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quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Os Cães, os gatos e…os neoliberais



Substituam as palavras “cão”, “gato” ou “animal” por “judeu”, “negro”, “velho”. “doente” , “deficiente” e “criminoso”, e depois raleiem o artigos de JoãoMiguel Tavares (JMT) publicado no passado Sábado 1 de Setembro no jornal“Público”.

Pelo menos, a ver pelos comentários em defesa do artigo de JMT, que raiam, a maior parte, a intolerância, o fundamentalismo, a ignorância e o total desrespeito pelo direito à vida de animais saudáveis, com o estafado argumento neoliberal dos "custos", o artigo legitimou essa argumentação.

A comparação só é absurda para quem não vive próximos de cães e gatos e/ou acha que os humanos tem todos os direitos sobre o planeta (levem o artigo ao Trump e aí está um tema explorar por este, nos seus Twiters ,para reforçar e legitimar os seus argumentos em defesa das suas politicas contra a natureza e o ambiente…).

Quando se misturam os preconceitos financeiros dos neoliberais com o desrespeito pelos outros seres vivos temos a última crónica de JMT…

Vindo de quem vem não me espanta o “argumentário” de JMT. Sendo o mais brilhante e credível defensor do neoliberalismo na nossa imprensa, tudo não passa de aritmética.

Para os neoliberais somos todos um número no meio dos “mercados”. Sendo assim porque é que os animais devem escapar a essa lógica?

Defender a eutanásia, "mesmo" quando falamos de cães e gatos, como forma de controle demográfico ou de redução de custos, aplicando-a, não a animais doentes ou em sofrimento, mas a tudo o que apareça pela frente, parece-me um primeiro caminho para legitimar os maus tratos e o desrespeito pela vida animal.

Ao ler alguns dos comentários legitimados pela crónica de JMT, lembrei-me de uma história que ouvi há muitos anos, embora nunca a tenha conseguido confirmar:

Conta-se que aos jovens que ingressavam na Juventude Hitleriana era-lhes entregue um cão ainda jovem e que os membros daquela organização nazi tinham de tratar do animal durante uns anos. Quando chegavam a um patamar da sua “formação”, os jovens recebiam uma pistola e, como prova da sua fidelidade a Hitler e para “reforçar o carácter” tinham de abater o cão ao qual se tinham afeiçoado. Se ultrapassassem a prova estavam em condições para matar qualquer pessoa.

De facto, quem começa por maltratar ou “desumanizar” animais, acaba por maltratar seres humanos…

Mas, agora a sério, voltando ao tema.

Existem muitas medidas que podem evitar a proliferação de gatos e cães vadios, antes de estes  irem parar a canis:

- Proibir a importação e a venda de cães e gatos, bem como a sua criação, enquanto houver um cão ou um gato no canil (com algumas excepções: espécies portuguesas, animais para caça, animais para guiar cegos, para serviço de polícia, busca e salvamento …);

- Penalizar com taxas pesadas quem não cumpre as leis sobre obrigação de esterilizar ou chipar os animais domésticos e sobre maus tratos e abandono;

- Facilitar a vida a quem cumpre, nos transportes públicos, nos jardins e nas esplanadas e penalizar quem não cumpre;

- Facilitar o aluguer de casas a quem tem animais de estimação;

- Esterilizar todos os animais encontrados e abandonados e, sempre que possível e sempre que isso não cause problemas de saúde ou outros, devolver à rua esses animais, que acabam por ser adoptados por “vizinhos” ou, nos casos dos gatos, até podem contribuir para combater pragas;

- Criar um espaço para dez a vinte animais em cada freguesia do país, entregando-se o excesso a canis municipais e a associações de protecção de animais que possuam canis;

Nos canis só devem ficar casos mesmos extremos de dependência ou necessidade e, em casos extremos, sim, os animais têm de ser abatidos.

Vão ver que algumas dessas medidas até não têm muitos custos e, tomadas, podem reduzir o “problema”.

Percebo que tomar medidas “proibicionistas” ou “regularizar” situações não seja do agrado dos neoliberais, que só respeitam a lei do “mercado”.

Mas tudo o resto é retórica, má fé, falta de respeito e de educação cívica de gente mal formada e incivilizada (Diz-me com tratas os animais e direi como tratas as pessoas e qual é teu nível de civilização!!!).

