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sexta-feira, 21 de abril de 2017

O Daesh entra na campanha eleitoral em França


Os bandidos do Daesh são uns monstros, mas não são parvos.

Ontem à noite entraram na campanha eleitoral francesa.

Quando a candidatura da extrema-direita de Marine Le Pen começava a entra em queda livre, colocando-se já a hipótese de nem passar à segunda volta, o Daesh veio dar uma mãozinha à senhora.

A poucas horas das eleições, o Daesh vem reforçar a retórica de Le Pen e ajudá-la a chegar à segunda volta, isto se ela não ganhar logo à primeira, pois ainda existem 30% de indecisos e, por mim, não tenho muitas dúvidas que a maioria do indecisos não manifestam a sua intenção apenas por vergonha de se assumirem como apoiantes da extrema-direita.

Pela minha parte, se fosse francês, votava em Mélénchon, já que Macron e Fillon são “mais do mesmo”, e a Europa precisa de ideias novas e de mudar a ideologia “austeritária”, defendida pelo corrupto Fillon e pelo “Blair” francês, o sr. Macron.

Numa segunda volta, contra Le Pen, votaria contra ela, engolindo o sapo se for Macron, em qualquer candidato, menos se este for o sr. Fillon.

Neste caso votaria em branco pois, entre o racismo de Le Pen ou os programa anti-social e austeritário de Fillon…venha “o diabo e escolha”…

quinta-feira, 23 de março de 2017

A Banalização do Terror


A Europa foi, ontem, alvo de mais um ataque terrorista.

Londres foi desta vez o alvo, mas sentimos que este tipo de ataque, sem necessidade de grandes recursos, executado por um fanático isolado, pode acontecer em qualquer grande cidade da Europa e do mundo.

A repetição e sequência deste  tipo de ataques levante, desde logo, três questões: em primeiro lugar, o terrorismo corre o risco de se tornar uma coisa banal, com o qual temos de viver no dia a dia das grandes cidades; em segundo lugar, começa a ser questionável se o tipo de tratamento que a comunicação social dá a este tipo de actos terroristas não é ele mesmo gerador desse tipo de actos, pelo espectáculo feito à sua volta e pela capacidade de multiplicação de imitadores que o espectáculo pode provocar, pelo o desejo de “15 minutos de fama” e de visibilidade que essa actuação permite à causa jhiadista ou  à mera  irrelevância da vida de um louco solitário; em terceiro lugar a diferença de tratamento que se dá quando o ataque terrorista é em solo europeu ou vitima europeus  e ocidentais, em relação à pouca atenção que merece um ataque, por vezes muito mais violento ou mortífero, quando tem lugar, quase diárimanete, em África ou no Médio-Oriente e vitima “apenas” africanos e àrabes.

A publicidade é o principal objectivo desses actos de terror, e por isso era importante repensar a forma como esses acontecimentos são divulgados.

Um outro problema é todo um conjunto de questões que vou colocando aqui de cada vez que se repete mais um acto bárbaro como o que ensombrou ontem a cidade de Londres e que continuam sem resposta: quem financia o Daesh?; quem os arma?; como é possível que a internet continue a funcionra como centro de divulgação e recrutamento para a causa jhidaista? qual o papel de países como a Turquia, um país da NATO, e da Arábia Saudita, um aliado tradicional do “ocidente”, já para não falar no papel ambíguo de Israel, no meio de tudo isto?...

Em recente documentário exibido num canal por cabo, julgo que no “Odisseia”, levantava-se alguma ponta do véu, confirmando-se o papel da Turquia na canalização de matéria processada pelo “Estado Islâmico”, como o petróleo e o algodão, que estão na base de parte do seu financiamento, negócio com o qual lucram muitas empresas ocidentais ligadas o petróleo e à industria têxtil, não sendo de estranhar se todos nós, quando colocamos gasolina no carro ou compramos roupa não estamos indiretamente a financiar o Daesh.

… e já para não falar no envolvimento, directo ou indirecto, do sector financeiro mundial e da industria de armamento no “apoio” ao Daesh, como, noutros tempo ou noutras áreas geográficas, “apoiam” ditaduras e a degradação social, desde que o lucro fácil esteja garantido.

Por isso é bom que a repetição de actos terrorista não  nos levem a  banalizar esse mal e a deixar de tentar perceber e exigir saber quem está por detrás dessa gente.

Por agora, o populismo de extrema direita é o beneficiário mais visível da barbaridade desses actos…mas não é o único…

…Dêem menos espectáculo e investiguem mais, senhores jornalistas!!

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

O respigo da Semana : Nato, Libia, Refugiados e Mentiras


Para o “respigo” desta semana escolhemos a última crónica de Alexandra Lucas Coelho, uma arrebatante denuncia da hipocrisia do Ocidente na forma como tem tratado o drama dos refugiados :

“Mentiras de guerra, 235 mil à espera ou um pedaço da Lua
Por  Alexandra Lucas Coelho  
 In Público de 18/09/2016 - 07:30

 O Ocidente pode montar um confessionário para o pecado de desfazer países, fazer até fila. Entretanto, milhões de pessoas desses países que já não existem continuam a sonhar com um lugar que nunca existirá para eles chamado Europa”.

