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quinta-feira, 26 de junho de 2025

NATO, Rutte e Oliveira da Figueira

 

(cartoon de Vasco Gargalo)

“No contexto atual da aposta no rearmamento desenfreado, que fará com que “a Europa pag[ue] em GRANDE, como deve” (nos termos da mensagem que o secretário-geral da NATO enviou a Trump), isto significa vender-nos “o medo como motor económico e, pior de tudo, é fazê-lo passar por uma boa ideia” (Marga Ferré, Público.es, 28.4.2025) e vendê-lo como catalisador da economia, ocultando ou relativizando o que desde o início só os mais descarados assumiram: “O Estado social europeu acabou” e, para pagar o rearmamento, haverá que cortar nas pensões de reforma, porque “não se pode pedir aos jovens que peguem em armas e [ao mesmo tempo] cuidar dos velhos num determinado estilo. Os governos terão de ser mais severos com os idosos”. Ora, como “as democracias ricas precisam de uma crise aguda para desencadear uma verdadeira mudança”, porque “é quase impossível convencer os eleitores a fazerem reformas drásticas enquanto o seu país não estiver a atravessar uma crise aguda” (Janan Ganesh, FinancialTimes, 7.3 e 2.1.2025), o que é preciso é criar essa crise.

“É aqui que entra o securitarismo. “Para criar medo, precisam de um monstro, de um Outro a odiar, de um inimigo ameaçador. Para os portadores do ódio belicista, esse Outro contra o qual se armam, esse inimigo aterrador (seja ele qual for, terrorismo fundamentalista, migrantes, Rússia, Irão, China…) tem um alcance muito vasto e é invulgarmente flexível” (M. Ferré)”.

[Manuel Loff, “Os frutos da política do medo”, in Público de 25 de Junho de 2025].

As duas frases acima transcritas, do artigo de Manuel Loff, resumem tudo o que se tem passado nos últimos dias nas chancelarias ocidentais e no politburo da União Europeia, culminando na vergonhosa bajulação a Trump na cimeira da NATO.

Por muito que nos prometam que os tão badalados gastos militares não vão corroer e destruir as estruturas do “estado social europeu”, é evidente que essa promessa é impossível de cumprir, tendo em conta a percentagem do PIB alocado à defesa. Sé em Portugal, já o sabemos, 2,1% corresponde a mil milhões de euros de gastos públicos anuais, que vão duplicar até aos 5% nos próximos anos, já se percebeu que esse valor não vai surgir do nada, vai implicar cortes, os do costume: pensões, salários, saúde, educação e  direitos sociais.

Ora, se tivermos em conta que o chamado “Estado Social Europeu” era a principal bandeira apresentada pela União Europeia que justificava a sua “superioridade civilizacional”, com a sua destruição ou enfraquecimento pouco restará desse projecto.

Sabemos que há décadas que os sectores financeiros, que dominam a burocracia europeia, procuram devorar em seu proveito o valor desse “Estado Social”, pelo menos desde os tempos da troika, projecto de “cativação” descaradamente e publicamente defendida pela actual responsável para área financeira da Comissão Europeia, a nossa bem conhecida “troikista” Maria Luís Albuquerque, coadjuvada nessa intensão por outra conhecida troikista, Christine Lagarde.

Para a mentira estar completa, também não falta outro conhecido troikista, o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, a confirmar a “necessidade” de destruir o “Estado Social” :” os cidadãos dos países-membros da NATO devem "aceitar fazer sacrifícios", como cortes nas suas pensões, na saúde e nos sistemas de segurança, para aumentar as despesas com a defesa e garantir a segurança a longo prazo na Europa”[afirmação proferida por Rutte no Parlamento Europeu em 12 de Dezembro de 2024], acrescentando: "Hoje apelo ao vosso apoio, a ação é urgente. Para proteger a nossa liberdade, a nossa prosperidade e o nosso modo de vida, os vossos políticos têm de ouvir as vossas vozes. Digam-lhes que aceitam fazer sacrifícios hoje para que possamos estar seguros amanhã" (in Líder da NATO pede aos europeus que "façam sacrifícios" para aumentar despesas com a defesa, na página da Euronews de 12.12.2024).

Essas afirmações são coerentes com a acção política desse troikista, enquanto primeiro-ministro da Holanda (1), de cujo governo fazia parte o nosso conhecido Dijsselbloem, que acusava os europeus do Sul de gastarem dinheiro em “copos e mulheres”.

Não se percebe, contudo, como é que se defende “a nossa liberdade, a nossa prosperidade e o nosso “modo de vida” cortando no Estado Social Europeu, já que tem sido este o principal pilar e o garante da nossa liberdade, prosperidade e “modo de vida” Europeu. Dizem que Rutte é formado em História, mas nunca deve ter lido Churchill que, quando, em plena 2ª Guerra , vendo-se obrigado a fazer duros cortes nas despesas, quando, numa reunião do seu gabinete, “alguém sugeriu que fossem feitas reduções significativas no orçamento da Cultura, Churchill recusou. O argumento: sem cultura "por que é que estamos a lutar?" (leia-se Jornal de Negócios, 30 de Janeiro de 2013).

O mesmo podemos dizer hoje para os defensores de cortes no “Estado Social”. Sem o pilara Social Europeu para que é que vamos lutar?.

Outro lado da moeda é o discurso do medo, também muito explorado pelo mesmo Rutte.

Ainda recentemente, numa deslocação a Portugal, alertava para o perigo de os russos invadirem Lisboa e, noutra ocasião, continuando a defender cortes no Estado Social, ameaçava quem o não fizesse que teria de aprender russo.

Aliás, sobre o “papão” militar russo o discurso é contraditório. Tanto se ridiculariza esse poder, “enfraquecido pelas sanções” e incapaz de controlar a Ucrânia, como se argumenta com a possibilidade de um ataque a um país da NATO nos próximos anos.

Nada aponta para que a Rússia, a menos que seja provocada, ataque um país da NATO, pois, se nem um país enfraquecido como a Ucrânia consegue controlar, sem ser à custa de imensas baixas e custos militares, muito menos teria condições para enfrentar directamente esses países. Aliás, o próprio Putin, surpreendido com a resistência ucraniana, há muito que se deve ter arrependido dessa invasão, embora não o admita.

