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sexta-feira, 15 de outubro de 2021

Tragédias de um Orçamento.


Por vezes, interrogo-me se a actual geração de jornalistas estudou numa escola de jornalismo ou, se não terá estudado, antes, numa escola de produção de telenovelas!!!

A forma como se tem vindo a dramatizar a apresentação do próximo Orçamento de Estado, mais parece, de facto, uma telenovela do que um trabalho lúcido de informação, como seria de esperar por parte dos órgãos de comunicação social.

Ou talvez a escola seja a escola do ministro da propaganda nazi, Goebels, aliás um excelente professor para quem quer aprende como funcionam, eficazmente, a propaganda e a publicidade.

Uma das técnicas desta “escola” é aquela, segundo a qual, uma mentira várias vezes repetida se torna verdade, ou, adaptando aos dias de hoje, várias frases descontextualizadas e meias verdades repetidas até à exaustão e ampliadas pelo megafone de vários comentadores encartados, acaba por condicionar a própria realidade.

Aquilo que sempre foi perfeitamente normal na apresentação de orçamentos, em especial quando não há governos de maioria absoluta, como aconteceu em mais de 3/4 de governos democráticos, que é apresentar um projecto, que depois pode ser alterado após negociações, sempre duras, entre os partidos parlamentares, foi transformado numa novela tágico-cómica, como, aliás, se tem transformado qualquer caso e casinho nos últimos tempos.

O problema é quando esse ambiente de doidos,  criado por uma comunicação social ávida de escândalos e espectáculos para aumentar audiências, contamina a vida política dos partidos ditos “sérios”.

É ver o frenesim que reina nos partidos da direita tradicional, só com a possibilidade remota de voltarem ao poder nos próximos tempos (principalmente, o de controlarem os dinheios da "bauka", que é o que os move....).

Pode-se dizer que a direita anda com a pontaria desafinada, pois se alguém foi atingido pela agitação provocada à volta do Orçamento, não foi o orçamento, mas a liderança e o  interior dos próprios partidos de direita.

O aparecimento de dois candidatos, um no CDS, outro no PSD, ambos com experiência política e pessoas cultas, mas com um discurso extremista, fanaticamente ideológico e revanchista, não augura nada de bom para o futuro desses partidos, a não ser retirar campo de manobra à extrema-direita.

Se ambos ganharem a liderança desses partidos, o PS vai agradecer, pois o voto centrista vai fuigir desses partidos.

À esquerda espera-se, pelo contrário, bom senso. Para quem acha, dentro do BE e do PCP,  que estes perdem pelo facto de facilitarem a vida ao orçamento socialista, a realidade das últimas presidênciais e das autárquicas, aí está para o desmentir, ao contrário da falácia de algum jornalismo e de alguns comentadores, interessados em provocar o caos à esquerda.

Basta ver o que aconteceu a esses dois partidos à esquerda do PS, pelo facto de terem tomado decisões diferentes em relação ao último orçamento.

O BE, que votou contra o orçamento, pensando beneficiar à custa do PCP e do afastamento em relação ao PS, teve duas estrondosas derrotas nesses actos eleitorais, perdendo quase tudo o que tinha conquistado no tempo da geringonça.

Pelo contrário, o PCP, que aprovou o orçamento, tendo perdido alguma coisa, perdeu pouco, e aguentou-se, estabilizando dentro do histórico. Mesmo onde perdeu ou não conseguiu aumentar, como em Loures ou em Almada, continua uma força política considerável e com capacidade de  dar cartas por muito tempo.

No caso das presidênciais e das autárquicas em Lisboa, mais no segundo que no primeiro caso, até conseguiu um bom resultado com João Ferreira.

As perdas do PCP não se devem à sua “aliança” com o PS, mas a uma crise mais estrutural, de falta de renovação e de adaptação aos novos tempos. 

Foi, pelo contrário, a sua capacidade de negociação, ganha com a "geringonça", que travou a sua perda de influência e lhe pode dar, no futuro, um novo alento.

Espera-se, por isso, que à esquerda, ao contrário do frenesim que vai à direita, reine o bom senso.

Este Orçamento não é o ideal, se houver bom senso ainda pode ser aperfeiçoado nas negociações à esquerda, mas a alternativa é a realização de eleições antecipadas, que iriam beneficiar o PS (e o Chega), aprovando-se depois um orçamento menos social, e para o qual o PS, sentindo-se traido pela sua esquerda, seria tentado a negociar à direita, ou, na hipótese remota de uma vitória da direita, um orçamento revanchista, do ponto de vista social, e integrando o resto do “ir além da Troika” que não foi cumprido, com prejuízo para reformados, trabalhadores, pequenas e médias empresas, do país em geral.

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

A Vergonha da pobreza em Portugal( e na União Europeia).



Segundo os últimos números, mais de 17% dos portugueses vivem no limiar da pobreza, isto é, mais de 2 milhões!!!

Os números da pobreza em Portugal continuam a ser assustadores, para não dizer…vergonhosos!

Mais vergonhosos por esses números se referirem a um país da União Europeia e da zona euro.

Também vergonhosos, pelo facto de já se terem passado quase 45 anos após a implantação da democracia,  mais de 30 após a adesão à União Europeia e mais de 10 desde a implantação do euro, sem que número se reduza significativamente.

Ainda vergonhosos, quando esses números da pobreza coexistem no país da Expo98, do Euro 2004, onde os negócios do futebol envolvem milhões ou onde o Estado não se coíbe em salvar banqueiros com os milhões dos contribuintes.

Finalmente vergonhosos porque uma grande parte dos pobres portugueses trabalham, advindo a sua pobreza dos baixos salários que se pagam em Portugal.