“1. A guerra da NATO na Líbia foi baseada em mentiras, levou ao caos e fortaleceu o ISIS, concluiu agora o parlamento inglês. Enquanto isso, na Líbia, a ONU contabilizava 235 mil refugiados de toda a África à espera de um barco para Itália, fora os que não se registaram. E um pedaço da Lua caído no deserto da Líbia podia ser comprado online. Um estado do mundo na rentrée sem sair da Líbia.

“2. 27°22.17'N 16°11.93'E. Pondo esta coordenada no google, fui dar a um ponto logo abaixo do território líbio controlado pelo ISIS neste momento. O lugar não tem nome no atlas local, mas caçadores de meteoritos baptizaram-no como Dar al Gani, para os íntimos, DaG. Um meteorito é todo o pedaço de cometa, asteróide ou planeta que cai na Terra. Pode, pois, cair em qualquer cabeça terráquea, embora não haja muitos certificados de ocorrências. Se tiver trinta toneladas, o que já aconteceu, não será difícil reconhecê-lo, mas há muitos fragmentos com gramas que só se localizam facilmente em lugares como Dar al Gani: um planalto antigo, de superfície clara, com baixo nível de erosão, aridez durante longos períodos de tempo, rápida eliminação de águas de superfície, ausência de ventos abrasivos com areia de quartzo, uma atmosfera química contrária à ferrugem. A clareza da superfície permite identificar de imediato a escuridão dos meteoritos, e todas as restantes condições permitem preservá-los. Isto, ao longo de 200 quilómetros de extensão por 60 de largura. Alguns dos meteoritos de Dar al Gani estão em museus mas muitos vão parar ao Mercado de Meteoritos, online. Fiquei a saber que isso existia quando esta semana recebi um mail com o título “Fragmento da Lua em leilão. Achei que fosse o anúncio de algum livro de poemas, mas era um “press release” de uma agência de comunicação, e dizia: “Está em leilão um meteorito encontrado em Dar al Gani, no deserto da Líbia, e analisado por uma instituição ligada à NASA, que confirma que a sua composição é semelhante à das amostras trazidos da Lua por Apollo 14 e Apollo 16.” Preço estimado: 8000 euros. Bastava seguir os links do próprio “press release” para perceber que não se tratava de todo o meteorito, que pesa 1425 gramas, e foi oficialmente baptizado DAG400, mas de um fragmento com 4,46 gramas. Esse fragmento é que tem um preço estimado até 8000 euros. Pesquisando um pouco mais no Mercado de Meteoritos arranjam-se uns fragmentos mais em conta. Vi um com 0,11 gramas por 160 dólares (0,11 gramas?) E para quem prefira os marcianos, também há, pelo menos por enquanto. Os que vi, vieram todos da Líbia muito antes da guerra de 2011, e da emergência do ISIS. Sobre o que se passa em Dar al Gani neste Verão, não tenho notícias. É possível que parte dos refugiados africanos que sobem até à Líbia tenham cruzado esse planalto coberto de fragmentos extraterrestres. Ou que o ISIS tenha percebido que podia pô-los a render, e tenha já o seu próprio mercado alternativo online.

“3. Todos aqueles africanos que já sobreviveram a perseguições e toda a espécie de violência concentram-se em Trípoli, Misrata, Benghazi, os portos da costa líbia, na esperança de enfiarem um colete laranja pelo pescoço e seguirem num bote até à Sicília, como 120 mil já fizeram só este ano, e mais de três mil não chegaram a fazer porque morreram. Entre Misrata e Benghazi há o porto de Sirte, mas esse não consta das rotas de fuga, é a base do ISIS para a sua luta pelo controlo das instalações petrolíferas da Líbia. E a Líbia é um paiol de armas esquartejado por vários poderes, sem solução à vista. Se no começo de 2011 alguém tivesse projectado o pior possível para 2016 não ia conseguir chegar a algo tão mau.

“4. O resultado da intervenção da NATO em 2011 foi “um colapso político e económico, guerra entre milícias e entre tribos, crises humanitárias e de migração, violações alargadas dos direitos humanos, a proliferação das armas do regime Kadhafi pela região e o crescimento do ISIS no Norte de África”, diz o relatório da Comissão de Negócios Estrangeiros do Parlamento do Reino Unido. Com uma maioria de deputados do Partido Conservador, o comité condena duramente a participação britânica na guerra, liderada então por David Cameron, mas aprovada de forma esmagadora por 557 deputados, contra 13. “Não encontrámos provas de que o governo tenha levado a cabo uma análise séria da natureza da rebelião [contra Kadhafi] na Líbia”, dizem agora esses mesmos deputados no relatório. “A estratégia do Reino Unido baseou-se em pressupostos erróneos e numa compreensão incompleta das informações”, não conseguindo “identificar que a ameaça [de Kadhafi] aos civis era exagerada e que os rebeldes incluíam um elemento islamista significativo”. Ou seja, a ideia de que Kadhafi se preparava para massacrar civis em Benghazi terá sido comprada pelos governos ocidentais aos rebeldes sem provas que a confirmassem, ao mesmo tempo que no meio desses rebeldes estavam os embriões de vários grupos extremistas, como o ISIS, que aproveitaram a guerra ocidental para fazerem base ali. O relatório também diz que a França tinha objectivos políticos e económicos, não humanitários, e que a rebelião não teria sido bem-sucedida sem a intervenção externa. Milhares morreram na sequência dessa intervenção (aliás aprovada pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas, em nome da protecção de civis) e centenas de milhares ficaram desalojados, transformando a Líbia num estado falhado.

