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quinta-feira, 13 de setembro de 2018

A OCDE e os Professores



Não tenho dúvidas sobre a qualidade técnica no tratamento da informação vinculada pelos relatórios da OCDE.

A minha dúvida começa quando vejo as interpretações que se fazem em relação a esses dados e quando os dados não estão correctos.

A comparação que se tem de fazer, no caso de Portugal, deve ser em relação à mesma situação profissional nos países da zona euro, que é com esses que nos devemos comparar (pois, se temos de cumprir os mesmos critérios de convergência e as mesmas regras financeiras, então também a comparação deve ser feita com a média geral da zona euro...).

Quando se compara o vencimento dos professores com a situação dos licenciados em Portugal, temos de ter em conta algumas situações.

A maior parte dos licenciados que trabalham fora da função pública (como advogados, gestores…jornalistas…) conseguem pagar menos impostos (eu ía dizer “fugir aos impostos”…mas não quero abusar) e por isso declaram menos rendimento do que aquele que é declarado pelos professores que, como qualquer funcionário público, paga mensalmente impostos, não recebendo mais do que 2/3 do vencimento oficial, pelo menos no topo da carreira.

Mas, para além das comparações absurdas exploradas pela imprensa portuguesa (também gostava de saber quanto ganha um director de jornal ou um comentador da televisão, mas nunca vi esses dados em lado nenhum..), fazendo o que se chama “torturar estatísticas” até elas darem o resultado pretendido (ou confirmar os nossos preconceitos políticos neoliberais…), os próprios dados referidos não batem certo com a realidade.

Quando deixei o ensino há uns três anos estava no topo da carreira, embora tivesse sido criado então um novo escalão (eu estava no 10º escalão de então, passei para o 9ª, ganhando o mesmo, e foi criado um novo 10º escalão, para onde ninguém trasitou, tornando-se um escalão fantasma, que, pelo que sei, continua a existir sem ninguém a “frequentá-lo”).

E é aqui que a falácia da interpretação dos dados do relatório da OCDE se confunde com a pura mentira.

Quando estava no antigo 10º escalão (actual 9º escalão) ganhava cerca de 43 mil euros por ano, dos quais recebi cerca de 29 mil, já que os impostos eram logo descontados no acto de entrega do vencimento (tenho os dados do IRS se for preciso comprovar).

Há ainda que lembrar que, nos anos da troika, houve um corte significativo do vencimento de base , nos subsídios de férias e natal  e um significativo aumento de imposto, pelo que, nos últimos anos que por lá andei, recebia menos de 25 mil euros por ano.

Não percebo onde é que a OCDE foi buscar os 56 400 euros que aquele estudo atribui como vencimento dos professores no topo da carreira em Portugal (contra a média de 51 mil na OCDE) e que justificam a afirmação de que estes ganham mais do que os outros licenciados e do que a média da OCDE no topo da carreira.

É pura mentira!!!

E mesmo que houvesse algum professor no novo 10º escalão, o rendimento bruto (sem descontar impostos) não chega aos 48 mil euros (fazendo as contas por alto!!!!!!).

Só por isso, o actual relatório da OCDE não merece crédito.

Alguém anda a recolher dados errados e a OCDE (e os jornalistas e comentadores portugueses) parece que acreditou neles…

Por cá esperava-se que os jornalistas  e comentadores, que ganham mais que os professores, fizessem, no mínimo, o seu trabalho de investigação.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

OLHA A NOVIDADE !!!!??? : Inquérito da OCDE encontra portugueses de bolsos vazios

Desculpem lá a ignorância, mas a OCDE não é aquela organização que passa a vida a dizer que  os salários e as pensões dos portugueses devem ser cortados?
 
E não é essa a mesma organização que acha um escândalo os miseráveis aumentos dos já de si miserável salário mínimo em Portugal?
 
Então, porquê tanta admiração?
 
Ou será que fazem estudos desses apenas para servir nos rolos de papel higiénico das casas de banho dos burocratas que produzem estes estudos e executam medidas que agravam a situação?

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Portugal é o 9.º país da OCDE com os salários mais baixos

Segundo notícia hoje divulgada pelo Diário de Notícias, Portugal é o 9.º país da OCDE com os salários mais baixos, entre 35 países analisados.
 
Pode ler-se ainda nesse relatório que "em contrapartida, é um dos que têm maior carga horária".
 
