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quinta-feira, 24 de maio de 2018

António Arnaut : Um politico ao serviço do bem público



Numa época em que, diariamente, tomamos conhecimento de mais um politico apanhado nas teias da lei, ou responsabilizado pela degradação do serviços públicos, ou envolvido em negociatas com o poder económico e financeiro, a morte de uma figura como a de António Arnaut não é apenas mais uma morte marcada pelas leis da natureza, mas uma verdadeira tragédia.

António Arnaut foi um exemplo raro de honestidade e dignidade no exercício de um cargo público.

Como se isso não chegasse, foi ainda o rosto daquela que foi o exemplo maior do “espírito de Abril”, a criação do Serviço Nacional de Saúde (SNS).

Apesar de todos os ataques contra o SNS deferidos de todos os lados e por todos o lóbis que procuram dificultar a sua concretização, como tivemos um exemplo recente nos “recados” da Comissão Europeia com os “gastos” de Portugal com o SNS,   [é pena que não revelem a mesma preocupação como os gastos para salvar o corrupto sistema financeiro europeu…]  a sua obra continua a resistir.

Apesar da tentativa de o desvirtuar a partir do “cavaquismo”, apesar de quase ter sido arruinado pelo descalabro financeiro do “socratismo”, apesar da tentativa oportunista de o destruírem no “passo- coelhismo” [com o resultado que todos temos sentido nos últimos tempos], festim onde participaram e participam muitos que nesta hora  lançam loas de pesar pela morte do Homem, o SNS é um dos pilares da nossa democracia.

Para além do SNS, o grande legado de Arnaut, é o que ele representa como raro exemplo de honestidade politica, como um exemplo do que deve ser o verdadeiro serviço público e do que se espera de um politico, de alguém que, tendo um sonho, tudo fez para o concretizar e o defender até ao último suspiro.

Defender e aperfeiçoar  o SNS é a melhor homenagem que a nossa geração pode prestar à sua memória.

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Basta gritar “corrupto” para ser corrupto?



As redes sociais proliferam de acusações de Corrupção e de debates sobre quem é mais ou menos corrupto, com frases pequenas, cheias de insinuações e insultos, esquecendo-se de um pormenor: a presunção de inocência.

Mas para os demagogos que proliferam nas redes sociais pouco interessa a verdade ou a mentira e muito menos a discussão serena.

Uma comunicação social sensacionalista, misturada com uma classe politica despida de valores éticos e uma ignorância generalizada são o terreno fértil para a proliferação de demagogos e populistas.

Claro que foi uma geração de políticos, formados nas “jotas” e na manipulação de fundos europeus, oportunistas de carreira, exibindo a vaidade para disfarçar o vazio de ideias e sempre prontos a fazer favores a qualquer negociante engravatado a nadar em dinheiro, que deu o mote aos demagogos que dominam as redes sociais.

Claro que a corrupção é um grave problema nas democracias actuais. É mesmo um perigo, a prazo, para a própria sobrevivência da democracia.

Claro que não existe uma “corrupção de direita” e uma “corrupção de esquerda”, nem a corrupção do meu “amigo” é melhor que a do meu “inimigo”.

Os “gritadores” das redes socias, “impolutos”, sempre prontos a apontar  a “corrupção do vizinho” e a desculpar a “corrupção lá de casa” dividem-se em  grupos:

-aqueles que confundem campanhas de desinformação com verdade dos factos. Antes de alguém ser julgado, encontra escarrapachado todo o processo nas primeiras páginas dos jornais sensacionalistas. Apesar de dar uma má imagem da justiça portuguesa e dos jornalismo que assim actua, tudo vale para vender jornais e para um qualquer juiz ganhar protagonismo mediático. Mesmo que se venha a ser provada a inocência, o visado acaba ali a sua vida pessoal;

-aqueles que nivelam igualitariamente o presidente  da junta que faz um favor a um amigo, o vereador que passa por cima da burocracia  para acelerar uma obra necessária, um ministro que desvia fundos públicos ou toma decisões para favorecer uma empresa para onde vai trabalhar quando abandona a politica, até ao burocrata de Bruxelas que toma decisões que prejudicam os cidadãos para salvar bancos corruptos. Tudo isto é condenável, mas nem tudo pode ser colocado ao mesmo nível;

- aqueles que confundem “corrupção” com o que é eticamente condenável. Uma situação pode ser eticamente condenável, mas pode ser legal. Toda a austeridade que sofremos para salvar bancos e banqueiros “corruptos” era eticamente reprovável…mas era legal. O problema aqui reside muitas vezes na ambiguidade da lei, que protege o grande corrupto, que tem dinheiro para arrastar processos até à sua prescrição e para pagar a bons advogados que o “safem”, enquanto o “pequeno” corrupto acaba desfeito nas malhas da lei;

-aqueles que acham que a culpa é da democracia e que “antigamente” (leia-se, por cá, no tempo de Salazar) é que era bom. Esquecem-se que muito daquilo que é condenável em democracia, não o era em ditadura. Salazar construi o seu domínio alimentando uma oligarquia financeira e económica por meios que, à luz das leis actuais, seriam crime de corrupção, desculpando ou silenciando a corrupção dos seus apaniguados e impondo-se aos tribunais que, em qualquer ditadura, seja qual for a sua cor politica, não são independentes da decisão dos ditadores.
E se, mesmo assim, o “caso” se tornasse público, lá estavam a Censura e a PIDE prontas a actuar para silenciar o “escândalo”. Na ditadura, ao contrário da democracia, “não existe” corrupção, nem pobreza, nem crime, porque tudo isso era proibido de divulgar, principalmente se, em causa, estivessem partidários da ditadura, na Salazarista ou noutra qualquer. A diferença é que, apesar de tudo, em democracia os tribunais, apesar de todas as pressões, ainda são independentes e não existe censura e tudo, mesmo o que pode ser mentira ou não provado, acaba no conhecimento público.
Mesmo aqueles que defendem que o ditador nunca foi rico, esquecem-se de que este, para além de proteger os corruptos do regime, não se tinha de preocupar com o dinheiro para pagar as suas contas, alguém pagava por ele. Aliás o ditador preocupava-se mais com a manutenção do poder do que com o dinheiro. E que maior acto de corrupção existe do que aquele que o manteve no poder, sem controle democrático, construindo leis e uma Constituição para o perpetuar no poder e ao seu regime, e que submeteu o país à miséria mais abjecta, um país que apresentava níveis de saúde e educação do terceiro-mundo e obrigou o país a uma guerra sem fim e desgastante, situações que ainda hoje todos estamos a pagar?

