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terça-feira, 24 de março de 2009

Não há almoços grátis... (ainda o "caso do spot", a biogafia de Sócrates e o mais que se verá...)

Nada me move contra a jornalista Eduarda Maio. Até a considero uma boa profissional, uma das vozes que mais gosto de ouvir na minha rádio de preferência, a Antena 1.
Contudo, desde que, em Julho do ano passado, foi lançada a sua biografia sobre José Sócrates, passei a ouvir com outros ouvidos o trabalho daquela jornalista.
É que essa biografia não é, ao contrário do que seria de esperar daquela (ou de outro qualquer) jornalista, um trabalho isento e objectivo.
Claro que não li o livro em pormenor. Limitei-me a desfolhar o livro quando ele estava nos escaparates das livrarias, lendo uma ou outra passagem ou as transcrições de partes desse livro na imprensa de então.
Compro e leio livros há muito tempo, possuindo um boa biblioteca, e estou habituado, numa leitura de relance, a concluir da importância ou não de uma obra. Umas vezes engano-me, outras acerto. Neste caso penso que acertei. Não tenho muita paciência para gastar tempo ou dinheiro com obras como aquela.
Mas, do pouco que li, deu para perceber que aquela biografia peca por se basear quase exclusivamente no depoimento de Sócrates ou de amigos próximos e por passar ao lado, ou apenas pela rama, de assuntos polémicos, que pudessem embaraçar o biografado.
Peca igualmente por não se assumir como um panegírico de José Sócrates, isto é, falta-lhe honestidade. Marcelo Caetano e Franco Nogueira publicaram duas bem documentadas biografias de Salazar, a quem não negaram admiração e estima. Por isso, nessas biografias, na segunda, mais do que na primeira, continuam os historiadores a encontrar uma vasta fonte documental sobre o ditador, sabendo distinguir o trigo do joio.
Por ocasião do lançamento daquela biografia procurou-se criar uma ideia de distanciamento, convidando-se para a apresentar, logo por azar, direi eu, um Manuel Dias Loureiros que, poucas semanas depois, passou a ser uma espécie de moedas de troca do PSD em relação aos casos que, recentemente, surgiram envolvendo o primeiro-ministro. Para reforçar ainda mais esse pseudo - afastamento em relação ao biografado, este e os seus colaboradores mais próximos não se deslocaram ao acto. Contudo, a plateia estava cheia de figuras de segundo plano, incondicionais apoiantes de Sócrates. A reforçar a característica “hagiográfica” (na feliz definição de Pacheco Pereira) daquela obra, basta percorrer o modo como, no verão passado, blogs ou sites ligados a concelhias ou federações do PS se referiram àquela edição.
Como se sabe, recentemente viu-se aquela jornalista envolvida em nova polémica, num spot promocional onde vincula a ideologia “socrática” anti-sindical.
A propósito deste facto, convém recordar o comunicado dos Provedores do telespectador e do Ouvinte da Rádio e Televisão de Portugal, respectivamente Paquete de Oliveira e Adelino Gomes:

“(…) confrontados com a promoção da Antena 1, (…) com um spot que alude a efeitos de uma manifestação no trânsito, consideram seu dever tomar a seguinte posição:
“1. O conteúdo desse spot veicula uma mensagem de tom antidemocrático, violadora de um direito constitucional;
“2. Dado o teor publicitário da campanha, os provedores olham com a maior reserva para a respectiva interpretação por um jornalista profissional;
“3. Em diferentes intervenções internas e externas, os dois provedores têm-se manifestado favoráveis ao aproveitamento das sinergias promocionais resultantes da fusão da RDP e da RTP;
“4. Da aludida promoção publicitária, contudo, os provedores não têm dúvidas de que resultam feridos princípios e direitos que devem ser superiormente respeitados, em especial por operadores com o estatuto de serviço público.
“Nestes termos, os provedores do Telespectador e do Ouvinte são de parecer de que o spot publicitário em causa deve ser imediatamente retirado.”

Na sequência deste comunicado, das notícias de jornal e da indignação geral, muitos, em tom de virgens ofendidas, correram em defesa da jornalista em causa.
Compreendo a nobreza do gesto e a lealdade demonstrada pelos colegas de trabalho da jornalista.
Já não compreendo que, em defesa dela, e contestando a reacção de indignação que aquele acto provocou, procurem apoucar as críticas àquele acto, apelidando-as de “demagogia barata”, “má-fé”, “campanha baixa”, “falta de classe”, “rancorosa e vingativa”. Ou seja, quando contra factos não há argumentos, tenta-se desvalorizar as opiniões alheias com juízos de intenção .
Procuram mesmo considerar como um abuso de opinião o facto de se relacionar o trabalho biográfico daquela jornalista com a sua participação naquele spot.
Por mim, limito-me a constatar a coerência ideológico-política daquelas duas situações, temporalmente bem próximas. (No caso da biografia, não estamos perante uma situação passada em época distante, um “erro” cometido na juventude, uma”nódoa” no seu passado que, ou se procura esconder ou se repudia na actualidade. A Biografia foi lançada no Verão passado!).
Um outro argumento utilizado é o de que aquela jornalista se limitou a gravar umas “falas” que depois terão sido montadas com o sentido que o spot lhe deu. Quanto a mim, este argumento é passar um atestado de estupidez à jornalista em causa. Continuo a acreditar que Eduarda Maio é uma jornalista inteligente, que sabe o que faz, por isso esse argumento não pega.
Um outro argumento, ainda, é tentar confundir, criando a ideia de que aquela indignação pretende atingir os restantes spots, bem como o jornalista e o comentador que neles colaboraram. A indignação é apenas em relação ao conteúdo de um dos spots e não acredito que estas duas figuras da Antena 1 tivessem aceitado dar voz ao spot em causa. Não perceber isto é que raia a “má-fé” e falta de argumentos.
Claro que, para uma parte da geração mais nova de jornalistas, as questões éticas que esta questão levanta são de menor importância, serão até absurdas.
Hoje, para muitos, o jornalismo é visto, ou como uma carreira, ou como mero trampolim para assessorias várias, de cariz político ou económico.
Veremos o que o futuro reserva aos envolvidos nesta matéria.
Nos dias que correm, na política e no jornalismo, não há almoços grátis…

o respigo da semana - 3 - Ivan Nunes leu a biografia de Sócrates.

Hoje, excepcionalmente, no "respigo da semana", incluimos um artigo publicado há vários meses, da autoria de Ivan Nunes, em 1 de Julho de 2008, na revista "Time Out".
A actualidade do tema justifica esta opção:

"Sócrates: O Menino de Ouro do PS , Eduarda Maio, Esfera dos Livros, 25 €

"Ivan Nunes esteve fechado em casa a ler a primeira biografia dedicada a José Sócrates. Sobreviveu, mas não sem sofrimento.

"A subdirectora da Antena 1, Eduarda Maio, a quem o programa de televisão O Juiz Decide deu nos anos 90 uma relativa notoriedade, acaba de publicar uma biografia do actual primeiro-ministro. E não há duas maneiras de dizer isto: trata-se de um péssimo livro. Com esta biografia não se aprende nada de relevante sobre a carreira e a ascensão política de José Sócrates que não estivesse já nos jornais. A narrativa dos acontecimentos decisivos (a candidatura à liderança do PS, a maioria absoluta) não acrescenta dados novos. Se Sócrates, num ou noutro episódio, é alvo de ataques, Eduarda Maio não os investiga; aproveita apenas para realçar as qualidades que levaram o nosso Herói a resistir-lhes. “À firmeza do seu trabalho parlamentar, José Sócrates juntava agora o seu espírito. Gostava de quebrar a solenidade pardacenta das sessões, de remoçar o debate político salpicando-o de humor e sacudindo-lhe o excesso de sisudez e de monotonia” (p. 211). O tom é “hagiográfico”, disse Pacheco Pereira. Pior do que isso: é parolo.
Há páginas e páginas de resumos de peças de propaganda, como artigos de jornal ou programas partidários; e passagens chatas e compridas como quem recita em versão alargada um curriculum vitae. A abordagem da autora consiste numa espécie de contemplação beata. Maio entrevistou alguns próximos de Sócrates, que lhe contaram como o nosso primeiro-ministro é um “bom amigo”, um “menino de ouro”, tem extraordinárias capacidades de trabalho e é um devoto dos livros. “‘Quando ele teve que aumentar o IVA, nem dormiu na noite anterior’, afirma Renato Sampaio” (p. 311). Nem por uma vez a jornalista se lembra de investigar o que está realmente em jogo nessas amizades e inimizades políticas, o que as move, o que torna o nosso homem tão “persuasivo” – em suma, tudo aquilo que é propriamente a política. E nunca, sobre uma matéria controversa (a co-incineração, o caso da licenciatura, conflitos pessoais variados), dá voz aos críticos.
Seria possível escrever uma biografia interessante sobre o actual primeiro-ministro? É tentador pensar que os nossos actuais líderes, seguindo uma tendência que é sociológica e que não é portuguesa, não são propriamente personagens carismáticas, mas indivíduos formados nas máquinas partidárias, que (sejam quais forem outras qualidades que eventualmente tenham) não têm vidas aventurosas nem biografias emocionantes.
Tudo isso é certo, mas há ainda qualquer coisa de relevante nesse cinzentismo. Talvez José Sócrates, Filipe Menezes, Passos Coelho, não se prestem a histórias fascinantes; mas prestam-se, apesar de tudo, a uma história relevante da nossa democracia. Através da biografia de um deles poderíamos conhecer alguma coisa sobre os mecanismos que fazem de um indivíduo um caso de sucesso político nos dias de hoje: aquilo que realmente condiciona promoções e despromoções, alianças e zangas, numa época em que os confrontos ideológicos estão esbatidos. Mesmo sem fazer um julgamento sumário do regime, importava conhecer um pouco mais sobre o funcionamento interno dessas instituições cruciais da democracia que são os partidos políticos. Há uma biografia política que mereceria ser escrita, sobre um homem banal num regime banal.
E – uma última nota – eu não detesto Sócrates pessoalmente, como figura. Suspeito até – suspeito apenas, porque a biografia de Maio não dá para mais – de que mesmo no plano pessoal haveria algo de interessante para contar na história de um José Sócrates. Aos sete anos de idade, viveu o divórcio litigioso dos pais, que se arrastou em tribunal por seis anos; e até aos 16 ficou afastado da mãe e dos seus dois irmãos. Folheando o livro, é difícil não reparar nas fotos de infância desta criança que nunca sorri; e que tem outras tragédias na sua vida familiar. Não estou a incitar ao voyeurismo, mas não seria relevante investigar a relação entre a criança das fotos e o político que, paradoxalmente, se tornou popular (pelo menos numa dada fase) por uma certa reserva e mesmo uma certa antipatia? Outros superam tristezas por uma extroversão exuberante e maníaca; não assim Sócrates. Mas, numa biografia de 350 páginas, de prosa redundante e rendilhada (e frequentemente ridícula), Maio não dedica uma linha a investigar como é que a criança que depois foi primeiro-ministro atravessou tudo isto.
terça-feira, 1 de Julho de 2008"