“5. Talvez muitos dos 557 deputados britânicos que aprovaram a intervenção durmam melhor este Outono-Inverno, depois de baterem no peito em mea culpa, embora pelo relatório pareçam bater no peito alheio. O Ocidente pode mesmo montar um confessionário para o pecado de desfazer países, fazer até fila. Entretanto, milhões de pessoas desses países que já não existem continuam a sonhar com um lugar que nunca existirá para eles chamado Europa, e enquanto assim for, na melhor das hipóteses, ainda estarão vivos”.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Erdogan e a sua noite das facas longas


Confesso que quando comecei a acompanhar nas televisões o desenrolar da tentativa de golpe militar na Turquia, e perante a aparente desorientação dos militares golpistas, me recordei do “nosso” 25 de Novembro de 1975:

- Militares descontentes vinham para rua e eram de imediato dominados. No caso português, com o tempo,  percebeu-se que tinham caído numa armadilha e que estavam isolados, mesmo em relação aos sectores políticos de onde esperavam apoio e que, do lado dos vencedores, apenas se esperava um pretexto para agir a anular os sectores militares “esquerdistas” que impediam a “normalização” democrática.

Contudo, com o desenrolar dos acontecimentos do passado 15 de Julho, na Turquia, aquela comparação já não fazia sentido.

De facto, estávamos perante uma situação bem mais trágica e a comparação, se é possível fazê-la, era cada vez mais uma “repetição”, em circunstâncias e moldes diferentes, da célebre “Noite das Facas Longas” levada a cabo por Hitler em 1934.

Chegado recentemente ao poder, entalado entre a crescente influência das SA de Rohms, que pretendiam aprofundar a “revolução” nazi, e o desejo do presidente Hindenburg e do exército de “normalizar” a situação de agitação política que se vivia na Alemanha, Hiltler preparou uma forma de eliminar os sectores mais radicais do nazismo.

Foi assim que Hitler e os seus mais próximos colaboradores atraíram as SA a uma armadilha, forjando uma reunião das forças de Rohm, que davam a idéia de um golpe de estado em preparação contra o novo regime nazi, idéia que foi usada pela propaganda, liderada por Goebbels, como pretexto à “limpeza” que se seguiu.

Com o pretexto de que Rohm e outros líderes nazis que contestavam a “normalização” institucional do governo de Hitler preparavam uma tentativa de insurreição, apoiada pelo estrangeiro, Hitler iniciou uma profunda purga no próprio partido, ao mesmo tempo que reforçava a autoridade das SS e controlava o impulso “revolucionário” das SA.

Aproveitando a situação e o apoio do exército e do presidente Hindenburgo, Hitler alargou a purga a vários sectores da sociedade, eliminando outros rivais de sempre, como Grege Stasser, o fundador do partido nazi, mas alargando a “purga” a outros sectores, dos social-democratas aos comunistas, passando mesmo por sectores católicos.

O “golpe de Estado” das SA teve lugar na noite de 30 de Junho para 1 de Julho de 1934, mas, dias antes, veio a saber-se mais tarde, a 26 de Junho,  Goering e Himmler  haviam elaborado, a pedido de Hiler, uma lista de “inimigos” de Hitler e do partido nazi a eliminar e prender depois do “golpe”.

O efeito de tudo isso foi o reforço do poder de Hitler e o apoio, até aí hesitante, do presidente Hindenburgo, do exército, dos grandes industrias e do poder financeiro ao nazismo, com as consequências conhecidas.

Voltando à Turquia, o único aspecto positivo do malogrado golpe militar é o facto de provar que, pelo menos nos próximos tempos, já não há lugar para golpes de estado contra regimes apesar de tudo ainda “democráticos” (mesmo se uma democracia muito restrita).

Tudo o resto são más notícias.

É má noticia a hesitação do Ocidente, quer na condenação ao golpe (contrastando com a reacção que tiveram na Ucrânia), quer, posteriormente, na reacção ao oportunismo de Erdogan que procura usar o efeito da sua vitória para perseguir inimigos políticos e purgar o exército e o aparelho de Estado, aumentando o seu poder pessoal.

Por exemplo, é patética a recção da União Europeia, onde a comissária Frederica Mogherine fez o papel de “tótó”-mor, “ameaçando” a Turquia de não poder entrar na União Europeia. “ameaça” à qual o neo-ditador Erdogan respondeu mostrando que se está a “marimbar” para a União Europeia.

Só os burocratas do politburo de Bruxelas ainda acreditam que o projecto europeu, naquilo em que ele se transformou nas últimas duas décadas, cativa ou entusiasma seja quem for.

Se há alguém que está em condições de ameaçar a moribunda União Europeia é o próprio Erdogan, usando a “arma dos refugiados” e o seu “apoio” (embora velado e indirecto) ao “Estado Islâmico” (não terá sido por acaso que a primeira acção militar do exército turco após o golpe tenha sido um ataque aos curdos, os únicos que têm combatido eficazmente o Daesh).

A única ameaça que podia ter efeito sobre Erdogan era a das sanções económicas e militares, nomeadamente ameaçando-o com a retirada do país da NATO, se não respeitar a democracia, a liberdade e os direitos humanos.