O que se pretende com a subida do orçamento militar é, por um lado, salvar o sector automóvel europeu, convertendo-o no fabrico de armamento, por outro financiar a industria militar norte-americana, que enfrenta uma profunda crise, com ganhos para o sector financeiro que controla o politburo de Bruxelas.

E esse aumento da despesa militar, não se iludam, só pode ser conseguido à custa do “Estado Social Europeu” e, por arrasto, à custa “da nossa liberdade, da nossa prosperidade e do nosso modo de vida”.

Nos próximos tempos o nosso espaço político, público e comunicacional vai ser invadido por muitos candidatos a “Oliveiras da Figueira”, para nos vender e convencer a comprar toda a tralha armamentista.


(1)O “elucidativo” “currículo” de Rutte, segundo o perfil publicado na Wikipedia:

“Os seus principais objectivos [do governo holandês]  eram cortar a despesa pública, especialmente nos cuidados de saúde, e isentar as grandes empresas de um imposto sobre dividendos, mas mais tarde abandonou-o. Declarou também que "não haverá mais dinheiro para a Grécia" e comprometeu-se a descriminalizar a negação do Holocausto, embora também tenha renunciado a isso.

No contexto da pandemia de COVID-19, opôs-se a que a UE organizasse ajuda financeira aos países mais afectados, antes de aderir sob pressão dos seus aliados europeus.

O seu governo foi criticado em 2020 num relatório parlamentar, num escândalo de bem-estar. Determinados a combater possíveis fraudes, os serviços estatais retiraram benefícios às famílias que a eles tinham direito, enquanto que etnicamente traçavam o perfil dos beneficiários. Cerca de 26.000 famílias perderam injustamente estes benefícios entre 2011 e 2019, de acordo com o relatório, e em alguns casos tiveram de reembolsar os montantes recebidos. Enquanto a esquerda radical e os ambientalistas, alarmados pelos apelos dos pais, apelaram sem êxito a uma investigação já em 2014, os partidos no poder há muito que ignoram a questão. Políticos seniores, incluindo vários ministros em exercício, são acusados de terem optado por fazer vista grossa a disfunções de que tinham conhecimento”.

terça-feira, 14 de novembro de 2023

Demita-se!


No passado Sábado o insuspeito António Barreto escrevia nas páginas do jornal Público:

“(…) Circulam nos jornais, nas televisões e nas redes sociais centenas de transcrições de interrogatórios, de declarações, de despachos confidenciais e de escutas telefónicas. A procuradora-geral da República utiliza formas sibilinas e estranhas à clareza do direito e do respeito pela dignidade das pessoas, com o que desencadeia uma crise política sem precedentes. Se não tiver razão, deve ser banida e afastada [sublinhado nosso].Se tiver razão, tem de mudar de estilo, dado que o actual não é próprio da democracia e da justiça”.

No Domingo a ex-directora do Deparetamento Central de Investigação a Acção Penal, Cândida Almeida criticava igualmente a actuação do Ministério Público liderado pela PGR : "rompendo com todas as normas deontológicas, algu´m informou  a imprensa da existência  do inquérito, não obstante sem suspeitas ou arguidos constituídos", acrescentando que a "justiça da praça pública serve interesses ocultos e entusiasma os pretensiosos e os ignorantes" (Público de 14 de Novembro).

Mais depressa do que se previa, descobriu-se que, o António Costa do comunicado da procuradoria, que a foi a causa da demissão de um governo de maioria absoluta, eleito há pouco mais de um ano, não era o primeiro-ministro.

Entretanto os tribunais não conseguiram provar as acusações mais graves contra os arguidos.

Não ponho as mãos no lume pela maioria desses arguidos, mas quem saiu mal disto tudo foi a justiça e o Ministério Público e, principalmente, a referida Procuradora Geral da República.

Mais uma vez as fugas selectivas de informação para a comunicação social, desta vez, para além de descontextualizadas, mal transcritas, destroem processos de combate à corrupção, lançando no lamaçal presumíveis inocentes ou complicando e arrastando processos de combate à corrupção, que acabam na prescrição ou esquecimento, beneficiando os verdaeiros culpados .

Já agora, investigue-se a origem das fugas ilegais de informação que partem do interior so Ministério Público, esse, sim, um grabe crime de "lesa democracia" e que corroe a confiança na própria justiça.

A responsável máxima por tanta incompetência, que está a ferir de morte a democracia e o Estado de Direito, é a Procuradora Geral da República.

Se lhe restar algum pingo de dignidade e responsabilidade deve seguir a recomendação de António Barreto: Demita-se!

quarta-feira, 24 de maio de 2023

"A Europa foi cumplice da cliptocracia russa"

(oligarcas russos com negócios em Portugal)

Delia Ferreira, a argentina que preside à organização  "Transparencia Internacional", denuncia AQUI, no jornal El País, a complacência das autoridades europeias para com os oligarcas russos, benificiando igualmente das relações com a China e os capitais deste país.

(É possivel que, não tendo uma assinatura do jornal espanhol,  não seja possivel ler o artigo, mas o título fala por si).

De facto, seria bom investigar quem andou a beneficiar e a alimentar os oligarcas russos e a beneficiar dos negócios chineses (podendo acrescentar, por cá, os angolanos...). 

Provávelmemte, numa invetigação levada até às últimas consequências, teriamos muitas surpresas!!!

Claro que chamar "oligarcas" apenas aos criminosos vindos do leste é redutor.

 Os tão "adorados" "mercados" deste lado são o sinónimo de "oligarcas" para os criminosos do mundo financeiro, do lado ocidental, protegidos pela srª Lagarde do BCE e pelos burocratas de Bruxelas.

E será bom que os oligarcas russos, que alimentam a guerra ilegal e criminosa de Putin, não venham, no futuro, a ser substiudos por "oligarcas" ucranianos, como acontece por cá (conforme já foi denunciado pelo jornal Tal & Qual, em meados do ano passado). Basta fazer uma visita aos estacionamentos no aeroporto de Lisboa, ou circular por Cascais,  para ver quais são os carros de matricula ucraniana, a maior parte topos de gama, pertencentes a esses "novos" oligarcas que, tal como a máfia, ocupam agora o lugar deixado pelos russos (ver AQUI quem eram, ou ainda são, alguns dos mais importantes oligarcas russos com negócios em Portugal). 

sexta-feira, 5 de novembro de 2021

Os Cães de João Rendeiro


Li por aí (Ana Cristina Leonardo, na sua crónica de hoje do suplemento ípsilon) que, no casarão do fugitivo banqueiro João Rendeiro, (que roubava aos ricos para dar aos…ainda mais ricos), vivem três “pobres” cães, uma cadela yorkshire terrier, uma schnauzer e um rafeiro encontrado na rua.

