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quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Onde estão os verdadeiros “social democratas”?



Anda por aí um debate entre partidos e comentadores para saber quem é o verdadeiro social-democrata.

Em termos gerais a social-democracia tem origem numa ruptura no movimento operário, entre os que defendiam a revolução para conduzir a classe operária ao poder, para acabar com a exploração capitalista, posição que esteve na origem do movimento comunista nas suas mais diversas tendências, e os que defendiam que a emancipação da classe operária se devia fazer pela via democrática, participando em eleições, em lutas legais, principalmente através dos sindicatos, com o objectivo de reformar o capitalismo por dentro.

As diferenças são bem mais complexas do que isso e o próprio movimento social-democrata acabou por seguir caminhos diversos (leia-se, a propósito, AQUI, um interessante resumo da história da social-democracia).

Com a Terceira Via (de Blair, Sócrates, Zapatero, Schroder e outros) a social-democracia acabou por trair todos os seus valores originais e tornou-se um dos principais pilares do neoliberalismo triunfante, deixando de defender aqueles que diziam ( e ainda dizem) defender.

Em Portugal não é totalmente incorrecto designar o PSD, o PS e até o BE de “social-democratas”, pois cada um deles defende as diferentes perspectivas que singraram, ao longo do tempo, no  movimento.

Contudo, tirando uma ou outra personalidade do PSD (Pacheco Pereira e pouco mais), a ala “esquerdista” do PS e, sem dúvida o BE no seu conjunto, os que defendem, em termos práticos e teóricos,  a verdadeira social-democracia, principalmente nos partidos do “centrão”, são uma minoria, cada vez mais isolada naqueles dois partidos.

Governos liderados pelo PSD e a maioria dos liderados pelo PS, mesmo que incluam uma retórica “social-democrata” no seu programa, têm, pelo contrário, contribuído para agravar as condições de vida de quem vive do seu trabalho, beneficiar o sector financeiro e os grandes empresários, esvaziar o “Estado Social” ( principal herança da prática passada da verdadeira social-democracia), retirar direitos a quem trabalha, e combater a influência dos sindicatos.

Claro que o último governo liderado pelo PS se afastou um pouco daquela prática histórica dos partidos do centrão, que, em tempos, já disputaram a presença na internacional socialista e social-democrática.

Tal aconteceu, em grande parte, porque o radicalismo neoliberal do governo de Passos Coelho foi tão desastroso para as condições de vida em Portugal, que qualquer mudança, em benefício dos cidadãos, por pequena que fosse, seria vista como um regresso à pureza “social-democrata”, para além da dependência deste governo em relação aos partidos à sua esquerda que o pressionaram a mudar o rumo das coisas.

BE e PCP, aceitando o jogo democrático e abandonando, na prática, a via revolucionária, são os que têm defendido, de forma consequente, a verdadeira social-democracia, ou seja, têm (principalmente o PCP) uma forte influência no meio sindical, defendem com unhas e dentes o Estado Social (recorde-se, o único objectivo conseguido pela social-democracia histórica), defendem quem trabalha e os mais desfavorecidos, combatem a expansão do neoliberalismo e a influência do capitalismo financeiro no destino das sociedades, única forma, aliás, de combater as alterações climatéricas de forma consequente.

Ou seja, se tivermos em conta a sua acção recente e a defesa consequente de valores sociais, os verdadeiros partidos social-democratas, hoje em Portugal, são, ( para além de outros pequenos partidos como o MAS ou o LIVRE), por um lado o Bloco de Esquerda, que até já assume a social-democracia, e, por outro, o PCP, que, não abandonando a retórica comunista e revolucionária, sempre actou, pelo menos desde que a democracia se consolidou em Portugal, como um verdadeiro partido social-democrata.

E tudo isto nos conduz ao nosso posicionamento em relação ao próximo acto eleitoral, tema ao qual voltaremos oportunamente.

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

ELISA FERREIRA : “Não havia necessidade!!!”



Nos últimos tempos tem sido notícia a promiscuidade familiar na vida política, ou entre a politica e o mundo “empresarial”.

Nem uma politica, com a marca da competência e capacidade, como Elisa Ferreira, parece escapar à “moda”.

De facto, a nomeação de Elisa Ferreira como Comissária Europeia parecia caminhar para um “final feliz”.

Figura competente na área da gestão, aparentemente afastada da pequena intriga política e de “mãos limpas”,  tudo parecia “talhado” à medida de um futuro político promissor.

Eis senão quando, no “melhor pano cai a nódoa”.

Descobriu-se que Elisa Ferreira é, por “coincidência”, casada como o presidente de uma CCR, a do Norte, que gere naquela região os fundos estruturais europeus, cuja distribuição e montante vão passar a ser decidido, na Comissão Europeia…por Elisa Ferreira.

Claro que Portugal é um país pequenino, onde é difícil que todos não sejamos, no mínimo, “primos afastados” uns dos outros ou não conheçamos alguém com influência politica, com quem nos cruzamos na escola, na vizinhança ou na “associação”.

Mas parece que a acumulação de casos de promiscuidade familiar na vida politica começa a ser preocupante.

Além disso Elisa Ferreira também se esqueceu que era accionista, embora minoritária, de uma grande empresa portuguesa, a Sonae, que é considerada lobista por aquela comissão e recebe fundos europeus, os tais que vão passar pela decisão de Elisa Ferreira.

Claro que a mesma se apressou a vender as acções, mas foi pena que só o tivesse feito quando o caso veio a público, o que revela muita “distracção” por parte de alguém com uma imagem de competência como Elisa Ferreira.

Claro que todo este caso é um pequeno caso, no seio de casos muito mais graves que são conhecidos todos os dias.

Elisa Ferreira parecia ser um lufada de ar fresco no seio de uma Comissão Europeia que não augura nada de bom, quando criou uma pasta com o ridículo nome de “Proteger o nosso modo de vida na UE” (!!!!), manteve o tenebroso senhor Dombrovkis numa pasta com o pomposo nome de “economia que funciona para os cidadãos”, ele que, transitando da anterior comissão, provou que os únicos “cidadãos” que conhece e defende são os grandes gestores financeiros, ainda por cima acumulando com a vice-presidência, criou outra pasta com um nome pomposo de “Democracia e demografia”, entregue a uma comissária, a croata Dubravka Suica que, no Parlamento Europeu, sempre protegeu a Hungria de Órban, de cada vez que alguns deputados pretenderam condenar as violação ao Estado de Direito por parte do governo húngaro, ou, pior ainda, colocou como comissária para o “alargamento” a antiga ministra da justiça de Órban, responsável no seu país pelos maiores ataques à independência do poder judicial.