Infelizmente existem muitos interesses financeiros e políticos do lado ocidental que temem incomodar, a não ser com a retórica balofa do costume, o novo “quase”-ditador da Turquia, uma má notícia para os sectores democráticos, laicos e liberais da Turquia mas também para a Europa no geral.

Apenas o Daesh se deve estar a rir disto tudo…                                                                                            

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Nice : Mais um dia de terror - Seria bom que não nos habituássemos.


O que aconteceu ontem em Nice não pode começar a ser encarado como algo normal nas nossas vidas. Tal seria dar a vitória de mão beijada aos inimigos declarados da humanidade, como o são os monstros do Daesh ( mas não são os únicos).

De cada vez que um ataque terrorista acontece, na Europa ou em qualquer outro lugar do mundo, devemos começar a  formular muitas perguntas:

- Qual a origem desta gente e deste ódio?

- Quem criou Bin Laden e o terrorismo islâmico?

- Quem destruiu os equilíbrios do Médio Oriente, com a invasão do Iraque e a destruição da Líbia e da Síria?

- Quem agravou as tensões internacionais retirando influência à ONU?

- Quem alimentou regimes como os da Arábia Saudita ou da Turquia que financiam e armam, directa ou indirectamente, o terrorismo islâmico?

- Quem foi condescendente com a forma como os palestinianos têm sido tratados por Israel?

- Quem atirou populações inteiras para ghettos na periferia das grandes cidades europeias?

- Quem arma e financia essa gente e a sua propaganda?

-Quem faz do terrorismo um espectáculo que reforça essa propaganda?

- Quem, no ocidente, beneficia politicamente com o terror?

- Porque é que um ocidental morto por um terrorista “vale” mais que um africano ou um asiático morto nas mesmas circunstâncias?

Encontrar respostas para essas perguntas e  encontrar soluções para as respostas é meio caminho andado para combater o Daesh e o terrorismo que ele fomenta.

Talvez por isso não se encontre solução, pois as respostas põem em causa muita gente e muitos interesses ocidentais, muitos dos quais repetem, descaradamente, a sua “condenação” desses vis atentados, mas são responsáveis pelas atitudes, políticas, culturais, sociais, económicas e  financeiras que fomentam actos tão bárbaros.

Aos cidadãos resta não deixarem que estes actos se tornem um hábito, procurando responder àquelas questões e apontando o dedo aos responsáveis…

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

O RESPIGO DA SEMANA - “Guerra ao ISIS? Talvez começar pelo namoro com a Arábia Saudita" por Alexandra Lucas Coelho

“Guerra ao ISIS? Talvez começar pelo namoro com a Arábia Saudita.

Por Alexandra Lucas Coelho, in Público de 29 de Novembro de 2015

George W. Bush com rei Abdullah em Abril de 2005 e François Hollande com o príncipe Salman bin Abdulaziz no início de 2015( REUTERS).

“1. Se algum estado multiplicou embriões que contribuíram para o “Estado Islâmico” foi a Arábia Saudita. E quem calou e consentiu estava no Texas em 2005 como hoje está em Paris. Em 2005, George W. Bush a beijar o rei Abdullah, de mãos dadas entre as flores. Em 2015, François Hollande e Manuel Valls desdobrando-se em contratos de milhões com o sucessor de Abdullah, a tal ponto que a imprensa francesa falou em “lua-de-mel”. O terror de estado saudita fez bastante pelo estado de terror de 2015, enquanto boa parte do dito “Ocidente” calava e consentia. Obama esfriou o namoro, estendeu a mão ao Irão? Pois a Arábia Saudita achou que teria sempre Paris e sem deixar de cortar cabeças. O poeta e artista palestiniano Ashraf Fayadh, que está preso pelos sauditas há quase dois anos, é só o mais recente condenado à morte por “insultar Deus”, “renunciar ao islão”. Nada disso impediu que os negócios ocidentais com a Arábia Saudita prosperassem, entre armamento e fotos de família. Uma cumplicidade a que nenhum atentado contra alvos ocidentais pôs fim. Ao contrário, foi ver como no pós-11 de Setembro a Casa Branca protegeu o ninho saudita e depois invadiu o Iraque, que não tinha nada a ver com o assunto. Estive lá então, e voltei lá este ano, à “fronteira” que separa o “Estado Islâmico” do Curdistão, agora que a Síria está em ruínas, e o Iraque numa divisão fratricida: é esmagador ver como a força do “Estado Islâmico” veio de todos os erros cometidos desde aí, todos os maus jogos de xadrez. Então, para honrar os mortos e cuidar dos vivos, no luto do que aconteceu em Paris, o pós-13 de Novembro podia começar por aí, acabar este namoro complacente, exercer uma pressão real sobre a Arábia Saudita. Quem defende a vida em liberdade não pode ganhar dinheiro incondicionalmente com estados que fazem do extremismo o seu império, explorando centenas de milhões em África e no Oriente, enquanto se declaram contra o “Estado Islâmico”.