Não deixa de ser igualmente significativo o título de quase todas a imprensa, tentando desvalorizar a gravidade da situação, dando realce à redução conjuntural daquela percentagem; “Risco de pobreza em Portugal é o mais baixo de sempre” (Diário de Notícias, título idêntico ao do Expresso e ao da Rádio Renascença), “Taxade pobreza e exclusão Baixou e Portugal alcançou a média da União Europeia” (Público, em vez de destacar a escandalosa média de União Europeia!!??)!!!

Claro que existe maior sensibilidade para o problema quando temos governos mais à esquerda, e nessas conjunturas aqueles índices conhecem alguma redução, mas essa é uma situação conjuntural. É fácil melhor esses números por comparação com os negros anos do "ir além da Troika" de Passos Coelho, mas não chega para combater eficazmente esse grave problema social.

É estranho que a divulgação desses números não provoque a mesma indignação, junto de comentadores, economistas, políticos  e burocratas de Bruxelas, que provoca qualquer aumento, ao nível da décima ou da centésima, do deficit!!!

Basta, aliás, ver a reacção que provocou, entre toda essa gente, o aumento miserável do já de si miserável ordenado mínimo que se paga em Portugal, comparando agora com a sua reacção à divulgação desses números .

E esses números estão muito aquém da realidade. “Apenas” são considerados pobres os que têm um rendimento inferior a 510 euros, quando se sabe que ninguém vive condignamente em Portugal com menos de mil euros, e mesmo assim com dificuldades para pagar as contas.

Aqueles números também não têm em conta a actual situação a nível do arrendamento, situação que agrava as condições de sobrevivência de quem vive com baixos rendimentos.

Mesmo para quem vive com menos de mil euros, a situação é diferente se tiver de pagar uma renda de 400 ou 500 euros, ou se vive em casa própria, se tem um problema grave de saúde, ou vive com saúde, se necessita ou não de transporte público para a sua vida ou se têm ou não familiares a seu encargo.

Se todos estes parâmetros fossem tomados em conta, aqueles números seriam bem mais elevados, no mínimo…para o dobro!

A Caridade pode ser uma panaceia conjuntural, que até pode servir para "limpar consciências, mas só medidas estruturais e consequentes, impostas pelo Estado, podem atenuar o problema



Sem se combater a precariedade no emprego, sem se aumentar pensões e salários, sem se aprofundar o Estado Social, nomeadamente a nível da saúde e da educação, sem uma intervenção forte na selvajaria do mercado de habitação, sem melhor o sistema de transportes públicos, nunca se vai conseguir reduzir a pobreza para níveis mínimos "aceitáveis" (abaixo de 5%).

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

O “irritante” salarial



Confesso que me dá um forte ataque de alergia e me provoca intensa comichão , cada vez que me deparo como os cometários de economistas, jornalistas/comentadores (ou serão comentadores/jornalistas?) ou políticos “liberais”, aos quais se juntam os burocratas de Bruxelas a falar do “escândalo” da subida do salário mínimo.

O primeiro irritante começa logo por saber que essa gente não sabe o que é viver com salário mínimo, nem mesmo com o salário médio.

Eu também não sei, mas tenho uma ideia, pois vivo com o dobro do mínimo e um pouco acima do médio, conheço gente que vive com o mínimo e sei da dificuldade para se chegar “intacto” ao fim do mês.

Penso que, de cada vez que alguém vem comentar o salário dos outros devia ser obrigado a publicar em legenda de rodapé, como declaração de interesse, qual é o seu salário ou rendimento ou, no mínimo, quanto recebe para fazer esses comentários (provavelmente mais que um salário mínimo por meia hora de comentários escandalosos!).

O segundo irritante, é ver tanta preocupação com o aumento do salário mínimo, por causa da “competitividade” e da “saúde da economia”, e tão pouca pelos milhões que saem para salvar as trafulhices da banca!!!

O terceiro irritante é que, com tanta preocupação com as “contas”, esqueceramm-se de fazer as contas.

Vamos a então a elas:

Por um trabalho não qualificado, como a da limpeza da casa, paga-se por aqui, há muito tempo, cerca de 5 euros à hora ( nos casos à minha volta varia entre os 6 e os 6 euros e meio por hora).

Dando de barato os 5 euros à hora  numa jornada de trabalho de 35 horas por semana, uma média de 21 dias de trabalho por mês, num total de 147 horas, isso daria 735 euros. Se fizermos as contas a 6 euros, daria 882 euros.

Essas contas estão por baixo, quer quanto ao valor de uma hora de trabalho não qualificado, quer em relação às 35 horas semanais, ou até aos 21 dias, pois excluímos Sábado e Domingos, situações que estão aquém da realidade, principalmente no sector privado.

Se existe algum escândalo, é no baixo valor do salário mínimo, que é o ordenado pago a quase 1 milhão de trabalhadores portugueses, situação que se agrava se tivermos em conta que cerca de metade do rendimento de quem trabalha é utilizado para pagar a habitação.

Sabendo nós a forma descontrolada, esta sim, verdadeiramente escandalosa, como têm subido os valores das rendas e da compra de imóveis nos últimos anos, dá para perceber, só por aqui, quais são as condições de vida, não só de quem vive com salário mínimo, mesmo que venha a aumentar para os valores que se anunciam, mas também de quem vive com ordenado médio e queira ocupar uma casa em condições.

Senhores economistas, senhores comentadores/jornalistas, senhores políticos “liberais”, os vossos comentários, esses sim, é que são um verdadeiro escândalo.

Continuem a alimentar  o “Joker” , e vão ver onde isto vai parar.

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Para acabar de vez com a situação de sem-abrigo



O Presidente da República voltou a alertar mais uma vez para a necessidade de resolver o vergonhoso problema da existência de tanta gente a viver nas ruas.