Afinal, de acordo com as novas revelações, Elisa Ferreira talvez não esteja a destoar assim tanto no “retrato de família” (sem ironia) da Comissão Europeia.

Até porque, mais importante do que as pessoas, o que interessa aos cidadãos, em relação à composição da Comissão Europeia é saber quais a s políticas e estas parecem ir na continuidade do ataque generalizado aos direitos socias dos cidadãos europeus, favorecendo o corrupto sector financeiro.

Enfim, mais do mesmo!

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

O Grupo Bilderberg e os “trabalhos” de Rui Rio


Está cumprido o desígnio, traçado para Portugal, pelo influente e semissecreto Grupo Bilderberg em 2008 (sobre este grupo, leia-se o que escrevemos AQUI).

Esse grupo, conhecido por reunir os políticos, jornalistas , empresários e economistas mais influentes do mundo e acusado pelos seus detractores de funcionar como uma espécie de máfia que decide os destinos do mundo, e que costuma convidara e lançar figuras da sua confiança na vida politica, convidou em 2008 duas figuras, então de segundo plano nos respetivos partidos : António Costa e….Rui Rio.

Portuguesas, só costumam ser convidadas figuras do PS ou do PSD. Paulo Portas foi a única excepção.

Portugal tem direito a três convidados, escolhidos até 2015 por Pinto Balsemão, nada mais nada menos que o patrão dos órgãos de comunicação social que mais influencia têm em Portugal na “formatação” da opinião pública e, por isso, com poder para vender políticos com quem vende sabão…

Em 2015 Balsemão foi substituído na tarefa junto daquele grupo por Durão Barroso. O que é um facto é que nunca mais se ouviu falar nas reuniões daquele grupo.

Quando em 2008 António Costa e Rui Rio compareceram naquela reunião especulou-se sobre o destino que o grupo reservava àquelas figuras, falando-se na facilidade de entendimento entre eles para reforçar um bloco central em Portugal.

António Costa é hoje primeiro-ministro, mas talvez em circunstâncias não previsíveis por aquela elite de gente influente, dando-nos alguma esperança de que aquela gente pode ser contrariada democraticamente e os seus objectivos podem ser travados pelas circunstâncias da história,  apesar de todos os poderes manipulatórios que aquele grupo e outros do género (maçonarias , Opus Dei…) têm ao seu dispor.

Mas é um facto que os objectivos da “geringonça” estão praticamente cumpridos, que estamos a pouco mais de um ano de eleições legislativas, que os desentendimentos entre aliados no governo começam a ser frequentes e que um certo estilo “socrático”,  que estava adormecido no PS, começa a reerguer-se.

Ora, a imprevisível eleição de Rui Rio para liderar o PSD  parece surgir num momento chave para iniciar a reconstrução do centrão após as próximas eleições legislativas, até porque a “geringonça” está no limite do equilíbrio entre as imposições da burocracia de Bruxelas e o programa social da esquerda.

Claro que Rui Rio não tem o seu lugar seguro e também existe alguma imprevisibilidade na sua manutenção, já que o “passoscoelhismo” controla o grupo parlamentar e as estruturas do partido.

Rui Rio arrisca-se, caso não obtenha um bom resultado eleitoral, a ser um líder a prazo, abrindo caminho a um regresso triunfal de Passos Coelho e/ou de alguém que lhe seja próximo.

Mas, se as coisas correrem de "feição", com o aval do Presidente da República, que também já esteve em Bilderberg, corre-se o risco de assistirmos ao regresso do famigerado “centrão” de má memória, que nos conduziu à bancarrota “socrática” e ao “austeritarismo” troikista do “passoscoelhismo” e à vitória da estratégia antissocial daquele influente grupo de “opinião”.

Oxalá estejamos errados!


quarta-feira, 27 de setembro de 2017

AUTÁRQUICAS 2017 - o que é “ganhar” ou “perder”?


É abusivo fazer uma leitura nacional das eleições autárquicas, pois cada concelho e cada freguesia é uma realidade distinta que não encaixa na lógica partidária nacional.

Nestas eleições vota-se muito mais pela “obra feita” e pelo “valor” da personalidade dos candidatos do que por convicções políticas.

Contudo, se essa leitura é arriscada e abusiva, existem tendências que é possível detectar, pois, apesar de tudo, as listas partidárias continuam a ser dominantes, envolvendo os líderes nacionais na campanha, e  é a convicção dos candidatos que, em grande parte, os leva a candidatarem-se nas listas dos partidos políticos existentes e, principalmente nos grandes centros urbanos, onde o afastamento entre eleitores e eleitos é maior,  as opções politicas dos votantes são mais evidentes e marcantes.

O aparecimento de candidaturas independentes nos  últimos actos eleitorais é um dado novo a ter em consideração, mas o peso da máquina partidária ainda é dominante e o aparecimento de listas ditas “independentes” no acto eleitoral deste ano, onde dominam figuras que iniciaram a sua carreira nos grandes partidos do sistema e com uma atitude revanchista em relação aos partidos que os abandonaram, está a contribuir para destruir a imagem de isenção e independência de tais candidaturas.

Sendo abusivo e arriscado, aqui ensaiamos uma possível leitura nacional das próximas eleições autárquicas.

Assim, se em eleições democráticas, é óbvio que ganha quem tem mais votos, o significado destas eleições não é assim tão linear.

Para o PS ganhar as autárquicas é, no mínimo, manter a liderança da Associação Nacional de Municípios e garantir a vitória em Lisboa. No máximo é ultrapassar o resultado das últimas autárquicas, onde venceu em 149 municípios, ter um bom resultado no Porto e dominar a maior parte das capitais de distrito.

Se perdesse Lisboa, baixasse significativamente o número de Câmaras, ou tivesse um mau resultado no Porto (por exemplo não evitando uma maioria absoluta de Rui Moreira), este seria um mau resultado para o PS, mesmo que fosse o partido mais votado.

Quanto ao PSD, um bom resultado será, no mínimo, ultrapassar o número de 120 câmaras eleitas  e ser a segunda força mais votada em Lisboa. No máximo seria ultrapassar o número de Câmaras do PS, voltando a liderar a Associação Nacional de Municípios e ganhar Lisboa.

Se, pelo contrário, perder muitas câmaras, não conseguir ganhar em pelo menos metade das capitais de distrito, não ultrapassar as 100 câmaras eleitas e se for a terceira força política em Lisboa, este será um mau resultado e Passos Coelho estará condenado na liderança do partido.

Os sinais dados pelas sondagens, embora estas sejam muito falíveis no universo autárquico, revelam-se pouco animadores para Passos Coelho, dada a possibilidade de o seu partido ser ultrapassado pelo CDS em Lisboa e ter uma votação muito inferior à soma das candidaturas do BE e PCP no Porto.

