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terça-feira, 19 de junho de 2018

As “Corporações” e os sindicatos.



Não deixam de ser irónicas as acusações feitas, às justas reivindicações sindicais, como sendo “corporativas”.

Essas acusações partem de três dos grupos mais “corporativos” que existem na nossa democracia, o dos comentadores/jornalistas, a dos políticos/comentadores e a dos economistas/gestores financeiros.

Se existem grupos que em Portugal se comportam de modo corporativo é o dos jornalistas, dos políticos e dos lideres económico/financeiros, que muitas vezes se confundem no mesmo percurso de vida e/ou na ligação aos grandes meios de comunicação.

 Uma simples crítica a um deles é encarada como um ataque vil a todo o grupo, e quem o fizer, justamente ou não, enfrentará uma barreira de comentários arrasadores .

Podemos ou não concordar com as reivindicação sindicais, questionar o seu timing ou a  sua justeza, mas tentar confundir lutas e reivindicações sindicais com interesses “corporativos”, não sendo por ignorância, só pode ser classificado como uma boçal manifestação de má-fé,  intolerância e preconceito ideológico.

Os interesses “corporativos” em Portugal, que sobreviveram ao Estado Novo corporativo, estão devidamente identificados e legalizados e não se confundem com os sindicatos.

A confusão só serve como argumento para quem procura destruir a influência dos sindicatos, pilar essencial de um regime democrático.

segunda-feira, 14 de março de 2016

Recordando a Historiadora Maria de Fátima Patriarca

Maria de Fátima Patriarca faleceu a semana passada.

Era uma das mais importantes e inovadoras historiadoras portuguesas, muito ligada ao estudo dos movimentos operários em Portugal, devendo-se a ela o mais importante trabalho de investigação sobre a chamada revolta da Marinha Grande de 18 de Janeiro de 1834.

Uma sua excelente evocação feita pelo jornal Público  pode ser lida AQUI.

Conhecida pelo seu rigor no tratamento das fontes documentais, apenas publicou dois livros, apesar do seu vasto trabalho de investigação, cujos resultados se encontram espalhados em artigos publicados em revistas da especialidade, principalmente na revista “Análise Social”.




Em baixo transcrevemos o texto que, em sua homenagem, foi publicada no site “Portal Anarquista".

“FÁTIMA PATRIARCA: MORREU A AUTORA DE UM DOS LIVROS MAIS COMPLETOS SOBRE O 18 DE JANEIRO DE 1934

“Morreu a historiadora Fátima Patriarca, um nome incontornável na história do movimento sindical durante a 1ª República e o Estado Novo. É da sua autoria um dos livros mais completos e rigorosos sobre o 18 de Janeiro de 1934 “Sindicatos contra Salazar – A revolta do 18 de Janeiro de 1934”, onde a autora desmistifica o chamado soviete da Marinha Grande (que nunca aconteceu) e integra os vários levantamentos e greves que aconteceram nesse dia num movimento mais geral, separando o trigo do joio e a propaganda dos factos reais. A sua morte representa uma perda grande para a historiografia do movimento operário.

“Historiadora e socióloga, autora de referência na análise social do país sob o Estado Novo e do movimento operário e sindical em Portugal, Maria de Fátima Patriarca (Couço, 1944-Lisboa, 2016) morreu na madrugada desta sexta-feira devido a complicações cardíacas. Investigadora do Instituto de Ciências Sociais desde 1992, publicou alguns dos estudos fundamentais acerca do século XX português tal como o salazarismo e a resistência ao salazarismo o configuraram. Os dois volumes de A Questão Social no Salazarismo(Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1995), e Sindicatos contra Salazar. A revolta do 18 de Janeiro de 1934 (Imprensa de Ciências Sociais, 2000) são disso exemplo.

“Diplomada pelo Instituto Superior de Serviço Social de Lisboa em 1967, licenciou-se em Sociologia no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa em 1990 e fez as suas provas de investigadora no ICS sob a orientação de Sedas Nunes, com a dissertação Processo de implantação e lógica e dinâmica de funcionamento do Corporativismo em Portugal – os primeiros anos do Salazarismo e com a prova complementar Sindicatos e luta social no regime corporativo – dos anos 50 a 1974.

