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terça-feira, 26 de outubro de 2021

Adeus “Esquerda”!!!??


Fixem esta data: Dia 25 de Outubro de 2021.

Este foi o dia em que a esquerda portuguesa fez haraquíri.

A história do suicídio da “esquerda” portuguesa não começa hoje.

Começou quando, no início desta legislatura, o PS resolveu dificultar um acordo escrito com, pelo menos, um dos partidos à sua esquerda, jogando no medo destes em serem penalizados por não deixarem passar orçamentos pouco ambiciosos, do ponto de vista social, e com medo de confrontar os burocratas de Bruxelas.

Ficou evidente que esta legislatura não chegaria ao fim quando o BE resolveu colocar-se ao lado da direita para votar contra o anterior orçamento.

O PCP cedeu então na abstenção, convencido que iriam ser cumpridas algumas das medidas com ele negociadas, mas que o governo se foi “esquecendo” pelo caminho, ficando por cumprir muto desse orçamento.

Em relação a este orçamento para 2022, já se percebia que havia um impasse e uma desconfiança mútua entre os partidos da esquerda, situação que culminou na confirmação de que este orçamento não vai passar com os votos à sua esquerda.

A catadupa de medidas apressadas, apresentadas nos últimos dias pelo PS, para tentar agradar à sua esquerda, mais não eram do que o início da campanha eleitoral, por parte desse partido, para entalar os partidos à sua esquerda, que ficam com o ónus de derrubarem o governo mais à esquerda que tivemos desde o 25 de Abril.

Claro que, pelo meio, estava o desejo de alguns sectores do PS, a tralha socrática, com o incendiário Carlos César à cabeça, de controlar a “BazuKa” e de beneficiar, com esta, as suas habituais clientelas .

Mas, à esquerda, havia sempre a possibilidade da abstenção, quanto a mim a única forma de saírem “airosos” desta situação.

Agora, mesmo que possam ter razão nas críticas ou em sentirem-se enganados, os partidos à esquerda do PS vão ficar com o ónus, entre a maior parte do eleitorado de esquerda, de terem optado por uma situação bem pior que é a que vai resultar do chumbo deste orçamento.

Existem 3 alternativas, todas piores para a esquerda, para os trabalhadores, para os pensionistas e para os cidadãos comuns em geral.

A primeira alternativa é as eleições darem um resultado ainda mais complexo de ingovernabilidade, mas favorável ao malfadado centrão das negociatas e da corrupção, com capacidade de desbaratar, a seu favor e da sua clientela habitual, os fundos da “Bazuka”.

A outra alternativa é um PS com maioria absoluta, igualmente marcando o regresso da tralha socrática, das negociatas e da corrupção, igualmente com capacidade de desbaratar a favor da sua clientela os fundos da “Bazuka".

A terceira alternativa é o regresso da direita “além-da-Troika”, revanchista, desejosa de retomar as medidas antissociais que foram interrompidas pelo primeiro governo de Costa, a direita das negociatas e da corrupção, desbaratando os fundos da “Bazuka”, desta vez apenas a favor do poder financeiro e das grandes empresas, pois o que temos à direita não é, nem o PSD liberal, a roçar alguns princípios da social-democracia, do tempo de Sá Carneiro, nem o CDS, democrata-cristão, com preocupações sociais, do tempo de Freitas do Amaral.

Pelo contrário, à direita o que vamos ter, muito provavelmente, é um radical como Paulo Rangel, à frente do PSD, e um extremista, como Nuno Melo, à frente do CDS, com um discurso para agradar à extrema-direita, com o desejo de privatizar tudo, da escola pública à saúde, de agradar ao corrupto sistema financeiro que rege a União Europeia, de agradar aos defensores das politica “austeritárias” da União Europeia, que estão de volta, para continuar na senda, iniciada nos tempos do  “ir além da Troika”, de destruir tudo o que lhes cheire a “Estado Social”, de combate às desigualdades ou de serviço público.

Por isso, tudo o que vier, como resultado do chumbo deste Orçamento, é sempre pior.

Infelizmente, ao contrário da direita, que se divide quando está na oposição, mas se sabe unir, no essencial do seu projecto antisocial, quando chega ao poder, a esquerda, que se une no “protesto” quando está na oposição, tem dificuldade em unir-se, com pragmatismo, para executar as suas políticas sociais, quando chega ao poder, como estamos a assistir mais uma vez.

Claro que nem tudo será negativo com a antecipação de eleições.

Em primeiro lugar, prevendo-se uma situação de grande instabilidade económica e social que se vai viver, um pouco por todo o mundo, e na União Europeia, nos próximos anos ( em resultado da tempestade perfeita, que combina os trágicos efeitos socias da pandemia, com a degradação ambiental sem fim à vista, motivada e acentuada pelos grandes interesses financeiros ligados ao sector energético, com o agravamento da própria crise energética, com o regresso das politicas orçamentais autotitárias da “troika” à União Europeia, com as crescentes tensões político-militares entre a China e os Estados Unidos e a Rússia e a União Europeia...) que vai provocar o aumento do descontentamento e das desigualdades sociais, com um impacto muito maior em países com uma economia frágil, como a portuguesa, o regresso de partidos, como o PCP e o BE à oposição poderá evitar que todo esse descontentamento fique refém do populismo e do oportunismo de extrema-direita, voltando alguma esquerda a absorver e a enquadrar esse crescente descontentamento num combate mais consequente e positivo contra aqueles males crescentes.

Em segundo lugar, em democracia, o voto é sempre soberano e, perante a desagregação das relações entre os partidos à esquerda nos últimos dois anos, nada melhor do que clarificar a situação com a força e a legitimidade do voto.

Lamento que a esquerda, mais uma vez, não se consiga entender no essencial.

Lamento que, mais uma vez, a esquerda não se consiga unir no essencial para por em prática uma verdadeira política social, de combate aos salários baixos, às desigualdades sociais e de progresso que beneficie quem trabalha .

Provávelmente não voltaremos a ter oportunidade de ver aplicadas essas políticas sociais nas próximas décadas e, seja qual for o resultado eleitoral, vamos assistir à degradação de salários e de pensões, dos serviços de saúde e de educação, dos direitos socias e laboriais.

Mas, em democracia, não há que dramatizar.

Vá-se a voto, e clarifique-se a situação porque o voto é a arma do Povo!

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

Tragédias de um Orçamento.


Por vezes, interrogo-me se a actual geração de jornalistas estudou numa escola de jornalismo ou, se não terá estudado, antes, numa escola de produção de telenovelas!!!

A forma como se tem vindo a dramatizar a apresentação do próximo Orçamento de Estado, mais parece, de facto, uma telenovela do que um trabalho lúcido de informação, como seria de esperar por parte dos órgãos de comunicação social.

Ou talvez a escola seja a escola do ministro da propaganda nazi, Goebels, aliás um excelente professor para quem quer aprende como funcionam, eficazmente, a propaganda e a publicidade.