“2. Da Bósnia ao Paquistão, o dinheiro do petróleo saudita foi-se materializando em mesquitas, escolas corânicas, centros culturais, sites, jornais, que assim se tornavam frentes avançadas do wahhabismo, a corrente fundamentalista do sunismo imposta na Arábia Saudita. Uma colonização dos espíritos em territórios ultravulneráveis, devastados pela guerra, pela repressão ou pela miséria, prontos a ficar dependentes dessa protecção. Em muitos lugares, a alternativa é estudar nas madrassas pró-sauditas ou não estudar. Os cálculos de quanto foi gasto na exportação do wahhabismo variam entre 100 biliões e o dobro, ou seja, nem se alcança. Paralelamente, acima da arraia-miúda ou nos subterrâneos, passou todo o resto, petróleo, treino e arsenal. Mas não era segredo para ninguém, começando pelo círculo íntimo de Bush, o quanto a Arábia Saudita, através da família real ou de homens de negócios, financiava terroristas. Tanto que a administração Obama alterou as relações com Riad. Entre o material divulgado pela Wikileaks, a então secretária de Estado Hillary Clinton é citada dizendo que “doadores na Arábia Saudita constituem a mais importante fonte de financiamento de grupos terroristas sunitas no mundo”. Ou: “Temos de tomar mais medidas, visto que a Arábia Saudita continua a ser uma base financeira essencial para a Al-Qaeda, os taliban e outros grupos terroristas.” Nesta comunicações, Qatar, Kuwait e Emirados Árabes Unidos também são referidos como apoiando terroristas. Entretanto, rebentou a guerra na Síria, e tanto a Arábia Saudita como aliados ocidentais armaram rebeldes ou supostos rebeldes anti-Assad que se vieram a revelar jihadistas. Tudo isto são embriões do “Estado Islâmico”. Há um ano, o vice-presidente americano Joe Biden disse em Harvard: “Os nossos aliados na região eram o nosso maior problema na Síria. Os turcos eram grandes amigos […] e os sauditas, os Emirados, etc. Que estavam eles a fazer? A dar centenas de milhões de dólares e dezenas de toneladas de armas a quem quer que combatesse Assad. Só que essa gente que estava a ser equipada era da al-Nusra e da Al-Qaeda e de elementos extremistas da jihad vindos de várias partes do mundo.”

“3. No relatório sobre o 11 de Setembro, 28 páginas continuam secretas, enquanto ainda se arrasta o inquérito e os familiares das vítimas permanecem na dúvida. Um dos advogados das famílias, Sean Carter, disse em Agosto que “a natureza do apoio dos sauditas à Al-Qaeda continua a ser mantida em segredo, quando é referida num conjunto de documentos classificados”. De acordo com o antigo senador Bob Graham, essas 28 páginas “apontam um dedo muito forte à Arábia Saudita como o principal financiador” do 11 de Setembro. Graham acrescentou recentemente: “A Arábia Saudita não pôs fim ao seu interesse em espalhar wahhabismo extremista. O ISIS é um produto dos ideais sauditas, do dinheiro saudita e de apoio organizativo saudita, apesar de agora eles posarem como sendo muito anti-ISIS.”

“4. Ensaf Haidar (mulher do blogger saudita Raif Badawi, refugiada no Canadá porque a sua vida corria perigo) diz que “o Governo saudita se comporta como o Daesh [outro termo para ISIS ou “Estado Islâmico”]”. O seu marido continua preso por “apostasia”, ou seja, “renúncia ao islão”. Condenado a dez anos e mil chicotadas, o blogger já foi alvo de 50. É hipertenso, e a mulher teme que ele não sobreviva a nova série.

“5. O físico nuclear Yousaf Butt (consultor de segurança nacional, de Harvard a Londres, e comentador frequente, da Reuters ao Huffington Post) escreveu: “É razoável pensar que a Casa de Saud [família real saudita] é simplesmente uma versão mais implantada e diplomática do ISIS. Partilha o mesmo extremismo wahhabi teofascista, a falta de direitos humanos, a intolerância, as decapitações violentas, etc., mas com melhor construção e melhores estradas. Se o ISIS se tornar um verdadeiro estado, ao fim de décadas podemos imaginar que se parecerá com a Arábia Saudita.”

“6. E, já depois dos últimos atentados em Paris, um escritor magrebino fez-se ouvir com contundência, num artigo a 20 de Novembro no New York Times, intitulado Saudi Arabia, an ISIS that has made it (Arábia Saudita, um ISIS bem-sucedido). Chama-se Kamel Daoud e tem o peso de ter ganho este ano o Prémio Goncourt/Primeiro Romance. Depois de equiparar Arábia Saudita e ISIS, Daoud resume: “Na sua luta contra o terrorismo, o Ocidente declara guerra a um mas aperta a mão ao outro.” Um “mecanismo de negação” que fecha os olhos às consequências: “O wahhabismo, um radicalismo messiânico que surgiu no século XVIII, espera restaurar um califado fantasioso centrado num deserto, um livro sagrado e dois lugares santos, Meca e Medina. Fundado no massacre e no sangue, manifesta-se numa relação surreal com as mulheres, a proibição de não-muçulmanos atravessarem os territórios sagrados e leis religiosas ferozes. Isso traduz-se num ódio obsessivo da imagem e da representação, e portanto da arte, mas também do corpo, da nudez, da liberdade. A Arábia Saudita é um Daesh bem-sucedido.” Daoud descreve em seguida os efeitos da wahhabização no mundo muçulmano, de como isso distorce o islão e o “Ocidente”. E conclui: “Daesh tem uma mãe: a invasão do Iraque. Mas também tem um pai: a Arábia Saudita e o seu complexo religioso-industrial. Até que esse ponto seja percebido, batalhas podem ser ganhas, mas a guerra estará perdida. Jihadistas serão mortos para renascerem em gerações futuras e formados pelas mesmas cartilhas. Os ataques a Paris expuseram estas contradições outra vez, mas, tal como aconteceu depois do 11 de Setembro, isso corre o risco de ser apagado das nossas análises e consciências.”