Esses três canídeos pareciam ter sido bafejados pela sorte de viverem numa casa farta e espaçosa…a não ser que fossem meras “peças decorativas”, para mostrar a amigos ou afugentar indesejáveis, amarrados a uma casota ou presos num canil do quintal, sem autorização para frequentar o casarão da família dos multimilionários…ladrões!

Desconheço a história real dos animais e os seus dramas “pessoais”, mas fico a pensar que, nos “grandes” dramas humanos, a sorte desses companheiros de quatro patas é rapidamente esquecida, passando despercebida aos focos da comunicação social.

Não sei se as autoridades, quando prendem os criminosos em suas casas, têm a preocupação de resgatar e tratar dignamente os companheiros de quatro patas que aí habitam, alheados da natureza dos seus donos (e não é porque sofrem de alzheimer…), muitas vezes os únicos seres vivos honestos que as habitam, ou se, pelo contrário, os abandonam à sua sorte, como últimas vítimas inocentes dos actos criminosos dos seus donos.

Pode ser que algum vizinho do luxoso condomínio de Alcabideche, referido, porque sempre dá mais estatuto do que aquele topónimo que remete para a origem saloia do lugar, como “situado nos arredores de Cascais”, se condoía com o destino desses animais, para quem se previa um futuro risonho, mas agora ficam privados da companhia dos donos, um em fuga, outro em prisão preventiva.

É o que se chama “ver a vida a andar para trás” ou, como se costuma dizer, porque um cão não escolhe os donos que lhe canham na rifa, “até para ser cão é preciso ter sorte”!

...e esses, "pensando" que tinham tido sorte...tiveram azar!!!

segunda-feira, 12 de abril de 2021

A Corrupção é “um lugar estranho”.

 


A leitura da decisão instrutória da “Operação Marquês”, ao contrário do que uma opinião apressada, ignorante, tendenciosa e cega pode fazer crer, foi uma autêntica lição sobre a forma como a grande corrupção em Portugal funciona e como a nossa lei e a  nossa justiça se mostram incapazes de a combater eficazmente.

Mostra também que aquilo que qualquer cidadão comum, gozando de plenas capacidades mentais, identifica como corrupção, está, muitas vezes, protegido pela lei ou pela impossibilidade da prova.

Muito do que consideramos como eticamente reprovável, vulgo “corrupção”, é “apenas” isso, eticamente reprovável, mas está  protegido pela lei ou pelo silêncio.

Aliás, a grande corrupção não é mais nem menos que a “ética do capitalismo” e da “economia de mercado”.

Como diz a voz popular, uma grande fortuna esconde um grande crime.

Olhando para a história do capitalismo, este desenvolveu-se, ao longo dos seus vários séculos de história, com base nos crimes mais hediondos: na pirataria e no saque da propriedade e dos recursos alheios, no esclavagismo, no genocídio, no crime organizado, na guerra, na destruição dos ecossistemas e, mais recentemente, no branqueamento de capitais, na fuga aos impostos, nos negócios de armamento e da droga.

A dificuldade em seguir as movimentações de dinheiro , obtido pela corrupção, agravou-se pela   forma como funciona a globalização e a circulação de capitais, e pela forma como o poder financeiro está, há muito, contaminado pela origem duvidosa da maior parte dos seu capital (branqueamento de capitais oriundo do crime organizado, da especulação financeira , da fuga de impostos, do negócio ilegal de armamento, alimento do terrorismo internacional e de regimes criminosos…), pela manutenção de paraísos fiscais, não deixando de ser “surpreendente” que a própria União Europeia, sempre pronta ao discurso “politicamente correcto” do “ataque à corrupção”, permita a existência, no seu seio, desses mesmos paraísos fiscais, como acontece, por exemplo, com a Holanda, cujos governos estão sempre prontos a defender a retirada de direitos socias aos países pobres da UE e a defender a austeridade dos outros, mas que é um país historicamente fundado nos lucros da pirataria, do esclavagismo e do colonialismo, devendo , actualmente, a sua prosperidade económica à forma como protege as grandes empresas de pagarem impostos no território onde operam, prejudicando países como Portugal. Mas não é caso único no seio da UE.

Infelizmente, as “alternativas” históricas ao modelo capitalista mostraram-se tão criminosas como este, nalguns casos ainda mais corruptas e desumanas.

Uma outra vantagem deste processo é mostrar que, apesar de tudo, a forma como a democracia enfrenta este tema da corrupção é sempre superior ao de qualquer ditadura. Pelo menos os cidadãos sabem agora com que justiça contam e podem agora exercer, com mais coerência, o seu direito de cidadania, que é o de exigir alterações na lei, principalmente no que respeita à obtenção de provas, na alteração ao escandaloso arrastamento dos processos e  ao ignóbil principio da “prescrição” da prova.

Acima de tudo, o cidadão tem o dever de não pactuar com a corrupção, que começa nos actos mais simples do dia a dia e termina no favorecimento de fortunas ilícitas.

Muitos dirão, do alto da sua ignorância e da sua intolerância, que na “ditadura” não havia corrupção.

“Não havia” porque não se podia falar nela, sob ameaça da censura ou de prisão, para além dos corruptos serem protegidos pelo poder, com leis, tribunais e uma polícia politica que obrigava ao silêncio

Mas a ditadura, qualquer uma, é a pior de todas as corrupções, que é a usurpação do poder sobre um país ou um povo, em benefício de uma pessoa, de uma elite, de uma religião, de uma ideologia, de  uma classe ou de um partido.

Por isso, apesar de a decisão instrutória da “Operação Marquês” poder não ser o que esperávamos, embora a história ainda não tenha terminado, ela teve o condão de nos alertar sobre os “caminhos da corrupção”, para as limitações da lei e da justiça no combate à grande corrupção, e para a necessidade de estarmos todos muito mais atentos ao que se passa à nossa volta.