Na zona euro apenas a Eslováquia, a  Estónia e a  Letónia estão pior que nós.
 
Ainda de acordo com esse relatório a "vida dos trabalhadores portugueses também não melhora se medida pelo número de horas efetivamente trabalhadas: a OCDE refere que foram 1868 horas em 2015, o que coloca Portugal no 10.º lugar numa lista de 38 países".
 
O relatório que analisa principalmente o desemprego, onde a situação portuguesa não é melhor, embora com ligeira tendência de melhoria, mostra grande preocupação com a situação do desemprego de longa duração, que se agravou nos últimos anos, e a situação  dos jovens, "sobretudo pouco qualificados - que não estudam nem se encontram em formação ou a trabalhar -," e que  "estão entre o grupo que corre maiores riscos de ser deixado permanentemente para trás no mercado de trabalho".
 
Será que os burocratas de Bruxelas, quando tomam decisões sobre Portugal, preocupados com os salários, o horário de trabalho e as leis do trabalho, leram estes relatórios?
 
Não me parece, pois relatórios como este, que se cruzam com outros que vão no mesmo sentido, mostram que as condições de trabalho são das piores na Europa, os salários são dos mais baixos e os horários dos mais pesados, tudo o contrário de alguma retórica do politburo de Bruxelas e dos seus miguéis de vasconcelos cá do país. 

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

OCDE – Quando a ideologia do pecado original se impõe à competência técnica


Acabou de ser divulgado um dos mais recentes estudos da OCDE sobre Portugal, o “Economic Syrvey Portugal 2014”.

Se tecnicamente esses relatórios da OCDE são irrepreensíveis, já quanto à retórica que enquadra esses documentos ela enferma sempre do mesmo defeito: o pecado original da ideologia que está por detrás da pretensa objectividade dessa organização.

A OCDE teve origem na OECE, a organização fundada em 1948 para gerir a aplicação dos fundos do Plano Marshall, impondo à Europa Ocidental um determinado modelo de economia, consumo e produção que, mais do que defender a “democracia representativa” , inscrita  nos objectivos iniciais, teve como principal preocupação implementar uma “economia de livre mercado”, o segundo objectivo inscrito na sua fundação.

A defesa da democracia não passou, na altura, de simples retórica, já que um país como Portugal, então governado pelo ditador Salazar, foi aceite como país fundador, juntando-se, em 1959, a Espanha do “generalíssimo” Franco.

Pelo modo como os herdeiros desses nossos  tempos se babam todos pelo modelo chinês, ou pelos modelos socias do México e da Índia, ficamos esclarecidos sobre as “preocupações democráticas” dessa instituição.

Em 1961, com a entrada dos Estados Unidos para a organização, esta muda para a sua actual designação de OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico), e definem-se melhor os seus objectivos:

- apoiar um crescimento económico duradouro;
- desenvolver o emprego;
- aumentar o nível de vida;
- manter a estabilidade financeira;
- ajudar os outros países a desenvolverem as suas economias;
- contribuir para o crescimento do comércio mundial;

Também se tornou em instrumento da Guerra Fria, gerando “tiques” ideológicos de que nunca se libertou até aos nossos dias.

Com aqueles fins, essa organização habituou-nos a, regularmente, divulgar relatórios sobre vários aspectos da economia e da sociedade, que se apresentam com uma áurea de grande qualidade técnica, para melhor disfarçar toda a retórica neoliberal da organização.

De facto, se não é discutível a qualidade técnica desses estudos, já que os técnicos executam com mestria a organização das estatística, para forçar o resultado imposto pela ideologia socio-económica da organização.

 Um número devidamente “torturado” dá sempre o resultado que pretendemos. E nada melhor para isso do que “torturadores” competentes e habilitados…

E um bom técnico é aquele que consegue esse objectivo, tal como o mercenário competente executa com competência as ordens de quem lhe paga.

E é assim que chegamos ao mais recente relatório da OCDE sobre Portugal.

Neste relatório a OCDE defende que o número de trabalhadores das administrações públicas em Portugal deve continuar a encolher, apesar de  “ reconhecer que houve uma diminuição significativa no número de trabalhadores do sector público nos últimos anos. Desde 2012 o número de funcionários caiu 8% e o sector público pesa 12,4% (excluindo hospitais e empresas públicas) no total da força de trabalho da economia, refere o documento. "Está agora abaixo da média da OCDE". Mas mesmo assim, e como se vê, ainda não chega.