“Também no ICS, criou em 1979, com Maria Filomena Mónica, o Arquivo Histórico das Classes Trabalhadoras, do qual foi responsável científica entre 1999 e 2005. Foi ainda membro do Conselho de Redacção da revista Análise Social e da Imprensa de Ciências Sociais sob a direcção de António Barreto.

“Actualmente, informa a página do ICS, prosseguia o seu projecto pessoal sobre Sindicatos e lutas sociais nos últimos anos do Regime Corporativo e participava no projecto de Manuel de Lucena sobre a descolonização e também no de António Matos Ferreira e Maria Lúcia de Brito Moura sobre as relações entre o Estado e a Igreja em Portugal”.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

PORCA MISÉRIA: Um acordo tendencioso.



Quanto mais se vai conhecendo o conteúdo do documento assinado em concertação social, mais se revela o descalabro do movimento sindical, dos que assinaram e dos que abandonaram.

Tudo o que se sabe representa um tremendo retrocesso social e um desrespeito por quem trabalha.

Se dúvidas houvesse, aí estão todas as medidas anunciadas que penalizam apenas o factor trabalho, abrindo o caminho a propostas patronais ainda mais descaradas e extremistas. A CIP já ameaçou voltar à carga para recuperar a meia-hora de trabalho forçado, agora pela via parlamentar.

Este documento é, realmente, uma declaração de guerra aos trabalhadores deste país, tanto assim que não se vislumbra nele qualquer contrapartida.

Vem assim ao de cima o preconceito ideológico de uma direita radicalizada, que já não precisa de andar a marchar de camisa preta e de braço erguido para se afirmar contra a esquerda e os trabalhadores, pois sente-se bastante melhor com a sua consciência vestindo fato e gravata, bem falante, com grandes justificações cuidadosamente elaboradas, para combater os que trabalham e produzem.

Quando continuam a sair estudos e reportagens que demonstram que a má gestão, a fuga aos impostos, o recurso aos benefícios dos paraísos fiscais, juntamente com o vergonhoso e cada vez mais descarado tráfico de influências entre o poder político, o poder financeiro e o poder das grandes empresas, estão na base da actual crise em Portugal, os comentadores e os políticos ao serviço de tal estado de coisas continuam a insistir na penalização do factor trabalho, na perseguição social aos mais pobres e na marginalização financeira e legislativa das empresas que produzem de facto alguma riqueza para o país.

Infelizmente o movimento sindical deixou-se ultrapassar pela situação.

Uns, a UGT, assinando um autêntico documento suicida para os trabalhadores, desacreditando-se de vez, com essa atitude, no seio destes.

Num acordo tem de haver contrapartidas para os dois lados que o assinam. Não se vislumbra, neste acordo, uma única frase favorecendo aqueles que esse sindicato tem a obrigação de representar. Perante a atitude dessa central sindical, esta deixa de ter qualquer razão para existir.

Outros, a CGTP, que desta vez até tinha mais que razões para não assinar, veio desacreditar a sua atitude pelo facto de passar para a história como uma central que, de recuo em recuo, sempre se recusou a negociar ou a assinar qualquer documento, partindo logo para qualquer negociação com preconceitos ideológicos muito arreigados. Assim, tendo desta vez razão, perde-a em grande parte pela forma como deixou que se lhe colasse a imagem de intransigência.

Ainda por cima abandona as negociações no princípio do processo, quando devia ficar até ao encerramento das negociações, de onde podia sair com mais força, se o fizesse, para contestar o documento final.

Esperemos que este último conselho de concertação social não velha um dia a ser classificado como o início do fim do movimento sindical em Portugal.

Um movimento sindical enfraquecido dará ajo a outras formas de luta cada vez mais descontroladas e extremistas, e ninguém, mesmos aqueles que clamam agora vitória, sairá incólume de uma radicalização descontrolada do protesto social.

Seria bom que os nossos líderes sindicais e os políticos de esquerda reflectissem sobre esta grande derrota para os seus princípios ideológicos.

Não é o fim, mas pode ser o início do fim, por muitos anos, do sonho de uma sociedade mais justa e solidária e o início do salve-se quem puder nesta cada vez maior afirmação de um capitalismo selvagem e despudorado .

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Governo e parceiros sociais assinam acordo tripartido - Economia - PUBLICO.PT

 Não espanta que as associações patronais e o governo assinem um acordo como este.

O que espanta é ver a UGT a assiná-lo.