O CDS, pouco representado em termos autárquicos, é o partido que menos tem a perder, e, por isso, mais pode ganhar com o seu resultado nestas eleições.

A situação do CDS é também menos clara, já que concorre em muitos lugares em coligação com o PSD.

Mas, se vencesse mais do que 5 Câmaras, conseguisse que a coligação com o PSD tivesse melhores resultados do que as candidaturas onde o PSD concorre sozinho e obtivesse um bom resultado em Lisboa (por exemplo, ultrapassasse o PSD), e se Rui Moreira vencer no Porto (candidatura apoiada pelo CDS), pode dizer-se que o CDS obtém um bom resultado.

Um mau resultado é gorarem-se as expectativas em Lisboa,  Rui Moreira ser derrotado no Porto e ser arrastado para um possível descalabro do PSD nas autarquias onde concorre em coligação.

A CDU, por sua vez, pode considerar um bom resultado manter cerca de 30 Câmaras , em especial as de Setúbal , Évora,  Beja e Loures, acrescentar novas conquistas e obter um bom resultado em Lisboa e no Porto.

Um mau resultado era conquistar menos de 30 câmaras, perder duas daquelas Câmaras emblemáticas e câmaras como Peniche ou Sobral de Monte Agraço ou outras de tradição comunista.

O BE pode cantar vitória se conseguir ganhar câmaras, eleger mais de 10 vereadores em todo o país, principalmente se estes forem fundamentais para formar maiorias em Câmaras de esquerda sem maiorias absolutas e eleger vereadores em Lisboa e no Porto.

Sai derrotado se eleger menos de 10 vereadores, nenhum em Lisboa ou Porto.

Quanto aos independentes, manter o Porto e ultrapassar as 10 Câmaras eleitas é a meta mínima para a credibilidade das mesmas, a não ser que essa subida seja feita à custa das vitórias dos “Isaltinos Morais” destas autárquicas. Neste caso até pode ter bons resultados mas ficam descredibilizados  para o futuro.

Um outro facto a ter em consideração é a abstenção. Uma abstenção inferior aos 45% fortalece e credibiliza este acto eleitoral.

Um aumento da abstenção, que ultrapasse os 50% é uma má notícia.

Veremos o que se vai passar.


quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Soares, o Fim de uma época


Se existe alguma figura que, para o bem e para o mal ( e para o “assim-assim”) marcou uma época, Mário Soares foi uma delas.

Toda a minha geração foi marcada por Mário Soares, e todos concordámos ou discordámos dele muitas vezes, em momentos importantes da nossa vida cívica.

Contudo nada justifica o ódio cobarde contra ele manifestado nas redes socias por estes dias, muitas vezes com base em mentiras justamente e factualmente desmentidas nas páginas do jornal Público (leiam o artigo de Pedro Guerreiro intitulado “Nas Redes Sociais, ódio e boatos em copy-paste”, in Público de 9 de Janeiro de 2016)

Pessoalmente cruzei-me com Mário Soares algumas vezes, embora só tenha trocado com ele algumas breves palavras de circunstância.

Assisti, em 1974, enquanto militante do PS, a vários comícios onde ele estava presente, tendo-me marcado um grande comício, realizado no então chamado Pavilhão dos Desportos, no Parque Eduardo VII, onde estiveram presentes Altamirano, líder do PS do Chile, que sucedeu a Allende e vivia então na clandestinidade, lutando contra a ditadura de Pinochet, e François Mitterrand, líder do PS francês, anos antes  de chegar à presidência da França.

Por essa época cruzei-me ainda algumas vezes com Soares na sede do PS, então em S. Pedro de Alcântara.

Tendo-me afastado do PS no inicio de 1975, ainda me cruzei com ele uma ou duas vezes na década de 70, na rua onde fica a sua casa, pois por ela tinha de passar todos os dias, várias vezes, durante uns cinco anos, para me deslocar do metro, que então ía apenas até Entre Campos, para a Faculdade de Letras

Voltei a cruzar-me com ele na década de 80, em colóquios e congressos de História promovidos pela Fundação Mário Soares.

Numa destas ocasiões houve outro momento que me marcou, que foi num encontro de História Contemporânea dedicado a Humberto Delgado, era Soares presidente da República.

No final da manhã Mário Soares, que tinha sido um dos oradores , era esperado no hall de saída da sala por um enxame  de jornalistas  que procuravam  obter um comentário sobre um tema político  (não me lembro qual) que marcava a época [o interesse não era, como devia ser, o tema do congresso!!!].
Por sua vez, eu, com mais dois amigos (um era o José Travanca, o outro, não tenho a certeza, mas penso que era o Nozes Pires) juntámo-nos num outro canto do hall para falarmos doutros temas. Entretanto, depois de obterem o que que queriam, os jornalistas abandonaram o local e o ambiente no hall acalmou.

Para surpresa nossa, quando olhámos para o lado, vimos que só lá estávamos nós e, a uma pequena distância... Mário Soares em amena cavaqueira com uma outra figura pública (não me lembro quem), sem se avistar à volta um  segurança ou um polícia. Recordo, Soares era então “apenas” Presidente de Portugal.

Já depois disso voltei a cruzar-me com Soares, em Torres Vedras, por ocasião de um colóquio (que contou com outras duas sessões onde estiveram presentes, em datas diferentes, Álvaro Cunhal e Marcelo Rebelo de Sousa). Data desse colóquio a única vez que troquei breves palavras com Soares par pedir que me autografasse uma primeira edição do seu Portugal Amordaçado.

Mas mesmo nunca estando muito próximo dele, a não ser nas circunstâncias descritas, a sua personalidades, as suas ideias e a sua atitude estiveram sempre presente nalgumas das minhas decisões políticas.

Tudo começou ainda antes do 25 de Abril, quando vi nele uma alternativa à oposição comunista. Embora tenha colaborado com o PCP a partir de 1973, em reuniões clandestinas de carácter unitário ( no seio do MDP/CDE) não aceitei uma proposta para aderir ao PCP com o argumento de eu ser “social-democrata” . A “social-democracia” em que então me revia era aquela representada por Mário Soares.

A seguir ao 25 de Abril, depois de uma breve continuação junto do MDP/CDE, aderi em Junho ao PS quando este partido deixou aquela plataforma política.