E quais são as áreas, segundo essa “competente” organização, com excesso de funcionários? : a Educação e as Forças de Segurança: “ a OCDE argumenta que continua a haver excesso de pessoal "em áreas específicas como as forças de segurança e a educação". E concretiza: "com mais de 450 polícias por cada cem mil habitantes, a polícia portuguesa é a segunda da Europa com mais recursos humanos". Na educação, "o tamanho médio das turmas é pequeno, apesar da investigação da OCDE sugerir que o tamanho das turmas é um factor muito menos importante do que a performance dos professores para o processo de aprendizagem dos alunos", frisa ainda.

Ou seja, pelo menos no caso da educação defende a redução de professores e o aumento do número de alunos por turma.

Ora, como se viu pela forma caótica como se iniciou este ano lectivo, se não houvesse falta de professores essa confusão nunca se tinha registado.

E, como toda a gente ligada à educação sabe, as últimas medidas deste governo aumentaram de forma escandalosa o número de alunos por turma, tornando-as quase “ingovernáveis” em termos humanos.

Das duas três: ou os “técnicos” da OCDE não obtiveram os dados correctos, ou estão de má-fé, ou são incompetentes….ou um pouco de tudo…

Muitas vezes o problemas das médias de professores por aluno enferma  de um erro de visão: muitos professores são colocados em tarefas burocráticas, fora do universo do contacto directo com os alunos e com turma, já que a burocracia nas escolas tem vindo a aumentar de forma escandalosa nos últimos anos, atirando para a responsabilidade dos professores tarefas que não são as suas  e deviam ser de outros serviços e técnicos, ou mesmo da sociedade na sua generalidade…mas aí, mais uma vez esbarramos com a redução dos funcionários públicos, preconizada pela OCDE…é a velha história da pescadinha de rabo na boca!!! .

Este é um daqueles exemplos da forma como a OCDE tortura os números ou como a macroeconomia e a macro estatística esconde a realidade e desumaniza as decisões.

Provávelmente, com as polícias acontece algo de idêntico, já que muitos dos agentes têm sido canalizados para funções burocráticas que lhe têm sido impostas nos últimos anos.

Mas esse relatório revela outras preocupações que  enfermam mais uma vez do pecado original da ideologia neoliberal dessa organização:

“O relatório recorda todas as medidas de redução dos gastos com salários que foram implementadas durante o programa de resgate da troika - desde a abolição de salários, ao alargamento do horário de trabalho para as 40 horas sem compensação salarial adicional, passando pelos cortes salariais. Contudo, frisa que o Tribunal Constitucional chumbou o corte agravado nos salários dos funcionários públicos a partir de Maio e que o corte actualmente em vigor terá de ser revertido parcialmente no próximo ano”.

Ficamos assim a saber que essa organização aprova o aumento da jornada de trabalho, acompanhada pela redução dos salários e junta-se à campanha negra contra a Constituição e o Tribunal Constitucional.

Mais uma vez essa organização está de má-fé e “tortura” os números, já que Portugal é dos países onde a comparação dos salários, nas mais variadas actividades, é dos mais baixos da Europa, contribuindo até para o crescimento da pobreza, tão baixo eles são.

Mas a desfaçatez e o fanatismo ideológico neoliberal dos relatores a OCDE não se fica por aqui:
“O salário mínimo em Portugal é dos mais baixos da Europa Ocidental mas a OCDE aponta para o risco de futuros aumentos.

“Embora Portugal apresente o nível de salário mínimo mais baixo entre os países da Europa Ocidental, futuros aumentos deste referencial poderão ter consequências negativas, afirma a OCDE. Desde logo, a subida pode reduzir o emprego entre os trabalhadores abrangidos pela retribuição mínima garantida, diz o Economic Survey Portugal 2014, recordando que o peso deste grupo aumentou de 6% em 2007 para 11,3% em 2011”.

E leia-se a desfaçatez da “lógica da batata” para fundamentar a preocupação com o “enorme” aumento do salário mínimo em Portugal:

"Com o crescimento da produtividade baixo, há o risco de que o aumento do salário mínimo possa, na verdade, aumentar a desigualdade, ao invés de reduzi-la, se uma medida destas gerar perdas de emprego significativas", continua o documento. Para a OCDE, futuras mexidas devem ser feitas em linha com o crescimento da produtividade e inflação, "como anunciado pelo Governo".