Uma das técnicas desta “escola” é aquela, segundo a qual, uma mentira várias vezes repetida se torna verdade, ou, adaptando aos dias de hoje, várias frases descontextualizadas e meias verdades repetidas até à exaustão e ampliadas pelo megafone de vários comentadores encartados, acaba por condicionar a própria realidade.

Aquilo que sempre foi perfeitamente normal na apresentação de orçamentos, em especial quando não há governos de maioria absoluta, como aconteceu em mais de 3/4 de governos democráticos, que é apresentar um projecto, que depois pode ser alterado após negociações, sempre duras, entre os partidos parlamentares, foi transformado numa novela tágico-cómica, como, aliás, se tem transformado qualquer caso e casinho nos últimos tempos.

O problema é quando esse ambiente de doidos,  criado por uma comunicação social ávida de escândalos e espectáculos para aumentar audiências, contamina a vida política dos partidos ditos “sérios”.

É ver o frenesim que reina nos partidos da direita tradicional, só com a possibilidade remota de voltarem ao poder nos próximos tempos (principalmente, o de controlarem os dinheios da "bauka", que é o que os move....).

Pode-se dizer que a direita anda com a pontaria desafinada, pois se alguém foi atingido pela agitação provocada à volta do Orçamento, não foi o orçamento, mas a liderança e o  interior dos próprios partidos de direita.

O aparecimento de dois candidatos, um no CDS, outro no PSD, ambos com experiência política e pessoas cultas, mas com um discurso extremista, fanaticamente ideológico e revanchista, não augura nada de bom para o futuro desses partidos, a não ser retirar campo de manobra à extrema-direita.

Se ambos ganharem a liderança desses partidos, o PS vai agradecer, pois o voto centrista vai fuigir desses partidos.

À esquerda espera-se, pelo contrário, bom senso. Para quem acha, dentro do BE e do PCP,  que estes perdem pelo facto de facilitarem a vida ao orçamento socialista, a realidade das últimas presidênciais e das autárquicas, aí está para o desmentir, ao contrário da falácia de algum jornalismo e de alguns comentadores, interessados em provocar o caos à esquerda.

Basta ver o que aconteceu a esses dois partidos à esquerda do PS, pelo facto de terem tomado decisões diferentes em relação ao último orçamento.

O BE, que votou contra o orçamento, pensando beneficiar à custa do PCP e do afastamento em relação ao PS, teve duas estrondosas derrotas nesses actos eleitorais, perdendo quase tudo o que tinha conquistado no tempo da geringonça.

Pelo contrário, o PCP, que aprovou o orçamento, tendo perdido alguma coisa, perdeu pouco, e aguentou-se, estabilizando dentro do histórico. Mesmo onde perdeu ou não conseguiu aumentar, como em Loures ou em Almada, continua uma força política considerável e com capacidade de  dar cartas por muito tempo.

No caso das presidênciais e das autárquicas em Lisboa, mais no segundo que no primeiro caso, até conseguiu um bom resultado com João Ferreira.

As perdas do PCP não se devem à sua “aliança” com o PS, mas a uma crise mais estrutural, de falta de renovação e de adaptação aos novos tempos. 

Foi, pelo contrário, a sua capacidade de negociação, ganha com a "geringonça", que travou a sua perda de influência e lhe pode dar, no futuro, um novo alento.

Espera-se, por isso, que à esquerda, ao contrário do frenesim que vai à direita, reine o bom senso.

Este Orçamento não é o ideal, se houver bom senso ainda pode ser aperfeiçoado nas negociações à esquerda, mas a alternativa é a realização de eleições antecipadas, que iriam beneficiar o PS (e o Chega), aprovando-se depois um orçamento menos social, e para o qual o PS, sentindo-se traido pela sua esquerda, seria tentado a negociar à direita, ou, na hipótese remota de uma vitória da direita, um orçamento revanchista, do ponto de vista social, e integrando o resto do “ir além da Troika” que não foi cumprido, com prejuízo para reformados, trabalhadores, pequenas e médias empresas, do país em geral.

quinta-feira, 2 de julho de 2020

O respigo da Semana - "Desesperadamente procurando bodes expiatórios" Por Ana Sá Lopes



Desesperadamente procurando bodes expiatórios

Por Ana Sá Lopes

in Editorial do Público de 1 de Julho de 2020

“Nunca, mas nunca, se tinha visto Fernando Medina tão severo, tão rude, tão ríspido, tão áspero. Foi na TVI24, na segunda-feira à noite, e é uma peça política de inegável importância. Qual foi o alvo relativamente ao qual Fernando Medina foi agreste de maneira nunca antes vista? Foi o Governo, dirigido pelo seu pai político, António Costa, que o escolheu para sucessor na CML.

“Ao pedir a cabeça das “autoridades da saúde” por causa dos números de Lisboa, Medina está a pôr em causa o seu Governo. Ele sabe-o, é inteligente, mas talvez não tão inteligente como o homem de quem herdou a câmara: António Costa, esse, sim, o cúmulo da sagacidade política, se houvesse cúmulo para isso. Ele que, antes desta intervenção de Medina a pedir demissões na saúde, se irritou na reunião do Infarmed da semana passada, pondo em causa a ministra Marta Temido, que, de resto, não desmentiu a cena.

“Está António Costa, com o apoio de Fernando Medina, a querer arranjar bodes expiatórios para o caso dos números de Lisboa – um desastre para aquele que outrora foi um país-modelo no combate à covid? A oposição colaborante de Rui Rio já identificou o problema: é Graça Freitas. Para Rio, não é Marta, é Graça. Parece que se tem agora que arranjar um bode expiatório. Se não é dos testes a mais, se não é da construção civil, se não é dos transportes cheios, é da Marta (ou da Graça).

“As mulheres que aguentaram os piores dias da pandemia que continuem a aguentar (ainda por cima, já se sabe, são genericamente chatas e não percebem um avo de cerimónias comemorativas da conquista da final da Champions, que obviamente não se inclui naquilo que Fernando Medina tão bem criticou sobre sinais errados do desconfinamento). Ah, Marta estava lá – a culpa é dela. Medina também, mas isso não interessa.

“Fernando Medina não é um comentador político qualquer. É presidente da Câmara de Lisboa, presidente da Área Metropolitana de Lisboa, co-responsável pelo que se passa no terreno, incluindo os maus números. Tem poder, a menos que o devolva nos momentos mais infelizes, o que parece ser o caso.

“Não é bonito de se ver. Quando a oposição foi tão saudada pela sua prestação durante a crise epidémica – e, apesar de algum “desconfinamento”, não tem posto o governo em causa –que seja o PS e alguns dos seus principais dirigentes a dar estes tristes espectáculos, mete dó".

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Onde estão os verdadeiros “social democratas”?



Anda por aí um debate entre partidos e comentadores para saber quem é o verdadeiro social-democrata.

Em termos gerais a social-democracia tem origem numa ruptura no movimento operário, entre os que defendiam a revolução para conduzir a classe operária ao poder, para acabar com a exploração capitalista, posição que esteve na origem do movimento comunista nas suas mais diversas tendências, e os que defendiam que a emancipação da classe operária se devia fazer pela via democrática, participando em eleições, em lutas legais, principalmente através dos sindicatos, com o objectivo de reformar o capitalismo por dentro.

