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domingo, 12 de novembro de 2017

Nos últimos dias da União Soviética – 2 -Em Kiev - Julho de 1991


Depois de um dia a visitar Moscovo, chegamos ao final da tarde ao Hotel, para um jantar rápido, pois tinhamos de partir para a estação de comboio que nos ia levar a Kiev, o próximo destino da viagem.

Estava tudo na maior das calmas a prepara as coisas, quando somos alertados para o facto do comboio partir às 20.20, e não às 22 horas como erradamente tínhamos sido informados.

Numa correria louca o nosso autocarro lá conseguiu chegar à estação, apenas 7 minutos antes da partida.

Era um comboio como mais de 20 carruagens e os lugares reservados para todos os elementos da excursão eram nas nº5 e nº8.

O meu beliche ficava na carruagem nº 8, onde entrei e coloquei as malas, indo depois auxiliar alguns companheiros de viagem mais velhos aflitos com as malas e com o tempo que se aproximava da partida. Foi assim que atravessei as carruagens 6 e 7 para chegar à nº5, para onde ía um desses elementos do grupo, mas que tinha entrado por engano na nº8, indo eu ajudá-lo com as malas, mas quando íamos entrar na carruagem 5, aparece uma revisora, bastante gorda, parecia saída de um velho filme dos tempos stalinistas, aos berros connosco, pedindo-nos os bilhetes e a impedir-nos de entrar na carruagem nº 5 e nós a tentarmos dizer que os bilhetes tinham ficado com o nosso guia na nº8.

Tentávamos falar em inglês (o meu era mau) e ela aos gritos, cada vez mais histérica, em russo, mostrando intensão de nos expulsar do comboio, pelo que, nós, sem os bilhetes na nossa posse, desatámos a correr, passando pelas nº6 e 7,  para regressar à nossa carruagem, enquanto o comboio começava a andar.

Quando tentámos passar da 7 para a 8, aparecem dois revisores e novamente a mesma cena, e nós sem o bilhete na nossa posse, e eles não nos percebiam, nem faziam um esforço por isso.

Desconhecíamos se os outros elementos do grupo tinham conseguido entrar no comboio, pensando já que estávamos ali sozinhos, sem bilhete, a caminho de Kiev, sem que ninguém percebesse o nosso inglês.

Felizmente houve um passageiro russo que deve ter perecebido alguma coisa do que dizíamos e que se abeirou dos revisores, que acabaram por nos deixar entrar na carruagem nº8 onde estavam os restantes colegas de viagem e o guia com o bilhete. Ficámos entretanto a saber que duas das velhotas do nosso grupo não tinham conseguido entrar a tempo, ficando sozinhas na estação de Moscovo. Mais tarde soubemos que elas tinham voltado ao hotel e juntar-se-iam a nós um dia depois em Kiev.

A viagem durou cerca de 13 horas, chegando a Kiev pelas 9.30 da manhã do dia 26 de Julho .

Kiev fazia então parte da União Soviética, distava cerca de mil quilómetros de Moscovo e tinha cerca de 3 milhões de habitantes. Era então a  terceira maior cidade da União Soviética, capital da então Republica da Ucrânia. Tinha sido ocupada pelos alemães durante a Segunda Guerra e foi das que mais sofreu com o conflito. É banhada pelo rio Dniepre, um dos três maiores da Europa e que desagua no Mar Negro.

Kiev é formada por vários canais atravessados por várias pontes  e com muitas zonas verdes. 

As colinas junto ao rio eram banhadas pelo dourado das cúpulas de igrejas e conventos ortodoxos. O metro era menos complicado do que o de Moscovo.

Ficámos no hotel “Typcut” (“Turista”), um nome menos original que o de Moscovo (“Salut”=”Fogo de artifício”), com metro à porta, a estação “Margem Esquerda”.

Nessa primeira manhã em Kiev tivemos tempo livre, entre as 12 e as 14 horas, que aproveitei para visitar um mercado junto ao hotel, onde típicos camponeses ucranianos vendiam  fruta, legumes, vegetais vários, carne e peixe seco.

Junto ao mercado bebi uma cerveja russa e meti conversa com 4 russos que, tal com eu, mal sabiam falar inglês, mas lá nos fomos entendendo. No final dei-lhes moedas portuguesas e esferográficas.