Muitas das recomendações e das ameaças veladas desse relatório contradizem, ou contribuem para contradizer, caso sejam levadas a sério, alguns dos “nobres” objectivos dessa organização, a saber, recordamos mais uma vez: “apoiar um crescimento económico duradouro”,  “desenvolver o emprego” e “aumentar o nível de vida”. Ficamos assim a saber que alguns dos objectivos dessa organização, ou são desconhecidos dos relatores desses documentos, ou não passam de retórica “politicamente correcta” para enganar papalvos.

Mas, ao apresentar publicamente relatório em Lisboa, o líder daquela organização, o mexicano Angel Gurría (que tem origem num dos partidos com uma das mais longas histórias de corrupção, com ligações ao narcotráfico mexicano…mas isso é outra história… ) o mesmo entrou  em contradição com os objectivos apontados naquele relatório,  (eu diria, por puro cinismo) ao revelar preocupações como o nível de pobreza em Portugal , dizendo ser necessário “fazer mais para proteger a população mais vulnerável” ( e o homem disse-o sem se rir!!!).

Nesse sentido, recomendou que Portugal faça "ainda mais para aumentar as competências" dos trabalhadores. Angel Gurría adiantou também que "a OCDE encontra-se a trabalhar em prol de uma estratégia para aumentar as competências em Portugal”. Ou seja, o relatório aconselha a reduzir o número de professores e depois vem o dirigente máximo da OCDE, ao apresentar o relatório, a apelar a que se aumentem as competências dos portugueses.

….Sobre a retórica cínica (ou sinistra) dessa organização, estamo falados…mais uma vez.


(os textos entre aspas foram transcritos com origem nas edições on-line do Diário Económico e do Jornal de Negócios de 27 de Outubro de 2014)

terça-feira, 14 de maio de 2013

"Estudos" à OCDE...um relatório à medida de Passos Coelho.




Cada vez desconfio mais da objectividade e das “boas intenções” de estudos de organizações como a OCDE.
Esses estudos, para além de revelarem um conhecimento parcial das “realidades” ou dos países que “estudam”, parecem basear-se em dados parciais e manipulados, muitas vezes aqueles que os próprios governos lhes fornecem.

Aliás, é significativo que o "estudo" agora publicado tenha sido hoje apresentado com o próprio interessado nas suas conclusões, Passos Coelho, sentado na mesa da conferência de apresentação, situação reveladora da "independência" desse relatório.
 
Para além disso, esses estudos revelam quase sempre um forte preconceito contra trabalhadores, sindicatos, direitos sociais, e uma grande parcimónia para com especuladores financeiros, lucros do grande capital, muitos deles de origem duvidosa, ou para com os  paraísos fiscais e a corrupção fiscal. 
Aliás, o modelo que essas instituições, às quais podemos juntar um FMI, um BCE ou uma Comissão Europeia, parecem defender como modelo de “desenvolvimento”, pelo menos para o sul da Europa, é o modelo de trabalho e condições sociais e salariais de um Bangladesh ou de uma China.   
Mas nada disso é de admirar se tivermos em conta que os burocratas, que são contratados para essas instituições, todos eles muito bem pagos e sem contacto com a realidade dos cidadãos europeus,  passam pelo crivo da ideologia neoliberal dominante em universidades de economia de onde saem esses quadros, com uma visão formatada da sociedade, do mundo do trabalho, do mundo empresarial e financeiro.

Quem pensar fora da lógica do sistema neoliberal nunca encontrará emprego nessas instituições.
 
Não é por isso de admirar a coincidência entre os estudos dessas instituições e a as opiniões políticas dominantes na União Europeia.

 Sobre o assunto merece alguma atenção a audição da crónica de hoje de Nicolau Santos, as Contas do Dia,  na Antena 1:

terça-feira, 22 de maio de 2012

...Estavam à espera de quê? : Portugueses pouco satisfeitos com a vida, revela OCDE.