As diferenças são bem mais complexas do que isso e o próprio movimento social-democrata acabou por seguir caminhos diversos (leia-se, a propósito, AQUI, um interessante resumo da história da social-democracia).

Com a Terceira Via (de Blair, Sócrates, Zapatero, Schroder e outros) a social-democracia acabou por trair todos os seus valores originais e tornou-se um dos principais pilares do neoliberalismo triunfante, deixando de defender aqueles que diziam ( e ainda dizem) defender.

Em Portugal não é totalmente incorrecto designar o PSD, o PS e até o BE de “social-democratas”, pois cada um deles defende as diferentes perspectivas que singraram, ao longo do tempo, no  movimento.

Contudo, tirando uma ou outra personalidade do PSD (Pacheco Pereira e pouco mais), a ala “esquerdista” do PS e, sem dúvida o BE no seu conjunto, os que defendem, em termos práticos e teóricos,  a verdadeira social-democracia, principalmente nos partidos do “centrão”, são uma minoria, cada vez mais isolada naqueles dois partidos.

Governos liderados pelo PSD e a maioria dos liderados pelo PS, mesmo que incluam uma retórica “social-democrata” no seu programa, têm, pelo contrário, contribuído para agravar as condições de vida de quem vive do seu trabalho, beneficiar o sector financeiro e os grandes empresários, esvaziar o “Estado Social” ( principal herança da prática passada da verdadeira social-democracia), retirar direitos a quem trabalha, e combater a influência dos sindicatos.

Claro que o último governo liderado pelo PS se afastou um pouco daquela prática histórica dos partidos do centrão, que, em tempos, já disputaram a presença na internacional socialista e social-democrática.

Tal aconteceu, em grande parte, porque o radicalismo neoliberal do governo de Passos Coelho foi tão desastroso para as condições de vida em Portugal, que qualquer mudança, em benefício dos cidadãos, por pequena que fosse, seria vista como um regresso à pureza “social-democrata”, para além da dependência deste governo em relação aos partidos à sua esquerda que o pressionaram a mudar o rumo das coisas.

BE e PCP, aceitando o jogo democrático e abandonando, na prática, a via revolucionária, são os que têm defendido, de forma consequente, a verdadeira social-democracia, ou seja, têm (principalmente o PCP) uma forte influência no meio sindical, defendem com unhas e dentes o Estado Social (recorde-se, o único objectivo conseguido pela social-democracia histórica), defendem quem trabalha e os mais desfavorecidos, combatem a expansão do neoliberalismo e a influência do capitalismo financeiro no destino das sociedades, única forma, aliás, de combater as alterações climatéricas de forma consequente.

Ou seja, se tivermos em conta a sua acção recente e a defesa consequente de valores sociais, os verdadeiros partidos social-democratas, hoje em Portugal, são, ( para além de outros pequenos partidos como o MAS ou o LIVRE), por um lado o Bloco de Esquerda, que até já assume a social-democracia, e, por outro, o PCP, que, não abandonando a retórica comunista e revolucionária, sempre actou, pelo menos desde que a democracia se consolidou em Portugal, como um verdadeiro partido social-democrata.

E tudo isto nos conduz ao nosso posicionamento em relação ao próximo acto eleitoral, tema ao qual voltaremos oportunamente.

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

ELISA FERREIRA : “Não havia necessidade!!!”



Nos últimos tempos tem sido notícia a promiscuidade familiar na vida política, ou entre a politica e o mundo “empresarial”.

Nem uma politica, com a marca da competência e capacidade, como Elisa Ferreira, parece escapar à “moda”.

De facto, a nomeação de Elisa Ferreira como Comissária Europeia parecia caminhar para um “final feliz”.

Figura competente na área da gestão, aparentemente afastada da pequena intriga política e de “mãos limpas”,  tudo parecia “talhado” à medida de um futuro político promissor.

Eis senão quando, no “melhor pano cai a nódoa”.

Descobriu-se que Elisa Ferreira é, por “coincidência”, casada como o presidente de uma CCR, a do Norte, que gere naquela região os fundos estruturais europeus, cuja distribuição e montante vão passar a ser decidido, na Comissão Europeia…por Elisa Ferreira.

Claro que Portugal é um país pequenino, onde é difícil que todos não sejamos, no mínimo, “primos afastados” uns dos outros ou não conheçamos alguém com influência politica, com quem nos cruzamos na escola, na vizinhança ou na “associação”.

Mas parece que a acumulação de casos de promiscuidade familiar na vida politica começa a ser preocupante.

Além disso Elisa Ferreira também se esqueceu que era accionista, embora minoritária, de uma grande empresa portuguesa, a Sonae, que é considerada lobista por aquela comissão e recebe fundos europeus, os tais que vão passar pela decisão de Elisa Ferreira.

Claro que a mesma se apressou a vender as acções, mas foi pena que só o tivesse feito quando o caso veio a público, o que revela muita “distracção” por parte de alguém com uma imagem de competência como Elisa Ferreira.

Claro que todo este caso é um pequeno caso, no seio de casos muito mais graves que são conhecidos todos os dias.

Elisa Ferreira parecia ser um lufada de ar fresco no seio de uma Comissão Europeia que não augura nada de bom, quando criou uma pasta com o ridículo nome de “Proteger o nosso modo de vida na UE” (!!!!), manteve o tenebroso senhor Dombrovkis numa pasta com o pomposo nome de “economia que funciona para os cidadãos”, ele que, transitando da anterior comissão, provou que os únicos “cidadãos” que conhece e defende são os grandes gestores financeiros, ainda por cima acumulando com a vice-presidência, criou outra pasta com um nome pomposo de “Democracia e demografia”, entregue a uma comissária, a croata Dubravka Suica que, no Parlamento Europeu, sempre protegeu a Hungria de Órban, de cada vez que alguns deputados pretenderam condenar as violação ao Estado de Direito por parte do governo húngaro, ou, pior ainda, colocou como comissária para o “alargamento” a antiga ministra da justiça de Órban, responsável no seu país pelos maiores ataques à independência do poder judicial.

Afinal, de acordo com as novas revelações, Elisa Ferreira talvez não esteja a destoar assim tanto no “retrato de família” (sem ironia) da Comissão Europeia.

Até porque, mais importante do que as pessoas, o que interessa aos cidadãos, em relação à composição da Comissão Europeia é saber quais a s políticas e estas parecem ir na continuidade do ataque generalizado aos direitos socias dos cidadãos europeus, favorecendo o corrupto sector financeiro.

Enfim, mais do mesmo!

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

O Grupo Bilderberg e os “trabalhos” de Rui Rio


Está cumprido o desígnio, traçado para Portugal, pelo influente e semissecreto Grupo Bilderberg em 2008 (sobre este grupo, leia-se o que escrevemos AQUI).