Entretanto, na voragem revolucionária que se seguiu, afastei-me progressivamente do liberalismo de Soares e, juntamente com outros membros da Juventude Socialista local, iniciei um processo de ruptura, que teve um primeiro episódio nos finais de 1974, quando tomámos praticamente de ”assalto” a sede local do PS, que ficava na A. 5 de Outubro, encostada ao restaurante “Pacar” e “fundámos” uma “tendência” “revolucionária”, a que chamámos de “MRJS” (“Movimento Revolucionário da Juventude Socialista”). A aventura durou umas horas, pois logo fomos retidos na sede pelos mais velhos e ficámos a aguardar a chegada de um representante da JS de Lisboa para tomarem uma decisão sobre nós. Ouvimos um raspanete, fomos ameaçados de expulsão e mantivemo-nos ainda por mais algumas semanas no PS.

Alguns saíram entretanto. Eu aguardei pelo resultado do Congresso de Janeiro de 1975, apostando na figura de Manuel Serra, que disputava a liderança contra Mário Soares. Saindo Soares vencedor, escrevi e enviei o meu pedido de demissão (que foi aceite só em Abril, dias depois das eleições para a Assembleia Constituinte).

Tendo saído do PS empenhei-me depois na luta política pela Associação de Estudantes do Liceu de Torres Vedras, numa coligação de várias tendências esquerdistas que concorreu contra a UEC (organização estudantil do PCP) e que vencemos com grande maioria.

Os meus companheiros da JS aderiram às mais variadas tendências (MRPP, PRP, LCI, o embrião da UDP, Anarquistas). Eu e um pequeno grupo aderimos à LUAR.

Voltaria a estar contra Mário Soares durante o 1º Governo Constitucional e na adesão à CEE. Á distância reconheço que a adesão à CEE salvou  a frágil democracia portuguesa e permitiu ao país fugir à miséria social e económica. Infelizmente, o modelo de prosperidade que essa desão podia garantir foi desbaratada durante os anos do “cavaquismo” e, já neste século, com a apressada adesão ao “euro”. Mas isto é outra história.

Voltei a divergir de Mário Soares nas eleições presidenciais de 1986, apoiando activamente a candidatura de Maria de Lurdes Pintasilgo. Contudo, acabaria por votar pela primeira vez em Soares, na segunda volta dessas eleições.

A partir de aí , embora nem sempre concordando com ele, como no seu apoio a Sócrates, ganhei um grande respeito a Mário Soares e voltei a estar com ele recentemente nas criticas às políticas de austeridade da troika e à deriva “austeritária” de Bruxelas, bem como no apoio a Sampaio da Nóvoa.

Foi tudo isso que me levou ontem a Lisboa para um último adeus a essa grande figura que marcou a evolução do país nos últimos 50 anos.

Depois de terem desaparecido Sá Carneiro, Salgueiro Maia, Álvaro Cunhal e Mário Soares, abre-se uma nova página na nossa história.













 

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Morreu Almeida Santos, um dos pilares da democracia portuguesa.


"Encaro a morte com uma naturalidade imensa. Viver e morrer são igualmente naturais", disse um dia Almeida Santos, numa entrevista que deu à revista Sábado, em Novembro de 2006 ( e que pode ser lida integralmente AQUI).

Almeida Santos foi uma das figuras que mais se destacou na luta contra a ditadura, desempenhando um papel activo na construção da democracia portuguesa.

Nasceu em Seia em 15 de Fevereiro de 1926, estudou direito em Coimbra, onde se dedicou também à interpretação do fado de Coimbra, partindo depois para Moçambique, em 1953, onde viveu mais de 20 anos.

Em Moçambique foi um dos mais destacados militantes da Oposição Democrática e, enquanto advogado, defensor de presos políticos.

Regressou a Portugal depois do 25 de Abril, a convite de Spínola, para fazer parte do Primeiro Governo Provisório, mantendo-se nos governos provisórios seguintes (no 2ª, 3ª e 4º, liderados por Vasco Gonçalves, e no 6º, liderado por Pinheiro de Azevedo), desempenhando um papel central nas negociações que levaram à independência das antigas colónias portuguesas e continuando nos dois primeiros governos constitucionais liderados por Mário Soares, aderindo então ao PS.

Foi um dos mais destacados deputados do PS no parlamento, ao qual presidiu. Era o líder do PS quando este foi derrotado por Cavaco em 1985.

Foi um dos principais responsáveis pela elaboração da Constituição Portuguesa e pela legislação democrática.

Deixou escritas várias obras sobre de direito e memorialistas, estas últimas, peças fundamentais para o conhecimento dos bastidores da política nacional nas primeiras décadas da consolidação da democracia.

Apesar dos seus quase 90 anos, Almeida Santos continuava activo e empenhado, tendo aparecido há dois dias numa acção pública da campanha de Maria de Belém, a candidata que ele apoiava neste eleições presidenciais.

Tive o raro privilégio de lhe ter sido apresentado uma vez, há muitos anos, por um grande amigo do meu pai, o médico Mário de Sousa Dias, um dia em Torres Vedras, durante uma acção de campanha do PS.

Foram muitas as vezes que discordei de Almeida Santos , mas reconheço que, com a sua morte, é mais uma grande figura de referência democrática que se perde, um dos últimos exemplos de uma geração de políticos construidos na luta contra a ditadura e na consolidação da democracia, exemplos cada vez mais raros de coerência, coragem e dedicação, aos quais os portugueses, mesmo os seus críticos e adversários, muito devem.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

TENHAM LÁ CALMA !!! (Parte 5) – É só mais um governo do PS!


A histeria que se apoderou da direita nestes dois últimos meses, alimentada pela atitude presidencial, pode abrandar a partir de agora…ou não!

Pelo menos estes meses contribuíram para a direita tirar a máscara e mostrar o seu lado mais trauliteiro.

Mas sejamos realistas: o que António Costa vai formar é apenas mais um governo do PS, na linha ideológica e programática habitual nesse partido.

Não foi o PS que virou à esquerda.

O que aconteceu é que foi a direita que, nestes últimos quatro anos, virou demasiado à direita, deixando o centro político desguarnecido e, no caso do PSD, abandonando os valores social-democratas do seu fundador.

O PS não se moveu, continua no centro-esquerda onde sempre esteve.

O que aconteceu também é que, à esquerda do PS, o PCP e o Bloco de Esquerda perceberam que é preferível  encarar  de forma pragmática um governo PS, igual a tantos outros, a continuar a aturar um governo de direita que fez o país recuar décadas .

Como se diz, os partidos à esquerda do PS perceberam, finalmente, que mais vale "um pássaro na mão" do que dois (Coelho e Portas...??) a voar..

PCP e BE podem continuar a ser a “reserva moral” da esquerda, mas devem agir com pragmatismo, para não deitarem tudo a perder.

