sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Como é que uma canção com 42 anos se torna o hino da indignação:



Muito interessante este texto hoje publicado no jornal Público, da autoria do jornalista João Miguel Tavares, onde reflecte sobre a falta de canções de protesto nos dias que correm e a razão de irmos buscar canções com várias décadas de vida para manifestar a nossa indignação: 

QUEM CANTA JÁ NEM OS MALES ESPANTA

por João Miguel Tavares

In Público de 22 de Fevereiro de 2013

“Enquanto o país anda entretido a discutir como deve reagir um político ao ser alvejado por uma versão desafinada de Grândola, Vila Morena - deve calar-se e esperar que passe?, deve fugir pelas traseiras?, deve fingir que sabe a letra e trautear? -, eu proponho uma outra reflexão: porquê Grândola Vila Morena? Por que é o país quando se zanga, ou simplesmente quando marcha do Marquês de Pombal para os Restauradores, aquilo que contínua a cantar é a Grândola (canção gravada por José Afonso em 1971, já lã vão 42 anos) ou Os Vampiros (canção gravada por José Afonso em 1963, já lá vão 50 anos)? Não me entendam mal: José Afonso é o maior génio da musica popular portuguesa. Mas não se encontra por aí nada de mais actual?

“A resposta é: não, não se encontra. É verdade que os Deolinda acertaram em cheio no espírito do tempo com Parva que Sou e que Sexta-feira, de Boss AC, rodou muito pela rádio.

“Mas são epifenómenos, que vêm e vão. Mais: a maior parte dos músicos foge do carimbo “música de intervenção” como o diabo da cruz. Em 2009, os Xutos & Pontapés até meteram os papéis para a reforma da irreverência ao desmentirem que uma canção sua que começava com as palavras “senhor engenheiro” quisesse atingir alguém em particular. Bolas, desde quando é que é suposto uma banda de rock ter medo de ser mal interpretada?

“O desemprego campeia entre os jovens. Pela primeira vez existe uma  geração que corre o risco de vir a viver pior do que a anterior, A classe média é esmagada com impostos. E, no entanto, os artistas, de um modo geral, e os músicos portugueses, em particular, parecem alheados do que está à sua volta. Não escrevem, não cantam, não dão uma banda sonora ao povo, para que ele se possa indignar com letras do presente, em vez de usar palavras de José Afonso escritas para homenagear a resistência antifascista da Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense, que hoje em dia só já anima procissões e arruadas.

“A razão por que isto acontece é a mesma por que a indignação que existe no ar se mostra incapaz de se inscrever num discurso político sólido: há um temor do comprometimento, como que um excesso de lucidez que transforma todos os ideais em manifestações de ingenuidade, um individualismo radical que tem alergia a qualquer outra acção prática que vá além do protesto. Na América dos anos 60 e 70, cantava-se para acabar com o Vietname. No Portugal dos anos 60 e 70, cantava-se para acabar coma ditadura e com a guerra colonial. No Portugal de 2013, canta-se para acabar com o quê? Com a democracia? Com certeza que não. Com a injustiça? Demasiado difuso.

“E assim estamos, sem canções nem discurso válido, condenados a enfrentar o presente coma banda sonora dos nossos avós. Talvez B Fachada tenha razão.

“Em 2011, ele gravou Deus Pátria Autoridade, um equivalente envenenado do maravilhoso FMI (1982), de José Mário Branco. E aí é dito, com cínico optimismo: “Portugal está para acabar/ É deixar o cabrão morrer/ Sem a pátria para cantar/ Sobra um mundo para viver.” O disco está disponível para download gratuito na Internet. Mas lá está: não serve para animar desfiles na Avenida da Liberdade”.

Jornalista

Jmt1973@hotmail.com


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