O que o Presidente não explicou foi que políticas defende para o fazer. Provavelmente não é ele que o tem de fazer.

A situação dos sem-abrigo em Portugal é um problema cujas causas e origens há muito que estão estudadas (ver AQUI e AQUI dois importantes estudos disponíveis, embora tenham sido elaborados há  mais de 10 anos).

Num estudo realizado pelo Instituto de Segurança Social feito em 2010, defendia-se o perfil do sem-abrigo como “homem” em idade activa, solteiro, com baixo nível escolar, vivendo do rendimento social de inserção.

A origem da degradante situação dessas pessoas residia no desemprego, na pobreza, em situações pessoais (alcoolismo,  pior que o consumo de droga, doenças mentais, conflitos familiares, principalmente a violência doméstica) e a dificuldade de acesso a instituições de saúde.

Esse conjunto de causas impedia os sem-abrigo de financiar um alojamento permanente.

Uma grande parte dessas pessoas, quase metade, vivem no distrito de Lisboa, e, destes, a maioria no concelho de Lisboa.

No principio deste ano a Câmara de Lisboa calculava que existiam cerca de 3 mil sem abrigo, dos quais cerca de 400 no concelho da capital.

Recentemente saiu a noticia que entre 2015 e 2017 o número de sem-abrigo no concelho de Lisboa teria sido reduzido em 50%. Recorde-se que, nos anos da Troika, chegaram a ser contabilizados mais de mil sem-abrigo no concelho de Lisboa.

Outro dado curioso é que os vários estudos revelam que 80% dessas pessoas são portugueses, desmentindo uma ideia feita que atribui à emigração a origem dessa situação.

Claro que o conceito de “sem-abrigo” não inclui outras situações degradantes, que se têm vindo a agravar desde os tempos da Troika ( ou do “ir além da Troika”) e desde a famigerada “lei Cristas” para a habitação.

São essas situações, que muitas vezes disfarçam a gravidade da real situação dos sem-abrigo, os “sem-casa”, isto é, aqueles que recorrem às casas abrigo ou a instituições, os que vivem em “habitações precárias”, ocupando espaços ilegalmente, abandonados em casa de amigos ou familiares, devido às dificuldades financeiras de manterem uma casa, os, a situação maioritária e nunca incluída nos números dos “sem-abrigo”, que vivem em “habitações inadequadas”, casas sem aquecimento, pequenas, velhas  e degradadas.

Se o Presidente quer ser consequente, assim como a ministra que o acompanhou na visita desta semana aos sem abrigo, só têm que agir no sentido de combater o desemprego e o emprego precário, reduzir a pobreza através da valorização salarial e das pensões, melhorar as ajudas socias e o acesso à saúde, em especial à mental, tomar medidas descomplexadas em relação ao consumo de drogas e ao combate ao alcoolismo, e, no topo de tudo, já que é um problema de direito à habitação, consagrado na Constiuição, que está na origem dos sem-abrigo, tomar medidas corajosas nesta área, como, por exemplo tabelar por lei as rendas de casa até ao T2 e combater a actual situação de total descontrole no sector da habitação.

Os estudos estão mais que feitos e as causas  detectadas .

Só é preciso ter coragem para avançar com medidas concretas…a não ser que se fique pela eterna caridadezinha, que remedeia no imediato, mas  adia a resolução dos problemas, embora limpe a consciência de muita gente!!

quinta-feira, 4 de julho de 2019

O Regresso dos “Mortos Vivos”


Passos Coelho voltou a aparecer em Público, para continuara a anunciar  a vinda do Diabo, desta vez num encontro em Leiria promovido por uma dessas organizações tenebrosas que procuram manter viva a chama da austeridade e o combate aos direitos sociais.

Chama-se essa organização “Fórum para a Competitividade” e é liderada por aquele que foi, até hoje, o mais reaccionário e retrógrado dirigente das associações patronais portuguesas, Ferraz da Costa.

Ainda recentemente, numa entrevista ao jornal I, Ferraz da Costa acusava os portugueses de não quererem trabalhar e tem defendido a redução dos salários e o aumento do horário de trabalho, embora não se conheça qualquer actividade laboral desse líder de uma das mais retrógradas e reaccionárias associações patronais, o tal Fórum para a Competitividade, a não ser que herdou uma importante empresa farmacêutica que lhe garante os rendimentos pessoais, esses sim, muito acima das possibilidade da maioria do trabalhadores portugueses.

Grande defensor do trabalho da Troika em Portugal, não admira que tal organização convide para os seus eventos Passos Coelho, que assim tem oportunidade de renascer das cinzas, agora de barba, provavelmente para que os portugueses se esqueçam do rosto de quem os andou a tramar nos anos da Troika e a salvar gente como o sr. Ferraz da Costa.

O discurso de Passos Coelho nesse encontro foi hoje desmontado eficazmente pelo jornalista Nicolau Santos na sua crónica da antena 1, que vale a pena ser ouvido aqui:

Contas do Dia: (As declarações de Pedro Passos Coelho sobre a situação económica do país nas contas de Nicolau Santos). 

A oportunidade do momento não é mera coincidência e enquadra-se nas actuais mudanças de liderança na União Europeia, marcadas pelo regresso dos defensores do discurso “austoritário” e pelos rostos da Troika.

Já percebemos que Passos Coelho espreita uma nova oportunidade para voltar ao poder, esperando apenas um grande desastre da Direita nas próximas legislativas para aparecer como “salvador”.

Também já percebemos que, com Passos Coelho, só podemos esperar mais do mesmo, e , pelo menos, estas esporádicas e cirúrgicas aparições públicas de tal criatura servem para ficarmos a saber o que podemos esperar dele e dos seus amigos do Fórum para a Competitividade, se algum dia voltarem ao poder (Lagarto!Lagarto!Lagarto!!!!)….