Agora é a vez da cidadania.

terça-feira, 7 de julho de 2020

Holandeses, Algarve, copos e festas.



Afinal, o repugnante ex-presidente do eurogrupo e ex-ministro das finanças da Holanda, de nome impronunciável, quando falava na vida de “copos e festas” nos países do sul, não se referia aos “indígenas”, mas ao comportamento dos holandeses (… e de ingleses e alemães, podemos acrescentar…), de férias nesses países, como vimos agora no Algarve, falando   talvez por experiência própria.

Admira-me é que a Holanda, um dos países com piores resultados no combate ao Covid-19, não esteja numa lista negra do turismo internacional e os seus cidadãos possam viajar à vontade pelos países do sul , ainda por cima sem respeitarem as regras impostas aos cidadãos desses países.

Ser rico continua a permitir comportamentos acima da lei, no espaço europeu, por parte dos cidadãos desses países, embora a origem da riqueza holandesa seja mais que suspeita, com origem nas máfias financeiras e no desvio de impostos devidos por grandes empresas aos países do sul da Europa, através de um fraudulento sistema de off-shores .

O sucessor, igualmente repugnante, daquele ministro das finanças do governo holandês, propôs, no início da pandemia, e quando as coisas ainda corriam bem no seu país, que se investigassem as dificuldades dos países do sul em combater a epidemia.

Agora, que a Holanda foi dos países com piores resultados, e perante o comportamento irresponsável dos seus cidadão  no estrangeiro, talvez fosse de investigar o próprio comportamento e exemplo dado pelo governo holandês e a sua responsabilidade...na irresponsabilidade dos seus cidadãos!

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Isabel dos Santos; de ponta do "iceberg" da actuação do sistema financeiro neoliberal, a “peão” sacrificado pela "máfia" financeira de Davos.



Não deixa de ser curioso aparecer por aí tanta gente que só agora descobriu que a fortuna de Isabel dos Santos foi construída na corrupção e à custa da miséria da população angolana.

Ainda não há muito tempo a dita senhora era endeusada pelo jornalismo económico, pelo sector económico e por grande parte da classe política do centrão.

Sobre o que está em causa, leia-se AQUI a reportagem do Diário de Notícias.

Quando, no tempo de Sócrates e da “troika”, muitas empresas precisaram do seu dinheiro para se salvarem, nunca perguntaram a origem desse dinheiro.

Quando muitos políticos desempregados arranjaram emprego à custa de empresas financiadas por Isabel dos Santos, também nenhum se interrogou sobre o financiamento das ditas empresas.

O caso mais emblemático é o caso do Banco Eurobic. Fundado tendo por base a nacionalização e posterior privatização de um outro banco falido, o ministro que tomou a decisão, Teixeira dos Santos, é hoje o presidente desse banco “criado” com capitais de Isabel dos Santos. Nas origens do banco esteve outro tubarão da política financeira do centrão, Mira Amaral (leia-se, a propósito, o seguinte artigo, escrito AQUI já há dois anos).

Já agora, para memória futura, registem-se aqui algumas empresas, uma já extintas, outras não, que estiveram na base ou beneficiaram (ou contribuíram para) da fortuna e da influência política de Isabel dos Santos:

- Sonangol ;
- Santoro;
- GALP;
- Banco BIC, hoje EuroBic;
- Angola Diamond Corporation;
- Terra Verde (agropecuária);
- IDUKA, agência imobiliária em Braga;
- Unicer;
- etc, etc, etc,……

Detém ainda uma parte do jornal “Sol”.


(Fonte: Diário de Notícias) 


Convém ainda recordar que o investimento de Isabel dos Santos e das “suas” empresas em Portugal, iniciado com Durão Baroso, mas que conheceu um boom na era Sócrates, contou com a “colaboração” de empresas como a corticeira Amorim, a Amorim Energia,  o extinto Banco Espírito Santo, a rex-PT,  a NOS, a Mota-Engil,  a CGD , a Galp, o BCP, o Santander, a Sonae, a Efacec…

Entre os “quadros” que em Portugal beneficiaram ou ajudaram a influência política e financeira de Isabel dos Santos, encontram-se nomes, alguns entretanto “reformados”, como o ex-ministro do PSD Mira Amaral,  António Monteiro, Tavares Moreira, outra figura do PSD, ou António Pires de Lima, figura de destaque no CDS e nos tempos da “Troika”.

Leia-se, a propósito, este  artigo sobre  "os laços de Isabel dos Santos com a elite económica portuguesa".

Caída em desgraça, muitos dos mafiosos, que beneficiaram e promovem as mesmas práticas de fuga a impostos, lavagem de dinheiro e compadrio político-financeiro, como  os vampiros de Davos, vieram agora, apressadamente, tirar-lhe o tapete.

Um dos casos mais significativos foi a da consultadoria PWC que, durante anos andou a legitimar os negócios de Isabel dos Santos e que agora se apressa a cortar relações com ela. Se eu fosse investidor, apressava-me a riscar essa empresa nas decisões dos “meus” negócios, pois, ou essa empresa foi conivente com a corrupção da empresária angolana ou, se não sabia de nada, é incompetente na sua área de negócio.

Muitos que agora batem com a porta nunca se preocuparam com a origem de tanta riqueza, apesar de tantos avisos ao longo do tempo.

No fundo, toda essa gente sabe que essa riqueza e o seu tipo de negócios só se constrói fugindo ao fisco, roubando populações inteiras, destruindo o ambiente, colocando dinheiro em off shores, traficando influências entre o mundo da política e da alta finança.

Enquanto tudo corre bem, gentalha como a Isabel dos Santos anda nas boas graças, até porque também deu dinheiro a muitos dos seus actuais detractores.

Mas a procissão ainda vai no adro.

Isabel dos Santos não roubou sozinha e, se ela cair, vai ser uma razia na banca portuguesa, nalgumas esferas políticas do centrão, em conhecidos escritórios de advogados, e em grandes empresas onde pontificam GEO’s de renome, muitos colocados nesses cargos pelos favores políticos que fizeram à dita senhora.

Também o Banco de Portugal e o Ministério Público vão sair chamuscados de toda esta situação, porque, ao longo do tempo, ignoraram o alerta de jornalistas, de alguns políticos, e muita gente.

