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segunda-feira, 20 de junho de 2022

“Caiu um avião” (!!!)…nos estúdios da TV


No passado Sábado viveram-se horas de pânico…nos estúdios das nossas televisões.

Tudo começou com a CMTV a divulgar a notícia de um avião que estaria em dificuldades sobre os céus da região de Lisboa e que andava às voltas a “despejar combustível”, para poder fazer uma “arriscada” aterragem de emergência no aeroporto de Lisboa.

De imediato os restantes canais, não querendo ficar atrás do alarmismo da CMTV ou da possibilidade de poderem transmitir em directo um avião a despenhar-se sobre Lisboa, começaram a ocupar as suas emissões com o assunto.

Lá desfilaram os habituas “técnicos” e “especialistas”. Felizmente alguns deles eram mesmo técnicos e rapidamente desdramatizaram a situação.

Ninguém se lembrou do estado de ansiedade que essas reportagens podiam provocar junto dos familiares dos passageiros ou até, caso aquelas notícias chegassem a bordo, do pânico que iam provocar a bordo do avião.

Felizmente essas notícias não chegaram aos passageiros, pois os pilotos do avião fizeram aquilo que os jornalistas profissionais não fizeram, que era transmitirem a bordo as informações fiáveis sobre o que se passava.

Mais uma vez, a preocupação da maior parte dos estúdios das nossas televisões não foi informar, mas explorar os sentimentos de medo e desespero, pois são estes que dão audiências.

A informação televisiva, como se sabe, cada vez mais, não tem por objectivo esclarecer e informar, mas explorar os sentimentos mais primários das suas audiências, transformando a informação num espectáculo permanente.

Houve até um canal, a SIC, que chegou ao extremo de “informar” que sabia (a “SIC sabe”) , de “fonte segura”, que o avião ía afocinhar na pista e até já tinha em directo um “especialista em acidentes aéreos” para acompanhar os momentos de aterragem do avião.

Eu próprio fiquei apreensivo e com um aperto no estomago quando vi o avião, da varanda da minha casa, a sobrevoar Torres Vedras para se posicionar para a aterragem, pensando no pânico que devia ir no interior do aparelho.

Afinal, o que aconteceu foi uma situação normal e frequente, em que se seguiram as normas de segurança habituais, reinando a serenidade e a calma entre passageiros, que estavam devidamente informados sobre a situação e que, meia hora depois de resolvido o problema, seguiram viagem.

A concorrência com as falácias e agressividade das redes sociais e pelas audiências televisivas está a retirar credibilidade informativa à maior parte dos canais (com algumas, cada vez mais raras, excepções).

Resta-nos a credibilidade de (alguma) imprensa escrita e da rádio.

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Pôr a “Ordem” [dos médicos] na ordem!



Reminiscências medievais, combatidas pelo liberalismo novecentista, recuperadas pelo corporativismo fascista e pelo Estado Novo, as Ordens profissionais são hoje poderosas e elitistas organizações que vivem à margem de um desejado relacionamento liberal e democrático de uma sociedade aberta .

Se algumas se adaptaram aos tempos modernos e à democracia liberal, prestando importantes contributos na investigação científica e na formação profissional, como tem acontecido, por exemplo, com a Ordem dos Psicólogos, outras mantiveram o seu estatuto de oposição não formal ao Estrado de Direito Democrático, funcionando como meros poderes  de influência subterrânea, à margem do poder democrático, substituindo-se à acção sindical,  e apêndices ao serviço  não formal de ideologias e facções políticas reacionárias.

É neste último caso que se enquadram, entre outras menos conhecidas ou actualmente mais silenciosas, a Ordem dos Enfermeiros e a Ordem dos Médicos.

Esta última, de forma oportunista, à “boleia” da grave crise sanitária que atravessamos, tem-se colocado diariamente ao serviço de uma comunicação social ávida de escândalos, também ela maioritariamente controlada por editores e directores “formados” na propaganda “austoritária” e na defesa do “ir além da Troika”, ressabiados com a “geringonça”.

É caso para perguntar onde estavam essas “Ordens” quando um primeiro-ministro convidou jovens médicos e enfermeiros a emigrar, ou quando um governo, para “ir além da Troika”, tratou de descapitalizar e enfraquecer todas as estruturas do Serviço Nacional de Saúde.

Também não deixa de ser contraditório que a Ordem dos Médicos, pela voz do seu bastonário, passe a vida a queixar-se da falta de recursos humanos, enquanto, por outro lado, impede a abertura de mais vagas para a formação de médicos, situação, aliás, comum à Ordem dos Enfermeiros.

Finalmente, assistimos à atitude corajosa de um grupo de médicos, que também pertencendo à Ordem dos Médicos, porque a isso, de forma não democrática, são obrigados para exercerem a sua profissão, recordam que o bastonário não fala por todos os médicos, dividindo a classe, em vez de ser o denominador comum, e usando a sua influência para fazer politica partidária (juntamente, acrescentamos nós, com um dos sindicatos médicos, o SIM, e a Associação dos médicos de saúde pública, instituições controladas pelas ala mais retrógrada do PSD, a do “cavaquismo-passos-coelhista”).

Se a célebre e propagada carta do bastonário e ex-bastonário à ministra da Saúde mereceram grande destaque na comunicação social e acolhimento no Palácio de Belém, não foi, infelizmente, o caso da Carta destes médicos, publicada hà dois dias nas páginas do Público, jornal que nem sequer se referiu a esse importante documento na sua primeira página, como o fez com a referida carta da “Ordem”.

Para colmatar a falta de pluralismo e sectarismo ideológico e dos “dois pesos e duas medidas”, cada vez mais evidente na comunicação social, mesmo na dita de “referência”, tentamos contribuir, junto da nossa modesta  audiência, para a divulgação desse importante documento, para que não cai no esquecimento, publicando-o integralmente:

“Em resposta à carta aberta à ministra da Saúde, subscrita por bastonários da Ordem dos Médicos

 In Público de  27 de Outubro de 2020

A carta dirigida à ministra da Saúde pelo bastonário da Ordem dos Médicos (OM) e cinco dos seus antecessores enquadra-se num movimento mais amplo de intervenções de “influenciadores” nos meios da comunicação social e em meios universitários, todas com a mesma orientação e a mesma substância.