A desculpa que deu é a de que esse era o compromisso com a troika.

Mas uma notícia do Público de hoje chamava a atenção para o facto deste acordo ir muito para além daquilo que a Troika exigia, nomeadamente no que se refere às férias, feriados e horário de trabalho, e tudo em prejuízo de um dos lados.

Também seria normal que uma central sindical assinasse um acordo, desde que existissem nesse acordo  contrapartidas para o quem trabalha. Ora, de tudo o que se sabe sobre o acordo, as medidas tombam todas para o mesmo lado, tudo pelo patronato, nada pelos trabalhadores.

Claro que a habitual posição da CGTP em recusar qualquer tipo de acordo e jogar sempre à defesa também não ajudou e desacredita o próprio lado sindical.

Não há duvida é que este acordo é o maior retrocesso de sempre nos direitos laborais.

Mais uma vez é o elo mais fraco que sofre as consequências de uma crise que não foi provocada por quem trabalha, mas sim pela especulação financeira e pela incapacidade dos governos em combaterem o tráfico de influências, como se viu na semana anterior com as nomeações milionárias para a EDP e as Águas de Portugal e de combaterem a economia paralela e a fuga aos impostos, como se revelava num estudo divulgado ontem. Só o valor desta economia paralela vale cerca de metade do empréstimo da Troika (qualquer coisa como… 40 mil milhões de euros...).

Este é o caminho errado… as consequências vão ser devastadoras.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Antena 1 - Entrevista a Carvalho da Silva



A Antena 1 emtrevistou hoje Carvalho da Silva.
No final do mês anuncia-se a sua retirada da vida sindical.
Carvalho da Silva é um dos poucos homens que está na vida política por convicção e coerência e a sua falta vai ser muito sentida pelo movimento sindical e não só
É sempre agradável ouvir uma das vozes mais lucidas da actualidade.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Ideias para um mundo novo ou, como atingir o poder financeiro onde mais lhe dói: na carteira...


Irei aderir à próxima Greve Geral, mas penso que o movimento sindical tem de encontrar outras formas de luta mais eficazes e estruturantes.
Seria interessante, por exemplo, recuperar velhas práticas sindicais, algumas das quais estiveram na sua origem.
Uma delas foi o mutualismo, uma prática muito ligada aos primeiros movimentos sindicais.
Antes de haver segurança social, o mutualismo representou um importante factor de auxilio aos operários na doença, no desemprego e na velhice.
Nos tempos que correm há que recorrer a velhas práticas abandonadas, adaptadas às circunstâncias actuais, como forma de combater o poder financeiro.
Uma proposta que devia avançar entre os sindicatos, mas que tinha de se desenvolver a nível de toda a Europa, era a criação de um Banco, com características mutualistas na sua gestão, para onde todos os trabalhadores da Europa deviam canalizar as suas poupanças e, ao mesmo tempo, o depósito dos seus salários.
Obedecendo a um código de ética no que respeita à aplicação dos seus capitais, podia aceitar igualmente como associados pequenas e médias empresas que respeitassem os direitos sociais dos seus trabalhadores.
Esta medida abalaria fortemente a arrogância do mundo financeiro, ao mesmo tempo que travava a especulação financeira de accionistas e administradores gananciosos, feita com o dinheiro dos depositantes dos bancos capitalistas, a maior parte tendo por base o depósito de salários e poupanças dos trabalhadores.
Com o tempo, esse grande banco mutualista dos trabalhadores europeus passaria a incluir todo o tipo de seguros e até contas poupança para a reforma.
Mais do que as greves, uma medida como esta seria mais dolorosa para os especuladores financeiros, pois iria atingir fortemente onde mais lhes dói, que á na carteira…
Alguém, com influência e conhecimentos, estará interessado em dar o primeiro passo nesse sentido?
(A título de curiosidade, talvez não seja por acaso que os dois únicos bancos portugueses com características mutualistas, a Caixa Agrícola e o Montepio, são muito pouco falados na actual conjuntura. É que a sua realidade vai bem mais longe e tem outros horizontes para lá da pura especulação financeira. Talvez por isso, e que se saiba, estejam de boa saúde).

quinta-feira, 24 de março de 2011

A REVOLTA QUE FALTA, OU POR CÁ TAMBÉM HÁ "KADAFIS": - Polícia belga dispersa protesto contra "pacto para o euro" .