Desconfia-se mesmo da conivência do Banco de Portugal e do Ministério Público, bem como de uma grande parte do sector financeiro em Portugal e na Europa, com a situação agora publicamente denunciada.

Ainda hoje ouvi uma comentadora de economia a "justificar"  Isabel dos Santos com a desculpa de que ela fez o que é normal fazer-se no sector financeiro por essa Europa fora, só sendo escandaloso porque envolve um país africano pobre.

A atitude dos mafiosos do Forum de Davos dá razão a essa jornalista.

De facto, o tipo de actuação de Isabel dos Santos é igual ao tipo de actuação do sector financeiro do sistema neoliberal: fugir ao controle e à regulamentação através do recurso a paraísos fiscais, envolver a classe política dos seus negócios, de modo a influenciarem as políticas financeiras, económicas, sociais e fiscais dos governos, e explorar e delapidar os recursos naturais do planeta, apesar dos custos sociais e ambientais.

Tal como a máfia, o poder financeiro mundial, representado no Forúm de Davos, tem de “eliminar” aqueles que, no seu meio, caiam em desgraças, para desviarem as atenções das suas malfeitorias e não caírem com eles.

Vai ser divertido ouvir e ler por aí alguns comentários de jornalistas e comentadores da área económica e financeira que sempre legitimaram os métodos de actuação que foram seguidos por Isabel dos Santos .

Aguardam-se cenas dos próximos capítulos.



terça-feira, 1 de outubro de 2019

Campanha Eleitoral : Existe mundo para lá de Tancos?



Vamos lá ver se percebi:

O assalto a paióis do exército era uma “actividade” “vulgar”, envolvendo muita gente desocupada, muitos antigos militares envolvidos no submundo do tráfico de armamento e noutros “tráficos”, com a “colaboração” ou conivência de gente da própria instituição militar.

Vários juízes do Ministério Público, entre eles Ivo Rosa, o mesmo que vai decidir sobre a “operação marquês”, foram avisados de que ía haver um importante assalto a Tancos, mas “desvalorizaram” as denuncias.

Naquela noite uma quantidade imensa de material militar foi “roubado” (ou convenientemente desviado?), sem que ninguém visse (???), Recorde-se, era uma grande quantidade de material, pesado, que precisava de uma sofisticada organização no transporte!!!

“Queimado” e pressionado pela tragédia recente do incêndios, o governo viu aí uma oportunidade para fazer um “brilharete”, tudo “fazendo” para recuperar as armas.

Assustados com o impacto da situação, os “ladrões” resolveram contactar alguém dentro da Polícia Judiciária Militar para simular a recuperação das armas, em troca de imunidade.

Ganhavam os “ladrões”, que escapavam da prisão, ganhava a PJM que fazia um brilharete, ganhava a instituição militar, que escapava ao ridículo da situação, ganhava o governo, principalmente o Ministério da Defesa,  que mostrava “serviço”.

Contudo algo correu mal nesta farsa e partir daqui tudo se complica e torna confuso. Eu próprio não sei bem como dar “continuação” a esta história.

Que o assunto deve ser investigado até ao fim, sem esquecer os verdadeiros ladrões, separando águas nas várias responsabilidades e levando ao desmantelar de uma prática de longa duração, como é o tráfico de armamento, todos concordamos.

Isso é uma coisa, outra coisa é o aproveitamento oportunista dessa situação como tema central de campanha eleitoral.

Uma campanha eleitoral deve fazer-se discutindo projectos e programas para o país, mostrando o que cada um faria de diferente se chegasse ao poder, em vez de se ficar pela exploração de casos de justiça e outros ainda mal esclarecidos.

Não se deve falar em Tancos? Deve-se. Mas este tema não se deve tornar no centro de uma campanha eleitoral que estava a correr melhor que outras, nos debates esclarecedores que se conseguiram fazer na comunicação social.

Não se pode admitir que o caso de Tancos se torne mais importante do que debater o que cada partido pensa sobre a urgência de medidas ambientais, num país onde a água começa a escassear, sobre a melhoria das condições de vida num país de salários baixos e trabalho precário, sobre o que se deve fazer para combater a corrupção que destrói uma parte considerável do rendimento do país, sobre  o que fazer na educação e na saúde, sectores em degradação acelerada, sobre como melhorar os transportes públicos, um sector em descalabro,  sobre a forma de “dar a volta” ao preocupante envelhecimento da população, sobre o grave e dramático problema do direito a uma habitação digna…e tanto mais.

Cada linha e cada frase que, a partir de agora, seja ocupado a discutir esse mal esclarecido caso de Tancos é menos uma oportunidade para discutir o que interessa para o futuro do país.

sexta-feira, 5 de julho de 2019

O Saco de Cavaco.


Para quem acreditava que “Cavaco Silva” e “Corupção” não podiam aparecer numa mesma frase, aí está a reportagem da revista Sábado desta semana para desmontar essa crença.

Pessoalmente só me surpreende que tal nunca tivesse vindo à luz do dia até hoje, até porque, casos como o do BPN, já demonstravam que havia algum fumo por detrás da aparente sorte de Cavaco  se ter escapado ao colapso do Banco dos seus amigos.

Agora o caso envolve o extinto BES, e um esquema de corrupção para financiar as candidaturas de Cavaco.

Só se surpreende com  a notícia quem nunca percebeu que o próprio “cavaquismo” é o “sistema” que está por detrás dos imensos esquemas de corrupção que envolvem conhecidos políticos do “centrão”, sendo Sócrates o elo mais fraco, “mera”  ponta do iceberg.

Desde os tempos de Cavaco que foi uma festança com fundos europeus, negociatas na construção civil, esquemas de compadrio nas privatizações, pornográfica mistura entre o mundo da alta finança e o mundo da politica, com o resultado que está à vista.

Só se espera que, mais uma vez, Cavaco não consiga escapar entre os pingos da chuva da corrupção que conduziu os portugueses à situação actual.

Aguardam-se cenas dos próximos capítulos.

terça-feira, 2 de julho de 2019

A “Casa do Horrores” – O Prédio Coutinho em Viana do Castelo.



O Prédio Coutinho é daqueles horrores que nunca devia ter acontecido em Portugal.

Infelizmente o Algarve e as grandes cidades de Portugal estão cheias de  horrores parecidos, mas a o Prédio Coutinho, em Viana do Castelo, destaca-se, pela sua localização e pela sua excepção naquela bela localidade.

O processo de demolição daquele crime urbanístico arrasta-se nos tribunais há pelo menos duas décadas, revelador do mau funcionamento dos nossos tribunais, e da ambiguidade das leis construídas por escritórios de advogados pagos a peso de ouro pelos contribuintes para gerarem tal tipo de leis.

Seria importante penalizar quem autorizou a construção daquele horror, que devia ser quem estava no banco dos réus  e quem devia pagar o realojamento dos moradores.

 Entre enganados, incautos e alguns, poucos, oportunistas, que procuram tirar proveito da situação, a vitimização mediática dos 9 “resistentes” só serve para desviar a atenção da verdadeira situação.

Ontem fiquei esclarecido sobre de que lado está a razão, quando ouvi que esses 9 moradores não querem sair daquele edifício horroroso porque acham que a indemnização de 200 mil euros (DUZENTOS MIL EUROS) ou, em alternativa, receberem outra moradia na cidade de Viana do Castelo, não lhes chega, porque, “está abaixo do preço do mercado”.

Pois dei-me ao trabalho de investigar e, no Distrito de Viana do Castelo, no site Imovirtual, encontrei mais de cinquenta páginas, muito mais de 500 habitações, a preço inferior aos tais 200 mil euros, a média a rondar os 100 mil euros , grande parte T3 e no centro da cidade, mas é possível encontrar vários T4 e T5 abaixo daquele preço.

Convém recordar que quase outras 300 famílias aceitaram a indemnização ou a saída para outra casa, o que demonstra que estamos perante um caso de teimosia oportunista que está a lesar o bem público.

E, já agora, gostava que me explicassem o propósito das bandeiras de Venezuela!!??

Espero que acabem de vez com aquele horror, até porque teria um poder persuasivo para outras construções do mesmo género.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

“Não há corrupção em Portugal” (!!??)… “só” (!!) corrupção ética!!??


O recente desfecho de alguns casos de tribunal, que envolvem figuras da vida politica nacional, é um mau prenuncio do estado da justiça portuguesa, mas também do estado da comunicação social e da classe politica, e representa uma grave machadada na credibilidade democrática.

Como cidadão, não me sinto convencido nem devidamente esclarecido sobre esses desfechos.

Mas algumas conclusões  posso tirar dessa onda de absolvições de casos mediáticos:

- aquilo que qualquer cidadão normal, que vive do seu trabalho, considera eticamente reprovável, afinal não é corrupção…porque é legal. Dá para perceber que quem faz as leis as faz para fomentar o que é reprovável eticamente e, em muitos casos, para proteger o que é perceptível como corrupção. Percebe-se assim a misturada entre escritórios de advogados , classe politica e grandes empresários…;

- o Ministério Público acusa antes de ter provas sólidas e, por incompetência ou conivência, ou ambas, antes de conseguir essas provas, prefere fomentar fugas de informação selectivas, que minam a credibilidade da justiça, contaminando a investigação e as provas e condenando  na praça pública antes de se chegar a julgamento, agindo conforme a conveniência política do momento: “ora agora acusamos políticos do PSD, ora agora acusamos políticos do PS”!!!;

- a comunicação social faz o servicinho sujo de toda essa gente, mais preocupada com audiências do que em investigar por conta própria os casos de que tem conhecimento, misturando,no mesmo saco, falsas suspeitas, muitas vezes por mera vingança politica e pessoal, dos verdadeiros casos de corrupção, sem separar o que é corrupção ética do que é legalmente condenável.

Apesar de toda essa areia atirada aos olhos do incauto cidadão, apesar da incompetência da justiça, há uma forma simples de perceber se os absolvidos são de facto criminosos ou não, mesmo que a lei os proteja:

- se eles, após serem absolvidos, processarem a comunicação social e a própria justiça e se baterem até ao fim por pedidos públicos de desculpa e pelas indemnizações devidas, de forma frontal e aberta, é porque de facto são inocentes. Não era isso que qualquer cidadão injustamente acusado faria?

- se, pelo contrário, se remeterem ao silêncio, então é porque têm mesmo alguma coisa a esconder e preferem não fazer ondas e contentar-se com a forma como se safaram de prestar contas à justiça, jogando com todos os sobre-refúgios de leis, criadas à medida pelos escritórios de advogados que lhe fornecem os mesmo advogados que os safam…

Situações como essas, pouco claras, sem certezas, que não convencem ninguém, só contribuem para minar o Estado de Direito e a Democracia e fomentar a demagogia das redes sociais e dos “coletes amarelos”.

Depois não se admirem se, um dia destes, um qualquer Bolsonaro bater à porta da democracia portuguesa!!

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

As Quatro doenças da democracia: Desigualdade,Déficit de Representatividade, Corrupção, Liberdade desvirtuada.



O rápido avanço da extrema direita populista e neofascista nos últimos anos tem explicação, em grande parte, pelos erros acumulados nas Democracias.

Entre esses erros estão as quatro doenças da Democracia: a desigualdade, o deficit de representatividade, a corrupção e a liberdade desvirtuada.

DESIGUALDADE

A forma como os regimes democráticos se deixaram dominar pelos grandes interesse financeiros, tomando decisões contra os cidadãos e fomentando o aumento de desigualdades como forma de destruir direitos socias e desvalorizar o factor trabalho, apenas para beneficiar aqueles interesses, afastou muitos cidadãos da participação democrática.

O melhor exemplo disso é  a prática das lideranças da União Europeia, pelo modo como tem lidado com a dívida e o deficit, ou das decisões de organismos como a Organização Mundial do Comércio, agindo a mando desses interesses e ignorando as situações socias que essas decisões acarretam, fomentando o dumping social.

Contudo, se os cidadãos se conformarem, a desigualdade continuará a aumentar ao ritmo daqueles interesses.

DEFICIT DE REPRESENTATIVIDADE

As imposições das organizações supranacionais, a maior parte delas não eleitas, sobrepondo-se à escolha democrática dos cidadãos, submetendo o grande “centrão” aos ditames dessas organizações, que obedecem apenas à logica financeira (o célebre TINA), ao retirar poder aos organismos directamente  eleitos, transformando os parlamentos e os partidos em meras organizações “colaboracionistas” com a situação imposta por essas organizações, leva os cidadãos, todos os dias prejudicados no seu dia-a-dia pelas decisões daquelas, a afastarem-se da participação democrática.

Se os cidadãos nãos e sentem representados, nos seus anseios, pelas instituições democráticas, passam a estar vulneráveis ao discurso demagógico, baseado no medo e na xenofobia, vinculado pelas organizações populistas e neofascistas, que defendem uma solução autoritária para “resolver” as preocupações dos cidadãos abandonados à sua sorte.

Contudo, o que esses movimentos defendem, mesmo que de forma disfarçada, é o aumento do controle do poder politico, retirando ainda mais aos cidadãos o direito de participação, quando chegarem ao poder (existem por aí muitos exemplos históricos que atestam esse resultado).

CORRUPÇÃO

A Corrupção é o grande cancro dos regimes democráticos.

Com uma classe politica que sobrevive à sombra do poder financeiro, transformados em meros joguetes daqueles interesse acima denunciados, transformada numa casta que circula entre o poder político ,  o poder financeiro e cargos nas instituições supranacionais nãos eleitas, o cidadão comum sente-se tentado pelo discurso fácil da “pureza” propagandeada pelos tais populistas, que encontram nessa temática terreno fértil para a sua demagogia.

Esquecem-se apenas de um “pormenor”. Nos regimes autoritários e nas ditaduras “não existe” corrupção porque, por um lado, a simples divulgação desta é proibida e censurada e os tribunais são controlados pelo poder executivo. E se isto não chegar, mudam as leis para tornar o que é corrupção em “legalidade”.

LIBERDADE DESVIRTUADA

Por último, mas não menos importante, o uso incontrolado da liberdade permitida pelas redes socias, onde se misturam verdades e mentiras, onde se aplica cada vez mais o velho slogan nazi segundo o qual uma mentira várias vezes mentira pode tornar-se verdade, aquilo que hoje se chama de  fake news, onde a “verdade” de um ignorante tem o mesmo peso que a verdade de um sábio, contribui para fazer passar, entranhando-se nas nossas atitudes  e opções, um discurso de intolerância, de desrespeito pelos adversários, de gritaria, de arrogância, as bases ideológicas onde assenta a construção de modelos autoritários.

Há quem diga que as arruaças,  que no anos trinta impuseram pelo medo os regimes autoritários de então,  foi substituído pelo discurso intolerante, violento e intimidatório que hoje domina os “debates” nas redes sociais.

A democracia está doente.

Os movimentos populistas e neofascistas renascem das cinzas explorando as fraquezas da democracia.

Mas, creiam, não existe solução fora da democracia.

Combater aqueles sintomas fora da democracia só os vais agravar.

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

O “Caso” Joana Marques Vidal



Anda por aí grande agitação nos meios políticos e na comunicação social sobre o fim do primeiro mandato de 6 anos da Procuradora Geral da República.

Toda a direita, à falta de propostas para o país, faz da recondução ou não da magistrada um caso a explorar politicamente, tal como o tinha feito com a tragédia dos incêndios.

O argumento é a e a forma como a magistrada enfrentou os “poderosos” e a sua “independência” face aos mesmos.

Objectivamente ninguém pode negar a competência da Drª Joana Marques Vidal como Procuradora Geral da República.

Em comparação com os dois procuradores que a antecederam, Souto Moura e Pinto Monteiro, ela, de facto, fez a diferença.

É verdade que não existe limite legal para a renovação do mandato de 6 anos. Cunha Rodrigues exerceu o mandato durante 16 anos.

É verdade que foi no seu mandato que avançaram os processos “Operação Marquês”, envolvendo um ex-primeiro ministro, José Sócrates, e várias figuras de destaque no mundo empresarial e financeiro, “Monte Branco”, envolvendo Ricardo Salgado e “Visto Gold”, envolvendo Miguel Macedo, ministro de Passos Coelho.

Mas não é verdade que antes dela não se tivessem iniciado e desenvolvido processo contra “poderosos”.

Entre muitos outros: “Caso Portucale”, envolvendo figuras do governo de Santa Lopes, processo julgado em 2010; “Caso Face Oculta”, envolvendo Armando Vara, entre outros, com julgamento iniciado em 2011 e com leitura de sentença em 2014;“Caso BPN”, envolvendo o núcleo duro do cavaquismo, iniciado em 2011 e julgado já neste mandato, em 2017.

Há até uma comparação que se pode fazer entre o “antes” e o “depois” de Joana Marques Vidal, que tem sido o arrastamento dos processos iniciados no seu mandato, as constantes fugas de informação que enchem manchetes na comunicação social, sendo mais rápido o julgamento público que o julgamento em tribunal.

É um facto que até agora ainda não foi condenado um dos únicos “poderosos”  afrontados por Joana Vidal, a não ser na praça pública, naquele que é um bom serviço prestado ao “populismo” nacional.

Por último, ainda não se ouviu a opinião da própria sobre a sua recondução, conhecendo-se apenas o que ela escreveu em 2013 e repetiu em2016, defendendo que o Procurador Geral da República apenas devia exercer um mandato porque a “passagem dos anos retira-nos a capacidade de distanciamento e de autocrítica relativamente à acção que vamos desenvolvendo” (sic).

Pela minha parte, como cidadão, pesando prós e contras, Joana Marques Vidal, se o quiser, deve renovar o seu mandato, mas se não for renovado, não virá nenhum mal ao mundo...

O resto “é só fumaça”!

quinta-feira, 10 de maio de 2018

A “Origem”



Quando é que começou esta onda de corrupção envolvendo políticos do “centrão” (ou do “arco do poder”)?

Vão lá atrás, às privatizações da banca e dos grandes sectores de actividade, feitas à pressa, em troca de favores (“eu dou-te o banco, tu dás-me um lugar para mim ou para um boy meu”). Investiguem os envolvidos, os grandes accionistas, os responsáveis pelas leis favoráveis feitas à medida, os “conselhos de administração” (havia um ministro de um governo PSD, hoje responsável por uma grande empresa de comunicações, que se gabava de administrar….13 empresas!!!!).

Vão lá atrás, ao início da chegada em “barda” dos fundos europeus, usados por “empresas” criadas à pressa por quem controlava o poder politico (o “cavaquista” logo à partida…mas outros se seguiram, culminando no “socratismo”…) e distribuído de acordo com leis feitas à medida, elaborada por conhecidos escritórios de advogados, onde trabalhavam ( e trabalham) conhecidas figuras da politica do “centrão”.