A idéia com que fiquei de Kiev é que era uma cidade mais alegre e cosmopolita do que Moscovo, com mais sol e luz, com gente mais simpática e um estilo de vida mais ocidentalizado.

De tarde fizemos uma viagem panorâmica pela cidade.

Aqui, tal como já tinha acontecido em Moscovo, cruzámo-nos com a comitiva do primeiro-ministro grego, em visita oficial à União Soviética .

Pelo final da tarde, entre as 19.30 e as 21.30, fizemos uma viagem de barco ao longo do Dniepre. O rio possui várias ilhas arborizadas, algumas de grande dimensão, com casas de madeira e praias, muito apreciada pelos russos.





(a fotografia de cima foi tirada por mim em 1991. A de baixo é a mesma vista, na actualidade, tirada da net)

Regressados ao hotel de metro, para aprendermos a andar nele, e aí assistimos a uma festa-baile e encontramos uma grande grupo de espanhóis que fez uma festa quando soube que eramos portugueses.

Antes de me deitar ainda dei uma volta pelo arredor do hotel e fui até uma das pontes de Kiev aí perto.

Próximo do meio da viagem, depois de Moscovo e um dia em Kiev, já me começava a fazer alguma impressão a extrema pobreza económica da União Soviética. Apesar de as pessoas se vestirem mal (um pouco melhor em Kiev do que em Moscovo), apesar de não terem muitos produtos para escolher e os que existiam serem de má qualidade, e muitos serem inacessíveis ao bolso da maioria dos seus cidadãos, todos ostentam um ar digno, raramente aparecem pessoas a pedir esmola. Aqui em Kiev a corrupção e a especulação que se via em Moscovo não era tão notória.

Existiam contudo três coisas positivas que descobri nesse país: o sistema de transportes, com qualidade, rápido , eficiente e barato; a urbanização, apostando-se muito nos espaços verdes, com edifícios, que não sendo bonitos, estavam bem integrados na paisagem; e por último…os selos do correio que tinham muita cola!

No segundo dia em Kiev, 27 de Julho, visitámos a catedral de Stª Sofia, fundada no século XI, o mais antigo monumento cristão, ortodoxo, do leste da Europa.

Também na preservação do património os soviéticos parece que têm algum cuidado, sendo de uma beleza indescritível as cúpulas douradas das igrejas e os frescos que cobrem a totalidade do seu interior.


Naquela catedral foi possível ver frescos pintados em épocas diferentes em camadas sucessivas.

Percorri as ruas à volta da catedral. Fui a um pequeno café, que apenas servia chás e cafés com leite e 3 ou 4 variedades de bolos secos e tostas com conservas, muito pobrezinho, mas foi o único café que encontrei para comer qualquer coisa.

Entrei numa ourivesaria, onde, apesar da pouca variedade de objectos expostos,   reinava uma enorme confusão. O problema, começo a descobrir, está na “organização”: primeiro escolhe-se o objecto; depois vai-se para uma fila para pagar na caixa com uma data de papéis na mão; depois levam-se os papéis ao balcão e, finalmente, depois de se espera noutra fila, recebe-se o objecto. É assim que funciona quase tudo, triplica o tempo de espera e provoca imensas filas.

Deslocando-me a outra rua próxima, deparei-me com uma pequena manifestação de nacionalistas ucranianos, coma as bandeiras da Ucrânia (faixas em amarelo e azul), gritando várias palavras de ordem pela independência da Ucrânia e contra o “fascismo” e que estava a ser filmada por um canal de televisão. A manifestação decorri frente a um grande edifício que me disseram ser a sede local da policia e do KGB. Só lá estavam três policias de ar calmo, separados dos manifestantes por uma pequena barreira em ferro.

Tentei falar em inglês com um dos manifestantes que me explicou que a razão daquela manifestação era protestar contra as condições de vida da população da Ucrânia. Fez uma grande festa quando soube que era português e começou a falar-me de um jogo entre o Dínamo de Kiev e o Porto. Não pude ficar mais tempo pois tinha de voltar ao autocarro que me levaria ao Hotel. Desejei-lhes Boa Sorte, mal adivinhando que não faltaria muito tempo para a Ucrânia se tornar independente. O que terá acontecido àquelas pessoas?