No Portugal democrático a corrupção não tem cor politica, embora atinja mais as formações politicas que estão próximas do poder, o chamado centrão.

A grande corrupção politica no Portugal democrático começou com o cavaquismo e a forma como foram geridos os fundos europeus que então chegaram em “barda” a Portugal. Não por acaso, quase todos os ministros desse tempo acabaram envolvidos nos grandes processos de corrupção (o BPN foi apenas a ponta do iceberg), embora se tenham “safo” quase todos graças à demora dos tribunais e à influência que exerceram sobre o poder judicial.

A grande corrupção politica agravou-se no tempo de Sócrates, estando ainda a decorrer processos sobre a actuação desse politico.
A mim não me surpreendeu a situação judicial de Sócrates. Não tenho grandes dúvidas sobre a sua falta de ética e sobre os crimes de que é acusado. O que me surpreende é como, usando os mesmos critérios para criminalizar esse antigo primeiro-ministro, não existem outros políticos do centrão  a contas com a justiça. Neste caso parece que estamos perante um caso de justiça selectiva. Outros aspecto estranho neste caso é a demora em levar esse politico à barra do tribunal, pois aquilo que veio a público já tinha dado vários processos. Aqui parece-me que o interesse não é fazer justiça mas usar um processo para fazer politica partidária. E não me venham falar na independência da procuradora, Joana Vidal. Desde que a vi “desfilar”, em pleno passos-coelhismo, numa Universidade (?) de Verão da JSD, que ficou tudo dito sobre a sua independência!!!

O governo de Passos Coelho não melhorou a situação. Além do constante espezinhar ilegal da Constituição para agradar aos “mercados” do corrupto poder financeiro, também têm vindo a público vários processos que o envolvem ou a ministros seus, mas que têm sido silenciados ou acabando prescritos, como o caso dos “submarinos” (este vindo do tempo de Durão Barroso), o caso dos vistos Gold, o “apagão” das finanças ou os esquecidos casos dos “Panama Papers” e da  Tecnoforma!!!!

Mas, muitas vezes, os grandes corruptos nem são os rostos mais conhecidos. Estes mantem-se muitas vezes no anonimato, manipulando a politica, as finanças e a economia. Basta consultar as listas de grandes devedores ao fisco ou dos que recorrem aos paraísos fiscais, onde proliferam os ilustres desconhecidos, alguns deles, acredito, testas-de-ferro de gente mais conhecida.

A corrupção existe, é o grande cancro da democracia, mas não se resolve com gritaria histérica, com sectarismo ou, ainda menos, com uma ditadura.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Justiça e ética, bens cada vez mais raros.


Não sei porquê…ou até sei…mas os recentes casos de corrupção, divulgados publicamente, levam-me a uma pergunta: porque é que pessoas, com cargos de responsabilidade, com visibilidade pública, que, só em função dos cargos que exercem, vivem muito acima das possibilidades do comum dos mortais, se envolvem nas malhas da corrupção para aumentarem um pecúlio já de si generoso?

Claro que sei que existe uma justiça selectiva que alimenta inadmissíveis fugas de informação, muitas vezes para desviar as atenções de outros corruptos de tendência diferente e alimentando, mais do que a procura de justiça, um certo desejo populista e mórbido de justicialismo….

Mas, nãos sei porquê…,ou até sei..., mas estes tristes casos de corrupção fizeram-me recordar uma história, que aqui vou revelar.

Existiu um homem que, nunca pactuando com as injustiças deste mundo, acabou por estragar a sua vida e acabou preso dois anos por razões politicas e por denunciar e combater essas injustiça.

Esse homem refez a sua vida numa terra que lhe era estranha, que até desconfiava do “estrangeiro”, mas a sua personalidade, de homem culto, activo, preocupado com os outros, um bom profissional, um contabilista honesto e de confiança levaram a que a sua personalidade se impusesse e se tornasse uma pessoa considerada, mesmo pelos seus adversários políticos.

Bom profissional, desempenhou funções de responsabilidade na maior empresa do concelho, sendo requisitado por outras empresas da região para, em part-time, organizar a contabilidade de muitas dessas empresas.

A sua honestidade levou a que, apesar das suas funções de responsabilidade, nunca tenha vivido acima das possibilidades médias de um cidadão desses tempos difíceis, sujeitos à miséria generalizada e a uma ditadura que impedia qualquer oposicionistas de conseguir singrar profissionalmente.

Como ele era um contabilista encartado, a sua assinatura tinha valor legal e era fundamental para algumas actividades fiscais e financeiras.

Um dia alguém o abordou. Era preciso a assinatura de um contabilista encartado para fechar um negócio legal. Só que esse negócio era uma venda de armas para África.

Em troca da assinatura, num processo que era legal, esse homem receberia o equivalente nos nossos dias a um valor que dava para comprar uma casa (ele que vivia em casa alugada), um automóvel (ele que se deslocava a pé) , para umas grandes férias com a família (ele que só saiu uma vez do país para ir  Madrid e que passava férias com a família numa praia a pouco mais de dez quilómetros da sua habitação) e ainda sobrava algum dinheiro.

Mas o negócio era contra os seus princípios, o seu pacifismo , a critica que fazia à guerra como principal factor de injustiça e maldade, tudo o que ele abominava e sempre tinha combatido.

Por isso recusou-se a assinar. Quem o abordou para o negócio tentou insistir, argumentando que o negócio fazia-se à mesma porque, se ele não assinasse, outro qualquer contabilista  assinaria, ganhando aquela quantia.

Ele manteve-se firme, continuou a viver de forma “remediada”, como então se dizia da vida das classes médias, mas morreu com a sua consciência tranquila.

Não sei porquê…ou talvez saiba…mas sempre que surgem estes casos de corrupção  e de falta de ética económica e social, recordo-me sempre daquela história..

Ah….o homem que referi acima…é meu pai!


quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

#MeToo...ou talvez não!

Sei que me vou meter num terreno movediço e me arrisco a sofrer as consequências.