“Começam por enunciar dificuldades reais do SNS, sobretudo derivadas da pandemia, ampliam-nas em tom alarmista e daí passam ao ataque político à ministra. Finalmente, e para culminar, chegam ao objetivo mercantil: perante tal “caos”, “desorganização” e “risco” há que recorrer aos serviços privados.

“Poderá haver médicos concordantes com essa carta, por coincidirem com os seus objetivos. Nós não. Não nos sentimos representados.

“A Ordem dos Médicos é uma entidade de direito público, de inscrição obrigatória. Portanto, as posições expressas pelos seus órgãos eleitos têm que corresponder ao máximo denominador comum.

“Todos os cidadãos têm o direito de, em grupo ou isoladamente, expressarem as suas opiniões. O que não é lícito é que a natural credibilidade da Ordem dos Médicos seja mobilizada para as posições pessoais de ex-bastonários e do seu bastonário atual.

“Descrevendo um ambiente de perigo iminente, vaticinando a falência do SNS e amplificando as suas dificuldades, desassossegando e perturbando a saúde mental das famílias e, sobretudo, das pessoas mais idosas e mais isoladas.

““(...) não há tragédia maior do que esta”, diz a carta dos (ex-)bastonários. É bom que se tenha respeito pelas verdadeiras tragédias. É bom que se contribua para a perceção de risco de forma racional e transmitindo a serenidade necessária a quem de facto tem de fazer escolhas todos os dias e tomar as precauções para prevenir o contágio. O alarme transmite pânico e bloqueia a capacidade de decidir racionalmente.

Sabemos que o financiamento para o Serviço Nacional de Saúde tem sido curto ao longo de anos e que os seus custos superam sempre os valores orçamentados. Sabemos também que o Orçamento do Estado para 2021 é insuficiente no que respeita à saúde e a única atenuante é que haverá outra perspetiva quando se discriminar a utilização do Fundo de Recuperação Europeu nesta área. Sabemos também que os concursos para médicos ficam com vagas por preencher porque os salários são baixos, porque a carreira não é atrativa, porque há um excesso de horas extraordinárias e porque é maior a recompensa remuneratória nos estabelecimentos privados.

“A resposta exemplar do SNS na primeira vaga não foi só devida à abnegação de médicos e outros profissionais. Deveu-se também à estrutura e ao espírito do SNS. Diz a carta: “É vital que haja uma mudança imediata de rumo na estratégia do SNS. O SNS está novamente exposto a uma disrupção grave no seu funcionamento, na altura em que ainda nem sequer foi capaz de recuperar o fortíssimo abalo sofrido ao longo dos últimos meses”. Era este também o tom de mais uma intervenção do atual bastonário da OM no jornal da RTP-2, às 21h30 de dia 21 de outubro.

“Curiosamente, cerca de 1 hora depois, na Grande Entrevista da RTP3, o diretor dos Cuidados Intensivos do Hospital de São João, Nelson Pereira, descrevia que logo a seguir ao confinamento tinham estado a preparar tudo para uma eventual segunda vaga e que, tendo recuperado de tal modo as listas de espera não-covid, até tinham ultrapassado a produção do período homólogo do ano anterior.

“Sabe-se que o País é heterogéneo. Não podemos, por exemplo, generalizar as dificuldades, por razões locais, do Vale do Sousa ou de Lisboa e Vale do Tejo para a região Centro onde, durante o ano 2020, têm sido feitos mais rastreios e vacinações que no ano anterior.

“Mas a carta e os “influenciadores” são claros no que propugnam: “Os setores sociais e privados podem ser mais envolvidos no esforço Covid e não-Covid para que a capacidade instalada seja efetivamente usada em vez de desperdiçada” e “(...) o momento do SNS liderar uma resposta global, envolvendo (...) os setores privado e social”.  Muito simplesmente, tratar-se-ia de levar o SNS a comprar (ainda mais) serviços aos estabelecimentos privados, aqueles que, no início da crise, praticamente fecharam, logo disseram que não recebiam doentes com covid-19 e enviaram grávidas positivas para os serviços públicos.

“Mas será que o SNS não está mesmo a utilizar privados em suplementação dos seus serviços internos?

“Bem pelo contrário. De acordo com o Jornal de Negócios de 26 de agosto, 41% do orçamento do SNS é para pagar a privados. Em 2018, últimos números a que temos acesso, 6657,7 milhões de euros foram para comprar serviços a privados (exames auxiliares de diagnóstico, hemodiálise, fisioterapia), num total de custos de 10.909,3 milhões de euros (Relatório e Contas, 2018 - Processo de Consolidação de Contas). E, no momento em que o SNS está a fazer cerca de 20.000 testes diários de RT-PCR ao SARS-COV-2, 55% dos quais nos privados, em muito aumentou (600 mil euros/dia) o fluxo financeiro que sai do Estado para o setor privado.

“A concretização da proposta de operacionalização do chamado “sistema” de saúde, com “normalização” da compra de serviços de saúde a prestadores privados, subverteria o conceito constitucional do Serviço Nacional de Saúde. Com esta proposta, só aumentariam as insuficiências que se apontam ao SNS, bem como o que os portugueses teriam de pagar pela sua saúde.

“O sentido da melhoria do SNS é exatamente o contrário: reforço da capacidade interna, para melhor servir a população em todas as necessidades de saúde e não apenas nas que dão lucro.

Nós, médicos que aqui assinamos, não nos sentimos representados por esta posição dos (ex-)bastonários”.