Afinal o tal Diabo tem um rosto...o de Passos Coelho!

quinta-feira, 13 de junho de 2019

Regionalização, o pilar que falta para consolidar a democracia.

Áreas Metropolitanas, CCR’S, Círculos Eleitorais, Distritos, , Regiões de Saúde, Regiões Educativas, Associações de Intermunicípios, Nut’s, Círculos Judiciais, Comarcas…

…de facto, a regionalização existe no papel e na prática, sem esquecer as grandes regiões “Históricas” (Minho, Douro, Trás-os-Montes, Beiras, Ribatejo, Extremadura, Alentejo, Algarve, Açores e Madeira).
O problema é que tais “regiões” não coincidem geograficamente entre si, vivem de costas voltadas umas para as outras, e praticamente sem controlo democrático.

Parece que a regionalização volta a estar na ordem do dia e, tal como tudo, regionalizar o país tem prós e contras.

Foi um erro (ou, pior ainda, um crime e uma cobardia) muito grande não se ter feito a regionalização de Portugal há uns vinte ou trinta anos.

Muitos dos nossos desequilíbrios, como a quebra demográfica, o envelhecimento da populacional, as desigualdades socias e o abandono do interior (factos que, conjuntamente com as alterações climatéricas, se conjugaram para provocar a tragédia dos incêndios de há dois anos), tem origem no facto de não se ter avançado para a regionalização.

Não tendo acontecido, cresceram anarquicamente as várias “regiões” acima mencionadas, com custos acrescidos pela falta de coordenação e falta de coincidência geográfica entre elas e sem qualquer controle democrático.

Uma regionalização que fizesse coincidir geográfica e administrativamente todas aquelas “regiõezinhas” no mesmo espaço tinha contribuído para uma maior eficácia de recursos, um maior desenvolvimento social e económico e uma maior aproximação aos cidadãos, desburocratizando e democratizando o acesso aos respectivos serviços e às respectivas funções.

Argumenta-se que o país é demasiado pequeno para a regionalização.

Mas então assuma-se a centralidade e macrocefalia baseada em Lisboa e, num plano mais restrito, no Porto e…que o resto do país é paisagem. E, neste caso, acabem-se com todos aqueles organismos e assuma-se que “todo o poder” ( e responsabilidade) deve caber aos Ministérios sedeados em Lisboa.
Dizem também….mas “já existem os municípios”! Só que estes, excluindo mais uma vez Lisboa e Porto, não têm poder económico para assumir os serviços básicos necessários aos cidadãos e têm peso politico e demográfico muito diverso.

Concordo que não se possa pensar na regionalização seguindo o modelo espanhol, onde existem de facto grandes diferenças culturais e históricas, que não existem entre as regiões de Portugal.
Nem me parece que se possa pensar em regiões como os Açores ou a Madeira, com governo próprio e parlamento.

Mas parece-me que tem de se criar um organismo intermédio, entre o município, pequenos de mais para um eficaz desenvolvimento regional, e o governo central, distante de mais das realidades do interior.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

“Crescimento”



É a palavra mais usada por políticos e economistas.

É de tal modo uma palavra “mágica” que existe um exército de técnicos e de instituições só para o estudar e o prever.

Interrogo-me muitas vezes se “crescer” em termos económicos e em quantidade é mesmo o grande objectivo civilizacional da humanidade, uma justificação para um desordenado crescimento do consumo que alimenta a máquina “capitalista”, onde somos alegremente triturados.

Pergunto-me também se é possível continuar a “crescer” sem destruir definitivamente, não só os equilíbrios sociais, como, e principalmente, o ambiente e a natureza.

Para mim “crescer” pode ser aceitável se tiver como objectivo melhorar a nossa saúde, a nossa educação, a nossa compreensão dos outros e do mundo, a nossa cultura e o nosso conhecimento, combater as desigualdades, melhorar as nossas condições de vida e, principalmente, acentuar o urgente e necessário equilíbrio entre nós e o ambiente natural que nos rodeia.

Ora, não me parece que seja isso que está na base do uso conceito de “crescimento” saído da boca e da pena de economistas, políticos e comentadores , conceito usado apenas para defender os apelos cada vez mais selvagens ao consumo desenfreado (tão comum nesta descaracterizada época “natalícia”), para o saque descontrolado de recursos naturais, e para acentuar desigualdades socias, desrespeito todas as formas de vida humana ou animal que não se enquadrem no modelo económico neoliberal.

E assim, em contínuo “crescimento” cá vamos alegremente caminhando e consumindo para o  abismo ambiental e civilizacional...

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

As “previsões” do Banco de Portugal…e outras!



O mundo económico e financeiro vive hoje de previsões.

Ditas “científicas”, é com base nessas previsões que se tomam decisões de gestão e programação.

Até qui, nada a reparar, a não ser que, verdade de La Palice, previsões são previsões e um bom gestor ou um bom economista, servindo-se delas, não as encara como uma verdade absoluta e tem em consideração a sua própria experiência e uma dose de perspicácia e bom senso.

O problema é quando essas “previsões” servem de desculpa para tomada de decisões politicas de efeito estrutural ou como arma de arremesso de propaganda politica e ideológica, que é o que se vê, cada vez mais, por essa Europa fora, com os resultados conhecidos.

E aqui entram os “comentadeiros” do costume, sempre cheios de certezas, ainda maiores se servidas por bem elaborados gráficos estatísticos com base nas ditas “previsões” de instituições “credíveis”.

Sempre ouvi dizer que uma estatística “bem torturada” dá sempre o resultado que pretendemos.

Não deixa de ser curioso que a maior parte de tão “credíveis” instituições não conseguiram prever a crise financeira de 2008 nem, por cá, a situação da banca portuguesa que levou à falência fraudulenta de alguns desses bancos e à intervenção “salvadora” nos que sobreviveram, à`custa do bem estra de todos os cidadãos.

E, porque uma previsão é…uma previsão, ainda menos se entende o desvarios dos “comentadeiros” quando o Banco de Portugal faz uma previsão diferente da do governo em….2 décimas!!!!

Uma previsão, porque é uma previsão, tem sempre uma margem de erro.

Uma coisa é falarmos numa diferença de um ou dois dígitos…outra é falar em diferença de décimos ou milésimos.

E outra coisa é falarmos em “previsões”, outra de dados reais e definitivos.

É como aqueles  “comentadeiros” em noite eleitoral que, principalmente quando isso lhes convém ideológica e politicamente, passam a noite a comentar sondagens à boca das urnas, mesmo quando já se começam a conhecer resultados reais e  definitivos, que muitas vezes desmentem ou se afastam significativamente do resultado de tais sondagens…

Penso que, assim como se paga, e bem, a instituições para fazer previsões financeiras e económicas, se devia penalizar fortemente essas instituições pelos erros de previsão, pelo menos quando esses erros justificam medidas politico/ideológicas que têm repercussão negativa na vida das pessoas.

Também devia existir uma entidade independente que comparasse as previsões feitas por essas instituições com os resultados reais, classificando-as de acordo com a sua credibilidade.

Talvez, assim, as “previsões” deixassem de ser arma de arremesso ideológico ou politico e fossem, na sua maioria, encaradas como a quilo que muitas vezes são, simples actos de …bruxaria!

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Ecologia, transportes, Macron e ..."cavaquismo"!



Aparentemente, nada tem a haver com nada e tudo tem a haver com tudo!

Mas, hoje em França, Ecologia, Transportes e Macron tem tudo a haver com tudo!

Vamos por partes:

Em 1976 foi editado em Portugal o livro “Ecologia e politica” de  Michel Bosquet, hoje considerado precursor na defesa da ecologia.

O que retive da leitura desse livro, mais ou menos por essa altura, foi a sua denuncia do papel das grandes empresas petrolíferas no agravamento das condições de vida das populações, quer nos territórios de onde o ouro negro era extraído, principalmente no Médio Oriente, quer no agravamento das condições ambientais a nível global, pela promoção do transporte automóvel movido com derivados do petróleo.

Já então, os piores conflitos mundiais e as piores situações de miséria estavam associadas aos interesses financeiro e económicos ligados ao petróleo e ao sector energético.

Infelizmente, o tempo mostrou que, por um lado Bosquet tinha razão, por outros toda a geração de políticos que governaram o mundo nas décadas seguintes pouco se preocupou com a questão, ou revelou apenas uma preocupação retórica.

O neoliberalismo, que se tornou dominante como prática e pensamento económico a partir dos anos 80, agravou a situação, gerando a ilusão de um capitalismo popular, com convite a que se usufruísse do transporte individual em detrimento do transporte público.

Quem não caiu nessa armadilha que atire a primeira pedra.

Hoje, quando já começa a ser tarde para alterar o desastre ambiental para onde caminhamos, a situação agrava-se, com o mundo governado por políticos cada vez mais incompetentes e com a chegada ao poder, nos países decisivos para o ambiente, de ignorantes e arrogantes que põem em causa, não só o que os cientistas dizem sobre o clima, como o que os cidadãos já começam a percepcionar, no seu dia a dia, sobre o agravamento das condições de sobrevivência.

Em Portugal, o paradigma desse capitalismo popular, que levou os cidadãos a investir nos transportes privados em detrimento dos transportes público foi o chamado “cavaquismo”, que contaminou toda a população e toda a classe politica, promovendo a idéia de um enriquecimento rápido, à custa dos fundos europeus e da corrupção politica generalizada, à custa de grandes obras públicas que promoviam o uso do automóvel em detrimento do comboio e do transporte público.

Aliás, promoveu-se igualmente a idéia que o transporte público e o comboio era coisa de gente pobre e atrasada, de gente que não tinha aproveitado as “oportunidades” e que não era “competitiva” ou “empreendedora” e o uso do automóvel passou a ser uma questão de estatuto social e exibição.

Com isso agravaram-se as contas públicas, com a importação em massa de automóveis (beneficiando alemães e franceses) e  com o aumento da nossa dependência energética face aos grandes interesse petrolíferos que geraram esquemas de corrupção politica em larga escala, com ligações suspeitas a grupos angolanos, brasileiros e venezuelanos, situação ainda hoje mal esclarecida.

Hoje percebe-se que destruir, não só o sector produtivo nacional em nome dos fundos europeus e dos interesses financeiros dos países que dominam a Europa (França e Alemanha), mas também todo o sector de transportes públicos, em especial o ferroviário, foi um erro catastrófico, quer do ponto de vista ambiental, quer do ponto de vista financeiro, que vamos pagar durante décadas.

A aposta nos transportes públicos, mais eficientes do ponto de vista energético, ambiental, económico e em rapidez, é a única com futuro na Europa.

Alguns países já perceberam isso e investiram em força no TGV e nas energias alternativas para o transporte automóvel.

Anuncia-se, por exemplo, que o Luxemburgo vai tornar gratuito o transporte público.

Infelizmente, as medidas radicais na área dos transportes que são necessárias tomar para travar o desastre ambiental, pecam por tardias e por falta de alternativas credíveis.

Depois de décadas a empurrar os cidadãos para o uso do transporte individual, agora é difícil convencer esses mesmos cidadãos a mudar de rumo.

Para os convencer era necessário tomar as decisões há muito tempo adiadas, como a radical substituição da gasolina e do gasóleo por energias limpas, situação que é tecnicamente viável, mas que tem sido travada pelos grandes interesses da industria automóvel e, principalmente, da industria petrolífera, ou a criação de uma rede de transportes públicos viáveis, capaz até de concorrer com o transporte aeronáutico.

Foi isso que, atabalhoadamente, Macron tentou fazer em França, aumentando os impostos sobre o gasóleo e o uso do automóvel, mas esquecendo-se de antes, por um lado criar alternativas viáveis, como, por exemplo, a que vai ser seguida no Luxemburgo, e, por outro lado, saber fazer pedagogia em defesa do ambiente.

Ao lançar um fósforo ( o aumento do imposto sobre o gasóleo) sobre a “gasolina” ( o descontentamento crescente pelas suas medidas antissociais para agradar ao sector financeiro que domina em Bruxelas) Macron, não só comprometeu o seu futuro politico ( e provavelmente o da Europa), como “queimou” uma medida justa, que é a de limitar o uso do transporte privado e dos derivados do petróleo.

Aliás, Macron só cedeu naquilo em que não podia ceder, o imposto sobre energias poluentes, e com isso já perdeu.

Os políticos e o sector financeiro podem adiar decisões urgentes, mas o ambiente não vai esperar.

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Holocausto Ambiental.



Foi o mais recente e último aviso.


Havia uma velha máxima índia segundo a qual todos “herdamos as terras dos…NOSSOS FILHO!”.

Ou seja, para quem não percebeu ( e as redes sociais estão cada vez mais cheias de gente que, ou não percebe ou não quer perceber), temos a responsabilidade de “devolver” a Terra às gerações futuras com qualidade para eles poderem viver em paz e harmonia.

Infelizmente não é isso que temos feito nos últimos tempos.

Temo que, mais uma vez, como tem vindo a acontecer há décadas, os avisos só sejam escutados quando for tarde de mais ou alguma catástrofe nos atinja pessoalmente.

Da actual classe politica e económica  que governa o mundo nada ou pouco podemos esperar.

Leiam-se as opiniões e atitudes de Trump, que preside à nação que é a maior poluidora do mundo.

No Brasil, uma das maiores economias do mundo, vamos ter, ao que tudo indica, um presidente que tem, como principal tarefa do seu programa, acabar com a protecção ambiental e entregar a Amazónia aos madeireiros e criadores de gado, ameaçando os índios que a habitam e a preservam, e o próprio mundo, pois a Amazónia é um dos últimos pulmões do nosso planeta.

A África está a ser vendida aos interesses chineses que prometem continuar o trabalho de destruição ambiental desse continente iniciado pelas grandes multinacionais ocidentais.

Na maioria dos países asiáticos e na Rússia, a economia está entregue às industrias poluidoras.

No ocidente, os interesses financeiros da industria automóvel ,da  petrolífera, da criação de gado e da extração mineira, mandam mais do que a vontade dos ambientalistas.

O cumprimento das decisões do tratado de Paris não tem passado de mera retórica folclóricas.

Infelizmente, a defesa do ambiente não é compatível com o modelo económico dominado pelo capitalismo selvagem e pelo neoliberalismo.

Quando, em termos mais locais, vemos tanto afã em derrubar árvores, criticar medidas que visam afastar o automóvel dos centros históricos ou urbanizar nas poucas zonas florestais que restam, sem se melhorar o sistema se transportes públicos ou a preservação dos ambientes naturais (veja-se o caso recente do "aeroporto do Montijo" ou do porto de Setúbal), então a esperança de escaparmos à catástrofe é cada vez menor.

Um dia, se ainda houver humanos, quando se fizer a história deste principio de século, os causadores do anunciado e cada vez mais provável holocausto ambiental para onde nos conduzem irão figurar ao lado dos grandes criminosos do século XX, como Hitler ou Stalin.

Até lá, a cada um de nós só nos resta remar contra a maré, à espera que o bom senso ainda nos possa salvar. 

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

WebSummit em Portugal por dez anos…e por 110 milhões de euros!



Se fizerem um inquérito a administradores e grandes accionistas dos bancos, mais aos grandes empresários e aos grandes accionistas dessas empresas e aos participantes do WebSummit, perguntando-lhes se defendem uma maior intervenção do Estado na economia, de certeza que 90% ou mais dos inquiridos vão responder com um rotundo não.

Pela minha parte, privado é privado, público é publico e só aceito que os meus impostos sejam colocados ao serviço das actividades sociais a que um Estado se obriga, como a segurança, a educação, a saúde, a justiça, os transportes, a habitação,  e o funcionamento da democracia, para além de medidas de combate à pobreza e às desigualdades, embora aceite que possam ser partilhadas, com condições bem definida, por privados.

Penso também que, quanto muito, as empresas e iniciativas privadas só podem exigir do Estado que tome medidas para incentivar as empresas através de uma justiça e de uma legislação que lhes desburocratize a  actividade, crie medidas fiscais que incentivem as actividades essências à economia de um país e que garanta um bom sistema de transportes.

Infelizmente não é isso que tem acontecido.

Ainda recentemente vimos,em Portugal, mas também uma pouco por toda a Europa, como os cidadãos e os Estados, através dos impostos destes, da desvalorização do factor trabalho e da retirada de direitos aos cidadão, foram obrigados a salvar bancos e empresas privadas.

Agora anuncia-se que, mais uma vez, o Estado vai garantir a realização de um evento privado a um custo exorbitante, o qual se tem de juntar todos os custos que o sector público tem de garantir durante a realização do evento (policiamento, manutenção dos espaços, saneamento, etc., etc.) cujo retorno não está provado que venha a cobrir aqueles valores exorbitantes.

Anuncia-se ainda, acrescentando àquele custo, uma discutível intervenção urbanística num espaço já de si superlotado e cada vez mais descaracterizado (e sujo!).

Quando o WebSummit saiu de Dublin,  custava àquela cidade cerca de 700 mil euros por ano.A sua saída de Dublin nenhum impacto teve no desenvolvimento tecnológico da Irlanda. Antes pelo contrário, desde então Dublin e a Irlanda  viram o seu estatuto de paraíso da tecnologia crescer imenso.

Munique não ofereceu mais de 850 euros para atrair para essa cidade o evento.

Só Barcelona ofereceu mais do que Lisboa, levando-nos a  desconfiar da razão pela qual os realizadores daquele evento escolheram “perder” 6 milhões por ano vindo para Lisboa.

Talvez porque, rompendo com o normal do contrato, realizado a três anos, Lisboa tenha proposto um contrato a …10 anos!...e outras contrapartidas, uma delas, a única conhecida, o investimento no espaço do evento pago pelo Estado.

Em dez anos muita coisa acontece, não só na economia mas principalmente numa área como a tecnologias de informação, por isso a WebSummit, dominada por administradores que defendem uma redução do Estado na economia, têm o seu futuro garantido…à custa do Estado português!

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

CP : “crime” ou “desastre”?



O descalabro do transporte ferroviário em Portugal foi um dos temas em destaque este verão.

Que alguns só agora tenham acordado para o tema, não é mera coincidência.

Uns procuram esconder as suas responsabilidades politicas no desastre (como os cavaquistas e o CDS, com “agentes” seus nas sucessivas administrações da “coisa”).Outros, ao serviço do poder financeiro, como acontece com muitos jornalistas e comentadores, só agora se lembraram de uma triste realidade, que vem de longe.

Com raras e honrosas excepções (como a do jornalista do Público Carlos Cipriano que há longos anos denuncia a situação), esta é a sua forma de prestar o seu “servicinho” para justificar a anunciada privatização dos serviços ligados à CP.

Pode ser que ganhem um lugar de assessores de comunicação numa das “futuras” empresas privadas que se acotovelam para tomar de assalto a gestão dos transportes ferroviários (ficando o lucro para eles e os custos para os contribuintes e utentes, como tem sido prática nesta coisa das privatizações...).

O “crime” e o “desastre” da CP não é de agora. Vem de muito longe.

Pessoalmente, fui durante muitos anos utente regular da CP na linha do Oeste.

Ainda sou do tempo dos horários regulares e dos intercidades, que nos punham, aqui de Torres Vedras, a cerca de 1 hora do centro de Lisboa, quando a maior parte dos comboios terminavam o seu percurso no Rossio (hoje, com autoestrada e de automóvel, raramente alguém consegue chegar ao Rossio uma hora depois de sair de Torres, sem esquecer os gastos com portagens, gasolina e estacionamento…).

Fui assistindo, ao longo do tempo, à longa agonia da linha do Oeste e dos transportes ferroviários em geral, situação que se acentuou com a entrada de “fundos europeus” em barda e das autoestradas cavaquistas.

Ao mesmo tempo a empresa foi sendo dividida às fatias, criando-se várias empresas, uma para o transporte de passageiros, outra para a manutenção das linhas, outa para o transporte de mercadorias, etc, etc...Apenas se beneficiou o aumento de lugares nas administrações para os vários "boys"...

Resisti quase até à ultima, mas o fim das ligações directas com o centro de Lisboa, a redução do número de combóis em circulação e os horários cada vez mais absurdos, acabaram por me “empurrar” para a carta de condução, que tirei já depois dos 40 anos.

Toda a estratégia cavaquista de desinvestir nos transportes públicos visou apenas beneficiar os patrões de Paris e Berlim, os únicos a beneficiar pelo facto de terem quase o monopólio da industria automóvel na Europa. Outro dos grandes beneficiados foi o sector petrolífero, hoje cada vez mais enredado nos mais obscuros negócios financeiros e centro de emprego para ex-governantes. Muito do nosso deficit e da nossa divida tem origem nessa opção.

Tudo isto, claro, em nome de uma pretensa “modernização” do país. Ainda me lembro da argumentação de comentadores, políticos e economistas: o “comboio” era coisa do passado, de países subdesenvolvidos.

Muitos portugueses engoliram essa retórica. Eu próprio quase acreditei nessa mentira e só percebi o logro quando comecei a viajar mais vezes para fora do país, inclusive no “centro” da Europa. 

Aí descobri que o comboio é um meio de transporte muito popular, pelo preço, pelo conforto, pela rapidez, pela frequência e pelos horários, com ligações para quase todo o lado.

Hoje começa a ser evidente, até pelas razões ambientais, que o transporte automóvel, pelo menos como o conhecemos, está condenado a prazo.

Por outro lado, estamos também a perder o “comboio” do TGV, que neste momento se torna um concorrente sério à aviação, outro meio de transporte condenado a prazo, também por razões ambientais e até pelo aumento de tempo que se perde nos aeroportos e nas ligações.

Claro que o país não precisava de tanto TGV como se chegou a aventar. Bastava uma boa ligação de TGV entre Lisboa/Sines e Badajoz e entre o Porto e Vigo, melhorando os serviços do alfa pendular entre Lisboa e Porto.

É inconcebível que, tal como há 50 anos, a ligação ferroviária entre Lisboa e Madrid e Lisboa e Paris tenha o mesmo horário e se faça à mesma velocidade.

A aposta até teria custos reduzidos, já que era possível aproveitas o trabalho feito pelos homens do século XIX, que construíram as vias existentes , sendo possível, com as tecnologias de hoje, recupera-las rapidamente. E já agora, até podiam recuperar a industria de construção ferroviária (já tivemos industria que fabricava carruagens e maquinas de comboios, tudo destruído na voragem cavaquista…).

Para as mentalidade “ahistóricas”, e “presentistas” que dominam os nosso economistas, os nossos políticos e os nossos jornalistas, não me parece que seja credível que, de uma vez por todas, apostem forte no  investimento nos transporte públicos, e, em especial, nos transportes  ferroviários.

Assim, o “crime” e o “desastre” está cada vez mais à vista com a privatização da CP, mais uma negociata para alguns, com custos a prazo para todos nós e para os nossos filhos!

Esperemos que o que resta de "cidadania" não se tenha esgotado nos "futebois" e ainda se tenha força para travar o desastre, obrigando a que se aposte, de forma séria, no transporte ferroviário. 

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

O Respigo da Semana:Raquel Varela, a Padaria Portuguesa e o Salário Mínimo :


Raquel Varela, a Padaria Portuguesa e o Salário Mínimo :
por Raquel Varela:

“Curtas notas minhas sobre esta polémica da Padaria Portuguesa, que merecia claro mais desenvolvimentos:

“ 1) os patrões não pagam salários, quem paga salários é o trabalho dos trabalhadores - uma parte do que fazem paga o seu salário, a outra fica com o patrão. Ao fim do dia um trabalhador produz 20, entrega ao patrão, que lhe devolve 3 ou 4 - é isso o salário.

“ 2) as pequenas empresas neste país vivem asfixiadas, mas isso não pode ser despejado nas costas de quem trabalha

“ 3) o salário mínimo quando foi criado correspondia a um cálculo médio dos gastos de reprodução dos trabalhadores e suas famílias (casa, roupa, alimentação, etc) - hoje ele não cobre o mínimo

“ 4) o salário médio é que é de facto o salário mínimo - 900 a 1000 euros

“ 5) quem paga o salário real dos empresários que pagam o salário mínimo são os contribuintes portugueses através da Assistência Social

“ 6) A taxa de portugueses a trabalhar a tempo inteiro sem conseguir pagar as contas regulares - excluo dividas - já é superior a 10%.

 “7) É urgente fazer-se um cálculo do que é hoje o verdadeiro salário mínimo. Talvez fosse uma boa ideia os sindicatos juntarem-se, como no Brasil, e encomendar este estudo - no Brasil chama-se Salário Mínimo Necessário.

“ 8) há um projecto interessante do meu colega Professor Pereirinha, do ISEG, que há anos estuda o que chama de Rendimento Adequado.

 “9) o país tem que debater a sério com quem conhece a realidade laboral quais são todas as consequências de ter um salário mínimo actual abaixo da reprodução biológica - estudei o seu impacto nas relações laborais e na segurança social - é devastador, ao contrário do que se diz e insiste, não temos qualquer problema de sustentabilidade da segurança social por causa do envelhecimento, temos sim, um enorme problema da sustentabilidade desta por causa dos baixos salários.

 “10) Portuguesa é a minha padaria, tem 8 metros quadrados, mãe e filha, duas minhotas, uma delas regressada da África do Sul, tem pão de alfarroba, batata doce, erva doce, milho, noz, passas; estão afogadas em impostos, inspecções, pressões. Distribuem delicadeza e sorrisos no bairro. Não é uma cadeia, toda igual, com empregados stressados e exaustos que nem nos olham para a face.

“ Aqui as contas da produtividade e do salário mínimo. Para ser mais exacta se tivesse incorporado o aumento da produtividade seria hoje de 1329 euros.

“ São estudos do Eugénio Rosa, que apesar da ligação com a CGTP e desta com o PC e do PC com o Governo, tem mantido, o economista agora doutorado pelo ISEG, desde a tomada de posse deste governo, uma seriedade assinalável. Criticando e explicando em números o impacto negativo das medidas deste Governo nos trabalhadores, entre elas o aumento dos impostos; que a maioria dos pensionistas não teve aumentos; que a maioria dos assalariados perdeu capacidade de consumo; que o salário mínimo está a alargar-se a um conjunto cada vez maior de trabalhadores. Assim se faz um intelectual sério - defendendo ideias estudadas e demonstradas e não governos, sejam de cor forem.(www.eugeniorosa.com e    eugeniorosa.com)”

Raquel Varela , post no facebook, 29 de Janeiro de 2017
(para um melhor enquadramento do texto, vejam AQUI).

 

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

UBER Versus TÁXIS : quando a poeira começa a assentar...


Bruno Nogueira, na sua crónica de ontem,o "Mata-Bicho", na Antena 1, com humor, consegue desmontar muitos dos argumentos usados para denegrir os taxistas e para endeusar a UBER, sem deixar de desmascarar aqueles, Antral e alguns taxistas boçais, que muito têm contribuído para desacreditar a luta justa dos taxistas.

Agora, que as coisas começam a acalmar e a poeira que a comunicação social nos atirou aos olhos , com o contributo da Antral e de alguns taxistas javardos,  começa a assentar, podemos também começar a perceber melhor o que é que está em causa neste processo todo, lendo, por exemplo, a crónica de ontem, no Público, de Rui Tavares, que nos alerta para "A Terceira Metade da História".

Também hoje um universitário especialista em transportes urbanos, Michel Ferreira,  explica AQUI a onde nos pode conduzir a "uberização"  da sociedade.
 
Nem a Uber é o "santinho" modernaço imposto pelos "novos tempos" da globalização, nem os taxistas são a caricatura que, também por culpa própria de alguns de entre eles, nos querem impingir.
 
Apesar do tiro no pé da algumas atitudes condenáveis de alguns taxistas e  da forma como a Antral tem conduzido o processo, no essencial a luta dos taxistas é justa.