Mas a forma com está a ser tratada a questão do assédio sexual pelo movimento #MeToo  parece-me estar a ultrapassar todos os limites do bom senso.

Confundir um reles piropo com o verdadeiro assédio sexual parece-me ser um mau contributo para combater a violência contra as mulheres.

Não distinguir a chantagem profissional usada no assédio sexual com um qualquer arrebatamento machista momentâneo sem outra consequências que não seja a de envergonhar o próprio, parece-me ser um mau contributo para a causa feminista.

Foi para voltar a por o debate nos carris que Catherine Deneuve e outras mulheres francesas ligadas ao mundo das artes, da literatura e do espectáculo vieram assinar um manifesto contra o fundamentalismo que se vive neste momento no debate sobre essa questão.

A resposta javarda de trinta "feministas" (???) francesas àquele manifesto em nada contribui para o debate e só vieram dar razão às primeiras.

(leia-se a propósito aqui o que sobre o assunto se escreve no jornal espanhol Publico , no francês  Liberation ou no português Publico ).

A violência doméstica, maioritariamente contra as mulheres ou a violação estão devidamente criminalizadas. É preciso apoiar a coragem de quem as denuncia e, até certo ponto, o movimento #MeToo deu um importante contributo.

A chantagem sexual exercida sobre mulheres no local de trabalho, chantageando-as com o desemprego ou na progressão da carreira, muito comum no mundo do cinema, das artes e do jornalismo, sendo mais difícil de provar, deve ser igualmente denunciada e criminalizada e foi por aqui que parece ter começado o movimento #MeToo.

Infelizmente rapidamente se passou do bom senso para o fundamentalismo puritano, onde tudo se confunde e onde quem grita mais alto é quem ganha a razão.

O movimento #MeToo  teve o mérito de por a questão na agenda, mas a opinião de Catherine Deneuve e das suas colegas subscritoras é importante para repor a discussão em termos éticos.


quarta-feira, 5 de julho de 2017

O Respigo da Semana : "O que entra em lenta cinza pelas minhas janelas em Pedrogão Grande (...) é a via portuguesa para o capitalismo nos campos".


“(…)

“O que entra em lenta cinza pelas minhas janelas em Pedrogão Grande e pousa docemente sobre o meu teclado, os meus livros, a minha roupa, é a via portuguesa para o capitalismo nos campos.

“Sim, falo de um destino histórico, tanto mais português, mais cruel e inumano, quanto menos se confessa e se entende , quanto mais neutro e sereno parece.

“O “reordenamento do território”, essa miraculosa panaceia de que tantos falam e tão poucos percebem, está a rapidamente perante os nossos olhos: corre à velocidade das chamas e do vento.

“Depois do desastre, muitas dezenas de milhares dos quinhentos mil pequenos e pequeníssimos proprietários de floresta terão perdido tudo e perderão, por fim, a terra.

“O que arde em Portugal é o campesinato português, expulso do Alentejo pelo PS, varrido do centro e do norte pelas Politicas Agrícolas Comuns do PS e do PSD, despojado de tudo pelo fogo.

“Ardem os velhos de olhos rasos de lágrimas que só a conversa mole de enfermeiros vestidos de branco consegue arrastar, sobre um fundo de céu em cinza, para longe de meia dúzia de oliveiras a que dedicaram a vida.

“Ardem os bens dos descendentes de velhos já mortos que deixaram morrer os velhos e os sobreiros de que cuidavam para plantarem no seu lugar mato, casas vazias e eucaliptos.

“Haverá-haverá ainda? –outra história possível? Vejo na televisão a falsa tristeza de quem, lá no fundo, pensa que Clio só saúda os vencedores. Vejo nos telejornais os olhos serenos que quem atribui subsídios como quem deita pazadas de terra sobre um caixão.

“ E penso num camponês vizinho meu, do outro lado do Zêzere. Tem dezassete anos. Dezassete. O pai, falecido, deixou-lhe o que tinha, terra, gado, máquinas. Perdeu tudo. Vai certamente partir para o litoral, onde não há agricultura nem incêndios.

“Talvez não tivesse de ir se, em vez de menos Estado, em vez de mais liberalismo, o interior de Portugal tivesse tido a sorte de ter sido governada nestes últimos trinta anos, já nem digo por socialistas, bastavam social-democratas, agentes de uma história mais generosa.

“Os Canadair continuam a voar sobre a minha casa. Já não sinto raiva nenhuma”.
 
por Paulo Varela Gomes

…Não, este texto não foi escrito nestas duas últimas semanas. Foi escrito em 5 de Agosto de …2003!!! (durante o governo de Durão Barroso).

É um excerto da crónica “A Incendiária” de Paulo Varela Gomes, publicado no livro OURO E CINZAS, editado pela Tinta da China. Em 2016.

..e, infelizmente, Paulo Varela Gomes não está cá hoje para escrever uma crónica actualizada sobre acontecimentos recentes, porque esse grande professor e investigador faleceu há um ano.

Mas tudo o que ele escreveu há…14 anos (!!!!), ganha actualidade nos dias que correm.

Quem nos dera que entre a nossa classe política das últmas décadas existisse a lucidez de um Paulo Varela Gomes!

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Passos Coelho, o seguro de vida da Geringonça


A tragédia de Pedrogão Grande e o roubo de armamento em Tancos estão a ser aproveitados demagogicamente, até à exaustão, pelos troikistas para tentarem abanar a Geringonça.

Toda a tropa fandanga dos gobelzinhos da propaganda troikista, que domina a comunicação social, usa e abusa de todo aparelho demagógico ao seu dispor para abrir fissuras na geringonça.

Só há um problema para essa gente: chama-se Pedro Passos Coelho ( e por, arrasto, Assunção Cristas...).

É que, para além do “jeito” de Passos Coelho para dar tiros no pé, nenhum deles está impune às causas últimas do desvario do Estado que levou ao desencadear daqueles casos.

A profusão de boys nos escalões intermédios do Estado, que lá estão, não por competência, mas por fidelidade política ao grande “centrão”, desde o cavaquismo, passando pelo barrosismo, agravando-se durante o socratismo e o passos ceolhismo, gerou toda a incompetência que esteve na origem daquele tragédia e daquele assalto.