A mesma OCDE que tem promovido estudos que servem de base para lixar a vida dos portugueses, vem agora revelar que os portugueses são dos que estão menos satisfeitos com a sua vida. Estavam à espera de quê?:

terça-feira, 12 de abril de 2011

MAIS UM MITO QUE CAI



 Um relatórios recente da OCDE faz cair por terra o mito dos alemães como trabalhadores incansáveis e dos portugueses e espanhóis como os perguiçosos da Europa.
Segundo esse relatório os portugueses são mesmo aqueles que trabalham mais horas.
Ou seja, se não existe produtividade, não é porque se trabalhe pouco, mas porque a gestão é errada.
É mais um mito que cai por terra: trabalhar mais não aumeta a produtividade nem é sinónimo de maior rendimento para os trabalhadores.
 Os nossos líderes políticos e os nossos economistas, sempre tão prontos a acusar o factor trabalho como responsável pela crise do país, perdem, com este relatórios, todosos argumentos que usam para desvalorizar o factos trabalho

sábado, 11 de dezembro de 2010

PISA com P de PROPAGANDA

Foram divulgados esta semana os resultados do estudo PISA, realizado pela OCDE e que avalia o desempenho dos jovens que tinham 15 anos em 2009, em áreas como a Matemática, a Ciência e a Língua Materna.

Portugal, ao contrário do que acontecia em anos anteriores, revelou resultados melhores do que aqueles a que estávamos habituados.

Todos aqueles que trabalham no ensino público em Portugal, nomeadamente os professores, devem sentir-se orgulhosos com os resultados desse relatório que vem desmentir as campanhas negras de que estes profissionais têm vindo a ser vítimas desde 2005.

Aliás, o papel dos professores nesses resultados é de tal forma evidente que José Sócrates não pode deixar de, cinicamente, elogiar o desempenho desses profissionais para a obtenção desses resultados.

Não deixa de ser irónico esse elogio, vindo de quem mais fez dos professores o principal alvo do seu combate político contra as “corporações” e os “privilégios”, retirando-lhes influência e poder nas escolas, aumentando-lhes a carga horária e o trabalho burocrático, aos mesmo tempo que lhe retirou direitos, congelou carreiras e salários, preparando-se até para reduzir os salários de uma parte considerável dos professores, alguns dos quais vão passar a receber em 2011 um salário inferior ao que recebiam em 2005.

É igualmente reveladora a forma como alguma comunicação social se deixou arrastar pela propaganda governamental, tentando colar esses resultados à política educativa deste governo, ressuscitando Maria de Lurdes Rodrigues.

Seria importante esclarecer que os alunos que participaram nestes testes tinham 15 anos em 2009, o ano a que se referem esses dados, e hoje terão uns 16 ou 17 anos, logo não foram “beneficiários”, durante a maior parte do seu percurso escolar, das medidas impostas à educação por este governo (com algumas das quais, devo dizê-lo, até concordo).

Só em 2013 ou 2014 é que chegarão os alunos “criados” pelas políticas educativas “socráticas”, e só então será possível aferir do seu resultado.

Por outro lado, duvido que qualquer outro governo avaliado nesse relatório tenha feito a sua divulgação com idêntico e aparatoso espectáculo de propaganda a que assistimos por cá (aliás, quanto custa e quem paga a propaganda a que este governo recorre, por tudo e por nada, e que se tem revelado a principal marca de água de José Sócrates?).

Quanto a nós há que relativizar a importância desses resultados, em primeiro lugar porque a sua execução obedece a um preconceito ideológico, que está na base da própria estrutura da OCDE, a qual, sem se negar competência técnica, valoriza os aspectos quantitativos em vez dos qualitativos, uma educação competitiva em detrimento de uma educação humanista, e os grandes resultados macro económicos e estatísticos que muitas vezes pouco esclarecem sobre a realidade concreta.

Será interessante ouvir algumas vozes discordantes ou que relativizam esses resultados, geralmente pouco ouvidas nos grandes meios de comunicação social.

O Público de 4ª feira chamava a atenção, num artigo assinado por Clara Viana, e que pode ser lido na integra AQUI, para a opinião crítica de vários investigadores internacionais sobre os resultados desse relatório: “O que se mede nesta avaliação internacional? Apenas conhecimentos básicos, que são úteis para a vida quotidiana, e não as competências por disciplina que, normalmente, um aluno de 15 anos já terá adquirido, apontam investigadores norte-americanos. Segundo eles, ao comparar sistemas de ensino com base neste tipo de avaliação pode-se estar a desvirtuar resultados”.