“7. No mesmo dia, 20 de Novembro, Ben Norton escreveu na Salon que, apesar de tudo isto e do esfriar do namoro, “a administração Obama fez mais de 100 bilhões em negócios de armas com a monarquia saudita em apenas cinco anos”. E, “menos de três dias antes dos ataques de 13 de Novembro em Paris, os EUA venderam 1,3 bilhões de bombas à Arábia Saudita. O regime tem usado estas armas para grupos extremistas no Médio Oriente”. Ao mesmo tempo, os laços entre Paris e a Arábia Saudita (mas também o Qatar) foram fortalecidos com vários negócios. A França é um fornecedor de armas importante, e o petróleo do golfo é importante para a França. A França já é o terceiro maior investidor na Arábia Saudita e quer que os sauditas invistam em França. Há um mês, apenas, o primeiro-ministro Valls foi a Riad com cerca de 200 empresários franceses.


“8. Por ter aberto a cena artística saudita ao mundo, a condenação à morte de Ashraf Fayadh, decretada este mês por um “tribunal” saudita, gerou uma indignação alargada, e não apenas no circuito Tate Modern-Bienal de Veneza. Há uma petição de cem criadores árabes de vários países (Iémen, Omã, Egipto, Emirados, Arábia Saudita, Palestina, Iraque, Kuwait, Síria, Argélia, Bahrein, Marrocos, Líbano). Fayadh tem alguns dias para recorrer, mas não pode receber visitas e dificultam-lhe acesso a uma defesa. E na sobreposição de acusações, tanto pode ser morto pelo que alguém interpretou como renúncia ao islão num seu livro de poemas, como por usar cabelo comprido, guardar fotos de mulheres no telemóvel ou ter partilhado um vídeo em que a polícia religiosa saudita chicoteia um homem em público. Claro que a vida dentro do “Estado Islâmico” é ainda pior, e certamente o “Estado Islâmico” não obedece à Arábia Saudita, ao contrário, edipianamente, fez dela mais um dos seus alvos. Mas uma das raízes desta caixa de Pandora jihadista está em Riad, e era bom que a luta pela vida passasse por aí”.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Síria - Jornalismo do cidadão. "Estamos a arriscar as nossas vidas"


Em nome da verdade e da liberdade, jovens sírios arriscam a vida para fazer passar para o mudo notícias do que se passa no território do  autoproclamado "Estado Islâmico".

Uma luta perigosa e desigual contra aquele "Estado" terrorista.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Como se chocou o “Ovo da Serpente” do terrorismo islâmico?


O acto hediondo e cobarde perpetrado pelos terroristas em Paris na passada 6ª feira tem de ser, no imediato, esclarecido, combatido e condenado.

Mas, paralelamente, é importante que se procure perceber a origem e o desenvolvimento da combinação explosiva que gerou esta situação, sem esquecer as conivências directas e indirectas, os erros militares e políticos, as ligações financeiras e económicas que geraram o ovo da serpete do terrorismo islâmico internacional.

Ao mesmo tempo também, há que procurar uma solução imediata para um problema imediato que é a propagação do autoproclamado “Estado Islâmico” (para saber mais sobre o "Estado Islâmico" leiam AQUI).

Não chega um encadeado de adjectivações na conversa de políticos e comentadores para condenar o acto de Paris (seguido aliás de muito outros actos recentes do mesmo teor como o abate de um avião russo de passageiros no Egipto ou o sangrento atentado no Líbano, que, hipócrita e cinicamente, não mereceram a mesma veemente condenação que o atentado de Paris).

É preciso ir à origem do problema e apontar responsáveis, pelo menos para que esses não escapem impunes à veemente e legitima condenação do terrorismo islâmico que tem marcado este século.

O “ovo de serpente” foi sendo chocado desde a  década de 80, com o apoio e financiamento do Presidente norte-americano Ronald Reagan, que não teve então problemas em receber no seu gabinete os líderes talibans da época, aos radicais islâmicos do Afeganistão para combater os soviéticos, tendo dado origem ao nascimento da Al-Quaeda, financiada inicialmente pelo principal aliado dos Estados Unidos na região, a Arábia Saudita, e treinados e armados pela CIA.

Na Palestina, perante a crescente credibilidade da OLP, o governo de Israel apostou também no apoio clandestino a radicais islâmicos, que deram origem ao Hamas, para tentar retirar protagonismo à OLP e para descredibilizar a causa palestiniana.

Com o tempo, os criadores perderam o controle do monstro que criaram e o feitiço virou-se contra o feiticeiro.

Na década de 90 um novo conflito, a Guerra da Jugoslávia, voltou a fortalecer o radicalismo islâmico, com o apoio do ocidente, nomeadamente da NATO,  à Bósnia e ao Kosovo,  base do treino militar dos veteranos  islamitas, ainda hoje um dos principais focos de fornecimento clandestino de armamento aos radicais islâmicos na Europa, para além da guerra da Tchetchénia na Rússia que este país teve de resolver sozinho e com a desconfiança ocidental.

Mas o pior estava para vir, com os atentados do 11 de Setembro de 2001, ainda hoje com zonas por esclarecer e com a irresponsável reacção a esses terríveis atentados.

Um conjunto de líderes mundiais, que se reuniram nos Açores em 15 de Março de 2003, George W. Bush, Aznar, Durão Barroso e Tony Blair resolveram, de forma irresponsável, aproveitar a situação para , passando por cima da ONU, organização que a partir de então perdeu capacidade de intervenção, invadir o Iraque e lançar a ideia de impor a “democracia” pelas  forças das armas.

O que seguiu no Iraque é de todos conhecido: centenas de milhares de mortos civis, crescimento e disseminação do terrorismo islâmico, que encontrou no Iraque uma base de recrutamento e onde nasceu o “Estado Islâmico”.

Mas os erros do ocidente não se ficaram por aqui. Embandeirando em arco com a chamada Primavera árabe que teve início em 2010, não se limitaram a apoiar e fortalecer a revolta legítima na Tunísia e no Egipto, mas ganharam freio nos dentes e de forma irresponsável,  resolveram intervir militarmente para impor a vitória artificial desse movimento na Líbia e na Síria, mais preocupados em derrubar artificialmente dois ditadores de estimação, do que em saber quem ajudavam ou armavam.

E foi assim que teve origem o Estado Islâmico, em Junho de 2015, com acesso a armamento e financiamento do ocidente, de forma directa ou indirecta ( neste caso através do apoio da Arábia Saudita aos fundamentalistas sunitas da Síria).

Aliás, uma das questões que mais me intriga e para a qual até hoje ainda não vi resposta credível, é saber quem financia e quem arma esse autoproclamado Estado Islâmico.

Leio que eles conseguem financiar-se com a venda do petróleo e do saque de obras de arte e que se armam através de grupos “moderados”  que se opõem a Assad na Síria, “ingenuamente” armados pelo ocidente com o material mais moderno e sofisticado, e que acabam por cair nas mãos do ISIS.

Se houvesse vontade política era fácil, com os actuais e sofisticados  meios tecnológicos de espionagem, descobrir como funciona essa rede de financiamento. Por isso, e perante o silêncio sobre essa dúvida, só posso desconfiar que existe algo que se esconde por detrás do apoio ao ISIS.

Em primeiro lugar, parece-me que o ocidente visa , com  essa falta de esclarecimento, proteger o seu aliado na região, nomeadamente  a Arábia Saudita, que se desconfia ser o principal financiador desse bando bárbaro de terroristas .

Em segundo lugar, parece-me que os compradores de arte saqueada estão sedeados no ocidente, pois só estes terão meios financeiros e interesse nessas aquisições.

Em terceiro lugar, se houvesse vontade , também seria fácil seguir o rasto do petróleo vendido pelo ISIS, mas , para isso, era preciso atingir um dos principais lobbies da economia mundial, o energético.

Em quarto lugar, tocar no tráfico de armamento é pôr em causa um dos maiores negócios à escala mundial , que envolve muitos estados e políticos do ocidente .

Em quinto lugar, e por detrás de tudo isto, está um poder financeiro, cada vez mais poderoso, que vive da lavagem de dinheiro sujo, que, como se vê na Europa, controla o poder político e não tem uma réstea de humanidade.

Sem se tocar no negócio de armamento, no corrupto poder financeiros, nos interesses que movem a economia do petróleo, não se vai conseguir erradicar a influência do ISIS, mesmo que se consiga expulsá-los dos territórios ocupados.

Se juntarmos a tudo isto a situação económico-social explosiva em bairros de imigrantes , principalmente na França e na Bélgica, situação que se tem agravado nos últimos anos como reflexo da crise financeira, nomeadamente entre os jovens, onde grassa um  desemprego que, nesses bairros, atinge 40% desses jovens, o ISIS vai continuar a poder contar, na Europa, com um vasto campo de recrutamento para o seu campo e a sua estratégia de terror.

Para não agravar a situação, seria bom que, paralelamente à condenação firme do terrorismo, se combatesse o crescimento da xenofobia, que se vai aproveitar do medo para espalhar a sua mensagem de ódio.

Para já é necessário não confundir a situação dos refugiados da Síria, com o terrorismo. Aliás, esses refugiados estão na linha da frente como  vítimas do terrorismo islâmico e fogem daquilo a que assistimos agora em Paris e que, nas suas cidades ,nas suas ruas e nas suas aldeias, são uma realidade diária.

Por último é necessário que a comunidade internacional, no imediato, reactive o poder da ONU, destruído pela quarteto do Açores, e se una para combater o ISIS, distinguindo o inimigo principal , o “Estado Islâmico” , do inimigo  secundário, o ditador Assad.

Aqueles que gostam tanto de citar Churchill em defesa do derrube de ditadores como Assad, melhor fariam se percebessem a estratégia desse líder britânico, que, na sua época, percebeu que o inimigo principal a abater era Hitler e, para isso, não hesitou em aliar-se a Stalin.

O radicalismo islâmico é o “nazi-fascismo” do nosso tempo.