Voltámos ao Hotel para o almoço, excelente mais uma vez, especialmente as sopas.

À tarde fomos visitar o “Mosteiro de Laura”, um dos mais importantes da Igreja Ortodoxa. A profusão de monumentos religiosos ortodoxos na região de Kiev deve-se ao facto de esta ter sido a primeira capital da Rússia, a chamada Rússia de Kiev, fundada no século XI.


Para além das suas exuberantes cúpulas, existe no Mosteiro de Laura o museu das joias preciosas, com peças do século IV a.C ao século XX.

Tendo começado a chover, apesar do calor que se fazia sentir em Kiev, já não podemos vistar as catacumbas do mosteiro, já que estas, devido à humidade, fecham sempre que chove.

Tendo regressado ao Hotel fui, depois de jantar, dar uma volta por Kiev, começando por fazer uma viagem de metro até ao fim da linha que passa frente ao Hotel. Este metro é de superfície junto ao Hotel, passando depois por cima do rio Dniepre, tornando-se depois subterrâneo. A beleza das estações subterrânea não fica nada a dever às famosas estações do metro se Moscovo (que só visitarei no final da viagem, quando regressarmos a Moscovo).


A última estação da linha ás sair a uma gare ferroviária, num subúrbio da cidade, pelo que voltei e segui até à estação que ficava no centro da cidade, numa ampla e bela avenida, cheia de gente, mas onde infelizmente não havia uma única esplanada para desfrutar do movimento.

Nesse avenida encontrámos apenas duas lojas abertas , cheias de gente que comprava o pouco queijo ou a pouca manteiga que aí se vendia, e a confusão era, mais uma vez, gerada pela forma como essas lojas funcionam, e que descrevi noutra parte desta memória de viagem.

O dia 28 de Julho foi o último dia passado em Kiev, antes de partirmos para Minsk.

De manhã vistamos um museu etnográfico a 30 quilómetros de Kiev. Esse museu reproduz vários tipos das aldeias da Ucrânia dos século XVIII, XIX e XX, tal como eram antes da Revolução, uma espécie de “Portugal dos Pequeninos”, talvez idealizado num assomo de má consciência das autoridades soviéticas pela tragédia vivida no mundo rural ucraniano durante os tempos stalinistas.

Nesse museu ao ar livre repoduz-se o ambiente das aldeias de então, onde as casas eram construídas com vários materiais tradicionais, de acordo com a posse de cada um e que reproduziu a rigidez social dos tempos czaristas. Aqui existem alguns originais moinhos em madeira.

A visita culminou com uma patuscada num restaurante aí existente, todo construído em madeire e no meio de uma frondosa mata, explorado por iniciativa  privada, sinal dos tempos da Perestroika.

Regressados ao Hotel, e depois de almoço, preparamos as malas para a partida,mas fizemos ainda uma última visita guiada durante a tarde.

Cruzámo-nos com mais uma manifestação nacionalistas, desta vez de militares ucranianos que defendiam a criação de um exército ucraniano. Embora o número de manifestantes fosse pequeno, eram um pouco mais agressivos do que os da outra manifestação.



Ainda vistámos outra Igreja de belas cúpulas douradas barrocas, e partirmos para o aeroporto de Kiev para partirmos para Minsk, o nosso próximo destino.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

O regresso (ao passado?)


No dia em que se comemora o 75º aniversário da invasão da Polónia pelos nazis (logo seguida pela invasão do leste desse martirizado país pelas forças soviéticas de Stalin, é bom recordar), e quando se comemora, igualmente, o centenário do início da Primeira Guerra Mundial, quando se julgava que a guerra na Europa era mera curiosidade histórica, voltam a rufar os tambores da guerra no velho continente.

O mês de Agosto foi fértil em acontecimentos preocupantes.

Dois governos de cariz neofascista e autoritário, o Ucraniano e o Russo, que assentam o seu poder na manipulação da opinião pública, no crescimento do militarismo, na repressão e humilhação das oposições, no desrespeito pelos mais elementares direitos humanos, apoiados financeiramente por oligarcas mafiosos que cresceram à sombra do apodrecimento dos restos da antiga União Soviética, digladiam-se no leste empobrecido da Ucrânia.