Esse grupo, conhecido por reunir os políticos, jornalistas , empresários e economistas mais influentes do mundo e acusado pelos seus detractores de funcionar como uma espécie de máfia que decide os destinos do mundo, e que costuma convidara e lançar figuras da sua confiança na vida politica, convidou em 2008 duas figuras, então de segundo plano nos respetivos partidos : António Costa e….Rui Rio.

Portuguesas, só costumam ser convidadas figuras do PS ou do PSD. Paulo Portas foi a única excepção.

Portugal tem direito a três convidados, escolhidos até 2015 por Pinto Balsemão, nada mais nada menos que o patrão dos órgãos de comunicação social que mais influencia têm em Portugal na “formatação” da opinião pública e, por isso, com poder para vender políticos com quem vende sabão…

Em 2015 Balsemão foi substituído na tarefa junto daquele grupo por Durão Barroso. O que é um facto é que nunca mais se ouviu falar nas reuniões daquele grupo.

Quando em 2008 António Costa e Rui Rio compareceram naquela reunião especulou-se sobre o destino que o grupo reservava àquelas figuras, falando-se na facilidade de entendimento entre eles para reforçar um bloco central em Portugal.

António Costa é hoje primeiro-ministro, mas talvez em circunstâncias não previsíveis por aquela elite de gente influente, dando-nos alguma esperança de que aquela gente pode ser contrariada democraticamente e os seus objectivos podem ser travados pelas circunstâncias da história,  apesar de todos os poderes manipulatórios que aquele grupo e outros do género (maçonarias , Opus Dei…) têm ao seu dispor.

Mas é um facto que os objectivos da “geringonça” estão praticamente cumpridos, que estamos a pouco mais de um ano de eleições legislativas, que os desentendimentos entre aliados no governo começam a ser frequentes e que um certo estilo “socrático”,  que estava adormecido no PS, começa a reerguer-se.

Ora, a imprevisível eleição de Rui Rio para liderar o PSD  parece surgir num momento chave para iniciar a reconstrução do centrão após as próximas eleições legislativas, até porque a “geringonça” está no limite do equilíbrio entre as imposições da burocracia de Bruxelas e o programa social da esquerda.

Claro que Rui Rio não tem o seu lugar seguro e também existe alguma imprevisibilidade na sua manutenção, já que o “passoscoelhismo” controla o grupo parlamentar e as estruturas do partido.

Rui Rio arrisca-se, caso não obtenha um bom resultado eleitoral, a ser um líder a prazo, abrindo caminho a um regresso triunfal de Passos Coelho e/ou de alguém que lhe seja próximo.

Mas, se as coisas correrem de "feição", com o aval do Presidente da República, que também já esteve em Bilderberg, corre-se o risco de assistirmos ao regresso do famigerado “centrão” de má memória, que nos conduziu à bancarrota “socrática” e ao “austeritarismo” troikista do “passoscoelhismo” e à vitória da estratégia antissocial daquele influente grupo de “opinião”.

Oxalá estejamos errados!


quarta-feira, 27 de setembro de 2017

AUTÁRQUICAS 2017 - o que é “ganhar” ou “perder”?


É abusivo fazer uma leitura nacional das eleições autárquicas, pois cada concelho e cada freguesia é uma realidade distinta que não encaixa na lógica partidária nacional.

Nestas eleições vota-se muito mais pela “obra feita” e pelo “valor” da personalidade dos candidatos do que por convicções políticas.

Contudo, se essa leitura é arriscada e abusiva, existem tendências que é possível detectar, pois, apesar de tudo, as listas partidárias continuam a ser dominantes, envolvendo os líderes nacionais na campanha, e  é a convicção dos candidatos que, em grande parte, os leva a candidatarem-se nas listas dos partidos políticos existentes e, principalmente nos grandes centros urbanos, onde o afastamento entre eleitores e eleitos é maior,  as opções politicas dos votantes são mais evidentes e marcantes.

O aparecimento de candidaturas independentes nos  últimos actos eleitorais é um dado novo a ter em consideração, mas o peso da máquina partidária ainda é dominante e o aparecimento de listas ditas “independentes” no acto eleitoral deste ano, onde dominam figuras que iniciaram a sua carreira nos grandes partidos do sistema e com uma atitude revanchista em relação aos partidos que os abandonaram, está a contribuir para destruir a imagem de isenção e independência de tais candidaturas.

Sendo abusivo e arriscado, aqui ensaiamos uma possível leitura nacional das próximas eleições autárquicas.

Assim, se em eleições democráticas, é óbvio que ganha quem tem mais votos, o significado destas eleições não é assim tão linear.

Para o PS ganhar as autárquicas é, no mínimo, manter a liderança da Associação Nacional de Municípios e garantir a vitória em Lisboa. No máximo é ultrapassar o resultado das últimas autárquicas, onde venceu em 149 municípios, ter um bom resultado no Porto e dominar a maior parte das capitais de distrito.

Se perdesse Lisboa, baixasse significativamente o número de Câmaras, ou tivesse um mau resultado no Porto (por exemplo não evitando uma maioria absoluta de Rui Moreira), este seria um mau resultado para o PS, mesmo que fosse o partido mais votado.

Quanto ao PSD, um bom resultado será, no mínimo, ultrapassar o número de 120 câmaras eleitas  e ser a segunda força mais votada em Lisboa. No máximo seria ultrapassar o número de Câmaras do PS, voltando a liderar a Associação Nacional de Municípios e ganhar Lisboa.

Se, pelo contrário, perder muitas câmaras, não conseguir ganhar em pelo menos metade das capitais de distrito, não ultrapassar as 100 câmaras eleitas e se for a terceira força política em Lisboa, este será um mau resultado e Passos Coelho estará condenado na liderança do partido.

Os sinais dados pelas sondagens, embora estas sejam muito falíveis no universo autárquico, revelam-se pouco animadores para Passos Coelho, dada a possibilidade de o seu partido ser ultrapassado pelo CDS em Lisboa e ter uma votação muito inferior à soma das candidaturas do BE e PCP no Porto.

O CDS, pouco representado em termos autárquicos, é o partido que menos tem a perder, e, por isso, mais pode ganhar com o seu resultado nestas eleições.

A situação do CDS é também menos clara, já que concorre em muitos lugares em coligação com o PSD.

Mas, se vencesse mais do que 5 Câmaras, conseguisse que a coligação com o PSD tivesse melhores resultados do que as candidaturas onde o PSD concorre sozinho e obtivesse um bom resultado em Lisboa (por exemplo, ultrapassasse o PSD), e se Rui Moreira vencer no Porto (candidatura apoiada pelo CDS), pode dizer-se que o CDS obtém um bom resultado.

Um mau resultado é gorarem-se as expectativas em Lisboa,  Rui Moreira ser derrotado no Porto e ser arrastado para um possível descalabro do PSD nas autarquias onde concorre em coligação.

A CDU, por sua vez, pode considerar um bom resultado manter cerca de 30 Câmaras , em especial as de Setúbal , Évora,  Beja e Loures, acrescentar novas conquistas e obter um bom resultado em Lisboa e no Porto.