Por sua vez, para além do agravamento da corrupção estatal durante os tempos de Sócrates , a austeridade troikista, que teve nos gobelzinhos da comunicação social os grandes propagandistas dos cortes cegos em todas as estruturas do Estado e da redução do poder do mesmo Estado, estão a montante de todas as causas que geraram as dramática conjuntura das últimas semanas e tudo isto tem um rosto: Pedro Passos Coelho ( e, por arrasto, Assunção Cristas…).

Por isso, enquanto Pedro Passos Coelho for o rosto visível da oposição à geringonça, esta pode  estar descansada que vai sobreviver a esta difícil curva da estrada que percorre.

Ou seja, a sobrevivência da geringonça, se tem em Passos Coelho o seu melhor seguro de vida, depende apenas de si própria, ou seja, de um inquérito rigoroso, transparente e convincente que esclareça o que falhou e aconteceu, assumindo depois todas as consequências políticas e fazendo uma limpeza dos resquícios do “boysismo” socrático-coelhista no Estado e tomando drásticas medidas de gestão florestal, no primeiro caso, e de controle dos negócios de armamento, no segundo, custe a quem custar.

Costuma dizer-se que é nas curvas apertadas da estrada que se revelam os bons condutores. Esta é a oportunidade de António Costa e da sua geringonça mostrarem o que valem.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

As “vantagens” de Trump.


E se o “trumpismo” não nos trouxesse apenas um mundo mais negro e desumano?
E se houvesse vantagens na Era Trump, como uma espécie de vacina contra o populismo e o neoliberalismo?
Á partida há quem saia beneficiado: os cartoonistas:estes têm “pano para mangas” e tema para explorar por quatro anos.
Mas a Europa também pode sair beneficiada, unindo-se em defesa do verdadeiro liberalismo ( renegando de vez essa caricatura ridícula e perniciosa que dá pelo nome de neoliberalismo), em defesa das minorias, em defesa do Estado Social, em defesa da igualdade de direitos, em defesa dos direitos humanos, para combater as ideias absurdas de Trump. Claro que para isso será necessário varrer os actuais lideres das instituições europeias, sempre pronto a negociar ou condescender com os projectos populistas de Trump se isso se  lhes der lucro, ou por mera cobardia política.
Foram os actuais líderes da União Europeia (juntamente com o poder financeiro mundial) que deram argumento ao populismo e lançaram para os braços da extrema-direita populista  uma parte considerável dos cidadãos europeus, quando lançaram o norte contra o sul, tentaram destruir o Estado Social, retiraram direitos a quem trabalha, aumentaram a desigualdade entre ricos e pobres, desvalorizaram salários e pensões, para salvar o negócios obscuros da banca e do mundo financeiro.
Outra vantagem é aproveitar a retórica trumpista contra a globalização e forçar uma mudança nas relações económicas e financeiras em que assentou, durante as últimas décadas,  o actual modelo de globalização.
Um mundo globalizado não pode ser um mundo da pura selvajaria humana, ambiental e económica criado por este modelo de globalização.
Existem alternativas ao actual modelo de globalização que não seja o nacionalismo proposto por Trump e pelos seus seguidores europeus.
O actual modelo de globalização está ferido de morte pelas atitudes de Trump, mas tem de ser substituído por outro, ou cairemos todos no ódio e na intolerância nacionalista para onde o novo presidente norte americano pretende levar-nos.
A alternativa passa por reformar e reforçar o poder e a influência de organizações internacionais, com a ONU à cabeça, mas que deve ter em conta recomendações a acções da OMT, UNICEF, OMS, UNESCO, entre tantas outras.
O poder financeiro deve submeter-se à melhoria das condições de vida das populações e das condições ambientais do planeta e por isso é preciso reformar o FMI, o Banco Mundial, e quejandos, varrendo-as da influência dos actuais burocratas que as lideram, meros empregados do grande poder financeiro.
A alternativa passa também por rever as regras do comércio mundial, combatendo o dumping social. Aqui a Europa pode dar o exemplo, desfazendo os paraísos fiscais que ainda existem no seu solo, obrigando quem exporta para Europa a cumprir requisitos ambientais, socias e fiscais, idênticos àqueles que são exigidos aos cidadãos e empresas europeias, combatendo a desigualdade nas suas mais variadas vertentes e reforçando a Europa Social.
Sé assim a Europa pode, mais uma vez, ser a alternativa aos modelos desumano que Putin, Trump, a ditadura chinesa e o corrupto sistema financeiro mundial pretendem impor aos cidadãos do mundo.
Só assim a Europa pode fugir a uma nova partilha em zonas de influência que esses mesmos modelos ambicionam.
Mas para isso é necessário alterar profundamente o modelo político e as instituições europeias, um trabalho moroso e penoso, mas que pode e deve unir os cidadãos que ainda acreditam na Europa como um espaço exemplar de igualdade, cidadania, respeito pelas minorias e pelo ambiente, enfim, um espaço de verdadeira democracia e liberdade, exemplar para um mundo cada vez mais desesperado.

A luta contra o absurdo de um mundo partilhado por Trump, Putin e a burocracia chinesa, pode ser o último alento para unir os Europeus e salvar o projecto europeu.
"Só" nos falta um Churchil e um DeGaulle...!!

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

A Vitória de Guterres é a vitória da Humanidade (…mas há derrotados!).