Vão lá atrás, às concessões de pontes e auto-estradas, às concessões Público-privadas, aos grandes eventos que desbarataram fundos europeus, vejam quem lucrou, quem administrou e geriu….

Vão lá atrás, ao mundo do futebol, a grande máquina de lavar dinheiro, onde circulam em promiscuidade conhecidos políticos, jornalistas, autarcas, dirigentes de associações profissionais….

Vão lá atrás, ao vasto mundo das autarquias, das empresas municipais, dos concursos feitos à medida de boys e girls, esse autêntico “centrão dos pequeninos”…

Vão lá atrás, aos boys e girls nomeados para as administrações públicas,  com salários e condições com que os verdadeiros funcionários públicos nem sonham…

Vão lá atrás, à história das universidade privadas e dos politécnicos, muitas delas feitas para empregar políticos no desempego, outras para “ajeitar” currículos de “jotinhas” candidatos à carreira politica...

Depois cruzem todos esses dados, todas as histórias de vida dessa gente, e talvez descubram que Sócrates é “apenas” uma gota no oceano.

Recentemente um estudo da CGTP mostrava que o salário mínimo em Portugal, se tivesse em conta a inflação e a produtividade, com base na realidade de 1974, devia estar hoje nos 1400 euros.

A diferença entre os 585 actuais e os 1400 onde devia estar, vão encontra-la no bolso daquela gente…

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Manuel Pinho, entre "promotor" do populismo e "coveiro" da democracia


Manuel Pinho é mais um que tem muito que explicar, (ver AQUI reportagem da Visão), contribuindo com mais um prego para o caixão da democracia e para promover o populismo, com o seu oportunismo e falta de vergonha cívica...é caso para dizer...com "amigos" destes o sistema democrático não precisa de inimigos...

Mas Manuel Pinho e o governo que o promoveu não são os únicos que devem uma explicação ao "povinho" (já para não falar no que terá de responder em tribunal) .

Ele é fruto dos tempos do “centrão” que “produziu”, primeiro à sombra do cavaquismo e depois do socratismo, casos como o BPN, o BPP,o BES, Caixa Geral de Depósitos, Tecnoforma, e tantos outros que nos conduziram à bancarrota e abriram caminho ao oportunismo populista do “ir além da Troika” do “passos-coelhismo”.

Deve-se a Pinho uma das frases mais escabrosas da história da democracia, quando, numa visita de negócios à China, apontou como uma das “vantagens” para se investir em Portugal a nossa “mão-de-obra barata”.

O tempo das negociatas entre banqueiros e políticos, e dos jogos de influência entre grandes empresários e ministros, que circulam do poder politico para o poder económico e vice-versa, com uma perninha como “visitor teacher” numa qualquer universidade, a quem devem favores e que forma as elites financeiras que nos conduziram à situação actual, deve ser definitivamente enterrado, para bem da democracia e para enterrar de vez o oportunismo populismo que se espalha como um vírus à sombra destes casos que, mais do que de politica, são casos de policia.

domingo, 22 de abril de 2018

A SIC ao serviço de …José Sócrates (!!!???).



Pela minha parte não tenho qualquer dúvida sobre a falta de ética de José Sócrates.

Também acredito que muitas das acusações que se conhecem contra ele são verdadeiras.

Sobre o que penso de José Sócrates, basta explora os nossos tags sob a designação de “anti-Sócrates”, publicado desde que este blog nasceu, em 2008.

Já me questiono é sobre a mediatização do caso.

Aquilo que vi nas reportagens da SIC não mostra nada de novo em relação ao que já se sabia.
A única diferença reside no apelo ao mais reles voyeurismo para aumentar audiências, explorando o mais abjecta tentação do populismo “anticorrupção”. Também já aqui desmascaramos esta tentação num nosso post anterior.

A única coisa de novo foi uma visita às casas de luxo onde viveu José Sócrates em Paris, facto conhecido, mas que agora ganha contornos de “casa dos segredos”.

A outra coisa foi assistir à divulgação ilegal dos interrogatórios, cujo conteúdo já era há muito conhecido, com a diferença que agora assistimos aos mesmos ao vivo, com se de uma telenovela se tratasse.

Aliás, uma jornalista gabava-se e assumia em directo, na SIC, a ilegalidade que cometeu, mas justificava-a com o “interesse público”.

Sempre detestei aqueles que justificam o mau-gosto, a mediocridade e a ilegalidade em nome daquilo que eles acham que é “O gosto do povo” ou como o “interesse público”, como se os jornalistas estivessem acima da lei…

Se, para mim, essas reportagem apenas serviram para aumentar audiências, num canal que atravessa graves dificuldades financeiras, para José Sócrates serviu para se agarrar à ilegalidade do acto e desacreditar a justiça, como já começou a fazer.

Pela minha parte, distingo três coisas: a antipatia que sempre nutri por José Sócrates; a corrupção ética dos actos de José Sócrates (não muito diferente de outros políticos do “centrão”); a necessidade de um julgamento honesto, transparente e fundamento sobre os actos de corrupção de que é acusado.

Não sendo comparável o tipo de ilegalidades de que é acusado José Sócrates que, a provarem-se, devem resultar em penalização exemplar, com o tipo de ilegalidades da SIC, ambas partem de uma mesma origem: a generalizada falta de ética que os envolve a todos, políticos acusados e jornalistas e, até ver, a própria justiça.

Quanto a mim, involuntariamente, ao gabar-se da ilegalidade da divulgação dos interrogatórios, cujas imagens só podem ter sido obtidas com a conivência dos juízes envolvidos, os jornalistas da SIC prestaram um bom serviço a José Sócrates.

Mesmo que esteja queimado politicamente, talvez Sócrates consiga safar os seus milhões e o seu estilo de vida, porque, agora quem fica em cheque é o próprio tribunal, que, além de ter de demonstrar que não pactuou com a ilegalidade da SIC, terá agora de apressar a investigação e o julgamento para mostrar que não resolveu facilitar a vida aos jornalistas porque se encontra num impasse no que se refere à prova dos crimes.

Seguem-se cenas dos próximos capítulos…