Um mau resultado era conquistar menos de 30 câmaras, perder duas daquelas Câmaras emblemáticas e câmaras como Peniche ou Sobral de Monte Agraço ou outras de tradição comunista.

O BE pode cantar vitória se conseguir ganhar câmaras, eleger mais de 10 vereadores em todo o país, principalmente se estes forem fundamentais para formar maiorias em Câmaras de esquerda sem maiorias absolutas e eleger vereadores em Lisboa e no Porto.

Sai derrotado se eleger menos de 10 vereadores, nenhum em Lisboa ou Porto.

Quanto aos independentes, manter o Porto e ultrapassar as 10 Câmaras eleitas é a meta mínima para a credibilidade das mesmas, a não ser que essa subida seja feita à custa das vitórias dos “Isaltinos Morais” destas autárquicas. Neste caso até pode ter bons resultados mas ficam descredibilizados  para o futuro.

Um outro facto a ter em consideração é a abstenção. Uma abstenção inferior aos 45% fortalece e credibiliza este acto eleitoral.

Um aumento da abstenção, que ultrapasse os 50% é uma má notícia.

Veremos o que se vai passar.


quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Soares, o Fim de uma época


Se existe alguma figura que, para o bem e para o mal ( e para o “assim-assim”) marcou uma época, Mário Soares foi uma delas.

Toda a minha geração foi marcada por Mário Soares, e todos concordámos ou discordámos dele muitas vezes, em momentos importantes da nossa vida cívica.

Contudo nada justifica o ódio cobarde contra ele manifestado nas redes socias por estes dias, muitas vezes com base em mentiras justamente e factualmente desmentidas nas páginas do jornal Público (leiam o artigo de Pedro Guerreiro intitulado “Nas Redes Sociais, ódio e boatos em copy-paste”, in Público de 9 de Janeiro de 2016)

Pessoalmente cruzei-me com Mário Soares algumas vezes, embora só tenha trocado com ele algumas breves palavras de circunstância.

Assisti, em 1974, enquanto militante do PS, a vários comícios onde ele estava presente, tendo-me marcado um grande comício, realizado no então chamado Pavilhão dos Desportos, no Parque Eduardo VII, onde estiveram presentes Altamirano, líder do PS do Chile, que sucedeu a Allende e vivia então na clandestinidade, lutando contra a ditadura de Pinochet, e François Mitterrand, líder do PS francês, anos antes  de chegar à presidência da França.

Por essa época cruzei-me ainda algumas vezes com Soares na sede do PS, então em S. Pedro de Alcântara.

Tendo-me afastado do PS no inicio de 1975, ainda me cruzei com ele uma ou duas vezes na década de 70, na rua onde fica a sua casa, pois por ela tinha de passar todos os dias, várias vezes, durante uns cinco anos, para me deslocar do metro, que então ía apenas até Entre Campos, para a Faculdade de Letras

Voltei a cruzar-me com ele na década de 80, em colóquios e congressos de História promovidos pela Fundação Mário Soares.

Numa destas ocasiões houve outro momento que me marcou, que foi num encontro de História Contemporânea dedicado a Humberto Delgado, era Soares presidente da República.

No final da manhã Mário Soares, que tinha sido um dos oradores , era esperado no hall de saída da sala por um enxame  de jornalistas  que procuravam  obter um comentário sobre um tema político  (não me lembro qual) que marcava a época [o interesse não era, como devia ser, o tema do congresso!!!].
Por sua vez, eu, com mais dois amigos (um era o José Travanca, o outro, não tenho a certeza, mas penso que era o Nozes Pires) juntámo-nos num outro canto do hall para falarmos doutros temas. Entretanto, depois de obterem o que que queriam, os jornalistas abandonaram o local e o ambiente no hall acalmou.

Para surpresa nossa, quando olhámos para o lado, vimos que só lá estávamos nós e, a uma pequena distância... Mário Soares em amena cavaqueira com uma outra figura pública (não me lembro quem), sem se avistar à volta um  segurança ou um polícia. Recordo, Soares era então “apenas” Presidente de Portugal.

Já depois disso voltei a cruzar-me com Soares, em Torres Vedras, por ocasião de um colóquio (que contou com outras duas sessões onde estiveram presentes, em datas diferentes, Álvaro Cunhal e Marcelo Rebelo de Sousa). Data desse colóquio a única vez que troquei breves palavras com Soares par pedir que me autografasse uma primeira edição do seu Portugal Amordaçado.

Mas mesmo nunca estando muito próximo dele, a não ser nas circunstâncias descritas, a sua personalidades, as suas ideias e a sua atitude estiveram sempre presente nalgumas das minhas decisões políticas.

Tudo começou ainda antes do 25 de Abril, quando vi nele uma alternativa à oposição comunista. Embora tenha colaborado com o PCP a partir de 1973, em reuniões clandestinas de carácter unitário ( no seio do MDP/CDE) não aceitei uma proposta para aderir ao PCP com o argumento de eu ser “social-democrata” . A “social-democracia” em que então me revia era aquela representada por Mário Soares.

A seguir ao 25 de Abril, depois de uma breve continuação junto do MDP/CDE, aderi em Junho ao PS quando este partido deixou aquela plataforma política.

Entretanto, na voragem revolucionária que se seguiu, afastei-me progressivamente do liberalismo de Soares e, juntamente com outros membros da Juventude Socialista local, iniciei um processo de ruptura, que teve um primeiro episódio nos finais de 1974, quando tomámos praticamente de ”assalto” a sede local do PS, que ficava na A. 5 de Outubro, encostada ao restaurante “Pacar” e “fundámos” uma “tendência” “revolucionária”, a que chamámos de “MRJS” (“Movimento Revolucionário da Juventude Socialista”). A aventura durou umas horas, pois logo fomos retidos na sede pelos mais velhos e ficámos a aguardar a chegada de um representante da JS de Lisboa para tomarem uma decisão sobre nós. Ouvimos um raspanete, fomos ameaçados de expulsão e mantivemo-nos ainda por mais algumas semanas no PS.

Alguns saíram entretanto. Eu aguardei pelo resultado do Congresso de Janeiro de 1975, apostando na figura de Manuel Serra, que disputava a liderança contra Mário Soares. Saindo Soares vencedor, escrevi e enviei o meu pedido de demissão (que foi aceite só em Abril, dias depois das eleições para a Assembleia Constituinte).

Tendo saído do PS empenhei-me depois na luta política pela Associação de Estudantes do Liceu de Torres Vedras, numa coligação de várias tendências esquerdistas que concorreu contra a UEC (organização estudantil do PCP) e que vencemos com grande maioria.

Os meus companheiros da JS aderiram às mais variadas tendências (MRPP, PRP, LCI, o embrião da UDP, Anarquistas). Eu e um pequeno grupo aderimos à LUAR.

