadistas
e contradições
e entra muito dólar muita gente
que dá lucro as milhões.
E diz o inteligente
que acabaram asa canções.

 (José Carlos Ary dos Santos/Fernando Tordo)


quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

O Carnaval na Tradição Popular

AQUI falámos nas principais características históricas do Carnaval  urbano português. Contudo as festas de Carnaval enraízam profundamente na tradição popular e rural portuguesa.
 Nalgumas regiões do país,como no Alentejo, o Carnaval iniciava-se oficialmente no dia de S.  Sebastião (20 de Janeiro).Noutros  lugares  iniciava-se no dia de S.Vicente (22 de Janeiro),como, por exemplo,na Ericeira, em Vila Franca de Xira  e Alenquer, sendo desta localidade a expressão popular "dia de S.Vicente brinca toda a gente", que deriva  desse facto,bem como esse costume de, a partir dessa data,os antigos aldeões trocarem o triste barrete preto da Estremadura, pelo alegre barrete verde ribatejano.(1).Começavam então as brincadeiras de Carnaval, que duravam até  à meia-noite da terça-feira gorda.O dia seguinte,Quarta-Feira de Cinzas, era geralmente dedicada à procissão  onde cada um se purificava dos "pecados" do Entrudo, como acontecia no séc. XIX em Torres Vedras.
Em Serpa, nos finais do séc.XIX, as 4 semanas anteriores aos três dias de entrudo eram designadas popularmente por, respectivamente,”semana d'amigos, semana d'amigas, semana de compadres e semana de comadres". Nas quintas- feiras da primeira e terceira dessas semanas, os rapazes do mesmo grupo de amizade reuniam-se em casa de um deles para aí,no meio da alegria comerem,beberem e cantarem.O mesmo faziam as raparigas nas outras semanas(2).
 “Na quarta e quinta-feira de compadres, e nos dias análogos da semana imediata -a das comadres-  o rapazio de algumas aldeias”(do Alentejo)”prepara-se com quantos chocalhos alcance, e em bandos percorre as ruas e arrabaldes, a dar as chocalhadas tradicionais(...) Por onde os rapazes passam, as mulheres  saem à rua e atiram-lhes água para cima (...)”.
“Na quarta e quinta-feira de compadres, ao passo que os moços empunham bandeiras vistosas de lenços de seda, adornados de fitas e flores, como nota festiva da solenidade desses  dias (fantasia de brincadeira, está claro)as moças mostram-lhes outras, de esteirões, ossos, ortigas”(sic)”e pincéis velhos dependurados -ou bonecos de palha a roerem ossos - a demonstrarem que a semana é de fome e não de festas.
“Na véspera e dia das comadres, mudam-se as cenas (...)”(3).
Para Maria Micaela Soares, o Entrudo aldeão é também a ocasião esperada para  “libertação de recalcamentos de circunstância e para ajuste das quezílias entre vizinhos”(4).
É nessa perspectiva que se podem  interpretar  muitos dos rituais e brincadeiras tradicionais desta quadra
Por exemplo, ainda hoje, em Tourém, concelho de Montalegre, no extremo norte da Peneda-Gerês,é tradição, no Domingo Gordo,a realização, no  largo da aldeia da " corida do galo", que consiste na leitura do testamento deixado em herança pelo "galo".Em forma de verso este é lido por um natural da aldeia,“uma espécie de crítica mordaz em que se põem a nu alguns dos actos mais caricatos e falados na povoação durante o ano que passou.
“Através do testamento,combinam-se namoricos e casamentos e criticam-se os mais avarentos da terra ou os mais dados à bebida(...).
“O jogo termina com a morte do galináceo. O animal é escondido na terra à excepção da cabeça,e os participantes, de olhos vendados e um de cada vez, procuram acertar-lhe com uma única estocada(...)".
Para o  padre Fontes, sacerdote e etnógrafo naquela povoação, aquele  jogo terá  origem em certos ritos de culto pagão em que o  sacrifício do galo significará"a morte de um bode expiatório dos pecados da aldeia e dos seus habitantes.O povo atribui ao animal poderes extraordinários, como ave de mau agoiro, especialmente se canta fora de horas (...).