Conhecendo-se a personalidade de António Guterres, a sua vitória “cristalina” na corrida para secretário geral da ONU não é a derrota de ninguém. Mas existem…derrotados.
António Guterres é um humanista, um homem sem rancores, uma referência ética, um homem dialogante e tolerante e um grande conhecedor do melhor e do pior da humanidade, um homem que conhece bem o funcionamento das instituições da ONU.
Não se acredite, contudo, que vai ter vida fácil, num dos momentos mais críticos da história da humanidade dos últimos anos, onde se cruzam conflitos de grande gravidade e desumanidade, crescentes e agravados problemas ambientais, um agravamento das desigualdades e da miséria social, um crescimento do terrorismo e um agravamento das condições de vida da maior parte da população.
António Guterres não é manipulável e está legitimado por um processo eleitoral que, pela primeira vez na história da ONU e da eleição para o cargo, foi um processo transparente.
Leio, contudo, com estranheza que há quem compare a eleição de Guterres para o cargo de secretário geral da ONU, com a eleição de Durão Barroso para presidente da Comissão Europeia. Essa comparação é, no mínimo, ofensiva para Guterres.
Guterres foi “apenas” o melhor primeiro-ministro de Portugal após a adesão à democracia.
Durão Barroso iniciou o descalabro do país, agravado por Sócrates e diligentemente executado por Passos Coelho.
Guterres destacou-se, na política internacional, enquanto primeiro-ministro, como o homem que resolveu, contra ventos e marés e contra a própria vontade de quem dominava a ONU na altura, o grave conflito de Timor-Leste.
Durão Barroso ficou conhecido na política internacional como o cicerone de Bush e Blair na cimeira que conduziu o Médio-Oriente ao desastre actual e que tem como consequência, no nosso tempo, o grave problema humanitário dos refugiados e a criminosa guerra da Síria.
Guterres é o homem que encarou a política como uma forma de transformar o mundo para melhor.
Durão Barroso é o exemplo pior do carreirismo e oportunismo na vida política.
Guterres foi eleito para secretário geral da ONU num processo límpido e transparente, e que teve de enfrentar os velhos métodos de golpadas de bastidores, que a Comissão Europeia e a Alemanha tentaram impor.
Barroso foi escolhido para dirigir a Comissão Europeia num processo opaco, como “prémio” pelo seu papel na tenebrosa cimeira do Açores e como uma peça ao serviço da estratégia da Alemanha e do poder financeiro europeu para dominar a União Europeia e destruir direitos socias, num processo que agora, felizmente sem êxito, a mesma Alemanha e a mesma Comissão Europeia pretenderam impor na ONU com a fantochada da candidatura de Kristalina Georgieva.
Se para Guterres não existem derrotados com a sua eleição, existem de facto processos e políticos que, perante a opinião pública e a humanidade, saíram derrotados.
Durão Barroso está do lado dos derrotados, embora tenha a sua vida futura garantida com o confortável “tacho” da Goldman Sach.
Merkel também está do lado dos derrotados, pela atitude que tomou neste processo, embora vá continuar a dominar a União Europeia e a virar o norte conta o sul e o leste contra o oeste. Mas a sua derrota arrasta a própria Alemanha que pretendia, com essa golpada, ganhar influência a apoios para se tornar membro permanente do Conselho de Segurança.
Juncker é outro dos derrotados, pela forma como alinhou na golpada “Kristalina” , embora esteja já a prepara a vingança, avançando como os cortes estruturais contra Portugal. Com a sua derrota arrastou, não só a Comissão Europeia e o politburo de Bruxelas, mas a própria imagem internacional da União Europeia.
Obviamente, entre os derrotados está a própria Kristalina Georgieva, ao alinhar na golpada, viu a sua carreira política abalada, sendo derrotada em toda a linha, e sendo mesmo ultrapassada, na votação final, por outra candidata a quem “passou a perna”, a sua compatriota Irina Bokova, que conseguiu uma votação honrosa.
Derrotado ainda foi o “Grupo de Visegrado” que procurou impor uma idéia absurda, recuperada da Guerra Fria,  como critério de escolha para um futuro secretário geral da ONU, a de “Europa de Leste”. A tal “Europa de Leste”, não passa de um mito, um grupo de países historicamente falhados, que funcionaram e têm funcionado, ora como “espaço vital” da Alemanha, ora como “satélites” do derrotado poder soviético e que hoje representam o que de pior existe no seio da Europa, governos corruptos, antissociais, xenófobos e, cada vez mais, antidemocráticos e antiliberais.
No geral, saiu derrotado um processo de escolha para liderar instituições internacionais, baseado no desrespeito da vontade das populações e nas grandes negociatas nas costas dos cidadãos, como tem sido apanágio na União Europeia nos últimos tempos.
Guterres tem muito trabalho pela frente, começando por alterar profundamente o funcionamento da própria ONU, a começar pelo próprio Conselho de Segurança.
A lista de membros permanentes e o seu poder precisa de ser rapidamente revisto.
É necessário que a África e a América Latina passem a ter representação. Será igualmente importante que tenham assento permanente países asiáticos que façam o contra ponto com a influência da China e seria até importante que desse grupo fizesse parte um país com população de maioria muçulmana.
Depois é necessário reforçar a influência e a legitimidade de outras instituições que emanam da ONU (Unesco, OMS, UNICEF, OIT…) e aumentar o controle sobre o poder do FMI.
Há ainda que combater a muita corrupção que circula pelos corredores daquelas instituições.
À escala global, é urgente resolver a crise dos refugiados e a Guerra na Síria, e, noutro âmbito, a gravidade da situação ambiental, o combate à pobreza infantil e a desregulação económica e social em que o mundo foi lançado durante as últimas duas décadas em que a influência da ONU foi fortemente reduzida.
António Guterres é a última oportunidade para melhorar o funcionamento da ONU e, assim, melhorar a dramática situação mundial.
Guterres é o homem certo no lugar certo e no momento certo.
 
Desejamos-lhe Boa Sorte, porque a sua "sorte" também será a nossa...

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Uma grande vitória para a humanidade…uma grande derrota para o "politburo" da Comissão Europeia!!


Portugal e Guterres estão de Parabéns.
Falhou a golpada preconizada pela Comissão Europeia, agindo mais uma vez nos bastidores, desrespeitando as mais elementares regras de ética política:
A Comissão Europeia, habituada a agir no espaço que governa, sem legitimidade democrática diga-se, como mero executor dos interesses da Alemanha e da grande finança, pensava que podia lidar com o resto do mundo da mesma maneira e, desrespeitando as regras de transparência que, pela primeira vez, se impuseram na eleição para secretário geral de ONU, pensou que podia voltar a agir impunemente e impor as suas regras sem respeitar os cidadãos.

A sua candidata caiu com estrondo e António Guterres, a não ser que exista mais alguma jogada de bastidores de algum dos “grandes”, tem o caminho aberto para ser o próximo secretário geral da ONU, levando para aquela organização a humanidade do seu percurso e contribuindo para recuperar a credibilidade daquela organização.

A humanidade bem precisa .

Uma grande vitória para a humanidade…uma grande derrota para o "politburo" da Comissão Europeia!!


Portugal e Guterres estão de Parabéns.
Falhou a golpada preconizada pela Comissão Europeia, agindo mais uma vez nos bastidores, desrespeitando as mais elementares regras de ética política:
A Comissão Europeia, habituada a agir no espaço que governa, sem legitimidade democrática diga-se, como mero executor dos interesses da Alemanha e da grande finança, pensava que podia lidar com o resto do mundo da mesma maneira e, desrespeitando as regras de transparência que, pela primeira vez, se impuseram na eleição para secretário geral de ONU, pensou que podia voltar a agir impunemente e impor as suas regras sem respeitar os cidadãos.

A sua candidata caiu com estrondo e António Guterres, a não ser que exista mais alguma jogada de bastidores de algum dos “grandes”, tem o caminho aberto para ser o próximo secretário geral da ONU, levando para aquela organização a humanidade do seu percurso e contribuindo para recuperar a credibilidade daquela organização.

A humanidade bem precisa .

quinta-feira, 28 de abril de 2016

UMA PRIMEIRA PÁGINA QUE É O RETRATO DE UM PAÍS

Olhamos para esta primeira páginas do jornal Público e vemos o Portugal de hoje.

Por um lado, uma iniciativa levada a cabo pela sociedade civil consegue, em poucos meses, angariar fundos para adquirir uma obra de arte fundamental para a nossa cultura.

Foram poucas as empresas e os bancos a contribuírem para essa iniciativa, com  honrosas excepções (como a Fundação Aga Khan, que contribuiu como um terço do seu valor, sem esquecer o Público, Fuel, RTP e o banco Millenium BCP).

Que se saiba, a esmagadora maioria das empresas cotadas em bolsa não deram um cêntimo...percebe-se, lendo o título de cima..andaram ocupados em desviar dinheiro para os offshores.

E este é o outro lado dessa primeira página.

Durante os anos da troika as grandes empresas deste país, tão "patrioticamente" gabadas pelo anterior governo e por Cavaco Silva, tiraram de Portugal 10 mil milhões de euros.

Sobre esta notícia ouvi hoje um comentário de um fiscalista tentando por àgua na fervura, dizendo que esse dinheiro já paga impostos em Portugal e também no local onde depositaram aqueles milhões (!!!).

Mas alguém acredita nisso? Ou será que os nossos grandes empresários são estúpidos ao ponto de pagarem duas vezes impostos para colocarem dinheiro fora do país? Ninguém desvia aquelas quantias sem tirar daí benefícios e os benefícios só podem ser ou para lavar dinheiro ilegal, ou para fugir aos impostos...senhores comentadores...não tomem os portugueses, e as empresas que pagam os seus impostos e trabalham, por parvos!!!.

Mas aquela primeira página mostra também porque é que alguma classe política anda arredada, por um lado, do apoio a iniciativas culturais como aquelas que referimos e, por outro lado endeusam as grandes empresas que fogem ao fisco, ao mostrar a ligação entre políticos e empresários corruptos, como aquele apanhado na operação "lava jato"....

segunda-feira, 13 de julho de 2015

adivinhe quem foi o "irresponsável" e "irrealista" que proferiu as seguintes palavras que "não respeitam" os "mercados" e nem os "credores"?


“Se a política for dominada pela especulação financeira ou se a economia for governada apena por um paradigma tecnocrático e utilitário, preocupado apenas com o aumento da produção, não conseguiremos compreender, quanto mais resolver, os grande problemas da humanidade”.

Sabe quem fez essa afirmação “irrealista” ?

Se alguém fizesse essa afirmação numa reunião do eurogrupo tinha de aturar desde logo as invectivas ameaçadoras do sr.Schaüble ou do sr.Dijsselbloem, logo apoiadas pelos ministros das finanças de Portugal e da Finlândia.

Se essa afirmação fosse feita no BCE, levaria uma resposta “dura” de Draghi ou Constâncio.

Numa cimeira do Conselho Europeu, lá teria de ouvir as ameaças da sr.ª Merkel e do sr TusK, apoiadas por Passos Coelho e por Rajoy.

Se fossem pronunciadas no Parlamento Europeu, lá teria de atura a má cara do sr. Schultz e a irritação boçal do antigo primeiro-ministro grego.

No FMI a sr. Lagarde lá estaria para abafar uma tal reflexão.

Na Comissão Europeia o sr Juncker responderia com uma anedota..

Em Portugal logo teríamos uma matilha de professores universitários da universidade “Católica” e do ISEG , secundados por comentadores televisivos, a ridicularizarem o seu autor ou Cavaco Silva a chamá-lo à “realidade” e à “moderação”.

Ainda não descobriram quem proferiu aquela “perigosa” afirmação,  quem foi o “atrevido” que desafiou o “paz” dos  “mercados” e as “boas intenções” dos “credores”, “incapaz” de perceber a “realidade”?

Não, não foi nenhum “perigoso comunista” . Não, não foi o “terrorista” Tsipras.

….foi ….o PAPA FRANCISCO, ontem na Bolívia!

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

O CONTRASTE: Heróis nacionais : Funcionários municipais devolveram 4407 euros encontrados no lixo.


A notícia que se conhece agora contrasta com outras notícias que nos têm chegado nos últimos dias.

Os funcionários municipais que devolveram cerca de 4 mil e quinhentos euros que encontraram no lixo, dão uma lição de ética e honestidade às elites políticas e económicas que nos governam.

Funcionário públicos mal pagos, que têm sido as principais vítimas das medidas de austeridade na Função Pública, e de toda a propaganda negativa debitada por certos comentadores, dão uma lição de ética a gente que gravita à volta do Estado ou que é nomeado para altos cargos da administração pública como "boys" do centrão e que apenas pensam em "governar-se".

E a esses trabalhadores, pobres e mal pagos, mas honestos, verdadeiro exemplo da ética profissional, que falta nos mais altos cargos da administração e da gestão económica e financeira, o sr. Presidente da República também os vai condecorar?

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Ainda Há Portugueses Dignos: José António Pinto deixou medalha de ouro no Parlamento em sinal de protesto

Aconteceu ontem no Parlamento e apenas mereceu destaque na Antena 1 e nalguma imprensa escrita (as televisões, como é seu hábito, nem se deram ao trabalho de destacar o facto, como ele merecia).

José António Pinto, assistente social do Porto, que se deslocou ao Parlamento para ser medalhado, em reconhecimento pelo seu trabalho junto dos mais desfavorecidos, no Dia dos Direitos do Homem, recusou a medalha, aproveitando a ocasião para manifestar a sua indignação pela situação no país:

"Deixo ficar esta medalha no Parlamento se os senhores deputados me prometerem que, futuramente, as leis aprovadas nesta casa não vão causar mais estragos na vida daqueles que, por terem deixado de dar lucro, são hoje considerados descartáveis»

(...)

"Quero emprego com direitos para criar riqueza, quero que a dignidade do homem seja mais valorizada do que os mercados, quero que o interesse coletivo e o bem comum tenham mais força do que os interesses de meia dúzia de privilegiados".

Podem ver a reportagem em baixo, da autoria da jornalista Maria Flor Pedroso,retirada do Jornal de Notícias on-line, bem como a reportagem rádiofónica da Antena 1, da autoria da mesma jornalista, e ainda a opinião do blogue "Um Jeito Manso":



"José António Pinto deixou medalha de ouro no Parlamento em sinal de protesto


10 Dez, 2013, 14:35 / atualizado em 10 Dez, 2013, 14:39


"José António Pinto deixou esta tarde na Assembleia da República a medalha de ouro comemorativa do 50º aniversário da declaração Universal dos Direitos Humanos, que lhe tinha sido entregue como reconhecimento pelo seu trabalho no Porto. O assistente social da Junta de Freguesia de Campanhã afirmou que trocava a medalha por outro modelo de desenvolvimento económico.

"A sala irrompeu em palmas e ainda ouviu José António Pinto instar os governantes a estancarem “imediatamente este processo de retrocesso civilizacional que ilumina palácios, mas ao mesmo tempo deixa pessoas a dormir na rua”.


“Não quero medalhas, quero que os cidadãos deste país protestem livremente e de forma digna dentro desta casa e quando reivindicam os seus direitos por uma vida melhor não sejam expulsos pela polícia destas galerias”, acrescentou.

"Neste Dia Internacional dos Direitos Humanos, o Parlamento distinguiu também Farid Walizadeh com a medalha de ouro comemorativa do 50º aniversário da declaração Universal dos Direitos Humanos. O jovem refugiado afegão de 16 anos está em Portugal desde janeiro e já é campeão nacional de boxe. 

"O Prémio Direitos Humanos 2013 foi entregue à Federação Nacional de Cooperativas de Solidariedade Social (Fenacerci) pela defesa dos interesses e direitos das pessoas com deficiência e pela sensibilização da opinião pública em relação a este tema.

(com Sandra Henriques)


ou AQUI.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

A CARTA DE Meira Soares aos deputados, que esteve na base da sua demissão da Comissão de acesso ao Ensino Superior, cargo que ocupava desde 1995, “escandalizado” com ataques “despudorados” do Estado aos que menos recebem




"ISTO SERÁ MESMO NECESSÁRIO?

"Senhores Deputados:

"Sabemos que, só a partir de 2003, começaram a ser tomadas medidas no sentido de tornar sustentável o sistema de aposentações da função pública, numa clara e pública confissão da incompetência dos sucessivos governos para encarar um problema que já era previsível nos fins da década de 80 (ver adiante)! Desde 2003, o “ataque” aos aposentados intensificou-se, nalguns casos com justificações aceitáveis.

"Foi assim que a idade da aposentação e o tempo para a atingir se foi alterando e aumentando, ao mesmo tempo que as regras de cálculo das pensões eram também alteradas.

"Acabou-se, e bem, com a possibilidade de um aposentado do Estado poder acumular a sua pensão com qualquer forma de remuneração atribuída por esse mesmo Estado. Chegou-se, porém, ao exagero de as gratificações, ou senhas de presença, por se ser membro de uma Comissão qualquer, prevista na lei, não poderem ser recebidas quando se é pensionista. Há, assim, aposentados a trabalhar em Comissões legalmente criadas, sem poderem sequer receber senhas de presença, por exemplo.

"A irresponsabilidade dos sucessivos governos acabou por nos levar à situação de dependência em que nos encontramos, com a obrigação de cumprir um Memorando de Entendimento que tem trazido a miséria a muitos portugueses. A convergência dos sistemas, público e privado de pensões, estava entre as medidas previstas no Memorando, não dando, contudo, indicações específicas sobre o modo de o fazer.

"O atual governo demonstrou, há mais de um ano, em especial através do Primeiro-Ministro, uma propensão para lançar privados contra públicos e novos contra velhos, manifestando claramente uma aversão aos aposentados em geral (Contribuição Extraordinária de Solidariedade) e, de entre estes, aos da função pública. Não admira, portanto, que tente levar avante a sua ideia de penalizar estes últimos, através de uma proposta de legislação,aprovada em Setembro de 2013, que lhes retira, de um dia para o outro, uma parte considerável das suas pensões, sem qualquer preocupação com uma transição a que o Estado nos tem habituado.

"Dir-se-á que, na situação em que o país se encontra, tal seria inevitável, mais tarde ou mais cedo. Mas não basta afirmar: é necessário provar.

"Sejamos claros.

"Não me custa, absolutamente nada, admitir que, numa situação de emergência, como a atual, o Estado se veja obrigado a quebrar algumas partes dos seus contratos e não faço disso um segredo. 

"Escandaliza-me muito, porém, que esse mesmo Estado ataque de maneira despudorada os que menos recebem, os desempregados e os doentes.

"Escandaliza-me que esse Estado determine cortes, recorrendo ao fomento da discórdia entre gerações e entre diferentes grupos de trabalhadores.

"Escandaliza-me que esse Estado “esqueça” a sua própria responsabilidade na situação criada e venha, agora, querer dar a entender que são os reformados e os funcionários públicos a origem de todos os males e os culpados pela situação, como se tivessem sido eles a elaborar as leis que os conduziram à condição de “privilegiados”.

"Escandaliza-me que um Estado responsável admita, em nome de uma equidade que só ele entende, tratar os atuais funcionários públicos como uma classe a abater. 

"Aceito mal que, numa deriva de “tiro aos reformados”, esse Estado tenha até admitido a existência de uma “TSU” (aparentemente abandonada, por agora) com um valor não justificado, porque não sustentado em estudos, e, portanto, arbitrário, criando uma situação de desconfiança que, para além da injustiça a criar, pode gerar uma grave convulsão social.