O que é agora fundamental é recuperar o país, a sua economia e a sua sociedade, aproximando o país dos níveis europeus, retirando a iniciativa à direita que estava a conduzir o país para o empobrecimento, a desigualdade e o desrespeito pelo direito dos cidadãos a uma vida melhor e que andaram a virar portugueses contra portugueses para melhor "reinarem".

Para isso não é prioritário nem necessário à esquerda romper com quaisquer compromissos  internacionais, como a direita trauliteira anda por aí a meter medo ao povinho.

Basta aperfeiçoar e rentabilizar o aparelho de Estado, valorizar o económico e social em detrimento do poder financeiro, combater a fuga ao fisco, penalizando fortemente as empresas que recorrem a off-shores , combater a corrupção, levando até ao fim as investigações sobre o BES, o BPN , os “submarinos” e outros casos que envolvem a velha classe política portuguesa (à direita e à esquerda, diga-se em abono da verdade...), melhorar as condições de trabalho e de produção para fazer subir o PIB e, deste modo, reduzir o deficit e a dívida.

Ao mesmo tempo, basta ir para as instituições europeias defender o país e os seus cidadãos, abandonando a postura subserviente dos últimos anos, e ganhar poder negocial.

É só aproveitar as mudanças que se estão a observar na Europa, em vez de se tentar ser o aluno bem comportado que até ía “além da troika”.

E é “fazer figas” para que o poder político em Espanha mude de mãos.

Agora é preciso  é calma e, da parte da esquerda, pragmatismo e …juizinho.


quinta-feira, 5 de novembro de 2015

É militante ou ex-militante do PS? ..aproveite os seus 15 minutos de fama...


É militante ou ex-militante do PS?

Foi autarca numa freguesia do PS ou ex-ministro de um governo do PS? 

...e, principalmente e condição necessária, está contra um "governo de esquerda"?

...Então aproveite e pode gozar os seus "15 minutos de fama"...

É que a comunicação social anda à procura de tudo o que seja "dissidência" no PS, contra um acordo à esquerda,para abrir os noticiários e encher os programas de debate e entrevista política.

Mesmo que no fim não se venha a concretizar qualquer "governo de esquerda", este tempo já valeu a pena para assistir a este triste espectáculo de gente a colocar-se em bicos de pé para aparecer na televisão e nas páginas dos jornais...

...é aproveitar que não dura sempre...

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

As “vitoriazinhas” e as “derrotazinhas” das eleições de ontem…


Parafraseando  a frase assassina de António Costa contra António José Seguro, a propósito do resultado eleitoral do PS nas eleições europeias, onde este ganhou por  “poucochinho” no primeiro embate contra a coligação, os resultados destas eleições deram muitas “vitóriazinhas” e muitas “derrotazinhas”.

Em primeiro lugar a coligação de direita, que obteve uma “vitóriazinha” porque, apesar de tudo, cortou a “meta eleitoral” em primeiro lugar e, em eleições, ganha quem chega à frente, mesmo que por “poucochinho” .

Foi uma “vitóriazinha” porque ele foi conquistada apesar da “derrotazinha” de ter perdido mais de seiscentos mil votos e  vinte e oito deputados, face àquilo que os partidos da coligação, no seu conjunto, tinham conseguido em 2011.

Enfim foi também uma “derrotazinha” da coligação de direita que, ganhando, perdeu a maioria absoluta e terá de governar contra a maioria “absolutíssima” “anti-austeritária” do eleitorado e do parlamento ….ou uma “vitóriazinha de Pirro”…

Também a CDU obteve uma “vitóriazinha” (que a costumada cegueira irrealista da sua direcção política procurou, em patéticas afirmações na noite eleitoral, transformar em “vitoriazona”…) porque ganhou menos de quatro mil votos e mais um deputado e contribuiu, embora “poucochinho”, para que a coligação de direita perdesse a maioria absoluta, disfarçando a “derrotazinha” de ter perdido esta ocasião única para se tornar na terceira força política do parlamento, de recuperar os dois dígitos na percentagem de eleitores e de ter deixado de ser, talvez de forma irreversível,  a grande referência da esquerda à esquerda do PS.

Por sua vez o PS sofreu uma assinalável “derrotazinha”, a primeira derrota eleitoral  depois de ter vencido, mesmo que por “poucochinho” , as últimas eleições pós – socráticas, as autárquicas e as europeias, em conjunturas bem mais complicadas de vencer do que estas.

Resta-lhe a consolação de ter obtido a “vitóriazinha” de ter recuperado menos de duzentos mil votos e mais onze deputados (tantos como o Bloco de Esquerda…) e de estar nas suas mãos a viabilidade das políticas austeritárias do governo. Foi assim que, na Grécia, o PASOK  se eclipsou…Enfim…outra “vitóriazinha de “Pirro”…

Mas nem tudo foram “vitóriazinhas”  ou “derrotazinhas”.

Houve também GRANDES VITÓRIAS e GRANDES DERROTAS.

Em primeiro lugar a Grande Vitória pessoal de  Paulo Portas, que ontem não disfarçava a sua euforia,  e do seu CDS, que  vão ser os grandes beneficiados da “vitóriazinha” da coligação, que lhe  pode permitir, em ganhos eleitorais, disfarçar a provável “derrocada” do seu Partido, caso tivesse concorrido sozinho a estas eleições, mas, mais do que isto, vir a ter um grupo parlamentar que se pode tornar na terceira força política parlamentar, tonando o PSD o segundo partido, com menos deputados que o PS,  e ser, no futuro, um partido charneira que pode dar muitas dores de cabeça a Passo Coelho.

Em segundo lugar, a real e verdadeira Grande Vitória nestas eleições , a do Bloco de Esquerda, que ultrapassou os 500 mil votos,  e conquistou onze novos deputados, tornou-se o terceiro político parlamentar (até ver o que se vai passar com a organização no parlamento dos partidos da coligação), ganhou em muitos distritos onde os partidos à esquerda do PS nunca tinham conseguido representação parlamentar e canalizou o voto dos descontentes.

Ainda por cima, reduziu a cinzas os partidos que tinham surgido de cisões internas que anunciavam o eclipse de BE.

 Uma outra Grande Vitória foi a do partido Pessoas, Animais e Natureza,  trazendo, pela primeira vez  ao parlamento, neste século XXI, uma nova formação política, ainda por cima uma formação que apresenta algumas questões inovadoras, tais como, para além da bandeira de longa data de acabar com os canis de abate, a defesa da  criação de um novo índice para aferir a qualidade de vida de um país, o “índice de Felicidade Interna Bruta”,  idéia que tem vindo a ganhar peso internacionalmente, ou uma jornada de trabalho de30 horas (há muito tempo aplicado na Suécia com excelentes resultados na produtividade e riqueza daquele país) Se souber usar o novo espaço de divulgação das sua ideias inovadoras e ambientais pode vir a ser, no futuro, muito mais que um epifenómeno político.

Quanto aos Grandes Derrotados, eles foram, em primeiro lugar Marinho e Pinho e a sua postura populista e arruaceira, ou o Livre que não conseguiu mostrar que tinha propostas diferentes das do Bloco de Esquerda ou que a sua razão de ser ía muito além das simples questiúnculas pessoais e de feitio, que ao longo do tempo tanto têm contribuído para minar a esquerda.

Mas , quem saiu verdadeiramente derrotado nestas eleições,  foi a Política austeritária imposta pela União Europeia e pela Troika e diligentemente aplicada pelo actual governo. Há que não esquecer que, mesmo a coligação fez toda a campanha eleitoral à volta da tentativa (que pelos visto resultou) de se demarcar da Troika e das medidas de austeridade…

Enfim, de “vitóriazinha” em “vitóriazinha” e de “derrotazinha” em “derrotazinha”, cá iremos andando até as próximas eleições parlamentares, que, quanto a nós, não tardarão mais de dois anos.


sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Como vou votar num cenário de derrota pré anunciada da esquerda?


O QUE EU NÃO GOSTAVA…

As últimas sondagens dão uma vitória clara à coligação de direita.

Desta vez já são sondagens com uma base significativa de inquéritos, com menos indecisos e onde a diferença entre a coligação de direita e o PS ronda mais ou menos (quase sempre mais) os 5%. 

Convém recordar que, em Portugal, a nos últimos vinte anos, as sondagens nunca se enganaram por mais ou menos 2 ou 3%.

Se os resultados forem outros, esta seria a primeira vez  em Portugal que todas a sondagens se “espalhavam” de forma clamorosa.

Claro que ainda existe uma razoável margem de indecisos, mas o que tem acontecido é que, quanto mais o número de indecisos baixa, mais aumenta a diferença entre a coligação de direita e o PS, sem que se registe um grande avanço nos partidos mais à esquerda.

É contudo bom recordar que, um pouco por toda a Europa, nos últimos, anos, as sondagens se têm enganado redondamente.

Veremos se, pela primeira vez em Portugal, tal vai acontecer.

ENCONTRAR EXPLICAÇÕES PARA O INEXPLICÁVEL

Seja qual for o resultado final, o que parece significativo é que uma grande parte da população continue a confiar numa coligação que destruiu os equilíbrios sociais em Portugal, lançando portugueses contra portugueses, fomentando a inveja social, provocando  a emigração de  500 mil portugueses, a maior parte jovens qualificados, agravando a já de si grave situação demográfica do país, empobrecendo a generalidade da população trabalhadora e pensionista de Portugal, aumentando as desigualdades sociais, reduzindo os salários para o nível da indigência, aumentando a insegurança e a precariedade dos empregos, transformando  a alta taxa de desemprego , acima dos 10% (30% entre os jovens) num fenómeno estrutural, cortando drasticamente nas funções sociais do Estado, na saúde e na educação e deixando de investir na cultura e na investigação.

Ao mesmo tempo, aumentou drasticamente o número de milionários, manteve-se elevados o salário dos gestores das grandes empresas, manteve-se os chorudos lucros das mesmas empresas e bancos, continuou-se a garantir que a maior parte destas fuja aos impostos através do esquema de off-shores “legais” em pleno espaço da União Europeia.

Mas tudo o que este governo fez foi em nome de três objectivos falhado: reduzir o deficit, reduzir a dívida e aumentar a “competitividade” (seja lá isto o que for). O deficit mantem-se ao mesmo nível, a dívida aumentou e é impagável sem mais “sacrifícios” e austeridade, e na “competitividade”, o país piorou a sua situação no ranking mundial.

No fundo, a coligação de direita destruiu os ideais dos fundadores dos seus partidos, a social-democracia de Sá Carneiro e a democracia-cristã de Freitas do Amaral.

O mesmo fenómeno que justifica a resignação ou a aceitação do miserabilismo da política governamental levou a aceitação, durante 50 anos, da “ordem” salazarista.

Em toda esta situação, a esquerda não está isenta de culpas.

Em primeiro lugar o PS:

- o processo de sucessão de Seguro para Costa foi todo um jogo de manipulação propagandística e da mais suja táctica política. O “cheiro” a poder inebriou muita gente do PS. Afinal a principal justificação para afastar Seguro era que ele não tinha “carisma” ou que “ganhava  eleições, sim mas, por pouco!”. O PS arrisca-se agora a perder numa conjuntura que lhe era favorável.

- a colagem dos “socráticos” a António Costa, que precisou deles para ganhar o PS, mas dos quais nunca se soube demarcar. A prisão de Sócrates, um caso que levanta suspeitas pelos “timings” escolhidos, “entalou” de vez António Costa. Em muitas cabeças o que passou a estar em julgamento nestas eleições foi José Sócrates e não os últimos 4 anos de (des)governo…e Costa não conseguiu dar a volta a isto!

- as hesitações da campanha de Costa, entre o discurso “sério” e “realista” do poder, e a condenação firme da austeridade. Só que para se condenar com firmeza a “austeridade” ,imposta pela troika e alegremente aplicada pela coligação de direita, era necessário questionar a presença de Portugal no euro, defender com base sustentável a renegociação da dívida, e fazer frente às antidemocráticas instituições europeias, tudo aquilo para o qual falta coragem a este PS, muito apegado ao poder e com gente comprometidas com muitas malfeitorias feitas no governo de José Sócrates.

Em segundo lugar a esquerda com assento parlamentar, CDU e BE:

- a situação na Grécia veio retirar credibilidade àquilo que estes partidos defendem, veio dificultar uma saída negociada da crise e provocou medo em muitos eleitores que preferem o sossego das suas vidinhas, mesmo que seja o sossego dos cemitérios, a ter que passar por situações idênticas àquelas pelas quais passou a Grécia ao longo deste ano. O pior que pode acontecer ao português “médio” formatado pela ideologia “cavaquista” que criou a nossa classe “média”, e é aspiração de muito “pobre”, é tirarem-lhe a possibilidade de usar o cartão de crédito, mesmo que não tenha nada para levantar! ;

- a irredutibilidade de alguns princípios políticos, que impossibilitam qualquer aproximação a um governo minoritário do PS, ou pelo menos é esta a imagem que transmitem. A esquerda continua muito presa a divergências do passado, que já nada dizem às pessoas e revela uma enorme incapacidade pragmática de entendimento. Neste ponto deviam ter aprendido alguma coisa com o Syriza;

- a imagem de divisão que acabam por provocar à esquerda, principalmente no caso do Bloco de Esquerda, que tem, nestas eleições, mais dois partidos a concorrer na mesma área e que resultaram da incapacidade de ultrapassar as meras divergências pessoais;

-na sequência do que disse em cima, a idéia de que as outras duas “alternativas” à esquerda (Livre e Agir) dão de que apenas estão a concorrer contra o BE, por meras razões de incompatibilidades pessoais, não tendo para apresentar ideias muito diferentes das do BE.

Existem também outros fenómenos que podem justificar a situação de grande incerteza que se vive e uma previsível vitória eleitoral da direita:

- a abstenção elevada, que beneficia a direita, e que, nestas eleições conta com um fenómeno que só foi referido no início da campanha, mas rapidamente esquecido, o facto de 500 mil eleitores jovens e os mais revoltados com a política de direita, terem emigrado e se depararem com um “erro” do ministério da administração interna, que se “enganou” na  produção dos boletins por correspondência, impedindo assim muitos milhares de poderem vota em Portugal;

- a influência propagandística da comunicação social, especialmente a televisiva,  onde enxameiam comentadores de direita e onde os debates são orientado no sentido de justificar a austeridade, desvalorizar as más notícias para a coligação (como o escândalo da aldrabice na elaboração estatística do valor do deficit) e potenciar os erros da esquerda e as tendências das sondagens. Não é por acaso que são designados por “fazedores de opinião”. A “ informação “que se faz em Portugal é cada vez menos informação e cada vez mãos comentário…e isso influencia as escolhas politica do cidadão comum…

O QUE EU GOSTAVA!

Claro que gostaria que estas eleições tivessem outro resultado, diferente daquele que parece adivinhar-se.

Pessoalmente gostaria que o PS ganhasse, mas não por muito, mas em condições de poder negociar acordos pontuais com qualquer partido. O melhor governo do PS, o de António Guterres, funcionou assim.

Gostaria também de ver reforçada a votação da CDU e do BE e que, pelo menos um destes partidos tivesse maior representação parlamentar que o CDS.

Gostaria que entrassem no parlamento novas forças políticas, como o Livre, que tem as pessoas mais interessantes da esquerda, e o PAN (Pessoas Animais e Natureza), que pode representar uma lufada de ar fresco no parlamento.

Gostava que a CDU, o BE e os novos partidos no parlamento tivessem maior representação parlamentar do que o PSD no seu conjunto.

Gostava…Mas!!!!

O MEU VOTO

Se votasse com “utilidade”, votava no PS!

Se votasse com “coerência” votava no BE!

Se votasse com o “coração” votava Livre ou PAN.

Mas vou votar com a cabeça e de forma friamente racional, e por isso voto…CDU!


quinta-feira, 30 de julho de 2015

ainda alguém acredita em programas eleitorais?

(o verdadeiro "cartaz eleitoral" do PAF!!!)

Não li, nem tenciono ler, os programas eleitorais da coligação de direita e do PS.

Os dois últimos governos desses partidos já mostraram que as promessas eleitorais não são para cumprir e que podem fazer exactamente o contrário do que prometeram, sem se envergonharem.

No que respeita àquilo que são as promessas da coligação de direita, o desplante é total.

Estes desculpam-se com o memorando da troika para não terem cumprido no primeiro mandato com as promessas eleitorais.

Mas o que fizeram de pior não foi em nome do memorando da troika mas porque queriam ir além da troika e só não foi pior porque o tribunal constitucional não deixou.

Para além de todas as promessas, quem manda de facto são os burocratas não eleitos de Bruxelas e a Alemanha e quem se opuser a estes sai humilhado como aconteceu com os gregos.

Os programas políticos eleitorais não passam assim de mero lixo e a escolha eleitoral sobre quem vai executar as políticas austeritarias de Bruxelas é entre o " polícia bom" e o "polícia mau".

Mais importante do que eleger quem nos vai tramar é eleger quem ainda nos pode defender, na oposição, contra os governos colaboracionistas.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

As reacções ao Programa do PS


Não me vou pronunciar, por agora, sobre o programa eleitoral do PS, ontem apresentado, mas sobre as reacções que essa apresentação provocou, nomeadamente entre alguns comentadores e economistas, os do costume.

Esses comentadores e economistas, geralmente defensores da austeridade e  do “equilíbrio financeiro”, dos cortes nos salários e pensões, da redução do peso do Estado na economia, da redução dos impostos sobre o sector financeiro , da redução dos direitos sociais e das “reformas estruturais” que estão na base da justificação de todas essas malfeitorias, argumentam sempre, contra qualquer proposta política que recuse aquele caminho, com a “falta de dinheiro” e a “realidade” (a deles, é bom de dizer!!!).

Para já, o dinheiro existe, o problema é a forma como ele está distribuído. Como alertam vários autores e investigadores, esses sim verdadeiros economistas e comentadores que pensam de facto com a sua cabeça e com base em informação credível, e não com base em preconceitos ideológicos, é que tem havido, nos últimos anos (ou décadas, já que tudo terá tido início na década de 80 do século passado com a afirmação do neoliberalismo), uma enorme transferência de capital dos sectores produtivos, dos sectores de apoio social e do factor trabalho, através de cortes salariais, congelamentos nas carreiras, aumento de impostos e de leis que visam retirar e desmantelar as funções sociais do Estado, para o sector financeiro, nomeadamente o seu sector mais especulativo.

Foi assim que a enorme dívida que a banca possuía, mercê de opções erradas, foi transferida para os cidadãos e para os Estados, através do “resgate” imposto pelas medidas de austeridade (foi o que aconteceu na Grécia, onde a banca alemã, que detinha a maior parte da dívida do país e fechou os olhos à corrupção política generalizada quando isso lhe convinha, conseguiu transferir essa dívida para os Gregos, à custa da miséria generalizada imposta pela austeridade). Por isso, haver ou não dinheiro é uma questão de opções políticas.

Quanto à idéia de impedir que os cidadãos almejem a um melhoria das suas condições de vida, e possam  construir um futuro melhor para si e para os seus em nome do “choque com a realidade” é mais uma falácia ideológica do neototalitarismo neoliberal, não muito diferente do caminho único stalinista (ou não fossem muitos dos ideólogos do neoliberalismo antigos stalinistas “convertidos” …) ou do império de mil anos do nazismo. A diferença está apenas no grau de violência, menos directa e selectiva .

A “realidade” humana deixou de estar, há muito tempo, dependente das leis da natureza ou das leis do mais forte, embora existam muitos que procuram manter essa realidade, pelo exercício de leias financeira e económicas que desrespeitam os direitos humanos e pela forma como muitos procuram desvirtuar os princípios democráticos das relações humanas (veja-se o fascínio que as condições financeiras, económicas e socias da ditadura chinesa , do corrupto estado angolana ou do dumping social exercido no México ou na Índia exercem sobre muitos desses economistas e comentadores).

Se a humanidade se restringisse à “realidade” e não tivesse capacidade de inovação, criação e imaginação provavelmente ainda vivíamos todos na Pré-história.

Se alguma critica podemos fazer à postura do PS ao longo da sua história recente é a de não ser demasiado ambicioso nem se demarcar suficientemente da realidade imposta pela ideologia neoliberal.

Esperemos que desta vez o PS não se limite a fazer de “polícia bom” das medidas de austeridade.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

O Estranho caso de José Sócrates

(foto de Alberto Frias/Expresso)

Nunca votei em José Sócrates, mas, logo no início do seu mandato, quando deu ao PS a sua primeira maioria absoluta, que lhe foi oferecida pelos portugueses fartos dos governos do descalabro de Barroso/Santana Lopes, tive alguma esperança que algo mudasse na política nacional.

Pela primeira vez o PS ía governar com maioria absoluta e podia, também pela primeira vez desde o 25 de Abril, implantar o seu programa social-democrata sem constrangimentos.

Infelizmente essa esperança desde cedo de esfumou, com a governação autoritária de Sócrates, com o início da destruição do já de si fraco Estado Social e a retirada de direitos socias, virando portugueses contra portugueses, fazendo dos professores o bode expiatório do seu autoritarismo, iniciando o discurso da austeridade , dando início ao descalabro que nos levou à troika e ao governo de zombies actualmente no poder sob a “liderança” fantasma de Cavaco Silva.

Ou seja, se com Barroso e Santana Lopes pensávamos que tínhamos atingido o grau zero da política, o pior estava para vir com os governos que se sucederam, os de Sócrates e de Coelho (…e, sempre, Portas, que já vinha dos tempos de Barroso..).

Com Sócrates a submissão do poder político aos obscuros poderes financeiros, aos ditames de uma Europa cada vez menos solidárias, sob orientação de Merkel (então acompanhada por Sarkozy), aos negócios milionários com os novos ricos de Angola, da Venezuela e da China (à custa da miséria e da exploração das populações e dos trabalhadores desses países) e a distribuição dos dividendos assim obtidos pelos boys do costume, atingiu o seu ponto de não retorno, que encontrou no actual governo um fiel e entusiasta seguidor .

O nosso blogue surgiu a meio do primeiro mandato de Sócrates e desde logo manifestámos a nossa feroz oposição ao socratismo (basta clicar na etiqueta “anti-sócrates”, e ir clicando no final da página em “mensagens antigas” para poderem ler o que aqui escrevemos ao longo desses tempos).

Por isso estamos hoje à vontade para escrever o que vem a seguir.

A detenção de José Sócrates na noite da passada 6ª feira foi um acontecimento que não nos surpreendeu, dado o historial do ex-primeiro-ministro, mas mereceu-nos desde logo alguma estranheza pelo momento escolhido e pelo modo como decorreu.

Ficámos desde logo perplexos quando, cinco minutos depois de termos ouvido na SIC-notícias, no noticiário da meia-noite, já no Sábado, a notícia da detenção de Sócrates, terem desde logo aparecido imagens com o presumível carro da polícia que o transportava após a detenção no aeroporto, ao mesmo tempo que o jornalista referia o secretismo da investigação.

Ou seja, como é que, se a investigação e a prisão tinham sido conduzidas de forma tão secreta ,havia no local, “por acaso”, uma câmara da SIC que filmava o “momento”?

Poucas horas depois ficávamos ainda mais perplexos ao sabermos que dois órgãos de informação, o “Sol” e o “Correio da Manhã”, pespegavam nas primeiras páginas, preparadas antes da notícia ser conhecida pelo público, informações presumivelmente retiradas do processo, o tal processo “conduzido com secretismo”.

Ou seja, estamos mais uma vez perante um gravíssimo caso de violação de segredo de justiça, que tanto tem contribuído para “queimar” e contaminar processos judiciais que envolvem políticos e grandes interesses económico-financeiros.

Também, ao longo deste fim-de-semana, fomo-nos apercebendo que, a acompanhar este processo, existe uma guerra entre órgão de comunicação social, o “Sol” e o “Correio da Manhã” por um lado, a SIC  e o “Expresso” por outro, o que põe desde logo em causa a “independência” como esse caso vai ser acompanhado nesses órgãos de comunicação.

Ou seja, para além do próprio caso em si, vamos ter uma violenta guerra de tubarões da comunicação social que vai fazer deste caso uma arma de arremesso.
Outra perplexidade prende-se com o aparato da prisão. Ao que parece Sócrates não foi apanhado a fugir no aeroporto, mas a regressar, pelo que a detenção, feita como foi, parece visar a simples humilhação do detido.

Mas a  nossa  perplexidade adensa-se quando nos apercebemos do momento escolhido para essa detenção, o fim-de-semana em que o PS escolhia um novo secretário geral, no culminar de uma semana marcada por um outro escândalo de grandes repercussões, o dos chamados Vistos Gold, que tinha atingido o governo com grande estrondo.

Como se pode ver, acompanhando a comunicação social, casos gravíssimos como o dos Vistos Gold ou o do BES, para já não falar do BPN,  da Tecnoforma ou o dos “submarinos”, passaram de imediato ao quase esquecimento.

Contudo, e por aquilo que se sabe sobre as razões da detenção de José Sócrates, sendo graves, não atingem a gravidade dos outros casos que passaram par segundo plano,  nem tem os custos, para os portugueses e para o erário público, que esses outros casos anteriores têm.

Agora a justiça tem, pelo menos neste caso, de levar o caso Sócrates até às últimas consequências, sem deixar qualquer duvida ou sobre a culpabilidade, ou sobre a inocência de José Sócrates.

E, para que o caso não se politize, tem de agir célere, não se podendo arrastar até ao período eleitoral que se avizinha.

Ao mesmo tempo, tanto a justiça, como a comunicação social, não podem deixar cair no esquecimento os casos dos Submarinos, do BPN, do BES, da Tecnoforma ou dos Vistos Gold e devem ser igualmente céleres a esclarecer esses casos.

Caso contrário é a justiça e, a prazo, a democracia que passam a estar em causa, abrindo o caminho ao populismo e à demagogia e, mais depressa do que se pode pensar, em vez de uma dezenas de desordeiros de extrema-direita a manifestarem-se á porta do campus de justiça, veremos rapidamente esse número a aumentar.

A credibilidade das instituições democráticas joga-se neste caso.