Tive um cão que viveu comigo quase até fazer 19 anos e fui busca-lo a um canil, tenho, há cinco anos, duas cadelas que também fui buscar ao canil. Não venham dizer que os animais, em especial os cães, não têm sentimentos, não sofrem ou não temem a morte…

terça-feira, 26 de setembro de 2017

As "inventonas" de um jornal de "referência".


O “caso das armas de Tancos” está a tornar-se um dos mais vergonhosos casos do jornalismo português.

Para o jornal “Expresso” qualquer “fonte” serve para “entalar” a “geringonça”.

Depois de ter feito parangona por ter descoberto um morto não registadona tragédia de Pedrogão Grande, aquele jornal volta a repetir o estilo “Correio da Manhã” divulgando um pretenso relatório secreto, elaborado por um “serviço de informação militar” cuja existência  ninguém conhece (ler AQUI a opinião insuspeita de João Miguel Tavares).

Ao que parece estamos mais uma vez perante um caso parecido com o célebre “panama papers”, uma investigação jornalística internacional, representada em Portugal por esse semanário, que anunciou revelações escaldantes sobre a elite politica e económica portuguesa, mas que acabou por “parir um rato”, caindo no esquecimento.

Segui regularmente o Expresso durante os seus primeiros 30 anos de vida e habituei-me a respeitar a credibilidade do seu jornalismo.

Infelizmente essa credibilidade tem andado pelas ruas da amargura, principalmente desde que saíram os seus melhores jornalistas para fundar o “Público”, e, em boa-hora, deixei de comprar esse jornal.

Mas é triste ver a decadência daquele que já foi um grande jornal de referência, onde ainda trabalham alguns grandes jornalistas portugueses, sobrevivendo cada vez mais da exploração das “fake news”…

Que miséria!!!

terça-feira, 9 de maio de 2017

Macron : O regresso da decência à política?


Conforme já aqui revelei, por mais de uma ocasião, sou bastante céptico em relação a Macron e àquilo que ele representa.

Contudo, ao longo da última semana, conheci algumas “estórias” ligadas a Macron que têm contribuído par, sem entusiasmo nem muita esperança, acreditar que ele pode ser o político certo na França e na Europa destes dias.

Primeiro foi a história contada por Varoufakis, o antigo ministro das finanças da Grécia, miseravelmente humilhado pelos figurões de Bruxelas, e que terá encontrado em Macron, então ministro da economia de França, um compreensivo e isolado aliado, atitude que terá custado, ao agora eleito presidente francês, o seu “despedimento” do executivo de Hollande, por pressão de Merkel e do seu tenebroso ministro das Finanças.

Depois a história familiar do próprio Macron, revelando a fibra de um homem romântico e apaixonado, enfrentando todas as convenções.

Finalmente o seu ousado apelo aos cientistas norte-americanos, maltratados pelo ignorantão Trump, para virem viver para França, onde ele lhes prometeu condições para o seu trabalho de investigação sobre as alterações climatéricas.

Se a tudo isto juntarmos a coragem demonstrada na forma como desmascarou a retórica neo-fascista de Le Pen, enfrentando-a num debate que tinha sido recusado noutras ocasiões pela cobardia ou preconceito de outro políticos, estas pequenas “estórias” são reveladoras de um homem decente.

Nos dias que correm, se essa decência e coragem se revelar na sua futura acção como Presidente da França, talvez a Europa tenha encontrado finalmente alguém que possa servir de modelo a uma Europa desorientada e maltratada pelo politburo de Bruxelas.

Neste caso subscrevo o título e o conteúdo da crónica de hoje de João Miguel Tavares: “Não quero messias. Bastam-se políticos decentes”.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

A “Guerra” Ensino Público/Ensino Privado…ou…vamos privatizar o que é… privado!!???


Toda esta polémica sobre os subsídios estatais a algumas escolas privadas já começa a “cheirar mal”.

A forma irresponsável e oportunista como o tema tem sido abordado por alguns políticos, comentadores e por parte da comunicação social, tem sido muito pouco esclarecedora e limita-se a lançar “areia para os olhos” dos incautos e ignorantes.

Claro que a forma como o Ministério da Educação geriu o tema também se revelou desastrada, pondo-se a jeito para os disparates que tivemos de ouvir de Passos Coelho e outros fiéis.

Em primeiro lugar o tema relaciona-se com a situação de menos de 80 escolas privadas, num universo de quase…três mil!!!!.

E em relação àquelas 80, só pouco mais de trinta é que serão afectadas pelas medidas que o Ministério actual pretende tomar, corrigindo os abusos cometido no governo anterior com o aval do ministro Nuno Crato.

Não deixa de ser curioso que aqueles que passam a vida com a boca cheia das palavras “privatização” e “privado” e a falar contra o “Estado” venham agora pedir que o Estado financie actividades privadas.

Se Passos Coelho encontrou no tema a sua boia de salvação e a prova de vida de que precisa para sobreviver ao descalabro da sua governação e da sua falta de ideias para o país, já se percebe menos a atitude da Igreja.

É que o que está em causa não é o financiamento das escolas privadas que prestam um serviço público de qualidade, mas de escolas que concorrem directamente com escolas públicas, financiadas por fundos …públicos!!!

É caso para se dizer que é tempo de “privatizar”, de uma vez , por todas, o que é “privado”, ou não estão de acordo comigo, ó pessoal da “direita radical neoliberal”?

Quanto à atitude da Igreja, só se percebe face à sua recente desorientação “ideológica” pernte os desafios que o actul Papa Francisco tem vindo a colocar aos status quo dessa mesma Igreja.

Antes de Francisco, a Igreja portuguesa até gozava de uma imagem de liberal e “progressista”. A partir de Francisco parece ter sido ultrapassada pela “esquerda” pelo próprio Papa. Mas isto é outra história, que, contudo, pode explicar o envolvimento das mais altas figuras da Igreja portuguesa nesta polémica.

Por último, uma palavra  de solidariedade para como Mário Nogueira e para os sindicatos dos professores, (mesmo discordando de alguma retórica e de algumas das suas actuações), face à forma descabelada como têm sofrido os mais ignóbeis ataques públicos , a pretexto do debate entre escola pública e privada.
É caso para perguntar: a quem interessa fazer desta questão uma guerra entre ensino público e ensino privado?

Aconselhamos, a todos  que se queiram informar melhor sobre o tema, a leitura dos seguintes textos:



- “Dinheiros públicos, vícios privados”, por Manuel Loff, in Público de 14 de Maio de 2016;


Ainda do lado daqueles que defendem  escola pública, não podemos deixar de referir a opinião da antiga Ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues.

Podemos não ter concordado com a sua actuação enquanto Ministra da Educação, e discordámos veementemente na altura, mas não há qualquer dúvida que ela conhece profundamente o sector e tinha um projecto coerente para a educação, mesmo que se discorde dele, no todo ou em parte.

Por isso a sua opinião é fundamental para perceber o que está em causa:


Num perspectiva diferente, mas inteligente ( o que tem sido raro entre os que contestam o Ministro da Educação), aconselhamos a leitura do seguinte texto:

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Miguel Relvas, , Passos Coelho, Carlos Costa, Dias Loureiro, José Luís Arnaut, Francisco Nogueira Pinto, BPN, Efisa, Tecnofarma...e o que mais se verá...mas está "tudo legal!!!"

Passos Coelho anda por aí a passear-se, comportando-se como virgem ofendida e como se ainda fosse primeiro-ministro(Portas, por sua vez, procura não dar muito nas vistas, desde que no outro dia, de relance, foi divulgada uma notícia sobre o seu envolvimento nos obscuros negócios dos "Panduro"...).

O insuspeito comentador de direita João Miguel Tavares, na crónica, que transcrevemos em baixo, vem recordar as ligações suspeitas de Passos Coelho com o mundo das negociatas, a propósito do caso (mais um) do banco (??) Efisa, com ligações ao amigo ( e mentor) de sempre de Coelho, o "insuspeito" Miguel Relvas.

João Miguel Tavares veste a pele de jornalista e mostra como esse caso é mais que suspeito e merece que se esteja atento ao seu desenvolvimento:

"Miguel Relvas, o Efisa e a selva

Por JOÃO MIGUEL TAVARES , in Público de 16/02/2016 .

“Pedro Passos Coelho foi entrevistado no fim-de-semana [13 de Fevereiro] pelo Jornal de Notícias, e quando questionado acerca da venda do banco Efisa a uma sociedade com ligações a Miguel Relvas, respondeu: “Isso é um não-assunto.” Ora, se o ex-primeiro-ministro considera o tema um “não-assunto”, eu considero meu dever esclarecer-lhe porque é que o Efisa não só é um assunto, como é um assunto muito feio.

“Nos últimos dois anos, o Estado, através da Parparticipadas – sociedade anónima criada em 2010 para gerir o processo de reprivatização do BPN –, injectou 90 milhões de euros no Efisa. A última injecção, de 12,5 milhões, foi feita em Janeiro, antes da venda do antigo banco de investimento do BPN à Pivot SGPS. Essa venda terá sido realizada por um valor a rondar os 38 milhões de euros. Segundo o Tribunal de Contas, o preço do BPN para os contribuintes já vai em 2,7 mil milhões, estimando-se que o buraco possa derrapar até aos 5,5 mil milhões.

“O Efisa, como explicou ao Diário Económico o fundador e accionista da Pivot Ricardo Santos Silva, possui um trunfo precioso numa época em que se tornou bem mais difícil criar bancos: “uma licença bancária universal, que abre muitas oportunidades”. Oh, se abre – e quando cheira a oportunidades, logo surge Miguel Relvas e o seu oportuno nariz.

“Já depois de acordada a venda do Efisa, os jornais deram conta da entrada no capital da Pivot de um pequeno grupo de accionistas, entre os quais Relvas. Miguel Relvas, destacado ex-ministro do Estado, surge a fazer negócios com o Estado, para a compra de um banco. Mais. O actual presidente do veículo estatal Parparticipadas, que vendeu o Efisa à Pivot SGPS, chama-se Francisco Nogueira Leite. O mesmo Francisco Nogueira Leite que trabalhou com Pedro Passos Coelho na administração da Tecnoforma. A mesma Tecnoforma que em 2004 usou e abusou de fundos comunitários geridos pelo então secretário de Estado da Administração Local Miguel Relvas.

“E o não-assunto não fica por aqui. Miguel Relvas já havia trabalhado para o Efisa em 2007, prestando consultadoria ao banco no Brasil, numa altura em que era deputado do PSD e líder da Comissão das Obras Públicas. Tudo legal, claro. Até porque, em 2011, Relvas garantiu ao PÚBLICO que nunca recebeu “um cêntimo da Efisa”. Claro que não recebeu. Ele apenas recebeu da empresa Kapakonsult, da qual era administrador, e que na sua curta existência teve um único cliente: o banco de negócios do BPN, Efisa. Vamos então resumir. Relvas trabalhou para um banco que faliu. Trabalhou para o governo que geriu a falência desse banco. E agora recupera o banco devidamente recapitalizado pelo governo de que fez parte – não se está mesmo a ver que isto é um “não-assunto”?


“Uma achega final. Há quem recorde o papel de Dias Loureiro no BPN e garanta haver mãozinha sua neste negócio. A mim parece-me mera insinuação, fruto de más línguas. Estou certo que desde que o então ministro Miguel Relvas passou o réveillon de 2012 para 2013 no Copacabana Palace na companhia de José Luís Arnaut e Manuel Dias Loureiro, eles nunca mais voltaram a ver-se. Portanto, só resta à autoridade de supervisão apressar-se a conceder a idoneidade a Miguel Relvas, para que possa exercer com o garbo e a competência reconhecidas a profissão de banqueiro. Depois, é só enviar essa informação para Bruxelas, devidamente assinada por Carlos Costa, Governador do Banco da República das Bananas Anteriormente Conhecida como Portugal”.

terça-feira, 1 de julho de 2014

O respigo da semana : "Marcelo, Miguel, o BES e nós", por João Miguel Tavares:

Já nos referimos várias vezes por aqui à misturada entre políticos do centrão, banqueiros e comunicação social.

A propósito da bola de neve que se vai avolumando sobre o caso BES e das suas guerras familiares, começa-se agora a descobrir o poder que esse banco e a família a ele ligado têm em Portugal, movendo influências entre a classe política dominante e controlando a opinião pública.

Essa rede de influências, que envolve até alguns conhecidos comentadores da nossa praça, está acima de qualquer tribunal Constitucional ou de qualquer “Constituição Comunista”, como alguns comentadores de direita gostam de classificar esse documento fundamental para o regime democrático.

Acima da liberdade, da lei, da Constituição “comunista” ou da própria democracia pluralista, essa rede de influências é a principal responsável pelo estado a que o país chegou.

A última crónica de João Miguel Tavares, um dos mais lúcidos, independentes e criativos comentadores da direita (como o próprio se designa), é, nesse aspecto, insuspeita e coloca o “dedo na ferida” deste regime caduco em que vivemos, sendo por isso a nossa escolha para o “respigo da semana”:

“Marcelo, Miguel, o BES e nós"

Por João Miguel Tavares

In Público de 1 de Julho de 2014

(crónica semanal “0 RESPEITINHO NÃO É BONITO”).

“Pergunta do milhão de euros: como é possível que um caso com a dimensão do BES só se conheça agora? Como é possível que nós, gente dos jornais e da comunicação social, tenhamos tido ao longo dos anos notícia de tantas pontas soltas - basta ver o número de casos em que o banco esteve envolvido mas ninguém tenha sido capaz de unir as várias pontas e perceber aquilo que realmente se estava a passar?

“A resposta é óbvia: porque a família Espírito Santo é demasiado grande e o país demasiado pequeno. Enquanto a família esteve unida, formou um bloco inexpugnável, pela simples razão de que o seu longo braço chegava a todo o lado, incluindo partidos (alguém já ouviu António José Seguro, sempre tão lesto a dar palpites sobre tudo, comentar o caso BES?), comunicação social (quem não se recorda do corte de relações com o grupo Impresa em 2005, na sequência de notícias sobre o envolvimento do BES no caso Mensalão?) e até aos próprios comentadores, por via das relações pessoais que Ricardo Salgado mantém com gente tão influente quanto Marcelo Rebelo de Sousa ou Miguel Sousa Tavares.

“Ora, ninguém à face da terra possui uma independência inexpugnável. Isso não significa que todos tenhamos um preço - significa apenas que somos condicionados por relações de amizade ou de sangue e que nesse campo uma família de 300 membros, que há décadas se move na alta sociedade portuguesa como peixe na água, acaba por chegar a quase toda a gente que interessa. O próprio Sousa Tavares referiu essas ligações há um ano, numa entrevista à Sábado: “O Ricardo Salgado é sogro da minha filha e avô de netos meus. Além disso, somos amigos há muitos anos, porque eu fui casado com uma prima direita dele. Nunca o critiquei e nunca o elogiei, porque acho que não se fala da família em público.” Pode apontar-se a Miguel Sousa Tavares muita coisa - eu já o fiz -, mas não falta de independência ou coragem. Simplesmente, quando o caso BES atinge esta dimensão, o silêncio de alguém com a sua importância torna-se efectivamente um favor a Salgado. Não há como fugir a isso. 

“Mas se Sousa Tavares não fala sobre o tema e já justificou porquê, o mais influente comentador português - Marcelo Rebelo de Sousa - necessita urgentemente de aproveitar algum do seu tempo dominical para fazer a sua declaração de interesses em relação aos Espírito Santo. E essa declaração é tanto mais premente quanto nas últimas semanas tem vindo a defender a solução Morais Pires, considerando até que a impressionante queda das acções do BES na passada semana era coisa “inevitável”, visto estarmos perante “um novo ciclo”. Que essa queda tenha acontecido exactamente por não estarmos perante um novo ciclo parece não ter passado pela sua cabeça, habitualmente tão veloz e atenta.


“Não admira, pois, que Nicolau Santos tenha chamado a atenção no Expresso para o facto de Marcelo e Ricardo Salgado já terem passado juntos “várias vezes férias no Mediterrâneo”. E,   já agora - acrescento eu - que Rita Amaral Cabral, há longuíssimos anos companheira de Marcelo, como é público, seja actualmente administradora não executiva do BES, e, entre 2008 e 2012, um dos três membros da comissão de vencimentos do banco. Marcelo, como todos sabemos, nunca teve quaisquer problemas em criticar aqueles que lhe são próximos. Mas há factos que devem ser verbalizados - porque é precisamente destes pequenos segredos que vive o regime que nos trouxe até aqui”.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

O RESPIGO DA SEMANA - 1 - João Miguel Tavares - "Aclare-se o regime":

"Aclare-se o regime

por João Miguel Tavares

In Público de 05/06/2014

“Portugal é o país das tretas. Eu não quero parecer demasiado negativo, porque Portugal também é um país agradável, de gente boa, comida apetitosa e um excelente sol. Mas a quantidade de tretas, de jogos de cintura, de pequenos teatrinhos, de uma no cravo e outra na ferradura, de dar com a mão esquerda para tirar com a direita, de costas que servem alternadamente para a pancadinha e para a facadinha, de encenações parolas com o único objectivo de não ter de enfrentar os “cornos do destino”, como escreveu Natália Correia, é absolutamente impressionante. Mais: são artimanhas e simulações transversais a toda a sociedade, que culminam nas decisões do Tribunal Constitucional.

“Paremos um pouco neste dia 5 de Junho de 2014 e olhemos à nossa volta. Temos um governo que fingiu que a troika se tinha ido embora a 17 de Maio, só para poder festejar o acontecimento antes das eleições europeias, quando ainda nem sequer conseguiu fechar a 12.ª avaliação, e não se sabe quando o fará. Tretas e mentiras. Temos um líder da oposição que inventou umas eleições primárias à pressa, com um formato do qual discordava abertamente há três anos, só para conseguir arrastar-se mais uns meses à frente do PS. Mentiras e tretas. E temos um acórdão do Tribunal Constitucional que, pela segunda vez em três anos, decreta uma inconstitucionalidade em suspensão: o Orçamento de 2014 é inconstitucional, mas só de Julho a Dezembro. O Palácio Ratton entrou em saldos – vende inconstitucionalidades com 50% de desconto. Seria interessante averiguar se meia-inconstitucionalidade não é, ela própria, inconstitucional, mas se calhar é melhor esquecer isso, que já temos problemas que cheguem.

“Mas, esperem, que as tretas não acabaram. O Governo, depois de fingir que achava mesmo que pudesse ser considerado constitucional um Orçamento em que os cortes na função pública começavam nuns obscenos 675 euros brutos, agora inventou uma “aclaração” sobre o acórdão do TC, que – tentem acompanhar-me – não é bem uma aclaração, pois vai com uma sugestão de nulidade lá pelo meio, sendo que ao mesmo tempo o Governo não tem competência para requerer aclarações ao TC, porque só os autores do pedido de fiscalização o podem fazer. Em resumo: tretas, tretas e mais tretas.

“E tudo isto porquê? Porque Pedro Passos Coelho, muito em particular, que tanto gosta de falar em mudar de vida, foi mais um daqueles que fizeram uma limpeza no disco rígido mal chegou ao Governo. Nos seus tempos de oposição, considerava a revisão constitucional uma prioridade, mas assim que chegou a São Bento iniciou o seu Governo de costureirinha da Sé, sempre de agulha e dedal nas mãos, corta aqui, cose ali, vê a bainha, faz uns remendos, tudo muito improvisado, tudo muito mal cosido, tudo com a cabeça muito baixa e o olhar fixo a um palmo do nariz, enquanto o país emagrecia dentro do mesmo fato, cada vez mais coçado e esgarçado.


“Na verdade, não é só o acórdão do TC que tem de ser aclarado. É este regime de infinitas tretas em que demasiada gente – ministros, juízes, secretários-gerais – não têm coragem de fazer aquilo que se impõe. Uns agarram-se a princípios abstractos de igualdade, proporcionalidade, protecção de confiança ou razoabilidade, ignorando olimpicamente o estado do país. Outros só fazem orçamentos de desenrasca, sem um vislumbre de reformas sistemáticas ou de medidas estruturais. Seria caso para dizer “estão bem uns para os outros”, não fosse no meio de uns e de outros estarmos nós”.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Como é que uma canção com 42 anos se torna o hino da indignação:



Muito interessante este texto hoje publicado no jornal Público, da autoria do jornalista João Miguel Tavares, onde reflecte sobre a falta de canções de protesto nos dias que correm e a razão de irmos buscar canções com várias décadas de vida para manifestar a nossa indignação: 

QUEM CANTA JÁ NEM OS MALES ESPANTA

por João Miguel Tavares

In Público de 22 de Fevereiro de 2013

“Enquanto o país anda entretido a discutir como deve reagir um político ao ser alvejado por uma versão desafinada de Grândola, Vila Morena - deve calar-se e esperar que passe?, deve fugir pelas traseiras?, deve fingir que sabe a letra e trautear? -, eu proponho uma outra reflexão: porquê Grândola Vila Morena? Por que é o país quando se zanga, ou simplesmente quando marcha do Marquês de Pombal para os Restauradores, aquilo que contínua a cantar é a Grândola (canção gravada por José Afonso em 1971, já lã vão 42 anos) ou Os Vampiros (canção gravada por José Afonso em 1963, já lá vão 50 anos)? Não me entendam mal: José Afonso é o maior génio da musica popular portuguesa. Mas não se encontra por aí nada de mais actual?

“A resposta é: não, não se encontra. É verdade que os Deolinda acertaram em cheio no espírito do tempo com Parva que Sou e que Sexta-feira, de Boss AC, rodou muito pela rádio.

“Mas são epifenómenos, que vêm e vão. Mais: a maior parte dos músicos foge do carimbo “música de intervenção” como o diabo da cruz. Em 2009, os Xutos & Pontapés até meteram os papéis para a reforma da irreverência ao desmentirem que uma canção sua que começava com as palavras “senhor engenheiro” quisesse atingir alguém em particular. Bolas, desde quando é que é suposto uma banda de rock ter medo de ser mal interpretada?

“O desemprego campeia entre os jovens. Pela primeira vez existe uma  geração que corre o risco de vir a viver pior do que a anterior, A classe média é esmagada com impostos. E, no entanto, os artistas, de um modo geral, e os músicos portugueses, em particular, parecem alheados do que está à sua volta. Não escrevem, não cantam, não dão uma banda sonora ao povo, para que ele se possa indignar com letras do presente, em vez de usar palavras de José Afonso escritas para homenagear a resistência antifascista da Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense, que hoje em dia só já anima procissões e arruadas.

“A razão por que isto acontece é a mesma por que a indignação que existe no ar se mostra incapaz de se inscrever num discurso político sólido: há um temor do comprometimento, como que um excesso de lucidez que transforma todos os ideais em manifestações de ingenuidade, um individualismo radical que tem alergia a qualquer outra acção prática que vá além do protesto. Na América dos anos 60 e 70, cantava-se para acabar com o Vietname. No Portugal dos anos 60 e 70, cantava-se para acabar coma ditadura e com a guerra colonial. No Portugal de 2013, canta-se para acabar com o quê? Com a democracia? Com certeza que não. Com a injustiça? Demasiado difuso.

“E assim estamos, sem canções nem discurso válido, condenados a enfrentar o presente coma banda sonora dos nossos avós. Talvez B Fachada tenha razão.

“Em 2011, ele gravou Deus Pátria Autoridade, um equivalente envenenado do maravilhoso FMI (1982), de José Mário Branco. E aí é dito, com cínico optimismo: “Portugal está para acabar/ É deixar o cabrão morrer/ Sem a pátria para cantar/ Sobra um mundo para viver.” O disco está disponível para download gratuito na Internet. Mas lá está: não serve para animar desfiles na Avenida da Liberdade”.

Jornalista

Jmt1973@hotmail.com


quarta-feira, 20 de maio de 2009

O respigo da semana - 7- João Miguel Tavares

Freeport XVIII: o meu primo é um mestre de 'kung fu'

por João Miguel Tavares

"Só faltava mesmo o surgimento do jovem herói de Shaolin para transformar o caso Freeport numa ópera bufa que alguém devia levar à cena. Se eu estivesse a assistir a uma telenovela venezuelana onde um dos protagonistas tivesse decidido, numa altura delicada, partir para a China para estudar kung fu, teria encolhido os ombros e suspirado: "Estes argumentistas já não sabem o que mais hão-de inventar."
"Ao ver o primo de José Sócrates na primeira página do Expresso, empoleirado num pilar como se estivesse a ensaiar para o Karate Kid IV, comecei a rir de incredulidade - e ainda não parei. Aliás, isto é o mais próximo que alguma vez vi da famosa piada dos Monty Python que matava as pessoas à gargalhada.
"Caro leitor: eu percebo que você ande enjoado. Eu próprio, semana após semana, sento-me em frente do computador para escrever mais um texto para esta página e a mão está sempre a fugir-me para Alcochete.
"Mas será que a culpa é minha? Por amor de Deus: depois daquele tio, agora sai-nos um primo vestido de Bruce Lee, a treinar artes marciais no templo de Shaolin e a chamar pelo nome de Wu Guo, "o guerreiro profundo"? Sobre o que é que querem que eu escreva, se nem a família Adams é tão divertida? É a mesma coisa que um paleontólogo tropeçar num osso de dinossauro e virem criticá-lo por começar a escavar.
"Desde que o site do DN mudou e os leitores passaram a poder escrever comentários aos textos dos colunistas, sou frequentemente instado a confessar o que me move contra José Sócrates e qual é a minha "agenda".
"Meus caros amigos: eu não tenho agenda, eu não tenho partido e a minha única ambição política é conseguir governar a minha biblioteca.
"Acreditem ou não, ainda há seis meses estava convencidíssimo de que iria votar no engenheiro Sócrates nas próximas legislativas, sobretudo perante a tragédia que foram os primeiros meses de Manuela Ferreira Leite. Mas subitamente entrámos na twilight zone política e judicial no que ao Freeport diz respeito. E não há como virar a cara.
"Só esta semana, tivemos:
"1) O senhor procurador-geral a interpor um processo disciplinar devido a pressões que ele próprio garantira não existirem.
"2) Ilustres juristas a defender que conversas privadas não são pressões mas delações (as pressões costumam ser feitas em conversas públicas, como toda a gente sabe).
"3) Um jovem herói de Shaolin - que até hoje nunca foi escutado pela justiça portugue- sa - a desmentir o seu primo quanto ao seu conhecimento de Charles Smith.
"E podia continuar. Lamento muito, mas o caso Freeport transformou-se numa tragicomédia nacional, que põe ao léu uma República grotesca, sem princípios, sem carácter e completamente disfuncional.
"Sobre o que hei-de eu escrever, se a vergonha já se estende desde aqui até à China?".

in Diário de Notícias, 19 de Maio de 2009

domingo, 5 de abril de 2009

o respigo da semana - 4 - Solidário com João Miguel Tavares

Em solidariedade para como o jornalista do Diário de Notícias, processado por José Socrates, aqui se transcreve, no "respigo da semana", o artigo que aquele escreveu no início deste mês...( e viva a Liberdade de Imprensa!) :

JOSÉ SÓCRATES, O CRISTO DA POLÍTICA PORTUGUESA

Ver José Sócrates apelar à moral na política é tão convincente quanto a defesa da monogamia por parte de Cicciolina.
A intervenção do secretário-geral do PS na abertura do congresso do passado fim-de-semana, onde se auto-investiu de grande paladino da “decência na nossa vida democrática”, ultrapassa todos os limites da cara de pau.
A sua licenciatura manhosa, os projectos duvidosos de engenharia na Guarda, o caso Freeport, o apartamento de luxo comprado a metade do preço e o também cada vez mais estranho caso Cova da Beira não fazem necessariamente do primeiro-ministro um homem culpado aos olhos da justiça. Mas convidam a um mínimo de decoro e recato em matérias de moral.
José Sócrates, no entanto, preferiu a fuga para a frente, lançando-se numa diatribe contra directores de jornais e televisões, com o argumento de que “quem escolhe é o povo porque em democracia o povo é quem mais ordena”.
Detenhamo- -nos um pouco na maravilha deste raciocínio: reparem como nele os planos do exercício do poder e do escrutínio desse exercício são intencionalmente confundidos pelo primeiro-ministro, como se a eleição de um governante servisse para aferir inocências e o voto fornecesse uma inabalável imunidade contra todas as suspeitas.
É a tese Fátima Felgueiras e Valentim Loureiro - se o povo vota em mim, que autoridade tem a justiça e a comunicação social para andarem para aí a apontar o dedo? Sócrates escolheu bem os seus amigos.
Partindo invariavelmente da premissa de que todas as notícias negativas que são escritas sobre a sua excelentíssima pessoa não passam de uma campanha negra - feitas as contas, já vamos em cinco: licenciatura, projectos, Freeport, apartamento e Cova da Beira -, José Sócrates foi mais longe: “Não podemos consentir que a democracia se torne o terreno propício para as campanhas negras.” Reparem bem: não podemos “consentir”.
O que pretende então ele fazer para corrigir esse terrível defeito da nossa democracia? Pôr a justiça sob a sua nobre protecção? Acomodar o procurador-geral da República nos aposentos de São Bento? Devolver Pedro Silva Pereira à redacção da TVI?À medida que se sente mais e mais acossado, José Sócrates está a ultrapassar todos os limites.
Numa coisa estamos de acordo: ele tem vergonha da democracia portuguesa por ser “terreno propício para as campanhas negras”; eu tenho vergonha da democracia portuguesa por ter à frente dos seus destinos um homem sem o menor respeito por aquilo que são os pilares essenciais de um regime democrático.
Como político e como primeiro-ministro, não faltarão qualidades a José Sócrates. Como democrata, percebe-se agora porque gosta tanto de Hugo Chávez."
João Miguel Tavares, Diário de Notícias, Março de 2009
(fonte: João Miranda, no blog Blasfémia)