Aguinaldo Cabral, Álvaro Brás de Almeida, Ana Abel, Ana Jorge, Ana Raposo Marques, António Jorge Andrade, António Faria Vaz, António Rodrigues, Augusto Goulão, Bruno Maia, Carlos França, Carlos Silva Santos, Carlos Vasconcelos, Casimiro Menezes, Filipe Rosas, Graciela Simões, Henrique Delgado Martins, Isabel do Carmo, Jaime Mendes, João Álvaro Correia da Cunha, João Goulão. João Manuel Valente, João Marques Proença, João Oliveira, João Rodrigues, Joaquim Figueiredo Lima, José Labareda, José Manuel Boavida, José Manuel Braz Nogueira, José Ponte, Júlia Duarte, Luiz Gamito, Manuela Silva, Maria Deolinda Barata, Maria Isabel Loureiro, Mário Pádua, Patrícia Alves, Pedro Miguéis, Pedro Paulo Mendes, Rogério Palma Rodrigues, Sara Proença.

quarta-feira, 8 de julho de 2020

Para que serve a “Ordem dos Médicos”?



Havendo sindicatos, universidades, instituições públicas de saúde e partidos políticos, não percebo muito bem para que servem algumas ordens profissionais.


Em democracia não percebo muito bem a sua utilidade.

Ainda menos quando aquilo que se vê diariamente é fazerem mera propaganda de oposição, nomeadamente no caso das ordens dos médicos e dos enfermeiros, substituindo-se aos sindicatos e aos partidos políticos.

A última queixa do provedor da ordem dos médicos é sobre a  “falta de médicos”.

Não percebo a moralidade dessa queixa, vinda de onde vem, exactamente da mesma pessoa e da mesma ordem que se opõe ao aumento de vagas nas universidades para a formação de médicos, atitude idêntica, aliás, à ordem dos enfermeiros.

Sabe-se que existe uma grande falta de médicos de saúde pública e de médicos de família, principalmente na região de Lisboa e Vale do Tejo, neste caso, e ao contrário das frequentes queixinhas dos autarcas do norte, numa situação ainda pior do que no resto do país, situação que contribuiu para o descontrole a que se assiste na região lisboeta em relação ao Covid-19.

Não se percebe assim a incoerência do dito provedor, com uma mão a fazer a única coisa que sabe fazer, queixinhas contra a falta de médicos, com a outra a impedir o aumento de vagas na formação de médicos.

Quando se precisava de toda a gente a remar para o mesmo lado, temos o provedor da ordem dos médicos a fazer o papel de “Jaime marta soares” da saúde…

…infelizmente não é o único!:

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Covid, Redes Sociais e Torturadores de Estatísticas.


Confesso que começo a ficar farto da invasão de especialistas em estatísticas sobre a evolução do Covid-19, que proliferam por aí nas redes sociais.

Claro que as estatísticas podem ajudar a compreender a forma como o Covid-19 se propaga e, a partir delas, combater de forma mais eficaz a sua propagação e ajudar a tomar medidas de prevenção.

O problema é a utilização de forma abusiva dessas estatística para fazer chicana política ou com objectivos ideológicos, como se o Covid-19 tivesse tendência política.

Mais grave ainda é a manipulação abusiva dos dados estatísticos.

Sempre ouvi dizer que se “torturarmos” convenientemente os número eles dão-nos o valor estatístico pretendido.

A mais recente "tortura" dos dados estatístico do Covid-19 dá pelo nome pomposo “novos casos diários por 100 mil habitantes”, servindo, no caso que nos interessa, para justificar a injustificável atitude de países, como a República Checa ou a Dinamarca, em relação à situação portuguesa, atitude que tem, aliás, entre nós, muitos seguidores entre comentadores e propagandistas das redes sociais conotados com a direita populista.

Esquecem os que recorrem a esse “modelo”, altamente tendencioso e manipulável, quatro coisas simples: o vírus não evolui ao mesmo tempo e à mesma velocidade em todos os países; nem todos os países testam tanto como Portugal; os critérios para calcular infectados, por falha grande da União Europeia, não são todos iguais nos vários países; o envelhecimento populacional, factor que muito pesa na gravidade da infecção entre a população, não é idêntico nos vários países.

Por isso, só por má fé, propaganda ideológica ou pura ignorância é que podemos levar a sérios certos modelos estatísticos que proliferam nas redes sociais e entre comentadeiros.

Já sabemos que não estamos todos no mesmo barco, mas, ao menos, que estivéssemos a remara para o mesmo lado.

Precisa-se de mais solidariedade e menos rancor e intolerância.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Os Títulos manipulados do Jornal "Público"

Tal como acontece desde há muito, noutro jornal dito de "referência", o "Expresso", nos últimos tempos, outro jornal  de "referência", o "Público",  usa e abusa da manipulação de títulos de primeira página, com nítida má fé, e meias verdades, apenas com o intuito de provocar reacções de tipo populista.

É o que se chama "descer ao nível do "Correio da Manhã"!

Na edição de hoje do Público, o alvo, mais uma vez, diga-se de passagem, é a classe dos professores.

Não admira que um dos jornais que mais apoiou a acção da antiga ministra Maria de Lurdes Rodrigues contra os professores  e endeusou os malfadados e tendenciosos rakings , continue a usar e abusar da má fé.

O título que acima reproduzimos é um abusivo uso de uma meia verdade.

A intenção é dar a ideia que os professores forma beneficiados com uma subida de escalão  apenas num   ano, alimentando todo o tipo de reacções populistas que tanto têm contribuído para desprestigiar uma classe fundamental para o futuro do país.

Aliás, já se começa a ver o resultado desse tipo de campanhas, alimentadas por comentadores e políticos vários, como o dramático envelhecimento de um grupo profissional e a recusa dos mais novos em abraçar tão nobre actividade.

A escolha de um título manipulador e  de má fé como aquele  esquece que esse escalão foi criado há cerca de dez anos, sem que, ao longo de quase outros dez anos, nenhum professor tivesse beneficiado de uma subido de escalão, apesar de ter de se submeter a avaliação interna e frequentar regularmente acções de formação obrigatórias.

Para ser correcto, o título devia dizer que "ao fim de quase dez anos, finalmente alguns professores, com mais experiência e depois de frequentarem dezenas de hora de formação, paga do seu bolso e frequentada nas suas horas livres, começaram a aceder ao escalão a que têm direito"!.

Mas a intenção de grande parte do jornalismo dito de referência não é informar, mas fazer politica faccioso, servindo os interesses económicos e financeiros que os sustentam.

Depois admiram-se de serem "batidos" pelas redes sociais!

segunda-feira, 6 de maio de 2019

Sobre os Professores e o os aldrabões do costume



Tem sido triste e revoltante de ler, ouvir e ver a reacção da maior parte dos comentadores e jornalistas de plantão acerca do reconhecimento da contagem do tempo de serviço dos professores pelo Parlamento.

A maior parte revela uma grande e vergonhosa falta de escrúpulos, misturando má fé e meias verdades ou nem se dando a esse trabalho, ficando-se pela mentira pura e simples.

A maior parte revela uma grande dose de intolerância em relação às justas reivindicações dos professores.

Nalguns casos percebe-se essa raiva, contida a custo nos últimos tempos, mas  que tem sido constante e coerente, por parte dessa gente, os “fazedores de opinião”, pelo menos desde os tempos da malfadada Maria de Lurdes Rodrigues.

Muitos não sabem o que é investigar ou estudar um assunto, confundindo opinião e dom da palavra com aquele que devia ser o seu trabalho: esclarecer e informar.

Ao esclarecimento público, que devia ser apanágio da sua profissão, sobrepõem preconceitos ideológicos e mera acção de propaganda em prol do estafado discurso “austoritário”.

Muita dessa gente, paga a peso de ouro para debitarem tanto disparate preconceituoso e propagandístico, (recebem ao fim do mês muito mais que qualquer professor no topo da carreira) são os mesmos que andaram a justificar as criminosas medidas antissociais dos tempos da troika.

Essa gente é a mesma que, depois, se vem lamentar das “fake news” e do peso das redes socias.

Esquecem-se que foram eles os primeiros, com todo o seu discurso de intolerância, de  meias verdades, de falta de rigor, de má fé, preconceituoso, que legitimaram a maior parte dos discursos debitados nas redes socias que reproduzem a mesma intolerância, preconceito ideológico, falta de rigor.

Bastava terem lido com atenção as duas únicas reportagens jornalísticas dignas desse nome, e evitariam descredibilizarem-se como jornalistas com tanto disparate debitado na comunicação social nos últimos dias.

Refiro-me às reportagens de Pedro Sousa Tavares (“A guerra que abre caminho à paz nas escolas no fim das aulas” e “O que implica a devolução do tempo de serviço?”) e de Maria Caetano e Paulo Ribeiro Pinto (“Os números explicados”) publicadas nas páginas do único jornal sério que se publica, o “Diário de Notícias”, na sua edição do passado Sábado dia 2 de Maio.

Aliás, não deixa de ser curioso que a maior parte do trabalho de investigação publicado por Pedro Sousa Tavares, quase todo na área da educação, desminta os dislates do seu pai, o “comentadeiro” Miguel Sousa Tavares, sobre o mesmo tema. Ao que parece este último coloca o seu ódio visceral contra os professores à frente do rigor jornalístico. Bastava informar-se junto do filho para não debitar tanto disparate.

Mas vamos à inverdade, meias verdade e má fé debitada por aquela gente e desmentida naquelas reportagens:

“Os professores não podem ser privilegiados em relação à restante função pública e o reconhecimento da necessidade de negociar futuramente o reconhecimento dos anos de serviço congelados abriria a arca de pandora”: - MENTIRA! 

A “árvore de pandora” já foi aberta há muito tempo quando o governo reconheceu e devolveu o tempo congelado a toda a função pública, MENOS  nas chamadas carreiras especiais (Professores, Forças de Segurança e Magistrados). Ou seja, os "privilegiados" foram outros;

“O professores não podem ser privilegiados em relação a outros trabalhadores que tiveram cortes nos salários, aumento de impostos e ficaram desempregados”: FALÁCIA e MEIA VERDADE!

Os professores, além do congelamento do tempo de serviço também sofreram grande cortes salariais e aumento de impostos (são dos poucos, juntamente com o resto da Função Pública, que nunca podem fugir ao pagamento total de impostos) e, se não se registou oficialmente desemprego, oficiosamente, com a forma como empurraram muitos professores para a reforma antecipada, em situação muito desvantajosa, e como foi reduzido o número de professores que entravam anualmente por concurso, houve uma redução drástica do número de professores, uma forma artificial de desemprego, aumentando a precarização da profissão, principalmente entre os mais novos, ou o empobrecimento dos mais velhos pela forma como foram calculadas as reformas.

“A contagem do serviço congelado colocaria automaticamente metade dos professores no último escalão, onde ganham mais de 3 mil euros mensais, porque a progressão é automática” : MEIA-VERDADE, FALÁCIA E MENTIRA.

A progressão na carreira já não é automática e obedece a um rigoroso sistema de avaliação, pelo menos desde 2010. No último escalão o ordenado é superior a 3 mil euros mas a maioria dos professores pagam logo à cabeça descontos para IRS, ADSE e CGA, recebendo pouco mais de 2 mil euros.

Muitas outras falácias e mentiras temos ouvido nos últimos dias, mas ficamo-nos por aqui, tentando demonstrar a falta de honestidade intelectual de uma parte considerável de “opinadores” e “jornalistas”.

Depois admirem-se das “fake news” e da decadência do jornalismo!

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

“Não há corrupção em Portugal” (!!??)… “só” (!!) corrupção ética!!??


O recente desfecho de alguns casos de tribunal, que envolvem figuras da vida politica nacional, é um mau prenuncio do estado da justiça portuguesa, mas também do estado da comunicação social e da classe politica, e representa uma grave machadada na credibilidade democrática.

Como cidadão, não me sinto convencido nem devidamente esclarecido sobre esses desfechos.

Mas algumas conclusões  posso tirar dessa onda de absolvições de casos mediáticos:

- aquilo que qualquer cidadão normal, que vive do seu trabalho, considera eticamente reprovável, afinal não é corrupção…porque é legal. Dá para perceber que quem faz as leis as faz para fomentar o que é reprovável eticamente e, em muitos casos, para proteger o que é perceptível como corrupção. Percebe-se assim a misturada entre escritórios de advogados , classe politica e grandes empresários…;

- o Ministério Público acusa antes de ter provas sólidas e, por incompetência ou conivência, ou ambas, antes de conseguir essas provas, prefere fomentar fugas de informação selectivas, que minam a credibilidade da justiça, contaminando a investigação e as provas e condenando  na praça pública antes de se chegar a julgamento, agindo conforme a conveniência política do momento: “ora agora acusamos políticos do PSD, ora agora acusamos políticos do PS”!!!;

- a comunicação social faz o servicinho sujo de toda essa gente, mais preocupada com audiências do que em investigar por conta própria os casos de que tem conhecimento, misturando,no mesmo saco, falsas suspeitas, muitas vezes por mera vingança politica e pessoal, dos verdadeiros casos de corrupção, sem separar o que é corrupção ética do que é legalmente condenável.

Apesar de toda essa areia atirada aos olhos do incauto cidadão, apesar da incompetência da justiça, há uma forma simples de perceber se os absolvidos são de facto criminosos ou não, mesmo que a lei os proteja:

- se eles, após serem absolvidos, processarem a comunicação social e a própria justiça e se baterem até ao fim por pedidos públicos de desculpa e pelas indemnizações devidas, de forma frontal e aberta, é porque de facto são inocentes. Não era isso que qualquer cidadão injustamente acusado faria?

- se, pelo contrário, se remeterem ao silêncio, então é porque têm mesmo alguma coisa a esconder e preferem não fazer ondas e contentar-se com a forma como se safaram de prestar contas à justiça, jogando com todos os sobre-refúgios de leis, criadas à medida pelos escritórios de advogados que lhe fornecem os mesmo advogados que os safam…

Situações como essas, pouco claras, sem certezas, que não convencem ninguém, só contribuem para minar o Estado de Direito e a Democracia e fomentar a demagogia das redes sociais e dos “coletes amarelos”.

Depois não se admirem se, um dia destes, um qualquer Bolsonaro bater à porta da democracia portuguesa!!

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Redes Sociais : A verdade da Mentira



O jornalista Paulo Pena continua ao seu excelente trabalho de investigação, nas páginas do cada vez melhor Diário de Notícias (agora semanário), sobre o papel dos sites de fake news a operar em Portugal.

Esta semana dedica-se a divulgar o negócio rentável de alguns desses sites de desinformação.

Para além de divulgarem notícias falsas com objectivos políticos muito precisos (quase todos ligados à extrema direita ou aos ressentidos com a “geringonça”), esses sites gerem milhões em negócios mais ou menos obscuros, desde a fuga de impostos à forma com acedem à informação dos incautos e ignorantes que partilham os seus conteúdos.

Um dos sites com maior êxito usa um título enganador e explora indecentemente o prestigio de uma profissão como a dos bombeiros, intitulando-se mesmo “Bombeiros 24”, que usa, no facebook, um nome vergonhosamente mais enganador: “Bombeiros Portugueses”.

Esse site consegue receber dinheiro pela publicidade que integra no seu espaço e está ligado a um outro site com o estranho nome “Bilbiamtengarsada”.

O “Bombeiros 24” usa ainda um software malicioso que “permite aos administradores dos site receber dinheiro de empresas de venda online. O truque é simples: deixa uma espécie de cookies nos computadores dos leitores que passam assim a ficar associados ao Bombeiros 24. Quando essa pessoa usar aquele computador para, por exemplo, comprar alguma coisa na Amazon, a empresa fica a saber que a venda foi “sugerida” pelo site português e paga-lhe uma comissão”

Uma outra prática desses sites é copiarem noticias de outros órgãos de informação verdadeiros sem pagar direitos e, pelo contrário, obterem lucro com isso, à custa dos “gostos” e partilhas dos incautos seguidores.

Ao reproduzirem noticias verdadeiras da comunicação social, fazem-no de forma cirúrgica, carregando nas noticias que falem de crime e corrupção e focando apenas uma tendência politica, para gerarem e potenciarem um sentimento de impunidade e criminalidade muito maior do que aquele que existe na realidade. Ao mesmo tempo acrescentam comentários tendenciosos e falaciosos.

Esses sites plagiam descaradamente órgão de imprensa, ganham dinheiro com isso e, como estão registados no estrangeiro e mantêm incógnitos os seus administradores, conseguem fugir ao pagamento de impostos pelos lucros obtidos com a publicidade.

Além daquele site, o jornalista identificou, no artigo desta semana e noutros que tem a vindo a publicar, vários sites que funcionam dessa maneira, espalhando desinformação, falsas verdades ou meias verdades (como dizia António Aleixo, “para a mentira se tornar segura tem de trazer à mistura alguma coisa de verdade”), ganhando milhões com isso e fugindo ao fisco em grande estilo.

Muitos usam títulos enganadores, fazendo-se passar por órgãos de informação, outros títulos “engraçados”, atraindo mais incautos que partilham essas “informações”, disseminando-as por milhares de seguidores.

Aqui fica a lista de alguns dos sites denunciados pela reportagem, todos registados no estrangeiro:

-“Semanarioextra”;
-“Jornaldiario”;
-“Noticiario.com”;
-“Magazinelusa”
-“Ptjornal”;
-“Lusopt”;
-“EventoXXI”;
-“JornalQ”;
-“Vamoslaportugal”
-“Lusonoticia”;
-“Altamente”;
-“Cura Natural”;
-“1001 Ideias”;
-“Muito Bom”;
-“Muito Fixe”;
-“Tafeio”;
-“Diariopt”;
-“Tuga.press”;
-“Direita Politica”;
-“Luso Jornal”;
-“Portugal Glorioso”;
-“Bilbiamtengarsada”.
-"Bombeiros 24";
-"Bombeiros Portugueses";
…e muitos outros.

Pela nossa parte tudo faremos para denunciar esses sites.

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Redes Sociais : as cenas do ódio.



Aqui há uma semana atrás (15 de Setembro) “postámos” um cartoon de “Shave”onde se resumia a diferença ente a Verdade e a Pós-Verdade: Verdade – Penso, Logo Existo; Pós-verdade – Acredito, logo estou certo.

A pós-verdade do “acredito, logo estou certo” é hoje a tendência dominante nas redes sociais, uma crença que se baseia numa mistela de “fake news”, preconceitos pessoais (sejam os ideológicos, religiosos, culturais e/ou sociais) e ignorância.

Uma mistela que, usando a estratégia de Goebbels, o ministro da propaganda nazi, segundo a qual “uma mentira várias vezes repetida acaba por se tornar verdade”, tornou-se o principal modo de fazer passar a “mensagem” dos movimentos populistas de extrema-direita.

Seguindo com alguma atenção a comunicação social e as redes sociais que acompanham o fenómeno “Bolsonaro”, como já tinha acontecido com Trump, o ódio e a desinformação que prolifera nas redes sociais revela-se assustador.

Não é por acaso que Trump recorreu a elas para se fazer eleger e para governar um país como os Estados Unidos.

Também Bolsonaro, que se recusa a explicar publicamente o seu programa para governar o Brasil e foge do debate franco e aberto com adversários, prefere as redes sociais para fazer passar a sua mensagem de ódio.

Ambos exploram os medos mais primários, com recurso às meias verdades, às falácias e  à simples mentira.

Pelo que temos assistido, o ódio está a ser a arma de uma nova geração de lideres ou candidatos a líderes da extrema direita que procuram fazer passar a sua mensagem, com o objectivo de se conseguirem  fazer eleger por um eleitorado cada vez mais fanatizado pelas redes sociais.

Hoje, nas redes sociais, é cada vez mais difícil debater ideias que sejam contrárias ao “mainstream” imposto pelas Fake News, pela imprensa tablóide, e por um jornalismo que substitui a informação pelo comentário tendencioso, sem se ser insultado.

Aliás, o próprio formato dessas redes sociais é contrário a análises mais profundas que um grunhido de uma ou duas frases feitas (eu, culpado, me confesso: muitas vezes não escapo à onda).

Num Blog ainda é possível alinhavar um texto com principio meio e fim. Mas no facebook, pela rapidez efémera da sua lógica de funcionamento e, pior ainda, no Twiter, limitado a frases curtas, tudo o que passe de uma frase feita propagandista acaba rapidamente no esquecimento.

Ora o Facebook e o Twitter são hoje os meios preferidos, com a eficácia conhecida, para os extremistas do nosso tempo fazerem passar a sua mensagem de ódio, intolerância e ignorância, com o fazem Trump ou Bolsonaro.

O grande drama dos nossos dias é que a chamada imprensa de referência se deixou cair na armadilha das redes sociais e procura navegar a mesma onda, preferindo explorar títulos especulativos e de leitura rápida e recorrer ao comentador cheio de certezas, a procura explicar e analisar criticamente a realidade cada vez mais complexa em que vivemos.

Claro que existem excepções, mas estas (jornal “Público” e “semanário” “Diário de Noticias” e mais um ou outro caso no “Expresso” e nas televisões e rádios - RTP 1, 2, 3 e Antena 1, e, mais isoladamente, na SIC Notícias) são cada vez mais raras e minoritárias e pagam a sua “ousadia” com crescentes dificuldades financeiras ou quebra de audiências, audiências cada vez mais fanatizadas pelo estilo das redes sociais.

O que domina é o estilo arruaceiro e intolerante de um Miguel Sousa Tavares ou de uma Manuela Moura Guedes, embora bem informado, mas que usa a informação com meias verdades e falácias e eivada de fortes preconceitos ideológicos, o estilo que consegue dar audiências e concorrer com as redes sociais ,  exactamente porque usa o mesmo estilo que é dominante nestas.

O “caso Bolsonaro” veio trazer a evidência do crescimento da linguagem do preconceito e do ódio, que já era perceptível e latente, e é cada vez mais dominante nas redes sociais.

A melhor forma de resistir a essa onda dominante é opor o “pensar” ao “acreditar”, com a humildade de quem “só sabe que nada sabe” e que muitas vezes pode não estar certo.

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

A OCDE e os Professores



Não tenho dúvidas sobre a qualidade técnica no tratamento da informação vinculada pelos relatórios da OCDE.

A minha dúvida começa quando vejo as interpretações que se fazem em relação a esses dados e quando os dados não estão correctos.

A comparação que se tem de fazer, no caso de Portugal, deve ser em relação à mesma situação profissional nos países da zona euro, que é com esses que nos devemos comparar (pois, se temos de cumprir os mesmos critérios de convergência e as mesmas regras financeiras, então também a comparação deve ser feita com a média geral da zona euro...).

Quando se compara o vencimento dos professores com a situação dos licenciados em Portugal, temos de ter em conta algumas situações.

A maior parte dos licenciados que trabalham fora da função pública (como advogados, gestores…jornalistas…) conseguem pagar menos impostos (eu ía dizer “fugir aos impostos”…mas não quero abusar) e por isso declaram menos rendimento do que aquele que é declarado pelos professores que, como qualquer funcionário público, paga mensalmente impostos, não recebendo mais do que 2/3 do vencimento oficial, pelo menos no topo da carreira.

Mas, para além das comparações absurdas exploradas pela imprensa portuguesa (também gostava de saber quanto ganha um director de jornal ou um comentador da televisão, mas nunca vi esses dados em lado nenhum..), fazendo o que se chama “torturar estatísticas” até elas darem o resultado pretendido (ou confirmar os nossos preconceitos políticos neoliberais…), os próprios dados referidos não batem certo com a realidade.

Quando deixei o ensino há uns três anos estava no topo da carreira, embora tivesse sido criado então um novo escalão (eu estava no 10º escalão de então, passei para o 9ª, ganhando o mesmo, e foi criado um novo 10º escalão, para onde ninguém trasitou, tornando-se um escalão fantasma, que, pelo que sei, continua a existir sem ninguém a “frequentá-lo”).

E é aqui que a falácia da interpretação dos dados do relatório da OCDE se confunde com a pura mentira.

Quando estava no antigo 10º escalão (actual 9º escalão) ganhava cerca de 43 mil euros por ano, dos quais recebi cerca de 29 mil, já que os impostos eram logo descontados no acto de entrega do vencimento (tenho os dados do IRS se for preciso comprovar).

Há ainda que lembrar que, nos anos da troika, houve um corte significativo do vencimento de base , nos subsídios de férias e natal  e um significativo aumento de imposto, pelo que, nos últimos anos que por lá andei, recebia menos de 25 mil euros por ano.

Não percebo onde é que a OCDE foi buscar os 56 400 euros que aquele estudo atribui como vencimento dos professores no topo da carreira em Portugal (contra a média de 51 mil na OCDE) e que justificam a afirmação de que estes ganham mais do que os outros licenciados e do que a média da OCDE no topo da carreira.

É pura mentira!!!

E mesmo que houvesse algum professor no novo 10º escalão, o rendimento bruto (sem descontar impostos) não chega aos 48 mil euros (fazendo as contas por alto!!!!!!).

Só por isso, o actual relatório da OCDE não merece crédito.

Alguém anda a recolher dados errados e a OCDE (e os jornalistas e comentadores portugueses) parece que acreditou neles…

Por cá esperava-se que os jornalistas  e comentadores, que ganham mais que os professores, fizessem, no mínimo, o seu trabalho de investigação.

quarta-feira, 28 de março de 2018

Como desviar as atenções da consequência do Brexit

Em situações mal esclarecidas e pouco claras, como a tentativa de assassinato de um antigo espião russo em solo britânico, a pergunta que faço, em primeiro lugar, é: a quem interessa essa acto?

Até agora não existem provas credíveis sobre a origem desse crime ignóbil, embora a resposta mais óbvia e mais fácil seja acusar Putin por estar detrás desse atentado às relações internacionais.

Quando, sem provas credíveis, se lança de imediato uma acusação, não baseada em provas credíveis e concretas, recorrendo à velha técnica segundo a qual “uma mentira várias vezes repetida se torna verdade”, com acusações ao “suspeito do costume”, devemos manter todas as nossas reservas sobre qualquer conclusão apressada.

É sempre bom recorrer aos exemplos da História, como o caso do incêndio do Reichtag ou, bem mais recente, o caso das célebres armas de “destruição maciça” de Saddam.

Em ambos o caso a técnica foi a mesma:

- encontrar um acusado “credível”, os “comunistas” no caso alemão [até puseram no lugar um louco de passado comunista], um ditador sanguinário, no caso do Iraque;

- apresentar “provas” “credíveis”, que consigam enganar toda a gente, explorando receios e preconceitos ideológicos, repetindo a “mentira” da “prova” até esta se tornar verdade;

- diabolizar os que duvidam dessas “provas”, acuasando-os de serem mal informados ou aliados de ideologias assassinas e de ditadores, impedindo assim, pela “superioridade moral”, qualquer tentativa de análise contrafactual.

Em situações como a do caso britânico, a pergunta não deve ser se Putin era capaz de o fazer, mas em que é que esse acto o beneficiava, a não ser que se considera Putin um idiota.

A resposta a esta última questão é a de que Putin era capaz de o fazer, mas em nada podia beneficiar com esse acto, porque, pode-se não gostar de Putin e de tudo o que ele representa, e nós já aqui escrevemos várias vezes que não gostamos, mas ele não é um idiota.

O crime ocorreu em plena campanha eleitoral russa, e a sua divulgação só podia prejudicar a sua eleição.

Por outro lado, numa situação de crescente isolamento da Rússia, devido ao caso Ucraniano e à sua intervenção na Síria, não lhe interessava agravar essa situação.

Por último, se Putin estivesse interessado em mostrar a sua força face ao “ocidente” tinha outras formas mais sofisticadas e credíveis de o fazer.

Até agora não existe uma prova credível do envolvimento russo nesse condenável acontecimento e tudo o que tem acontecido é atirar areia aos olhos da opinião pública.

Então quem ganha com esta situação?

Sem duvida o poder politico britânico, que assim pode desviar as atenções do descalabro a que está a conduzir o país, numa altura em que decorrem as negociações do Brexit.

Claro que isto não quer dizer que tenham sido os serviços secretos britânicos. Mas existe um claro aproveitamento politico de certos sectores políticos britânicos para ganharem credibilidade internacional à custa deste lamentável caso.

Por detrás deste caso podem estar serviços secretos de países inimigos da Rússia,  máfias russas, "putinistas" descontrolados, adversários internos de Putin ou quem queira agravar a já de si pouco credivel diplomacia russa.

Tudo é possível, mas só um inquérito independente, que explore, sem preconceitos, todas as hipóteses, e sem explorar apenas a pista dos “suspeitos do costume” é que pode tornar credível uma explicação para a situação.

Até lá, todas as conclusões e todos os aproveitamentos políticos da situação só servem para destruir [convenientemente ?...} provas e agravar a já de si muito perigosa situação internacional.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

"Fake News" e "novilingua" :“corporação” , “extremo” e “populismo”


Na novilíngua neoliberal que se expandiu por cá nos anos da troika, como uma espécie de antecipação à portuguesa das “fake news” , numa atitude revisionista na utilização de conceitos, com o objectivo de lançar a confusão, há três “conceitos” que continuam a fazer o seu caminho, ao sabor da propaganda e das conveniências de cada momento.

São eles os de “coporação”, “extremismo” e “populismo”.

Hoje, muitos jornalistas e comentadores, alguns, pasme-se, com formação universitária, usam a abusam desses conceitos de forma falaciosa e tendencioso, pois, não acredito  que o façam por ignorância.

É assim que confundem,propositadamente, interesses “corporativos” com lutas sindicais ou reivindicações profissionais.

Existem milhares de obras a explicar as diferenças entre “sindicato” e “corporação”, mas essa gente insiste em usar, de forma pejorativa,esta designação, exactamente porque sabem que as “corporações” são conotadas com um passado medieval não liberal nem democrático, ou com a recuperação dessas instituições pelos regimes fascistas ou de filiação ideológica próxima, corporações que apareceram e estiveram na base institucional destes regimes para, entre outros objectivos, retirarem influência aos sindicatos.

Por cá, existem ainda corporações, devidamente enquadradas no regime democrático e com um funcionamento legal, mas que nada têm a haver com os objectivos da luta sindical, embora possam colaborar nesta em certas conjunturas, mas com a designação de “ordem” em vez de “corporação”, como  as ordens dos médicos, dos advogados, dos enfermeiros, dos engenheiros … e, embora, neste caso, sim gerador de alguma confusão, um sindicato dos jornalistas que, na realidade, funciona como uma “ordem”.

Outro conceito abusivamente usado, quase sempre pelos mesmos comentadores e jornalistas, é o de “extrema-esquerda” para designar, a nível português, mas que também usam e abusam a nível internacional, o BE e o PCP e, lá fora, a actual liderança trabalhista britânica, o Melanchot e o seu movimento, o Podemos, o Syryza e outros movimentos do género, confundindo, propositadamente, o radicalismo, no sentido de defesa de mudanças estruturais anticapitalistas e  o radicalismo, no sentido da coerência de valores, ou a ideia de ir à raiz dos problemas, com a intolerância, o sectarismo e a violência, caractaristicas do verdadeiro Extremismo (que existe tanto à esquerda como à direita), apenas para lançar a confusão e o anátema sobre forças politicas que, em democracia, têm um importante e legitimo papel de absorver as vozes de protesto, de defenderem minorias ou de manterem acesos ideais de justiça social.

Uma classificação tão idiota como seria o de classificar o CDS de "extrema-direita"...

Por último, há um terceiro conceito abusivamente usado por essa gente, hoje muito actual, que é o de “populismo”, confundindo essa característica, que existe em quase todas as formas de actuar politicamente, transversal a todos os partidos, da direita à esquerda, que têm, ou deviam ter por objectivo, ouvir as preocupações da população e darem voz a essas preocupações, com um conceito, este sim ligado a uma tendência politica,a extrema-direita neofascista, que tem como principal motor da sua existência fazerem-se porta-voz de preocupações populares, mas arvorando-se, ao mesmo tempo, como únicos responsáveis por essa vontade, ditos representantes de um “povo” que fazem coincidir com a “Nação” e a “raça”.

Ao confundirem a legitima defesa de direitos socias e económicos, no seio de uma Europa (que, em vez de se preocupar com os seus cidadãos e o seu bem-estar, tem como preocupação quase exclusiva agradar aos “mercados”), com o dito “populismo”, onde misturam tudo numa amálgama “antieuropeia” (como se defender esses direitos sociais, não fosse uma forma de ser Europeu…), apenas procuram desacreditar essas legitimas e democráticas reivindicações.

Quem usa o termo “corporação” para caracterizar lutas sindicais, quem usa a designação de extrema-esquerda (em vez de esquerda ou esquerda radical) para caracterizar BE, PCP, Podemos e outros movimentos do género, quem chama “populistas” aos que criticam a destruição do estado social europeu  e defendem os seus cidadãos contra os interesses dos ditos “mercados”, não tem, para mim , qualquer credibilidade, mesmo que embrulhe as suas diatribes em belas palavras ou numa argumentação aparentemente fundamentada e “informada” (mas, quem usa aqueles conceitos no contexo referido, destrói, à partida,  a credibilidade dessa mesma “fundamentação” ou “informação”…).

Hoje, quando procuro saber da credibilidade de um jornal ou de um comentador, uso como forma de aferir, o modo com aplicam esses três conceitos.

Quem fomenta,deliberadamente, a ignorância, não merece credibilidade.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

UBER Versus TÁXIS : quando a poeira começa a assentar...


Bruno Nogueira, na sua crónica de ontem,o "Mata-Bicho", na Antena 1, com humor, consegue desmontar muitos dos argumentos usados para denegrir os taxistas e para endeusar a UBER, sem deixar de desmascarar aqueles, Antral e alguns taxistas boçais, que muito têm contribuído para desacreditar a luta justa dos taxistas.

Agora, que as coisas começam a acalmar e a poeira que a comunicação social nos atirou aos olhos , com o contributo da Antral e de alguns taxistas javardos,  começa a assentar, podemos também começar a perceber melhor o que é que está em causa neste processo todo, lendo, por exemplo, a crónica de ontem, no Público, de Rui Tavares, que nos alerta para "A Terceira Metade da História".

Também hoje um universitário especialista em transportes urbanos, Michel Ferreira,  explica AQUI a onde nos pode conduzir a "uberização"  da sociedade.
 
Nem a Uber é o "santinho" modernaço imposto pelos "novos tempos" da globalização, nem os taxistas são a caricatura que, também por culpa própria de alguns de entre eles, nos querem impingir.
 
Apesar do tiro no pé da algumas atitudes condenáveis de alguns taxistas e  da forma como a Antral tem conduzido o processo, no essencial a luta dos taxistas é justa.

 

domingo, 5 de junho de 2016

SIC : Manipulação Informativa

Sequência do noticiário televisivo da SIC, hoje à hora do almoço:
 
- abertura com manifestação de umas dezenas de apoiantes do direito das escolas privadas a serem subsidiadas pelo Estado, junto ao Congresso do PS, com cartazes de ataque pessoal ou que repetem as bocas de Passo Coelho na véspera (a SIC procura o melhor ângulo para evitar mostrar o reduzido número de manifestantes, rodeados por mais jornalistas que manifestantes, mas a situação é difícil de disfarçar;
 
- repetição da intervenção de Francisco Assis,  já vista "n" vezes desde a noite anterior em todos os noticiários, com imagens da chegada do mesmo ao Congresso do PS (não sei se em directo se da véspera);
 
- o jornalista, em directo, realça a comunicação de Assis, enquanto ao fundo discursa António Arnaut...nem uma palavra sobre a intervenção que ocorre em directo;
 
- repetição da reportagem da véspera sobre um discurso de Passo Coelho, onde propõe aquilo que não fez em quatro anos de governo e onde deu o mote a algumas das frases que estavam na manifestação desse dia do "amarelos" (desta vez apenas de branco);
 
- volta ao congresso do PS para passar, em diferido, reacções de dirigentes do PS às afirmações de Coelho...
 
... e segue para "bingo" (..talvez...para futebol!???, não me lembro..)..
 
Que nojo de informação!!!