No mesmo sentido vai a opinião da socióloga francesa Nathalie Bulle, considerando “que o PISA está a modificar as políticas de ensino, impondo-lhes uma "orientação normativa". Trabalha-se sobretudo para os resultados e isso pode contribuir para aumentar as desigualdades, afirma. Segundo ela, o declínio nas escolas francesas, registado desde a década de 80, tem por detrás políticas que têm seguido as orientações da OCDE e que se apoiam "numa lógica comparativa redutora" que está a matar a "matriz da educação formal".

Em Portugal também surgem algumas vozes críticas, hoje referidas noutro artigo do Público, assinado por Natália Faria e que pode ser lido integralmente AQUI.

Santana Castilho, por exemplo denuncia o facto de "o que estes testes medem são conhecimentos muito básicos e imediatamente utilitários", lembrando que as “coisas em educação não são mensuráveis nem tangíveis como nas fábricas de calçado” e acrescentando que “o que aqui está em causa é uma visão redutora dos conhecimentos dos alunos".

"Quando eles concluem que é fabulosa a diminuição do insucesso escolar dos alunos, dão-me vontade de rir. Em que é que eles se baseiam? Nas fontes documentais e nos dados estatísticos fornecidos pelos governos, e que, em Portugal, são manipulados. Qualquer professor sabe que a carga administrativa para impedir as retenções dos alunos é diabólica e que por isso é que tivemos esta diminuição fabulosa das retenções” , recordando que são “os governos que dizem à OCDE quais são as escolas que devem entrar neste estudo e eu não concordo com isso".

No mesmo sentido vai a opinião de Sérgio Niza, pedagogo e fundador da “Escola Moderna”, lamentando “que estejamos a falar de "resultados contabilizados através de testes que encerram uma perspectiva muito redutora", notando “que os países que melhor saem na fotografia são os do Pacífico, "com sistemas altamente centralizados e ditatoriais". Dito doutro modo, Portugal melhorou porque "as políticas são pensadas no sentido de garantir bons resultados nos testes, em detrimento de outros valores”.

Também Nuno Crato desvaloriza a importância deste relatório: "as questões que o PISA avalia são questões de aplicação da Matemática em situações do dia-a-dia, muito simples". Logo, "uma melhoria de desempenho no PISA não significa nada em termos de melhoria de desempenho curricular".

Por último, será curioso comparar a posição ocupada por alguns países no PISA (que avalia 65 países) com o que ocupam no recentemente divulgado relatório da ONU sobre o Desenvolvimento Humano (que avalia 169 países), naquilo que pode ser comparável e tendo em conta que a Educação tem, neste último relatório anual, um peso significativo na classificação e que os trinta países melhor classificados neste último, elaborado com base em dados de 2009, também foramavaliados no PISA.

Dos dez países mais bem colocados em Desenvolvimento Humano, apenas 4 fazem parte da lista dos dez melhores do PISA, e todos em posições inferiores às que ocupam naquele mesmo relatório da ONU.

Por exemplo, a Noruega, que ocupa o 1º lugar em Desenvolvimento Humano, ocupa no PISA um modesto 12º lugar.

O primeiro lugar do PISA é ocupado pela cidade chinesa de Xangai, pertencente e sujeita ao modelo de ensino da República Popular da China que ocupa o 89º lugar no índice de desenvolvimento humano, para além de ser um regime ditatorial.

Portugal que ocupa o 40º lugar em desenvolvimento humano, surge no PISA num destacado 27º lugar, “encostado” à Alemanha (20ºno PISA, 10º no IDH), à Irlanda (21º no PISA e 5º do IDH), à França (22º e 14º, respectivamente), Dinamarca (24º e 19º respectivamente) e Grã Bretanha (26º e 26º, respectivamente, e à frente de países como a Itália(29º e 23º); Espanha (33º e 20º), Israel (37º e 15º), Luxemburgo ( 38º e 24º), ou da Áustria (39º e 25º).

A grande diferença entre as posições ocupadas pelos países referidos nos dois relatórios, comparativamente com a situação de Portugal, devia dar que pensar a todos aqueles que dão muita importância desmesurada a esse tipo de relatórios macro-estruturais e que deles se servem para tomar decisões políticas que afectam toda a gente e têm efeitos de longo prazo.

Quando um dos responsáveis na OCDE por este relatório atribui os bons resultados de Portugal à “avaliação dos professores”(!) e a um “controlo sério da qualidade de ensino”(!), está tudo dito sobre a seriedade intelectual deste tipo de relatórios.