“O galo é também considerado símbolo da vida e, por isso, expulsor da morte, dos espíritos malignos, diabos, bruxas. Há quem defenda, no entanto, que este jogo significa a mortificação do apetite carnal-simbolizado no masculino galo, que deve ser vivida no período da Quaresma.”(5). 
Essa componente de crítica social e dos costumes da comunidade encontra-se documentada   noutras referências carnavalescas.
Era o caso das  "CEGADAS"," danças carnavalescas ,com arcos enfeitados ou um mastro móvel donde pendiam fitas que cada dançarino agarrava.Cantavam-se modas movimentadas e, em poemas facetos, gulosavam-se por vezes os escândalos de maior vulto acontecidos no lugar. Eram sempre constituídas por homens mascarados que marcavam coreografias primárias, ao som de acompanhamento musical também rudimentar. Continuam a ver-se ainda nalgumas terras, englobando já mulheres. Sucedem nos três dias de Entrudo, nos pontos mais concorridos das aldeias e alguns grupos percorrem os arredores.
“Nas travessas e becos mais populares de Lisboa, organizavam-se também multifacetadas  cegadas, que passaram a orientar-se para a crítica social e política, motivo por que foram reprimidas.” (6).
Alguns estudiosos destingem aquelas danças,conhecidas por "Contra danças",da componente crítica própriamente dita, chamando de "Cegada" apenas a esta .
Outro costume  era o de "DEITAR PULHAS" :“Escarneciam (...) as mazelas escondidas dos  conterrâneos,”deitando pulhas", do alto dos cômoros, encobertos pela noite, as vozes coadas por funis, que as avolumavam.
“Em séries de perguntas precedidas da frase, também deito mais esta, a cujas respostas se seguia barulhento vozear-é verdade, é verdade, ou eh ! eh! -os mancebos da aldeia destemperadamente inquietavam todos os lares”(7). 
Há quem aponte dois tipos de "Pulhas", as inofensivas,de"tipo jocoso", outras mais agressivas, de"tipo ofensivo":"Enquanto o primeiro obedece ao mote:"Esta pulha vai deitada", ou "você deita esta pulha",provocando risos e surridas -o segundo obedece a outro mote :"Assim como é verdade".Este além dos risos e surridas, provoca malqueranças, ódios ,e vinganças."(8). Estes dois tipos de Pulhas eram orais e não escritas. Em Alenquer referencia-se um terceiro tipo de "Pulhas",estas escritas:"Pela "noite fora"um grupo munido de uma caldeira de cal negra vai desenhar ou escrever nas paredes de cada um aqueles motivos de troça conhecidos por todos na mesma aldeia"(9). 
Em Alenquer é ainda referenciada outra tradição, a representação do "Cavalinho do Carnaval",representado por dois personagens,o "dono" e o "cavalinho",no largo principal de algumas terras do concelho,nomeadamente em Casais Brancos: 
"O "Cavalinho" era formado por duas pessoas  debaixo de um pano com uma cabeça recortada em madeira pintada. 
 "Numas terras o desenho da cabeça era de cavalo,noutras de boi. 
"O essencial da representação era a história de um homem que ia vender o seu "cavalinho". 
"A farsa desta"venda"era pretexto para o dono do animal ir fazendo uma crítica mordaz às pessoas do lugar"(10). 
A esta época  estão igualmente ligados manjares rituais, tanto mais que o principal motivo da época se relaciona com o início de proibições  alimentares da Quaresma. 
Era assim que, por exemplo, em Serpa, nos finais do séc.XIX, se costumava saborear  no Entrudo  filhozes, coscorões, ”bolinhólos” e arroz dôce(11). 
Nalgumas aldeias do concelho de Alenquer procedia-se, por esta época ,à  matança do porco, formando-se para isso as "sociedades do porco".Estas  tinham por objectivo,não só suportar os encargos com a compra dos animais,mas também realizar os preparos necessários a essa tarefa e os pratos de "bucho" e "sarrabulho",assim como distribuir equitativamente  a carne que sobrasse da patuscada, realizada naquela ocasião,pelos membros da "sociedade" 
As Brincadeiras:
Em Serpa, nos finais do séc.XIX,brincava-se ao Carnaval pintando letreiros nas paredes fazendo alusões, muitas vezes obscenas, sobre a vida  intima das pessoas. 
“Caqueiradas” era o nome de outra brincadeira.As “caqueiradas” eram  atiradas pelas janelas e portas mal fechadas para dentro das casas.Os "caqueiros" eram formados com terra ou cinzas,cascas de laranja e marisco, pedras, etc .Outra brincadeira era atirar para dentro das casas um pedregulho aquecido ao lume com o objectivo de escaldar as mãos de quem lhe pegasse inadvertidamente.Nos tempos mais antigos atiravam-se laranjas e espetavam-se seringas nas pessoas.Em Serpa, nos finais do século passado, estes costumes tinham sido substituídos, respectivamente, por trigo e papelinhos e por bisnagas (12). 
Também nesses tempos,brincava-se o Carnaval com cartuchos de goma no cabelo,papelinhos picados, doces fingidos, centopeias de cêra espetadas na parede.De janela para janela atiravam-se laranjas e cascas de ovos com gesso.Usavam-se ainda cabaças de cêra pintada,com àgua de cheiro dentro,seringas de cana com as quais se fazia esguichar líquido sobre quem passava. Arremessava-se à cara das pessoas mãos cheias de tremoços, ou feijões ou grãos.Enviavam-se cartas,que os destinatários tinham de pagar(nessa época ainda não existiam selos), no interior das quais viham escritos versos,”chufas” e "pulhas", dirigidas anonimamente ao destinatário. Enchiam-se luvas velhas com qualquer coisa pesada, prendiam-se a um cordel e do alto de uma janela atiravam-se  sobre os chapéus dos transeuntes (13).         
Igualmente em dias de Carnaval, atirava-se pela janela todo o lixo da casa acumulado para essa ocasião ou objectos em barro que atingiam,por vezes com gravidade,quem passava por debaixo das janelas.Estes costumes mais violentos foram sendo substituídos,ao longo do séc.XIX,pelas cabacinhas de cêra com àgua cheirosa e pelos tremoços,feijões,pós e papelinhos(14). 
Uma outra brincadeira,referênciada por J.Leite de Vasconcelo,consistia em "pôr rabos": “Tiras de papel ou de pano que se prendiam nas costas dos transeuntes com um alfinete de cabecinha encurvado"(15).Por vezes  acrescentavam-lhes dizeres brincalhões, alguns em versos de pé quebrado.                
Anote-se ainda que nos  primeiros anos do século XX , no concelho de Elvas , era costume  colocar às portas as "pimentoadas"  ,  pimentões com brasas por cima,que provocavam tosse.  As máscaras: 
O uso de máscaras é outro dos elementos característicos do Carnaval. As máscaras tradicionais são feitas de vários materiais, tais como madeira, couro, lata, cortiça, cartão e, recentemente, plástico. 
A máscara é interpretada como“um objecto que representa uma cara ou parte dela, com um disfarce  ou uma aparência enganosa, aquilo que na realidade não se é ou se é mas não se tem a coragem de assumir no quotidiano”(16).Contudo um mascarado não se esgota no disfarce do rosto,antes completa-se com um traje, mais ou menos adequado.
Na Grécia antiga  as  máscaras  eram usadas  no teatro para reforçar o dramatismo de certas cenas, servindo igualmente para amplificar os diálogos entre os  actores . 
Tradicionalmente a uso da máscara  também pode ser relacionado com o culto dos mortos. 
Os  romanos,durante as Festas de Baco e Saturno, no dia de ano novo, invocavam  as “larvas” (o espírito dos mortos) para apaziguar o espírito dos antepassados.Vestiam-se de branco e punham uma máscara no rosto. Acendiam uma grande fogueira onde queimavam um boneco que simbolizava um bruxo ou  espírito maléfico.
Em certas sociedades não europeias o uso de máscaras anda associada a certos rituais religiosos,como entre a tribo"Dan" que vive  na floresta tropical,na fronteira da Costa do Marfim com a Libéria:“As máscaras têm,nesta sociedade,um papel filosófico-espiritual, cultural, político e social. Algumas representam certas divindades,um antepassado,outras servem como elemento transmissor duma cultura não letrada ou ainda de guia protector”(17).
A notícia mais antiga sobre o uso de máscaras carnavalescas em Portugal data de um alvará de 20 de Agosto de 1649,que proibia ”andar a pé pelas ruas, embuçado, com chapéu ou sem ele  e assistir com bioco nas igrejas”(18). Contudo diz-se que esse costume seria mais antigo, pois rezam as crónicas que D. JoãoII teria comparecido ao casamento do filho mascarado.Com a Inquisição,usar máscaras tornou-se uma heresia e atirou muita gente para a fogueira.Só nos finais do séc.XVIII as máscaras voltariam a fazer a sua aparição,principalmente nos majestosos  bailes da corte absolutista de D.João V. 
Uma das mais famosas máscaras do carnaval português foi o “Xéxé", surgido em Lisboa, após a vitória liberal, cuja máscara ridicularizava os miguelistas,também conhecido por “peralta”, ”salsa”  ou  “pisa-flores”, o “xéxé” “envergava, invariavelmente,uma casaca de muitas cores ,  sapato de fivela, cabeleira de estopa, punhos de renda e um imenso chapéu bicorne com uma inscrição mais ou menos obscena. Usava,além disto,um bastão rematado por um chavelho, uma faca enorme e uma luneta”(19).Esta máscara desapareceu por volta de 1910. 
Grupos de mascarados percorriam, no final do século passado, o carnaval lisboeta, em cegadas que recriavam o quotidiano da família lisboeta.Esses grupos eram constituídos por um mínimo de cinco elementos. As suas máscaras representavam normalmente  “o político,  a sopeira,  o janota, o galego, e o apresentador”(20) 
“Destrajos”  é o termo popular atribuído, nalgumas regiões, aos fatos carnavalescos (21). 
No Alentejo os mascarados são apelidados de“ensaiados” e às máscaras que cobrem os rostos chamam “caraças” (22). 
O "travesti" é uma das máscaras mais características desta época.Sendo  o Carnaval   uma época de transgressão,de violação das fronteiras e regras sociais  a  inversão de papéis tradicionais,nomeadamente os domésticos,entre homem e mulher,é dos mais comuns. 
Esse tipo de máscara é conhecido nalgumas terras de Portugal por "madamas","filandorras"  e "mandongueiras":“ainda que estejão de forma exclusiva e constante associadas às Festas de Rapazes, Festas de Santo Estêvão, Festas do Menino; do Ramo e dos Reis, as personagens mascaradas emergem de um conjunto de manifestações festivas, reproduzindo sempre um mesmo discurso de transgressão e licenciosidade.São os caretos, os máscaros, a filandorra, as madamas (Rio de Onor) e as mandongueiras (Guadramil).”(23).   
O enterro do carnaval: 
A "Quarta-feira de Cinzas" marca o final do Entrudo e o início da Quaresma e a esta ocasião estão ligadas várias cerimónias,entre elas a da "Serração da Velha". 
A cerimónia da serração da velha assinala a saída do Inverno e a entrada no Verão. 
A ”velha” simboliza o Inverno  ou  a opressora Quaresma. Entre os àrabes os sete dias do solstício de Inverno são designados por “dias da velha”.Serrar a "velha" ao meio é uma  alegoria à ideia de partir ao meio o ano solar.(24). 
Data de 1685 a mais antiga referência em Portugal da realização da cerimónia de “serração da velha”.“Esta alegórica festança ocorria numa quarta-feira do meado da Quaresma e consistia numa paródia da gente nova, conluiada, em época de defeso lúdico, para serrar cada velho, no campo ou na cidade. 
“Pela calada da noite, um grupo de embuçados rouquejava, à porta das casas sentenciadas, paródias testamentarias do locatário idoso, enquanto o serrote percutia num bocado de madeira ou de cortiça o seu lúgubre ranger,acompanhando o atroar dos guizos, ferros,latas,cântaros."(25). 
Em finais do séc. XIX, em Cuba,no Alentejo, a cerimónia da “serração da velha” consistia em meterem um cão e um gato dentro de um cortiço hermeticamente fechado.Um homem transportava o cortiço, seguido de outros armados de cassetes e varas. Um rapazito, por vezes vestido de anjo, transportava a serra que deveria servir para serrar o cortiço no lugar escolhido para o suplicio. O cortejo percorria as diversas ruas da localidade e a cerimónia terminava com a serração do cortiço, que simbolizava a velha.Não se refere o destino dos animais (26). 
Outro costume da  Quarta-Feira de Cinzas era o“enterro do Entrudo".Este era um costume antigo,sendo conhecido na antiga Veneza por "Enterro de Baco".Esta tradição era por vezes acompanhada por uma procissão onde se parodiavam várias cenas bíblicas,como ainda acontecia em finais do século XIX no Fundão(27). 
No Alentejo, no "enterro do Entrudo",os"foliões iluminados pela luz de archotes ou lampiões  de petróleo, levavam aos ombros um simulacro de urna funerária que continha um boneco de palha. O caixão era coberto com panos pretos pintados de cruzes brancas e os brincalhões iam fantasiados de viúva e órfãos que carpiam o defunto em alta gritaria. Outros, com saias brancas, fingiam de padres que, sobraçando jornais ou outros papéis velhos, aspergiam com água ou outros líquidos menos próprios os observadores, usando um pincel a simular de hissope. Um,de encarnado, fingia de sacristão e ia fazendo momices e outras brincadeiras, guizalhando um chocalho. Percorriam todas as ruas e o rei momo era finalmente queimado fora de portas. Ia começar o tempo da abstinência e os aldeãos aproveitavam os últimos momentos de alegria consentida” (28).O fogo nesta cerimónia simbolizaria a purificação dos penitentes, perante os pecados do Entrudo. 
Em Alenquer entoavam-se pela ocasião"uns versos em que se diz que o Entrudo deixa sete coisas ridículas a certas pessoas, por exemplo:"sete ratos mortos"(29).
Cerimónia semelhante às  referidas é o"Enterro do Bacalhau ", só que esta costuma realizar-se em Sábado de Aleluia,para festejar o fim das restrições impostas pela Quaresma.
  Aqui ficam algumas notas sobre um Carnaval popular cada vez mais raro.
Notas: (1) -citado por António de Oliveira  Melo, António Rodrigues Guapo e José Eduardo Martins - O Concelho de Alenquer -subsídios para um roteiro de Arte e Etnografia - vol.2, Alanquer 1985; 
(2) - citado por Ladislau Piçarra , em a “Tradição”, p.20, Fevereiro de 1899; 
(3) - PICÃO, José da Silva, Através dos Campos (...), ed. Publicações Europa-América, 1983 (com base na primeira edição de 1903), pp.222 e 223;
(4) - SOARES, Maria Micaela  “A Mudança na Cultura rural portuguesa” in BOLETIM CULTURAL ,  nº 88, 2º tomo 1982 ,  pp.145-400, p. 240;
(5) - reportagem de Pedro Garcia - “Reviver o passado em Tourém” in PÚBLICO de 23-2-93 , p.5;
(6) -Mª Micaela Soares, ob.cit., pp.245-246;
(7) - Maria Micaela Soares, ob. cit., pp.240-241; 
(8) - in O concelho de Alenquer ,ob.cit. ,p.26;
(9)  - idem, ,p.26; 
(10) - idem ,p.27; 
 (11) - citado por Ladislau Piçarra, ob.cit.;
(12) - citado por Ladislau Piçarra, ob ,cit.;
(13) - contado por Chavier da Cunha em  “O Occidente “ , p.32, nº28 de 15 de Fevereiro de l876; 
(14) - citado em “O Occidente”, p.43 de 21 de Fevereiro de 1888, nº330; 
(15) - VASCONCELOS, J.Leite De , Ensaios Etnográficos ,  vol.I , Lisboa , 1886; 
(16) - GAVIZ, Januário, “Máscaras” in Catálogo do Carnaval de Torres de 1990; 
(17) - CAPRISTANO, Zica, “Tribo Dan-o poder das máscaras”, pp.42-48, in“Público Magazine “ de 21-2-93, pág. 46;
(18) - citado por Maria Tavares Dias, Lisboa Desaparecida,  vol I, pp. 135 a 139,  p.135;
(19) - idem, p.136; 
(20) - idem, p. 136;
(21) - referido por Mº Micaela Soares, p.244 ob.cit; 
(22) - in J. da Silva Picão, ob.cit., p.222; 
(23) - in ”Portugal Moderno-tradições”, p. 56; 
(24) - citado por  Theophilo Braga , em "A Tradição" p.49, Abril de l899;  
(25) - in p.251, ob. cit. de Mª Micaela Soares;  
(26) - citado por Fazenda júnior em “A Tradição” , ano 1, p.45, Março de 1899; 
(27) - referido por Álvaro de Castro em “A Tradição”, ano 1 p.122-Agosto de 1889; 
(28) in Maria Micaela Soares, p.246, ob.cit;
(29) in J.Leite de Vasconcelos , Etnografia, ob. cit.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