Aprendam com a história!

(este texto foi escrito de memória, sem consulta a fontes, mas esperemos  que sirva de base para uma reflexão sobre  o que está em causa na resposta que se  der a estes bárbaros actos terroristas, para além da retórica do momento).

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Andaremos nós, através da austeridade, a financiar o "estado islâmico"?

A pergunta é uma provocação, mas, se pensarmos bem, se calhar não está tão distante da realidade.

Uma questão sobre a qual  até hoje ainda não me sinto totalmente esclarecido, pelo menos desde o 11 de Setembro de 2001, é saber quem financia o terrorismo internacional.

E atrás dessa levantam-se outras questões.

Onde é que essa gente vai buscar o armamento pesado que utiliza?
Onde é que essa gente aprende a usar tão sofisticado armamento?
Onde é que essa gente consegue manter em funcionamento esse mesmo equipamento?
Como é que essa gente continua  a conseguir passar a sua mensagem através da comunicação social e da internet?
E como é que conseguem cativar jovens nascidos e criado no ocidente e obter tanto apoio popular?

Toda a gente sabe que os sucessivos erros do ocidente, alguns com origem histórica no colonialismo, contribuiram para engrossar as fileiras desses grupos e para a sua "legitimação" ideológica junto de tantas populações.

Também se sabe como as desastrosas intervenções na Jugoslávia, primeiro e, mais recentemente, no Iraque, na Líbia e na Síria, para além da forma como tem sido tratada a questão Palestiniana, e do problema da Tchetchenia, tanto contribuiram para fazer crescer a animosidade contra o ocidente (sim, a Rússia também é "ocidente") e aquilo que ele representa, ao mesmo tempo que contribuiram para disseminar os grupos terroristas no Médio Oriente, no Norte de África e até já em vastas zonas da Ásia e da África Negra.

A desvalorização que o ocidente acentuou do papel internacional da ONU, principalmente pela acção do presidente Bush filho, apoiado por Tony Blair e pela Comissão Europeia de Barroso, não é igualmente estranha à perigosa situação internacional que hoje se vive e pelo desrespeito crescente pelo convívio internacional baseado no direito e no respeito mútuo.

Mas nada disto responde totalmente às questões que acima colocámos.

Tem de haver, por detrás desse terrorismo internacional, um forte apoio financeiro. 

Sabe-se que parte desse apoio passa pela Arábia Saudita (a pátria de Bin Laden) e por outros estados árabes, "amigos" do ocidente, bem como pelo lobi do petróleo (não é estranho que, com o Médio Oriente mergulhado em guerra, se assista à queda do preço do petróleo?...não será que isso só seja possível porque o "estado islâmico" o coloca em grande quantidade e a baixo preço para se financiar e em troca de armamento???).

Mas, sem um sistema financeiro permissivo, que cativou e corrompeu os políticos ocidentais, desprovido de humanidade, sem respeito pelos direitos sociais, nunca seria possivel, ao "estado islâmico" e ao terrorismo internacional, financiarem-se do modo como o são.

E é aqui que reside o busilis do problema.

Tal como os portugueses já viram, porque o sofreram na pele nestes últimos anos, os efeitos desse sistema financeiro, também designado pelos propagandistas ao seu serviço por "mercados", é o total desrespeito pela  dignidade humana e pelos  direitos humanos, tratando as pessoas como lixo e movimentando-se livremente nos corredores do poder europeu.

Ao sistema financeiro pouco lhe interessa os meios para obter os seus lucros. O dinheiro é tudo, não lhe interessa a cor ou a origem....e nada dá mais lucro do que os negócios da droga e do armamento. Uma boa guerra é sempre uma garantia de lucro para os "mercados"!!!!

Mas, o mais grave, é que os cidadãos europeus têm sido convidados a prescindir dos seus direitos sociais e da sua dignidade de vida, a empobrecer, a serem privados dos seus salários e pensões, a pagarem impostos incomportáveis, para salvar esse mesmo sistema financeiro  que se alimenta da especulação, do branqueamento de dinheiro sujo (da droga, do armamento, da prostiuição, do tráfico humano, da mão-de-obra semi-escrava...) e dos lucros das negociatas com estados falidos como ...o "Estado Islâmico"!!!

E aqui regressamos ao principio e à provocação inicial. A austeridade que temos andado a pagar para salvar esse pouco recomendável sistema financeiro, não andará a pagar, mais ou meno directa ou indirectamente, aquele mesmo "Estado islâmico" e o Terrorismo internacional?

Ou, colocando melhor a questão: não será que os nossos cortes nos salários e nas pensões, o nosso empobrecimento colectivo, a nossa perda de direitos sociais, para agradar aos "mercados" , não andará,  directa ou indirectamente,  a financiar o terrorismo de que tanto nos queixamos?

Não esperem que a comunicação social responda a estas ou outras questões, pois aquela que conta, que tem os meios a as informações para uma tal investigação, e que nos controla os gostos e os valores ideológicos e fabrica as opiniões, está toda nas mãos desse mesmo poder financeiro.

Na falta de de uma informação independente para nos responder a essas dúvidas, resta-nos a ironia do mundo dos cartoonistas, que, exactamente por não ser levado a sério, denuncia sem complexos essa situação, como se pode comprovar pela selecção que em baixo deixámos: