segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Como se chocou o “Ovo da Serpente” do terrorismo islâmico?


O acto hediondo e cobarde perpetrado pelos terroristas em Paris na passada 6ª feira tem de ser, no imediato, esclarecido, combatido e condenado.

Mas, paralelamente, é importante que se procure perceber a origem e o desenvolvimento da combinação explosiva que gerou esta situação, sem esquecer as conivências directas e indirectas, os erros militares e políticos, as ligações financeiras e económicas que geraram o ovo da serpete do terrorismo islâmico internacional.

Ao mesmo tempo também, há que procurar uma solução imediata para um problema imediato que é a propagação do autoproclamado “Estado Islâmico” (para saber mais sobre o "Estado Islâmico" leiam AQUI).

Não chega um encadeado de adjectivações na conversa de políticos e comentadores para condenar o acto de Paris (seguido aliás de muito outros actos recentes do mesmo teor como o abate de um avião russo de passageiros no Egipto ou o sangrento atentado no Líbano, que, hipócrita e cinicamente, não mereceram a mesma veemente condenação que o atentado de Paris).

É preciso ir à origem do problema e apontar responsáveis, pelo menos para que esses não escapem impunes à veemente e legitima condenação do terrorismo islâmico que tem marcado este século.

O “ovo de serpente” foi sendo chocado desde a  década de 80, com o apoio e financiamento do Presidente norte-americano Ronald Reagan, que não teve então problemas em receber no seu gabinete os líderes talibans da época, aos radicais islâmicos do Afeganistão para combater os soviéticos, tendo dado origem ao nascimento da Al-Quaeda, financiada inicialmente pelo principal aliado dos Estados Unidos na região, a Arábia Saudita, e treinados e armados pela CIA.

Na Palestina, perante a crescente credibilidade da OLP, o governo de Israel apostou também no apoio clandestino a radicais islâmicos, que deram origem ao Hamas, para tentar retirar protagonismo à OLP e para descredibilizar a causa palestiniana.

Com o tempo, os criadores perderam o controle do monstro que criaram e o feitiço virou-se contra o feiticeiro.

Na década de 90 um novo conflito, a Guerra da Jugoslávia, voltou a fortalecer o radicalismo islâmico, com o apoio do ocidente, nomeadamente da NATO,  à Bósnia e ao Kosovo,  base do treino militar dos veteranos  islamitas, ainda hoje um dos principais focos de fornecimento clandestino de armamento aos radicais islâmicos na Europa, para além da guerra da Tchetchénia na Rússia que este país teve de resolver sozinho e com a desconfiança ocidental.

Mas o pior estava para vir, com os atentados do 11 de Setembro de 2001, ainda hoje com zonas por esclarecer e com a irresponsável reacção a esses terríveis atentados.

Um conjunto de líderes mundiais, que se reuniram nos Açores em 15 de Março de 2003, George W. Bush, Aznar, Durão Barroso e Tony Blair resolveram, de forma irresponsável, aproveitar a situação para , passando por cima da ONU, organização que a partir de então perdeu capacidade de intervenção, invadir o Iraque e lançar a ideia de impor a “democracia” pelas  forças das armas.

O que seguiu no Iraque é de todos conhecido: centenas de milhares de mortos civis, crescimento e disseminação do terrorismo islâmico, que encontrou no Iraque uma base de recrutamento e onde nasceu o “Estado Islâmico”.

Mas os erros do ocidente não se ficaram por aqui. Embandeirando em arco com a chamada Primavera árabe que teve início em 2010, não se limitaram a apoiar e fortalecer a revolta legítima na Tunísia e no Egipto, mas ganharam freio nos dentes e de forma irresponsável,  resolveram intervir militarmente para impor a vitória artificial desse movimento na Líbia e na Síria, mais preocupados em derrubar artificialmente dois ditadores de estimação, do que em saber quem ajudavam ou armavam.

E foi assim que teve origem o Estado Islâmico, em Junho de 2015, com acesso a armamento e financiamento do ocidente, de forma directa ou indirecta ( neste caso através do apoio da Arábia Saudita aos fundamentalistas sunitas da Síria).

Aliás, uma das questões que mais me intriga e para a qual até hoje ainda não vi resposta credível, é saber quem financia e quem arma esse autoproclamado Estado Islâmico.

Leio que eles conseguem financiar-se com a venda do petróleo e do saque de obras de arte e que se armam através de grupos “moderados”  que se opõem a Assad na Síria, “ingenuamente” armados pelo ocidente com o material mais moderno e sofisticado, e que acabam por cair nas mãos do ISIS.

Se houvesse vontade política era fácil, com os actuais e sofisticados  meios tecnológicos de espionagem, descobrir como funciona essa rede de financiamento. Por isso, e perante o silêncio sobre essa dúvida, só posso desconfiar que existe algo que se esconde por detrás do apoio ao ISIS.

Em primeiro lugar, parece-me que o ocidente visa , com  essa falta de esclarecimento, proteger o seu aliado na região, nomeadamente  a Arábia Saudita, que se desconfia ser o principal financiador desse bando bárbaro de terroristas .

Em segundo lugar, parece-me que os compradores de arte saqueada estão sedeados no ocidente, pois só estes terão meios financeiros e interesse nessas aquisições.

Em terceiro lugar, se houvesse vontade , também seria fácil seguir o rasto do petróleo vendido pelo ISIS, mas , para isso, era preciso atingir um dos principais lobbies da economia mundial, o energético.

Em quarto lugar, tocar no tráfico de armamento é pôr em causa um dos maiores negócios à escala mundial , que envolve muitos estados e políticos do ocidente .

Em quinto lugar, e por detrás de tudo isto, está um poder financeiro, cada vez mais poderoso, que vive da lavagem de dinheiro sujo, que, como se vê na Europa, controla o poder político e não tem uma réstea de humanidade.

Sem se tocar no negócio de armamento, no corrupto poder financeiros, nos interesses que movem a economia do petróleo, não se vai conseguir erradicar a influência do ISIS, mesmo que se consiga expulsá-los dos territórios ocupados.

Se juntarmos a tudo isto a situação económico-social explosiva em bairros de imigrantes , principalmente na França e na Bélgica, situação que se tem agravado nos últimos anos como reflexo da crise financeira, nomeadamente entre os jovens, onde grassa um  desemprego que, nesses bairros, atinge 40% desses jovens, o ISIS vai continuar a poder contar, na Europa, com um vasto campo de recrutamento para o seu campo e a sua estratégia de terror.

Para não agravar a situação, seria bom que, paralelamente à condenação firme do terrorismo, se combatesse o crescimento da xenofobia, que se vai aproveitar do medo para espalhar a sua mensagem de ódio.

Para já é necessário não confundir a situação dos refugiados da Síria, com o terrorismo. Aliás, esses refugiados estão na linha da frente como  vítimas do terrorismo islâmico e fogem daquilo a que assistimos agora em Paris e que, nas suas cidades ,nas suas ruas e nas suas aldeias, são uma realidade diária.

Por último é necessário que a comunidade internacional, no imediato, reactive o poder da ONU, destruído pela quarteto do Açores, e se una para combater o ISIS, distinguindo o inimigo principal , o “Estado Islâmico” , do inimigo  secundário, o ditador Assad.

Aqueles que gostam tanto de citar Churchill em defesa do derrube de ditadores como Assad, melhor fariam se percebessem a estratégia desse líder britânico, que, na sua época, percebeu que o inimigo principal a abater era Hitler e, para isso, não hesitou em aliar-se a Stalin.

O radicalismo islâmico é o “nazi-fascismo” do nosso tempo.

Aprendam com a história!

(este texto foi escrito de memória, sem consulta a fontes, mas esperemos  que sirva de base para uma reflexão sobre  o que está em causa na resposta que se  der a estes bárbaros actos terroristas, para além da retórica do momento).

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