O S. João em Runa no século XIX

(Fotografia da página do Facebook da Igreja paroquial de S. João Baptista de Runa)

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Uma sugestão de Natal :"Natal dos Caretos" de Bragança em BD

BêDêZine: Uma sugestão de Natal :"Natal dos Caretos" de Brag...: “Natal dos Caretos” é a obra de Banda Desenhada lançada no passado dia 4 de Dezembro em Bragança, um conto de Natal que tem os célebres caretos com personagens.(clicar para ler mais).

domingo, 1 de novembro de 2015

DIA DE TODOS OS SANTOS

Do site "Mulher Portuguesa" retirámos o seguinte texto sobre a Tradição do Dia De Todos os Santos, um dia que tem vindo a perder importância par o americanizado dia de Halloween:  
" Em Portugal, no dia de Todos os Santos, era tradição , as crianças saírem à rua em pequenos grupos para pedir o “Pão por Deus” de porta em porta. Recitavam versos (“ Ó tia, dá Pão-por-Deus ? Se o não tem dê-lho Deus!” ou “ Ó tia ó tia, bolinhos bolinhos em louvor de todos os santinhos”) e recebiam como oferenda: pão, broas, bolos, romãs e frutos secos, nozes, amêndoas ou castanhas, que colocavam dentro dos seus sacos de pano confeccionados com retalhos de tecido.
Antigamente todas as pessoas iam pedir o “Pão por Deus” porque havia muita pobreza e havia mesmo necessidade de pedir.
Normalmente as pessoas punham as mesas com o que tinham em casa (comida e bebida) e, quando chegavam os pobres, entravam e comiam à vontade e à saída ainda lhes davam mais alguma coisa.

É também costume em algumas regiões, os padrinhos oferecerem um bolo, o Santoro.
Em algumas povoações da zona centro e estremadura chama-se a este dia o ‘Dia dos Bolinhos’ ou ‘Dia do Bolinho’. Os bolinhos típicos são especialmente confecionados para este dia, sendo à base de farinha e erva doce com mel (noutros locais leva batata doce e abóbora) e frutos secos como passas e nozes. Nos Açores era costume colocar o primeiro pão da fornada à porta para quem passa-se e tivesse fome levar.
Em 1756, também se cumpriu esta tradição, 1 ano após o terremoto que destruiu Lisboa em 1º de Novembro de 1755 em que morreram milhares de pessoas e a população da cidade – na sua maioria pobre – ainda mais pobre ficou. A progressiva implementação do Halloween em Portugal é uma ameaça à continuidade do “Pão-por-Deus” pois vem substituir as tradicionais manifestações das tradições portuguesas que importa preservar pois fazem parte do nossa cultura".

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Máscaras Ibéricas em Lisboa

Desfile de máscaras na Baixa de Lisboa, este fim-de-semana, integrado na 10ª edição do Festival Internacional Máscaras Ibéricas: