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terça-feira, 25 de março de 2014

Os Rapazes dos Tanques

"Os Rapazes dos Tanques" é um livro que conta a história de um momento decisivo do 25 de Abril,o momento em que as tropas de Salgueiro Maia estiveram frente a frente com os carros de combate fiéis ao regime.

Foi o momento mais dramático desse dia, o momento que decidiu que a Revolução se tivesse feito quase sem tiros, o momento que evitou um banho de sangue.

O jornalista Adelino Gomes e o fotógrafo Alfredo Cunha estavam presentes nesse momento, embora não se conhecessem então.

Vieram a conhecer-se no jornal Público, que ajudaram a fundar e, volvidos estes anos todos, resolveram procura os militares que estiveram nesse dia, frente a frente, no Terreiro do Paço, e contar a história desse momento.

O livor vai ser hoje lançado, pelas 18.30, no Torreão Poente do Terreiro do Paço.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

O Respigo da Semana - Adelino Gomes escreve sobre o Haiti.




"A FATALIDADE DO LUGAR ONDE
"Outra vez. Tanta vez. Agora soube-o pela Sky. Em plena actividade nocturna de zapping. E lá veio a torrente de imagens dolorosas que sempre me assaltam quando leio, ouço, vejo nos títulos noticiosos referências à primeira terra do mundo em que escravos negros conquistaram a independência.

"Quando por lá andei ao serviço do PÚBLICO, no Verão de 1994, a tragédia era a continuação da ditadura dos Duvalier e seus tonton macoutes por interposto general Cédras. Espancamentos, prisões, assassinatos (camponeses, vendedores de rua, habitantes dos bairros pobres, jornalistas menos conformados) marcavam o quotidiano de Port-au-Prince, de Gonaïves. Testemunhei, numa manhã de meados de Setembro, esse momento inolvidável que foi a aterragem dos primeiros marines norte-americanos no aeroporto de Port au Prince. Em plena década da esperança, o poderoso vizinho do Norte voltava, 79 anos depois, mas desta vez numa "suave invasão" abençoada pela ONU, pela Ti Leglise (comunidades católicas crioulas, hostis aos compromissos da hierarquia com a ditadura) e pelo poderoso movimento popular Lavalas.

"A festa durou pouco, pá. Estragada - veja-se lá - também pelo próprio herói de ontem, Jean-Bertrand Aristide, cujo regresso comovente do exílio, após a renúncia de Cédras e a ilegalização dos grupos paramilitares, prometia o recomeço e a definitiva caminhada para a "nova Jerusalém".

"Penso nas ruas, nas casas, na bela praça do Champ de Mars, no Montana, onde me cruzei com as vedetas da informação internacional do tempo, no tradutor (Antoine, seria o nome?), nos missionários, padres e freiras, que me contavam, em encontros clandestinos, o que ninguém podia dizer em público. Mas penso acima de tudo, perante estas notícias de que pode haver mais de 100 mil mortos, nos meus entrevistados daquela incursão pelos bairros (mais pobres não há-de haver, no país mais pobre das Américas) da Cité Soleil, de Belair, La Saline, em cujas lixeiras não se passava um dia que os paramilitares não deixassem o corpo de alguém torturado até à morte.

"Os descendentes de Toussaint L"Ouverture e de Dessalines continuavam, 200 anos depois, a penosa luta pelo pão, a saúde, a habitação, a educação. A geologia veio recordar-lhes, uma vez mais, a "fatalidade do lugar onde", para repetir a expressão de Saramago (1972, Diário de Lisboa) sobre o peso injusto do factor geográfico na vida dos homens e na história dos países".

ADELINO GOMES
Jornalista, actual provedor do Ouvinte da RDP.

in Público – 14 de Janeiro de 2010.