"Mas não devem restar dúvidas de que há desigualdades que importa diminuir ou eliminar, sendo a fórmula de cálculo das pensões dos atuais aposentados, que entraram para o Estado antes de 1993, uma das que deve ser discutida e encarada. A correção pode, ou não, ser a proposta e ser gradual. Tal depende da real situação das “finanças” da CGA, mas tendo muito em conta os constrangimentos que lhe têm sido impostos (por exemplo, não recebe subscritores desde 2005, creio eu).

"Dito isto, é claro que considero saudável que essa discussão se faça e que sejam encontradas soluções que podem passar por um corte imediato ou progressivo, com a correção da fórmula de cálculo. Mas tal só deve ser feito após se esclarecerem algumas questões e se desfazerem algumas mentiras:
 
"1. Afirma-se que a CGA está sem dinheiro para pagar pensões. Tal não é de espantar – o patrão Estado, só a partir de meados desta década, começou a pagar a sua parte, como fazem os privados, não podendo, por isso essa verba ter sido capitalizada quando tal ainda era possível; desde 2005 não há novos funcionários a descontar, pelo que, aumentando o número de aposentados, o sistema vai mirrando. Será que o governo será capaz de dizer isso aos contribuintes, isto é, que foi o Estado que criou esta situação?

"2. As regras da aposentação dos funcionários públicos têm vindo a ser apertadas (e bem) desde 2003, em mudanças sucessivas da lei, aproximando os regimes. Está o governo em condições de informar quanto já se “poupou” com estas alterações, por que razão elas ainda não chegam e o que foi feito do dinheiro? Suponho que sei, mas a maioria dos aposentados, que já sentiram as consequências das diferentes medidas, pensava que estas eram suficientes. Se não eram, por que razão não lhes foi dito e explicado atempadamente, apanhando-os agora desprevenidos? E será que eram mesmo insuficientes? Ou aproveita-se a onda de cortes e põe-se tudo no mesmo saco? Não se trata de uma medida estrutural pois só durará enquanto eles vivem e não é de esperar que seja, em média, muito mais do que uma década.

"3. Tem o Primeiro-Ministro razão quando diz que descontámos para ter pensões (CGA e regime geral), mas não “estas pensões”. Na verdade, não é preciso ser cínico para dizer que era possível prever que tal iria acontecer – o Estado deixou de ser pessoa de bem há muito tempo e isso prova-se pelas malfeitorias que tem aplicado aos cidadãos, forçado, pela incompetência dos governos, a cortar nas despesas e a aumentar as receitas (estas são só algumas entre outras). No limite, se o Primeiro-Ministro não clarifica, a conclusão a que se pode chegar é que descontámos (os atuais aposentados e os que virão a aposentar-se) uma brutalidade para ter pensões não compatíveis com esses descontos. Quererá o Primeiro- Ministro explicar, se for esse o caso, que a sua intenção não era pôr novos contra velhos? Se não era, tiveram esse efeito.

"4. Na primeira parte da década de 90 (ou fim da década de 80!), o Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas, prevendo que se poderia chegar ao ponto a que chegámos (não tão grave, pois era precisa muita imaginação) propôs ao Governo que permitisse que se pudesse pôr, a título voluntário, um limite às pensões (neste caso dos membros das Universidades, pois só para isso tinham legitimidade), com a redução correspondente nos descontos, deixando a possibilidade de se poder, naturalmente, aderir a um sistema de seguro, ou algo semelhante. Concorde-se, ou não, com a proposta, verifica-se hoje que ela tinha a sua razão de ser e até já foi uma hipótese avançada por alguém do atual executivo (neste momento já é impossível sem riscos apreciáveis). O governo não viabilizou a proposta e, como tinha a faca e o queijo na mão, ficou tudo na mesma. Convém referir que, na altura, o sistema da CGA não tinha, de modo algum, um problema semelhante ao de hoje. Com a negação da hipótese, pelo governo, ficou, naturalmente a convicção de que o Estado asseguraria o cumprimento do que estava na lei, naaltura. Vê-se! Alguém explica isto? Estou certo que ninguém quer falar do assunto.

"5. A situação do país é aquela que se sabe. A incompetência dos governos é a maior responsável por ela. Não se toca, ou toca-se a fingir, nas PPP’s e nas rendas elétricas. Poucos são responsabilizados pelos desmandos. Há, diz-se sem que seja negado, centenas ou milhares de milhões de euros que estão perdidos por negligência ou por ações criminosas.Vai buscar-se dinheiro sempre aos mesmos, “confiscando-lhes” a sua propriedade, mas não se cuida de o ir buscar a quem o terá subtraído. Quererá o governo, em nome do Estado, pedir desculpa aos portugueses pelo descalabro? E mostrar a sua determinação em corrigir o rumo, sem se esconder numa putativa reforma doEstado?

"Haverá, seguramente, mais perguntas a fazer. Porém, se tiver respostas a estas, e elas forem convincentes, dar-me-ei por minimamente esclarecido. Pelo menos, servir-me-ão de justificação para, sem grandes problemas de consciência, poder afirmar que a dita convergência gradual, ou imediata, tem sentido.

"Até ter respostas, recuso-me a ser conivente com esta hipocrisia. Felizmente para mim, porque no meio desta miséria moral e material ainda sou dos menos prejudicados, não tomo esta atitude por temer que os cortes me venham a afetar irreversivelmente (repare-se que aceito o princípio). Tomo-a por entender que os princípios são mais importantes do que o dinheiro, e devem ser recordados por quem ainda tema liberdade de os defender (os que foram levados ao limiar da pobreza estão muito limitados na sua liberdade de expressão).

"Os direitos adquiridos não são todos sagrados, mas a confiança nas instituições que nos governam é (ou deveria ser). E só essa confiança legitima que alguns desses direitos sejam retirados. Ao que se constata, tudo está invertido: corta-se primeiro e depois quer-se legitimidade. Já não é só incompetência – é estupidez, teimosia, miopia ou má-fé.
 
"Resta-nos apelar para os deputados para que tenham a coragem de tornar este processo racional e inteligível, que é o que deles se espera, e porque o governo não o faz nem quer fazer. Por isso me dirijo a vós".

Virgílio Meira Soares

"P.S. – A recente notícia daquilo que já se chama a TSU das viúvas é uma medida abjecta e em nada contribui para me descansar sobre a boa-fé do governo. Marcar, com estrela, ou sem estrela, os mais idosos e os mortos, começa a ser demasiadamente preocupante".