Voltaria a estar contra Mário Soares durante o 1º Governo Constitucional e na adesão à CEE. Á distância reconheço que a adesão à CEE salvou  a frágil democracia portuguesa e permitiu ao país fugir à miséria social e económica. Infelizmente, o modelo de prosperidade que essa desão podia garantir foi desbaratada durante os anos do “cavaquismo” e, já neste século, com a apressada adesão ao “euro”. Mas isto é outra história.

Voltei a divergir de Mário Soares nas eleições presidenciais de 1986, apoiando activamente a candidatura de Maria de Lurdes Pintasilgo. Contudo, acabaria por votar pela primeira vez em Soares, na segunda volta dessas eleições.

A partir de aí , embora nem sempre concordando com ele, como no seu apoio a Sócrates, ganhei um grande respeito a Mário Soares e voltei a estar com ele recentemente nas criticas às políticas de austeridade da troika e à deriva “austeritária” de Bruxelas, bem como no apoio a Sampaio da Nóvoa.

Foi tudo isso que me levou ontem a Lisboa para um último adeus a essa grande figura que marcou a evolução do país nos últimos 50 anos.

Depois de terem desaparecido Sá Carneiro, Salgueiro Maia, Álvaro Cunhal e Mário Soares, abre-se uma nova página na nossa história.













 

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Morreu Almeida Santos, um dos pilares da democracia portuguesa.


"Encaro a morte com uma naturalidade imensa. Viver e morrer são igualmente naturais", disse um dia Almeida Santos, numa entrevista que deu à revista Sábado, em Novembro de 2006 ( e que pode ser lida integralmente AQUI).

Almeida Santos foi uma das figuras que mais se destacou na luta contra a ditadura, desempenhando um papel activo na construção da democracia portuguesa.

Nasceu em Seia em 15 de Fevereiro de 1926, estudou direito em Coimbra, onde se dedicou também à interpretação do fado de Coimbra, partindo depois para Moçambique, em 1953, onde viveu mais de 20 anos.

Em Moçambique foi um dos mais destacados militantes da Oposição Democrática e, enquanto advogado, defensor de presos políticos.

Regressou a Portugal depois do 25 de Abril, a convite de Spínola, para fazer parte do Primeiro Governo Provisório, mantendo-se nos governos provisórios seguintes (no 2ª, 3ª e 4º, liderados por Vasco Gonçalves, e no 6º, liderado por Pinheiro de Azevedo), desempenhando um papel central nas negociações que levaram à independência das antigas colónias portuguesas e continuando nos dois primeiros governos constitucionais liderados por Mário Soares, aderindo então ao PS.

Foi um dos mais destacados deputados do PS no parlamento, ao qual presidiu. Era o líder do PS quando este foi derrotado por Cavaco em 1985.

Foi um dos principais responsáveis pela elaboração da Constituição Portuguesa e pela legislação democrática.

Deixou escritas várias obras sobre de direito e memorialistas, estas últimas, peças fundamentais para o conhecimento dos bastidores da política nacional nas primeiras décadas da consolidação da democracia.

Apesar dos seus quase 90 anos, Almeida Santos continuava activo e empenhado, tendo aparecido há dois dias numa acção pública da campanha de Maria de Belém, a candidata que ele apoiava neste eleições presidenciais.

Tive o raro privilégio de lhe ter sido apresentado uma vez, há muitos anos, por um grande amigo do meu pai, o médico Mário de Sousa Dias, um dia em Torres Vedras, durante uma acção de campanha do PS.

Foram muitas as vezes que discordei de Almeida Santos , mas reconheço que, com a sua morte, é mais uma grande figura de referência democrática que se perde, um dos últimos exemplos de uma geração de políticos construidos na luta contra a ditadura e na consolidação da democracia, exemplos cada vez mais raros de coerência, coragem e dedicação, aos quais os portugueses, mesmo os seus críticos e adversários, muito devem.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

TENHAM LÁ CALMA !!! (Parte 5) – É só mais um governo do PS!


A histeria que se apoderou da direita nestes dois últimos meses, alimentada pela atitude presidencial, pode abrandar a partir de agora…ou não!

Pelo menos estes meses contribuíram para a direita tirar a máscara e mostrar o seu lado mais trauliteiro.

Mas sejamos realistas: o que António Costa vai formar é apenas mais um governo do PS, na linha ideológica e programática habitual nesse partido.

Não foi o PS que virou à esquerda.

O que aconteceu é que foi a direita que, nestes últimos quatro anos, virou demasiado à direita, deixando o centro político desguarnecido e, no caso do PSD, abandonando os valores social-democratas do seu fundador.

O PS não se moveu, continua no centro-esquerda onde sempre esteve.

O que aconteceu também é que, à esquerda do PS, o PCP e o Bloco de Esquerda perceberam que é preferível  encarar  de forma pragmática um governo PS, igual a tantos outros, a continuar a aturar um governo de direita que fez o país recuar décadas .

Como se diz, os partidos à esquerda do PS perceberam, finalmente, que mais vale "um pássaro na mão" do que dois (Coelho e Portas...??) a voar..

PCP e BE podem continuar a ser a “reserva moral” da esquerda, mas devem agir com pragmatismo, para não deitarem tudo a perder.

O que é agora fundamental é recuperar o país, a sua economia e a sua sociedade, aproximando o país dos níveis europeus, retirando a iniciativa à direita que estava a conduzir o país para o empobrecimento, a desigualdade e o desrespeito pelo direito dos cidadãos a uma vida melhor e que andaram a virar portugueses contra portugueses para melhor "reinarem".

Para isso não é prioritário nem necessário à esquerda romper com quaisquer compromissos  internacionais, como a direita trauliteira anda por aí a meter medo ao povinho.

Basta aperfeiçoar e rentabilizar o aparelho de Estado, valorizar o económico e social em detrimento do poder financeiro, combater a fuga ao fisco, penalizando fortemente as empresas que recorrem a off-shores , combater a corrupção, levando até ao fim as investigações sobre o BES, o BPN , os “submarinos” e outros casos que envolvem a velha classe política portuguesa (à direita e à esquerda, diga-se em abono da verdade...), melhorar as condições de trabalho e de produção para fazer subir o PIB e, deste modo, reduzir o deficit e a dívida.

Ao mesmo tempo, basta ir para as instituições europeias defender o país e os seus cidadãos, abandonando a postura subserviente dos últimos anos, e ganhar poder negocial.

É só aproveitar as mudanças que se estão a observar na Europa, em vez de se tentar ser o aluno bem comportado que até ía “além da troika”.

E é “fazer figas” para que o poder político em Espanha mude de mãos.

Agora é preciso  é calma e, da parte da esquerda, pragmatismo e …juizinho.


quinta-feira, 5 de novembro de 2015

É militante ou ex-militante do PS? ..aproveite os seus 15 minutos de fama...


É militante ou ex-militante do PS?

Foi autarca numa freguesia do PS ou ex-ministro de um governo do PS? 

...e, principalmente e condição necessária, está contra um "governo de esquerda"?

...Então aproveite e pode gozar os seus "15 minutos de fama"...

É que a comunicação social anda à procura de tudo o que seja "dissidência" no PS, contra um acordo à esquerda,para abrir os noticiários e encher os programas de debate e entrevista política.

Mesmo que no fim não se venha a concretizar qualquer "governo de esquerda", este tempo já valeu a pena para assistir a este triste espectáculo de gente a colocar-se em bicos de pé para aparecer na televisão e nas páginas dos jornais...

...é aproveitar que não dura sempre...

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

As “vitoriazinhas” e as “derrotazinhas” das eleições de ontem…


Parafraseando  a frase assassina de António Costa contra António José Seguro, a propósito do resultado eleitoral do PS nas eleições europeias, onde este ganhou por  “poucochinho” no primeiro embate contra a coligação, os resultados destas eleições deram muitas “vitóriazinhas” e muitas “derrotazinhas”.

Em primeiro lugar a coligação de direita, que obteve uma “vitóriazinha” porque, apesar de tudo, cortou a “meta eleitoral” em primeiro lugar e, em eleições, ganha quem chega à frente, mesmo que por “poucochinho” .

Foi uma “vitóriazinha” porque ele foi conquistada apesar da “derrotazinha” de ter perdido mais de seiscentos mil votos e  vinte e oito deputados, face àquilo que os partidos da coligação, no seu conjunto, tinham conseguido em 2011.

Enfim foi também uma “derrotazinha” da coligação de direita que, ganhando, perdeu a maioria absoluta e terá de governar contra a maioria “absolutíssima” “anti-austeritária” do eleitorado e do parlamento ….ou uma “vitóriazinha de Pirro”…

Também a CDU obteve uma “vitóriazinha” (que a costumada cegueira irrealista da sua direcção política procurou, em patéticas afirmações na noite eleitoral, transformar em “vitoriazona”…) porque ganhou menos de quatro mil votos e mais um deputado e contribuiu, embora “poucochinho”, para que a coligação de direita perdesse a maioria absoluta, disfarçando a “derrotazinha” de ter perdido esta ocasião única para se tornar na terceira força política do parlamento, de recuperar os dois dígitos na percentagem de eleitores e de ter deixado de ser, talvez de forma irreversível,  a grande referência da esquerda à esquerda do PS.

Por sua vez o PS sofreu uma assinalável “derrotazinha”, a primeira derrota eleitoral  depois de ter vencido, mesmo que por “poucochinho” , as últimas eleições pós – socráticas, as autárquicas e as europeias, em conjunturas bem mais complicadas de vencer do que estas.

Resta-lhe a consolação de ter obtido a “vitóriazinha” de ter recuperado menos de duzentos mil votos e mais onze deputados (tantos como o Bloco de Esquerda…) e de estar nas suas mãos a viabilidade das políticas austeritárias do governo. Foi assim que, na Grécia, o PASOK  se eclipsou…Enfim…outra “vitóriazinha de “Pirro”…

Mas nem tudo foram “vitóriazinhas”  ou “derrotazinhas”.

Houve também GRANDES VITÓRIAS e GRANDES DERROTAS.

Em primeiro lugar a Grande Vitória pessoal de  Paulo Portas, que ontem não disfarçava a sua euforia,  e do seu CDS, que  vão ser os grandes beneficiados da “vitóriazinha” da coligação, que lhe  pode permitir, em ganhos eleitorais, disfarçar a provável “derrocada” do seu Partido, caso tivesse concorrido sozinho a estas eleições, mas, mais do que isto, vir a ter um grupo parlamentar que se pode tornar na terceira força política parlamentar, tonando o PSD o segundo partido, com menos deputados que o PS,  e ser, no futuro, um partido charneira que pode dar muitas dores de cabeça a Passo Coelho.

Em segundo lugar, a real e verdadeira Grande Vitória nestas eleições , a do Bloco de Esquerda, que ultrapassou os 500 mil votos,  e conquistou onze novos deputados, tornou-se o terceiro político parlamentar (até ver o que se vai passar com a organização no parlamento dos partidos da coligação), ganhou em muitos distritos onde os partidos à esquerda do PS nunca tinham conseguido representação parlamentar e canalizou o voto dos descontentes.

Ainda por cima, reduziu a cinzas os partidos que tinham surgido de cisões internas que anunciavam o eclipse de BE.

 Uma outra Grande Vitória foi a do partido Pessoas, Animais e Natureza,  trazendo, pela primeira vez  ao parlamento, neste século XXI, uma nova formação política, ainda por cima uma formação que apresenta algumas questões inovadoras, tais como, para além da bandeira de longa data de acabar com os canis de abate, a defesa da  criação de um novo índice para aferir a qualidade de vida de um país, o “índice de Felicidade Interna Bruta”,  idéia que tem vindo a ganhar peso internacionalmente, ou uma jornada de trabalho de30 horas (há muito tempo aplicado na Suécia com excelentes resultados na produtividade e riqueza daquele país) Se souber usar o novo espaço de divulgação das sua ideias inovadoras e ambientais pode vir a ser, no futuro, muito mais que um epifenómeno político.

Quanto aos Grandes Derrotados, eles foram, em primeiro lugar Marinho e Pinho e a sua postura populista e arruaceira, ou o Livre que não conseguiu mostrar que tinha propostas diferentes das do Bloco de Esquerda ou que a sua razão de ser ía muito além das simples questiúnculas pessoais e de feitio, que ao longo do tempo tanto têm contribuído para minar a esquerda.

Mas , quem saiu verdadeiramente derrotado nestas eleições,  foi a Política austeritária imposta pela União Europeia e pela Troika e diligentemente aplicada pelo actual governo. Há que não esquecer que, mesmo a coligação fez toda a campanha eleitoral à volta da tentativa (que pelos visto resultou) de se demarcar da Troika e das medidas de austeridade…

Enfim, de “vitóriazinha” em “vitóriazinha” e de “derrotazinha” em “derrotazinha”, cá iremos andando até as próximas eleições parlamentares, que, quanto a nós, não tardarão mais de dois anos.


sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Como vou votar num cenário de derrota pré anunciada da esquerda?


O QUE EU NÃO GOSTAVA…

As últimas sondagens dão uma vitória clara à coligação de direita.

Desta vez já são sondagens com uma base significativa de inquéritos, com menos indecisos e onde a diferença entre a coligação de direita e o PS ronda mais ou menos (quase sempre mais) os 5%. 

Convém recordar que, em Portugal, a nos últimos vinte anos, as sondagens nunca se enganaram por mais ou menos 2 ou 3%.

Se os resultados forem outros, esta seria a primeira vez  em Portugal que todas a sondagens se “espalhavam” de forma clamorosa.

Claro que ainda existe uma razoável margem de indecisos, mas o que tem acontecido é que, quanto mais o número de indecisos baixa, mais aumenta a diferença entre a coligação de direita e o PS, sem que se registe um grande avanço nos partidos mais à esquerda.

É contudo bom recordar que, um pouco por toda a Europa, nos últimos, anos, as sondagens se têm enganado redondamente.

Veremos se, pela primeira vez em Portugal, tal vai acontecer.

ENCONTRAR EXPLICAÇÕES PARA O INEXPLICÁVEL

Seja qual for o resultado final, o que parece significativo é que uma grande parte da população continue a confiar numa coligação que destruiu os equilíbrios sociais em Portugal, lançando portugueses contra portugueses, fomentando a inveja social, provocando  a emigração de  500 mil portugueses, a maior parte jovens qualificados, agravando a já de si grave situação demográfica do país, empobrecendo a generalidade da população trabalhadora e pensionista de Portugal, aumentando as desigualdades sociais, reduzindo os salários para o nível da indigência, aumentando a insegurança e a precariedade dos empregos, transformando  a alta taxa de desemprego , acima dos 10% (30% entre os jovens) num fenómeno estrutural, cortando drasticamente nas funções sociais do Estado, na saúde e na educação e deixando de investir na cultura e na investigação.

Ao mesmo tempo, aumentou drasticamente o número de milionários, manteve-se elevados o salário dos gestores das grandes empresas, manteve-se os chorudos lucros das mesmas empresas e bancos, continuou-se a garantir que a maior parte destas fuja aos impostos através do esquema de off-shores “legais” em pleno espaço da União Europeia.

Mas tudo o que este governo fez foi em nome de três objectivos falhado: reduzir o deficit, reduzir a dívida e aumentar a “competitividade” (seja lá isto o que for). O deficit mantem-se ao mesmo nível, a dívida aumentou e é impagável sem mais “sacrifícios” e austeridade, e na “competitividade”, o país piorou a sua situação no ranking mundial.

No fundo, a coligação de direita destruiu os ideais dos fundadores dos seus partidos, a social-democracia de Sá Carneiro e a democracia-cristã de Freitas do Amaral.

O mesmo fenómeno que justifica a resignação ou a aceitação do miserabilismo da política governamental levou a aceitação, durante 50 anos, da “ordem” salazarista.

Em toda esta situação, a esquerda não está isenta de culpas.

Em primeiro lugar o PS:

- o processo de sucessão de Seguro para Costa foi todo um jogo de manipulação propagandística e da mais suja táctica política. O “cheiro” a poder inebriou muita gente do PS. Afinal a principal justificação para afastar Seguro era que ele não tinha “carisma” ou que “ganhava  eleições, sim mas, por pouco!”. O PS arrisca-se agora a perder numa conjuntura que lhe era favorável.

- a colagem dos “socráticos” a António Costa, que precisou deles para ganhar o PS, mas dos quais nunca se soube demarcar. A prisão de Sócrates, um caso que levanta suspeitas pelos “timings” escolhidos, “entalou” de vez António Costa. Em muitas cabeças o que passou a estar em julgamento nestas eleições foi José Sócrates e não os últimos 4 anos de (des)governo…e Costa não conseguiu dar a volta a isto!

- as hesitações da campanha de Costa, entre o discurso “sério” e “realista” do poder, e a condenação firme da austeridade. Só que para se condenar com firmeza a “austeridade” ,imposta pela troika e alegremente aplicada pela coligação de direita, era necessário questionar a presença de Portugal no euro, defender com base sustentável a renegociação da dívida, e fazer frente às antidemocráticas instituições europeias, tudo aquilo para o qual falta coragem a este PS, muito apegado ao poder e com gente comprometidas com muitas malfeitorias feitas no governo de José Sócrates.

Em segundo lugar a esquerda com assento parlamentar, CDU e BE:

- a situação na Grécia veio retirar credibilidade àquilo que estes partidos defendem, veio dificultar uma saída negociada da crise e provocou medo em muitos eleitores que preferem o sossego das suas vidinhas, mesmo que seja o sossego dos cemitérios, a ter que passar por situações idênticas àquelas pelas quais passou a Grécia ao longo deste ano. O pior que pode acontecer ao português “médio” formatado pela ideologia “cavaquista” que criou a nossa classe “média”, e é aspiração de muito “pobre”, é tirarem-lhe a possibilidade de usar o cartão de crédito, mesmo que não tenha nada para levantar! ;

- a irredutibilidade de alguns princípios políticos, que impossibilitam qualquer aproximação a um governo minoritário do PS, ou pelo menos é esta a imagem que transmitem. A esquerda continua muito presa a divergências do passado, que já nada dizem às pessoas e revela uma enorme incapacidade pragmática de entendimento. Neste ponto deviam ter aprendido alguma coisa com o Syriza;

- a imagem de divisão que acabam por provocar à esquerda, principalmente no caso do Bloco de Esquerda, que tem, nestas eleições, mais dois partidos a concorrer na mesma área e que resultaram da incapacidade de ultrapassar as meras divergências pessoais;

-na sequência do que disse em cima, a idéia de que as outras duas “alternativas” à esquerda (Livre e Agir) dão de que apenas estão a concorrer contra o BE, por meras razões de incompatibilidades pessoais, não tendo para apresentar ideias muito diferentes das do BE.

Existem também outros fenómenos que podem justificar a situação de grande incerteza que se vive e uma previsível vitória eleitoral da direita:

- a abstenção elevada, que beneficia a direita, e que, nestas eleições conta com um fenómeno que só foi referido no início da campanha, mas rapidamente esquecido, o facto de 500 mil eleitores jovens e os mais revoltados com a política de direita, terem emigrado e se depararem com um “erro” do ministério da administração interna, que se “enganou” na  produção dos boletins por correspondência, impedindo assim muitos milhares de poderem vota em Portugal;

- a influência propagandística da comunicação social, especialmente a televisiva,  onde enxameiam comentadores de direita e onde os debates são orientado no sentido de justificar a austeridade, desvalorizar as más notícias para a coligação (como o escândalo da aldrabice na elaboração estatística do valor do deficit) e potenciar os erros da esquerda e as tendências das sondagens. Não é por acaso que são designados por “fazedores de opinião”. A “ informação “que se faz em Portugal é cada vez menos informação e cada vez mãos comentário…e isso influencia as escolhas politica do cidadão comum…

O QUE EU GOSTAVA!

Claro que gostaria que estas eleições tivessem outro resultado, diferente daquele que parece adivinhar-se.

Pessoalmente gostaria que o PS ganhasse, mas não por muito, mas em condições de poder negociar acordos pontuais com qualquer partido. O melhor governo do PS, o de António Guterres, funcionou assim.

Gostaria também de ver reforçada a votação da CDU e do BE e que, pelo menos um destes partidos tivesse maior representação parlamentar que o CDS.

Gostaria que entrassem no parlamento novas forças políticas, como o Livre, que tem as pessoas mais interessantes da esquerda, e o PAN (Pessoas Animais e Natureza), que pode representar uma lufada de ar fresco no parlamento.

Gostava que a CDU, o BE e os novos partidos no parlamento tivessem maior representação parlamentar do que o PSD no seu conjunto.

Gostava…Mas!!!!

O MEU VOTO

Se votasse com “utilidade”, votava no PS!

Se votasse com “coerência” votava no BE!

Se votasse com o “coração” votava Livre ou PAN.

Mas vou votar com a cabeça e de forma friamente racional, e por isso voto…CDU!