Só com a unidade de todos os trabalhadores europeus é possivel por um travão às medidas anti sociais impostas pela União Europeia.

Não seria altura de uma concentração de todos os sindicatos europeus numa manifestação convocada, ao mesmo tempo, em todas as capitais da UE?

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

A violência e a retórica anti-sindical

O confronto que ontem se registou, frente à residência oficial do primeiro-ministro, entre a polícia e um grupo de sindicalistas, parece-me totalmente desproporcionado em relação à situação.

A forma como os sindicalistas foram tratados parece reflectir, na prática, muito da propaganda e retórica anti-sindical destilada por muita comunicação social nos últimos tempos, mercê da escrita ou dos comentários de muito “fazedor de opinião” (todos bem pagos para isso…), de muitos economistas e professores de economia, politólogos, de alguns políticos e de alguns patrões.

Não sei, portanto, se o que ontem aconteceu, terá sido um acto isolado ou se denota já um novo nível de reacção anti-sindical. O tempo o dirá.

Seria bom, contudo, que tais “opinadores”, responsáveis morais pelo aumento de violência verbal anti-sindical, tivessem bem a noção do que será, perante a situação actual, o protesto deixar de ter o controle sindical e passar a ser liderado por sectores mais radicalizados da sociedade.

Ponham os olhos na Grécia, em Inglaterra ou em França e pensem duas vezes antes de debitarem o vosso ódio anti-sindical.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

O AVISO (a propósito da atitude ilegal dos controladores aéreos espanhóis)

(fonte: El País)

O que aconteceu este fim-de-semana em Espanha, com a desobediência civil dos controladores aéreos espanhóis, é apenas um aviso do que pode começar a suceder com mais frequência (e violência), um pouco por toda a Europa, se o discurso anti-sindical e anti-social da classe política, dos banqueiros e dos economistas de serviço, ampliada pelas “picaretas falantes” da comunicação social, continuar a afrontar o desespero dos cidadãos e dos trabalhadores europeus.

A forma como se tem vindo a criar junto da opinião pública a ideia de que os sindicatos e as lutas tradicionais, como as greves e as manifestações, não são compatíveis com as “novas realidade económicas”, como algo que está “fora de moda” e “ultrapassado”, ao mesmo tempo que se investe contra o chamado Modelo Social Europeu e se impõem cortes salariais e se desvaloriza o factor trabalho, desculpabilizando ou, no mínimo, desvalorizando a responsabilidade do sector financeiro em relação à actual situação económico-social da Europa, cria um vazio de desespero que pode começar a generalizar formas de luta mais radicais do que aquelas a que os sindicatos até agora nos habituaram, fugindo mesmo ao controle institucional dos próprios sindicatos.

Outro tipo de argumentação, usado para dividir os cidadãos trabalhadores, é o dos “privilégios” de uns face ao desespero dos restantes. Este discurso tem feito o seu caminho avassalador e irresponsável, ao ponto de quase se considerar como “privilegiado” aquele que tem um emprego estável, mesmo que mal pago, face aos que sobrevivem na precariedade ou sofrem a violência do desemprego, uma boa maneira de desviar as atenções dos verdadeiros privilegiados (a maior parte dos políticos de carreira, dos gestores públicos e privados, dos grandes accionistas, dos banqueiros, e todos a plêiade de serviçais que os defendem na comunicação social e nas universidades).

É este o discurso que é dominante entre políticos e comentadores, na condenação do gesto dos controladores aéreos espanhóis e que está a virar a opinião pública contra estes.

Mas, se continuarem a desvalorizar o papel dos sindicatos na sociedades, a ignorar a opinião dos cidadãos trabalhadores e produtores, a ouvir apenas os piratas dos “mercados”, talvez lhes cai em cima, com consequências bem mais gravosas para todos, situações de desobediência civil, por agora minoritárias e em grupos profissionais mais influentes e com maior capacidade económica de fazer frente à situação actual, mas que no futuro se podem tornar totalmente descontroladas e mais violentas.

Era bom que os políticos europeus não vissem apenas a ilegalidade e o incómodo da situação provocada pela atitude dos controladores aéreos espanhóis como um acto isolado, mas vislumbrassem nesta situação também um aviso. Por enquanto ainda estão a tempo de mudar o rumo das coisas. Daqui a uns meses não se sabe!