E o mais grave de tudo é que, no ocidente, não se vêem forças independentes, capazes de mediarem o conflito ou de condenarem com veemência as duas facções mafiosas em confronto. Pelo contrário, tomam partido por uma das facções, armam-nas e financiam-nas, em conivência pelos crimes contra a humanidade, já concretizados ou que se irão acentuar com o agravamento do conflito, cometidos por ambos os lados, como o abate de um avião civil de passageiros, o desfile humilhante de prisioneiros de guerra, ou o bombardeamento de cidades onde vivem milhares de civis, para além de várias atrocidades cometidas por milícias de ambos os lados.

Também o médio-oriente, aqui mesmo à porta, está a ser sujeito a conflitos onde se cometem as mais atrozes barbaridades que envergonham toda a humanidade.

E, mais uma vez, a passividade da comunidade ocidental, a irrelevância da ONU (desmantelada, diga-se em abono da verdade, por Bush e Tony Blair no inicio deste século, para justificar intervenções ilegais dos seus governos no Iraque e noutras zonas, política aliás continuada recentemente pela NATO na Líbia), os erros e a incompetência das acções ocidentais nessa região (Palestina, Iraque, Líbia e Síria e, em breve, Irão…) colocam aquela região a ferro e fogo, para sofrimento de milhares, senão milhões de habitantes.

Se a tudo isto juntarmos uma crise financeira a ser paga pelos cidadãos europeus que trabalham e cumprem com as suas obrigações e que mergulha a Europa numa situação de empobrecimento acentuado, uma crise sanitária em África que em breve se estenderá ao ocidente e a crescente corrupção de políticos e o domínio crescente do poder financeiro sobre as decisões democráticas, para além da irreversibilidade, atingida em meados de Agosto, da crise ambiental, estão lançados todos os ingredientes para transformar o mundo de hoje e o seu futuro próximo numa imenso desastre humanitário sem retorno.

Enfim, com esta imagem pessimista iniciamos mais uma época de trabalho.

Esperando que as mais negras previsões não se concretizem, daqui desejamos a todos um bom regresso à realidade…


quinta-feira, 17 de julho de 2014

Acidente ou atentado? - Avião da Malaysia Airlines despenha-se na Ucrânia

Um avião que tinha partido de Amesterdão despenhou-se na Ucrânia, numa região fustigada pela guerra civil que grassa nalgumas zonas do país.

Tanto os rebeldes como o governo Ucrâniano negam a responsabilidade pelo acidente, embora o Presidente Ucrâniano se tenha apressado a acusar os rebeldes de terem abatido o avião que levava cerca de trezentas pessoas, entre passageiros e tripulação e que se deslocava para a Malásia.

O avião pertencia à mesma companhia que há meses atrás sofreu outro acidente com um avião até hoje desaparecido.

Este acidente pode ser a prova dos nove do conflito na Ucrânia. Se o presidente da Ucrânia tiver razão nas suas acusações, fica provado o carácter criminoso da acção dos rebeldes. Se, pelo contrário, estes não forem responsáveis, fica provada a irresponsabilidade e o aventureirismo do actual governo da Ucrânia.

Seja como for, é urgente apurar responsabilidades.Se tiver sido um atentado, a situação faz-nos recordar, com preocupação, uma semelhança , cem anos depois, com o trágico atentado se Sarajevo que foi  responsável pelo desencadear da Primeira Grande Guerra em 1914...

Avião da Malaysia Airlines despenha-se na Ucrânia - Globo - DN (clicar para seguir notícia).

Mais informações AQUI, AQUI, AQUI ou AQUI

segunda-feira, 10 de março de 2014

Ucrânia : as verdades e as mentiras, na crónica de Daniel Oliveira, ...ou quem é a gente pouco recomendável que a actual elite política europeia e a sua comunicação social nos procura impingir como "verdadeiros democratas"..

Remando contra a maré desinformativa que nos impõe uma comunicação social acrítica e empenhada em servir as "verdades" impostas pelas actuais elites políticas europeias, Daniel Oliveira mostra-nos um outro lado dos "amanhãs que nos cantam" sobre a grave situação que se vive na Ucrânia.

Quando as actuais elites políticas europeias e a sua comunicação social rejubilam com a gente pouco recomendável que tomou, ilegalmente e pela força, o poder na Ucrânia, é caso para nos interrogarmos sobre a Europa e a "democracia"  que nos querem impingir...


Apresento-vos os defensores dos "valores europeus" na Ucrânia

por Daniel Oliveira

In Expresso on-line 10 de março de 2014.

“O Guardian  e a CNN , insuspeitos de qualquer antipatia pela "causa ucraniana" que mobiliza tantos jornalistas portugueses, deram a conhecer o conteúdo de escutas telefónicas  entre a responsável pela política externa da União Europeia, Catherine Ashton, e o ministro dos Negócios Estrangeiros da Estónia, Urmas Paet. As escutas tinham sido divulgadas pela comunicação social russa, o que levanta novas questões sobre o comportamento dos serviços de espionagem na Europa. Mais uma vez, o comportamento da NSA norte-americana e a suavidade da reação dos Estados europeus deixa pouco espaço de manobra para grandes indignações.

“Em resumo, é isto: os snipers que atingiram mortalmente manifestantes e polícia na Praça da Independência, em Kiev, foram os mesmos e há fortíssimas suspeitas de não estarem ligados ao regime deposto. Pelo contrário, é mais provável que fossem agentes provocadores ligados aos revoltosos. Aquilo que parecia ser uma teoria da conspiração lançada pelos russos ganha assim uma nova credibilidade. Depois de explicar que as balas só podem ter sido disparadas pelas mesmas pessoas, Paet diz a Ashton, sobre a atual coligação governamental: "Há agora um cada vez maior entendimento de que, por de trás dos snipers, não estava Yanukovych, mas alguém da nova coligação".

“Por desconhecimento, muitos ficarão incrédulos. Afinal de contas, sempre que cidadãos ocidentais veem muita gente numa praça imaginam que ali só pode estar o povo em luta pela liberdade e pela democracia. Não compreendendo que os conflitos internos de cada país - seja no Egito ou na Ucrânia - não se resumem a dicotomias tão simples e primaveris, que se resolve com um like no facebook. Sobretudo em países com conflitos étnicos, sujeitos a fortes interesses económicos e com pouca tradição democrática.

“A oposição ucraniana, agora no governo provisório, não é só - nem sobretudo - composta por democratas. A maioria está engajada em partidos tão corruptos e tão dependentes do poder dos oligarcas como o governo deposto. E estes são os melhorzinhos. Os outros, que tiveram um papel absolutamente central na EuroMaidan e na tomada violenta de vários símbolos do poder, estão ligados a organizações bem mais sinistras do que se possa imaginar. O método de eleição de alguns membros do governo provisório, baseado na "democracia de Esparta", pode parecer apenas ingenuidade e anedota. Mas não é. Corresponde a um movimento político antidemocrático que ganhou força nos últimos anos.

“Vamos então conhecê-los. Um é o grupo paramilitar abertamente xenófobo Pravyi Sektor ("Sector Direito"), herdeiro do "Tryzub" (Tridente) e liderado dor Dmytro Yarosh. Durante a revolução, Yarosh foi acusado de pedir o apoio de Dokka Umarov, líder da fação da guerrilha techechena que está ligada à Al-Quaeda. A acusação está ainda a ser investigada (pode tratar-se duma fraude). Mas a sua organização, bastante violenta, teve um papel central no armamento das milícias paramilitares durante os protestos. Milícias que entretanto foram reconhecidas oficialmente pelo governo provisório. O Pravyi Sektor  prometeu ilegalizar o Partido das Regiões (que estava no poder) e o Partido Comunista. Outro grupo é a Assembleia Nacional Ucraniana-Auto Defesa do Povo Ucraniano (Una-Unso), fundamentalistas ortodoxos, nacionalistas, antissemitas e defensores de um governo autoritário para país. Os seus militantes estão organizados em brigadas voluntárias, com treino na luta da Tchéchénia ao lado dos guerrilheiros.

“Mas a força política mais importante entre os radicais nacionalistas é, de longe, a União Pan-Ucrâniana "Liberdade", conhecida apenas por Svoboda ("Liberdade"). A Svoboda é assumidamente neonazi e foi fundada em 1991, com o sugestivo nome de Partido Social-Nacional da Ucrânia. Quem não chegue lá pelo nome pode sempre ver o seu símbolo  e ficar esclarecido. Na mesma altura em que várias organizações de extrema-direita do leste europeu fizeram o devido lifting, para estarem em condições de ser apoiadas ou pelo menos toleradas por algumas potências ocidentais, o PSNU foi transformado em Svoboda pelo seu líder Oleh Tyahnybok.

“O Svoboda é considerado pela Centro Simon Wiesenthal o quinto partido mais antissemita do mundo. É abertamente xenófobo, defendendo a segregação de judeus e polacos. Também é, claro está, homofóbico. O seu deputado Igor Miroshnichenko, assumido admirador de Röhm, Strasser e Goebbels, declarou que "a homossexualidade será banida deste país, pois é uma doença que ajuda à difusão da SIDA". Este mesmo deputado descreveu, na sua página de Facebook, a atriz Mila Kunis (ucraniana de origem, com pai russo e mãe judia) como uma "zhydovka", termo insultuoso para referir mulheres judias. O Svoboda defende não apenas a ilegalização do aborto, mas a criminalização da sua defesa pública. Defende também a ilegalização de qualquer partido comunista, o direito universal a andar armado, o regresso da Ucrânia ao nuclear e o tal "democracia espartana". A tudo isto junta as adesões à União Europeia e à NATO, consideradas absolutamente condizentes com o seu posicionamento político. O que diz qualquer coisa sobre a imagem de exigência democrática que a União Europeia está a passar para fora.

“O corte do líder do Svoboda com o resto da oposição, com quem entretanto se reconciliou em nome dos "valores europeus", deu-se em 2004, quando fez, num discurso transmitido pela televisão, um elogio a resistência ucraniana na II Guerra por ter lutado contra "a mafia moscovita-judaica". Deixando esta pungente memória patriótica: "Eles punham as suas armas ao ombro, iam para a floresta e lutavam contra os moscovitas, os alemães, os judeus e outra escumalha que nos queria tirar o Estado da Ucrânia." Nos protestos do EuroMaidan os manifestantes do Svoboda exibiram, a abrir os seus cortejos, orgulhosos, a fotografia de Stepan Bandera, líder nacionalista da Ucrânia durante a II Guerra, que colaborou com a deportação para os campos de extermínio nazis de centenas de milhares de judeus, comunistas e ciganos. Para tentar ganhar votos à muito pouco recomendável mas agora transformada em heroína do Ocidente Yulia Tymoshenko, o não mais recomendável Vicktor Yushenko chegou a dar o título de herói da Ucrânia a Bandera, retirando-o depois de indignados protestos das organizações judaicas internacionais. A mesma União Europeia que agora abraça os pupilos de Bandera condenou, na altura, Yushenko por esta homenagem.

“Que não haja confusões. O Svoboda não é um pequeno grupelho. Teve 10,5% dos votos nas últimas eleições, elegeu 38 deputados e conquistou mais de 30% em três províncias do extremo ocidental da Ucrânia. Na "heróica" Lviv, onde começou a revolta contra o governo e de onde é o seu líder, os neonazis tiveram mais de 50% dos votos. Animador, não é?

“Depois dos protestos estes grupos quase sem paralelo na Europa Ocidental foram postos à margem? Pelo contrário. O Svoboda tem um dos vice-primeiro-ministros, Oleksandr Sych. O seu cavalo de batalha foi a ilegalização do aborto, mesmo em caso de violação. Quando esta sua posição foi contestada, defendeu que as mulheres "devem ter um tipo de vida que evite o risco de violação, incluindo não beberem álcool e não andarem com companhias pouco recomendáveis". Tem ainda o secretário do Conselho Nacional de Segurança e Defesa, os ministros do Ambiente e da Agricultura e o Procurador Geral da Ucrânia. Isto para além do ministro da Defesa, o almirante Igor Tenjukh, que não sendo militante tem apoiado o partido nas suas iniciativas públicas. Já o Pravyi Sektor  tem o seu sinistro líder, Dmytro Yarosh, como vice-secretário do Conselho Nacional de Segurança e Defesa. E o Una-Unso tem o ministro da Juventude e Desporto e a presidente da Comissão de Anticorrupção Nacional. Ou seja: três partidos à direita do PNR e da Aurora Dourada dirigem, num governo que ninguém elegeu, a Defesa, o combate à corrupção e a Procuradoria Geral.


“Agora, que a poeira começa a assentar, talvez se perceba melhor que aqui não há heróis e vilões. Muito menos num país que teve de escolher entre as deportações e a fome de Estaline e o Holocausto de Hitler. As coisas são mais complicadas, apesar das imagens televisivas da revolta dos russos da Crimeia aparecer sempre como animalesca e violenta, enquanto a dos ucranianos surge como uma festa azul e amarela reprimida pelas forças do Estado. Perante o crescente poder dos nazis no aparelho de Estado ucraniano, a minoria russa tem boas razões para pensar que não terá lugar nesta nova Ucrânia. Quanto a mim, não sei se me agrada que a Ucrânia do senhor Tyahnybok e do seu Svoboda tenha lugar na União Europeia. Para pior já basta assim”.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Ucrânia : Venha o Diabo e escolha...


A violência generalizada que se vive nas ruas de Kiev não abona nada a favor da oposição ucraniana.

Infiltrada por grupos nacionalistas de extrema-direita, a oposição ucraniana, ao não se demarcar das atitudes violentas desses grupos, que incluiu, nas últimas semanas, violência contra judeus, denunciada pela comunidade judaica local, perde a razão que tinha no início da crise política.

Claro que, do outro lado temos um governo autoritário, corrupto, que não respeita a vontade da grande parte da população em escapar à influência russa e de se aproximar dos níveis de vida ocidentais….mas onde é que já vimos isto?

Se a Rússia, liderada pelo pouco recomendável sr. Putin, joga na crise ucraniana a sua tentativa de recuperar a influência que detinha nos tempos da União Soviética, a atitude da União Europeia resvala a pura hipocrisia.

Antes de se preocupar com o autoritarismo do poder ucraniano, a União Europeia tem muito para se preocupar no seu próprio seio, não sendo muito diferente aquilo que se passa no governo ucraniano de aquilo que se passa em países do leste europeu integrados na EU, como é ocaso da Hungria.

Ao incentivar a revolta da oposição ucraniana contra o governo, que apesar de autoritário e corrupto foi legitimado por eleições livres, os líderes da UE deviam primeiro explicar como é que se podem substituir  à influência económica russa  na Ucrânia, quando não conseguem apoia convenientemente países da própria União em dificuldade, como Portugal, Espanha, Itália, Grécia, Chipre…

Foi em grande parte a esperança de um apoio concreto por parte da União Europeia aos seus protestos que incentivou os ucranianos a aumentar os actos de violência generalizada a que estamos a assistir, apoio esse que irá pouco além da retórica habitual.

E quanto às malfeitorias de um governo, como o ucraniano,  legitimamente eleito, mas tomando decisões contra o seu próprio povo, pela violência policial contra ao protestos legítimos, pelo desrespeito em relação ao bem-estar económico-social dos seus cidadãos, pela violação de promessas e programas eleitorais pelos quais foram eleitos, tomando todas essas decisões nas costas dos cidadãos, a União Europeia não tem muita legitimidade para criticar, pois esse tipo de decisões é o pão nosso de cada dia, como bem o sabem os cidadãos portugueses, irlandeses, espanhóis, franceses, italianos, gregos e chipriotas, entre outros.

O que está em causa, na crise ucraniana, não é uma luta entre o “bem” (os pró-europeus) e o “mal” (os pró-russos), mas é mais uma vez o desenterrar de velhos conflitos e jogos de poder que têm marcado a história do centro da Europa.

A Ucrânia, na sua história recente, esteve quase sempre do lado errado da história. Muitos ucranianos participaram no “Holodomor”, o genocídio stalinista contra os camponeses daquele país na década de 30, através de uma desastrosa política de colectivização forçada que provocou a morte pela fome de milhões de ucranianos, ao mesmo tempo que 4/5 das elites ucranianas eram massacradas por Stalin.

Quando da invasão nazi, em 1941, outros ucranianos, que receberam as forças hitlerianas com “libertadoras”, colaboraram alegremente com os nazis  na repressão sobre a população de origem russa e outras minorias, que custou entre 5 a 8 milhões de mortos, entre os quais  meio milhão de judeus.

A memória desses tempos, o peso da influência russa, a maior minoria que representa quase 20% da sua população e a atitude irresponsável dos dois lados, Rússia e União Europeia,  pode provocar uma tragédia de grandes dimensões no centro da Europa, uma espécie de Jugoslávia em ponto grande.

No actual conflito é caso para dizer…venha o diabo e escolha.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

QUE O EUROPEU DE FUTEBOL NÃO NOS DISTRAIA...



Tem hoje início o Europeu de Futebol.

Infelizmente, nos tempos que correm, não nos podemos alienar com espectáculos como o Futebol.

Antes de nos lançarmos no entusiasmo dos grandes jogos e no apoio à selecção portuguesa, nomeadamente no jogo contra a arrogante Alemanha, devemos colocar algumas interrogações.

Em primeiro lugar, sobre as terríveis notícias, nunca desmentidas até hoje, do autêntico massacre de cães e gatos vadios na Ucrânia. (… a propósito, adiram à petição para denunciar a situação AQUI).

Já se sabia que a Ucrânia não prima pela defesa dos Direitos Humanos, não se podendo por isso esperar que os políticos desse país demonstrem igual preocupação pelos Direitos dos Animais.

Seria bom que todos aproveitassem a visibilidade do evento para denunciar a situação.
Em segundo lugar devemo-nos questionar sobre os gastos exagerados deste tipo de eventos e todo o aproveitamento político e comercial  que gira à sua volta.

Parece-me de facto condenável todo o exibicionismo dos jogadores em tempo de crise, passeando-se arrogantemente em “ultra” topos de gamas ou vivendo no meio de luxos desmedidos, tudo isto em altura de crise.

Esperamos, por outro lado, que os jogadores, que funcionam como modelo para muita gente, se saibam comportar com fair play dentro e fora das quatro linhas, e não venham com as costumeiras desculpas da arbitragem e outras do género...

Em terceiro lugar, se o tempo de antena dispensado em época “normal” ao futebol já é um exagero (…ía dizer uma vergonha!), devemos condenar a quase exclusividade em época de crise que as nossas televisões dedicam ao acontecimento. 

Será bom que todos se mantenham em “alerta máxima” durante o Europeu, principalmente se a selecção portuguese avançar com bons resultados, porque estamos perante uma classe política desonesta que costuma aproveitar estas “distracções” para tomar medidas anti-sociais e contra os cidadãos, de que estes só se apercebem depois dos factos consumados.

Antigamente falava-se, algo exageradamente e com laivos de propaganda política,  dos três “F’s” do “Fascismo” português: Fátima, Fado e Futebol.

Hoje o Futebol tem uma exclusividade e um poder que ultrapassam todos os outros “F’s” e “esmagou” todos os outros desportos nacionais. 

Aliás, convém recordar que, a não ser a nível de equipas, embora cada vez mais raramente, a selecção portuguesa de futebol profissional nunca trouxe para Portugal qualquer troféu Europeu, Olímpico ou Mundial, ao contrário de muitos outros desportos. 

Contudo, os nossos campeões da Europa, Olímpicos ou Mundiais nunca mereceram a atenção e o carinho que é dispensado a qualquer jogador de futebol.

Qualquer boçalidade saída da boca de um dirigente futebolístico, uma transferência de jogador, uma lesão de pouca monta de um futebolista merece notícia de abertura, ou de "última hora" de um qualquer “telejornal”, enquanto um “qualquer” bom resultado a nível mundial noutro desporto é relegado para segundo plano, isto quando se dão “ao trabalho” de o anunciarem.

Se sairmos do mundo do desporto o contraste de tratamento á ainda mais escandaloso: cientistas, artistas, músicos, cineastas, escritores,… vão ganhando grande prémios internacionais, mas são poucos os jornalistas e os cidadãos que sabem soletrar os seu nomes, do mesmo modo como soletram o nome de qualquer jogador de futebol de segunda linha.

É caso para dizer que, com a atenção  e o carinho que recebem das elites dirigentes, da comunicação social e do público em geral, com os prémios e ordenados que recebem, com as facilidades de empréstimos financeiro  e fiscais dados aos clubes de futebol e aos jogadores, com a importância que lhes é dado, trazerem para Portugal um bom resultado não é um mero desejo, é uma obrigação para esses futebolistas e dirigentes do mundo do futebol.

Por isso, não me limito a desejar, mas a exigir um bom resultado à “equipa das Quinas”…